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Eventos como a "Web Summit" são, para mim, uma mais-valia para Portugal. São bons para a própria marca "Portugal", para o turismo e todos os seus actores e acima de tudo animam uma cidade que não deixa de ser uma das mais belas do Mundo. Com tantas criticas à mesma, seria interessante perceber os custos vs retorno desta face ao tão aplaudido Festival Eurovisão da Canção, por exemplo.

 

Discutir tecnologia é hoje fundamental. Não tenhamos dúvidas que o futuro passa por aqui e é importante desmistificar (contra a vontade de alguns) que não estamos perante nenhum "bicho de sete cabeças". Todavia, reconheço, que todos estes eventos (salvo algumas situações) são um mero encontro de profissionais e cujo retorno é sempre difícil de quantificar. Políticos e organizadores atiram números de milhões para o ar, mas na realidade, nunca temos contas certas, e neste campo, o Estado é responsável até porque financia, também com milhões, este evento. Eu sei que é aborrecido estragar a festa, mas quem já trabalhou com americanos, alemães e outras tantas nacionalidades sabe que o discurso é sempre interessante, mas os números têm de aparecer no papel e no terreno! Podemos falar de consumos de copos de água e cafés, do número de audiovisuais e afins, mas o que queremos são mesmo os números e os resultados concretos.

 

A "Web Summit", mais que um evento com resultados, é marketing e networking. Do ponto de vista do marketing é positivo, como também é necessário dar imagem ao mercado, ou não fosse a organização especialista em transmitir a ideia às organizações (sobretudo startups) que são convidadas e especiais, mas depois têm de pagar cerca de €1.500 para serem efectivamente tão especiais e dignas de convite. Do ponto de vista do networking também, todavia o foco nesta questão (apontada pela maioria como o ponto fundamental do evento) tira protagonismo à discussão de temas relevantes e ao desenvolvimento de estratégias para o futuro.

 

É neste sentido que, na "Web Summit", ficou também por esclarecer, apesar de ter sido abordado, como é que o mundo se vai preparar para toda esta revolução na robótica e que inclui a Inteligência Artificial (IA). Quais serão os reais impactes nas pessoas, nos negócios e nos países menos desenvolvidos? Eu sei que estamos perante um encontro na área das tecnologias da informação, mas não falar das pessoas... Como é que vamos conviver com este futuro que, para muitos, é visto com optimismo e para outros com grande pessimismo, enquanto a grande maioria não pensa nisso enquanto se diverte a brincar com o cão robot e não tem paciência para um cão de carne e osso. Interessante os risos e a satisfação quando um robot se vira para os humanos e lhes diz que o emprego destes tem os dias contados mas não lhes oferece uma solução... Mas a maioria aplaude. Aplaude até não ter emprego e passar a ser a personagem de um romance-catástrofe.

 

Não sou contra a IA, no entanto, defendo que esta merece uma grande discussão! Não só ao nível da ética mas também das consequências positivas e negativas que trará e, como já referi num outro artigo, comparar esta revolução com a primeira Revolução Industrial é no mínimo patético e revela um total desconhecimento do passado e do presente. Como é que enquadramos esta realidade nos desafios do presente e do futuro? Aqui, estamos perante um enorme  buraco negro em que ninguém arrisca entrar e já nem vamos falar da quase ausência da questão da responsabilidade social - não chega ter Al Gore a lançar desafios... É preciso agarrá-los. A lógica da sensibilização de cada um de nós tem limites, todavia, as mentalidades não se mudam somente com conselhos.

 

Fiquei também com a sensação que a "Web Summit" é um acontecimento político. À boa maneira portuguesa, a presença dos políticos do costume (Presidente da República - que até deixou a questão da água para segundo plano - e Primeiro Ministro incluídos) demonstra o ainda peso do Estado e a propaganda que grassa nestes meios. Até tivemos um presidente de câmara, Fernando Medina, que acompanhou todo o evento, mais parecia a "Web Medina", mas depois disse não ter conhecimento de um jantar no Panteão (um dos momentos altos da conferência), chegando mesmo a estar contra o mesmo.

 

Desta feita até foi bom, porque "apagou" a questão da legionella num hospital público, causando amnésia ao Presidente da República que encarou este facto como único, esquecendo o que aconteceu em Alverca em tempos recentes. Neste âmbito, também foi interessante assistir à presença de João Vasconcelos (ex Secretário de Estado da Indústria) como se ainda ocupasse um cargo de Estado (estando presente inclusive em alguns dos certames oficiais e diplomáticos) após ter sido demitido, perdão, se ter demitido devido ao escândalo com as viagens pagas pela GALP e cujo inquérito ainda decorre. Pelo campanha de comunicação em torno deste indivíduo, então no LinkedIn e em alguns "media" é bem latente que ter saído do Governo foi a melhor coisa que lhe poderia ter acontecido. José Régio escreveu "Há Mais Mundos", eu escreveria "Há Mais Isaltinos".

 

Mais uma vez, passou-se a imagem que Portugal é Lisboa... Tirando um evento de surf na Ericeira, num país pequeno como o nosso não ficaria mal alargar o âmbito da conferência. Contudo, a ideia com que fiquei, e aqui baseio o meu relato somente naquilo que vou ouvindo, é que a "Web Summit" é uma coisa, os portugueses são outra... O português comum é totalmente arredado deste evento não só por falta de informação concreta, bem como pela apresentação dos resultados... Volta a questão do empowerment e da crónica estupidez nacional de não gostar muito de passar a informação toda capacitando assim os outros. Em muitos com quem falei, encontrei a ideia de que a "Web Summit" é um evento elitista, quando não o deveria ser, e muito menos me parece que seja essa a ideia de Paddy Cosgrave. Na verdade, não é por andarmos de t-shirt e calças de ganga que a nossa mentalidade se torna mais cool ou moderna. Não é por se trocar o fato, a gravata e o golfe, por um polo, umas sapatilhas e surf que deixamos de ser aquele executivo labrego e nos transformamos no mais atractivo CEO do mundo.

 

Finalmente, algumas provocações: no país da tecnologia, não é de estranhar que durante os incêndios esta tenha falhado redondamente? No país da tencologia, não é de estranhar que muitas das inovações portuguesas (inclusive na área dos incêndios) não tenham a devida projecção? No país da tecnologia ainda discutimos jantares no Panteão nacional como se a nossa independência estivesse em causa e esquecemos o que realmente tem travado o nosso desenvolvimento? No país da tecnologia, porque é que ainda continuamos com uma mentalidade obsoleta? Porque a tecnologia altera hábitos mas não muda mentalidades.

 

Esperemos por 2018 e finalmente por bons resultados... Porque também isso leva o seu tempo e em relação à "Web Summit" quero continuar optimista. Venha a próxima edição...

 

Uma nota: ainda a propósito do famoso jantar, pede-se aos humoristas nacionais (muitos deles tão inteligentes que julgam viver num universo acima daqueles que ainda os sustentam)  que tenham em atenção o facto de personalidades como Camões, Vasco da Gama, D. Nuno Álvares Pereira, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e o Infante D. Henrique (destes quatro últimos nem ninguém se lembrou) não se encontrarem sepultados no Panteão. Na Igreja de Santa Engrácia encontram-se somente os cenotáfios destes. No país da tecnologia e de gente que domina a praça pública e se diz tão evoluída já deveriam saber isso...

 

 

 

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61 comentários

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De Robinson Kanes a 14.11.2017 às 20:52

Tens razão... Embora algumas até seja bom que não estejam... No caso da IA esse poderá ser um dos riscos...

Mas olha que há tecnologia (gadgets) a preços bastante elevados e não é por isso que ficam na montra :-)
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De HD a 14.11.2017 às 20:57

Agora... deixaste-me sem argumentos! :-)

As mesmas pessoas que se queixam de falta de tecnologia prática e útil... são os primeiros a gastar um ordenados em IPhones... :s
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De Robinson Kanes a 14.11.2017 às 21:03

Isto é a velha história... Acha-se caro pagar 50 euros por um dentista, mas já não se acha caro pagar 2500 euros por uma TV. Acha-se absurdo que um psicólogo ou até um psiquiatra cobre 50 euros por uma hora de consulta que se reflectirá no nosso bem-estar a longo prazo, todavia já não se acha caro pedir um empréstimo para pagar um telemóvel de 600 euros. Pior, para o dentista e para os outros dois não há opção (ou há, é não ir) mas para as nossas escolhas em termos de "gadgets" existe sempre algo mais.

Cada um é livre de escolher, e isso não se discute... Não podemos é reclamar depois...

Agora se me disseres que um equipamento hospitalar podia ser mais acessível? Concordo, embora também reconheça que por detrás estão anos de I&D e toda uma equipa de profissionais altamente qualificados e, nesses casos, bem pagos.

Ainda no outro dia me diziam: os automóveis são caros! Só os custos que a indústria automóvel tem assustariam qualquer um e além disso pensem nos impostos a que os mesmos estão sujeitos. No fim, em algumas situações (não todas) até vamos é achar que o automóvel é barato :-)
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De HD a 14.11.2017 às 21:06

Mentalidades retrógradas... :\

Que resumo acertadíssimo da nossa realidade.
Identifico todas estas tristes situações... -.-
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De Robinson Kanes a 14.11.2017 às 21:10

A verdade é que estamos mal habituados... E agora acabámos a discutir cultura e pessoas... Interessante, quando o tema era tecnologia, aquilo que estamos a defender :-)
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De HD a 14.11.2017 às 21:11

Creio que apontamos a nossa bússola para o que não está em evolução e precisa urgentemente de uma global summit... :-)
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De Robinson Kanes a 14.11.2017 às 21:14

Têm que caminhar lado a lado, é inevitável para que as coisas sigam um caminho evolutivo, sustentável e ético.

Se reparares até tens algumas "global summits", todavia os resultados são parcos. Olha a questão do ambiente por exemplo? Depois tens o Fórum Económico Mundial e outros, mas no fim... E sejamos sinceros, o cidadão comum também não é lá muito participativo.
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De HD a 14.11.2017 às 22:12

Nem me fales na questão do ambiente... :|
Sim, o cidadão comum só se manifesta com likes e erros ortográficos :-)
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De Robinson Kanes a 14.11.2017 às 22:16

Prometo não falar no Acordo de Paris :-)

O "like" e o comentário são o "outsourcing" da cidadania.
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De HD a 14.11.2017 às 22:20

;)

Essa está mesmo de mestre... RH :-)
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De Robinson Kanes a 14.11.2017 às 22:23

Mestre de obras :-)
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De HD a 14.11.2017 às 22:26

Ainda por fazer ;p
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De Robinson Kanes a 14.11.2017 às 22:30

Agora é que disseste tudo, um "uppercut" e "KO" no Robinson!

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