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Web FLOP e Web Dolo...

por Robinson Kanes, em 03.12.20

800.jpg

Créditos:http://www.gplsalvador.org/site/noticias/page/11/

 

 

O céu é de todos e este mundo de quem mais apanha.

Raúl Brandão, in "A Farsa"

 

Em 2017 escrevi sobre a Web Summit, uma espécie de avaliação muito pessoal para o bem e para o mal. Acreditava no sucesso destes eventos, embora reconheça que os milhões investidos numa feira de vaidades dificilmente oferecem o retorno esperado, além de que, a época das feiras que trazem milhões em proveitos para vendedores e público já lá vai a não ser que queiramos comprar material militar. Atiram-se estimativas para o ar, dados pouco claros, mas nunca nada que seja certo. Ocupações hoteleiras, turismo, muitos jantares... Haverá uma estratégia a longo-prazo como existiu com a EXPO 98 e não queremos tornar público? Espero efectivamente que sim e sonho com o dia em que terei de me retratar.

 

A verdade é que a competição pela Web Summit foi abandonada por muitos países (todos com mais riqueza que Portugal) porque simplesmente o Sr. Cosgrave exigia milhões. Falamos de milhões que cidades como Barcelona, a título de exemplo, não estavam dispostas a pagar - um pouco na lógica daquelas propostas de patrocínio em que se vende a ideia de que o patrocinador vai pagar milhões a troco de notoriedade, não obstante, quando solicitamos números e resultados práticos os proponentes começam a falar do jogo do Benfica.

 

O senhor Cosgrave também é aquele tipo porreiro, visionário de um mundo melhor, mais tecnológico e menos capitalista. Um tipo porreiro que veste t-shirts e calças sem bainhas, mas não abdica dos impostos dos portugueses. O tipo porreiro e solidário que vende as camisolas da companheira a preço de ouro, tão dourado que nem as melhores casas de moda arriscam tanto na lógica do "rei vai nu". A malta fixe, solidária e visionária, adquiriu tudo, afinal quem é que não quer a camisola tradicional, fabricada por artesãs de Donegal (artesãs portuguesas é que não) e que valem até €850. Louboutin também fabrica lenços muito tradicionais mas paga menos de €10 a quem os fabrica, mesmo que cada um seja vendido aos preços que todos conhecem. Cosgrave está também à frente de uma organização cujo feedback nos sites de recrutamento deixa algo a desejar, mas não deixa de ser uma organização cool do estilo startup yeah yah.

 

No entanto, quando a nossa ideia não engana a malta evoluída, onde é que vamos? Vamos aos países pequenos mas que gostam de coisas à grande. Em Portugal, o poder político, encontrou na Web Summit uma forma de exaltação. Presidente de Câmara, Governo e Presidente da República foram os reis do palco e até ocultaram algumas das maiores figuras mundiais. Boa propaganda, para a entrada da política portuguesa na Era do (ultrapassado) headset de palco. Penso até que foi aí que Marcelo aprendeu a movimentar-se e a falar de beijos no telescola. Lembram-se dos filmes de Visconti onde naquelas terras empobrecidas do sul de Itália, se gastava tudo numa festa e no palanque estavam os representantes do regime? É mais ou menos isso...

 

Na verdade, a Web Summit não justifica o investimento público numa altura em que já se adivinhavam tempos difíceis. Um empreendimento desta monta, num evento cujos bilhetes não são acessíveis ao comum dos portugueses tem muito que se lhe diga. Alguns doam-se por mera caridade a alguns alunos... 11 milhões de euros por ano (no mínimo), não darão para atrair investimento tecnológico estrangeiro em Portugal e criar empregos especializados de longa-duração? E dirão alguns: mas a Web Summit traz potenciais investidores e dá visibilidade! Visibilidade? Vejam os resultados de 2019! A diferença entre o arraial das Bragadas na Póvoa de Santa Iria e o a Web Summit foi muito ténue... Investidores? Queremos mesmo trazer tecnológicas para Portugal? Queremos mesmo atrair para lá dos baixos salários? Façamos o seguinte e "não gastamos" um euro: reveja-se a política fiscal, a justiça, a burocracia do Estado e criem-se condições de crescimento para estas e para os seus colaboradores e já temos mais de metade do caminho feito. E porque não uma espreitadela à Irlanda que já não quer sustentar o senhor Paddy? Temos muito que aprender em termos de captação de investimento estrangeiro. Só espero é que os trabalhadores portugueses não o façam, caso contrário, amanhã o Palácio de Belém, o Palácio de São Bento e outros tantos símbolos deste nosso Portugal serão incendiados. A Web Summit será a plataforma de selfies que mais dinheiro custa ao erário público, logo depois do Presidente da República. 

 

Finalmente, o caso recente do "mega-evento" online, e o silêncio imposto em torno do mesmo (a oposição também lá tem o seu espaço cheio de nada), são de uma tremenda gravidade, mormente numa época em que os nossos impostos são necessários para a levantar um país completamente destruído pela epidemia. É uma vergonha entregarmos milhões ao Sr. Cosgrove por uma mão cheia de nada e não termos dinheiro para infraestruturas básicas ou andarmos a mendigar dinheiro na Europa... Mais uma vez, a poeira dos temas hype e o foco na pandemia varrem para debaixo do tapete mas uma clássica cuspidela à portuguesa, sobretudo na cara daqueles cidadãos que trabalham ou que estão impedidos de trabalhar.

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E se na Web Summit...

Houvesse uma Invasão de Vândalos e Faltasse a Água?

por Robinson Kanes, em 05.11.19

René Magritte - La Clef des Champs.jpg

René Magritte - La Clef des Champs (Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid)

Imagem: Robinson Kanes

 

O caminho para o inferno está pavimentado de racionalização.

Robert Sapolsky, in  "Comportamento"

 

Por estes dias andamos "todos" em festa com a "Web Summit", mesmo que, também por cá, seja uma minoria que saiba e se preocupe realmente com isso. O ruído em torno dá a ideia de uma mobilização em massa, nada mais errado. Contudo, é importante percebermos que a tecnologia está aí e veio para ficar, ignorar a mesma é ficar na Idade da Pedra.

 

No entanto, neste país desenvolvido, como seria se no grau máximo do desenvolvimento faltasse a água na "Web Summit"? Desde que não faltasse a internet acredito que muitos conseguiriam sobreviver meses sem água. Mas se faltasse? Se as torneiras secassem mesmo que um ministro afirmasse que havia água para toda a gente e perante provas cabais depois dissesse que afinal nem havia água? Se mesmo em frente o Tejo secasse, por exemplo? Só não nos preocupamos tanto com o Tejo porque em Lisboa temos o Atlântico e não parece existir redução de caudais...

 

Que manobras mediáticas e de comunicação faríamos para dizer que está tudo bem? Chamávamos o célebre Mário Lino para dizer que afinal também a margem norte da região de Lisboa é um deserto? Poderíamos contar com os ambientalistas do costume (Zero e outros.... Ambientalistas?), com os "Verdes" que estão podres nada fazerem, com o PAN que anda a ver se ninguém fala do silêncio deste depois do Estudo de Impacte Ambiental no Montijo e até do Bloco de Esquerda, o anti-capitalista que segue o PAN no Montijo, mas que entretanto é social-democrata apesar de gostar de uma festa bem regada com euros. O que fazer?

 

Também neste país desenvolvido parece que uma prática com anos tem vindo a ser descoberta porque existem pessoas que finalmente perceberam que a tecnologia não é uma feira de vaidades e também está ao serviço da população, sobretudo na divulgação de um país podre social e culturalmente.

 

Parece que as agressões a bombeiros e a vandalização de quartéis já é um hábito de norte a sul com especial incidência a sul, mas só agora chega aos ouvidos de todos (agora com a ocultação de raças, credos e crenças dos envolvidos)... Reina a impunidade neste país desenvolvido, onde se criou um "Fort Knox" para um evento privado, altamente subsidiado, não acessível a todos, pseudo-elitista (embora querem que pensemos que é mesmo de elite), sem envolvimento da comunidade, mas se permite que aqueles que salvam vidas apanhem no lombo perante a total ausência de punição e o silêncio ensurdecedor de autoridades locais, regionais e nacionais.

 

Vivemos num país demasiado evoluído, tão evoluído tecnologicamente que quem tem tecnologia de ponta (e passo a redundância) na ponta dos dedos ainda não tem liberdade, coragem e à vontade para ver que os caudais dos "seus" rios estão a secar e que reina para alguns indivíduos uma espécie de impunidade que ninguém consegue compreender. 

 

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