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De Yazd a Isfahan: Isfahan à noite...

por Robinson Kanes, em 06.04.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Yazd começa a ficar para trás... O tempo entristeceu-se com a nossa partida, ou talvez por termos trazido quase todos os bolos da cidade, conhecida pela sua pastelaria. No entanto, o fascínio da cidade e das suas gentes continua a ser a sua mais-valia e claro, bem perto, duas reservas naturais bastante interessantes: Kalmand e Dar-e-Anjir.

 

Talvez não perceba, ou não queira perceber, mas o ideal passaria por dar o salto até Isfahan e passar à frente dos quase 350 quilómetros que fazem distar esta metrópole persa de Yazd. Apetece-nos, contudo, percorrer nos nossos pensamentos aquela longa estrada onde durante muitos e muitos quilómetros de alcatrão onde não se vê uma alma ou sequer uma construção. Percorrer o deserto, e este não se faz propriamente de areia, pode ser uma sensação única - sobretudo se não conhecermos o clima e o tempo triste de Yazd não tiver sido uma premonição das duas tempestades de areia que se avizinhavam. Uma mais severa que a outra, mas nada que obrigasse a grandes paragens - ficámos rapidamente a perceber porque é que muitos dos camiões vinham com os "pirilampos" da frente ligados...

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Aproveitamos um check-point dos Guardas da Revolução para descansar... Perguntam-se, por certo, porque raio é que no meio de uma tempestade de areia, duas figuras com ar de cidade decidem percorrer o deserto como se nada se passasse. Terão pensado quão tolas poderiam ser aquelas almas que não tinham noção de que estavam num controlo dos Guardas da Revolução, a temida tropa de elite iraniana. Estranhamente, a despedida foi com sorrisos, como não poderia deixar de ser, sem esquecer as fotografias de Lisboa, mostradas entretanto.

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A chegada a Isfahan dá-se já pela noite... De repente parece que damos connosco no Mediterrâneo. As ruas povoadas de gente e até a relva dos cruzamentos se encontra ocupada por gente sentada em família a conviver e a comer. Isfahan tem o condão de ser talvez, no Irão, a cidade turística por excelência, mas ninguém pode esperar tal movimento nocturno. Pensávamos nós que em Shiraz já tinhamos visto tudo... 

isfahan_3.jpgAntes de jantar, seguimos alguns conselhos e percorremos as margens do Zayandeh com o intuito de sentir o "estranho" movimento de pessoas e também conhecer as suas pontes que, durante a noite, não perdem a animação que nasce logo pela manhã. Somos convidados para nos juntar a muitos daqueles que estão sentados a conviver e a comer, acompanhamos os pequenos grupos que se reunem para cantar e por lá ficamos entre o som da música persa, das águas que não cessam de correr e das gargalhadas e sorrisos que contaminam todo aquele lugar.

c_1.jpgApesar de tudo, ainda temos uma "larica" que nos faz querer encontrar um local para comer... E é aí que atravessamos, um pouco mais distantes do Zayandeh, uma das maiores praças do mundo e também uma das mais belas, a "Praça Naqsh-e Jahan". Mas ela voltaremos... Por ora, respiramos fundo, admiramos toda a sua excelência e ficamos absortos com tão mágico lugar.

iafhn_2.jpgA noite acaba num pequeno restaurante onde a culinária persa, pela mão de uma perna de cordeiro, mostra que, mais uma vez, é algo que levaremos sempre no coração e no paladar.

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Porquê? Ainda sobre as "fake news"...

por Robinson Kanes, em 25.03.20

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Fonte: https://www.americangrit.com/2018/07/25/challenges-wed-like-see-internet/

 

 

Um cérebro pode servir para fins bastante diferentes e a conquista do mundo é mais desejável que a sua ordem.

André Malraux, in "A Tentação do Ocidente".

 

Todos falam de "fake news", é tema corrente, mas à boa portuguesa (e não só) quando é altura de fazer alguma coisa continuam as vozes mas os braços tendem a não aparecer... Ou a serem cortados.

 

Foi preciso um indivíduo português estar em Inglaterra e acompanhar as notícias da sua pátria para denunciar uma das maiores escandaleiras dos media em Portugal. A história da liberdade de imprensa, que agora vai sendo chamada de liberdade de comunicação, vai-nos mostrando que "alguém" continua a ter mais liberdade que os demais. Até quem nos governa tem limites, inclusive num cenário de "Estado de Emergência", já alguns media... Um dia ainda vamos ver uma guerra a ter início por causa de um "jornalista" de trazer por casa se lembrar que afinal não estudou para relatar factos mas emitir opiniões e até criar esses mesmos factos, mas espera aí, isso até já...

 

Referi aqui também alguns exemplos de como se pisa o risco e não se recolhem as consequências, no entanto, uma estação de televisão (SIC) foi mais longe e mostrou uma Londres envolvida no caos por causa do "vírus chinês", como já é apelidado.

 

Ao vídeo, bastante actual (2011) atribuiu-se uma história rocambolesca e que não desculpabiliza a jornalista que o fez sair para a rua mas também não pode desculpabilizar um director de informação e todos aqueles que também são responsáveis pela informação do canal, inclusive o "pivot" que "lançou" a notícia como se de um filme de terror se tratasse. Podemos errar no vídeo, mas não  podemos errar na montagem que é feita em torno do mesmo, isso é ir longe, demasiado longe.

 

Também foi preciso que um indivíduo em Inglaterra, sim, em Inglaterra, viesse mostrar a falsidade desta notícia! Em Portugal passava, como passavam tantas outras e ninguém dava por nada. A prova de que bebemos tudo aquilo que nos colocam à frente sem sequer questionar ou pensar é assustadora e enquanto andamos todos galantemente a achar-nos muito esclarecidos e letrados, não passamos de um bando de ovelhas que procura a sua relva sem olhar ao essencial. Reclamamos e achamo-nos demasiado espertos quando uma chefia nos pede para fazer alguma coisa, por exemplo, mas digerimos tudo o resto com uma facilidade tremenda, daí serem sempre os mesmos com as mesmas mãos cheias de nada... Daí sermos um paraíso para que o "chico-espertismo" continue a vingar.

 

Finalmente, a SIC é também o tentáculo televisivo do "Polígrafo", será que essa notícia foi ao polígrafo? É que este polígrafo tende a diferenciar-se do polígrafo electrónico pela forma como é tendencioso e erra nas análises que faz, ou não fosse o seu fundador/editor, um indivíduo que esteve envolvido num escândalo por, alegadamente, ser sócio de uma empresa que promovia publicamente determinados indivíduos (alguns com o nome bem manchado) - algo incompatível com a profissão de jornalista.

 

O que aconteceu este fim-de-semana e tem vindo a acontecer nos últimos anos é grave, é muito grave, e a liberdade de informação não deve servir de desculpa para que se cometam as maiores atrocidades, já dizia Platão que "é do cúmulo da liberdade que surge a mais completa e mais selvagem das escravaturas". Esperemos também que estes dias, sirvam para podermos pensar um pouco e desligar a televisão e algumas publicações electrónicas de vez... É altura de seleccionar aquilo que vemos e aquilo que queremos ser - e continuar a ser uma seresma, também é uma opção, a escolha final é de cada um.

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Fim de Tarde em Janeiro...

por Robinson Kanes, em 22.01.20

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Imagem: Robinson Kanes (Bari)

 

A vida não é uma forma, é uma mistura complexa de géneros.

Antal Szerb, in "Viajante à Luz da Lua".

 

Os London Grammar, com o seu "Strong", acompanham o momento em que escrevo este artigo. O sol começa a ficar mais fraco, é o fim de tarde de Inverno que tanto me apaixona. Custa-me imaginar que esperemos ansiosamente pelo Verão quando temos um fim de tarde como este para apreciar... Somos seres estranhos na beleza de nós no mundo e do mundo em nós.

 

Hoje quiseram saber de mim, ou talvez mera calhandrice... Foi bom, não tenho andado por aqui e no que tenho, acabo por ser mais selectivo - também não tenho muito para escrever deste nosso país, acho que acabei por abandoná-lo na minha cabeça, fechei-me às notícias, aos desenvolvimentos políticos e por aí adiante - as chuvas do Uganda têm este efeito em nós, talvez um dia fale disso. E não... Não tive milhares de emails de também milhares de pessoas a chorarem por mim, a oferecerem-me bolas de queijo, toalhas de linho ou presuntos inteiros no tempo em que vou andando desaparecido. 

 

"Hey Now" toca agora. Uma voz melodiosa e tão pura de Hannah Reid... O reflexo do sol nos prédios, a sonoridade que ecoa pelas esquinas desta sala e o calor de estar aqui. Uma ambulância que passa, o amarelo dos prédios mais adiante a adquirir um tom mostarda, queimado pelos últimos raios de sol de uma tarde de Janeiro. Não sei mais o que dizer, no entanto, sei que vão passando, sei que vão lendo e levando um pouco de mim, e isso já me faz querer ficar por aqui. 

 

Vou lavar a cara e partir para mais um repasto na companhia daqueles de quem mais gostamos. E é só mais um final de tarde de Janeiro, algo bucólico, mas que nas voltas do cosmos é o mais especial do Universo.

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Do turismo LGBTYZGHJKL...

por Robinson Kanes, em 15.01.20

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Imagem: https://www.projectq.us/atlanta/atlanta_stages_gay_pensacola2014_instagram_takeover?gid=15667

 

Existe uma coisa que me faz alguma confusão e que me custa a entender do ponto de vista pessoal embora reconheça que, se gera lucro, deve ser aproveitado num âmbito mais empresarial. Refiro-me àquela designação de turismo que tem muitas letras e todos os dias vai tendo uma nova, algo como turismo LGBTWSCEFBRTYHGBNUNMKIOLPQAX...

 

De facto, o arco-iris é um mercado apetecível do ponto de vista das vendas, no entanto, aqueles que tanto reinvindicam igualdade não estarão a cair no erro de criar mais desigualdade? A sede de igualdade é cada vez mais uma forma de criar uma espécie de elite e que por sua vez alimenta o ódio de outros.

 

Custa-me perceber porque é que vejo dinheiros públicos a promoverem, por exemplo, um turismo que promove a desigualdade. Ainda preciso que alguém me explique se um hotel para um indivíduo LGBGHJDXVNTEXHMJUDFHGNJTYTEYGTJTEJYRTJYTJT é diferente de um hotel para um homem ou para uma mulher que não se identifica com siglas.

 

Alguém me pode explicar se o facto de ser LGBTVFEWFGWGRWGWGTGTRG obriga a que existam acessos diferentes num museu ou se a comida tem de ser diferente. Eu assumo-me como hetero, e espero não ser perseguido por ser hetero, pois sou e assumo isso sem medo de represálias, mas será que devo começar a não frequentar determinados locais e destinos sob pena de ser perseguido ou até me sentir mal - perante a lei, e como cidadãos, não somos todos iguais? É que nem é só nesta matéria, mas em outras, começo a sentir que o facto de ser um indivíduo que paga impostos, trabalha, é hetero, consegue pagar as contas, não vive de subsídios, não embandeira em arco o facto de ter esta ou aquela doença e procura ter uma vida normal me começa a prejudicar....

 

É óbvio que existem temáticas e atracções diferentes dependendo dos gostos de cada um, mas uma coisa é promover isso comercialmente, outra é utilizar a arma dos direitos e do civismo para promover algo que além de ser, por vezes ridículo, é mais corrosivo do que propriamente agregador.

 

Agora podem chamar-me homofóbico, mas se achar que todos somos iguais é uma espécie de homofobia, pois bem, então que me chamem de tal e já agora não se esqueçam da designação de populista ou fascista, tão comum nos dias de hoje e que encaixa em todos aqueles que fazem perguntas ou dizem não!

 

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Somos todos uma bela cambada de mendazes...

por Robinson Kanes, em 31.12.19

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Imagem: Benoit Gauzere

 

Antes de me levantarem o dedo, é só para dizer que eu também me incluo como palerma nas palavras que irei escrever.

 

A verdade é que quem me estiver a ler neste momento, pelo menos a maioria, vai estar a fazê-lo através de um aparelho produzido por uma marca que compactua com trabalho infatil. Claro que esse trabalho não é na Europa nem nos Estados Unidos, os nossos filhos têm direitos humanos! No entanto, os filhos dos outros não, e o facto de darmos um euro ou um pacote de arroz enquanto tiramos uma selfie permite-nos ignorar os direitos humanos dos filhos dos outros.

 

Ficamos muito chocados com o filho que ajuda o pai que é carpinteiro mas gastamos milhares de euros com gadgets e carros com pinta (ainda me hão-de dizer onde é que um Tesla é bonito, mas admito que gostos não se discutem) mesmo sabendo que parte da laboração teve mão-de-obra infantil. Sim, porque nós sabemos, e estas coisas são notícia de roda-pé - quando são. São aquele género de notícias que gente evoluída, solidária e atenta aos problemas do mundo (pena que seja do seu pequeno mundo) não lê e muito menos pensa para 2020.

 

Ignoramos aquilo que está à frente dos nossos olhos a troco de um falso conforto e ainda falamos de questões ambientais e escolha consciente! O mundo não pode contar com tartufos que defendem o ambiente e uma pseudo-capacidade evolutiva e depois assobiam para o lado quando descobrimos que alguns dos gigantes tecnológicos e não só usam crianças para produzir artigos ao preço da chuva que são adquiridos por nós a preço de ouro! Boicotamos as "padarias portuguesas" deste mundo mas não boicotamos as "apples" porque dá status, mesmo que uma outra empresa de telemóveis nos tenha enviado alguns para utilizarmos e que em alguns casos até são melhores! Casos destes não são raros nas nossas empresas, por exemplo, onde gestores preferem o status à eficiência. Estou a escrever num "mac", podem atirar as vossas pedras.

 

E porque é Natal (sim, escrevi isto no Natal), enquanto estiverem a trocar mensagens do vosso automóvel que "anda sozinho" ou a partir de um telemóvel de "ponta" à mesa da ceia, não vos fica mal pensar nisto... Ou talvez fique, pelo menos não esperem muitos "likes" quando partilharem este presente. Terão mais quando partilharem aquele que vocês pensam que é único mas milhões têm igual. É uma questão de pensarem na prioridade. E pronto assim incluo uma linha para este artigo ter qualquer coisa relacionada com o final do ano.

 

Em jeito de conclusão, não se pede que se acabem com estes gigantes, pede-se acima de tudo mais Responsabilidade Social que não pode vir só das grandes corporações. Essa Responsabilidade Social está em cada um de nós e pode começar na forma como fazemos as nossas escolhas e como também elas influenciam muitas práticas e os próprios mercados. Nada como pensar nisto para 2020!

 

Feliz 2020, que já ninguém se lembra do Natal que foi há pouco mais de cinco dias...

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Persépolis: A Cidade Persa

por Robinson Kanes, em 21.11.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

A poucos quilómetros de Shiraz, e debaixo de um intenso calor, encontra-se aquela que foi uma das capitais do Império Aquemênida: Persépolis! Iniciada por Dario, a construção deu-se durante séculos até a mesma ser conquistada por Alexandre Magno. Persépolis foi sempre uma capital mais espiritual, até pelos difíceis acessos, as capitais administrativas acabaram por ser Pasárgarda, Susa, Ecbátana e Babilónia. Com Alexandre Magno, em 330 a.c. a cidade seria ocupada, saqueada e parcialmente destruída. Era o início do declínio de umas das pérolas de todo o império.

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Falar da história de todos os pormenores da cidade é matéria para centenas e centenas de artigos, por isso, nada como a consulta da imensa bibliografia, sobretudo a técnica, que existe acerca da cidade. Na internet, existem centenas de documentários e animações 3D, acerca da cidade, uma delas está aqui.

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No entanto, debaixo de um calor abrasador, e onde nos imaginamos nas montanhas do Afeganistão, fascinou-nos sobretudo a grandeza do império, também nestas pedras contada. Para se ter uma ideia, o império iniciado por  Ciro, "o Grande", acabou por ser o maior da antiguidade, nomeadamente uma extensão para ocidente até aos balcãs e leste europeu, uma rota de estradas onde se incluem as da Rota da Seda, o uso de uma língua ao longo de todo o território e o canal que ligou o Nilo ao Mar Vermelho.

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A este aspecto junta-se o facto de que, ao contrário de muitas outras edificações da Antiguidade, Persepólis, como outras grandes construições do império eram realizadas com trabalho remunerado, ou seja, não escravo. Foi com Ciro também que, apesar de muitos povos terem sido conquistados, que existiu o respeito por todos os costumes e religiões de todos os povos. Como nota de curiosidade, também é Ciro, o responsável pelo "Cilindro de Ciro", aquele que é considerado a primeira declaração de Direitos Humanos da história. Infelizmente para o povo iraniano, encontra-se no British Museum em Londres. No Museu Nacional, em Teerão, encontramos apenas uma réplica. Admito que nas duas visitas ao British, bem que já me apeteceu trazer o cilindro e devolver o mesmo ao povo que o escreveu e que é o seu legítimo detentor! Este cilindro, é talvez um dos mais importantes documentos da Humanidade!

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Agora é tempo de percorrer este espaço, de fechar os olhos e com a ajuda dos óculos de realidade virtual, admirar a escultura e a arquitectura, donde se destacam o Terraço, a Escadaria de Persepólis; a magnifica Porta de Todas as Nações; a Apadana e a sua escadria; a Tachara, ou Palácio de Dário, um dos mais belos, o Hadixe, ou Palácio de Xerxes; o Palácio Central e o grandioso Palácio das 100 Colunas.

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Ao alto, podemos vislumbrar e percorrer também, os túmulos de Artaxerxes II e Artaxerxes III com esculturas de nos deixarem de boca aberta onde são claros os símbolos Zoroastras e do próprio império - um pouco à semelhança do que acontece em todo o edificado de Persépolis. A sul, existe também um túmulo que não foi concluído e que consta que teria em vista ter como hóspede Dario III.

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Pisar o solo de Persépolis é viajar na História, é pisar cada pedaço daquele espaço com um sentimento especial, sentir cada pedra como pudessemos recuar séculos e séculos para trás. É repensar a própria história e acima de tudo é termos a sensação de que somos tão pequenos. É termos a noção de que uma certa História, bem lá atrás ainda tem tanto por contar... É termos respeito e perder a arrogância de que a Ocidente é que esteve/está o patamar máximo do desenvolvimento, até porque, se existiu império que não ficou atrás (bem pelo contrário) de outros como o Grego e o Romano, foi este. E ainda hoje, tal se nota em cada iraniano, desde o mais letrado até àquele que não foi bafejado com a sorte de uma educação mais formal.

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Uma coisa é certa... De Persépolis, saíremos mais ricos, mais ricos do que se comprássemos qualquer produto de luxo no Harrods. Mais ricos do que se trouxéssemos meia-dúzia de lingotes de ouro na mão!

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Agora!

por Robinson Kanes, em 13.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

Há a felicidade simples de estar ainda em vida e mais do que tudo, o amor, da vida, partilhada com os que ama enquanto lhe for dada. Não será a vida o dom inaugural.

Paul Ricouer, in "Vivo até à Morte"

 

 

Existem momentos em que não queremos esperar. Existem momentos em que não queremos saber de nada e do próprio nada de viver. Esgotamos na nossa vontade de querer quebrar todas as regras e simplesmente procuramos a harmonia no descontrolo das emoções.

 

Existem momentos em que simplesmente somos só nós, eventualmente alguém a nosso lado e o mundo e a natureza levada à profundidade do nosso sentir onde a sua exaltação é tal que rebenta sobre diferentes contornos! Um grito, um silêncio, um sonho de amor ou até na comunhão intensa entre o nosso corpo e o de outrem, ou apenas entre o nosso ser e o cosmos, entre o pó, entre as areias e todas as partículas que sou eu e que se fundem no passar dos dias até recolherem ao solo e voltarem com novo impulso.

 

Serás um homem novo, não serás nada... Vive agora, apaixona-te, vence e diz o que tens a dizer, entrega-te e não desperdices tempo nessa sede de viver. Arranca as tuas roupas, entrega-te ao amor, abraça como nunca abraçaste, ama como nunca amaste, entrega-te languidamente à luxúria e deixa que nesse momento dois corpos sejam um. Deixa que os gemidos inundem o universo e o grito da paixão ecoe pelo cosmos navegando perdido durante milhões e milhões de anos! Deixa que essa união pura e sem metafísicas preencha a terra da vossa exsudação e que ambos transpirem, transpirem numa união entre tudo e o nada.

 

Serás um homem novo, não serás nada... Viverás como todos os outros, morrerás como todos os outros. Não procures deixar história, essa história não te vai alimentar quando só de pó e de terra a tua boca se saciar.  Não procures deixar história quando já ninguém se lembrar de ti e fores apenas o nome de uma rua ou uma pequena menção num livro. Não procures deixar história quando as tuas cinzas se sumirem naquilo que do mundo resta e não se vê. Não procures ser história na morte.

 

Cria e recorda a tua história agora, cria a tua história vivendo essa mesma história. Não temas o passado, não te inquietes com o futuro, o teu passado e o teu futuro são agora... Só agora, enquanto os teus braços voam, enquanto o teu sorriso é genuíno e enquanto o teu ser efémero é real, enquanto está no arrebatamente de sentir e de tocar. Entrega-te ao mundo enquanto ainda não és uma criança dataísta, não és uma criação de ti próprio na destruição do que tens de humano!

 

Cria, sente, sê e vive tudo, agora!

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Manhã de Sábado em Belém...

O Chulo e o Provinciano...

por Robinson Kanes, em 28.10.19

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Claude Monet - Regates a Argenteuil (Musée d'Orsay)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Doca de Belém... O sol brilha, é Sábado de manhã... Eu não estou a fazer nada, apenas a aproveitar esta luz fantástica enquanto vejo turistas e mais turistas com camisolas falsas de grandes estilistas e com sacos dos pastéis de belém. No meio da azáfama, tento pensar numa estratégia para um projecto avançar. 

 

Viatura estacionada junto às linhas que permitem a passagem daquele carro anfibío que anda pela cidade e respeitando as indicações da Autoridade Portuária. Penso... Penso no projecto. As viaturas vão-se avolumando e a minha viatura acaba por ficar, hipotéticamente a ocupar dois lugares. 

 

É nesse momento que surge um digno trabalhador deste país, vulgo arrumador ou como se encontra nos estatutos da Real Federação Portuguesa de Arrumadores de Viaturas (RFPAV): Chulo! Com uma distância de segurança, profere as seguintes regras do espaço:

 

- Podia mexer carro e tirá-lo daqui, está a ocupar dois lugares e assim a malta não consegue estacionar e eu não posso fazer o meu trabalho. Assim não dá, um gajo não anda aqui a brincar, ests gajos não respeitam ninguém.

 

Penso que o meu olhar pelo espelho foi esclarecedor, porque o indivíduo não mais palavras proferiu. De facto, confesso que me arrisquei, porque a Polícia Municipal, com a gestão do trânsito no local, estava mesmo ali ao lado a presenciar e o nosso profissional da calanzice poderia chamar as autoridades e quem ficava mal era eu. Realmente, esta falta de cidadania...

 

Devo admitir, e por isso peço desculpa, por me ter comportado de modo pouco civilizado e ter gozado com o trabalho dos outros, que é um trabalho louvável, importante para o bem-estar dos cidadãos e para a mobilidade urbana. Aliás, a minha atitude ainda foi mais reprovável na medida em que não lhe dei uns trocos... Muitos trocos! Sim, porque quem estava a pagar rapidamente ouvia o comentário "não tem mais qualquer coisa?". As pessoas andam a trabalhar e têm de ser remuneradas pelo seu trabalho! Uma vergonha, e por isso, publicamente peço desculpa aos legais profissionais do gamanço deste país.

 

Entretanto, e porque Belém é Belém... Escuto isto vindo daqueles indivíduos que até pensam que o facto de viverem na cidade os torna mais "elegantes":

 

- Epá, não sei, eu vou almoçar à EXPO, comer um peixinho, lá é que se come bom peixe, mas vocês é que sabem. Tem de ser, sabes como é... Eh... Eh... Eh... (Eh... Eh... Eh... aquele tipíco Eh... Eh... Eh... do "estás a ver Zé, isto é que é qualidade de vida, isto é que é viver à grande").

 

E nisto, depois do seu ar de pedante sai uma real escarreta para o chão (daquelas que até estalam e parecem santolas quando tocam no chão) e um "pois é cara...". Homem digno, fino e distinto, que come peixe do melhor na EXPO e usa corta-vento náutico para passear junto à doca quando faz um calor que não se aguenta... Que diga palavrões, cuspa no chão, que não saiba sequer remar e ande de corta-vento num dia soalheiro e sem vento só porque está junto ao Tejo, nem é grave... Já é um hábito! Mas caramba, peixe bom na EXPO? Irra! Realmente o que são os restaurantes de Setúbal, Sesimbra, Montijo, Alcochete, Guincho e Ericeira comparados com a EXPO! Esta é imperdoável!

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Postas de Pescada e Reflexões Sobre Ter um Blog...

por Robinson Kanes, em 26.09.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Foi um destes dias que descobri, graças ao comentador Nuno Carvalho, o alcance do "Não é que não Houvesse" - pois é, ultrapassou fronteiras e um dos artigos (traduzido em inglês) foi parar ao facebook de uma página de fans do Bryan Ferry. É bom saber isso, é bom ter reconhecimento, sobretudo além-fronteiras e de forma desinteressada... E como é bom e genuíno o reconhecimento lá de fora - então quando ele não existe cá dentro. É bom receber alguns emails, sobretudo de pessoas que não têm blogs e de outras pessoas (perdoem-me as mesmas, mas também não vos vou expor) que tendo espaços como este, optam por não tornar muitos dos comentários públicos ou pedir desculpa por não comentarem mas... Aprecio esse facto e compreendo, cada qual terá as suas prioridades neste mundo.

 

Isto para dizer que, pontualmente, é bom fazer balanços... Também assumo que, estando na plataforma que estou, não escrevo com um propósito para a mesma, todavia, não deixo de agradecer todos os artigos destacados até agora, sobretudo na página principal que é onde, acredito, ter mais adeptos do meu "trabalho". Perdoem-me se não crio artigos de agradecimento, não é o meu estilo, sou adepto da eficiência e não do folclore (sem carácter depreciativo)... E há outras formas menos óbvias de agradecimento que vão bem para lá disso, é uma questão de se estar atento e ter capacidade de encaixe.

 

Nestes tempos por aqui, sendo ainda cedo para um balanço, admito que sempre temos dias bons e dias maus. Deixamos de seguir este e aquele espaço porque já não nos desperta interesse, deixamos de comentar só porque sim e somente porque realmente o tema nos merece atenção, tornamo-nos mais selectivos, mesmo que isso implique que existam muitos que ficam revoltados e nos punem com o seu cancelamento, faz parte... Até brinco com isso sempre que alguns temas fazem derrapar o número de seguidores. Algumas boas discussões não faltam, sobretudo quando os apologistas da liberdade e dos direitos nos apontam a sua forma mais vil de serem ditadores.

 

Também já tive artigos dedicados a mim e os quais agradeço: uns muito bons, outros nem por isso... Agradeço especialmente à "Mami", à "MJP", ao "Homem da Caneca" e ao "Pedro Correia" pelos convites à escrita nos seus espaços. Os menos bons, pois bem, fazem parte... Não são tema para agora.

 

Penso que também tenho o dever de agradecer a todos os que me vão seguindo e lendo - uma nota especial para as subscrições por email, não sei quem são, mas são uns "Senhores" a quem agradeço muito. São eles que fazem este espaço, não é o Robinson Kanes que é a vedeta cá do sítio, são todos vocês, inclusive os que espumam quando observam alguns textos... A riqueza destes espaços vem daí e por apreciarem algo que realmente dá trabalho. No meio de tanta azáfama, dá mesmo muito trabalho, este não é um espaço de copy-paste ou de débito fácil! Acreditem ou não, não são raras as vezes em que recebo mais do que dou. Permitam-me, contudo, sublinhar que não abdicarei do que sou e do que penso, bem como de uma certa "linha editorial", isso não o farei.

 

Um obrigado especial a todos aqueles que aceitam os meus comentários e sobretudo àqueles espaços que, não tendo muito destaque e visibilidade, são de uma riqueza extraordinária! Admito que sigo apenas dois separadores: "opinião" e "últimos posts" - não há tempo para mais e é preciso fazer escolhas. É no último que tenho descoberto conteúdos verdadeiramente interessantes! Obrigado a muitos deles também por serem a minha companhia, pois nem sempre é fácil, mesmo nesses separadores, encontrar conteúdo destacado que seja de qualidade, mas afinal, o "Não é Que Não Houvesse" também não se pode gabar muito nesse campo, ainda está numa fase de aprendizagem constante.

 

Obrigado por aturarem o meu mau-feitio, obrigado por compreenderem que não gosto de discursos bonitos e fofos (não resisti... damn), por vezes tenho aquilo a que os holandeses chamam de "bespreekbaarheid". Por cá nem sempre resulta, somos uma cultura mais superficial e também emocional no campo de dizer o que pensamos.

 

Obrigado por estarem aí, sejam apreciadores ou haters, até porque, a existência de um hater implica que alguém nos segue, nos lê e digere o que escrevemos).

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Allegro Vicacissimo adiado...

por Robinson Kanes, em 23.09.19

Jabr-Walking.jpgImagem: https://www.newyorker.com/tech/annals-of-technology/walking-helps-us-think

 

Pensava em como as pessoas que se querem bem, sem pensar em mais nada a não ser na triste insensatez da vida e no carácter vão do amor, acabam por viver lado a lado os próprios destinos que, por serem incompreensíveis as mantêm afastadas como nos pesadelos sem sentido.

Hermann Hess, in  "Gertrud"

 

Tchaikovsky escuta o seu concerto para violino e pensará em como é possível numa interpretação de pouco mais de meia-hora colocar tantas emoções, tantos sentimentos e tantos sonhos que fora da partitura se desfazem. Nem sempre a música ajuda as mentes perturbadas, ao contrário do que dizia Horácio. Essa mesma música tende, por vezes, a colocar-nos ainda mais perturbados e destruídos. Pode ter um efeito nefasto no modo como gerimos as nossas emoções...

 

Essa música faz-nos pensar no sonho mas também na realidade, de ter de acreditar naquilo que não queremos, de perceber que queremos deixar de ser um fantoche, de chegar à conclusão que o presente e o futuro dessa realidade não precisa de nós! Que nós somos pedras no caminho, que tudo tem um tempo e o tempo de uns não é o tempo de outros. Encarar esta realidade não é fácil para alguns, acaba por ser mais simples para os outros e é isso que lhes dá força para continuar.

 

Esses que não percebem o tempo, esses que se preocupam com um mundo, esses que não se cansam de falhar, ou porque a vida os marcou para sempre com esse destino ou simplesmente porque são efectivamente falhados. Não terão a consciência de que tudo tem um limite e que a realidade que um dia almejam e que até conquistaram durante algum tempo não estará lá para sempre - ninguém aguenta para sempre viver com um falhado, ninguém aguenta uma vida ao lado de um idealista. Ninguém aguenta para sempre quem acredite efusivamente no amor e aqueles que talvez acabam por viver de olhos fechados como se a própria existência fosse um acto de cobardia.

 

Oui, tout est simple. Ce sont les hommes qui compliquent les choses... Diz-nos Camus no ensaio "Entre oui et non" do seu ""L'Envers et l'Endroit". E sim, são os homens que complicam as coisas, que criam distrações, que criam convenções que decidem como se manipulam e jogam os sentimentos... São os homens que querem dominar a natureza e acabam dominados pela sua vontade de indagar, de ir mais além mesmo que estejam numa espécie de curva de 360º. São os homens que se cansam daquilo que outrora amaram, é humano, sobretudo num mundo que se devora a si próprio em consumo material e emocional.

 

Ficamos a meio na "Canzonetta", porque o "Allegro Vicacissimo" não é para hoje... Amanha será outro dia, e o mundo nasce todos os dias, mesmo que a força humana nos tente impor, não raras vezes, o mesmo mundo de ontem ou o mesmo mundo monótono e amorfo, mesmo que lutemos para fazer a diferença já ontem! E se um dia o "Allegro Vicacissimo" não tiver lugar, pois bem... Talvez que o "Hino dos Querubins" nos acompanhe numa ascenção que não será rodeada de anjos e de Deus, mas da tristeza que nos consumirá até ao dia em que o céu da boca nos arrefecer e não mais a nosso cérebro receber a mensagem que nos chega dos olhos e dos ouvidos. Até ao dia em que afastaremos o nosso pensamento do mundano...

 

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