Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Nitidamente Nulo à Chuva...

Conformado com Lehár e Bertolucci...

por Robinson Kanes, em 18.10.19

Giuditta.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

Lá fora a chuva cai... Devia ficar melancólico, tantas frentes. Não o faço, não é saudável e não deixa de ser uma perfeita perda de tempo. Pelo contrário, penso que é importante continuar, nunca baixando a cabeça, mas não dando azo ao que não importa, mesmo que também isso, numa cultura provinciana, nem sempre seja bem visto. É assim, não se pode ter tudo.

 

Talvez por isso, me recorde da fogosa "Giuditta", que na sua alma inquieta não se deixa abalar pelo presente. Alguém que se move e agita e não se perde em devaneios nem em discursos e simplesmente é mulher, dona de si. "Giuditta" de Franz Lehár, uma operetta que contagia desde o princípio mas onde não poderei deixar escapar "Meine Lippen sie kussen so heiss" - aqui com toque da soprano portuguesa, Dora Rodrigues.

Este tempo, esta época, convida também a leituras que podem ser mais introspectivas ou mais densas. Lembro-me particularmente de "Nítido Nulo" de Vergílio Ferreira. Para mim, um dos melhores da obra do autor. Acredito também que uma das melhores formas de descrever este livro cabe a Jorge Costa Lopes e que aqui cito:

 

“[Nítido Nulo] coloca-nos perante um (…) dilema: que mais poderemos admirar? O naturalismo das recoleções do passado, com a recriação das figuras rigorosamente reais de Tia Matilde e Dolores; as memórias da infância e as páginas em que o narrador recorda a partida do pai; o estudo da figura de Lucinho; passado e futuro, infância e morte da infância; o espetralismo de Marta; o convencionalismo de Teófilo; o arcaísmo dos discursos políticos do poder; a saturação de anedotas extraídas do real quotidiano; a rápida descrição de ambientes e paisagens? Ou, pelo contrário, a naturalização do absurdo e do fantástico, a prisão, os banhistas, o ‘filho’, o guarda, os diversos Messias; as frases que nos fazem regressar a momentos fundamentais da história das ideologias mas que surgem num contexto dominado pelo irreal; o cinismo; a miséria moral; a decadência; a velhice; os relâmpagos do passado que irrompem no fluxo das cogitações e lhes insinuam novas descobertas; a interpelação a Vergílio Ferreira, ele próprio, remetendo-nos para a consciência súbita do jogo literário?”

nitido_nulo.jpg

Para ver, não poderia pensar num outro filme que poderá ser um retrato do que temos hoje, embora o fascismo, este fascismo como aqui é demonstrado por Bernardo Bertolucci num tardio modernismo, seja algo que já "não exista". É a cobardia do homem, é o conformismo perante a necessidade de pertencer a algo. "The Conformist" é isso tudo, e é uma obra dos anos 70 (baseado no romance de Alberto Moravia) que talvez nos ensine como não ser nos dias de hoje - não é a história repetida, mas talvez o declínio da mesma que tende a não se reinventar, mesmo em tempos contemporâneos. Jean-Louis Trintignant, no papel de Marcelo, é um actor que não nos deixará indiferentes.

E para pensarmos em coisas boas durante o fim de semana, algumas palavras de Álvaro Santos Pereira proferidas esta semana na Fundação Serralves - um português que não gosta de ser tratado por Dr. (é raro, por isso digno de apontamento):

 

As corporações são demasiado fortes em Portugal. Não gostam da concorrência e quem paga somos todos nós, os contribuintes.

...

Uma cultura de impunidade como temos em Portugal – de deixarmos os processos arrastar-se anos a fio, de recurso em recurso, sem as pessoas serem condenadas e irem para a prisão – é uma pouca vergonha para a nossa Justiça.

...

Se crescemos 1%, só vamos duplicar o rendimento em 70 anos. Não é aceitável que isso aconteça.

 

E como nada disto se faz a seco, nada como uma bela surpresa chegada do Redondo, um Porta de Santa Catarina Tinto, de 2015. Verdadeira maravilha!

vinho_porta_de_santa_catarina.jpg

 

Bom fim de semana,

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um miserável intocável e existencialista...

por Robinson Kanes, em 23.08.19

IMG_20190822_195408.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

A semana foi longa, com mais altos que baixos, com alguma perda de esperança em relação ao futuro - não ao meu, mas ao deste Mundo. Talvez por isso, e por outras trocas de palavras que fui tendo com um senhor chamado "Folhas", recorde para o fim-de-semana o seguinte ensaio: "O Existencialismo é um Humanismo - Da Fenomenologia a Sartre" de Vergílio Ferreira. É uma interessante abordagem onde o pensamento de Sartre, Husserl e Heidegger estão bem presentes e são soberbamente dissecados pelo professor de Melo, concelho de Gouveia. Sem esquecer outros, conceitos como o de "realidade humana" estarão bem presentes.

 

 

Tudo se passa como se, para todo o homem, toda a humanidade tivesse os olhos postos no que ele faz e se regulasse pelo que ele faz. E cada homem deve dizer-se a si próprio: "terei eu seguramente o direito de agir de tal modo que a humanidade se regule pelos meus actos?" E se o homem não diz isso, é porque ele disfarça a sua angústia.

Vergílio Ferreira, in "O Existencialismo é um Humanismo - Da Fenomenologia a Sartre"

 

 

E porque talvez o espírito o alimente, a banda sonora deste fim-de-semana é mesmo uma banda sonora, ou melhor, um musical... "Les Misérables", o romance de Victor Hugo que já foi filme, musical e tudo e "mais alguma coisa" mas que continua tão presente em todos nós como uma das mais belas Histórias de sempre! Por cá, em formato musical, não mp3, está a banda sonora do filme de 2012 realizado por Tom Hooper e com a música de Alain BoublilClaude-Michel Schönberg. Gosto de ouvir a música, não ter imagem para poder criar o puzzle das diferentes representações, a que já assisti, no meu pensamento. Todos têm uma personagem preferida, eu tenho a minha, Javert! E se quiserem acrescentem Éponine. Enfim, só poderiam ser estas duas... 

Nos últimos tempos faz-nos falta ser Misérables... Muita falta. E se existem romances que nos podem ensinar muita coisa sobre a vida, este é um deles. Selecciono duas passagens relacionadas com as personagens: a primeira, Por muito que goste de Russel Crowe e queira colocar a do CD, tenho de escolher Philip Quast com "Stars"... É impossível não nutrir simpatia pelo grande "vilão" "Javert" depois de ouvir esta música...

A segunda, para Éponine, e aqui Samantha Barks (a do filme de Hooper) tem todo o destaque, uma das melhores actrizes e vozes do filme, aliás já trazia esta escola antes de chegar a 2012. Phénoménal este "On My Own".

E para terminar, um filme, como vem sendo habitual... "Les Misérables" será demasiado... Fico-me por "The Untouchables", o filme de Brian de Palma e que, grosso modo,  representa a vida de um grupo de polícias, liderado por Eliot Ness, que decidiu arriscar a vida e tentar capturar o temido Al Capone! Um filme de corrupção, honra e de "Homens" para "Homens". Muitos já o terão visto mas colocar Robert de Niro, Kevin Costner, Sean Connery e Andy Garcia no mesmo filme só pode dar bom resultado. Um filme em homenagem a todos os que combatem o crime e a corrupção.

E não se esqueçam: Na eventualidade das temperaturas aumentarem em média 2 a 2,5, todos os anos o gelo do ártico estará derretido completamente em Setembro. Acho que todos sabemos o que isso significa.

Talvez este e outros motivos nos façam levantar a voz e... (em Hong Kong já o fizeram em Junho)...

 


Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes!


Will you join in our crusade?
Who will be strong and stand with me?
Beyond the barricade
Is there a world you long to see?


Then join in the fight
That will give you the right to be free!


Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes!


Will you give all you can give
So that our banner may advance?
Some will fall and some will live
Will you stand up and take your chance?
The blood of the martyrs
Will water the meadows of France!


Do you hear the people sing?
Singing the song of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes



Bom fim de semana...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

IMG_8737.JPG

 Fonte das Imagens: Própria.

 

Já por aqui confessei que ninguém é perfeito e o meu gosto por música italiana é a prova cabal... Também já admiti que custa gostar da miríade de músicas que todos os dias são despejadas nas rádios e nos tops (confesso que já nem sigo), no entanto, vão existindo excepções...

 

Uma delas é a Giorgia (estranhamente pouco conhecida em Portugal), mas que canta com uma intensidade e uma entrega pouco comuns em cantoras mainstream. Não é apenas uma senhora bonita, é uma voz forte e perfeita que atrai a nossa atenção assim que a escutamos ao longe, ou numa viagem a Itália quando a ouvimos na rádio.

 

 

O último sucesso e que ecoa pela sua terra-natal é a música "Scelgo ancora te", uma música para nos fazer sonhar e claro... Amar... Amar enquanto percorremos Itália e ao nosso lado temos a companhia de quem nos faz pensar que no meio de tantos acontecimentos maus, a sorte do destino também nos dá autênticos bónus e numa probabilidade infíma de oportunidades, eis que... Haverá momento melhor que escutar esta música enquanto do outro lado, os olhos e o sorriso de outrem se perdem na imensidão do Tirreno? Talvez o título da música - "E mesmo assim te escolho" - seja sem dúvida um resumo do que poderia pensar nesses momentos.

 

A Giorgia... A Giorgia tem sido uma companhia não muito recente, mas que tem melhorado na voz ano após ano, desde que a ouvi pela primeira vez com "Ora Basta". Recomendo, sobretudo para ouvirem com quem gostam enquanto preparam um jantar romântico à segunda-feira, quando quase toda a gente se afoga num sentimento de "Blue Monday". Resulta, vão por mim... Iniciem esse momento com "Per Fare A Meno Di Te".

Pensar...  Cada vez mais um privilégio de poucos num relógio que teima em ter mais de 24 horas! "Pensar" é talvez algo que comece a fazer falta e nada melhor que um livro com o mesmo nome, o "Pensar" de Vergílio Ferreira que não é mais que uma colectânea de pequenos e grandes pensamentos que, de tão actuais que são, levam-nos a pensar que as inquietações só mudaram de nome... Um livro que não é para ser lido de uma vez, posto que os 676 pensamentos devem ser efectivamente pensados e digeridos. É um bom desafio, ler um ou dois por dia... Destaco apenas três, que de um certo modo chamaram a minha atenção:

 

IMG_20171020_102834.jpg91 Este é o tempo do insólito, do vigário, do capricho, da mentira, da falsificação, do cheque sem cobertura, da banha-da-cobra. Não temos um estalão para nada (...) Hoje tudo é possível porque nada é possível. Hoje a verdade não se demora até ser mentira mas uma e outra se convertem mutuamente e são ambas válidas na sua mútua referência , sendo a mentira a verdade e ao contrário. Hoje é o tempo dos aventureiros, do medíocre, do sagaz da esperteza, que é a inteligência da astúcia. Hoje é o tempo do curandeiro, do endireita, do bruxo, do vidente,do profeta, do prestidigitador. Hoje é o tempo de se ser estúpido porque o inteligente não há razão para não ser mais estúpido do que ele. Hoje é o tempo de todos os caminhos estarem desimpedidos porque não é possível um sistema alfandegário. Hoje é o tempo de todos os contrabandos porque não há razão para um sistema fiscal. Hoje é o tempo da noite para todos os gatos terem a mesma identidade. Hoje é o tempo de tudo ser o tempo de. Hoje é o tempo de tudo, portanto de nada. Hoje é o tempo de se não ser. Levanta em ti, se puderes, o que te resta de homem, para seres alguma coisa.

-//-

381 Fala baixo. Não te esfalfes a falar alto. Deixa que os outros se esfalfem até ficarem calados. Falar alto é compensar o que em ideias é baixo. E essa é a compensação dos que escutam. Não te esforçes a falar alto. Serás ouvido quando os outros se esfalfarem e já não tiverem voz. Como o que se ouve num recinto depois que o comício acabou.

-//-

466 Rápidos correm os dias, os anos. Não deixes. Nem isso é verdade. Vive intensamente cada dia, cada hora, repara no seu escoar e verás como são lentos. É por isso que quando guardamos um "minuto de silêncio" pela morte de alguém, aquilo nunca mais acaba...

 

 

 

 

Pensar, sobretudo depois de mais uma semana trágica, é algo que se impõe... Talvez neste momento vagueie naquele rosto que contempla o Tirreno e por aí me fique, será isso que me traz força energia para digerir muito do que vou vendo...

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: Esta semana não poderia deixar de agradecer à Maria Araújo, à C.S., à Mami e a todos os outros que no seu espaço correram o risco de perder todos os leitores ao mencionarem este espaço. Agradeço-vos muito, a vocês e a todos os outros que já o fizeram, a Maria por exemplo, é outro caso... Espero não me estar a esquecer de ninguém, mas mesmo que me esqueça é com uma profunda alegria que vos acolho aqui (mesmo aqueles que por aqui passarem com opinião diferente). São vocês a força motriz deste espaço e isso... Bem, isso vale mais que qualquer comunicação... Vale mais que qualquer favor ou qualquer "empurrão"...  Obrigado por existirem e por fazerem com que este espaço ainda exista, são vocês os grandes pilares.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Morte... Nós... Eles...

por Robinson Kanes, em 09.10.17

IMG_0676.jpg

Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Malraux dizia que "a morte transforma a vida em destino" e chegamos à conclusão que, quer queiramos quer não, esse é o destino da vida. Embora afastemos esse pensamento do nosso quotidiano, façamos o que fizermos, esse destino determinado irá acontecer transformando as palavras de Malraux num lugar-comum.

 

Pelo meio, ainda há quem planeie a vida no sentido de pensar o que está para lá da morte: os que ficam, a memória, o prestígio, o reconhecimento... Mas na realidade e pegando nas palavras de Vergílio Ferreira, "é perfeitamente absurdo dizermos   «quando estivermos mortos». Porque nos imaginamos «nós» quando já não há «nós». Não estamos mortos, haverá apenas mortos.". De facto, podemos alegar que existe, independentemente das nossas crenças um mundo para lá da morte, mas a realidade demonstra-nos - pelo menos até aos dias de hoje - que se existe, ou é algo de tão fantástico que ninguém regressa ou então não passa disso mesmo... Morte! Morte não como um vazio, mas numa lógica ao estilo de Lavoisier em que somos apenas matéria que não se perde, mas que se transforma. Contudo, sem as qualidades que nos caracterizam como humanos.

 

 

Também o meu pai dizia, quando se falava de heranças ou temas afins, "que quem cá ficar que se oriente" - e foi assim que este procurou encarar a vida. Não se preocupou com o dia depois da sua morte, embora tenha feito muitos sacrificios que permitiram que me transformasse na pessoa que sou hoje e procurando garantir uma vida feliz sem destruir os outros e o futuro. Na verdade, de que nos vale pensar em quando estivermos mortos? Não existirá nós! Não seremos nós, não seremos mais nada a não ser um punhado de matéria que deambula pelo ar e permitirá que outros sistemas se desenvolvam... Não passaremos do sujo porto onde as fezes e a urina fazem nascer as grandes obras, como defendia Agustina em "Fanny Owen".

 

Aceite esta concepção, será que já estamos a abraçar essa lógica de tal forma que não concebemos o futuro? Camus dizia que o "homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro (...) mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador". Será que já não temos futuro e somos um bando de seres sem esperança que, pelo presente abdicamos da nossa ética, dos nossos valores, das nossas faculdades de sermos... humanos? Mais que nunca, a Humanidade não pensa o futuro, não o pensa na medida em que não defende os valores essenciais da experiência humana e esquece inclusivamente que, ao focar-se tanto no agora, está a matar o amanhã. Não podemos tentar escapar ao universo da nossa criação se o egoísmo for imenso que nos consome em cada acto.

 

Pior, nunca tivemos tantos instrumentos para criar um mundo melhor, e não me foco apenas nas questões técnicas mas também nas questões do pensamento. Deus morreu, o pensamento tem vindo a morrer, o espírito critico da segunda metade do século XX está a morrer e no fim, somos apenas um rebanho sem esperança... Somos um rebanho sem esperança que chora as mortes do terrorismo mas não o hesita em praticar com os colegas no trabalho, com os vizinhos no prédio ou na rua, com aqueles com quem nos cruzamos e nos fazem pensar o nosso caminho. Lutamos por questões fúteis, enchemos jornais e redes sociais com temas e preocupações que já não se deveriam colocar e esquecemos as verdadeiras questões estruturais da existência: as boas e as más. Uns chamam-lhe desumanização, procurando um conceito mais pomposo, eu chamo-lhe desleixo ou até mesmo fraqueza.

 

Teremos perdido a esperança e estamos a alimentar o "nós" com tanta sagacidade que esquecemos, estando o mundo entregue ao Homem, que também ele é o responsável pela solidariedade com as gerações futuras e, no fundo, com as presentes. Dispenso também o discurso de que a culpa é do Capitalismo como forma de colocar num conceito/prática os nossos pecados.

 

Será que o Homem não é capaz de perceber que o único Deus é ele próprio e assumir essa responsabilidade? Acredito, verdadeiramente, que é por aí que se trilha o "nós", porque depois de mortos...  e encontrando aqui o pensamento de Levinas, depois de mortos, a morte será levada, não pelo morto, mas por aqueles que ficam e aí... Aí não teremos um "nós" mas teremos  "eles" e isso faz toda a diferença.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Pensar Vergílio Ferreira....

por Robinson Kanes, em 27.10.16

images.jpegVM6WHbAfT080oqKAZBGz.jpeg

 

Lembro-me, mais uma vez, dos 100 anos de um dos romancistas e ensaístas máximos da nossa escrita: Vergílio Ferreira. 

 

O escritor que para muitos é recordado pela Aparição, a obra do “eu”. No entanto, cingir a obra deste a Aparição é mais que redutor.

 

Também me lembro, há uns tempos, de numa reunião de trabalho em que, após ter enviado um incentivo aos meus colaboradores acompanhado de uma citação de Vergílio Ferreira, tenho uma daquelas conversas com um daqueles indivíduos (cinzentos?) que encontramos na nossa vida profissional e onde sou confrontado com a seguinte afirmação: “Deves ter a mania que sabes muito. Aqui, isso vale zero e digo-te já: não gosto de Vergílio Ferreira!”. Na verdade, não temos todos de gostar do mesmo, caso contrário eu teria respondido: ”bem... também não gosto de si”. Aí o bom senso desaparecia sob a forma de palavras e acabaríamos numa cena de pancadaria onde um de nós seria mais louco que o Carolino enquanto o outro tomaria a forma masculina de Sofia e acabaria morto às mãos do primeiro (Vide a tal Aparição...).

 

Questionei o mesmo acerca do conhecimento da obra do autor e eis que este me diz que tinha lido “esse gajo” na escola.

 

Gajo! Segundo os dicionários da Porto Editora gajo é: pessoa incerta cujo nome não ocorre ou não se quer mencionar, sujeito, fulano, indivíduo, tipo ou então em tom mais pejorativo indivíduo velhaco, astuto, espertalhão, finório. Caramba, gajo pode ser um indivíduo finório... estamos sempre a aprender e doravante olharei para o conceito de outra forma: “aquele gajo é tramado, quem diria... o finório!...”.) Nada de novo. Indaguei: “Aparição?”. Resposta afirmativa. Questionei se tinha percebido a obra, pois nem eu a percebi numa primeira leitura ainda na minha juventude. Fiquei a saber que não a conhecia, pois escapou à leitura e com sorte no exame lá teve aquele golpe de sorte e não escolheu o Vergílio.

 

Fez-me lembrar aqueles pessoas que dizem não gostar de cabeças de peixe, mas depois provam e... voilá! Até aquela parte mais gelatinosa toma outro gosto. Não? Experimentem cabeça de mero, divinal, ou a de um pargo mulato se estiverem num navio em plena costa da Mauritânia e este tiver sido acabado de pescar. Que andaste a fazer na Mauritânia num navio de pesca de arrasto? Boa pergunta, mas fiquem com ela, não tenho assim uma tão vasta e influente rede de contactos que me permita escrever artigos em revistas e dar um colorido a experiências marítimas que de... colorido têm muito pouco... ou talvez até tenham, a pensar...

 

O Vergílio, sim... Hoje já me alonguei tanto que depois temo adquirir um discurso tão lamacento que vos faz ler outros artigos mais motivacionais. Já chegaram aqui? Haja paciência. Contudo, concluo dizendo que em Vergílio Ferreira encontramos talvez alguns dos antídotos para tornar o nosso quotidiano, em trabalho ou não, em algo mais produtivo, quer em rácios de produção, quer em rácios de satisfação pessoal, senão vejamos:

 

"Não tenhas pretensão de ser inteiramente novo no que pensares ou disseres. Quando nasceste já tudo estava em movimento e o que te importa, para seres novo, é embalares no andamento dos que vinham detrás. Nas provas de atletismo, em que se passa o testemunho, quem recebe esse testemunho tem de estar em movimento, que é o movimento de quem o passa. Senão ele passa e tu ficas e quando enfim o alcanças, partes já atrasado”(in Pensar, edição Quetzal de 2013, vide pág. 186).

 

A pensar...

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog





Mensagens

Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB