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Numa organização empresarial é comum, senão directiva, assumir que todos os colaboradores, todos sem excepção, são a face e a imagem da organização. O dress code é um dos exemplos mais comuns, ou então a postura perante as redes sociais de não comentar factos que não abonem a favor da organização. No entanto, ainda são algumas as violações, não só da imagem da organização mas também dos valores, ética e compromisso para com esta, o que por norma se reflecte em resultados de vendas.

 

Neste âmbito, e posto que poderia ser alargado a outras áreas dentro das organizações, esta abordagem assenta na actuação dos departamentos/responsáveis de recursos humanos. É imperial reconhecer que os colaboradores desta área devem ser dos mais motivados e esclarecidos dentro de qualquer entidade, afinal são eles a porta de entrada na mesma.

 

Podemos recorrer a vídeos brilhantes com o intuito de captar talentos e com isso projectar a imagem de que acolhemos os melhores e lhes proporcionamos condições que fazem de nós um exemplo de boas práticas. A todo este trabalho não serão subtraídas outras repercussões nomeadamente ao nível da Responsabilidade Social Corporativa (esta deve começar sempre dentro das empresas).

 

Em suma, todo este caminho para chegarmos à conclusão de que não faz sentido algum, por exemplo, ter alguém a fazer Screening ou Recruitment e que se encontra pouco preparado ou até aborrecido com o seu local de trabalho sob pena de termos falhas gravíssimas que se podem perpetuar por meses ou até anos. Permitam-me, neste sentido, o choque quando vejo juniores (sem acompanhamento) ou até seniors com anos de experiência mas pouca preparação e fraca sensibilidade a gerirem processos de recrutamento, não só de cargos de responsabilidade mas também com grande exigência ao nível da especialização. Serão muitos aqueles que apontarão custos e alguma arrogância da minha parte, no entanto responderei como Camus na Queda: “meu caro amigo, não lhes dêmos pretexto para nos julgarem, por pouco que seja, senão ficamos em frangalhos”.

 

Aquando de um processo de recrutamento, e no fundo é aqui que assenta o problema deste artigo, a face comercial, a face de toda uma organização é representada pelo departamento ou colaboradores da área de recursos humanos.

 

Tudo começa no anúncio, quando se publica a oferta, que não é raro apresentar um copy-paste de outros anúncios sem olhar às especificidades do perfil pretendido ou então, ainda mais calamitoso, a presença de erros crassos de ortografia. É a partir daqui que a venda da imagem da nossa organização já está a ser mal concretizada, sobretudo em termos de qualidade e rigor. Acresce ainda que os filtros em relação ao perfil não irão ter qualquer efeito.

 

Mas, imaginemos, o nosso candidato remete a sua candidatura e o que surge não é mais que um email automático (o que já não é mau) ou uma total inexistência de retorno por parte do recrutador. Peguemos na segunda hipótese: “não há tempo nem disponibilidade para responder a tantos candidatos”; “já tenho o que preciso, não preciso de me preocupar com aquilo que não me trará nada de novo”; “não temos recursos para tanto” e por aí adiante. A oferta de desculpas é vasta, basta optar por uma. São estas as respostas mais comuns, no entanto aceitaríamos as mesmas se as utilizássemos face a um potencial cliente que nos abordasse com o intuito de contratar um dos nossos produtos ou serviços?

 

Contudo, voltemos ao nosso candidato que até foi convocado para uma entrevista, que fez um enorme jogo de cintura para estar presente na mesma, até porque se encontra a trabalhar. Nessa fase depara-se com uma postura arrogante e por vezes até agressiva (não confundir com rigorosa ou exigente). Acresce o facto de ter tido a divina honra de avançar no processo de selecção e sentir na pele tudo o que isso acarreta quer profissionalmente quer emocionalmente. No entanto, eis que.... silêncio, ausência de resposta ou algo totalmente inócuo.

 

“Compreendo como, não compreendo porquê” diria Orwell. Não compreendo porquê, mas deixámos o nosso cliente à espera e completamente ao abandono. O que fazer? Esperar que este se deixe levar pela narrativa das publicações que nos dizem que é preciso ter paciência e ai daquele que provoque a “Real Entidade Empregadora”? Acreditar que se abrirmos um novo processo este voltará? Afinal tendemos a encarar que o mercado de trabalho é assim mesmo. Atenção, mais do que nunca, muitos são os candidatos que identificam estas red flags.

 

Mas na realidade é que, chegados a este patamar, já fomos contra todos os valores, ética e cuidado que as pessoas/clientes nos merecem. Ali estão potenciais clientes, potenciais divulgadores da nossa marca. É crescente o número de indivíduos que tende a deixar de adquirir produtos ou serviços de determinada organização somente porque tiveram uma má experiência num processo de recrutamento, isto sem olvidar aqueles que carregarão uma má publicidade e não hesitarão em espalhá-la por todos os recantos da "cidade". E mais que clientes, não estaremos a descurar futuros parceiros da nossa organização que poderão um dia estar numa outra entidade com a qual possamos ter interesses comerciais? Quem nos garante que, no futuro, não possamos vir a ter necessidade desses preciosos perfis? “Perfis há muitos” diria o actor, mas atenção, bons perfis escasseiam.

 

De facto, a necessidade, para muitos, de um emprego a qualquer custo é uma realidade, mas não podemos esquecer que os candidatos também são nossos clientes e por isso devem ser tratados como tal, até porque não conseguimos medir com precisão o impacte da sua “não procura” em relação aos nossos serviços/produtos.

 

Para muitos departamentos, responsáveis e demais colaboradores da áreas de recursos humanos, uma atitude mais comercial passaria pela excelência no serviço, tal como numa boa venda e consequente satisfação por parte do cliente.

 

Podemos ir até mais longe e acreditar que, para muitas organizações, estas práticas seriam simples e agradáveis formas de Responsabilidade Social Corporativa.

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