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Orazio Borgianni -  "A Visão de São Jerónimo" (Musée du Louvre)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Whenever two people meet, there are really six people present. There is each man as he sees himself, each man as the other person sees him, and each man as he really is.

William James in, "The Principles of Psychology"

 

 

Agora que já todos assassinámos os dois suspeitos pela morte de uma criança em Atouguia da Baleia. Agora que todos nós, que falamos de direitos e democracia como paladinos do bom comportamento, já enforcámos sumariamente no pelourinho dois suspeitos de um crime - suspeitos, importa reforçar - é importante perceber que talvez estejamos apenas a analisar e a adquirir opiniões emocionais e de revolta popular com base em apenas 1% do processo.

 

Enquanto somos rápidos a tecer julgamentos na praça pública (e ainda bem que existe a Justiça para não ceder às nossas emoções), não somos tão rápidos a perceber o que é que tantas vezes está à nossa volta. Não somos tão rápidos, a denunciar o crime de violência doméstica (e violência doméstica não é só o matulão a bater na mulher indefesa) que acontece mesmo ao nosso lado. Não somos tão rápidos a perceber as circunstâncias sociais que revestem este tipo de casos. Somos rápidos a defender o politicamente correcto e a cair rapidamente na onda mediática da espuma dos dias, acabando, por intermédio do nosso comportamento por tropeçar naquilo que repudiamos.

 

Na verdade, enquanto não largamos a onda geral e paramos para pensar de forma critica, não reparamos que estes episódios, salvo muito raras excepções, não se concretizam num dia - existe todo um historial por detrás e que, mais uma vez, é do conhecimento das instituições, das autoridades e inclusive dos vizinhos, os tais que não se inibem de opinar dizendo que "já sabiam que aquilo acontecia".

 

Na realidade, ao exigirmos a morte imediata de suspeitos, e volto a reforçar, suspeitos, estamos de uma forma ou de outra a procurar na morte de outrem, que também tem direitos consagrados na Constituição e em todas os códigos abaixo desta, a nossa forma de exclusão de responsabilidade.

 

É utópico pensar que salvaremos todas as crianças, todas as mulheres e todos os homens, pensar o contrário é tolo. No entanto, não é utópico estarmos mais atentos, ao nosso pequeno bairro, ao nosso pequeno mundo e acima de tudo às nossas instituições. É a elas que devemos exigir trabalho e competência, é a nós próprios que devemos exigir deveres (sim, deveres, palavra tão complexa) de cidadania. 

 

É necessária cautela, porque condenar alguém sem o devido processo judicial pode levar a erros gravosos, pode inclusive levar à "condenação" de inocentes. Não podemos defender um Estado de Direito uns dias, e defender milícias populares nos outros. Importa também, ter em conta que os resultados destes processos, devem servir para acautelar situações futuras. Tanto profissionais judiciais, como profissionais de saúde mental, profissionais de serviço social e nós cidadãos devemos acompanhar e analisar com toda a atenção, porque também nos cabe a nós garantir que este tipo de situações não atinge uma escalabilidade que acaba por se consumar em crimes hediondos.

 

E depois do show off mediático e do "eu também tenho opinião" (como se alguém se importasse com isso), quantos de nós nos debruçamos sobre o processo, sobre o desfecho e sobre as conclusões? Preferimos a poesia ou a revolta do momento...

 

Finalmente, uma nota, embora sem total conhecimento do processo: está aí mais um alerta para provar que a saúde mental não é o caixote do lixo do sistema de saúde. A saúde mental, não é nem pode ser um tema de lifestyle, um tema de programas de televisão em que o profissionalismo de alguns deixa a desejar, sem contar com aqueles que falam de saúde e bem-estar mental como se fosse uma trend new age ou porque lemos meia dúzia de coisas na internet e achamos que somos bons conselheiros.A saúde mental é um tema sério, e que tem de ser gerido com a devida honestidade e valor.

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