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 Le Pâturage à la Gardeuse d'Oies,  Constant Troyon, Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Da Perfeição do Comunitarismo à Realidade.

 

Rio de Onor é actualmente um “museu”, algo que ficou do passado e com o qual hoje podemos aprender, sobretudo em duros tempos de crise que têm um impacte tremendo nas culturas serranas transmontanas. Importa assim descobrir se o exemplo de Rio de Onor será hoje um mecanismo ou até um case study para ultrapassar tamanhas dificuldades.

 

Rio de Onor não pode viver num isolamento como o de outrora, o Mundo mudou de uma forma avassaladora nos últimos 50 anos, pelo que o contexto de Rio de Onor está efectivamente desligado da realidade actual e jamais se poderia adaptar a uma nova prática de economia comunal ou de solidariedade.

 

Comecemos pelo próprio erro de interpretação apresentado por O’Neill ao deitar por terra a defesa de que em termos de igualdade, esta aldeia seria um exemplo à semelhança de Fontelas onde fez trabalho de campo. O’Neill chegou mesmo a dividir a aldeia em três extractos sociais distintos: proprietários, lavradores e jornaleiros. Começaria na distribuição da terra que era atribuída de forma desigual, pois as permutas iguais de trabalho cooperativo somente existiam entre casas do mesmo nível, O’Neill dá um exemplo categórico nomeadamente de um jornaleiro que possui uma vaca e um lavrador que possui duas, afirmando que “o primeiro está condenado a vender o seu trabalho ou a pedir emprestada a vaca de outro vizinho, de modo a poder lavrar enquanto o último é de facto um camponês médio, produtor de cereal situado num nível equitativamente diferente(15). O’Neill apontou também os  casamentos que raramente eram celebrados fora do seio do mesmo grupo, e ainda o trabalho na terra através do facto de que aqueles que produzissem menos teriam de trabalhar mais na terra dos que produziam mais.

 

Retomando o tema anterior, esta espécie de reciprocidade, tão importante nesta aldeia, não era elevada ao verdadeiro sentido da palavra. Em Fontelas, por exemplo, O’Neill deparou-se com a seguinte questão: se eu colher 75 alqueires na minha terra ajudado por outrem que tem detém 750 alqueires e que também vou ter de ajudar acabo por sair mais prejudicado. Ou seja, não existe aqui igualdade, embora possamos afirmar que o contributo para o bem comum de outrem é maior. Finalmente acrescentemos que em Rio de Onor a participação das mulheres era nula no conselho e nas decisões, ou seja quando usufruíam das mesmas regalias, não se poderia chamar uma economia de solidariedade ou até de reciprocidade, mas sim de dádiva ou rompendo estes conceitos e dando lugar à caridade. Poderíamos ir mais longe e até falar numa certa ostracização.

 

Todavia entremos numa questão mais técnica e utilizando a grelha de análise de Amaro com base no exemplo da Macaronésia e tentemos perceber em que medida Rio de Onor pode tentar ser visto como um exemplo e ao qual acrescentámos mais 3 valias:

 


Projecto Económico

Em Rio de Onor a prática agrícola e o gado forneciam e podem actualmente fornecer um vasto conjunto de produtos que podem ser comercializados nos mercados ou até a um nível mais local.

 

Projecto Social

Em Rio de Onor, a participação das mulheres e dos desfavorecidos no conselho era nula e embora cada um pudesse cultivar a terra (aliás este mecanismo foi garante da instituição durante largos anos) não podia participar nas decisões.

 

Projecto Cultural

Rio de Onor, é actualmente uma aldeia “museu”, no entanto a história e a identidade estão lá e sem dúvida toda e qualquer futura intervenção pode e deve preservar a cultura local. À época Rio de Onor defendia a sua cultura fortemente levando inclusive a que os Rionorenses alimentassem ódios das aldeias vizinhas e fossem alvo de chacota nomeadamente em Bragança.

 

Projecto Ambiental

Passou-se em Rio de Onor, de uma agricultura de estrume e pousio, para uma cultura com adubos e fertilizantes. Efectivamente os novos tempos, práticas agrícolas e desejos dos consumidores, voltados cada vez mais para uma agricultura biológica podem criar aqui um nicho de mercado amigo do ambiente e altamente rentável.

 

Projecto Territorial

Muitos dos dividendos da vendas em mercado era reinvestidos na aldeia com a criação de infraestruturas. 

 

Projecto de Gestão

Em Rio de Onor assistíamos a uma espécie de cooperativa e aliás até um pouco mais que isso, pois o dia-a-dia era gerido também pelo conselho. Este funcionava sobretudo com um cariz distributivo ao invés da tão defendida reciprocidade. Do ponto de vista da economia social e solidária o segura mútuo era um dos seus maiores exemplos.

 
Projecto de Conhecimento

Embora não aplicado intrafronteiras da aldeia, Rio de Onor foi alvo de vários estudos. Um deles aliás levou a que a própria população optasse por começar a agir como ”erradamente” havia sido retratada na monografia de Jorge Dias.

 

Projecto Político

Embora a rotatividade e o sufrágio universal fossem de facto levados a sério em Rio de Onor, o poder de decisão estava longe de ser algo ao alcance de todos.

 

Projecto Artístico

Em Rio de Onor o trabalho era máxima que imperava. artístico

 

Projecto de Felicidade

Sem dados.

 

Projecto Transfronteiriço

Rio de Onor era no fundo um projecto transfronteiriço e cuja retoma na actualidade podia ser sem dúvida uma mais valia na cooperação entre duas regiões irmãs. 

 

Continua...

 

(15) O’Neill dá também o seguinte exemplo “ durante os primeiros meses do trabalho de campo, a minha ligação com as famílias mais pobres foi vista com desconfiança por alguns dos proprietários mais abastados, enquanto um certo número de mulheres pobres me dizia que eu era o primeiro Senhor Doutor a vir a Fontelas e a falar tanto com os ricos como com os pobres” (O’Neill)

 

Artigos anteriores:

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

 

 

 

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Respigadoras,  Jean-François Millet - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Finalmente, a questão das mulheres, que jamais poderiam ser nomeadas mordomos e não existindo homens numa casa, quando muito a casa da mulher poderia ser admitida (mediante pagamento) no conselho, mas nunca nomeada para os cargos de administração, não tendo participação nas reuniões, mas embora beneficiando das regalias do conselho. Apesar de tudo isto, todos os membros eram obrigados a participar no conselho, caso contrário seriam obrigados a pagar uma multa (jeiras). Também a exigência para com os líderes era tal que a qualquer momento poderia ser convocada uma reunião extraordinária com vista à expulsão destes - seria então eleito o responsável da contestação de modo a colocar à prova as suas capacidades de chefia - interessante(11). Aliás, uma das mais-valias deste tipo de organização era que as pessoas jamais seriam confundidas com os cargos.

 

Uma outra instituição, se assim lhe quisermos chamar, eram os Homens de Rodra, designados pelos mordomos e que eram os responsáveis por fazerem quase todos os serviços fora da aldeia (compras, representações...).

 

Uma palavra para a justiça . No caso de Rio de Onor só muito raramente se recorria à justiça fora de portas (Bragança era o tribunal mais próximo). A justiça era feita pelos mordomos e quando incapazes de decidir somente por si, convocavam o conselho. Quando existiam queixas, o próprio conselho nomeava peritos internos para aferir das diferentes partes. Sempre que era impossível acusar alguém, pois desconheciam-se os responsáveis do dolo, o próprio conselho agia como força policial de investigação. Associada a esta tarefa, o conselho, fiscalizava as áreas da aldeia, como o polícia de giro.

 

Existia também em Rio de Onor um seguro mútuo gerido pelo conselho. Sempre que tinha lugar qualquer desastre grave , a comunidade poderia ser obrigada a suportar os prejuízos (12).

 

A economia rionoresa era praticamente de subsistência, vivia-se do gado, da agricultura, e os mais pobres do carvão vegetal. Nos mercados, só o gado, o trigo e o carvão tinham saída. O dinheiro advindo destas vendas era reinvestido para pagar décimas, comprar adubos, cimento, ferro, tecidos e utensílios domésticos, bem como alguma mercearia. A subsistência assentava à data também na existência de algumas casas que não fazendo parte do conselho tinham de pagar o facto de pertencerem à aldeia com outros serviços, aliás, alguns vizinhos ganhavam também algo extra com serviços que normalmente não conseguiriam ser realizados pelos habitantes de Rio de Onor.

 

A igualdade é aparentemente visível, até porque o baixo nível económico era transversal. Havia também alguma economia local: arrendamento de terras (tendo como base um sistema quase feudal), trabalhos à jeira em terras mais abastadas, além de que o conselho não negava terras a quem as quisesse cultivar, obrigando à existência de uma junta de bois que não estava ao alcance de todos (denotam-se já aqui ligeiras oscilações no conceito de igualdade). Notar contudo, que os rionoreses eram também um povo dionisíaco (Dias; 1953) pelo que as dívidas aos bancos eram grandes, sobretudo do lado português, mais gastador e mais aberto à natalidade. Nota final, para o facto do pastoreio ser colectivo e composto pelo gado dos diferentes vizinhos (boiada, Cabrada e Al Ganau-ovelhas) (13) - tudo era aproveitado, até a bosta, para estrumar as culturas.

 

Muitos destes aspectos, tiveram uma análise funcionalista , ou seja uma tendência para olhar os organismos como casos perfeitos em que tudo funciona bem, o que se veio a revelar desastroso (14).

 

Continua...

___________________________

(11) Uma outra prova de que os poderes dos mordomos não eram absolutos, prende-se com o facto de que aquando da discordância do conselho face a estes, os casos eram alvo de uma votação (bamus a deitar piedras) da qual sairia a decisão por maioria absoluta.

(12) Se uma vaca quebrasse uma perna e existindo necessidade de ser abatida, os vizinhos eram obrigados a comprar uma quantidade de carne proporcional ao número de pessoas que têm em casa e aos bens que possuem em solidariedade com o vizinho que tivera o prejuízo.

(13) O gado era recolhido todas as manhãs e levado pelos pastores para o monte, regressando ao fim da tarde. Quando existia a necessidade de passarem mais tempo fora, os pastores eram revezados por outros todas as manhãs.

(14) Além desta análise sujeita a grandes falhas, em Rio de Onor, assistiu-se, como em muitas outras aldeias a uma espécie de representação. Ou seja após a monografia de Dias, os rionorenses alteraram o seu comportamento de modo a que este ficasse intimamente ligado à escrita e análise deste. O investigador acabou por interferir nos rituais locais e com isso moldar uma cultura. Um dos principais críticos desta situação foi o já referido O’Neill.

 

Os artigos anteriores podem ser consultados aqui e aqui.

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O Martírio de Santo Estevão,  José Clemente Orozco - Musei Vaticani

Fonte da Imagem: Própria

 

 

 

Em tempos normais, nenhum indivíduo são pode concordar com a ideia de que os homens são iguais.

Aldous Huxley

 

São muitas as obras, em alguns casos conotadas com uma certa utopia (1), que têm minado o imaginário de muitos de nós e até daqueles que acreditam num Mundo mais igualitário e numa economia que não exclui qualquer cidadão e incorpora todos estes na mesma campanha. Um dos maiores exemplos em Portugal deste tipo de cultura é o caso da Aldeia de Rio de Onor, explorado pelo ensaio de Joaquim Pais de Brito (2) e a monografia de António Jorge Dias (3) que foram ao encontro do conceito “maravilhoso” de Eric Wolf de “comunidade corporativa fechada”.

 

Procurarei assim, apresentar uma relação entre aldeia comunitária com uma certa economia solidária e perceber até que ponto podemos afirmar um total igualitarismo, que durante décadas apaixonou antropólogos, sociólogos, economistas e meros curiosos, e ainda em que medida, a economia praticada se pode dizer solidária e dotada do exotismo e perfeição rural que Jorge Dias tão bem desenvolveu na sua monografia.

 

Procurei conhecer a aldeia de Rio de Onor e o seu dia-a-dia de cariz comunitário, entrando seguidamente nas experiências diárias e com estas fazendo a ponte para a aferição de Rio de Onor como um exemplo a aplicar como case study para outras iniciativas de cariz comunitário ou até solidário. Não querendo transformar este meu passatempo numa tese, procurarei perceber alguns pontos:

 

  1. O Comunitarismo de Rio de Onor nasce de uma necessidade de sobrevivência das populações ou de uma cultura de oposição?

  2. Será o Comunitarismo de Rio de Onor um verdadeiro exemplo de sociedade igualitária?

  3. Rio de Onor, um exemplo de economia solidária com cariz rural para o futuro?

  4. Podem as mulheres ser uma garantia de sucesso para o futuro de vilas como Rio de Onor?

 

Ao entender estas quatro questões, procurarei mostrar se a tese antropológica que defendeu as comunidades isoladas das montanhas do Norte de Portugal como sendo igualitárias, quer na questão social (abordada por muitos antropólogos, entre eles Brian O’Neill) quer na questão económica, com consequências na primeira e a ser alvo de maior desenvolvimento neste ensaio, foram efectivamente precisas - pode também parecer um tema obsoleto (sobretudo numa Europa desenvolvida), mas nunca me pareceu tão actual se os nossos olhos conseguirem sair da nossa bolha de conforto.

 

Continua (mesmo que não interesse a ninguém)...

 ____________________________________________

(1) Dois bons exemplos são a "Ilha", de Aldous Huxley, ou um dos expoentes máximos desta literatura a "Utopia" de Thomas More.

(2) Ensaio sobre Rio de Onor.

(3) Rio de Onor: Comunitarismo Agro-Pastoril.

 

Alguma bibliografia para os mais interessados:

  • Dias, Jorge, Rio de Onor, Comunitarismo Agro-Pastoril, Editorial Presença, Lisboa;

  • O’Neil, Brian Juan, Proprietários, Lavradores e Jornaleiras, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Pais de Brito, Joaquim, Retrato de Aldeia com Espelho, Ensaio sobre Rio de Onor, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Wolf, Eric, Peasants, Prentice Hall, New Jersey, 1966;

     

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