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llanes_asturias.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

De repente, as rodas travam e numa brusca viragem à direita segue-se em direcção ao mar! "Mas porque é que foi esta manobra?" perguntas... Mais um daqueles momentos em que o automóvel deixa o alcatrão e investe por caminhos onde as pedras saltam à passagem dos pneus. 

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Estamos entre Comillas e San Vicente de la Barquera... O dia já vai querendo despedir-se, a chuva ameça cair em força mas chega até nós em modo "molha-tolos". Caminho inacessível! Voltamos para trás, o carro lembra-nos as viagens aos Açores, com as cavas cheias de lama e esterco. Voltar atrás, novo caminho -"não me metas aí o carro" e lá se vai o branco nacarado - e eis que chegámos a uma pequena estrada de alcatrão... Encontramos a igreja, lá no alto, com o seu cemitério, pois sem ele e as suas promessas de vida eterna, arrisca ficar sem clientela.

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Paramos... Contemplamos o mar e os prados da Cantábria, sobretudo quando, mais uma vez, nos vamos despedir deste pedaço de terra... Onde fica a Igreja? Não conto, fica para nós! Mas é uma das melhores vistas da Cantábria!

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Estamos perto de San Vicente de la Barquera e como manda a tradição (a nossa), é preciso parar à entrada da ponte e apreciar o estuário com as montanhas de um lado (já se avistam os Picos da Europa) e o mar cantábrico do outro. Chove ainda, pouco, mas o suficiente para molhar os nossos rostos, o nosso cabelo que já pede uma lavagem. Cuidado, a chuva já não molha só tolos, vai ficando mais grossa... Ficar por ali... Simplesmente ficar a apreciar a ria. É o que mais nos encanta nesta vila piscatória, com o seu castelo e a famosa "Iglesia de Santa María de los Ángeles". Gostamos de estar por lá, descer à praia e beber o ar da montanha em perfeita harmonia com o a brisa marinha.

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As pontes, o colorido das embarcações, os ecossistemas e uma luz (ou falta dela) que nos transporta para aqueles dias carregados em que a ida ao mar é mais atrevida e onde o sustento dos homens da faina pode trazer a morte.

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Apesar de pequena, esta vila é carregada de história, com a sua origem romana (consta) até à ponte de "Maza" mandada construir pelos Reis Católicos, não fosse este um ponto de passagem fundamental entre a Cantábria e as Astúrias

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E por falar em Astúrias, Llanes está perto... É hora de fazer pouco mais de 30 km e partir em direcção às Astúrias. A diferença é reduzida, mas existem pequenos apontamentos que tornam as terras do Principado ligeiramente diferentes da Cantábria.

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Mais uma vila junto ao mar, histórica e com um património invejável! Llanes foi também vila baleeira e hoje o porto é uma pequena amostra do que outrora foi a azáfama naquela terra.

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De destacar a muralha e claro, a "Basílica de Santa María del Conceyu", data do século XII. Também não faltam edifícios de impar beleza como o "Casino de Llanes" e palácios nobres!

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A praia é também um dos atractivos especialmente a "Playa del Sablon". Mas deambular pelo casco antiguo e terminar essa caminhada junto à comunhão do Carrocedo com o mar é algo que não deixa ninguém indiferente. Começar o dia com esse percurso e terminar com uma tortilla de patata enquanto os comerciantes ainda iniciam a montagem das suas bancas é a experiência perfeita para ainda sentir o pulso à vila e imaginar o convívio entre pescadores e agricultores!

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A simpatia da Cantábria também aqui não sofre grandes diferenças e o tardio despertar também não, ou não estivéssemos em Espanha. Llanes é talvez uma daquelas vilas que podem ser o fim e o início de um dia de viagem, a aurora e o crepúsculo! Perder um destes momentos pode levar a que só possamos trazer "metade" da vila connosco.

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E ainda só entrámos nas Astúrias, mas até a "fabada" já tem outro sabor... Sobretudo se confeccionada com os sabores do mar...

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P.S.: Praias? O que não falta são praias! Quem quiser saber mais pode consultar este site e fazer download da APP - lá encontra também uma lista (por comarca) das praias asturianas. É super completa com os itinerários, descrição e infraestruturas entre outras informações muito úteis! Perfeito!

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Venga!

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Regresso ao Passado em Santillana del Mar...

por Robinson Kanes, em 05.08.19

IMG_0050.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A estrada deve levar-nos directos a Comillas. A A8 (Autovía del Cantábrico) é demasiado rápida para os nossos intentos... A Cantábria traz-nos a recordação da Bretanha e da Normandia até que entre Santander e o destino final esbarramos com Santillana del Mar!

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Voltamos atrás no tempo, além disso, uma sidra já não cai mal, sobretudo se vier acompanhada com uma tapa de morcela de arroz... Santillana del Mar é voltar atrás no tempo, como tantas outras vilas da Cantábria e de Espanha - começa na senhora com perfil de século XIV que nos cobrou o estacionamento. A "vila das três mentiras" (não é santa, não é plana nem fica perto do mar) transporta-nos para uma época distante onde o casario cantábrico salta à vista.

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O turismo é agora, muito provavelmente, a grande alavanca económica da vila, no entanto, a simpatia com que cada um de nós é atendido nas lojas, nos cafés e por todos aqueles que amam a sua vila é de sublinhar, constrastando talvez com os ferozes habitantes de outros tempos que andavam por Altamira, bem perto.

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O grande destaque é a "Colegiata de Santa Juliana" que entre o casario e os campos nos apresenta uma arquitectura singular de influências românico-góticas não datasse a mesma de finais do século XI, embora tenha origens no século IX ("Monasterio de Santa Juliana"). É o mais importante marco românico da região e isso é mais que suficiente para provocar alterações na rota!

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Bem... Isso e trazer dois sacos carregados de "Corbatas de Santillana del Mar", "Quesadas" (que em vácuo aguentam dias de viagem), "Piedras", "Sobaos" e muitas "Palmeras de Chocolate" - basicamente palmiers de chocolate mas com menos açúcar e bem mais... Enfim, saborosos? Este website tem algumas das receitas destes doces tradicionais e o lado bom é que podemos encomendar online! É uma pouca vergonha, admito, mas... Enquanto houver espaço na bagageira e uma praia como a de Santa Justa para destruir, qual monstro das bolachas, os palmiers... Nada a fazer...

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É hora de regressar à estrada e agradecer à senhora de ar medieval...

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valladolid.jpgImagens: Robinson Kanes

 

Valladolid sempre teve um significado especial, não só pela sua universidade que é uma das mais antigas do mundo mas também pela importância que tem para a língua castelhana. A isto, acresce o facto de ser um ponto de passagem de muitos emigrantes e camionistas no "acesso à Europa". Parar torna-se obrigatório, embora muitos não o façam e percam uma excelente oportunidade de ficarem mais ricos...

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Chegar a Valladolid não fascina, sobretudo se viermos de Salamanca ou até mesmo do calor "extremeño", no entanto, depois de uma caminhada junto ao Pisuerga (que é afluente do Douro), podemos ficar a conhecer melhor uma cidade que, à semelhança de todas as cidades espanholas, tem nas pessoas a sua força, o seu ritmo e a sua vida. 

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Comecemos junto ao edifício do "Instituto Zorrila" e encontramos o "Colegio de San Gregorio" que além da beleza em termos de arquitectura é também o "Museo Nacional de Escultura" - só por isto já vale a pena passar uns dias nesta cidade. Passar umas horas a admirar muito do que a escultura espanhola é um bom início! Adicionem o facto de, praticamente na mesma praça (Plaza de San Pablo), terem a "Iglesia de San Pablo", com uma fachada singular e o "Palacio Real"

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Mas Valladolid, ao contrário do que possa parecer, é uma cidade grande... Se seguirem pela "Plaza de San Pablo" e entrarem na "Calle de las Angustias", rapidamente atravessam um relvado onde, no lado esquerdo, encontram a "Iglesia de Santa María la Antigua": uma igreja interessante, austera e onde o românico e o gótico se misturam de um modo particular! Se continuarem em direcção à Catedral, ainda vão passar pelas ruínas da "Colegiata de Santa María la Mayor" - se gostam de ruínas, têm aqui, na "Plaza de Portugalete" um com que se deliciar. 

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E eis que chegamos à Catedral, ou melhor, "Catedral de Nuestra Señora de la Asunción"... É austera, o que me agrada, no entanto, está longe de ser uma das mais bonitas de Espanha... Quem espera encontrar grande monumentalidade não terá grande sorte, o que não impede a visita, bem pelo contrário. Uma desculpa para ficar por aqui pode ser a oportunidade para "pinchar" algo... Não faltam locais para comer e beber qualquer coisa, embora, em Valladolid a diferença entre espaços de "tapeo" seja pouca.

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Esperem! Não abandonem esta área sem apreciar a estátua de Cervantes e a Universidade! É mesmo ao lado da Catedral, não há como deixar para trás! Depois de deixarem a Cervantes um grande obrigado pela herança que nos deixou, o ideal seria descer imediatamente pela "Plaza de Libertad", apanhando a "Calle Ferrari" para chegarem à "Plaza Mayor", uma das imagens de marca da cidade - aliás, qual é a Plaza Mayor em Espanha que não é uma imagem de marca da respectiva cidade ou vila? No entanto, é preciso uma paragem obrigatória: a "Pasaje Gutiérrez"! (Maldição! Tenho as fotos num outro local... Fica prometida a partilha e com o bónus do "Palacio Pimentel"). É nesta pequena galeria que encontramos alguns cafés deveras interessantes e com um gosto bem particular, o ideal para beber um copo ou até jantar! Muito se fala de Milão, por exemplo, mas toda aquela sumptuosidade, em meu entender, tende a ser absorvida pelo ambiente deste local! Agora sim, "Plaza Mayor"! Aproveitem e bebam uma "Mahou 5 estrellas" enquanto apreciam a torre do relógio e o Ayuntamiento.

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E como o dia pode estar a acabar, nada como aproveitar o fim de tarde para passar na "Academia de Caballería" onde podem encontrar, além do espectacular edifício, um excelente "arsenal" de artefactos que retratam muito do que foi e é a cavalaria em Espanha. Contudo, porque os finais de tarde são longos em Espanha, dar um passeio mais romântico pelo "Campo Grande" é fundamental para fazer divergir novamente a atenção para quem nos acompanha. Mas cuidado, os patos e os pavões são reis neste ecossistema!

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A noite aproxima-se, por isso, existindo cartaz, nada como agendar um programa no "Teatro Calderón de la Barca", isto antes de "salir de copas", isso é fundamental para um dia/noite bem passada nesta cidade de Castilla y León.

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Ao acordar, no dia seguinte, rapidamente ficamos com a ideia de que como destino final ou como mera paragem de uma longa viagem, Valladolid "nos encanta" e tem aquela magia especial que tende a não se mostrar após um primeiro olhar. Não podia faltar a poesia ou não tivesse nascido aqui o poeta José Zorrilla.

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Muito importante! O Mercado, o "Mercado del Val"... Como em qualquer cidade, é uma visita obrigatória e acima de tudo uma oportunidade de encher o saco, especialmente se pudermos trazer os produtos frescos connosco! Estes espaços têm sempre um encanto especial que vai para lá das fotografias... Os cheiros, as pessoas e a história, toda uma cultura nos corredores e nas bancadas... E também na carteira...

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IMG_6325.jpgCréditos: Robinson Kanes e GC

 

 

Carro a trabalhar... A tempestade ainda a dizer presente, embora mais calma... Primeira paragem, as cascatas do Poço da Ribeira do Ferreiro e depois a Fajã Grande - não foi por acaso que esta ainda não foi falada e ficou para o fim.

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No Poço da Ribeira do Ferreiro ainda se notavam os danos de um tempo mais agreste, por sua vez, ao longo da estrada já se procediam a algumas limpezas. Se pensamos que é impossível ficarmos impressionados como na primeira vez, esse mito cai por terra. A aproximação, mesmo por estrada, já antevia aquilo que estaria daqui a minutos diante de nós. Algum vento forte empurrrava a água para cima num espectáculo único de luta entre duas forças da natureza. O corta-vento e a roupa resistente são agora obrigatórios, muita lama, alguns aguaceiros ainda surpreendem - e claro, o vento...

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A chuva não nos demove, nada nos pode demover daquele espectáculo embora o mero do Sr. Rogério já esteja esquecido pelo estômago! É essa necessidade que nos faz partir em direcção à Fajã Grande e voltar a comprar umas latas de atum numa pequena mercearia gerida por um senhor, já com alguma idade - uma mercearia das antigas mas que ainda abastece os habitantes daquele local. Pão e atum, uma ou outra recordação e em frente ao mar - que não está pelos ajustes - saboreamos aquele repasto que, nos Açores, tem um sabor especial - além disso é ótimo para quem pratica desporto! O pão não, pronto...

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Na Fajã Grande o tempo oscila entre a chuva e algumas abertas - agora uma "chuva miúda", que conseguimos aguentar melhor. Dentro do carro, acabamos o atum que nos sabe pela vida e contemplamos aquele mar, um mar infinito e que nos coloca em sentido apesar da paixão que temos pelo mesmo. Pensamos nas lutas de muitos e muitos daqueles que se dedicaram as suas vidas à pesca... Regresso a uma das minhas origens, ou pelo menos a alguns dos locais onde, na minha infância, assitia à azáfama da faina.

IMG_6047.jpgO mar está forte, bem como o gostamos de ver em terra. Olhamos para o relógio... Ainda temos tempo, é hora de regressar a Santa Cruz - vamos conseguir visitar o Museu da Fábrica da Baleia do Boqueirão - embora nos choque como é que é possível matar um animal como a baleia, entendemos que também está por detrás um sem número de histórias de vida e de pessoas que deram essa mesma vida para poderem sobreviver naquela ilha dos Açores. 

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Aproveitamos, damos mais uma volta para sentir o frio das cascatas e da chuva no nosso rosto!

 

Continua...

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho!

Flores, Parte 2: O Poço da Ribeira do Ferreiro, a Rocha dos Bordões e a Fajãzinha...

Flores, Parte 3: Calçar as botas e percorrer as Lagoas...

Flores - Parte 4: A Subida ao Morro Alto - Pico da Sé e as Falésias da Costa Oeste

Flores - Parte 5: A Surpresa da Costa Nordeste e da Ponta Norte!

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O Turismo, o Instagram e Santorini...

por Robinson Kanes, em 06.06.19

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Créditos: Xuan Nguyen

 

Recentemente li um artigo do "The Economist", da autoria de Jessica Bateman, que dava conta de uma preocupação crescente em relação ao turismo nas ilhas gregas, particularmente em Santorini. Ao ler esse artigo, mais uma vez, dou-me conta da necessidade de encarar o turismo como uma verdadeira indústria e também de apostar na sustentabilidade deste sob pena de termos mais uma indústria que financia uns tantos e destrói milhões. 

 

Quem já foi a Santorini, rapidamente vai perceber o encanto da ilha, sobretudo se visitarem a mesma durante a época baixa - embora a visita a ilhas menos conhecidas possa ser uma surpresa ainda maior. Como refere o artigo, a verdade é que redes sociais como o "instagram" têm aumentado o desejo em visitar a ilha - e como eu entendo, apesar de preferir a aurora ao crepúsculo, este último, o momento mais desejado na ilha.

 

O "instagram", entre outras redes sociais, levou a um aumento de 66% nas dormidas sobretudo numa época em que o turismo na Grécia sofria os efeitos da crise. Tudo isto é fantástico, no entanto, num país onde nem sempre as leis são respeitadas, temos um aumento da pressão e da especulação imobiliária e um sem número de situações de corrupção - esse panorama já é visível em Lisboa. Segundo o artigo, que cita Ioannis Glinavos, Professor na Westminster University em Londres, existem algumas restrições que passam ao lado de quem legisla e basta pisar o local para perceber que a impunidade reina - mais uma vez, é um exemplo que podemos ter em Portugal! A título de exemplo, visitem Alcochete e reparem como se constrói "em cima" do Tejo e de uma Reserva Natural - por sinal, uma das mais importantes da Europa e (estranhamente) menos importantes de Portugal.

 

O aumento do número de visitantes (totalmente descontrolado) e as consequências desse efeito vão acabar por destruir a autenticidade da ilha, fazer desaparecer outras actividades (a vinha é um exemplo) bem como o tecido social e a própria natureza - já é a própria União Europeia que o diz, acentuando também o facto de que a gestão urbanística da ilha está sob dependência do Governo Central. Num país com as características da Grécia, é totalmente inconcebível!

 

Por outro lado, aqueles que investem no turismo da ilha tiram o máximo proveito da situação e esforçam-se por aumentar legitimamente as suas receitas - actualmente, o posicionamento de talheres e copos tem em conta as fotografias que irão ser tiradas pelos clientes. Redes como o "instagram" são, neste momento, o maior aliado em termos de marketing - a "foto feita" tem um impacte sem precedentes e todos querem tomar parte na mesma! Numa sociedade onde todos queremos ser diferentes também acabamos todos por querer pertencer a um grupo e seguir a mesma tendência. Deixo essa análise para outras "letras"...

 

Mas colocando o foco no "instagram" ou em que faz uso do mesmo, também é preciso educar o turista: não são raras as invasões de espaço e a destruição do mesmo - vale tudo por uma fotografia e corremos o risco de criar o efeito de repulsa! Alguns exemplos são dados e muitos acabarão por se rever nos mesmos: bater às portas, entrar dentro de espaços privados, subir a telhados e a falta de respeito com os locais. Temos aqui um paradoxo, pois aquilo que atrai turistas à ilha acaba efectivamente por ser destruído pelos "mesmos canais" que criam esse desejo de experimentar. 

 

Acredito também que temos de ter em conta que o turismo é uma actividade que se pode considerar de luxo e que, não raras vezes, é desenvolvida num precipício em que de um lado temos o turista (rico ou aparentemente rico) e do outro o autóctene (mais pobre). Quando a invasão e destruição tende a ser em demasia podemos ter efeitos nocivos, sobretudo quando a exploração turística não é feita pelos locais e os mesmos não são consultados nos processos de desenvolvimento da mesma.

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IMG_5964.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

A manhã está chuvosa e ventosa, a noite foi agitada, mal se conseguiu dormir (aquele ruído bom das tempestades)... O mar agitado não traz boas perspectivas. Tomamos o pequeno-almoço, não no Porto Velho, pois ainda é cedo, mas em Santa Cruz - o mar não mudou, a chuva também não e o vento muito menos. E perdoem-me a piada com o Eduardo Nascimento, também "ele não voltou".

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Vamos entregar o carro, desta feita, como em tantas outras vezes, foi na "Ilha Verde". Sempre simpáticos e impecáveis, quer à chegada - que se deu com um dia de atraso - quer à partida quando nos disseram que o melhor seria não entregar já o mesmo! Conhecendo a pista das Flores, ficamos com a sensação que o voo que deveria chegar da Horta para nos levar para Ponta Delgada (São Miguel) poderia não vir. No check-in, pediram-nos para aguardar. 

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A chuva e o vento não acalmaram e quem já vai viajando entre ilhas, percebe que o voo não vai sair! Esperamos pelo Q400 que não chegará! Temos a certeza quando somos chamados ao balcão e nos dizem que o voo foi cancelado e indagam se precisamos de transporte e alojamento! A simpatia e a forma como tal é feito pelo staff da SATA é sempre irrepreensível! Ficar nas Flores não é a pior coisa do mundo, apesar dos compromissos em São Miguel... 

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Primeira situação, o carro de aluguer! Problema resolvido, mais um dia e com total apoio do rent a car. A mim não me pagam para publicidade, mas se há coisa que não me canso de elogiar nos Açores é a "Ilha Verde" (a Sixt também) e a "Sata"... Outros também, mas já fui falando e também os abordarei.

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Alojamento e refeições... Um voucher e aí vamos nós para o Servi-Flor! O Servi-Flor tem várias particularidades que o tornaram num dos pontos altos desta aventura - é um hotel antigo, onde os materiais são antigos, de facto, mas onde o estado de conservação dos mesmos e a limpeza são irrepreensíveis! Não importa se os móveis são dos anos 50, estão bem mantidos, limpos, pelo que é viajar no tempo naquela que foi a antiga messe da base militar francesa nas Flores! Simplesmente formidável, até porque os pratos ainda fazem menção a esse passado...

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Somos bem recebidos pelo Sr. Rogério, aquele ar mais austero acaba por esconder um dos indivíduos mais simpáticos da ilha! Vamos almoçar e quando temos a ideia de que vem aí uma comida "à hotel" eis que... Uma surpresa... Um peixe (Mero com banana) maravilhoso e um outro prato que já não me recordo! Um queijo da ilha como entrada e tudo com um sabor único! Ficamos impressionados, até porque só depois de deixarmos o hotel é que percebemos que o cozinheiro é o próprio dono do hotel, o Sr. Rogério!

 

Melhor do que isso, mais uma daquelas coisas que só a Sata consegue fazer: somos informados no hotel de que a Sata prolongou o nosso voucher para o almoço do dia seguinte para que a viagem fosse mais tranquila e pudessemos ir de... "estômago aconchegado"! Nem a Qantas, a Air New Zealand sequer alguma vez me nos fizeram uma coisa destas!

 

Pouco passa do meio-dia, o tempo piora... Piora bastante, vem aí uma tempestade. O Sr. Rogério, conhecedor da ilha, rapidamente nos diz que podemos pegar no carro ao fim de uma hora e partir para visitar as cascatas pois vão ficar cheias de águas e o espectáculo será outro! Como somos doidos, nem perguntamos como é que será possível pegar num carro, percorrer meia ilha enquanto o fim do mundo se está a aproximar! Ficamos radiantes e dizemos que é isso mesmo que iremos fazer, mesmo quando os estores parecem estar prestes a ser arrancados pelo vento! No final da conversa, e é importante dizer, mais um grande elogio, por parte do Sr. Rogério, ao Comandante Luis Gouveia da Sata! É um herói dos céus dos Açores!

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Mais do que por nós, ao espreitar pela janela do quarto, tememos pelo carro... Afinal não somos os proprietários do mesmo. A verdade é que o tempo abrandou... Vejamos, deixou de ser o fim do mundo e passou a ser algo como o fim da Terra... Metemo-nos ao caminho não sem ver na cara do Sr. Rogério um sorriso! Acredito que terá pensado: "para continentais não estão nada mal! Eu a pensar que hoje já não deixavam o quarto com medo".

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Não é nas Flores, mas é no apaixonante Corvo... E porque no dia em que foi escrito este artigo, o Sapo publicou esta notícia.

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Continua...

 

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho!

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Flores, Parte 3: Calçar as botas e percorrer as Lagoas...

Flores - Parte 4: A Subida ao Morro Alto - Pico da Sé e as Falésias da Costa Oeste

Flores - Parte 5: A Surpresa da Costa Nordeste e da Ponta Norte!

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IMG_6198.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

Desta vez não começamos no Porto Velho e partimos directamente de Santa Cruz. O sol está radioso e o Corvo que tantas saudades nos traz fica ali bem perto a mostrar-se orgulhoso e dividindo o seu espaço no grupo ocidental com as Flores. 

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Estamos prestes a entrar num mundo em que o nosso amigo alemão e alguns florentinos nos disseram ser mais desconhecido - a Costa Nordeste. Mal sabemos a surpresa que está prestes a acontecer e para quem gosta de road trips junto à costa será mesmo um verdadeiro regalo.

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O vento ganha força, mas ganha aquela força de, sedutoramente,  fazer movimentar os cabelos de uma companheira de viagem. As nuvens, essas fogem para o Corvo. Pensamos em como é que podemos ter, em tão curto espaço de terra, uma marginal assim tão bela!

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Santa Cruz fica para trás e chegamos à Fazenda! Conhecida pela sua Igreja em homenagem a Nossa Senhora de Lourdes, ficou para nós também conhecida pela queijaria - o alemão tinha razão! Um queijo divinal, um mel de bradar aos deuses e um doce de Açará que nunca haviamos experimentado - um trabalho artesanal, com as devidas condições, mas que nos fez questionar se estávamos no local certo: uma vivenda com um casal, a sua filha adolescente e os seus simpáticos cães! Acompanham-nos, são genuínamente simpáticos e afáveis, dão-nos a provar vários tipos de queijo, o doce de Açará e o mel! O pai, um homem das beiras que já é florentino, dá-nos a provar o fruto que é o Açará e ficamos radiantes. 

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Falamos do potencial e da qualidade dos produtos que é irrivalizável e de como é que os mesmos podem ganhar mais mercado, infelizmente - e espero que me perdoem por abordar esta questão - há quem se aproveite em Lisboa da boa vontade e humildade desta gente e até lhes troque o nome do queijo! Do melhor queijo que já provei, feito por pai, mãe e filha e o mesmo se aplica ao mel e ao doce - juntar tanta qualidade e sabor num só produto não é para todos!

 

Trazemos os sacos cheios, mel, doce e queijo que farão as delícias de muitos, aliás, na mesa de Ano Novo, foi o amanteigado das Flores que mais sucesso fez numa vasta mesa de comensais e entendidos! Se por aí existe alguém interessado num bom negócio, contacte estes senhores, eu até posso fazer a ponte.

 

Trazemos aqueles três sorrisos connosco e continuamos a nossa aventura! Apreciamos as falésias e paramos no Miradouro dos Caimbros para respirar, pois nem sempre é possível parar o carro e seguir a pé! Que paisagem... E a memória do Corvo... E aquele fim de tarde no BBC na companhia do Fernando Maravilhas e daquelas gentes! Temos também a perspectiva de Santa Cruz com uma vista única e surpreendente - a manhã não poderia ser mais perfeita!

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Se de um lado o sol espreita, nas montanhas as nuvens ameaçam com uma carga de água que acaba por não se confirmar e permite que, entre excelentes fotografias daqueles montes, possamos contemplar a vegetação junto à estrada que é particularmente interessante - dizem nas Flores que podemos entrar na mesma e desaparecer!

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Já estamos perto de Ponta Delgada e deparamo-nos com mais uma vista única! A vila com o Corvo ao fundo faz-nos ficar por ali e esquecer a fome que já aperta, afinal são três da tarde e com tantos périplos e encantes, simplesmente esquecemo-nos que almoçar é uma obrigação para manter o corpo e a alma bem activos!

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Apreciamos as cores que o sol entre as nuvens proporciona no solo e entramos na vila - sabemos das limitações e estamos preparados para não almoçar, no entanto, também estamos nos Açores e na Associação oferecem-nos um café e acabamos por terminar no "Pescador"! Primeiro a surpresa de que ninguém almoça depois das três da tarde, mas depois a simpatia de nos proporem todo o menu, mesmo depois de termos explicado que uma sandes e uma água eram mais que suficientes e não queriamos dar trabalho - acabamos com uma feijoada e um ensopado de borrego que nos souberam pela vida! Mais uma vez, um acolhimento como este só nos Açores.

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E quando pensamos que, com tanta coisa boa, o dia está a acabar, eis que a maior surpresa ainda está para vir!

Continua...

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Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho!

Flores, Parte 2: O Poço da Ribeira do Ferreiro, a Rocha dos Bordões e a Fajãzinha...

Flores, Parte 3: Calçar as botas e percorrer as Lagoas...

Flores - Parte 4: A Subida ao Morro Alto - Pico da Sé e as Falésias da Costa Oeste

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Hoje o dia é de subida... A manhã está calma apesar do mar não dar tréguas. No Porto Velho, a animação do costume, entre os lobos do mar, um engravatado, o alemão e nós! Depois do café com leite e das tostas mistas - a "toxta mixta" como nos recomendou o nosso amigo germânico - é hora de colocar os viveres para o dia no carro e avançar. 

 

A Zona Central está calma, algum vento, a neblina habitual e uma enorme vontade de subir serra acima. Chegamos e apeamo-nos através do caminho vermelho, como lhe chamamos e que, para mim, é sempre uma imagem que associo aos Açores. E aí vamos nós na esperança de apreciar a vegetação e as marcas da Macaronésia, nomeadamente a Floresta Laurissilva. 

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Agora com mais vento, mais neblina, mas a casmurrice faz-nos continuar - mal sabemos que a chegada ao "topo das Flores" (914m de altitude)  vai ser bastante enovoada - todavia, ainda conseguimos a panorâmica desejada e que, para nós, seria o ponto alto da caminhada - a Lagoa Branca! Paramos, abastecemos o estômago, ainda temos de subir a furar o nevoeiro e o vento!

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Casmurros, mais uns metros à frente, temos a sensação que estamos a subir o Evereste, a neblina é cerrada, o vento torna-se forte! Aguentamos, não sei se nos arrependemos ou não, mas aguentamos! Aguentamos e pensamos nas dificuldades que teriam as gentes da Fajã Grande para atravessarem a ilha e dos pastores que noutros tempos por ali pastavam os seus rebanhos - ainda hoje o fazem, mas em muito menor escala. Pitoresco... bucólico, mas duro... O tecido social dos Açores não se desenhou com facilidades e o que hoje admiramos encerra séculos de vidas muito duras.

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Iniciamos a descida, a próxima paragem são as vistas para as "Falésias da Costa Oeste". Regressar ao carro é ótimo - apesar do frio não ser muito, a humidade já causava os seus danos. Paramos para apreciar a água que, levada pelo vento interrompe a sua marcha em direcção ao solo e é devolvida à origem.

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Voltamos a apreciar as cascatas, agora com uma vista de cima. Imaginamos o espectáculo que ali está a acontecer. A tentação de regressar ao Poço da Ribeira do Ferreiro é enorme e voltamos a colocar a mesma na lista de prioridades diária. O vento aumenta de intensidade mas não desmobilizamos, sentimos o ar do Atlântico a invadir-nos, sentimo-nos parte daquela natureza, queremo-nos sentir na pequenez de sermos humanos.

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A vegetação nesta área da ilha é simplesmente bela, apelativa e muito favorecida pelo tempero do oceano. Desde o Morro, desde a mais rasteira à mais elevada, proporciona a nossas delícias e "empata-nos" no nosso regresso a Santa Cruz onde somos convidados por um dos colaboradores da Caixa Geral de Depósitos a ficar na ilha! 

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Apesar da proximidade, o regresso a Santa Cruz é sempre demorado, existem sempre novos locais, novas preciosidades que chamam a nossa atenção... É tudo isto que torna uma pequena ilha num pedaço de terra enorme.

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Continua...

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho!

Flores, Parte 2: O Poço da Ribeira do Ferreiro, a Rocha dos Bordões e a Fajãzinha...

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Créditos: Robinson Kanes e GC

 

A manhã chega com o som do mar a dizer-nos que não está para grandes conversas... Apesar do vento, procuro sair e ficar a sentir a brisa no rosto, a recordar os meus tempos em que passava o fim de semana junto dos lobos do mar e sentia aquele cheiro em Porto Dinheiro ou em Peniche. 

 

Contudo, mesmo para quem gosta de mar, o estômago é quem manda e claro, o pequeno-almoço é no Porto Velho - duas tostas, dois sumos e dois cafés! O resto da refeição é preenchido com animação a cargo dos diálogos entre lobos do mar.

 

Chega a hora de nos fazermos ao caminho e, logo após o Lajedo,  apreciar a "Rocha dos Bordões", ponto de fulcral importância para os habitantes das Flores, além disso é um interessante ponto geológico na medida em que estamos perante uma rocha que se formou pela solidificação do basalto em altas estrias verticais - pensamos em iniciar uma "escalada", mas a incerteza com o tempo e com as autorizações faz-nos recuar.

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Continuamos na direcção de um local que não nos faria recuar nunca, nem que estivessem ventos muito acima dos 200 km/H - na semana anterior a passagem da tempestade "Diana" foi bem sentida embora sem estragos de maior. Refiro-me obviamente ao "Poço da Ribeira do Ferreiro" ou "Alagoinha" como também é conhecido. Para aqui chegar o caminho é feito a pé, e depois de dias de tempestade, nem sempre o caminho está nas melhores condições, no entanto... Preparem-se para entrar numa outra dimensão e deixem-se envolver pela vegetação cerrada, pelos cheiros e pela natureza no seu estado mais puro e, de repente... entram num outro mundo. As cascatas e o poço a fazerem-nos pensar se estamos realmente em Portugal ou numa qualquer floresta tropical. 

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Com aquele local só para nós, ficamos por ali muito tempo, tiramos fotografias, comemos algo para repor energias e não fechamos os olhos! Ficam bem abertos a absorver tamanha beleza para que jamais percamos tais imagens do nosso pensamento! Ousaria dizer que um dia é pouco para por ali ficarmos...

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E por ali ficamos, mas não descansamos, o espectáculo com que nos deparamos não o permite...

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Mas a fome aperta e também as botas pedem mais caminho, é altura de ir até à Fajãzinha (Mosteiro e a Caldeira -sem habitantes desde 1992 por questões de segurança - serviram para relaxar). 

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Descemos e encontramos a pacatez, o silêncio e a pa que caracterizam o local... Temos outra visão da ilha e do espaço, ficamos indecisos entre o apelo da serra e do mar, das gentes e de um cheiro a comida que anda pelo ar...

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Do lado da serra, a neblina anuncia que o tempo muito provavelmente vai fechar e ainda temos mais uma etapa pelo caminho antes de jantar com um casal de alemães (novamente os alemães, mas não me perguntem porque temos esta afinidade com aquele povo) num restaurante onde os produtos servidos são todos locais e biológicos - a Casa do Rei, também nas Lajes da Flores! Uma nota, o restaurante é propriedade dos mesmos.

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Mas antes do jantar é preciso arriscar um pouco mais e partir em direcção à Fajã Lopo de Vaz, mais escondida e mais perigosa! Queremos, contudo, ver as cascatas a debitarem a sua água no mar e queremos percorrer todos aqueles caminhos enquanto o vento e a cacimba nos afrontam. Chegamos ao ponto onde as tempestades também entram pelas Flores, por norma, antes que de chegarem a outros grupos e até ao continente, é nas Flores que as tempestades abrem as hostes em território português!

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Nas Flores, por pior que seja uma tempestade, nunca é um drama para os seus habitantes, diz-se mesmo que, quando nas ilhas do grupo central e oriental ficam em pânico, nas Flores, onde estas são mais fortes, o povo recebe-as calmamente, até porque é aqui que, por norma, são mais fortes.

Continua...

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho

 

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Corvo: Uma Ilha do Tamanho do Mundo! (Parte 02)

por Robinson Kanes, em 08.04.19

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Apesar da dimensão, caminhar pelas poucas ruas da vila do Corvo tem o seu interesse: respira-se o ar do mar, sente-se o isolamento - não se pode negar - mas sente-se também a distância de tudo e de todos. No caso de alguém que vive numa cidade não existe melhor refúgio. Se a isto juntarmos a simpatia e boa disposição dos corvinos temos o mote certo para voltar muitas vezes ao BBC pois rapidamente conhecemos quase todos os habitantes da ilha. Mas paremos para pensar aqui: quantas vezes, com tantas e tantas pessoas à nossa volta e também nos sentimos isolados?

 

O tempo continua a melhorar e o sol espreita - optamos por não repetir a caminhada a pé até ao caldeirão, como é conhecida a caldeira do Corvo e, se não a mais bonita, é por certo uma das três mais belas do arquipélago! Descobrimos, por mero acaso, pai da Vera! Prestável, lá nos coloca na sua carrinha e nos leva  ver a caldeira! Fazer a estrada (ou o caminho a pé) até à caldeira é uma experiência única - a proximidade com o mar, o cruzamento com o gado (ou não fosse o Corvo uma ilha dos Açores) e a oportunidade de observar algumas aves.

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O momento alto é a oportunidade observar a caldeira e imaginar o que terá pensado Diogo de Teive em 1452 quando se deparou com um dos monumentos mais belos que o planeta Terra tem: aquela caldeira situada a 718m de altitude - Um autêntico coliseu e cujas pequenas ilhas no seu interior se assemelham às 9 ilhas do arquipélago. 

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Se me perguntarem se vale a pena apanhar um voo na Nova Zelândia só para ver este caldeirão, a minha resposta é imediata: sim! É daqueles locais onde queremos ficar horas e horas a contemplar o mar pelo miradouro, a apreciar o interior da caldeira e a escutar o som do gado que por lá deambula sem restrições, afinal, aquele espaço, mais que nosso, é deles! Chegar, tirar uma fotografia e voltar é desrespeitar tão impactante local!

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Por ali ficámos uns bons 90 minutos, trocando impressões e absorvendo toda aquela magia natural! O dia foi passando e acabámos a contornar a ilha pelo lado oeste e a deambular pelos campos agricolas enquanto a chuva já começava a molhar. Não foi isso que impediu que sujássemos os pés e voltássemos a parar para apreciar umas laranjas directamente arrancadas da árvore - ainda não estavam doces pelo que, as do Pico continuam a merecer a nossa preferência.

 

Acabamos a tarde num espaço singular, uma das casas onde o pai da Vera, entre uma bebida e uns cigarros nos fala da ilha, dos Açores, de como é fácil e desafiante viver num pedaço de terra com pouco mais de 17 km2. Falamos das festas, da praia, da cerveja - uma instituição na ilha do Corvo - e de como todo o mundo também pode estar naquele pedaço de terra. Ficamos a saber que no Corvo, todos aqueles que chegam têm um tecto e comida na mesa e também que todos aqueles que não chegam com boas intenções rapidamente são envergonhados pelos locais - conta-se que em tempos, um desses indivíduos foi despido e amarrado no meio da aldeia ficando por lá durante mais de um dia. A verdade é que sentimos isso, até porque fomos várias vezes convidados para jantar aqui e ali!

A noite começa a dar sinais de que quer tomar conta dos céus e descemos à vila. Bebemos mais um café e um copo no BBC e preparamos o estômago para a jantarada enquanto vamos conversando com dois músicos de Ponta Delgada responsáveis por animar o serão.

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A festa acabou de madrugada e logo cedo, depois de um bom pequeno-almoço e de uma visita aos moinhos, voltámos ao aeroporto ainda sem saber se o voo aconteceria. O avião chegou, e as duas viaturas do bombeiros esperam sempre a chegada dos aviões com os motores ligados - Finalmente o ok do comandante - Luis Gouveia, uma lenda nos Açores - e partimos!

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Na Vila, mesmo ainda antes de chegarmos ao aeroporto, todos diziam não ser possível: "durmam, deixem-se estar sossegadinhos que vão ficar connosco por uns dias". A verdade é que o Q200 descolou e também é verdade que após ter chegado com uma vontade imensa de sair no primeiro voo que houvesse, fiquei com aquela saudade e também a vontade de ficar mais uns tempos! De percorrer vezes sem fim a ilha, de beber uns copos no "formidável" e no BBC entremeados por umas fatias de queijo do Corvo, de apreciar a praia que nunca apreciei e de simplesmente me deixar levar pela imensidão daquele mundo.

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Perdeu a parte 01? Está aqui!

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