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A Derrocada...

por Robinson Kanes, em 20.11.18

IMG_3902.JPGMonument aux Bourgeois de Calais: Andrieu D'Andres Monumental, Auguste Rodin - Musée Rodin

Imagem: Robinson Kanes

 

Era um homem quando vi Portugal inteiro a arder e os erros a somarem-se uns atrás dos outros. Vi o país a arder de norte a sul e a incompetência a grassar por todas as entidades, desde responsáveis pelos bombeiros, passando pela protecção civil até às figuras máximas da política nacional que não hesitaram um momento na altura de se colocarem como salvadores da pátria. Uma Ministra e um Secretário de Estado que se demitiram e um sem número de responsáveis ainda sem sentirem o peso da Justiça. Hoje, ainda muitos não percebem o que aconteceu aos seus familiares. Dizia-se nunca mais...

 

Desse ano fatídico, não passaram uns meses para que num Outubro, com os mesmos incompetentes a comandar, o fogo voltasse a matar um assustador número de portugueses abandonados às chamas no interior do país. Depois de Pedrogão, o fogo alastrou por todo o centro do país e ainda queimou uma das nossas jóias da coroa, o Pinhal de Leiria. Os do costume... Escaparam impunes e muitos deles andaram a plantar "pinheirinhos" para as cameras de televisão com o sorriso cínico de quem pensa mais no poder do que naqueles que os sustentam. Dizia-se nunca mais...

 

O ano passado, ardeu a Serra de Monchique num fogo que, estranhamente, durou dias e dias e foi um dos maiores de sempre na Europa! Os mesmos responsáveis, os mesmos erros, menos mediatismo (pois não morreu ninguém, como se isso fosse o suficiente para desculpabilizar este tipo de (in)acção). As mesmas fotos, os suspeitos do costume e dizia-se nunca mais... Não existiram salvadores da pátria, não houve mortos nem famílias desses mortos a chorar nos ombros sofrendo a humilhação de políticos inúteis.

 

Recuando no tempo, era um miúdo quando vi cair a ponte de Entre-os Rios e já era um adolescente quando li os versos que estão junto aquele austero anjo que nos corta a respiração, sobretudo quando temos presentes as imagens que deixaram de boca aberta toda uma geração. Um ministro - que não pode saber tudo - que se demitiu, culpados que, convenhamos, escaparam à justiça e um sem número de famílias que ainda hoje desconhece o paradeiro dos seus familiares. Dizia-se nunca mais...

 

Esta semana, não foi uma ponte que ruiu mas uma estrada e os do costume lá estão... O mesmo discurso, a mesma conversa, a mesma impunidade e, como disse e bem, embora a propósito de outro tema, a nossa Ministra da Cultura, "as polémicas hoje duram uma semana". Duram uma semana, amanhã ninguém se lembra. Temos os opinadores que só opinam e nada fazem, nada exigem e só procuram palco e pouca justiça.... E diz-se nunca mais...

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 Fonte da Imagem: https://www.rt.com/news/422490-may-kemerovo-putin-condolences/

 

 

Recentemente, o incêndio num centro comercial na Sibéria fez as aberturas dos telejornais e ilustrou capas de jornais e outros meios de comunicação na Europa – pelo menos, em três países tive oportunidade de me deparar com isso. Tentei procurar em Portugal, mas de facto o futebol, a chuva miúda ou o vestido da festa de algum indivíduo sem interesse para os destinos do país, tem um peso enorme que apaga qualquer outra notícia.

 

Mas não é por aqui que vou, pelo que, acabo por fazer a comparação com a tragédia dos incêndios. Na Rússia, esse país de gente fria, sobretudo face a nós, calorosos portugueses, tive oportunidade de assistir ao choque das pessoas, às lágrimas do cidadão comum e à partilha da dor nas ruas. Vi o foco nas pessoas e não em políticos ou nas chamadas “figuras públicas”, vi a importância do tempo de sofrimento, daquele espaço que é necessário para chorar, para sentir o choque, afinal... para sofrer, por muito que nos custe admitir. Tal, contudo, não invalidou as criticas à actuação deste ou daquelo indivíduo ou instituição, no entanto, esse tempo é respeitado. Algumas destas imagens foram transmitidas pela Russian Today, uma televisão a comando do Kremlin e de Putin, mas que teve o cuidado de deixar que o luto fosse visível, sem show off.

 

Outra coisa que não vi (e até tenho seguido os desenvolvimentos) foi o foco nos concertos solidários e nas acções solidárias e com forte mediatização! Vi as pessoas a chorarem, a sentirem a dor e a partilhar algo que temos de sentir, viver e obviamente ultrapassar, mas tudo a seu tempo, sob pena de não vivermos o luto, seja ele qual for.

 

Fogos florestais também não têm comparação com incêndios urbanos, no entanto, imediatamente foram detidas 5 pessoas para averiguação – não estou com estas palavras a defender a rápida punição ou julgamentos sumários de eventuais culpados mas, pelo menos, procurar os responsáveis e começar a agir. Em Portugal ainda andamos à procura dos culpados e já estamos quase a um ano da data em que muitos morreram em Pedrogão. Afectos e palavras são interessantes mas em alguns países são precisas acções no terreno sob pena de ter um povo enfurecido e na rua a pedir justiça - na Rússia não se fizeram concertos solidários nem imagens para as câmaras de televisão, pediu-se justiça!

 

Defendo que em situações de gravidade, dispensam-se as palavras e avança-se com as soluções sem criar “grupos de trabalho”, no entanto, com corpos ainda na morgue ou no local da tragédias, admito que me custa encarar o mediatismo da suposta solidariedade e o espectáculo em torno da tragédia, onde é importante estar porque... Simplesmente se está...

 

Quando o luto não é feito, quando a tragédia não é enfrentada, quando não vemos as acções e camuflamos a ausência de tudo isso com “espectáculo”, corremos o risco de desresponsabilizar quem o deve ser e podemos estar a ocultar a realidade.

 

Associarmo-nos a tragédias, em Portugal e não só, é “fixe”, mas na realidade... Mais fixe é gerir a situação em si e acima de tudo exigir Justiça! Isso não nos traz visibilidade, mas faz de nós seres-humanos que dizem viver em Democracia.

 

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Paisagens de Carvão 2017

por Robinson Kanes, em 11.12.17

Quem diria que até começaria a gostar desta iniciativa do SAPO. Depois das Paisagens da Seca,  outras grandes imagens que marcaram este terrível ano foram sem dúvida os incêndios. De Norte a Sul, e sobretudo no Centro esquecido de um país, as terras vestiram-se de negro... E até hoje, "o doa a quem doer" que alguém ousou trazer para cima da mesa não se avizinha e muitos culpados nas contracurvas do costume sobreviverão, sem punição...

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Fonte: Miúda do Robinson

 

A par de outros anos, choraram-se tantos mortos inúteis (para mim, não é por morrerem que passo a ter uma opinião diferente) mas depressa se esquecerão aqueles que morreram pela nossa incúria. Nas Portas de Ródão, e por toda aquela região, serão precisos mais de 600 anos para que alguma flora possa novamente voltar ao que era, isto se voltar... Por lá se perderam os ninhos e as crias de abutres e outras aves de rapina deste ano... Como sempre, pagam aqueles que nada fizeram para levar com a estupidez humana.

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Fonte: Própria

 

E até podemos enfiar a cabeça na areia e chamar de cinzentos a todos aqueles que ainda não esqueçeram. Podemos mostrar que estamos demasiado bem com a vida e somos todos "yuppieeee" e anti-cinzentismo, mas... Mas foi quando estávamos todos "yuppieeee" a assobiar para o lado que os incêndios e até a falta de água nos atacaram em força...

IMG_7706.jpgFonte: Miúda do Robinson

 

Admito que tenho um certo receio daqueles que estão sempre tão bem com a vida e no modo "yupiiiiiie" que até se esquecem de ser cidadãos... Tenho mais medo desses do que dos cinzentos.

 

Boa semana...

 

 

 

 

 

 

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Eu Tenho um Incendiário na Família!

por Robinson Kanes, em 18.10.17

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Fonte da Imagem: https://pixabay.com

 

Chama-se "Duarte", perdoem que não coloque o nome do mesmo, mas é imperial proteger a sua identidade e consequentemente a sua integridade, até porque já cumpriu o seu castigo perante a sociedade e, não sendo propriamente a melhor das desculpas, também ele foi vítima de um certo aproveitamento de outros que viram no mesmo alguma debilidade mental alicerçada numa oportunidade para que este sujasse as mãos em nome destes.

 

Ter um condenado na família não é fácil, sobretudo por uma situação que, para mim, é terrorismo. Não é fácil porque o "Duarte" é um homem com perto de cinquenta anos, mas é boa gente. O "Duarte", nascido no interior do país entre Coimbra e a Guarda, cedo teve de aprender a trabalhar e também cedo se percebeu no seu estilo ingénuo que era boa gente. Ser boa gente levou a que o "Duarte" tivesse muitos amigos que acabariam por ser responsáveis pela sua hospitalização e consequente plano de tratamentos que agudizou uma pequena perturbação mental, que passaria quase incógnita não fossem os amigos e... o álcool.

 

A paixão do "Duarte" é a natureza, passar horas a contemplar a mesma enquanto escuta as suas músicas. Em tempos, através de  leitor de cassetes e agora com um leitor de CD, o "Duarte" gosta de ouvir aquilo a que chamamos "música pimba", mas é isso que lhe dá gosto. Orgulhosamente, sempre que o visitamos (e há tanto que não o fazemos), mostra-nos o seu lote de músicas e dá-nos a conhecer os seus cantores preferidos - até termos de encontrar uma desculpa para orientarmos a atenção do mesmo para outra coisa. O "Duarte" gosta daquilo e é isso que também anima os seus dias.

 

Quando nos aproximamos daquela aldeia esquecida no alto dos montes da Serra do Açor, não é raro ouvir a música do "Duarte". O "Duarte" só quer amigos, só quer ser feliz e talvez um dos maiores choques que tive, foi, na minha adolescência, eu com 15/16 anos não conseguir dialogar com o "Duarte", não porque ele já fosse um homem, mas porque o "Duarte" não precisava de ter um terço das preocupações que eu já tinha com aquela idade e portanto, eu já me encontrar num patamar mais "evoluído", ou talvez não, de desenvolvimento. Para mim era estranho e colocou-me em interrogações constantes.

 

Um dia soubemos da notícia... O "Duarte" fora detido porque tinha sido encontrado a atear um fogo. A vantagem das polícias neste locais, é que conhecem as pessoas e sabem que o "Duarte" não era pessoa para simplesmente se lembrar atear fogos aqui e acolá. Com a chegada das autoridades judiciárias, rapidamente se percebeu que o "Duarte" era uma mera marioneta nas mãos de outrem. 

 

Apesar dos interrogatórios e consequente inquério e audiências nos tribunais, o "Duarte" acabou condenado. Até aqui, nada de novo, a Justiça a funcionar como tem de ser... No entanto, como em tantos outros, o que fica é a sensação de que se poderia ter ido mais longe, pois o "Duarte", perante a pressão da família e das autoridades disse sempre que preferia passar a vida na cadeia a dizer quem foram os ordenantes do crime! O medo e a pressão a que foi sujeito não conseguiram ser derrubados pela ameaça dos verdadeiros criminosos e o "Duarte", como seria de esperar, acabou condenado sem que a culpabilidade total daquele crime fosse apurada.

 

Como alguns já tentaram demonstrar, que muitos incêndios são provocados deliberadamente pelos "tontinhos" do costume, é preciso ter em conta que estes são também um dos instrumentos mais fáceis para quem almeja algo maior e não pretende que as cinzas lhes sujem as mãos...

 

Por estes dias, o "Duarte" e o pai já idoso ficaram em risco quando a primeira casa da sua aldeia ardeu tendo sido prontamente evacuados, bem como toda a aldeia. Talvez porque algum "tontinho" decidiu fazer das suas...

 

P.S: Ontem foram detidos em Terras de Bouro um homem de 57 anos e a mulher de 50 por atearem fogos. O homem está desempregado e a mulher é jornaleira... Dá que pensar...

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Incêndios: Espanha nas Ruas, Portugal no Sofá.

por Robinson Kanes, em 17.10.17

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Fonte da Imagem: http://www.antena3.com/noticias/sociedad/en-galicia-permanecen-sin-control-siete-incendios-en-situacion-2_2017101759e5ab300cf2e892aa27b566.html

 

Em dia de luto nacional, tenho a sensação que metade ou mais dos cidadãos portugueses não sabe o que significa uma bandeira a meia-haste. Seria interessante que todos percebessem o real significado do luto nacional, quanto mais não fosse para pararem e pensarem... Guardar 10 minutos ou mais do nosso dia para pararmos, desligarmos e reflectirmos é cada vez mais um luxo ou, segundo muitos, uma parvoíce... Tenho todo o gosto em ser parvo (parvus-parvi: pequeno) se isso for ter consciência que sou um ser humano não diferente dos outros todos. Na Era "me" entendo que muitos não compreendam o que acabei de escrever...

 

Em Portugal, país onde somos todos o máximo, continuamos com a cabeça enterrada na areia e não existe a humildade governantiva de assumir um erro e pedir desculpas. Alguém falhou os módulos de "liderança inspiradora", por certo, e também alguém sabe que os estudos de popularidade "martelados" serão capazes de influenciar um povo que continuará a perpetuar a sensação de impunidade de quem tudo acha que pode fazer. Enganem-se os portugueses que pensam que ao votarem estão a eleger alguém que vos represente, pelo contrário, estão a dar poder a outrem para que faça o que bem entender... Basta passar os olhos pelas leis que definem a governação - isto para aferir da importância de sermos cidadãos e principal supervisor de toda e qualquer actividade pública.

 

Por cá, já estamos no momento do espectáculo com as pseudo-celebridades a publicarem mensagens e a gravarem vídeos nas redes sociais perante tamanho choque. É que isto de ser solidário ou estar chocado com qualquer coisa é bom, desde que tenha projecção nos media, caso contrário não merece a pena - a propósito, ainda ontem num velório, tive oportunidade de ver uma das pseudo-celebridades (ligada à música e que anda sempre em campanhas para ajudar as criancinhas e os pobrezinhos com o irmão) completamente fria e tentando espectacularizar, perante o espanto dos presentes, a morte daquele que nos tinha ali trazido. Mas em Portugal luta-se, ou faz que se luta, no conforto do sofá, a partilhar fotografias, ou a arriscar morrer queimado dentro de um carro enquanto se filma a tragédia a troco de uns momentos de fama... E obviamente, também a escrever textos como este. Desliguem a televisão e a internet e procurem aqueles que combateram os fogos por estes dias, aqueles cidadãos, bombeiros e não bombeiros, que fizeram tudo para acabar com esta calamidade e deem um abraço a essas gentes, sem partilhas e selfies, mas apenas com as emoções verdadeiras que nos tornam melhores humanos! Os heróis são esses e não os heróis covardes que depois da tempestade, espreitam, saem do seu canto e se juntam às celebrações...

 

Todavia, em Espanha, as coisas têm sido diferentes - o povo saiu à rua, exigiu responsabilidades e obrigou a um esforço das autoridades na justificação das suas acções e a estarem próximas das populações. Em Espanha não se anda à procura de raios nem de tempestades e claramente já se assumiu que existe mão-humana nos incêndios. Em Espanha existe uma preocupação extrema com a questão natural/ambiental e com a situação económica das populações e empresas, as pessoas assim o exigem, porque esperam resultados concretos e não um abraço ou uma fotografia com Rajoy ou com Filipe VI. Em Espanha, até os media estão sob o jugo da população e de entidades reguladoras que já pediram demissões pelo facto de muitas coberturas aos incêndios serem tendenciosas ou desprovidas de tudo aquilo que deve ser o jornalismo! Em Espanha já se pensam em alterações ao Código Penal. Em Espanha até pelo "fim dos fogos" em Portugal se manifestaram, isso deveria envergonhar-nos!

 

... Em Portugal, apenas se pede que se saia à rua e se faça alguma coisa acerca do referendo da Catalunha, ou para pedir progressões automáticas de carreira (mesmo que não se faça nada para o merecer), ou para ir para a praia, porque isto de exigir um país digno desse nome, dá muito trabalho não traz "likes" e carros topo de gama na garagem. Que venha a febre do Natal bem depressa, para não nos dar tempo de pensar no essencial...

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 Fonte da Imagem: AP Photo/Uttam Saikia

 

 

A fatalidade faz-nos invisíveis.

Gabriel García Márquez, in "Crónica de uma Morte Anunciada"

 

Enquanto o foco da atenção mundial se concentra nas cheias de Houston (nada contra) e nos 20 anos da morte de uma Princesa, parece que existe algo que anda a passar ao lado da actualidade. De facto, é do conhecimento público que só nos lembramos da Ásia quando falamos de viagens ou quando queremos imitar as pseudo-celebridades em destinos exóticos, todavia, rapidamente nos esquecemos do que é viver longe de um resort 365 dias por ano nessas regiões. Há períodos próprios para sermos apaixonadamente étnicos.

 

As monções sazonais já provocaram cerca de 1200 mortos e estão a afectar cerca de 50 milhões de pessoas na Índia, Nepal Paquistão e Bangladesh. Mortes provocadas por deslizamentos de terras, picadas de cobra - é verdade, morre-se de picadas de cobra - desmoronamentos de edifícios e afogamentos são as principais causas. Na Índia, nem o Parque Natural Kaziranga escapou, contando-se até ao momento cerca de 250 animais mortos entre rinocerontes, veados e um tigre de bengala - a primeira foto fala por si!

 

Todavia, no nosso pequeno mundo, andamos preocupados com séries televisivas, com princesas defuntas e opiniões de humoristas com carácter vinculativo. "Menos mal" que dos Estados Unidos sempre nos cheguem notícias do Texas, mas até algumas delas servem para bater em Donald Trump e na Primeira-Dama, ou até para nos assustarem com o preço da gasolina. O Texas pode desaparecer do mapa, a gasolina é que não pode aumentar. Alguém ontem falava do "jornalixo", não andará longe, pelo menos em muitas redacções... 

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Fonte da Imagem: AP Photo/Manish Paudel

 

Pior que as mais recentes actualizações, serão também aquelas que nunca saberemos pelos media que actualizam cada passe de um defesa da selecção nacional, mas não actualizarão o número de vítimas quando as águas descerem e as lamas forem removidas... A realidade, é que a época das monções acontece todos os anos... E todos os anos morrem milhares de pessoas naquela região, mas todos os anos são mais importantes a "época de transferências" e as contratações do Real Cascalheiro de Frielas ou do Solteiros e Casados de Muge do que um sem número de seres-humanos, fauna e flora... Mas também não será de admirar, no que depender dos cidadãos, uma tragédia bem "menor" que matou mais de seis dezenas de pessoas e feriu ainda mais de duas centenas vai passar impune...

 

A globalização pode ser uma realidade, mas existem países cujas cabeças dos cidadãos, instituições e media insistem no provincianismo bacoco que nem Verney e os seus pares conseguiram vencer. Antes de falarmos de isolacionismo na Coreia do Norte, seria prudente pensarmos em nós...

 

Finalmente, confesso que, depois de pensar que após a primeira foto já nada me espantaria, a segunda imagem fez-me engolir em seco ao ver o sorriso destes homens e destes jovens - quando por cá choramos simplesmente porque não encontramos aquele par de sapatos que tanto queremos, ou porque amanhã não estão 35º mas estão 30º, ou simplesmente porque a isso chamamos stress e entramos em depressão porque ainda não fizemos as malas para a próxima viagem e caos maior, até estamos de férias. Faz-me questionar onde estará a pobreza, se em Mumbai ou se em Lisboa, Porto ou outra qualquer cidade portuguesa.

 

Hoje esperava publicar um texto e sugestões literárias e musicais (ficará para segunda-feira), mas efectivamente não posso ficar indiferente a tantas palas (voluntárias?) nos olhos...

 

Bom fim-de-semana...

 

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O Fogo Que Fala...

por Robinson Kanes, em 17.08.17

 

 

IMG_7686.JPG

 

 Fonte das Imagens: Própria

 

Foi logo depois dos incêndios de Sertã e de Nisa que andei por aquela zona e tive oportunidade de ouvir vários relatos, sobretudo na primeira pessoa, mais fidedignos mas sempre com margem para exageros... Se por um lado consegui verificar no terreno que alguns correspondiam à verdade, outros nunca saberei...

 

A impressão com que fiquei é que existe um conjunto de indivíduos que combate incêndios dando o seu melhor (bombeiros, polícia, militares e outros cidadãos, sobretudo com postos subalternos) e um outro conjunto que percebe muito de incêndios mas... Eu admito, tirando alguns em que já me vi envolvido a ajudar, nada percebo. Mas vejamos:

  

Sabes, quando o fogo de Nisa começou a chegar perto da fronteira de Espanha, os gajos entraram no nosso país com aviões, máquinas de rasto, bombeiros e apagaram o fogo. Quem apagou o fogo de Nisa em horas foram os espanhóis e nós andámos cá uma semana e não conseguimos controlar o fogo. Aqui ainda nem vi nenhuma máquina de rasto.

Disse-me um conhecido. Se é verdade ou mentira não sei, mas já não é a primeira vez que escuto isto! Algo se passa e levo a crer que são falhas no comando e na forma como são geridos os operacionais no terreno. Mas os cargos perpetuam-se.

  

Então o comandante que estava aqui e é daqui (Vila Velha de Ródão) chamaram-no para o incêndio de Proença (Proença-a-Nova), mas isto ainda estava muito mau. Deixaram isto aqui com outro gajo que não conhecia o terreno como o outro.

 Motivos operacionais?

 

E os gajos da Protecção Civil? Então os gajos trazem o gerador de Lisboa e quando chegam aqui parecem baratas tontas porque precisam de gasóleo porque o gerador não tinha? Lá tive de ir às oito da noite correr à bomba do ------- buscar gasóleo! Os gajos trazem aquela m---------- sem gasóleo?

 Organização?

  

Se não fosse o gajo do helicóptero a vê-los e a largar-lhes um balde de água em cima tinham lá ficado todos, estes gajos não conhecem o terreno e ainda levavam um dos nossos. Então ninguém viu que por ali não dava, o ------ bem lhes disse que por ali não dava? Por falar em helicópteros, vão lá ver quem é que manda naquilo.

Não comento.

 

Qual força-aérea, qual combate, os pilotos deles é que andam aí a encher os bolsos a apagar os fogos nos helicópteros e nos aviões do outro que também... (não digo mais por causa das acusações que foram feitas).

 (À minha afirmação "está bem, mas os pilotos da força aérea são pilotos de combate e não estão preparados para combate a incêndios?")

Idem

 

Gente dessa não precisamos cá, eles não querem meter os carros nem dar cabo deles no meio do fogo. Eles querem lá saber isto não é deles e os carros são, eles não querem perder nem estragar os carros. Andam a deixar arder.

 Idem

 

Eles estavam à rasca lá em baixo, e eu como tinha o barco disse logo para arranjarem uma bomba que nós íamos para lá e do rio conseguíamos dominar daquele lado, uns gajos que deviam ser de Lisboa ainda nos mandaram estar quietos que não percebíamos nada de fogos. Eu já conheço esta zona há mais de 40 anos e sei como chegar a sítios onde eles nem sonham.

IMG_7716.JPG

(não é a fotografia que está mal tirada, são pequenos "tornados" que se formam das cinzas no alto da serra criando um ambiente ainda mais dantesco) 

 

 

Quem sabe é que manda. Ouvi muitos relatos em que muitos indivíduos do alto da sua "sabedoria" ignoram todo e qualquer conselho que venha de quem conhece o terreno.

 

Esses querem é encher o rabo com o mal dos outros olha que dinheiro a eles não lhes falta, é só encherem-se de casas e carros novos desde que lá andam. 

A propósito de uma entidade de que se dedica à acção social.

 

 

Os jornalistas querem é ver miséria mas não ouvem o que nós lhes dizemos. Na televisão não dizem aquilo que a gente lhes diz e só querem filmar-nos em pânico. Dão é conversa aos políticos que não sabem nada disto.

Não comento, mas penso que não perco muito por não ver televisão ou outros media.

 

 

E pagarem-se 15000 euros à esposa de um responsável da Protecção Civil para esta elaborar um estudo tendo em vista a aquisição de uma viatura ligeira que custa pouco mais que o próprio estudo? A esposa do responsável é geógrafa e trabalha numa câmara municipal. 

Esta fui eu mesmo que disse e está no website onde são divulgados alguns contratos e adjudicações públicas. Estudos do estudo com vista à elaboração do estudo para estudar o estudo que vai servir de apoio ao estudo que vai estudar a aquisição de uma viatura.

 

Foram algumas das coisas que ouvi. Se são verdade, algumas presenciei, outras nem por isso... Ainda há muito a fazer e ao invés de andarmos a pensar em listas e em discursos bonitos, temos de começar a pensar no fogo como um todo, na prevenção, mas mais que tudo, na máquina que está por detrás...

 

Mais uma vez, obrigado pelo esforço daqueles que presenciei visivelmente cansados (bombeiros e soldados) às portas de quartéis como o de Vila Velha de Ródão, Sertã, Abrantes, Nisa, Idanha-a-Nova e outros... 

  

Só me consigo lembrar de alguém que um dia, abandonando a Assembleia da República por não se identificar com o cargo de deputado disse que "se o povo soubesse o que por ali se passava invadia o edifício e matava todos os que lá estão".

 

E o fogo continua à espera de mortos para alguém interromper as férias e colher mais uns votos de popularidade... Os feridos não trazem ou tiram votos, já os mortos sim...

 

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O Fogo Que nos Continua a Queimar...

por Robinson Kanes, em 14.08.17

 

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Fonte da Imagem: Própria. 

 

E as coisas tendem a não mudar... Quando a temperatura está prestes a aumentar e o vento a soprar com mais intensidade, anunciamos logo que vêm aí dias favoráveis a incêndios. Eu, se fosse incendiário, andava sempre informado como os surfistas o fazem em relação ao estado do mar... Mas esses ainda têm de ir à procura, já estes avisos caem de bandeja em cima daqueles que incendeiam e mandam incendiar... Mandam incendiar... Não são poucos os casos de incendiários (muitos com deficiências cognitivas) que perante a ameaça de pena máxima de prisão não ousam dizer quem lhes encomendou o serviço! É o medo e o poder de quem ordena. Não é um lugar-comum, são as palavras de quem já assistiu a situações do género!

 

Aposto também que o incendiário, no seu modus operandi, verifica se tem o bidão de gasolina, os fósforos e outros apetrechos logo que é anunciada a "época de incêndios" tal qual caçador de perdizes antes da abertura da "época de caça"...

 

O tema está gasto? Também a minha paciência, também os solos deste país, um país que só acorda para os incêndios se alguém morrer (tristes cidadãos). É Verão e posto que até ao Natal não há tema, já só fala de eleições... Eleições para cargos responsáveis também pelos grandes incêndios... O papel de tristes vítimas dos presidentes de câmara durante os incêndios é lamentável! Quem é responsável pelo PDM? Quem também faz a fiscalização? O esquecimento, o rótulo do reaccionário, o rótulo do "sempre a falar do mesmo", é a capa perfeita para continuar a perpetuar a impunidade, a irresponsabilidade e a incompetência! Mas o que importa agora são as autárquicas e presidentes que não se podem recandidatar a passarem para candidatos na presidência das assembleias municipais para daqui a quatro anos voltarem a conduzir os seus pequenos impérios "demcocráticos". Não é por acaso, que existem municípios onde existe um medo generalizado qual campo de concentração! 

 

Mais uma vez, as coisas vão acontecendo, vamos engolindo em seco... Até passam à história, de um dia para o outro, aqueles(as) que procuraram protagonismo com listas, mas pelas suas amizades (sem aspas) com alguns meios de comunicação social e perante a vergonha, rapidamente são absorvidos por um programa de protecção de criminosos (não me enganei e não queria dizer testemunhas)... Volto a dizer que não seria má ideia que, ao invés do tão aguardado terramoto, Lisboa e outras localidades pudessem passar por um incêndio de grandes dimensões que dizimasse metade da população... E, mesmo assim, tenho dúvidas que os portugueses chegassem à conclusão de que os incêndios não são espectáculos de solidariedade mas sim um crime de lesa-pátria!

 

Com o país em chamas levata-se também uma questão: onde estão aqueles partidos que gostavam de virar o país do avesso quando ardiam meia-dúzia de hectares e agora permanecem em silêncio perante este e outros factos de extrema gravidade? Onde estão aqueles supostos intelectuais, artistas, profissionais do mal dos outros e gentes da "ribalta" que protestam por tudo e por nada e, nas horas em que realmente o país precisa de mentes capazes de abanar o status quo, temem dar a cara ou preferem um mergulho no mar?

 

Temos uma Constituição que dá para tudo e para nada mas... Aos maiores crimes contra a pátria, esta parece ter sido omissa, ou também silenciada... Sejam solidários e continuem a contribuir com donativos e a assinar por baixo a carta de destruição do país...

 

Uma nota para Inês Henriques: parabéns pela vitória, pois não fosse o ouro e a necessidade de ocultar algumas tragédias, a maioria dos portugueses continuava a desconhecer a modalidade de "marcha" e também que estão a decorrer os Mundiais de Atletismo (ao que sei, se não fossem as medalhas era temática que passava ao lado). Os do costume já deram os parabéns... Agora é a vez do teu povo! Parabéns.

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