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Halloween? Not!

Importar para Destruir...

por Robinson Kanes, em 04.11.19

Jean Baptiste Greuze - La Malédiction Paternelle.

 

Jean Baptiste Greuze - La Malédiction Paternelle (Musée du Louvre)

Imagem: Robinson Kanes

 

Agora que a febre do "Halloween" já passou, penso nos efeitos do mesmo nas nossas crianças e sobretudo nos nossos adultos.

 

Espanta-me que, mais uma vez, Portugal tenha abdicado da sua identidade para ceder a uma importação fraca de uma prática que em nada está relacionada com a nossa forma de estar. Enquanto o México (e não é fácil com os Estados Unidos tão perto) luta por manter a sua tradição do Dia(s) dos Mortos (1 e 2 de Novembro) transformando-a até em atractivo turístico, por cá apagamos a memória, e não é a memória religiosa mas a memória de um povo. Ainda esta semana recebi um vídeo de um amigo mexicano que mencionava claramente a necessidade de não se confundir o "Dia dos Mortos" com o Halloween.

 

Fui criado em seio católico mas estou longe de me afirmar como tal... No entanto, não é por não ser católico que não celebro o Natal, a Páscoa e se quisermos o "Dia dos Mortos" ou "Dia de Todos os Santos".  Muitas das celebrações do cristianismo nem são mais que meras apropriações de práticas bem mais ancestrais e que de religiosas tinham pouco. Durante muitos anos, lembro-me que este era um dia para ser celebrado com a família, com alegria sim, mas recordado quem não estava. 

 

A verdade é que trocámos um momento de reflexão (reflectir, esse bem escasso), paz e até de recordação daqueles que já não estão cá por fantasias de terror e um cravar de doces que pouco ou nada significa, aliás, em muitos casos até reveste contornos de "vandalismo" com carros e casas que são alvos de brincadeiras menos próprias - afinal é "Halloween" e são crianças. Não!

 

Não explicamos às nossas crianças (e aos adultos) o porquê, independentemente de sermos religiosos ou não,  a importância de um dia como este! Não procuramos preservar o chamado "Pão por Deus" (seja lá Deus o que for) e o quão essa prática era importante na dinâmica de comunidade e até de estabelecimento de laços de vizinhança sólidos. A verdade é que vestimos as nossas crianças de mortos com uma facilidade tremenda, a mesma com que mudamos de canal ou ignoramos quando vemos cadáveres na televisão ou até ao nosso lado - a não ser que alguma imagem se torne viral e aí todos nos tornamos seres sensíveis. Somos os mesmos que afastamos as nossas crianças dos funerais quando alguém morre - a avó foi fazer uma viagem! Somos os mesmos que fazemos um frete em ir ao funeral de...

 

No fundo,  ninguém retira nada disto a não ser uma carga de açúcar e uma brincadeira que ninguém sabe muito bem para que serve. Espanta-me, por exemplo, que algumas escolas e infantários façam um alarido com o "Halloween" e pouco ou nenhuma importância atribuam à Páscoa, ao Dia de Portugal ou até ao Dia Mundial da Criança.

 

Temos de nos recordar que, sendo portugueses (e seres-humanos) temos uma identidade, temos uma forma de estar e até um humanismo e sentido de comunidade (?) que não é trocado porque meia-dúzia de indivíduos ou instituições decidiram, à pressa, substituir práticas intrínsecas e enraizadas durante séculos. Provavelmente até estamos a conseguir uma coisa com o "Halloween" e que reveste o terror, de facto - o terror que é matar o que de humano ainda nos resta.

 

Uma nota que me parece também interessante é o facto de que aqueles que até "são contra" estes dias por terem uma matriz religiosa (o que nem sempre acontece) serem os mesmos que depois o substituem por uma prática puramente mercantil e da qual também são acérrimos criticos.

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Do Dia dos Mortos...

por Robinson Kanes, em 31.10.17

IMG_0672.jpg

Fonte da Imagem: Própria.

 

Independentemente das convicções religiosas, o "Dia de Todos os Santos" é um dia em família e de alguma reflexão que, em Portugal, tende a ficar transformado numa espécie de Carnaval dos Mortos com o toque de "Halloween" ou "Dia das Bruxas". 

 

É por respeitar as diferentes culturas que sou levado a aceitar que esta é mais uma daquelas importações que jamais deveria ter saído dos países anglo-saxónicos. Podemos alegar que também tem raízes cristãs, o que seria discutível porque há quem aponte os celtas e outras tradições pagãs, muito antes de alguém ter decidido criar uma religião! Transformamos tudo numa festa que mais parece um filme de comédia de terceira linha. Querem fazer festas com mortos? Vão ao México, ou então até muitas regiões de África, aí sim vão ver como estas coisas se fazem e com uma componente étnica e cultural digna de registo. Substituir o "Pão por Deus" ou outras tradições mais bem enraizadas por algo forçado e completamente fora da nossa realidade é, no mínimo, triste! Portugal parece estar na moda desde que se transforme numa colónia de importações "baratas".

 

Eu sugiro até que possamos celebrar o "Halloween" em todos os velórios. Pela forma como tenho visto alguns, além de ser um enfado para muitos que só lá estão para ficar bem perante a sociedade, é também uma festa para outros. O morto já começa a ficar como adereço nestes encontros, em que numa boa forma primitiva, depois de enterrado ou cremado, todos lhe cospem em cima e se juntam para uns copos. Tenho sempre a sensação que o único morto não é aquele que se encontra no caixão, mas um sem número de almas que por ali vagueia sem realmente saber o que está ali a fazer, serão esses os verdadeiros mortos?

 

Recordo-me sempre do "Dia dos Mortos" como aquele dia que era passado em família, com um passeio, mas sem esquecer aqueles que já não estão cá. Não era um dia alegre, não era um dia triste, era sobretudo uma forma de celebrarmos a vida sem andarmos vestidos como se de repente entrássemos no Carnaval de Torres Vedras ou num desfile da "Moda Lisboa". E não, não lhe chamem saudosismo que ainda não estou em idade para isso... Talvez valorizasse o convívio genuíno ao invés dos efeitos distractores.

 

E como é feriado, para o "Dia dos Mortos", nada como uma sugestão! Talvez o meu requiem preferido (esqueçam o de Mozart que é sobrenatural e não entra nestas contas), "Ein deutsches Requiem, Op.45" ou em português "Um Requiem Alemão, Op.45" de Johannes Brahms! Dividido em 7 partes, é a maior obra do compositor, dedicado à sua mãe e também a Schumann. Ao contrário de outros requiem, este baseia-se na tradução da bíblia encetada por Martinho Lutero, um requiem verdadeiramente protestante.

 

 

Admito que me sinto abençoado por já ter ouvido o mesmo ao vivo num Domingo de Páscoa. Na Alemanha, não precisamos de pagar para assistir a concertos porque basta assistir a algumas cerimónias religiosas para ter momentos sinfónicos de uma qualidade que não lembra a ninguém. Um destes locais é a Michaelskirche (Igreja de São Miguel) em Munique! Ainda hoje consigo colocar a música de Brahms nos ouvidos e recordar aqueles momentos singulares em que nos sentimos a ficar sem ar perante tamanho arrebatamento e força com que aqueles coros e aquelas orquestras nos contagiam e ecoam pelas paredes das austeras igrejas da Baviera.

 

Bom feriado...

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