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O Holocausto do West Bank...

por Robinson Kanes, em 11.02.21

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Créditos: Associated Press

 

No Verão de 1948, no espaço de algumas horas, os meus pais, como centenas de milhar de palestinianos, perderam tudo. O meu contou-me que estava no colégio quando souberam que os israelitas estavam a massacrar as pessoas nas aldeias vizinhas. A sua família e todos os vizinhos fugiram em direcção a Gaza, então sob domínio egípcio. Como muitos jovens, critiquei o meu pai durante muito tempo por não ter ficado e lutado, mas depois li os relatos dos "novos historiadores" israelitas e compreendi que os palestinianos, com as sua espingardas de má qualidade, não tinham qualquer hipótese. Ficar teria sido um verdadeiro suicídio, e era preciso sobreviver para preservar o futuro.

Kenizé Mourad, in "O Perfume da Nossa Terra - Vozes da Palestina e de Israel" 

 

 

Dei comigo, por várias vezes esta semana, a olhar para esta fotografia... Assumo até que tentei prestar pouca atenção à mesma. Procurei filtrar, afinal a propaganda não é só de um lado e por isso é necessário manter algum distanciamento. Também já escrevi sobre isto algumas vezes, "não deveria" ser tema sequer para voltar a trazer... É pouco relevante, não é importante, actualmente é como faire monter la mayonnaise.

 

A verdade é que ninguém, e passo a expressão, com dois dedos de testa, consegue ficar indiferente aos crimes que continuam a ocorrer, crimes contra a Humanidade! O Estado de Israel (o Estado e não os israelitas) continua impunemente a semear o terror no Vale do Jordão. Na Cisjordânia continuam a cometer-se atrocidades dignas também de um Holocausto, todavia, surgem apenas avisos, apenas consternação. Alguns esperam por Biden, como se este fosse o salvador, pois que desesperem... O silêncio pode manter as luzes, mas não pode esconder o resto... Apenas um assobiar para o lado numa guerra em que não podemos dizer que existe um lado totalmente inocente. É também relevante afirmar que não deixa de ser estranho, até quando já a própria Arábia Saudita ganha alguma consciência (independentemente do que levou a) e liberta a activista Loujain al-Hathloul - um ponto para os alegados radicais, muitos pontos a menos para os pacíficos e pobres perseguidos.

 

A história da comunidade de Khirbet Humsu é uma das mais intrigantes e mais interessantes na luta de territórios entre David e Golias... As mais recentes peripécias passam por três meses, ou perto disso, em que as forças israelitas, sem qualquer motivo, derrubaram por três vezes aldeias e vilas inteiras e também por três vezes o povo palestiniano as reergueu. O mesmo povo que diz não ter para onde ir, já nem é uma questão de reclamar território... Até porque, diz-nos a História e o presente, que nenhum dos lados, quer ao mais alto nível político quer a nível militar, parece estar interessado em resolver a questão pacificamente.

 

Esta fotografia, contudo, transporta-me para um cenário misto, onde uma película bem realizada se mistura com a realidade. Os sorrisos e a alegria de crianças que nem sabem bem que bandeira transportam, mas de uma coisa estão certas: é a sua terra! É a sua terra e o seu futuro que, esperamos, entre sorrisos e muitas lágrimas, não acabe com um projéctil na testa ou com um colete armadilhado. Espero que transportem a bandeira da esperança e que possam ser os futuros líderes de um povo. Futuros líderes vencedores na diplomacia e na paixão pelos seus, mesmo que tenham sofrido tentativas de deportação quase como numa espécie de vingança por aqueles que mais de meio século antes passaram pelo mesmo.

 

Estes putos são o pó e a esperança de um Mundo melhor... Não os ignoremos... E não faltam por aí putos a transportar bandeiras...

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Os Heróis da Natureza em Virunga...

por Robinson Kanes, em 01.02.21

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Créditos: The Jane Goodall Institute

 

A fatalidade faz-nos invisíveis.

Gabriel García Marquéz, in "Crónica de uma Morte Anunciada"

 

 

Apesar de acharmos que estamos a passar por algo único (porque nos bateu à porta "finalmente") não estamos. Lamento decepcionar aqueles que só encontram "covid" à frente e até se "esqueceram" das habituais campanhas quando existem tempestades em Moçambique como as das últimas semanas... 

 

O que não faltam são heróis neste mundo, que agora descobriu tal palavra, mas que também rapidamente a esquece tal o modo como é levada à exaustão. É inacreditável pensar que existem indivíduos que morrem a tentar defender a natureza, sobretudo habitats e animais. Na verdade, é algo que acontece praticamente numa base diária, mas os recentes acontecimentos na República Democrática do Congo (RDC) vieram mais uma vez demonstrar que as frentes de combate não se resumem a um vírus. 

 

No conhecido Parque Nacional de Virunga (o mais antigo e o primeiro "site" africano a ser declarado Património Mundial da UNESCO) seis guardas foram alvo de uma emboscada que os matou a todos de uma vez só. No ano passado foram treze, na última década cerca de duzentos! Também é moda utilizar o conceito de "linha da frente" (enfim...), pois existem muitas por esse mundo fora e desta vez o ataque foi impiedoso àqueles que defendem a vida selvagem e lutam contra o tráfico de plantas e sobretudo, neste caso em particular, contra a extinção do Gorila da Montanha, uma espécie em vias de extinção. Muitos poderão não ter noção da importância desta espécie, mas bastará, mesmo que a alguma distância, observar um animal destes para perceberem do que estamos a falar.

 

Em relação à RDC, um dos países mais "ricos" de África, já nem será necessário tecer comentários... Um mundo Ocidental em modo cataclismo só aumentará a destruição de um país, de um continente... Até um grupo de patifes no Myanmar, em paragens mais distantes, aproveitou a deixa da fragilidade Ocidental para fazer valer a sua força e com o alto patrocínio dos suspeitos do costume... Espero ver os senhores Zuckerberg e Dorsey a cortarem as redes sociais para estes senhores da guerra como o fizeram para Trump... Ou talvez não.

 

Estes rangers, como as Akashinga, são a verdadeira linha da frente da Natureza e pagam com a vida essa paixão. Num país onde a vida tem o valor de uma moeda de um euro, e o vírus actual será o menor dos problemas, o tráfico de recursos naturais chega aos 170 milhões de dólares - sendo que 47 milhões financiam milícias e grupos terroristas - um orçamento que ultrapassa largamente quem pouco tem mais do que uma automática que constantemente encrava e ainda tem de contar as munições. E desenganemo-nos quando desvalorizamos o papel destes homens na medida em que alguns já morreram a salvar cidadãos ocidentais - recordo o caso de uma senhora, a ranger Rachel Masika Baraka que perdeu a vida ao tentar salvar de um rapto dois indivíduos britânicos.

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Créditos: Virunga National Park (Foto de Rachel Masika Baraka)

 

Estes senhores não defendem a Natureza a viajar de veleiro e muito menos com discursos pomposos emitidos a milhares de quilómetros e carregados de nada. Estes senhores defendem com o seu sangue a própria natureza e isso merece o nosso reconhecimento e a nossa acção, porque na maioria dos casos, os milhões produzidos pela violência não são para consumo interno...

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A pensar Istambul...

por Robinson Kanes, em 08.09.20

istambul (1).jpgImagem: Robinson Kanes

 

Hoje é terça-feira, é dia de andarmos pelo SardinhaSemLata... Atravessamos o Bósforo e pensamos a cidade... Podem encontrar-nos aqui.

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Israel e um Estranho Paradoxo...

por Robinson Kanes, em 19.06.18

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 Créditos. http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/13/oslo-accords-explained.html

 

 

Admito que é extraordinário ver um país como Israel, a grande nação do judaísmo, a cometer erros históricos semelhantes àqueles de que foi sendo vítima ao longo dos séculos - o culminar foi o genocídio nazi, tão falado, talvez demais falado em detrimento de outros genocídios perpetuados antes, durante e após.

 

Os últimos tempos, para além da construção de muros e vedações, tem mostrado uma hostilidade atroz por parte deste Estado face ao Estado Palestiniano que, obviamente, também não é isento de culpas. Todavia, o modo como são abatidos palestinianos por parte das forças israelitas é qualquer coisa para a qual o mundo e sobretudo as Nações Unidas não parecem estar muito interessadas em discutir, inclusive o seu Secretário-Geral, completamente inapto para o cargo que tem vindo a desempenhar - não basta o papel do bom cristão, de santo salvador que deixou um país à beira do abismo e uma demagogia obsoleta para mudar o mundo.

 

A agressão israelita tem sido tão forte que nem os mortos são poupados, e nos últimos anos, não são raros os casos em que polícia e forças militares israelitas invadem cemitérios e destroem túmulos, campas para construirem espaços de lazer para israelitas e quiçá acabarem com uma cultura e com um povo da face da terra - onde é que já vimos isso! O último foi e está a ser o cemitério de Bab Al-Rahma, onde estão os túmulos de Ubada ibn as-Samit e Shadad ibn Aus, dois próximos do profeta Maomé! Esta é uma prática constante, onde os bulldozers de Israel entram sem dó e arrasam em segundos estes espaços sagrados e que são a identidade cultural e religiosa de um povo - entretanto vão-se matando a tiro aqueles que defendem estes locais sagrados - tratados pela alta esfera israelita quase sempre como terroristas. Aliás, para muitos governantes e cidadãos israelitas não existem palestinianos mas sim terroristas - não é raro em entrevistas não existir sequer uma menção a estes indivíduos como palestinianos mas sim como terroristas perante a passividade de muitos jornalistas e responsáveis políticos.

 

É um discurso que ao longo de décadas tem ganho uma força que hoje em dia alguém que atira pedras a um soldado é visto como uma terrorista, mas um soldado que retira alguém que está em casa e mata só porque sim esse mesmo alguém em frente aos filhos é um agente de paz! Também nós colocamos a mão no gatilho ao continuar a permitir o perpetuar destes comportamentos.

 

É uma questão antiga, uma má gestão por parte do Ocidente, empenhado em resolver os expedientes da Segunda Guerra Mundial e do passado colonializador... Talvez por isso procure agir como uma avestruz... Entretanto, os terroristas vão morrendo enquanto o ódio, por culpa destes actos, vai sendo incentivado e, ao invés de estarmos a limpar um povo da face da Terra, talvez estejamos a contribuir para a criação de um povo de ódio... Um povo com ódio que será visto sempre como o principal culpado enquanto o outro lado, não menos sangreto mas mais poderoso e talvez inteligente na forma como gere a comunicação e a teia de influências, vai sendo tratado como vítima... Mesmo quando levanta muros, cria vedações e desrespeita culturas ancestrais, encarcerando o povo palestiniano num gueto - palavra que a muitos lembrará os anos 30 e 40 do século XX e não pelos melhores motivos.

 

Todo este processo deveria deixar-nos envergonhados, sobretudo aqueles que passaram por um genocídio, que a História, ou melhor, aqueles que escrevem a História, insistem em quase assinalar que foi o único.

 

(é importante recordar que tenho amigos de ambos os lados da barricada e tento sempre perceber um lado e o outro e não estou a fazer a apologia de uns em detrimento de outros).

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 Fonte da Imagem: Bruce Beattie - Daytona Beach News Journal

 

O tema não é novo, mas repete-se... E como se repete continua tão actual como aquando da primeira polémica espoletada acerca do mesmo.

 

Sempre que estamos perante um atentado terrorista assistimos à divulgação de imagens (quantas vezes não são as mesmas repetidas atá à exaustão) de pessoas feridas, mortas, em pânico, completamente aterrorizadas e, em alguns casos, até à divulgação do próprio atentado a ter lugar (Charlie Hebdo foi um dos melhores exemplos). Se a sede de vendas aqui ainda encontra uma "descupabilização", o que dizer quando os perpetradores do terror fazem um balanço do ataque e promovem a causa?

 

Pretendo com isto dizer, e em Barcelona a cena repetiu-se, que um dos grandes cúmplices do terrorismo - porque espalhar o medo é terrorismo, não é só pressionar um gatilho - poderão ser os media. O alegado vídeo do Daesh a reinvindicar o ataque foi repetido mil e uma vezes por esse mundo fora e Portugal não foi excepção. Será que não basta "uma" notícia a informar que o Daesh (ou outro movimento) reinvindicou o ataque e voltou a ameaçar? E será que estes vídeos são muitas vezes confirmados, sobretudo do ponto de vista da origem? Não me é de todo difícil colocar um vídeo igual a muitos outros do Daesh a circular na internet.

 

É aqui que também pretendo chegar... Ainda me recordo de ver os vídeos da ETA, do Hezbollah, do IRA e de outros tantos movimentos, onde o foco do mesmo passava por indivíduos que difundiam uma mensagem; mas hoje os videos são mais elaborados e coloridos com imagens que são retiradas dos próprios media. Não só estamos a alimentar a propaganda com conteúdos mas também a divulgar a mesma. Se eu sair à rua com uma suástica no braço arriscarei, por certo, algumas consequências menos boas, contudo, divulgar o ódio e o terror continua a ser um crime que passa impune sob a capa da liberdade de informação - seja de forma propositada ou negligente. 

 

Finalmente, uma nota para o actual Presidente da República Portuguesa e que me ficou retida aquando dos atentados de Barcelona: dizer que nunca morreu tanta gente, nem existiram tantos atentados terroristas como hoje, sobretudo na Europa, revela um desconhecimento da História, sobretudo a mais recente.

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A Corrida às "Hashtags". O Exemplo de Barcelona...

por Robinson Kanes, em 21.08.17

 

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Cabeça Abstracta - Joaquín Torres Garcia (Familia Maslach, in Museu Picasso/Málaga)

Fonte da Imagem: Própria

 

 

Hashtag: espécie de Santo Graal da comunicação, necessidade de ser visto, isco

in Dicionário da Real Academia de Letras e Ciências de Alhos Vedros

 

Hashtag: também chamado de "estou em bicos de pés" ou definição do sentimento de "estou aqui, olhem para mim, sou alguém".

in Dicionário da Real Academia de Letras e Artes de Vila das Aves

 

Hashtag: inventa qualquer coisa e tenta que cole e não te preocupes com o resultado.

in Dicionário do Real Sport Clube de Massamá, modalidade de Zumba.

 

Mal sai uma notícia e logo toda a gente parece estar em cima do acontecimento. De repente, temos todos opinião sobre algo que ainda nem temos a certeza se aconteceu. Aliás, eu acredito que existem pessoas que já têm textos ultracongelados para tudo, pois ainda nem existe a dita notícia e já existem mil e uma opiniões - liga-se o forno a 180º, espera-se 5 minutos e sai um comentário sobre a queda de uma árvore. Mas esteve lá? Já viu mais dados? Não! Só viu o título da notícia que saiu no website da CMTV ou no facebook de outrem enquanto estava a "trabalhar". 

 

É extraordinário, e pegando no exemplo de Barcelona, que ocorra um atentado às cinco horas e às cinco horas e cinco minutos já existam especialistas, "comentadeiros" (escalão sem valor, no qual me incluo na vertente blogista) e um sem número de pessoas que disparam em todas as direcções. Por "sorte", não eram fake news, caso contrário teria acontecido o que acontece sempre: apaga-se o comentário ou desaparece-se do mapa por uns dias ou horas para sermos esquecidos e mais tarde voltarmos à carga... Deve ser aborrecido dizer "eu até ouvi o estrondo" e depois vir a saber-se que não houve estrondo nenhum e a existir ocorreu a uns 100km! 

 

Temos também as vítimas do costume... Aqueles que lá estavam? Não, aqueles que desejariam estar para colorir melhor um testemunho que lhes permita dizer que estão ou estiveram lá, ou, no mínimo, dizer que estão a sofrer muito e que nem vão sair de casa, que Barcelona está um caos, mesmo que estejam em Sabadell ou Lleida. Seguindo um comentário que já tinha deixado, ainda vou ver indivíduos a correrem atrás destes veículos assassínos ao invés de fugirem dos mesmos só para conseguirem um ferimento e poderem partilhar a experiência nas redes sociais! Até acho que acabei de descobrir a fórmula para acabar com o terrorismo, deixem-me fazer o meu personal branding, vulgo, gabarolice pessoal! Imaginem um terrorista a dizer a outro: "aí não, está muita gente com smartphones ainda activam a bomba antes de nós só para tirarem uma selfie, vamos para aquela esquina que não está lá ninguém, isso é que vai ser uma explosão".

 

Existem sempre aqueles que, não estando no local, querem tomar parte na tragédia, mesmo que estejam bem longe e só, mais uma vez, se apercebam que aconteceu algo porque viram na televisão ou alguém lhes disse... Se a polícia não fecha logo a área, não vão faltar indivíduos a tentar que os rostos fiquem com marcas de pneu ou poeira que adveio de uma eventual explosão. Antigamente eram os "mirones" e os "fiscais", hoje já temos uma postura mais interactiva e não nos basta olhar, há que tomar parte na tragédia e dizer isso ao mundo. Também podemos sempre ir ajudar mas não dar um passo sem registar o momento para mais tarde "partilhar".

 

Outro pormenor está relacionada com o o facto do coro dos testemunhos e solidariedade vir sempre de locais fantásticos e com classe, mas quando em outros locais do planeta rebentam corpos todos os dias ninguém parece muito preocupado em partilhar. Também não existe muita paciência para aqueles que se martirizam mais que as próprias vítimas com o típico discurso do "estou tão mal, poderia lá estar". Eu também poderia ter estado em Nagasaki ou até há mais tempo a fazer festas a um T-Rex mesmo antes de cair um asteróide na terra. Afinal chegamos à conclusão que não estamos solidários, estamos é cheios de medo e angústia porque poderia ter acontecido connosco. Meus amigos, isso não se chama solidariedade, chama-se "umbiguismo".

 

Estamos na Era em que primeiro se comenta e se tem uma opinião e depois se lê, vê ou ouve a notícia... É que enquanto reunimos dados para fundamentar uma opinião estamos a perder minutos preciosos e a deixar que as hashtags dos outros ganhem terreno. E não, vocês não são assim tão importantes, meus caros. 

 

Desejem é que nunca tenham de ouvir o som da guerra ao vosso lado bem como sentir o cheiro a morte... Se desejarem tanto isso, experimentem se tiverem coragem fora da cadeira ou do sofá e voltem para contar a história - talvez voltem, mas nem queiram falar disso... O silvo de uma explosão é das coisas que nunca mais se esquecem...

 

Finalmente uma nota: Sr. Presidente e Sr. Primeiro Ministro, existiu em tempos um estadista, ministro do reino que, perante a inércia do seu rei, disse: "é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos" (há quem diga que foi o Marquês da Alorna ao invés do Marquês de Pombal). De facto, chorar os mortos traz votos e popularidade e sempre dá para mais uns minutos na televisão. O trabalho não dá e cuidar dos vivos muito menos... Mas consigo compreender, naquela época não era preciso enganar ninguém para conquistar votos porque o poder estava assegurado ao contrário do que sucede hoje em dia, que a sensação de poder é a mesma, mas é preciso ir atirando pão para a praça.  

 

Espero também que a preocupação de Vossas Excelências com o terrorismo não seja somente numa lógica externa, pois ver dois estadistas a tomar café nas ruas de Barcelona tentando fazer passar uma falsa consternação com os acontecimentos lá fora, enquanto vão permitindo que o terrorismo mantenha o próprio país em chamas é, no mínimo, caricato. Chamar a atenção em Barcelona foi das melhores hashtags que já vi. Citando alguém que não foi, mas lutou por ser estadista: se fosse comigo, "obviamente demitia-os" por traição à pátria. Para um de vós, esta expressão já não é nova, apesar de ninguém ousar falar de como era a vida do próprio antes de 1974.

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As Criancinhas que Morrem e Não Têm Sonhos...

por Robinson Kanes, em 24.05.17

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Bartolomé Estéban Murillo - Crianças Comendo Uvas e Melão, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Deve, portanto,  cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis  cada imagem.

Platão, in "República"

 

 

As criancinhas que morreram em Manchester colocaram o mundo a pensar em como é possível que se matem crianças num concerto, onde algumas até estão a realizar o sonho de uma vida. Como é possível? É a questão que todos colocam...

 

Lamento essas mortes como lamento quaisquer outras, mas o ódio e tristeza de muitos coloca o foco nas crianças que morreram. Por serem crianças, por serem jovens, por terem tantos sonhos e por estarem a realizar um deles que não era mais que ver um concerto. É legítimo, é um sonho...

 

Contudo...

 

E as criancinhas dos países do Sudoeste Asiático, da América do Sul, de África e até de países como na Turquia, qual imagem com que a personagem Mevlut de "Estranheza em Mim" (Orhan Pamuk) se deparou aquando da venda de Booza. A imagem de assistir a crianças que vivem fechadas em apartamentos a fabricar brinquedos, peças de roupa e calçado para muitas marcas que muitos de nós compramos... Às nossas criancinhas?

 

E as criancinhas que ficaram sem pai e/ou sem mãe porque foram mortos pela guerra? Criancinhas que nunca souberam o que era paz.

 

E as criancinhas que mal conseguem andar e começam a trabalhar para ajudar a família ou que então são escravizadas? 

 

E as criancinhas que não querem ficar fechadas em casa a viver no medo e arriscam brincar entre as crateras das bombas?

 

E as criancinhas que dão à costa ou andam a boiar? Quantos sonhos se perderam nas ondas que as arrastaram às areias do mediterrâneo e não só? São as mesmas areias onde muitos de nós vamos passar férias, com as nossas... Criancinhas...

 

E as criancinhas vitimas da guerra que aos 10-14 anos falam como adultos? Que demonstram uma frieza de adultos e guardam uma tristeza profunda por viverem como vivem? Criancinhas que nos fazem envergonhar e pensar como é que um discurso tão evoluído daqueles cabe em tão poucos anos de vida!

 

E as criancinhas que aos 12 anos sabem o que é disparar uma AK 47 e armar uma granada?

 

E as criancinhas que sufocam com gases tóxicos ou são contaminadas com urânio empobrecido?

 

E as criancinhas que são feitas em pedaços porque estavam a brincar na rua e a última coisa que ouviram foi o “click” da mina anti-pessoal que as enviou pelo ar e desfez as mesmas em pedaços?

 

E as criancinhas que sobrevivem a tudo isso e são transportadas para um hospital até o céu lhes cair em cima, porque lá de cima alguém o fez cair sob a forma de uma bomba?

 

E as criancinhas que, apesar de tudo isso, ainda conseguem ter um sorriso e não pedir nada?

 

E as criancinhas que, ao contrário das nossas, provavelmente nunca saberão o significado da palavra sonhar?...

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Tudo Normal...

por Robinson Kanes, em 10.04.17

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Vincent Van Gogh, O Salão de Baile em Arles (Museu D'Orsay)
Fonte da Imagem: Própria

 

Vivemos numa época em que tudo parece ser normal...

 

É normal que um sem número de indivíduos menores tenha 500 euros disponíveis (mínimo) para ir para Espanha consumir alcóol e drogas, praticar sexo desenfreadamente e não contentes com isso ainda possam destruir um hotel. É ainda mais normal que adultos reconheçam que pintar paredes, disparar extintores, partir vidros e simplesmente fazer barulho como se todos os outros indivíduos normais se tivessem de sujeitar à delinquência de meia-dúzia de filhos de outros pais é... normal. Pais que estão mais preocupados em alimentar a sua e a neofilia dos filhos do que propriamente lhes dar educação. 

 

É normal andarmos apoquentados com a luta pelo título de futebol e termos o fim de semana estragado porque meia dúzia de pessoas insistem em falar de guerra e agora se lembraram de falar mal dos delinquentes que envergonham Portugal. Afinal é normal dizermos que comportamentos (nem sempre educados) como os de Ronaldo e Mourinho são exemplos a seguir, os verdadeiros portugueses... a imagem de Portugal, é normal. Batemos palmas à falta de educação destes mas depois censuramos as crianças a quem dizemos que estes são o exemplo... é normal.

 

É normal querermos que os Admninistradores Executivos do Pingo Doce não ganhem milhões, mas não é normal questionar os movimentos salariais e outros que ocorrem no futebol... aliás, ainda batemos palmas.

 

É normal e vai passar a ser ainda mais normal que estejamos a tomar um café tranquilamente e nos entre um camião pela porta. É normal ouvir muitos portugueses dizerem que ficam assustados com este tipo de ataques porque assim já têm de mudar os planos de férias - eu quero lá saber de egipcios, suecos, franceses, alemães, israelitas, indonésios e outros, eu quero é ir passar férias sem ter de pensar em terrorismo. 

 

É normal que maior parte das pessoas com quem falo se diga não católica ou católica não praticante mas não abdique de um feriado religioso (que muitas vezes nem sabe a origem) para poder estoirar todo o salário de um mês - Retirar o feriado? É que nem pensar!

 

É normal que Estados Unidos ataquem a Síria, que Russos e Iranianos ameacem com retaliações e também é normal que uma frota de vasos de guerra norte-americanos se esteja a deslocar para águas do Mar do Japão.  É normal, até já "vi" este cenário em Espanha quando eclodiu uma Guerra Civil... com as consequências que veio a ter mais tarde.

 

É normal lamentarem-se tantas mortes, sermos tão solidários, mas no fundo não passarmos de egoístas que desejamos é ter distância desses cenários.

 

É normal continuarmos a alimentar guerras entre religiões (que nunca deram provas de nada - e aqui não questiono a fé) e não atentarmos em nós como homens (com prova cabal de existência) capazes de dirimir tantos e tantos conflitos. É como se a religião possa permitr que deixemos de ser homens e nos comportemos como autênticas bestas porque delegámos o controlo da nossa estupidez em alguém ou em algo que nunca vimos mas acreditamos que exista.

 

Mas, como já pensava outrora Vergilio Ferreira (in "O Existencialismo é um Humanismo"), talvez seja normal que me equivoque do que julgo que vejo...

 

 

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É Tudo Uma Questão de Nervos...

por Robinson Kanes, em 06.04.17

 

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Fonte da Imagem: http://www.cbsnews.com/news/chemical-nerve-agents-a-very-toxic-and-horrible-way-to-die/

 

Um serão em família bem planeado... pai e mãe chegam dos empregos, ele prepara o jantar, ela dá banho aos miúdos. Brinca-se, pensa-se em como pagar o empréstimo da casa, diz-se mal dos amigos e chega a hora do jantar.

 

Entre chamadas de “João anda para a mesa” ou “Matilde, deixa a internet”, todos se sentam à mesa e começam a jantar. Cheira a comida oriental, uma receita que o pai retirou de um blogue. Uma ideia dos amigos e que, segundo ele, é uma receita de um país atrasado e de Terceiro Mundo.

 

A cidade está alegre, é Verão, ouvem-se crianças a brincar na rua, o vizinho do lado a chegar e aquela família a jantar com os últimos raios de sol a inundarem a cozinha daquele T3 nos arredores de Lisboa.

 

Pelo meio fala-se de futebol e do Ronaldo, fala-se do carro novo que já está decidido, dos detalhes do empréstimo e da escola dos miúdos. João exige umas sapatilhas novas, todos os amigos têm.

 

De repente, um estrondo... a mãe levanta-se, vai ver. Só os cães ladram, as crianças na rua continuam a brincar. O sol em Lisboa é mágico e inunda a praceta de uma cor de fim de tarde que contrasta com o cinzento esverdeado dos prédios.

 

A televisão ligada corta o diálogo, deixou-se de falar do melhor penteado e da figura pública mais bem vestida e chegam as notícias do mundo. O Pai diz - Não há paciência, merda para esses árabes! – e desliga a televisão.

 

É nesse momento que o som das crianças na praceta também se desliga, é também nesse momento que João começa a tossir. Os músculos do rosto contraem de tal modo que o João fica desfigurado num rosto digno de uma tela de Goya no seu período mais negro. Cai ao chão e apresenta convulsões que o fazem babar o ladrilho e urinar as calças que a avó com tanto carinho lhe deu. Agarra o pescoço, luta com os seus braços ainda pequenos, mas em vão...

 

Os pais acorrem em pânico, não conseguem perceber o que se passa, a linha de emergência está ocupada... Matilde, até então em choque, contorce-se na cadeira, agarra-se ao peito, o coração deixa de bater e os pulmões contraem-se de tal modo que nenhum oxigénio circula. Asfixia, cai perto de João que jaz já cadáver perante a falência respiratória. O seu rosto de menino transformou-se num retrato dantesco, as suas pupilas transformadas em mínimas esferas e o rosto com um olhar de horror, transformaram-no num pedaço de tragédia humana. A mãe vem gritar para a janela e vê os corpos das crianças que brincavam na rua no chão e amortalhados entre saliva e urina. Os pais, em pânico na praceta, choram e agridem os tripulantes das primeiras ambulâncias a chegar ao local.

 

No apartamento, de joelhos e em lágrimas, os pais sentem-se perdidos no mundo, João de 10 anos e Matilde de 8, foram vítimas de um ataque com agente nervoso. O cheiro da urina dá lugar a um cheiro pesado a insecticida... a um cheiro a morte.

 

Um dia pode ser na sua casa... com os seus filhos... os ataques com armas químicas são crimes de guerra, são verdadeiros crimes contra a Humanidade! Humanidade, significa que são contra si. Já foi ver se os seus filhos estão bem?

 

 

(Os ataques com armas químicas não são recentes. Sobretudo na Síria não é nada de novo, em 2013 não morreram 100 pessoas como no último ataque conhecido... morreram 1300 pessoas e o mundo virou a cara. Ao longo destes últimos anos o cenário tem-se repetido e penso... não aprendemos nada com a memória plástica que nos deixou Pablo Picasso com o seu Guernica.)

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O Terrorista Comum...

por Robinson Kanes, em 04.04.17

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Bernardino Luini, Salomé Com a Cabeça de S. João Baptista (Museu do Louvre)
Fonte da Imagem: Própria

 

 

Honestos ou patifórios, triunfadores ou vencidos onde é que? Cresceu a erva por cima – que é que quer dizer a moral por baixo da erva? Muito bem. Somente o absoluto existe no absoluto da tua vida. Realiza-a nos limites do teu trajecto visível. Treva e irrealidade o resto e é só. Tu aí, a tua vida é essa para preparares o que te falta. É pouco o que te falta – bem pouco. Prepara o resto por cima da erva, enquanto não estás por baixo que é onde já não há preparação.

 

Vergílio Ferreira, in Para Sempre

 

 

Falamos tanto de terrorismo, de território, de poder e... parecemos esquecer que, muito provavelmente, muitos de nós temos um pouco de terroristas.

 

No nosso dia-a-dia, ou melhor, durante a nossa vida, quantos actos terroristas não cometemos? Se, por exemplo, em São Petersburgo morreram 10 pessoas, quantas pessoas não matamos/destruímos ao longo da nossa vida?

 

Choramos as vítimas e culpamos os terroristas, mas quando prejudicámos aquele colega no trabalho só porque (infantilmente) tememos que o mesmo nos ia roubar o emprego ou a promoção ou... a vassalagem perante a chefia?

 

Quantas vezes destruímos a vida daquele amigo do qual nos fizemos sócios, mas a vontade de ter uma vida acima das possibilidades arruinou a vida de outrem? Quantas vezes, só para manter um emprego, somos capazes de ir contra a nossa ética e valores prejudicando uma equipa que até está a fazer um bom trabalho?

 

Quantas vezes a ganância e o foco no nosso umbigo nos leva a entrar em profundas guerras com amigos e família? E quando abandonamos os nossos pais, já idosos, num lar ou numa instituição e nem lá colocamos os pés? Quantos de nós não somos terroristas quando os nossos pais se afundam em dívidas e trabalho (quando deveriam era descansar) para nos pagar os luxos e a nossa extravagância?

 

Quantas vezes apelamos ao cuidado com os pobrezinhos e logo a seguir nos gabamos de ter gasto rios de dinheiro numa "fantochada" qualquer - típico de mente pequena e com pouco dinheiro, por norma. Quem gasta à séria não demonstra. Em Portugal, por exemplo, é praticamente impossível alguém fazer uma descrição de uma experiência sem exaltar o quanto pagou por...

 

No nosso quotidiano, quantas vezes não cometemos actos terroristas porque queremos ser os primeiros a passar, os primeiros a ter, os primeiros a conseguir, os primeiros - ou melhor - o eu a ter, o eu a conseguir, o eu a passar...

 

Pensava que a morte de Deus tinha tornado o ser-humano mais consciente de que é ele que tem de zelar por si e pelos outros e não uma entidade supraterrena. Contudo, ficamos a acreditar que esse Deus existe e haverá misericórdia no dia em que fecharmos os olhos para sempre. Preferimos essa ilusão à verdade da nossa responsabilidade e à verdade de acabarmos em cinzas ou numa pasta leitosa que mais tarde será pó!

 

Rezemos pelos mortos, porque é a forma caridosa e egoísta de nos lembrarmos que estamos vivos...

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