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Israel e um Estranho Paradoxo...

por Robinson Kanes, em 19.06.18

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 Créditos. http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/13/oslo-accords-explained.html

 

 

Admito que é extraordinário ver um país como Israel, a grande nação do judaísmo, a cometer erros históricos semelhantes àqueles de que foi sendo vítima ao longo dos séculos - o culminar foi o genocídio nazi, tão falado, talvez demais falado em detrimento de outros genocídios perpetuados antes, durante e após.

 

Os últimos tempos, para além da construção de muros e vedações, tem mostrado uma hostilidade atroz por parte deste Estado face ao Estado Palestiniano que, obviamente, também não é isento de culpas. Todavia, o modo como são abatidos palestinianos por parte das forças israelitas é qualquer coisa para a qual o mundo e sobretudo as Nações Unidas não parecem estar muito interessadas em discutir, inclusive o seu Secretário-Geral, completamente inapto para o cargo que tem vindo a desempenhar - não basta o papel do bom cristão, de santo salvador que deixou um país à beira do abismo e uma demagogia obsoleta para mudar o mundo.

 

A agressão israelita tem sido tão forte que nem os mortos são poupados, e nos últimos anos, não são raros os casos em que polícia e forças militares israelitas invadem cemitérios e destroem túmulos, campas para construirem espaços de lazer para israelitas e quiçá acabarem com uma cultura e com um povo da face da terra - onde é que já vimos isso! O último foi e está a ser o cemitério de Bab Al-Rahma, onde estão os túmulos de Ubada ibn as-Samit e Shadad ibn Aus, dois próximos do profeta Maomé! Esta é uma prática constante, onde os bulldozers de Israel entram sem dó e arrasam em segundos estes espaços sagrados e que são a identidade cultural e religiosa de um povo - entretanto vão-se matando a tiro aqueles que defendem estes locais sagrados - tratados pela alta esfera israelita quase sempre como terroristas. Aliás, para muitos governantes e cidadãos israelitas não existem palestinianos mas sim terroristas - não é raro em entrevistas não existir sequer uma menção a estes indivíduos como palestinianos mas sim como terroristas perante a passividade de muitos jornalistas e responsáveis políticos.

 

É um discurso que ao longo de décadas tem ganho uma força que hoje em dia alguém que atira pedras a um soldado é visto como uma terrorista, mas um soldado que retira alguém que está em casa e mata só porque sim esse mesmo alguém em frente aos filhos é um agente de paz! Também nós colocamos a mão no gatilho ao continuar a permitir o perpetuar destes comportamentos.

 

É uma questão antiga, uma má gestão por parte do Ocidente, empenhado em resolver os expedientes da Segunda Guerra Mundial e do passado colonializador... Talvez por isso procure agir como uma avestruz... Entretanto, os terroristas vão morrendo enquanto o ódio, por culpa destes actos, vai sendo incentivado e, ao invés de estarmos a limpar um povo da face da Terra, talvez estejamos a contribuir para a criação de um povo de ódio... Um povo com ódio que será visto sempre como o principal culpado enquanto o outro lado, não menos sangreto mas mais poderoso e talvez inteligente na forma como gere a comunicação e a teia de influências, vai sendo tratado como vítima... Mesmo quando levanta muros, cria vedações e desrespeita culturas ancestrais, encarcerando o povo palestiniano num gueto - palavra que a muitos lembrará os anos 30 e 40 do século XX e não pelos melhores motivos.

 

Todo este processo deveria deixar-nos envergonhados, sobretudo aqueles que passaram por um genocídio, que a História, ou melhor, aqueles que escrevem a História, insistem em quase assinalar que foi o único.

 

(é importante recordar que tenho amigos de ambos os lados da barricada e tento sempre perceber um lado e o outro e não estou a fazer a apologia de uns em detrimento de outros).

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 Fonte da Imagem: Bruce Beattie - Daytona Beach News Journal

 

O tema não é novo, mas repete-se... E como se repete continua tão actual como aquando da primeira polémica espoletada acerca do mesmo.

 

Sempre que estamos perante um atentado terrorista assistimos à divulgação de imagens (quantas vezes não são as mesmas repetidas atá à exaustão) de pessoas feridas, mortas, em pânico, completamente aterrorizadas e, em alguns casos, até à divulgação do próprio atentado a ter lugar (Charlie Hebdo foi um dos melhores exemplos). Se a sede de vendas aqui ainda encontra uma "descupabilização", o que dizer quando os perpetradores do terror fazem um balanço do ataque e promovem a causa?

 

Pretendo com isto dizer, e em Barcelona a cena repetiu-se, que um dos grandes cúmplices do terrorismo - porque espalhar o medo é terrorismo, não é só pressionar um gatilho - poderão ser os media. O alegado vídeo do Daesh a reinvindicar o ataque foi repetido mil e uma vezes por esse mundo fora e Portugal não foi excepção. Será que não basta "uma" notícia a informar que o Daesh (ou outro movimento) reinvindicou o ataque e voltou a ameaçar? E será que estes vídeos são muitas vezes confirmados, sobretudo do ponto de vista da origem? Não me é de todo difícil colocar um vídeo igual a muitos outros do Daesh a circular na internet.

 

É aqui que também pretendo chegar... Ainda me recordo de ver os vídeos da ETA, do Hezbollah, do IRA e de outros tantos movimentos, onde o foco do mesmo passava por indivíduos que difundiam uma mensagem; mas hoje os videos são mais elaborados e coloridos com imagens que são retiradas dos próprios media. Não só estamos a alimentar a propaganda com conteúdos mas também a divulgar a mesma. Se eu sair à rua com uma suástica no braço arriscarei, por certo, algumas consequências menos boas, contudo, divulgar o ódio e o terror continua a ser um crime que passa impune sob a capa da liberdade de informação - seja de forma propositada ou negligente. 

 

Finalmente, uma nota para o actual Presidente da República Portuguesa e que me ficou retida aquando dos atentados de Barcelona: dizer que nunca morreu tanta gente, nem existiram tantos atentados terroristas como hoje, sobretudo na Europa, revela um desconhecimento da História, sobretudo a mais recente.

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A Corrida às "Hashtags". O Exemplo de Barcelona...

por Robinson Kanes, em 21.08.17

 

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Cabeça Abstracta - Joaquín Torres Garcia (Familia Maslach, in Museu Picasso/Málaga)

Fonte da Imagem: Própria

 

 

Hashtag: espécie de Santo Graal da comunicação, necessidade de ser visto, isco

in Dicionário da Real Academia de Letras e Ciências de Alhos Vedros

 

Hashtag: também chamado de "estou em bicos de pés" ou definição do sentimento de "estou aqui, olhem para mim, sou alguém".

in Dicionário da Real Academia de Letras e Artes de Vila das Aves

 

Hashtag: inventa qualquer coisa e tenta que cole e não te preocupes com o resultado.

in Dicionário do Real Sport Clube de Massamá, modalidade de Zumba.

 

Mal sai uma notícia e logo toda a gente parece estar em cima do acontecimento. De repente, temos todos opinião sobre algo que ainda nem temos a certeza se aconteceu. Aliás, eu acredito que existem pessoas que já têm textos ultracongelados para tudo, pois ainda nem existe a dita notícia e já existem mil e uma opiniões - liga-se o forno a 180º, espera-se 5 minutos e sai um comentário sobre a queda de uma árvore. Mas esteve lá? Já viu mais dados? Não! Só viu o título da notícia que saiu no website da CMTV ou no facebook de outrem enquanto estava a "trabalhar". 

 

É extraordinário, e pegando no exemplo de Barcelona, que ocorra um atentado às cinco horas e às cinco horas e cinco minutos já existam especialistas, "comentadeiros" (escalão sem valor, no qual me incluo na vertente blogista) e um sem número de pessoas que disparam em todas as direcções. Por "sorte", não eram fake news, caso contrário teria acontecido o que acontece sempre: apaga-se o comentário ou desaparece-se do mapa por uns dias ou horas para sermos esquecidos e mais tarde voltarmos à carga... Deve ser aborrecido dizer "eu até ouvi o estrondo" e depois vir a saber-se que não houve estrondo nenhum e a existir ocorreu a uns 100km! 

 

Temos também as vítimas do costume... Aqueles que lá estavam? Não, aqueles que desejariam estar para colorir melhor um testemunho que lhes permita dizer que estão ou estiveram lá, ou, no mínimo, dizer que estão a sofrer muito e que nem vão sair de casa, que Barcelona está um caos, mesmo que estejam em Sabadell ou Lleida. Seguindo um comentário que já tinha deixado, ainda vou ver indivíduos a correrem atrás destes veículos assassínos ao invés de fugirem dos mesmos só para conseguirem um ferimento e poderem partilhar a experiência nas redes sociais! Até acho que acabei de descobrir a fórmula para acabar com o terrorismo, deixem-me fazer o meu personal branding, vulgo, gabarolice pessoal! Imaginem um terrorista a dizer a outro: "aí não, está muita gente com smartphones ainda activam a bomba antes de nós só para tirarem uma selfie, vamos para aquela esquina que não está lá ninguém, isso é que vai ser uma explosão".

 

Existem sempre aqueles que, não estando no local, querem tomar parte na tragédia, mesmo que estejam bem longe e só, mais uma vez, se apercebam que aconteceu algo porque viram na televisão ou alguém lhes disse... Se a polícia não fecha logo a área, não vão faltar indivíduos a tentar que os rostos fiquem com marcas de pneu ou poeira que adveio de uma eventual explosão. Antigamente eram os "mirones" e os "fiscais", hoje já temos uma postura mais interactiva e não nos basta olhar, há que tomar parte na tragédia e dizer isso ao mundo. Também podemos sempre ir ajudar mas não dar um passo sem registar o momento para mais tarde "partilhar".

 

Outro pormenor está relacionada com o o facto do coro dos testemunhos e solidariedade vir sempre de locais fantásticos e com classe, mas quando em outros locais do planeta rebentam corpos todos os dias ninguém parece muito preocupado em partilhar. Também não existe muita paciência para aqueles que se martirizam mais que as próprias vítimas com o típico discurso do "estou tão mal, poderia lá estar". Eu também poderia ter estado em Nagasaki ou até há mais tempo a fazer festas a um T-Rex mesmo antes de cair um asteróide na terra. Afinal chegamos à conclusão que não estamos solidários, estamos é cheios de medo e angústia porque poderia ter acontecido connosco. Meus amigos, isso não se chama solidariedade, chama-se "umbiguismo".

 

Estamos na Era em que primeiro se comenta e se tem uma opinião e depois se lê, vê ou ouve a notícia... É que enquanto reunimos dados para fundamentar uma opinião estamos a perder minutos preciosos e a deixar que as hashtags dos outros ganhem terreno. E não, vocês não são assim tão importantes, meus caros. 

 

Desejem é que nunca tenham de ouvir o som da guerra ao vosso lado bem como sentir o cheiro a morte... Se desejarem tanto isso, experimentem se tiverem coragem fora da cadeira ou do sofá e voltem para contar a história - talvez voltem, mas nem queiram falar disso... O silvo de uma explosão é das coisas que nunca mais se esquecem...

 

Finalmente uma nota: Sr. Presidente e Sr. Primeiro Ministro, existiu em tempos um estadista, ministro do reino que, perante a inércia do seu rei, disse: "é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos" (há quem diga que foi o Marquês da Alorna ao invés do Marquês de Pombal). De facto, chorar os mortos traz votos e popularidade e sempre dá para mais uns minutos na televisão. O trabalho não dá e cuidar dos vivos muito menos... Mas consigo compreender, naquela época não era preciso enganar ninguém para conquistar votos porque o poder estava assegurado ao contrário do que sucede hoje em dia, que a sensação de poder é a mesma, mas é preciso ir atirando pão para a praça.  

 

Espero também que a preocupação de Vossas Excelências com o terrorismo não seja somente numa lógica externa, pois ver dois estadistas a tomar café nas ruas de Barcelona tentando fazer passar uma falsa consternação com os acontecimentos lá fora, enquanto vão permitindo que o terrorismo mantenha o próprio país em chamas é, no mínimo, caricato. Chamar a atenção em Barcelona foi das melhores hashtags que já vi. Citando alguém que não foi, mas lutou por ser estadista: se fosse comigo, "obviamente demitia-os" por traição à pátria. Para um de vós, esta expressão já não é nova, apesar de ninguém ousar falar de como era a vida do próprio antes de 1974.

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As Criancinhas que Morrem e Não Têm Sonhos...

por Robinson Kanes, em 24.05.17

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Bartolomé Estéban Murillo - Crianças Comendo Uvas e Melão, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Deve, portanto,  cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis  cada imagem.

Platão, in "República"

 

 

As criancinhas que morreram em Manchester colocaram o mundo a pensar em como é possível que se matem crianças num concerto, onde algumas até estão a realizar o sonho de uma vida. Como é possível? É a questão que todos colocam...

 

Lamento essas mortes como lamento quaisquer outras, mas o ódio e tristeza de muitos coloca o foco nas crianças que morreram. Por serem crianças, por serem jovens, por terem tantos sonhos e por estarem a realizar um deles que não era mais que ver um concerto. É legítimo, é um sonho...

 

Contudo...

 

E as criancinhas dos países do Sudoeste Asiático, da América do Sul, de África e até de países como na Turquia, qual imagem com que a personagem Mevlut de "Estranheza em Mim" (Orhan Pamuk) se deparou aquando da venda de Booza. A imagem de assistir a crianças que vivem fechadas em apartamentos a fabricar brinquedos, peças de roupa e calçado para muitas marcas que muitos de nós compramos... Às nossas criancinhas?

 

E as criancinhas que ficaram sem pai e/ou sem mãe porque foram mortos pela guerra? Criancinhas que nunca souberam o que era paz.

 

E as criancinhas que mal conseguem andar e começam a trabalhar para ajudar a família ou que então são escravizadas? 

 

E as criancinhas que não querem ficar fechadas em casa a viver no medo e arriscam brincar entre as crateras das bombas?

 

E as criancinhas que dão à costa ou andam a boiar? Quantos sonhos se perderam nas ondas que as arrastaram às areias do mediterrâneo e não só? São as mesmas areias onde muitos de nós vamos passar férias, com as nossas... Criancinhas...

 

E as criancinhas vitimas da guerra que aos 10-14 anos falam como adultos? Que demonstram uma frieza de adultos e guardam uma tristeza profunda por viverem como vivem? Criancinhas que nos fazem envergonhar e pensar como é que um discurso tão evoluído daqueles cabe em tão poucos anos de vida!

 

E as criancinhas que aos 12 anos sabem o que é disparar uma AK 47 e armar uma granada?

 

E as criancinhas que sufocam com gases tóxicos ou são contaminadas com urânio empobrecido?

 

E as criancinhas que são feitas em pedaços porque estavam a brincar na rua e a última coisa que ouviram foi o “click” da mina anti-pessoal que as enviou pelo ar e desfez as mesmas em pedaços?

 

E as criancinhas que sobrevivem a tudo isso e são transportadas para um hospital até o céu lhes cair em cima, porque lá de cima alguém o fez cair sob a forma de uma bomba?

 

E as criancinhas que, apesar de tudo isso, ainda conseguem ter um sorriso e não pedir nada?

 

E as criancinhas que, ao contrário das nossas, provavelmente nunca saberão o significado da palavra sonhar?...

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Tudo Normal...

por Robinson Kanes, em 10.04.17

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Vincent Van Gogh, O Salão de Baile em Arles (Museu D'Orsay)
Fonte da Imagem: Própria

 

Vivemos numa época em que tudo parece ser normal...

 

É normal que um sem número de indivíduos menores tenha 500 euros disponíveis (mínimo) para ir para Espanha consumir alcóol e drogas, praticar sexo desenfreadamente e não contentes com isso ainda possam destruir um hotel. É ainda mais normal que adultos reconheçam que pintar paredes, disparar extintores, partir vidros e simplesmente fazer barulho como se todos os outros indivíduos normais se tivessem de sujeitar à delinquência de meia-dúzia de filhos de outros pais é... normal. Pais que estão mais preocupados em alimentar a sua e a neofilia dos filhos do que propriamente lhes dar educação. 

 

É normal andarmos apoquentados com a luta pelo título de futebol e termos o fim de semana estragado porque meia dúzia de pessoas insistem em falar de guerra e agora se lembraram de falar mal dos delinquentes que envergonham Portugal. Afinal é normal dizermos que comportamentos (nem sempre educados) como os de Ronaldo e Mourinho são exemplos a seguir, os verdadeiros portugueses... a imagem de Portugal, é normal. Batemos palmas à falta de educação destes mas depois censuramos as crianças a quem dizemos que estes são o exemplo... é normal.

 

É normal querermos que os Admninistradores Executivos do Pingo Doce não ganhem milhões, mas não é normal questionar os movimentos salariais e outros que ocorrem no futebol... aliás, ainda batemos palmas.

 

É normal e vai passar a ser ainda mais normal que estejamos a tomar um café tranquilamente e nos entre um camião pela porta. É normal ouvir muitos portugueses dizerem que ficam assustados com este tipo de ataques porque assim já têm de mudar os planos de férias - eu quero lá saber de egipcios, suecos, franceses, alemães, israelitas, indonésios e outros, eu quero é ir passar férias sem ter de pensar em terrorismo. 

 

É normal que maior parte das pessoas com quem falo se diga não católica ou católica não praticante mas não abdique de um feriado religioso (que muitas vezes nem sabe a origem) para poder estoirar todo o salário de um mês - Retirar o feriado? É que nem pensar!

 

É normal que Estados Unidos ataquem a Síria, que Russos e Iranianos ameacem com retaliações e também é normal que uma frota de vasos de guerra norte-americanos se esteja a deslocar para águas do Mar do Japão.  É normal, até já "vi" este cenário em Espanha quando eclodiu uma Guerra Civil... com as consequências que veio a ter mais tarde.

 

É normal lamentarem-se tantas mortes, sermos tão solidários, mas no fundo não passarmos de egoístas que desejamos é ter distância desses cenários.

 

É normal continuarmos a alimentar guerras entre religiões (que nunca deram provas de nada - e aqui não questiono a fé) e não atentarmos em nós como homens (com prova cabal de existência) capazes de dirimir tantos e tantos conflitos. É como se a religião possa permitr que deixemos de ser homens e nos comportemos como autênticas bestas porque delegámos o controlo da nossa estupidez em alguém ou em algo que nunca vimos mas acreditamos que exista.

 

Mas, como já pensava outrora Vergilio Ferreira (in "O Existencialismo é um Humanismo"), talvez seja normal que me equivoque do que julgo que vejo...

 

 

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É Tudo Uma Questão de Nervos...

por Robinson Kanes, em 06.04.17

 

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Fonte da Imagem: http://www.cbsnews.com/news/chemical-nerve-agents-a-very-toxic-and-horrible-way-to-die/

 

Um serão em família bem planeado... pai e mãe chegam dos empregos, ele prepara o jantar, ela dá banho aos miúdos. Brinca-se, pensa-se em como pagar o empréstimo da casa, diz-se mal dos amigos e chega a hora do jantar.

 

Entre chamadas de “João anda para a mesa” ou “Matilde, deixa a internet”, todos se sentam à mesa e começam a jantar. Cheira a comida oriental, uma receita que o pai retirou de um blogue. Uma ideia dos amigos e que, segundo ele, é uma receita de um país atrasado e de Terceiro Mundo.

 

A cidade está alegre, é Verão, ouvem-se crianças a brincar na rua, o vizinho do lado a chegar e aquela família a jantar com os últimos raios de sol a inundarem a cozinha daquele T3 nos arredores de Lisboa.

 

Pelo meio fala-se de futebol e do Ronaldo, fala-se do carro novo que já está decidido, dos detalhes do empréstimo e da escola dos miúdos. João exige umas sapatilhas novas, todos os amigos têm.

 

De repente, um estrondo... a mãe levanta-se, vai ver. Só os cães ladram, as crianças na rua continuam a brincar. O sol em Lisboa é mágico e inunda a praceta de uma cor de fim de tarde que contrasta com o cinzento esverdeado dos prédios.

 

A televisão ligada corta o diálogo, deixou-se de falar do melhor penteado e da figura pública mais bem vestida e chegam as notícias do mundo. O Pai diz - Não há paciência, merda para esses árabes! – e desliga a televisão.

 

É nesse momento que o som das crianças na praceta também se desliga, é também nesse momento que João começa a tossir. Os músculos do rosto contraem de tal modo que o João fica desfigurado num rosto digno de uma tela de Goya no seu período mais negro. Cai ao chão e apresenta convulsões que o fazem babar o ladrilho e urinar as calças que a avó com tanto carinho lhe deu. Agarra o pescoço, luta com os seus braços ainda pequenos, mas em vão...

 

Os pais acorrem em pânico, não conseguem perceber o que se passa, a linha de emergência está ocupada... Matilde, até então em choque, contorce-se na cadeira, agarra-se ao peito, o coração deixa de bater e os pulmões contraem-se de tal modo que nenhum oxigénio circula. Asfixia, cai perto de João que jaz já cadáver perante a falência respiratória. O seu rosto de menino transformou-se num retrato dantesco, as suas pupilas transformadas em mínimas esferas e o rosto com um olhar de horror, transformaram-no num pedaço de tragédia humana. A mãe vem gritar para a janela e vê os corpos das crianças que brincavam na rua no chão e amortalhados entre saliva e urina. Os pais, em pânico na praceta, choram e agridem os tripulantes das primeiras ambulâncias a chegar ao local.

 

No apartamento, de joelhos e em lágrimas, os pais sentem-se perdidos no mundo, João de 10 anos e Matilde de 8, foram vítimas de um ataque com agente nervoso. O cheiro da urina dá lugar a um cheiro pesado a insecticida... a um cheiro a morte.

 

Um dia pode ser na sua casa... com os seus filhos... os ataques com armas químicas são crimes de guerra, são verdadeiros crimes contra a Humanidade! Humanidade, significa que são contra si. Já foi ver se os seus filhos estão bem?

 

 

(Os ataques com armas químicas não são recentes. Sobretudo na Síria não é nada de novo, em 2013 não morreram 100 pessoas como no último ataque conhecido... morreram 1300 pessoas e o mundo virou a cara. Ao longo destes últimos anos o cenário tem-se repetido e penso... não aprendemos nada com a memória plástica que nos deixou Pablo Picasso com o seu Guernica.)

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O Terrorista Comum...

por Robinson Kanes, em 04.04.17

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Bernardino Luini, Salomé Com a Cabeça de S. João Baptista (Museu do Louvre)
Fonte da Imagem: Própria

 

 

Honestos ou patifórios, triunfadores ou vencidos onde é que? Cresceu a erva por cima – que é que quer dizer a moral por baixo da erva? Muito bem. Somente o absoluto existe no absoluto da tua vida. Realiza-a nos limites do teu trajecto visível. Treva e irrealidade o resto e é só. Tu aí, a tua vida é essa para preparares o que te falta. É pouco o que te falta – bem pouco. Prepara o resto por cima da erva, enquanto não estás por baixo que é onde já não há preparação.

 

Vergílio Ferreira, in Para Sempre

 

 

Falamos tanto de terrorismo, de território, de poder e... parecemos esquecer que, muito provavelmente, muitos de nós temos um pouco de terroristas.

 

No nosso dia-a-dia, ou melhor, durante a nossa vida, quantos actos terroristas não cometemos? Se, por exemplo, em São Petersburgo morreram 10 pessoas, quantas pessoas não matamos/destruímos ao longo da nossa vida?

 

Choramos as vítimas e culpamos os terroristas, mas quando prejudicámos aquele colega no trabalho só porque (infantilmente) tememos que o mesmo nos ia roubar o emprego ou a promoção ou... a vassalagem perante a chefia?

 

Quantas vezes destruímos a vida daquele amigo do qual nos fizemos sócios, mas a vontade de ter uma vida acima das possibilidades arruinou a vida de outrem? Quantas vezes, só para manter um emprego, somos capazes de ir contra a nossa ética e valores prejudicando uma equipa que até está a fazer um bom trabalho?

 

Quantas vezes a ganância e o foco no nosso umbigo nos leva a entrar em profundas guerras com amigos e família? E quando abandonamos os nossos pais, já idosos, num lar ou numa instituição e nem lá colocamos os pés? Quantos de nós não somos terroristas quando os nossos pais se afundam em dívidas e trabalho (quando deveriam era descansar) para nos pagar os luxos e a nossa extravagância?

 

Quantas vezes apelamos ao cuidado com os pobrezinhos e logo a seguir nos gabamos de ter gasto rios de dinheiro numa "fantochada" qualquer - típico de mente pequena e com pouco dinheiro, por norma. Quem gasta à séria não demonstra. Em Portugal, por exemplo, é praticamente impossível alguém fazer uma descrição de uma experiência sem exaltar o quanto pagou por...

 

No nosso quotidiano, quantas vezes não cometemos actos terroristas porque queremos ser os primeiros a passar, os primeiros a ter, os primeiros a conseguir, os primeiros - ou melhor - o eu a ter, o eu a conseguir, o eu a passar...

 

Pensava que a morte de Deus tinha tornado o ser-humano mais consciente de que é ele que tem de zelar por si e pelos outros e não uma entidade supraterrena. Contudo, ficamos a acreditar que esse Deus existe e haverá misericórdia no dia em que fecharmos os olhos para sempre. Preferimos essa ilusão à verdade da nossa responsabilidade e à verdade de acabarmos em cinzas ou numa pasta leitosa que mais tarde será pó!

 

Rezemos pelos mortos, porque é a forma caridosa e egoísta de nos lembrarmos que estamos vivos...

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Istambul... Minha Princesa...

por Robinson Kanes, em 02.01.17

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Atravessando o Bósforo até ao Mar de Marmara

 

 As notícias de Istambul, aliás, da própria Turquia não param de chegar. São os Golpes de Estado, são os atentados, é o ódio contra tudo o que é turco. Não se faz um Je suis Istambul, afinal quem é que quer saber da Turquia para alguma coisa? Acham que os meus amigos vão ficar mais meus amigos por isso? Só resulta se for em Cannes, aí sim, Je suis Cannes, é bem mais pomposo.

 

No caso de Istambul (Ankara e Bursa também), só quem nunca lá colocou um pé, ou viveu lá, pode olhar para os turcos como gente "sem rei nem roque", como gente louca e sem qualquer lugar numa sociedade actual.

 

Lembro-me da minha primeira chegada àquela metrópole de 13 milhões de habitantes e de ter perguntado ao motorista que me trazia do aeroporto de Atatürk e ao "assistente" que o acompanhava: "vocês aqui não têm receio dos constantes ataques, por exemplo, do Daesh ou do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão)?". Com um sorriso nos lábios, desdenhoso até, numa primeira abordagem, e em tom de risada me responderam tranquilamente que "nunca! nós aqui trabalhamos, temos de alimentar as nossas famílias e não tememos os terroristas, não temos tempo para isso.". 

 

Presumi, pura e simplesmente, que se riam de mim e do meu hipotético medo de tudo e de todos e da paralisia perante a realidade do Mundo - o engomadinho ocidental protegido na sua concha, que se julga muito forte, mas assim que coloca o pé em solo turco se agacha ao primeiro barulho que ouve na rua (sobretudo após uma onda de atentados que havia varrido a cidade dias antes).

 

A conversa prolongou-se - experimentem conduzir em Istambul, todos os locais podem ficar distantes em segundos e a viagem de Atatürk a Sultanahmet pode ser uma aventura de horas - e percebi, mais uma vez, a realidade de um povo que vive para o trabalho, que se organiza e se apoia mutuamente, que acorda cedo e se deita tarde e que não sabe a diferença entre semana e fim-de-semana. Um povo que trabalha arduamente, nem sempre nas melhores condições e que, mesmo assim, consegue, após uns minutos de conversa, ter um sorriso bem rasgado nos lábios... 

 

É esse sentimento de luta diária, de coragem e garra, que me fez, dias após a minha primeira partida, e depois de um atentando à bomba, cujo rebentamento foi exactamente no mesmo sítio onde tinha estado sentado a comer um Kebab (obrigado BBC pelas imagens), engolir em seco e pensar - "aposto que, ao cabo de 2 horas, a cidade já levava a sua vida normal, como se não baixasse os braços perante essa luta que enceta ao longo de anos.".

 

É o dia-a-dia de uma cidade que sempre foi um ponto de encontro de culturas, de convulsões e de uma história, que a tornam hoje, no rosto dos seus habitantes, capaz de enfrentar qualquer desafio. Não há tempo para chorar os mortos e sufocar as redes sociais com lamúrias egoístas... é preciso enterrá-los, homenageá-los e voltar a viver.

 

Fonte da Imagem: Própria (o indivíduo da imagem não sou eu, é bom esclarecer)

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Não tendo televisão em casa, vou vendo, involuntariamente, algumas coisas (casa da mãe, casa dos amigos, no café...). Dos atentados de Berlim ainda não tive oportunidade de ver, ainda por cima é uma cidade que me diz muito e provavelmente até conheço o local. No entanto, enquanto procurava informação sobre os atentados em meios estrangeiros, por mim seleccionados, acabei por cair numa rádio nacional portuguesa, pois o título era este: “Português em Berlim. Há dois anos decidimos não frequentar mercados de Natal”.

 

Pensei que seria a verdadeira noção de que estamos numa guerra religiosa. Celebrar o Natal em tempo de guerra com os Árabes (muitos pensam isso) pode ser uma heresia!

 

Mais elucidado fiquei com a pequenez, não territorial, mas sobretudo mental de muitos portugueses quando dou comigo a ler “Eu e a minha família estamos bem porque, devido a esta mudança de realidade na Alemanha e na Europa, decidimos - há cerca de dois anos - não ir a mercados de Natal com medo que alguma coisa acontecesse.”.

 

Uma questão que se coloca: mas este senhor ainda vive em Berlim?

 

Alguém envie rapidamente uma SMS e lhe mencione que a Alemanha, especialmente Berlim, são alvos prioritários dos terroristas e que já está um avião… um avião? Outro alvo predilecto! Um carro! Um carro à espera para o transportar para o Nepal! Mas o Nepal... aquilo com a China não descamba de vez em quando? Está um carro à espera para o levar para Mem Martins, consta que é uma zona pacífica onde é mais fácil ser atropelado numa passadeira do que "levar" com uma bomba em Mossul.

 

Com cidadãos assim, o terrorismo tem tudo para ser bem sucedido!

 

Confesso que, para não influenciar este artigo, não procurei informação sobre o indivíduo em causa... todavia, no artigo disponibilizado pela rádio, este identificou-se como blogger de viagens. Será que sai de Berlim?

 

Fonte da Imagem: Própria. (Não deixem de visitar!)

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