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Política Autárquica de "Selfie"...

por Robinson Kanes, em 23.08.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Depois da grande reportagem da Trafaria TV, da autoria da Maria (sim, simplesmente Maria), acerca de cartazes das autárquicas e do seu conteúdo lascivo, a Robinson TV decidiu também ir à procura de alguns exemplos. A reportagem da Trafaria TV pode ser vista aqui.

 

Os nossos correspondentes encontraram em Ponte de Sor uma equipa jovem, tartarizada (aumentem a imagem, mas não se  choquem) e acima de tudo corajosa, ou alguns dos seus membros não vestissem um blazer azul com quadrados pequenos ou então de estilo liso mas em azul-choque - o bolso no peito também é uma realidade. Escapa o candidato a presidente que apenas se esqueceu de fazer a barba no dia em que tirou a foto para o cartaz de campanha. Neste, surge com um semblante de personagem de um qualquer livro de catequese.

 

"Juntos no rumo certo" é o lema, no entanto, confesso que uma selfie tirada com um telemóvel em tons de dourado me deixa sempre apreensivo, sobretudo quando se apela ao voto popular e se vai viver do erário público.

 

Uma nota: será que é boa ideia votar em candidatos que dizem estar empenhados em satisfazer as necessidades do concelho mas depois adoptam o comportamento humano de estarem auto-centrados a tirar uma foto a si próprios? Acabo por ficar com a sensação de que a modernidade não está no facto de se tirar uma fotografia com um smartphone mas sim no reforço do "eu". Só a definição de selfie já responde a muitas perguntas...

 

Finalmente, pois não sei se é a fotografia que é tratada, se é o brilho do telemóvel, sugiro que o indivíduo de casaco ofuscante consulte o médico, pois aquelas mãos amarelas não auguram nada de bom.

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E se em Ponte de Sor a moda da selfie parece estar a resultar, em Alcochete também já seguem a mesma estratégia, até o verde-água sai da arca de naftalina e vem para a ribalta. Mas Alcochete é terra de gente rija, onde se arregaçam as mangas e enquanto os "busca-tacho" estão mais interessados na fotografia, o candidato a presidente surge de cinzento a olhar para o povo com um olhar que transmite a sua mensagem:  "se pudesse candidatava-me sozinho, mas tenho de levar sempre a caravana atrás". E somos ou não somos um país com uma luz única? Olhem para os olhos deles, que mal se abrem, parecem estar todos a olhar para o mais brilhante lingote de ouro do mundo... Talvez até estejam, pelo menos é essa a expectativa no início de Outubro...

 

 

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Girolamo de Santa Croce - A Adoração do Menino (Gemäldegalerie Alte Meister)

Fonte da Imagem: Própria.

 

No seguimento do artigo de ontem, ao qual podem aceder aqui, e onde os contributos de muitos comentadores foram valiosíssimos, procurarei hoje ver as coisas de um outro ponto de vista, até porque a temática é complexa.

 

Foquemo-nos numa questão: porque é que não trabalhamos a questão da maternidade/paternidade, ou aliás, a impossibilidade da mesma no sentido de mentalização dos indivíduos para esse facto? Com isto não estou a dizer que não se desenvolvam demais abordagens. Porque é que o foco não passa por uma mentalização das pessoas para as suas limitações? Porque é que noutros campos vamos por aí e no caso da geração de um filho fugimos mais à questão?

 

É assim tão grave que um indivíduo conviva com o facto de não poder ter um filho? Dou um exemplo: são muitos os casos que conheci de pessoas que passaram pelos maiores martírios fisícos e psicológicos só para conseguirem ter um filho e muitas vezes por pura pressão social! Parece que nos tempos actuais é proibido dizer "não tenho filhos porque biologicamente não sou capaz e vivo bem com isso" e nem menciono aqueles que não os têm por opção. Porque é que não existe um trabalho desse lado e continua a impor-se uma lógica do "ter filhos a todo o custo". Será que se a abordagem fosse mais por aí teriamos tanta gente a investir dinheiro, anos de vida e um sem número de emoções para conseguir ter um filho? Alguém, aos comentários do artigo de ontem focou o egoísmo... Será um egoísmo da sociedade e de cada indivíduo? O artigo presente, pretende sobretudo ir pela questão do "é assim tão complicado aceitarmo-nos como somos?".

 

É uma questão complexa, sobretudo quando leio e vejo argumentos de indivíduos que na praça pública defendem (quase obrigando) que devemos ter filhos, pois estes serão o garante da sustentabilidade da Segurança Social e que é egoísmo não os ter! Um deles até é o proprietário de uma empresa de brinquedos com nome na mesma praça. São esses mesmos indivíduos que não falam de adopção, por exemplo.

 

Estamos a fazer de tudo para promover um mercado de venda ou negociação de bebés mas continuamos a não exigir leis mais facilitadoras da adopção. É aqui que pecam aqueles (auto-intituados vanguardistas) que acusam os "anti-barrigas de aluguer" de estarem presos a rituais ancestrais e de serem egoístas. Eu, sem me colocar de um lado e de outro, digo sempre... Cuidado, sobretudo quando a pretexto do que é novo, colocamos todo um passado no caixote do lixo. Até porque uma das marcas maiores de ancestralidade é a geração de um filho - quantas mulheres não eram ostracizadas ou até mortas por não conseguirem gerar uma criança?

 

Além de que, se queremos falar de egoísmo importa referir, mais uma vez, que o mundo já tem gente a mais e sempre podemos encontrar muitas crianças sem pai nem mão à espera de uma oportunidade para serem crianças... Mas talvez seja mais interessante ver as mesmas subnutridas, feridas ou mortas na televisão enquanto a todo o custo tentamos ter aquele filho que tem de ser "nosso"! Mas aí já estamos a ser vanguardistas... 

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A Nova "Trend": Barrigas de Aluguer.

por Robinson Kanes, em 19.07.17

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 Adoração do Menino - Filippino Lippi (Galleria degli Uffizi)

Fonte da Imagem: Própria

 

Falar de incêndios já não é cool. E quando o tema já não vende revistas, jornais ou visualizações nada como ir buscar temas que vendem muito, nomeadamente a homossexualidade e agora as trendy "barrigas de aluguer". Homossexualidade, para mim, é um tema gasto, perdoem-me mas qualquer dia até me sinto mal por ser heterossexual. Ou sou eu, ou então algo se passa, dos muitos amigos(as) que tenho com uma orientação sexual diferente da minha não me recordo de perdermos muito tempo a falar do tema.

 

Mas as "barrigas de aluguer"... Primeiro, é triste perceber que foi preciso um jogador de futebol "comprar filhos na Amazon" para de repente toda a gente se lembrar que esta prática existe. Caríssimos, é uma prática com séculos e ninguém descobriu a pólvora, aliás, um dos empreendimentos mais bem sucedidos da História, o Cristianismo, começou com uma "barriga de aluguer".

 

Mas tanto se fala de "barrigas de aluguer"... Pelo que, voltemos aos moralistas do politicamente correcto, sempre a defender a liberdade e ao que diriam se encararmos essa prática como a venda de seres-humanos? A verdade é simples e crua: estamos a mercantilizar seres-humanos! Podemos concordar ou não, mas aí temos de ter muito cuidado quando apregoamos leis morais, éticas e humanas, mas depois defendemos esta prática. 

 

Vejamos também outra questão e que alguém por aí (alguém a quem nem dou grande importância, mais foi exímio na análise) falou, que é a questão dos impostos? Ora, se existe uma compra, como é que são calculados os impostos? Como é que eu, que tenho um estabelecimento onde vendo bifanas e Sumol de Ananás, fico quando tenho de pagar dezenas de taxas e quem vende crianças não está sujeita a impostos? Mas é uma criança, um bebé, como é que se pode falar de impostos, questionarão! Todavia, não temos pejo em defender o comércio de seres-humanos que só não é tráfico porque, em alguns casos, já se encontra legislado. Não é diferente da criação de leis que regulem o tráfico de droga, e aí passamos a ter um mercado legal... Mas é "trendy". Até nos damos ao luxo de atacar as pessoas que vão buscar filhos a África, no entanto, já achamos bem se forem por encomenda e full extras. Ficamos chocados com a mulher que vende o corpo por sexo, mas não ficamos tão chocados se vender o feto...

 

Hoje é "trendy" mercantilizar seres-humanos e sob a capa do "trendy" têm sido cometidas algumas atrocidades que nos fazem estar a atravessar uma crise de valores e de comportamentos, mas mais que isso a sofrer de uma espécie de arregimentação pela incapacidade de aliar o bem da liberdade à virtude da tolerância. E aí, Huxley rapidamente nos demonstrou que o resultado desse arregimentação só poderia ser uma grande infelicidade! Eu só espero que comece a ser "trendy" criticar a corrupção e a injustiça, aí sim, deixarei de ser um indivíduo fora de moda.  

 

Finalmente, algumas questões que irei abordar amanhã: nesta sociedade do ter, doa a quem doer e custe o que custar, não estaremos demasiado focados na importância do ter ao invés de nos focarmos na mentalização do não ter? Do saber viver sem ter? Poderão também dizer que é egoísmo da minha parte, mas quem é o egoísta? Não faltam crianças em dificuldades no mundo inteiro e se formos por aí, há muito que superámos a capacidade de carga do planeta, pelo que se dispensam mais seres-humanos, já em 1798 Malthus o dizia no seu "Ensaio Sobre o Princípio da População". Passaram mais de 200 anos e ainda nos custa pensar nisto... Além de que, por muito que não queiramos ver, cientificamente, a sobrepopulação é uma das grandes ameaças ao futuro da Humanidade.

 

 

 "Trendy": algo que está na moda. Algo que é forçoso que esteja na moda...

 

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O Blogger (In)Visível...

por Robinson Kanes, em 18.05.17

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Rembrandt Harmenszoon van Rijn, Uma Velha Senhora Lendo (Museu do Louvre)

Fonte da Imagem: Própria

 

Continuando a minha senda pelos cinco artigos a dizer bem do que é português, hoje dou comigo a pensar na comunidade deste alojamento que é o Sapo. E de como aqui também há um pouco do que é Portugal.

 

No Sapo, além dos habituais blogs em destaque e dos mesmos de sempre a serem sugeridos, uma espécie de corrida de fórmula 1, onde já se sabe quem ganha (embora na fórmula 1, ganhe quem tem os melhores motores e os melhores pilotos), existe ainda um sem número de blogs “(in)visíveis” e de uma riqueza acima da média.

 

Os “(in)visíveis” são, de certo modo, os mais visíveis, pelo menos para mim. Com algum tempo dedicado à pesquisa, facilmente se encontram aqui grandes blogs... Blogs verdadeiramente dignos desse nome. Blogs que me fazem pensar se não devo acabar com o meu perante tamanha riqueza e desinteresse na exposição...

 

Não vou destacar ninguém em particular, não quero correr o risco de esquecer algum, até porque também não os conheço a todos, longe disso. Contudo, quero elogiar muitos desses anónimos (outros nem tanto) que têm o dom da escrita, do pensamento, que detêm uma opinião bem formada acerca do mundo que os rodeia, que nos fazem rir e que nos fazem pensar. Existem por aí espaços que são de uma riqueza única e que revelam uma dedicação imensa de quem está por detrás. Muitos nem são demasiado penosos na leitura para o cidadão comum, mas conseguem transmitir uma mensagem clara, com sentido (e sem sentido, pois também faz falta) e dotada de conteúdo. Com uma sensibilidade própria e sem adereços fúteis ou até mesmo discursos construídos, sem lugares comuns, sem serem o prolongamento de uma rede social (ou individual), sem serem estupidificantes... Sem mais do mesmo.

 

Muitos nem os sigo, gosto de ir à procura, de sentir vontade de ir ler e de aprender, chorar ou simplesmente rir. São blogs que nos acrescentam algo, são blogs que não são mais lixo –sem ser em tom pejorativo – que são realidades próprias e que, ao fim do dia, nos dão e fazem acumular um pouco mais de conhecimento e boas emoções. Muitos nem são um verdadeiro tesouro, mas a partilha e a interacção daqueles que os criam, sobretudo nos comentários, são de um valor imenso.

 

Tenho ouvido dizer que em Portugal temos uma maioria silenciosa, os verdadeiros e bons portugueses, os portugueses que estão calados... Os portugueses que não fazem ruído... Talvez por aqui também exista um pouco dessa realidade, no fundo, uma consciência "Nietzschiana" de que existem mais ídolos de que realidades.

 

Para todos esses que andam por aí escrever, que fazem da nossa língua, do nosso pensamento, das nossas vivências e opiniões algo de útil: o meu muito obrigado. E, se por mero acaso, alguns se sentirem esquecidos, lembrem-se que “os grandes actos da vida nunca devem ter público”, já o dizia Vergílio Ferreira no seu “Em Nome da Terra”.

 

 

 

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Fonte da Imagem: <a href='http://www.freepik.com/free-photo/blond-businessman-happy-expression_1030499.htm'>Designed by Freepik</a>

 

Ultimamente, sobretudo em redes profissionais, quantas vezes não lemos/ouvimos um coro de indivíduos "altamente motivados" a proferir as seguintes afirmações:

 

Na minha área nunca me deito antes das duas da manhã!

Entro sempre cedo para o trabalho e nunca tenho horas para chegar a casa!

Não tenho tempo para a minha família e mal vejo os meus filhos mas adoro o meu trabalho e dou tudo pelo menos!

Passo o dia em reuniões e trabalho tanto, mas tanto, mas tanto mesmo que não sei se chego aos 50 e adoro é tão bom!

Lido com clientes do pior e faço todo o trabalho do meu escritório mas é tão bom trabalhar em equipa!

O que eu gosto no meu trabalho é de trabalhar muito, mas muito mesmo até cair e estou sempre a sorrir!

 

Por norma, estas afirmações surgem sempre seguidas por um:

 

Mas estou super motivado, adoro o meu trabalho, é aquilo que eu gosto mais e todos os dias me entrego de corpo e alma, porque é mesmo um sonho!

 

Das duas uma: ou estamos perante indivíduos que têm um problema com a sua vida pessoal e veiculam todo o tempo para o trabalho, ou então são efectivamente... estúpidos.

 

Sou muito pragmático no trabalho. Já realizei trabalhos apaixonantes, já me deparei com meses sem vir a casa por causa do trabalho, nunca soube o que era sair mais cedo e muito menos sou daqueles que defende que viver sem trabalhar é possível e basta acreditar nos "Chakras" que se consegue tudo. Em suma, gosto de trabalhar, mas... meus senhores, poupem-me o discurso de que chegar aos 30 anos completamente arrasado e que trabalho e mais trabalho é que é bom, mesmo que sejamos um autêntico autómato. Não, não é! Além de que trabalho sem o lado familiar e de lazer não é... trabalho. Lamento se vos desiludi e se provavelmente gorei as vossas expectativas de agradarem ao vosso empregador... a não ser que, esse empregador seja aquilo a que em Espanha chamam de "negrero".

 

Todavia, também é interessante reparar que muitos destes trabalhadores 24/7 quando recebem uma chamada ou um email às seis da tarde não respondem porque já saíram do trabalho. Também é interessante reparar que muitos deste trabalhadores de árdua entrega, à sexta-feira, passam o dia a colocar informação nas redes sociais e a enviar emails aos colegas com frases como: "yuppppppie é sexta-feira, vem aí a rambóia do fim de semana!". Também é interessante ver as redes sociais, não profissionais, destes indivíduos com fotos de boa vida e pouco de trabalho. Finalmente, também é interessante, vocês estarem a fazer horas no trabalho ou a trabalhar durante o fim de semana e feriados e os convites para jantaradas e afins não pararem de cair... e quem convida? Estes profissionais que nem sabem o que é ir à casa de banho porque estão sempre a trabalhar.

 

E alguns dirão: "mas eles até enviam emails às duas da manhã!". Sim, eu também, sobretudo se passar o meu dia nas redes sociais e não me dedicar ao trabalho... ou então, programar o meu outlook (caixa de correio) para descarregar um sem número de emails a horas menos próprias - digam lá que não fica bem? Robinson trabalhador. Além de que, enviar emails, para mim, não é trabalho a não ser que se trabalhe em assistência ao cliente e se use essa via para prestar esclarecimentos. Fraco profissional e fraca chefia que mede a produtividade baseada na quantidade de emails enviados.

 

Em suma, se assistisse a um colaborador meu com este discurso, pensava duas vezes na manutenção deste na minha organização, pois está a passar uma imagem de que o cuidado com os colaboradores é igual a nada. Também aposto que, publicamente, estaria a piscar o olho a uma outra organização, ávida de contratar profissionais que só sabem trabalhar e andam sempre com a manta atrás qual personagem de Charlie Brown. Isto, talvez, porque está cansado e detesta a minha organização!... Ou então, porque... somente é parvo.

 

Boa semana, bom trabalho...

 

P.S: também não percebo porque é que quando procurei imagens para este artigo, sempre que utilizava a palavra trabalho, praticamente só me surgem indivíduos ao computador ou a sorrir (aquele sorriso forçado) em ambiente de escritório...

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O expoente das redes sociais em contexto online tem sido alvo de múltiplas análises, não só do ponto de vista mercantil (não é disso que falarei) mas também social... social, na medida em que tem consequências nos indivíduos e sobretudo no modo como estes podem se afectados por uma espécie de falácia no processo de democratização. Tentarei não abrir demasiado o espectro e cingir-me, por exemplo, ao LinkedIn e ao mercado de trabalho.

 

Ainda tempo para uma nota: não foram as redes sociais que tiveram impactes e consequentemente alteraram o modo de vida em muitas sociedades... foram também os indivíduos que provocaram transformações nas mesmas - culpar ou elogiar este género de plataformas tendo apenas como base os aspectos técnicos das mesmas é falacioso, até porque quem controla os conteúdos são os utilizadores, sobretudo ao nível das publicações e das motivações.

 

Do ponto de vista da sociedade, e numa visão antropológica que tem como base as pessoas e até a própria Economia Social e Solidária, se os “utópicos” destas plataformas defendem que, com estas se abriu o leque de oportunidades para os mais desfavorecidos, também é verdade que aqueles que ocupam uma melhor posição social e económica na sociedade adquiriram um meio que lhes dá maiores e melhores oportunidades no mundo das redes sociais online. Em relação aos primeiros, factores como a idade, o rendimento, a literacia, o nível de inglês (aqui uma realidade interessante, pois é fácil perceber quais as línguas dominantes) a incapacidade motora ou cognitiva e a localização (mais periférica ou não) têm um efeito dramático no modo como esse, apelidado, processo de democratização se dá.

 

Contudo, muito do discurso ainda passa por afirmar que com as redes sociais é possível promover o empowerment e a força colectiva/cidadania que desafia o sistema e combate a desigualdade. Sim, também é, mas também é preciso um conjunto de valores e conhecimento que nem sempre estão presentes.

 

Mas vejamos, uma das mais-valias é sem dúvida a hipótese de, em canais como o LinkedIn e não só (o YouTube é outro exemplo), ser possível aceder a conteúdos educativos low cost e até, mais eficientes que conteúdos pagos e prestados por instituições offline - é um facto de que nem tudo é negativo e permite que aqueles que não podem pagar para aprender possam conseguir algo sem afectar a sua auto-estima e vida futura. Estará contudo, nomeadamente o mercado de trabalho, apto a reconhecer muitas dessas qualificações informais? E como é que este mercado filtra essas mesmas capacidades perante aspectos educacionais e técnicos mais formais? Estará um potencial recrutador disposto a desenvolver um processo de tal modo trabalhoso, mas por sua vez desafiante (e de uma riqueza humana enorme) ao ponto de desvendar estas diferentes oportunidades? Numa era em que o facilitismo ganha algum destaque ainda podemos, e devemos, ficar esperançados.

 

Um outro ponto é a questão social propriamente dita - é possível (e cada vez mais possível) criar uma imagem, ou vender a mesma, e com isso obter uma espécie de imagem/mobilidade social nem sempre baseada em factos verídicos. Em alguns casos, estamos perante uma forma de colmatar os constrangimentos económicos, sociais e humanos de ascender socialmente/profissionalmente com um capital cultural e social que mais facilmente é ludibriável. É possível criar uma imagem totalmente falsa e obter os louros de uma presença online direccionada para determinado objectivo.

 

Do ponto de vista profissional e da pirâmide social, as redes sociais exercem, em muitas culturas, uma tamanha pressão sobre os indivíduos para que usem as mesmas (mais uma vez, o online só transpôs as regras). Este estado da arte justifica-se pelo facto dos indivíduos ficarem sujeitos a uma situação mais vulnerável ou até de serem confrontados com uma posição de desigualdade face aos demais. São várias as pessoas com quem tenho conversado que referem ter certas redes sociais online (e até offline), sobretudo profissionais, por uma questão de obrigação/pressão.

 

Mas o processo e os limites democráticos das redes sociais online, acabam por não ser diferentes das redes sociais offline. Quantas opiniões, gostos e formas de vida não são, todos os dias, colocadas em causa por aqueles cujo acesso a estas redes é mais facilmente proporcionado? Um exemplo está relacionado com as relações laborais e com a própria posição no mercado laboral: existe uma clara tendência para que indivíduos com algum “poder” (ou sensação de tal) se associem a outros e com isso criem redes de influência que não só criam pequenos domínios de opinião, mas que também acabam por afastar de grupos, debates e até da nova Ágora indivíduos de posições mais baixas ou cujo capital de favorecimento não vai de encontro a certos parâmetros.

 

Se por um lado o acesso é democrático, pelo outro cria-se um afastamento e até um nefasto sentimento de inferioridade por parte daqueles que encontram nas redes sociais mais entraves à livre-expressão das suas ideias do que propriamente uma porta aberta para adquirirem conhecimentos, cultivar a aprendizagem e criarem redes de contactos que lhes permitam vingar social e profissionalmente. A não ser que só procurem uma namorada no Facebook.

 

Uma nota positiva para um case study relacionado com a realidade chilena (Haynes, N. Forthcoming. Social Media in Northern Chile. London: UCL Press), onde o conceito de solidariedade (que em nada está relacionado com aquele que escutamos todos os dias) está bem vincado na sociedade. Neste caso, as redes sociais são um óptimo canal de partilha e apoio entre os cidadãos mais desfavorecidos. Foi "permitida" a ascensão de indivíduos e grupos que, na pobreza, encontraram uma forma de demonstrar que nem tudo tem de ser mau e que em muitos aspectos são adquiridas competências, forças e comportamentos que são um verdadeiro exemplo para aqueles que julgam viver fora dela ou que, efectivamente, vivem em situações mais desafogadas. Toda esta matéria, trabalhada e transposta para as redes sociais, criou uma espécie de corrente que valoriza aqueles que menos têm, mas mais que isso, valoriza a aprendizagem e as competências que os tornam capazes de assumir posições ou desafios que exigem capacidades humanas, sociais e até técnicas que nenhuma escola de gestão poderá ensinar.

 

Fonte da Imagem: http://socialmedia.lbl.gov/wp-content/uploads/sites/24/2015/07/Empty-Beakers-960-Final1.jpg

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