Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um Sável e uma Moretti...

Com uma viagem pelo Líbano e Fuente Ovejuna

por Robinson Kanes, em 11.04.20

IMG_2929 (1).jpg

A felicidade é a capacidade de nos libertarmos da tirania e das emoções negativas. A felicidade não é uma recompensa da virtude: a felicidade é a virtude em si mesma.

António Damásio, in "Ao Encontro de Espinosa"

 

 

A Páscoa... Para um não religioso é o tempo de encontros e acima de tudo um tempo actual para pensar, para se envolver na metáfora do nascimento e da ressureição, e como nos fará tão bem pensar nisto!

 

Todavia, também pode ser tempo de felicidade (em uma ou várias das suas vertentes - porque aqui não é uma palavra de moda e charlatanice mas uma área cientifica). Estaremos assim tão mal enquanto em tantos países do Mundo há muito se morre de fome, guerra e doença?

 

É nesse contexto que por aqui o Robinson volta à cozinha e desta vez com uma bela Açorda de Sável acompanhada com o rei do mês de Março e Abril - e mais houvesse durante o ano. Como sempre, não tenho o hábito de partilhar a receita, não é um espaço culinário. Mas também se bebe, e não é pouco, por isso, nada como acompanhar com uma Moretti para me recordar a bella Italia.

 

E o que é uma açorda de sável sem um bom livro? Desta vez, numa ideia diferente do habitual, vou até à dramaturgia de Lope de Vega, até ao século XVII, com o seu "Fuente Ovejuna". Fuente Ovejuna lo hizo, tantas vezes "ouviremos" ao longo da obra, ondes os fracos triunfam sobre os fortes, mas não sobre os fortes de espírito e que sabem utilizar o poder. Triunfa sim sobre os fortes que nunca sendo fortes não sabem utilizar tal instrumento.

fuente_ovejuna.jpg

Deixo a música de lado, até porque posso repetir-me, afinal escuto "Vetusta Morla" enquanto escrevo, no entanto, para perceber que talvez não possamos estar assim tão mal, deixo uma recordação cinematográfica que retrata mais um episódio das relações entre o Líbano e Israel e os bombardeamentos de 2006. "Sous les bombs", um filme libanês de 2007, realizado por Philippe Aractingi e que nos vai deixar com um nó no estômago, é um facto. E também nos vai deixar a pensar que talvez não estejamos assim tão mal... Afinal não foi a Covid 19 que trouxe o mal à Humanidade, há muito que ele já anda por aí.

Boa Páscoa...

Autoria e outros dados (tags, etc)

prague_czech_republic.jpgImagens: Robinson Kanes

 

 

É Natal e com o mau tempo os portugueses lidam mal... É natural num país onde uma grande parte das infraestruturas são castelos de papel.

 

E não seja por isso, já que o fim-de-semana com cheiro a Natal vem aí! Sim, afinal algum dia tinha de ser e na época apropriada. Quando o Natal já não é tema é que eu venho falar do mesmo, apesar do esgotamento a que foi sujeito, desde Outubro, por estas bandas e não só. Acho estranho ainda ninguém ter falado do Carnaval ou até da Páscoa, já vai sendo hora.

eugenio_de_andrade_coracao_do_dia_mar_de_setembro-

Uma boa leitura para o Natal... Para aqueles que dizem que a poesia não tem grande interesse para mim, hoje até lhes faço a vontade e atiro-lhes com o "Coração do Dia Mar de Setembro" de Eugénio Andrade. O senhor já morreu há algum tempo, por isso nem estou a aproveitar uma onda de falar que se gosta ou se aprecia um escritor recém-falecido. Tomem e embrulhem com um momento pedante...

 

Variações em Tom Menor

 

Para jardim te queria

Te queria para gume

ou o frio das espadas.

Te queria para lume

Para orvalho te queria

sobre as horas transtornadas.

 

Para a boca te queria.

Te queria para entrar

e partir pela cintura.

Para barco te queria.

Te queria para ser

Canção breve, chama pura.

 

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia - Mar de Setembro"

 

Vou já ao teatro, e aproveito para comprar uns bilhetes para "Ricardo III", encenado por Thomas Ostermeier e texto do grande Shakespeare e em alemão (com tradução). Ideal para a passagem de ano, pois há espectáculo dia 31 também! Podem saber mais sobre esta peça no Teatro Nacional D. Maria II.

 

Para escutar... Música de Natal, admito que já irrita. Por isso, o melhor do Natal pode ser passado com Johann Sebastian Bach e uma bela de uma Kantate. Tomem lá a Cantata BW 142 - Uns ist ein Kind geboren que dizem ser de Bach. Digo-vos que é do bufo, ou não as tivesse todas por cá...

E como existe algo ainda pior que música de Natal, nada como um filme para esta época e bem católico, Forušande, do realizador Asghar Farhadi. Filme iraniano, não podia ser mais adequado ao Natal. A vida e o teatro e o teatro da vida... Enfim, é isto e o filme é muito porreiro! Libertem-se das amarras do menino nas palhas estendido (ou será deitado?) e mergulhem na realidade. Os iraninanos são dos melhores neste mundo a fazer filmes e este é um exemplo supremo!

E finalmente porque é Natal, aproveitem para dizer àquela pessoa que gostam realmente dela, isto se tiverem tempo enquanto dão umas moedinhas ao pobrezinho no momento em que tiram uma selfie... ou no espectáculo de abertura das prendas que em algumas casas chega a ser repugnante, sobretudo quando são tantas que, no caso dos miúdos, nem se apercebem do que estão a abrir e parecem autênticas bestas perdidas no meio de tanta oferta...

 

Feliz Natal...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Becket e Lorca encontram-se e ouvem ODO Ensemble.

por Robinson Kanes, em 13.12.19

Palmela.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

Sexta-feira, não é em Albufeira mas podia ser... Ou talvez não. Não sei!

 

Com o Natal a aproximar-se, cada vez são mais as mensagens que aqui vão chegando. Não são as melhores e fazem-nos questionar se é este Natal que queremos. Mas falemos de coisas boas e nada como entrar a matar com música boa, não de Natal, que é de fugir.

 

Um ensemble que descobri por mero acaso enquanto procurava sons que completassem a minha paixão pelas sonoridades arménias. O ODO Ensemble não é Arménio, até tem origens em Cluny, no entanto, as suas sonoridades medievais e de world music são deslumbrandes.Então quando os sons têm origem naas arábias nos balcãs... Simplesmente genial! Este agrupamento que, e que tem o seu suporte como associação que encontra na música a sua fonte de pesquisa e descoberta, merece uma escuta atenta, e porque não com "Ir Me Kero Madre". Isto é trabalho, isto é ser músico...

Para ler... Não vou muito longe e partilho o livro que estou a ler actualmente: "Molloy" de Samuel Beckett. Um dos romances da trilogia "francesa" do autor, "Malone Dies" e "Unnamable" são os outros dois. Viajar na mente e no comportamento de "Molloy" e "Moran" (sem esquecer a presença da mãe do primeiro, é entrar no mundo de Beckett de uma forma surpreendente. Vai ser interessante perceber o modo como se cruzam os dois primeiros ou se serão só...  (Recomendo a leitura em inglês).

thumbnail.jpg

E já agora, ide a Oeiras ao Auditório Municipal Eunice Munõz e entreguem-se a Garcia Lorca... Ainda se vai falar muito dele por aqui! Tem um espaço muito especial cá por casa, sobretudo no que depende da alemã... Pois, a peça: "A Casa de Bernarda Alba".

 

Finalmente, porque o cinema também é importante, "La Classe Operaia va in Paradiso" de Elio Petri. Mais um vencedor em Cannes, corria o ano de 1972! Um filme interessante e que acabou por ser até um case study. Mais cinema política italiano e que interessa quer a um lado quer ao outro da barricada. A actuação de Gian Maria Volonté é brilhante!

E do Uganda, uma mensagem para o mundo: não é preciso uma eternidade e muita coisa para fazer a diferença, para alguns, basta um dia... (e nós por cá, devemos andar mesmo a dormir).

Obrigado John!

 

Bom fim-de-semana,

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Hess e Bartoli numa Sociedade Karōshi...

por Robinson Kanes, em 15.11.19

troia_arrabida_sado.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

Uma hora assim com vinho e um amigo, quando se tem um, e uma conversa bem humorada sobre esta vida estranha, é de facto o melhor que se poder. Também tem de ser assim, e nós temos de ser felizes, pelo facto de ainda termos isto. De quanto tempo é que precisa um pobre diabo para fazer um belo foguete e a alegria não dura um minuto! Por isso há que poupar a alegria e a paz de alma e a boa consciência para que haja de vez em quando uma hora assim.

Hermann Hesse, in "Gertrud"

 

 

Entre o sol e a chuva, este Outono vai tendo cores fantásticas... Época maravilhosa e que será mais escura além fronteiras daqui a alguns dias. Por isso, para celebrar o Outono, o habitué da sexta-feira dará lugar a uma Cecilia Bartoli que "elogia" a grande Maria Malibran - polémica e que teve uma curta vida de 28 anos.

cecilia_bartoli.jpg

Recordam-se alguns concertos onde encontramos trechos de Vicenzo Bellini ("La Sonnambula", "I Puritani" e "Norma"), Mendelssohn ("Infelici"), Persiani ("Ines de Castro") e tantos outros onde destaco também Hummel. O Outono terá outro sabor... Mesmo entre castanhas e jeropiga,

Para uma leitura ligeira mas nem por isso leve, Gertrud de "Hermann Hesse". Um amor frustrado, um elogio da música e da vida, o ideal para ler antes de ficarmos a meditar ao som de Bartoli. Uma obra bem ao estilo de Hesse, que já passou muitas vezes por aqui, e que não deixará ninguém indiferente.

gertrud_hermann_hess.jpg

E porque não uma ida ao D. Maria II? Brilhantes encenações de "O Bando" com o "Purgatório - A Divina Comédia" que dispensa apresentações e "Karōshi" (na sala estúdio) uma encenação brilhante do trabalho actual, dos dias de hoje e de uma sociedade em colapso. Uma peça para pensar, por certo é o que acontecerá no Sábado. Cumprimentamo-nos lá enquanto assistimos ao "Teatro da Cidade" no seu melhor?

 

E finalmente, para quem gosta de uma boa amizade, para quem ainda gosta de um bom filme sem ir muito lá para trás... "Fried Green Tomatoes". O filme de Jon Avnet que de comédia tem pouco. Um leque brilhante de actrizes onde destaco Jessica Tandy (a eterna Miss Daisy) e Kathy Bates. A vida como ela era, numa realidade dos Estados Unidos que não está assim tão longe. A amizade entre Ruth e Ninny Threadgoode não nos deixará indiferentes, e por certo nos deixará, mais perto do fim, com uma amargura rapidamente ultrapassada por Ninny - e quantos de nós não gostariam de ser Ninny?

 

Bom fim-de-semana,

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Teatralidade do Subsídio...

por Robinson Kanes, em 03.04.18

Resized_500-_George_Merrick_as_Washington_Ralph_By

Autoria da Imagem: Jeremy Daniels

Fonte da Imagem: http://www.theaterscene.net/musicals/offbway/money-talks-the-musical/darryl-reilly/ 

 

Estranhamente, aqueles que estão a provocar o fim da Autoeuropa, aliás, que provocaram o fim da OPEL da Azambuja e que agoram recrutam para as suas fileiras um sem número de tropas para acabar com a Ryanair (pensando que esta empresa é a TAP), são os mesmos que se revoltam com os subsídios dados pela Direcção Geral das Artes. 

 

Aqueles que destroem sectores que geram dividendos, e consequentemente impostos, são os mesmos que querem gastar esses mesmos impostos em projectos que nem sempre justificam o investimento de todos nós. São estes que dizem defender os interesses de todos mas... Na verdade, se uma empresa fecha porque não tem clientes ou não consegue manter uma oferta competitiva que atraia esses mesmos clientes, porque é que temos de financiar ad aeternum instituições que não geram retorno, e não raras vezes, alimentam corporativismos e um número de indivíduos que não está disposto a adaptar-se aos novos tempos e prefere viver fechado no seu mundo, muito ao contrário do que devem ser as artes. 

 

Não vou a festivais de verão, não frequento os concertos mais badalados, mas vou ao teatro, assisto a concertos mais "leves", procuro acompanhar a actividade cultural, no entanto, mais que continuar a injectar dinheiro de todos nós em projectos e indivíduos que nem sempre perseguem o verdadeiro foco da cultura, importa perceber outras tantas coisas - uma delas é o porquê. Porque é que os portugueses não vão tanto ao teatro e gastam rios de dinheiro em festivais? Será que estamos a fazer bem o nosso papel nas escolas? Será que o papel das artes e a importância destas em termos de identidade e formação pessoal e profissional dos indivíduos está a ser bem feita? Não me parece que esteja.

 

Será que não sabemos vender a cultura? Será que não queremos vender essa cultura e produzimos a mesma como queiramos que seja e não como tem de ser ou o público deseja? Será porque são sempre os mesmos e como não existe responsabilização também não existe a necessidade de ser melhor? Porque é que quase fui expulso de uma acção de formação em Montemor-o-Novo quando falei em ROI (Return on Investement) e empreenderismo nas artes?

 

Finalmente, e permitam-me chamar a minha experiência, não foram raras as vezes em que, sozinho ou com outros companheiros, coloquei know-how, apresentei projectos, ofereci alternativas, procurei abrir as artes ao exterior, inclusive empresas e... Os mais reticentes a esta abertura foram sempre, ao contrário do que se possa pensar, os próprios actores do circuito cultural. Mesmo aqueles que se queixavam de não poder exercer aquilo para o qual estudaram nem sempre foram abertos a iniciativas paralelas e que incluíam parte da sua formação - porque é que dizemos a quem estuda engenharia e não encontra emprego que tem de se adaptar e eu, se estudei teatro, por exemplo, não tenho de me adaptar e tenho de garantir que, doa a quem doer, alguém tem de pagar essa minha decisão? Porque é que o engenheiro tem de ser casmurro e o artista um alguém que persegue um sonho?

 

Em instituições públicas sucede o mesmo. O dinheiro acaba por chegar, sobretudo em termos salariais - mais de 50% do orçamento das artes anda a pagar recursos humanos! Não interessa a muitas destas instituições a abertura ao exterior preferindo viver num mundo fechado onde até, em muitos casos, aqueles que assistem aos espectáculos são sempre os mesmos anos e anos a fio! Não existe uma cultura de resultados, pelo que, nem são raras as vezes, que se perdem oportunidade, clientes e dinheiro porque simplesmente ninguém quer saber... Casos destes não faltam, onde o encaixe financeiro só não é maior porque indivíduos bem "protegidos" boicotam o desenvolvimento das instituições...

 

Ainda me recordo de estar em duas iniciativas e onde indaguei do porquê de não se estar a fazer mais, ao que me responderam que duas horas de trabalho eram muito exaustivas e as pessoas tinham de descansar... Se tivermos em conta uma semana normal de trabalho estamos a falar de 10 horas de trabalho semanal que é pago por nós! Porque é que aquele que trabalha mais de 40 horas semanais sem direito a pedir por descanso tem de suportar estas regalias?

 

Também não podemos continuar com a mentalidade de que são os contribuintes que têm de ser o pilar destas instituições e pagar os caprichos das mesmas! Em tempos, perante as queixas da falta de apoios, sugeri a uma instituição cultural que se deslocasse de Oeiras para Alverca, onde talvez existisse uma remota hipótese de proporcionar um espaço e apoios mais robustos - a resposta foi clara: "ninguém vai deixar Oeiras para ir para Alverca!". Essa resposta não me admirou, porque a queixa da falta de apoios alargava-se ao facto da câmara municipal, que já cedia um espaço gigante, não se dar ao luxo de cortar umas ervas que se encontravam à entrada do edifício! Até hoje, não conheci um artista que tivesse morrido por roçar mato durante uns 10 minutos. Também hoje, essa instituição continua a ser um sorvedouro de dinheiro público, afinal Oeiras sempre é mais chique... Sobretudo com o dinheiro dos outros.

 

Os tempos são de mudança, mas continuamos atávicamente presos a um passado e a uma espécie de liberdade camuflada que tem perpetuado estas situações e onde o avant garde não é mais que a imposição dos ditames deste ou daquele grupo de pressão.

 

Finalmente, não nos esqueçamos, ao longo da história, a grande maioria dos mestres das artes trabalhava a soldo e procurava vender o seu trabalho, não esperava que o dinheiro caísse do céu! 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Semana de Um Condenado...

por Robinson Kanes, em 27.01.18

IMG_20180126_074250.jpg

 Fonte da Imagem: Própria.

 

Foi na segunda ou terceira exibição que tive oportunidade de utilizar um "voucher sapo" e fui ver, ao Teatro Armando Cortez, a peça "O Último Dia de um Condenado" de Victor Hugo, encenada por Paulo Sousa Costa e representada por Virgílio Castelo. O que me chamou à atenção, além do preço do voucher, foi o facto de se tratar de uma obra magnifica que já havia lido há tempos.

 

A sala não estava ainda muito composta, talvez por ainda estarmos no início e a divulgação a ter lugar. "Não conhecia" Vergílio Castelo e devo dizer que esteve magnífico. Como vem aí mais uma boa semana (e o fim de semana também não acabou), nada como ir ao Teatro Armando Cortez ver bom teatro - e os preços não são desculpa para não ir. Aqui, lanço o meu primeiro agradecimento ao "SAPO".

 

Em relação ao livro... É um romance de 1829 e que, segundo alguns relatos da época, se deveu ao triste espectáculo a que Victor Hugo muitas vezes teve de assistir: a morte pela guilhotina. É a angústia de um condenado à morte, da vontade de viver, das recordações, do homem que preso já não é ninguém, do homem que já é esquecido pela sociedade, inclusive pela própria filha (e aqui, na peça, a interpretação de Virgílio Castelo é genial), é o homem esquecido por todos. É uma angústia latente e a interrogação se, de facto, a morte de alguém resolve ou atenua verdadeiramente o crime cometido anteriormente - aliás, a mesma celebra os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal e que, naquele tempo, também mereceu um grandioso elogio de Victor Hugo.

 

Uma vez cravado a esta cadeia, não se é mais que uma fracção deste todo hediondo a que se chama o cordão, e que se move como um só homem. A inteligência  deve abdicar, a golilha de prisioneiro condena-o à morte: e o próprio animal  nunca mais deve ter apetites nem necessidades sem ser a horas fixas. In "O Último Dia de Um Condenado", Edição Verbo de 1972, vide pág. 43.

 

Na verdade, e a peça (e bem) não vai por aí, o final do livro conta a história de um prisioneiro real, Claude Gueux que, devido a um evento na prisão onde se encontrava condenado a 5 anos de prisão, acaba por ser condenado à morte... A interrogação que vão encontrar neste texto é notável e fazer-nos-á pensar bastante em crime e inocência, em justiça e injustiça... Mas para isso, nada como ler este pequeno livro, uma obra-prima deste grande génio.

 

Todo esse povo rirá, baterá palmas, aplaudirá. E entre todos esses homens, livres e desconhecidos dos carcereiros, que acorrem cheios de alegria a uma execução, nessa multidão de cabeças que cobrirá a praça, haverá mais de uma cabeça predestinada que seguirá a minha mais cedo ou mais tarde no tapete vermelho. Mais de um dos que aí vier para mim aí voltará para si mesmo.

Para estes seres fatais há um certo ponto da Praça de Gréve, um lugar fatal, um centro de atracção, uma armadilha.Vão andando à volta até cair nele. In "O Último Dia de Um Condenado", Edição Verbo de 1972, vide pág. 107.

 

Bom fim de semana... Boa semana...

 

P.S: Obrigado ao "SAPO" por me ter permitido tomar conhecimento desta peça e obrigado também pelo destaque do artigo "Retratos de Inverno - Cogumelos".

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Pai...

por Robinson Kanes, em 23.01.17

IMG_7055.JPG

 

Em finais de Dezembro, tive oportunidade de ir ao Teatro Aberto assistir à peça “O Pai” - foi uma das prendas que dei à “velha” – e se por um lado João Perry dispensa apresentações, confesso que, o facto deste contracenar com Ana Guiomar me deixou a pensar no fiasco que se avizinhava.

 

O facto não se consumou e Ana Guiomar esteve à altura dos acontecimentos. Fiquei surpreendido pela positiva, e muito. João Perry, com aquele seu ar de “acabado” e, uma experiência de anos no teatro, mostrou que era a pessoa certa para o papel. Mas, não me vou alongar com uma espécie de texto pseudointelectual e enfadonho sobre as interpretações deste ou daquele actor. Não me cabe a mim vender a peça...

 

"O Pai" é uma peça que apresenta, de uma forma clara e sem qualquer pudor, a demência de alguém que, chegado a determinada idade, é apanhado de tal forma numa teia de cenários que se torna impossível distinguir a própria realidade, ou melhor, várias realidades cujo afunilamento na realidade do mundo, na realidade dos outros... se torna impossível.

 

De facto, e no meio de alguns momentos de humor, dou comigo a pensar no primeiro dia (ainda puto) em que talvez tenha sido levado pela primeira grande avalancha da minha vida... o dia em que o meu pai não me conheceu, o dia em que a realidade deixou de ser perfeita.

 

“As coisas não estão como eram”... foram as palavras que, confesso, me deixaram pensativo enquanto o autocarro me levava para Lisboa logo após uma época de frequências... imaturidade minha, medo... cobardia... fizeram-me ignorar o lado negro daquele aviso. O Pai sempre me havia ido buscar ao terminal, mesmo quando um dos braços (devido à doença) já o atraiçoava. Naquele dia, foi a mana - “as coisas não estão como eram, o que vais ver não é o pai como o conheceste...”. Tais palavras, ditas com uma frieza clínica, mesmo assim, não me haviam demovido de ver aquele homem forte, aquele exemplo de luta ao longo de uma vida e sempre bem-disposto perante a adversidade. O homem tal como sempre o idolatrara.

 

O cheiro a sardinhas (prato tão acarinhado lá em casa) antevia mais um jantar em família com a alegria que, apesar de dois anos de derrotas, não havia esmorecido... não havia esmorecido até entrar pelo portão e vê-lo ali, distante... sem alegria no olhar, sem um sorriso no rosto e olhando para mim como se questionando quem era estranha personagem que lhe estendia a cara para um beijo.

 

“É o Robinson, pai”. É o Robinson pai... e o eco dessas palavras e as lágrimas contidas que deveriam ter corrido como cataratas mas ficaram presas numa angústia que me faria mais tarde fugir de tudo aquilo. Deveria ter chorado, deveria ter-me lembrado da lição de Faulkner e de que um cavalheiro também chora, mas com a diferença que, face aos demais, depois lava a cara.

 

“As coisas não estão como eram”... não estavam mesmo. As boas notícias, de três semanas de bom trabalho no primeiro ano de faculdade ficaram guardadas para mais tarde... a doença atacara agora a sua alma, mas mais que isso... a sua alegria de viver, a sua capacidade de sorrir, de contar piadas, em suma... de rir da morte.

 

O Pai, deixara de ser o Pai... e no fundo de mim, por mais que tentasse fugir (e fugi) saberia que nunca mais o teria de volta e a realidade não mais voltaria a ser o que havia sido até então.

 

Fonte da Imagem: Própria.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor



Instagram



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sardinhas em Lata

Todas as Terças, aqui! https://sardinhasemlata.blogs.sapo.pt/

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog


subscrever feeds




Mensagens







Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB