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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por MJP...

por Robinson Kanes, em 09.07.20

be68076629107c4fe0814e3187f3a227-1000.jpgCréditos: Amarjeet Kumar Singh/SOPA Images/Lightrocket via Getty Images - https://www.sciencemag.org/news/2020/05/doctors-race-understand-rare-inflammatory-condition-associated-coronavirus-young-people  (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

O que aprendi nos últimos seis meses…

Quando recebi o generoso convite do R., que muito me honra e agradeço, para reflectir sobre o que aprendi nos últimos seis meses, pensei que seria uma boa oportunidade de colocar em palavras escritas o que me vai no pensamento.

 

E, assim, de repente  (ou talvez não!), já passou metade de 2020... um ano diferente... arriscaria, mesmo, dizer que este será, muito provavelmente, o ano mais atípico que a maioria de nós já experienciou...

Fomos brindados com acontecimentos inesperados  (inimagináveis)  que abalaram, algumas das nossas certezas...

No início do ano, creio que poucos pensariam que este vírus chegaria à Europa... à medida que o tempo foi decorrendo e as imagens do desespero  (e da morte), que chegavam de Itália e de Espanha,  invadiam os nossos ecrãs, fomo-nos dando conta que isto era "real"... que o"nosso dia" haveria de chegar... era inevitável a chegada do vírus a Portugal... muitos de nós, conhecedores das fragilidades do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) - onde eu me incluo - temeram o pior...

Entretanto, ocorreu o proclamado “milagre Português”, que redundou no cenário que, actualmente, experienciamos…

 

A verdade é que depois de muito pensar, não creio que tenha aprendido nada de novo nestes últimos seis meses (decorrente da Pandemia) … mas, a verdade é que, constatei muitas coisas que já sabia, nomeadamente:

 

- O Ser Humano é muito vulnerável e controla muito pouco (ou nada) à sua volta, ao contrário do que muitos pensam;

- O Bem comum deverá sobrepor-se à (minha) vontade individual, ainda que, signifique ter de abdicar da Minha Liberdade de circulação, que tanto prezo;

- Nada é garantido, de um momento para o outro tudo pode mudar “sem aviso prévio” e, por isso, devemos aproveitar o melhor possível o momento presente e não adiar aquilo que consideramos importante;

- O que se torna essencial, em momentos de crise, são as relações de qualidade que estabelecemos com as nossas pessoas e que se revelam à prova de qualquer distanciamento físico;

- A Saúde Mental (tão estigmatizada e desvalorizada) é muito mais frágil (e difícil de manter, sobretudo, em confinamento) do que a Saúde Física;

- As crises não tornam os indivíduos “melhores Pessoas”, apenas evidenciam as suas características mais marcantes, ou seja, tornam-nos mais refinados;

- O Mundo não é cor-de-rosa, não somos todos amigos e não vai ficar tudo bem para todos;

- O Mundo é um lugar repleto de desigualdades, que se evidenciam e acentuam em momentos de crise;

- Há sempre quem esteja pronto a lucrar com a tragédia alheia;

- A memória é curta e os erros cometidos são facilmente repetíveis;

- Há muita gente que não saber viver em sociedade, adoptando comportamentos de risco que fazem perigar a saúde alheia;

- Os profissionais de saúde apenas são reconhecidos e valorizados pelo seu trabalho quando uma crise sanitária se instala e ninguém deseja morrer por ausência de cuidados de saúde!!!  

MJP

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Estónia: estar à frente é isto...

por Robinson Kanes, em 08.07.20

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Créditos: https://pt.slideshare.net/MerlinLinde/educational-technology-in-estonia?smtNoRedir=1

 

Creating a new country from scratch has given Estonia the license to imagine what a country could be. 

Taavet Hinrikus, in "National borders - a thing of the past?"

 

 

No país onde ter um vasto conjunto de shared-services e call-centers é sinónimo de vanguarda tecnológica, temos de ter em conta que não é isso que, ao contrário do discurso, nos coloca nos primeiros lugares, ou pelo menos em lugares mais aprazíveis. Reconheço que, em comparação com países bem mais desenvolvidos que Portugal, não temos as facilidades tecnológicas do nosso país e também reconheço que shared-services e call-centers, não deixem de ser uma mais-valia desde que não assentes apenas em mão-de-obra barata e altamente qualificada.

 

Enquanto muitos só agora despertaram para a necessidade de olhar para o futuro e para os desafios que o mesmo nos coloca (uns despertaram, colocaram os habituais posts no LinkedIn e fizeram artigos de revista mas já se esqueceram) existem outros que, entrando na corrida do desenvolvimento de forma mais tardia, já dão passos de gigante e que inclusive lhes permitem suportar com maior presteza os desafios "impostos" pelo surto pandémico de COVID-19.

 

Na Estónia, encontramos uma total automatização (e que funciona, não é só ter) dos registos de saúde e a "e-prescrição" que em tempos de pandemia foi fundamental para o combate à mesma, sem esquecer de mencionar que a tecnologia Blockchain já é uma realidade, sobretudo nesta área. Destaco o "e-ambulance", um sistema que detecta a posição de uma chamada de emergência alocando a mesma para a ambulância mais próxima, isto enquanto o médico que aguarda no  hospital ou se dirige para o local da ocorrência pode ir consultando o tipo de sangue, alergias, tratamentos recentes, medicação e um sem outro número de informações pertinentes.

 

É na Estónia que também o "GoSwift", um sistema de gestão de transportes, do tráfego e de fronteiras, permite um enorme controlo de custos e poupança de tempo com reais impactos na vida das pessoas, nas deslocações para o trabalho e obviamente em toda a cadeia logística. 

 

A assinatura electrónica e os selos digitais são também uma realidade, aliás, este país foi pioneiro no uso da identidade digital. Também os chamados online meetings já eram uma realidade antes da pandemia e com a mesma não se assistiu a uma euforia de muitos indivíduos como se de crianças com novo brinquedo se tratassem. Enquanto uns cá se gabavam, sobretudo no Linkedin de estarem muito à frente, e passo a expressão, imagino que outros se ririam e muito de tal gabarolice.

 

Finalmente, e porque a lista seria longa (e a ela voltarei), destaco dois pontos que para mim são uma grande mais-valia quando queremos fazer as coisas e deixar a propaganda de lado:

 

- Durante o lockdown, o Governo da Estónia opromoveu um hackathon online para que qualquer indivíduo colocasse os seus problemas/desafios relacionados com a pandemia. Automaticamente, a plataforma fazia/dfaz o match com voluntários dispostos a ajudar e a encontrar uma solução. Porque é importante? É querer resolver os problemas, é querer criar empowerment na população, é desenvolver um espírito de inter-ajuda e de comunidade, é colocar as pessoas no centro da informação e torná-las também autónomas. É tirar o melhor partido de todos e com todos e não sonegar informação e competências que erradamente nos querem fazer pensar que só meia-dúzia de iluminados conseguem atingir.

 

- Deixo este mote que pode ser encontrado no portal e-Estonia: "o sonho estónio é ter o menos de Estado possível, contundo o Estado necessário". Em relação a isto, não preciso de escrever muito mais, por muito que choque os iluminados que falei acima e os acomodados.

 

Terminando, e segundo os dados do "World Economic Forum", Portugal não está na vanguarda em termos de empreendedorismo ao contrário do que, mais uma vez se tenta vender. Porque empreendedorismo não é só criar empresas porque sim ou sem qualquer viabilidade económica no longo prazo.

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O "top ten" é ocupado por vários outros países e onde, se ligarmos (e sou eu a afirmar, sem todos os dados na minha posse) o sucesso no combate à pandemia com a dinâmica empreendedora, tecnológica e de empowerment da sociedade, temos uma relação claramente vencedora. Temos aqui países saídos recentemente do bloco soviético e bem mais pequenos que Portugal, quase todos. É com estes que temos de nos comparar, mas preferimos falar e discursar para as televisões e ignorar estes actores por razões óbvias.

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Dizem que a sardinha está de morrer...

por Robinson Kanes, em 07.07.20

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Créditos: https://100anos100arvores.wordpress.com/tag/fernando-medina/

 

É o que dizem, no habitual espaço de terça-feira no SardinhaSemlata... Vão lá comer uma, basta ir por aqui.

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All means All - TODOS são mesmo TODOS!

por Robinson Kanes, em 03.07.20

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Créditos: https://gem-report-2020.unesco.org/poll/

 

Que a inteligência cheire mal, mas não mais que a estupidez.

Vergílio Ferreira, in o "Existencialismo é um Humanismo"

 

 

Existem os hypes e existem as realidades, os primeiros são impingidos e mediáticos, os segundos... Os  segundos são isso mesmo, a realidade - ambos legítimos, mas com análises diferentes. Falamos de racismo, é só um exemplo, como se fosse num sentido único (brancos contra pretos) mas nunca questionamos a génese de determinados comportamentos que começa com a educação ou falta dela, e é ao encontro dessa génese que chegamos a mais uma conclusão: só menos de 10% dos países têm leis que asseguram uma completa inclusão pela educação (UNESCO - "Global Education Monitoring Report: Inclusion and Education 2020"). 

 

Todos temos conhecimento, ou deveríamos ter, que a exclusão não se deve somente a factores raciais ou de género, mas também de pobreza, geografia, idade, deficiência, linguagem, religião, crenças e atitudes, só para citar alguns exemplos. Com a COVID-19 assistimos ao acentuar destas situações sobretudo em meios que já enfrentavam desafios na educação e ensino de indivíduos mais vulneráveis às lacunas do sistema.

 

Segundo a UNESCO, são 258 milhões de crianças e jovens que estão completamente excluídos nesse acesso, sendo que o factor principal dessa exclusão é mesmo a pobreza. 258 milhões que estão nas estatísticas e sabemos como a margem de erro, infelizmente nestes estudos, peca sempre por ser para cima. Um exemplo de uma verdade cruel é o facto de que, em cerca de 20 países do mundo, uma jovem que complete os estudos secundários ser um case study, tal a raridade de casos. 

 

A realidade mostra-nos também que uma grande maioria de países ainda pratica a segregação educacional com severos impactos em termos de discriminação e usando a tradução à letra do inglês, uma quase alienação dos indivíduos. A realidade mostra-nos que ainda existem países (2) que não autorizam que jovens grávidas frequentem as escolas, que existem países (117!!!) que permitem casamentos entre crianças e que nessa mesma realidade ainda temos países (20) que não rectificaram as emanações da 138º Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e que estabelece as premissas "Sobre a Idade Mínima de Admissão ao Emprego".

 

E neste somatório de coisas boas, nem os mais desenvolvidos escapam. Dentro dos países da Organização para a Coperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), dois terços dos alunos com um background migratório frequentam escolas ondes são 50% da população estudantil, em termos de inclusão sabemos o que isto significa. Em Portugal isto também acontece, sobretudo em termos de turmas que servem de depósito de imigrantes.

 

As exclusões são mais que muitas e em alguns casos, a realidade mostra-nos que 335 milhões de raparigas frequentam escolas que não lhes garantem as condições minímas de sanidade e higiene que lhes permitam frequentar as aulas durante a menstruação. Sim, a menstruação gera exclusão...

 

Para o fim deixo uma  questão que provavelmente não passa pela cabeça de muitos e que contribui para uma das situações já relatadas, a alienação dos alunos. São muitos os indivíduos que estão excluídos dos materiais de ensino, da História, das ciências e com isso acabam por sentir que chegaram a outro planeta e estão em campos de reeducação para se adaptarem a um novo mundo. Em alguns casos, esta prática é realizada em países cujas lideranças se esforçam em varrer a História, mas não só.

 

No entanto, também muitas boas iniciativas estão a ser realizadas e para isso, nada como visitar o "Profiles Enhancing Education Reviews (PEER)". É aí que vamos de descobrir que em algumas regiões da India já são incluídas línguas tribais nos programas, que no Quénia as aulas são ajustadas ao calendário dos povos nómadas (esta é qualquer coisa...) e na Austrália, 19% dos alunos não se adaptam apenas à escola, também é a escola que se adapta às suas necessidades e desta união tira o melhor partido destes.

 

Infelizmente, por cá, vejo os professores da velha guarda (do básico ao superior) avessos à inovação, em pânico porque as coisas e o mundo mudam, com preocupações meramente administrativas, salariais e em alguns casos de demais expedientes e status. Apesar de tudo, não somos os piores, mas também não somos os melhores.

 

Podemos fazer mais alguma coisa ao invés de debitar palavras? Podemos, pouco que seja é possível e até podemos começar por aqui em ALL means ALL. Se queremos ser "virais", vamos arriscar com esta campanha, não dá likes mas pode mudar o Mundo!

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por menina-mulher.

por Robinson Kanes, em 02.07.20

be68076629107c4fe0814e3187f3a227-1000.jpgCréditos: https://www.wallpaperup.com/528753/mood_sensual_fashion_beauty_beautiful_girl_face_cute_attractive_lovely_woman_female_model.html ( (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

 

Começo com um paradoxo: tenho tentado não pensar demais, passando o dia a pensar – especialmente nos últimos seis meses. Por isso este convite foi um desafio, mas um dos bons, que como vão ver, a seguir, acabou a fazer-me sorrir.

 

Admito que desde dezembro (daí os seis meses) estava atenta às notícias do Oriente, mas, na minha inocência de pessoa pouco ligada às Ciências, acreditava que íamos passar “só” por uma “sequela” do SARS 1, ou seja, volta e meia ouvir falar da nova gripe nos noticiários, quase como um fait-divers, mas a achar que a sua representatividade no nosso “cantinho à beira mar plantado” ia ser mínima.

 

Chega março e percebi... pânico, particularmente em quem me rodeia, ou não seja eu irmã de uma pessoa em imunodepressão e que está dependente de medicações e tratamentos diários. No “nosso umbigo familiar”, o que primeiro percebemos é que a (agora nova) Covid-19 ia mudar os nossos dias e as prioridades do país e logo do curso dos tratamentos com que vivemos, todos os dias.

 

Seguiu-se a muito lenta alteração do espírito e atitudes dos lisboetas nos transportes públicos e nos restaurantes (os meus habitats mais naturais aqui na capital), tanto que, na noite anterior ao decretar do isolamento voluntário pela empresa onde trabalho, estive com amigos a jantar e a Covid não foi, de todo, o principal tema de conversa.

E plim! Na tarde seguinte, entrei em confinamento voluntário e por cá continuo quase 120 dias depois.

 

O que aprendi?

  • Que lido melhor com o confinamento do que esperava. Lido bem com o trabalhar de casa, com as reuniões com câmara e sem ela; que os meus gatos também têm horários e que conseguem ser companheiros de trabalho muito chatinhos...;
  • Que cozinhar me acalma e me dá um foco ao dia: o alimentar os outros, o encontrar novidades seguras, o ganhar coragem para experimentar, mesmo dentro das minhas “quatro paredes”;
  • Que morar numa casa não é o mesmo que viver numa casa, e que passar tanto tempo dentro de casa leva a um graaaande “síndroma de ninho;
  • Que “as dicas certas”, “a produtividade”, o “melhoramento pessoal” não funciona igual para todos, e pode bem até aumentar a ansiedade e o sentimento de alienação;
  • Que morar a 300 quilómetros da nossa família é difícil, mas agora experimentem viver com a regra “não podes sair de casa” e vão ver que centenas de quilómetros se transformam num continente com um oceano pelo meio;
  • Que descer as escadas para ir à mercearia ao lado da porta pode ser todo um programa, agora na companhia de máscara e luvas e um cronómetro.

 

Mas, acima de tudo, aprendi que vivemos num país que se entrega e se ouve quando o mal é comum, mas que se distrai facilmente quando os estímulos são muitos.

Aprendi que informação pode ser demais, mas que o “lava sempre bem as mãos”, o “mantém 2 metros de distância”, o “apoia os negócios locais” já não são informação, mas são sim formação da nossa personalidade no “novo normal”.

 

Venha o copo de vinho à 6ª feira, para brindar a mais uma semana (minimamente) sãos, e cá estaremos daqui a meio ano, para nos abraçarmos virtualmente, outra vez!

Blog da menina-Mulher

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Hoje a Sardinha traz ódio...

por Robinson Kanes, em 30.06.20

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Créditos: https://www.facebook.com/AberdeenSardineFestival/photos/pb.249823545028527.-2207520000../3309581572386027/?type=3&theater

 

Hoje é aquele dia em que grelho umas sardinhas e partilho com todos vós... Podem temperar as mesmas com um pouco de ódio aqui.

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por Maria Araújo...

por Robinson Kanes, em 25.06.20

WhatsApp Image 2020-06-24 at 23.07.49.jpegCréditos: GC/ (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

Estávamos todos a par do que acontecia na República Popular da China, pensávamos que um desconhecido, perigoso e invisível vírus, que obrigou a que milhões de pessoas tivessem de ficar fechadas em casa, não chegaria à Europa, muito menos a um cantinho à beira-mar plantado: o nosso país.

Em Fevereiro, fui uns dias de férias para conhecer um pouco mais do Alentejo, dias estes muito bem passados, "que tranquilidade!", de regresso a casa, já se ouvia nas notícias que Itália era o foco de infecção, os media entravam casa adentro a toda a hora, o Coronavírus estava na Europa.


E de Itália a França e Espanha, Portugal começou a sentir o perigo, agiu o governo atempadamente, e, de uma forma inesperada, mudámos o nosso estilo de vida.


Somos um povo de afectos, estavam proibidos os beijos e os abraços, o alerta constante de evitar o contacto físico e manter o distanciamento desencadeou nas pessoas o medo de ser contaminado.


As cidades ficaram desertas.


Às crianças foi-lhes tirada a rotina das creches, da escola. Interromperam-se os afectos, as brincadeiras com os amiguinhos, os parques de rua para brincar. Estava nas mãos da família adaptarem-nas a uma nova rotina, árdua e exigente.


A nossa casa passou a ser o escritório, a escola, as consultas, as reuniões, a fé, a cultura, o ginásio, a loja que procurávamos para comprar alguma coisa que nos satisfizesse o ego de tão triste estávamos neste isolamento forçado.


Passados este seis meses ( comentando com um familiar, a quem foi muito difícil este tempo de confinamento, que, apesar de tudo, parece-nos que já foi há bastante tempo ), não tendo alterado o meu comportamento muito mais que anteriormente, aprendi algumas coisas que em situações normais certamente não pensaria nelas: 

aprendi que fiquei mais tolerante a pequenas coisinhas que me irritavam, sobretudo más interpretações ou juízos de valor que eu mesma fazia; 

aprendi que o medo faz (re)agir perante ocorrências inesperadas, "esquecer" o vírus e seguir em frente, há que proteger os seres mais frágeis; 

aprendi a controlar a minha ansiedade se me doesse um dedo, ou a ponta nariz, e,sim,tive dores no braço, e deixar de procurar o médico especialista disto e daquilo só porque queria ficar tranquila (não vou a uma consulta desde novembro do ano passado); 

aprendi, basta querer, que o tempo que tenho chega para tudo: ler, computar, tomar conta do sobrinho neto quando é preciso, cozinhar, fazer as tarefas da casa, passear, apoiar quem me pede ajuda;

aprendi que os nossos melhores momentos são aqueles que dedicamos a quem mais gostamos: um almoço e/ou jantar convívio via whatsapp;

aprendi que o progresso traz riscos, que a insegurança e a desigualdade social aumentam.

O homem é um ser vulnerável.

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Créditos: https://www.cm-mgrande.pt/pages/357?event_id=1319

 

Siga a dança e a sardinhada que hoje é terça-feira e nas SardinhasSemLata que monto o estaminé... Não são permitidas mais de 10 pessoas junto à grelha e só servimos vinho a martelo até às 20h:00m... Podem ler o artigo aqui.

 

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Movimento Português Anti-Racista e Anti-Colonialista...

E de todas as outras coisas que estão na moda...

por Robinson Kanes, em 22.06.20

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Rembrandt Harmenszoon van Rijn - "A Ronda Nocturna" - Pormenor (Rijksmuseum)

Imagem: Robinson Kanes

 

Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.

Friederich Nietzsche, in "Para Além do Bem e Mal".

 

Jovem!

 

Não tens nada que fazer para lá das redes sociais e da praia? Não sabes o que é a Democracia? Vives dos meus impostos? Queres apagar a História? Gostas de aparecer e pertencer a causas mesmo sem saberes porquê ou sem teres ideias de futuro? Não tens ideias e  até no teu bairro tens medo de dizer um "ai"? Queres destruir uma sociedade democrática? Se respondeste sim a uma questão que seja, junta-te à nossa causa! Não te esqueças é de criar um instagram ou um facebook para sentires que estás a tomar parte num sentimento de pseudo-maioria!

 

Para atingirmos os nossos objectivos propomos:

 

- Destruição do Mosteiro dos Jerónimos, do Santuário de Fátima e de todas as Igrejas e monumentos ligados à Igreja Católica, essa grande promotora do colonialismo em tempos antigos e causadora de milhões de mortes por esse mundo fora - pelo caminho vai a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos, a Feitoria e a Casa da Dízima! Feitoria é coisa de colonialismo e não é propriamente o meu restaurante predilecto, a Casa da Dízima é só porque não gostei propriamente das duas vezes que lá comi pregado, só por isso, o que já é um acto atroz!

 

- Destruição da estátua de D. Afonso Henriques, um indivíduo que batia na mãe e a partir de Guimarães promoveu a causa racista matando árabes por aí abaixo;

 

- No seguimento do ponto anterior, circunscrição de Portugal ao Condado Portucalense e devolução do restante território aos mouros, eles depois que se entendam com os que foram expulsos pela mouraria;

 

- Destruição das estátuas de todos os reis e até do próprio Marquês de Pombal;

 

- Exoneração de um político-mor, um ferranho defensor do colonialismo e cuja opinião pública só mudou com a mudança do regime (efeito cata-vento);

 

- Destruição de milhões de edições de livros, obras de arte, manifestações culturais, gastronómicas e sociais que são herança ou tiveram como base indivíduos racistas e colonialistas! Abaixo os Santos Populares, viva a Festa do Avante!

 

- Abaixo a ciência em todas as suas vertentes;

 

- Fim ao hino nacional, e no fundo, ao ser português;

 

- União com movimentos internacionais tendo em vista a destruição das pirâmides do Egipto, de totos os vestígios do Império Grego e Romano, em suma de praticamente todos os sítios históricos da Antiguidade e outros mais contemporâneos excepto os edifícios históricos que tenham lojas da Primark e da Humana;

 

- Aliás, sugiro a destruição da Europa, dos Estados Unidos, da Rússia, de todo o Médio-Oriente, da China, em suma de toda a Ásia. Mas como também há racismo em África e na América do Sul, vamos destruir tudo. 

 

- Pela quantidade de raças que se aí se encontram, a mudança ou até a destruição do Largo do Intendente em Lisboa, em homenagem a Diogo Inácio de Pina Manique, esse racista absolutista.

 

- Destruição do Bairro Alto, isso é racismo e dá a sensação que os brancos do Alto olham de cima para as outras raças da Baixa. Principe Real é um ultraje e deverá ser renomeado para qualquer coisa como Presidente do Comité ou "influencer square" ou "Game Changer".

 

- Sugiro que o principal acesso ao Hospital de São José, a Avenida Almirante Reis, seja fechada ao trânsito inclusive de ambulâncias para que, e especialmente em períodos de confinamento, te possas manifestar, sem perceberes, em muitos dos casos, bem porquê. 

 

- Em temas verdadeiramente urgentes e fracturantes da nossa sociedade, enterra a cabeça na areia e faz de conta que nada se passa, nomeadamente a corrupção, os incêndios, a propaganda digna de regime ditatorial, o crime, a impunidade e todas as falcatruas e defeitos de um país provinciano. Segue a moda! Segue a moda e não vires os olhos para o lado. 

 

- Não penses, nós pensamos por ti e tens um Presidente da República que também o faz. 

 

Se não tens coragem para isto tudo, mas queres ser um indivíduo bem visto e sentir-te parte do grupo, escreve só meia-dúzia de tretas que encontras nas notícias e partilha na internet, também assim estarás a fazer a tua parte. No entanto, quando o fizeres, não te esqueças que o racismo não existe só contra negros e lembra-te de te esqueceres de tudo isto ao fim de uma semana dedica-te de imediato a outra causa que esteja na berra, o like é garantido e assim a tua opinião contará mais que as outras, mesmo que todos se estejam a borrifar para o que escreves online.

 

Junta-te à nossa causa e vais fazer parte de um movimento único e que defende a liberdade dos povos com violência e hipocrisia. Uma coisa é certa, nunca te sentirás cansado porque todos os dias há novas causas, a próxima será a da existência de gafanhotos gigantes extraterrestres que falam e estão escondidos debaixo dos corpos dos pagadores de impostos - estão prontos a atacar para extinguir a raça humana pelo que se seguirá o ataque ao consumo de vinho branco que é uma clara demonstração de supremacia branca!

 

P.S.: aquela do político-mor, coloca-me a pensar como é que um indivíduo que... chega a presidente de... Enfim, coisas minhas.

 

 

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por GC...

por Robinson Kanes, em 18.06.20

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Peter Paul Rubens - "Retrato da Filha do Artista" (Scottish National Gallery) 

Imagem: Robinson Kanes

 

Quando penso nos últimos seis meses tenho a sensação de ter passado já muito tempo. Não por causa da pandemia e do consequente recolhimento forçado, que obriga a mais tempo de reflexão e contacto com a nossa mais íntima realidade, mas porque uma parte de mim parece ter ficado lá atrás - enquanto a minha essência mais profunda está a voltar e a caminhar em frente. Qualquer que seja a razão para isso ter acontecido, parece que devo ter motivos para ficar feliz.

 

Nos últimos seis meses aprendi que, embora seja por vezes doloroso, a escolha pelos nossos ideais e valores em detrimento de títulos (profissionais ou outros) vale sempre a pena. É um caminho solitário e muitas vezes incompreendido. Mas a coerência e consistência com o que temos de mais estrutural traz-nos uma tranquilidade impagável.

 

Aprendi, igualmente, que a minha ignorância é afinal bem maior do que julgava. Há tantos livros para ler, tantos cursos para fazer, tantos filmes e música e poesia para me emocionar, que a única hipótese viável é reservar uma parte do dia para me cultivar e tentar ser melhor a partir do conhecimento e da experiência dos outros.

 

Aprendi ainda que a vida pode ser tão simples para nós, humanos, como é para um cão. O meu Pastor Alemão descobre, à medida que vai ficando mais velho, muito mais sítios interessantes para farejar, brincadeiras muito mais divertidas para me pedir ou técnicas bem mais ardilosas para me obrigar a levá-lo a dar passeios mais longos pela natureza. Quando penso que poderia traduzir tudo isso para a minha própria experiência humana, chego à conclusão de que, tal como para ele, descobrir constantemente novos motivos para me fascinar perante o mundo poderá ser algo verdadeiramente espontâneo - basta estar atenta ao que me rodeia.

 

Aprendi também que, embora não se morra, literalmente, de saudades, é possível morrer metaforicamente. Porque é por dentro, no invisível traço que nos une a alguém, que a falta acontece sem pedir licença. Um dia disseram-me que não era de uma pessoa que sentíamos saudades mas do que ela nos fazia sentir. Talvez seja verdade. Ainda assim, há olhares, aromas, sorrisos, abraços e cumplicidade que não são repetíveis - por muito que outra ou outras pessoas cheguem entretanto à nossa vida. Aquela marca, aquela ausência, aquela memória pertencem unicamente a quem no-la gravou cá dentro.

 

Aprendi, finalmente, que não há nenhuma forma de saber o que cada dia nos reserva, por muito que gostemos de nos defender dessa certeza com falsas seguranças e vidas muito cronometradas. A inevitabilidade e o mistério do desconhecido parecem-nos longínquos quando estamos a viver em piloto automático. Mas o facto de não podermos controlar tudo pode trazer uma bênção impensada: a de sermos, finalmente, aquilo que somos, sem amarras, sem controlo de cada gesto, sem medo que a nossa essência transborde para lá do barco imenso da nossa plena existência.

 

GC

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