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Se nada fizermos, Portugal vai ao fundo!

por Robinson Kanes, em 28.09.20

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London Imperial War Museum

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Um chapéu é apenas uma panqueca, posso ir comprá-lo ao Zimmermann, mas aquilo que se guarda debaixo do chapéu, isso já não se pode comprar.

Fiodor Dostoievski, in "Crime e Castigo"

 

Faço uma espécie de plágio de um título recentemente utilizado por José María Gay de Liébana ("España se hunde y no hacemos nada"), um conhecido economista espanhol que olha para a economia de frente e não raras vezes tem de desmentir jornalistas com tiques de economistas.

 

Antes de passar ao conteúdo do artigo, propriamente dito, aproveito para trazer também algumas palavras deste economista que ainda recentemente, admitiu a perplexidade pelo facto de em Espanha se legislar por tudo e por nada ("sobre el pulpo casero, los vuelos de las palomas ciudadanas") e se continuar a ignorar os factos relevantes que, sendo colocados de lado por vias de um certo "atirar de areia para os olhos" levarão Espanha a um estado de calamidade económica dificilmente ultrapassável. Por momentos, parece que estamos a falar de Portugal...

 

O dinheiro das bazucas (e como ainda não digeri esta espécie de mendicidade e orgulho no dinheiro alheio) continua sem ter um destino, aliás, muito deste dinheiro está já destinado ao Estado, às políticas sociais (um jargão para camuflar o desconhecimento da aplicação dos fundos). Ninguém sabe para onde vai e também ninguém parece estar interessado. As crises serão constantes, o mundo dos "30 anos dourados" já não existe há muito e os períodos de prosperidade serão cada vez menos duradouros o que provocará o colapso de muitos economias e, na hora de decidir, só aqueles que melhor se adaptarão e melhor uso farão das divisas, serão os felizes contemplados com apoios europeus. A solidariedade europeia tem um limite e a aprovação deste último pacote já mostrou que a Leste, a Norte e até no Centro da Europa são muitos os que não pretendem assistir ao sorver destes mesmos fundos por Estados que não fazem uma utilização criteriosa destes. Como cidadãos, todos devemos exigir uma explicação da aplicação dos fundos e inclusive a demonstração dos resultados numa base diária, como se tem feito (em meu entender já em demasia) com os briefings diários da Direcção-Geral de Saúde. É assustador perceber que a maioria dos portugueses ainda não está verdadeiramente preocupada com a situação do país, os paliativos estão a ter o seu efeito... A crónica ausência de visão estratégica, vamos ser positivos, depois logo se vê, tudo em prol da Justiça Social - o novo conceito que ninguém sabe explicar mas é óptimo para colocar tudo no mesmo saco e fugir às responsabilidades. 

 

Este é o momento para também despertarmos como país, para percebermos os milhões que são desperdiçados em subvenções quer para causas sociais, associações inúteis e misericórdias, quer para organizações empresariais que fazem mau uso destas, quer para o erário público onde se incluem autarquias e para um sem número de interesses públicos e privados que nada trazem de bom para um país. Temos de saber dizer não! Temos de saber aplicar todos estes fundos e exigir um caderno de encargos, não podemos gastar milhões em elefantes brancos e milhões em associações que por ano realizam uma exposição para os pobrezinhos! Temos de exigir resultados. Temos de perceber porque é que todos os dias encontro sempre a alguém que diz estar em layoff mas continua a trabalhar e a empresa a receber fundos de todos nós! Estes fundos não são para ser aplicados na compra de Porsches que transformaram uma das regiões mais pobres da Europa naquela que mais concentração tinha de veículos topo de gama, o Vale do Ave.

 

Portugal tem também de perceber a quantidade de posições inúteis que tem na função pública e eliminar as mesmas! Pode começar pela reconversão, pois existem áreas (também públicas) onde os recursos podem ser bem aplicados! Não faz sentido ter 10 administrativos que passam o dia a jogar solitário a beber cafés num departamento camarário que emite um processo por mês e num hospital estarmos a precisar de auxiliares! Temos de também ter coragem de eliminar postos de trabalho se assim tiver que ser, não podemos é permitir que muitos inúteis assalariados pagos com os nossos impostos continuem a assobiar para o lado porque o seu emprego está intacto. Também no sector privado temos de ser sérios, e a pandemia veio demonstrar que existem também muitos empregos improfícuos! Muitos destes empregos vão sendo mantidos porque os salários são baixos e porque são muitos os empresários que gostam de ter o "escritório" cheio porque dá a ideia de que se é uma grande organização! São os mesmos em que tudo pode faltar na organização, menos o papel e a impressora!

 

Temos também de deixar de destruir os óptimos recursos humanos que temos! Não podemos exportar indivíduos que são brilhantes e dariam tanto a este país! Não podemos, temos de lhes pagar, de os acolher. Não podemos deixar estes indivíduos fora do mercado de trabalho ou contratar os mesmos prometendo uma carreira brilhante e encostá-los a um canto, porque ainda temos a mentalidade da courela! Não podemos ter anúncios de emprego (quando os há) onde seja para que área e posição forem, parecem copy-paste uns dos outros e recrutadores obsoletos, inoperantes e que tremem sempre que um CV não segue o Europass. Não podemos deixar que candidatos que se dirigem a uma entrevista de emprego sejam negligenciados porque são inovadores, descomplicam, abanam o status quo e cometem o "erro" de perguntar quais são os objectivos da organização para aquela posição - pergunta que nunca tem resposta! Não podemos preterir candidatos que mostram aquilo que valem e ouvem a resposta do "o bom aqui sou eu, era só o que faltava". Temos de nos rodear dos melhores, temos até de permitir que o nosso lugar mais tarde possa vir a ser ocupado por esses mesmos indivíduos - não temos de ser dinossauros nas mesmas organizações anos e anos a fio. Não podemos olhar para altas taxas de turnover em determinados departamentos com a ideia de que todos os que lá passam são maus e o dinossauro que ocupa a posição de chefia é que é bom porque já ocupa o cargo há mais de 10 anos! O problema não está nos soldados está no general!

 

Precisamos de trabalhar as nossas soft skills, a nossa cidadania e isso não se faz só com uma acção de formação. Temos de incorporar novos ensinamentos e não darmos a desculpa do "mas sempre foi assim" ou do "aqui não resulta" ou ainda do "é cultural". São raros os casos de fintas que são feitas a headquarters localizados no exterior para que não se descubram certas manhas internas. É preciso abrir para o mundo e isso não se faz com uma viagem barata àquele ou a este país! É preciso levar o cérebro e não só a máquina fotográfica!

 

Nas universidades temos de perceber o que importa e o que não importa. Só um tolo não percebe que num país tão pequeno existem universidades que nunca mais acabam e que são também um sorvedouro de dinheiros públicos, um palco para académicos e algumas delas com cursos inúteis e em muitos casos sem qualquer relação com o mercado de trabalho. Temos de apostar também no ensino técnico e pré-universitário, mas depois não podemos pagar o salário mínimo a técnicos não superiores mas altamente qualificados. Não podemos dizer que o país evolui como nunca porque entraram 51 000 alunos em cursos superiores... Entrar é fácil e actualmente até tirar um curso superior, em muitas áreas, se consegue de olhos fechados, o problema vem depois.

 

É preciso dizer basta também à elevada carga de impostos, nos salários não é excepção e a culpa não é só dos patrões (em Portugal ainda dizemos patrões...). Não podemos permitir duplas tributações como acontece no imposto automóvel, mas a sede de ter um carro novo é maior que a sede de exigir direitos e deveres! É essa sede que contribui para a fome do futuro.

 

Também temos de ouvir os melhores, temos de saber onde eles estão, e esses não andam só nas revistas, nas redes sociais e nas televisões... Não andam em publicações com artigos pagos, em trocas de favores ou a receberem prémios pagos. A título de exemplo, existe um indivíduo que na área dos recursos humanos tem construído carreira com prémios em anos que as organizações por onde passam fazem greves a todo o momento e os casos de escandaleiras são uma realidade. Temos de perceber onde essa gente, temos de colocar esses cidadãos num grupo à parte e aproveitá-los como nos diría Platão, não podemos é deixar que a mediocridade se associe a mais mediocridade e produza ainda mais mediocridade.

 

Os líderes deste país não podem ser fabricados nas redacções de jornais e televisões, não podem ser fabricados em juventudes partidárias, não podem ser fabricados no corporativismo e em rascas maçonarias que crescem em todas as áreas, devem ser desenvolvidos e encontrados na praça pública, com base nos seus méritos e no acompanhamento de grandes líderes, comprometidos com o bem-estar dos seus, pois daí advém também o seu bem-estar. Tudo isto é complexo e não é com horas ilimitadas de trabalho... Falando em horas ilimitadas, o nosso desejo de dizer sempre que estamos a trabalhar, que trabalhamos horas e horas a fio, que estamos sempre em reuniões e calls e que no final não se converte em ganhos. Façamos só 10% do muito que vemos apregoar aqui e alí, e provavelmente teremos um país melhor, quebremos os tabús, falemos frontalmente dos problemas - é daí que vem o sucesso das soluções - e façamos com que as obras de Eça sejam mesmo passado e não actualidade, deixemos que os relatos de Raúl Brandão das invasões francesas não sejam um podre Portugal que ainda hoje ali se revê e que a mulher de Junot não fuja para França em estado de choque. E Junot que não era propriamente um cavalheiro...

 

Deixemo-nos de acomismes, de negar este mundo numa espécie de esperança num futuro brilhante. O futuro não será brilhante e só a capacidade de hoje nos prepararmos bem para o amanhã fará com possamos garantir mínimos de bem-estar para todos. Não deixemos que as distracções e uma ideia de aparentemente estarmos muito à frente nos faça desistir de nós próprios - baixemos o ego (que disfarça instabilidade e insegurança) provinciano. Como nos dirá Raghuram Rajan, "people innovate when they are confident that they can question, when they are open to more radical changes and when they do not fear reprisal for it".

 

Finalmente, paremos de olhar para a corrupção como uma coisa normal! A corrupção é um atentado aos Direitos Humanos, mas fica sempre a sensação de que em cada português há sempre alguém com uma espécie de esquema ou telhado de vidro. Temos de exigir mais da nossa política e da nossa Justiça, a mesma justiça que agora parece estar descredibilizada porque o futebol e outras reais instituições do reino dominam os cérebros tacanhos que vivem a semana à espera do circus maximus. Continuam-nos a cuspir na cara, começa na Presidência da República  (paternalismo é inimigo da liberdade e da Democracia) e vai por aí abaixo, passa pelos juízes até indivíduos que se riem de nós em plena Assembleia da República. Lutar contra esta é populismo, é agora o argumento do quadrante político da direita à esquerda.

 

Também na cultura temos de olhar para a frente, valorizar quem trabalha nesta, colocar a mesma ao serviço da sociedade e deixar de entender esta apenas como um canal para mais e mais subvenções. Um agente de cultura não tem de viver do Estado, tem de procurar vender o seu trabalho numa sociedade que também tem de apreciar o que de bom se faz nas artes. Temos de perceber como é que podemos trazer as pessoas, porque até mesmo o mais iletrado é capaz de apreciar Ibsen ou Picasso, precisamos é de sair do topo da intelectualidade onde esse mundo desenvolvido só é compreendido por nós, temos de ter uma cultura sem vícios e também ela um corporativismo em muitas situações, sempre os mesmos rostos, sempre os mesmos temas... Exigir a liberdade de ter uma peça "Catarina e a beleza de matar comunistas" e não apenas "Catarina e a beleza de matar fascistas"... Sempre os mesmos, sempre os mesmos temas e sempre as mesmas incompatibilidades... Afinal, um director de um teatro nacional, usa este como divulgador da sua obra e da sua ideologia (por sinal condenada pela União Europeia) com tudo o que de bom para este daí advém, esquecendo-se das palavras de Vergílio Ferreira que afirmava que ser artista era esgotar o instante que nos coube.

 

Tudo isto não é técnico, pois é fácil erguer uma fábrica ou transformar um país em termos de infraestruturas, difícil é mudar o comportamento e fazer com que as coisas acontençam... Em termos de mudança de comportamento, muitos o tentam, sobretudo ultimamente, mas com objectivos políticos e corporativistas, alicerçados em hypes e desinformado uma sociedade que mais facilmente é manipulada quando assim é e orgulhosamente se acha muito informada.

 

Depende de cada um de nós, e caramba... Para chegarmos aqui já foi tanto o sangue que correu, já foram tantos aqueles que descendendo das famílias de Altamira procuraram e morreram para que hoje estejamos num patamar de evolução nunca antes visto, façamos uso disso e mostremos que as conquistas e os erros dos nossos antepassados, não foram em vão!

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O Fim da Duralex...

por Robinson Kanes, em 26.09.20

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Créditos: https://www.pinterest.pt/pin/374502525257023726/

 

Foi por Espanha, nomeadamente pelo El País, que soube do fim anunciado da Duralex. Talvez muitos não o saibam, mas a Duralex era o fabricante da "inquebrável" louça de vidro, aquela de aspecto âmbar. Uma imagem de marca dos anos 60 e 70!

 

Recordo-me de, em casa dos meus pais, existirem dois conjuntos: um que se utilizou e mais tarde se deu a uma família carenciada e o outro, intocado que, muito recentemente, me foi doado pela minha mãe - lembro-me dessa primeira doacção, parecia novo apesar do muito uso. Como me recordo, à semelhança de outros, de ouvir dizer "este conjunto que comprámos em Espanha". A Duralex era um ícone das louças mais comuns, em Espanha teve um tremendo sucesso, uma espécie de louça de Sacavém e até teve destaque no original da série "Conta-me como Foi", uma "cópia do original "Cuéntame". 

 

Ao longo dos anos assisti à morte de muitas louças caras, mas a Duralex sobreviveu ao passar dos anos e à minha capacidade de partir pratos e copos devido a umas mãos escorregadias para louças.

 

Dura lex, sed lex, seria a inspiração e slogan para o nome da marca, por incrível que pareça. Desenvolvida pelo actual gigante "Saint-Gobain", os franceses detentores da antiga COVINA em Portugal, e depois de vários investimentos, não resistiu à crise actual causada pela quebra no consumo e no fecho da economia e cedeu.

 

A louça utilitária (ainda me causa alguma impressão o conceito de "louça decorativa") que já era uma peça vintage, despede-se assim e encerra mais uma recordação de um velho/novo Mundo. Talvez agora, seja a oportunidade de sair das cozinhas e das salas dos menos abastados e ocupar a mesa dos mais ricos ou dos locais mais nobres, afinal, a morte transforma a miséria em nobreza.

 

Não estou presente na casa que agora está mais rica com estas peças, mas por certo, aquelas peças, daquele conjunto, terão ainda um maior valor afectivo, pois além da memória dos meus pais serão também a memória de uma época.

 

Duralex, eterna lutea...

 

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Uma jóia normanda: Bayeux

por Robinson Kanes, em 25.09.20
 
 

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Uma das mais belas catedrais de França está situada no departamente de Calvados, na região da Normandia, mais precisamente em Bayeux!

 

No entanto, antes de entrarmos na catedral, Bayeux tem a curiosidade de ter sido a primeira cidade a ser libertada na Batalha da Normandia! É também por isso, que acolhe o cemitério de todos os jornalistas abatidos a acompanhar cenários de conflito desde 1944! Também é nas imediações do centro de Bayeux que se encontra o maior cemitério britânico da Segunda Guerra Mundial. Mas deixando as experiências menos boas, Bayeux é conhecida pela sua tapeçaria do século XI e onde se encontra "relatada" a conquista de Inglaterra por parte dos normandos liderados por Guilherme II. Merece ser visitada até porque está catalogada pela UNESCO, sobretudo pelos seus tapetes.

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Mas o que pode levar alguém como eu a Bayeux é a oportunidade de poder conhecer mais uma localidade normanda e apreciar a calma e simpatia dos seus residentes, num quase viajar ao passado. Se esperamos passar uma manhã ou uma tarde, rapidamente percebemos que temos de ficar mais tempo.

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Regressando à catedral, rapidamente percebemos o estilo gótico que se deve à reconstrução da mesma durante o século XI. Destaco a nave central que nos guia pelos imensos vitrais que se espalham ao longo de toda a estrutura. Para apreciadores desta arte, sem dúvida que verão aqui a sua sede de conhecimento saciada. 

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Também não podemos esquecer onde estamos, pelo que, em cada canto somos recordados de um passado não muito longínquo e onde se recordam todos aqueles que tombaram em nome da liberdade na Europa.

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Se gostarmos da Normandia, por certo que não podemos deixar de conhecer Bayeux, até porque qualquer das estradas até lá é um verdadeiro passeio carregado de paisagens que são o verdadeiro postal da Normandia. 

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Honfleur, uma cidade portuária

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

A pacata e firme Caen

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Filhos em Lata...

por Robinson Kanes, em 22.09.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje, no SardinhaSemLata e na habitual participação à terça-feira, falaremos de filhos e pressão social. 

Acompanhem o nosso texto aqui.

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"Kiss & Ride"

por Robinson Kanes, em 21.09.20

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Créditos: https://www.mirror.co.uk/news/weird-news/kiss--ride-signs-installed-5017292

 

"Kiss & Ride" é uma nomenclatura que já não é nova, mesmo em Portugal. De uma forma simplista, não é mais que a existência de uma faixa na via pública onde se pode parar e deixar entrar ou sair alguém - normalmente alunos em escolas.

 

Todavia, e especialmente em Lisboa, onde a febre da mobilidade continua a expandir-se mais que um vírus e sem olhar a planeamento, estas faixas têm sido criadas junto de algumas escolas. É interessante que a primeira faixa tenha sido criada no Colégio Sagrado Coração de Maria e não numa escola pública, sendo que a 50 metros existe uma. Esperemos que Lisboa não se transforme na cidade de "Kiss & Rides" só para topos de gama ou de jovens alérgicos a transportes públicos. Vai um pouco contra o turismo de "pé de chinelo", convenhamos...

 

Também podemos sempre enquadrar este tipo de medidas na nova moda de fragmentar cidades, e dentro de um bairro com 100 habitantes criar 120 nichos. Não obstante, podemos olhar para estas iniciativas como uma forma de facilitar a circulação do trânsito e até fomentar a segurança rodoviária junto das escolas.

 

Pessoalmente, e sendo praticável em várias escolas, pode ser uma boa alternativa, desde que respeitada pelos automobilistas - o que já levanta outras questões quando falamos de encartados com sangue luso.

 

Importará também perceber até que ponto estas áreas são deveras fundamentais e se são reservadas a estas actividades numa lógica de 24/7 ou só em períodos de pico (entrada e saída de alunos das escolas).

 

No entanto, e também seguindo a moda dos últimos anos, a edilidade de Lisboa importou o conceito na sua linguagem original: "Kiss & Ride". E parece ser aqui que, reina a discórdia. Se por um lado, a faixa "Bus" também não é uma coisa muito portuguesa, como também o "STOP", será que não se poderá optar por algo mais português? Recuperando a música de João Galhardo e Raul Ferrão, não é motivo para dizer "Lisboa não Sejas Francesa"? Sabemos que a Lisboa dos últimos anos tem procurado ser uma cidade para estrangeiro ver e viver, excluindo-se a manutenção de alguma "vida alfacinha" em alguns bairros bafientos especialmente nas Avenidas Novas e com um público difícil parado ainda anos 60 e 70 mas... Já assisti a indivíduos que achavam bem ser em inglês porque o futuro (presente?) habitacional de Lisboa são os estrangeiros.

 

Se assim é, será que também não devemos defender mais a nossa língua? Portugal é um país membro, aliás, a génese da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) pelo que, não podemos fazer um pouco mais pelo português ? Se até naquilo que sustenta uma organização desta importância nada conseguimos fazer, de que valerá ter/pertencer a esta espécie de Commonwealth? 

 

A tarefa não é fácil, quando provavelmente quem decide deve ter um daqueles títulos de "Mobility Specialist and Very Intelligent Unique and Gorgeous God of Lisbon", coisa pouca  o país onde o sujeito que atende telefonemas e aufere €530 mensais é o "Customer Engagement Lead Specialist" ou quando uma padaria é coisa de labregos e "Baker Lab" uma coisa de gente mais do que letrada na arte de bem fazer pão, perdão, bread.

 

Fica o tema a discussão e até aproveito para sugerir a criação de faixas de "Kiss & Ride" noutras zonas da cidade onde se apanham e largam passageiros com um beijinho, nomeadamente no Monsanto, no Instituto Superior Técnico (sobretudo depois da hora de expediente) e no Alto do Parque Eduardo VII. Digamos que aí o nome pode nem estar mal escolhido. Já temos a "Pink Street" mas nessa rua os "topos de gama" de vidros fumados não deambulam tanto.

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As polícias que se lixem! Viva a ETA!

por Robinson Kanes, em 17.09.20

 

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Créditos: Chema Barroso - https://www.madridiario.es/policias-y-guardias-civiles-protestan-en-el-congreso-por-el-pesame-de-sanchez-a-un-etarra

 

 

O pior das humilhações  é que fazem quem as sofre sentir-se  culpado.

Javier Cercas, in "As Leis da Fronteira".

 

Espanha vive tempos conturbados, à semelhança de Portugal, onde a extrema-esquerda com a conivência do centro-esquerda impõe a agenda atropelando muitos dos valores mais básicos. Parece subsistir, numa base diária, um claro exemplo para demonstrar o cataclismo político e social para onde algumas áreas caminham. Acresce a este facto, uma direita fraca e uma extrema-direita em franca ascenção - não incluo o VOX neste rótulo de extrema-direita, ao contrário do que muitos tentaram fazer sem sucesso.

 

A mais recente, e permitam-me a expressão, escandaleira, foi protagonizada pelo Primeiro Ministro Pedro Sánchez que veio a público e com toda a solenidade prestar as suas condolências e grande pesar pelo suícido de um Euskadi Ta Askatasuna (ETA) na prisão onde se encontrava a cumprir pena. Num país que, nos tempos actuais, precisa de estar mais unido que nunca, ver um chefe de Governo a assumir esta posição face a um violento separatista é, no mínimo, rocambolesco e sem qualquer sentido de Estado. Fazer ressurgir feridas ainda mal fechadas de um passado muito recente não é próprio de um Governo e atentará até contra a própria Constituição e unidade de Espanha.

 

Por certo, a pressão de Iglesias, alguém que acredita piamente que irá conquistar o poder e transformar Espanha num campo de batalha emergindo como um totalitarista travestido de suino orwelliano, terá tido os seus efeitos. Iglesias, contudo, à semelhança daqueles que lutaram na Guerra Civil espanhola, não tem ideais e não procura a paz entre os seus concidadãos apenas a vontade em se assumir como uma espécie de Demiurgo com tiques estalinistas.

 

No entanto, em Espanha, o povo e as próprias polícias não vão no discurso da serenidade (e até algo totalitarista), encetado por muitos dirigentes e que sai sempre da cartola, sobretudo do nosso Presidente da República, nomeadamente quando as coisas podem correr mal. Foi neste contexto que todo um povo e especialmente os agentes da ordem, particularmente a Guardia Civil e o Corpo Nacional de Polícia, mostraram o seu descontentamento, colocando inclusive, no Palácio das Cortes, um sem número de urnas encenando os funerais dos agentes da autoridade mortos pela ETA, que cometeram suícido ou que foram mortos no cumprimento do dever nunca tendo merecido qualquer palavra deste e de muitos governos espanhóis. Acresce aos factos, um pouco à semelhança do que também acontece por cá, a irresponsabilidade de ainda não se ter desenvolvido um programa de prevenção do suicídio nas forças de autoridade e que em Espanha é um dos principais cavalos de batalha destas.

 

É é trazendo a discussão para Portugal, que é notório que temos assistido a selfies tiradas pelas mais altas individualidades do Estado junto dos heróis que apedrejam ou disparam sobre a polícia ou então que simplesmente desprezam toda e qualquer indicação das autoridades. Pensar que ter os militares na mão, sobretudo mantendo incompreensíveis regalias, é a solução para se manter um Estado em paz e sob controlo, pode ser um erro crasso no longo prazo, até porque, não vivemos no país "orgulhosamente só" que em muita alta esfera política, sobretudo aquela que adora mergulhos no mar, ainda causa saudade.

 

E se, à semelhança do que vai sendo sublinhado por muitos, o discurso que acabei de ter é populista, aliás, como o próprio combate à corrupção, então é com muito orgulho que o sou. 

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Sardinhas com libretto dos tempos modernos...

por Robinson Kanes, em 15.09.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje é dia de andarmos pelo SardinhaSemLata... Decidimos escrever um libretto enquanto se devoram algumas sardinhas, sardinhas essas, que ainda pingam no pão. Acompanhe-se com "vinho tostão" e temos o manjar perfeito para uma pós-modernidade, eventualmente imperfeita. É só seguirem-nos aqui.

 

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Il Gattopardo... Il Robinsonpardo...

por Robinson Kanes, em 11.09.20

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Imagem: https://www.pinterest.pt/classical826/il-gattopardo/

 

Foi na quarta-feira que tive a oportunidade de rever o filme baseado na obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Il Gattopardo". Mais um filme de se lhe tirar o chapéu do mestre Visconti (sem esquecer a banda sonora de outro mestre: Nino Rota). Com o Nimas totalmente ocupado, respeitando o devido distanciamento, aquele momento foi mais um daqueles em que viajamos pela Itália profunda e pela Sicília, terra apreciada pelos cineastas italianos e também berço de muitos. 

 

Em relação à película, estar vivo e não ter visto a mesma, é como já ter morrido. Com efeito, agora com outra maturidade, recordo as palavras de Fabrizío (interpretado pelo magnifíco Burt Lancaster), aquando da sua visão da Sicília: “I siciliani non vorranno mai migliorare per la semplice ragione che credono di essere perfetti; la loro vanità è più forte della loro miseria.”.

 

Por momentos, senti a pele e a alma a envelhecerem-me, a tomarem conta de um aspecto ainda jovem em mim e a tornarem-me desencantado por uma nação, tal como o Princípe de Salina. Nesta espécie de exaltação e de show, de ineptas personagens aos pulos em busca de, sento-me num chesterfield, algures no Palazzo Valguarnera Gangi, e partilho da desilusão daquele nobre que afinal, antes de tudo e todos, percebeu que a saída de uns e a entrada de outros, só permitiu mudar algumas personagens e conceder algum poder a - mas na realidade, tudo ficou na mesma. Até mesmo o Conde de Tancredi, aquele que lutou a favor de Garibaldi e "desonrou" a nobreza se deixou levar pela não mudança. Também aqui vi Portugal, vi até parte da minha Espanha e de facto, reconheci que para evitar a contaminação dos deuses que preferem a apatia e o provincianismo da sua mentalidade, sair aos 20 anos do rectângulo já é sair tarde, pois algumas crostas entretanto se formam e podem dificultar o processo.

 

Talvez tenha ganho maturidade (e aqui tenho sérias dúvidas, não chego lá tão cedo) e esteja em crer que, como dirão os psicólogos clinícos, o paciente tem de ser o primeiro a querer a cura da sua perturbação - talvez tenha de me convencer nisso e desistir do doente. Talvez assista ao baile, talvez não... Talvez troque a casaca real pela casaca de Garibaldi e continue a lutar e a acreditar mesmo quando a ataraxia está por todo o lado, ou talvez queira estar sozinho a percorrer um qualquer quelho em Palermo, pois desejando, como um certo Lobo de Hesse, "música em vez de chinfrim, felicidade em vez de divertimento, alma em vez de dinheiro e verdadeiro trabalho em vez de bulício, paixão em vez de brincadeira", por certo, não é nestas fronteiras que encontrarei o meu lar. Talvez em Céfalu, aquele lugar junto ao mar onde nos esperarão os nossos amigos romanos, uma bela salada ao pequeno-almoço e um dos mais belos "tramontos" do Mundo. Talvez em Palermo ou mesmo em Bagheria sentados numa qualquer esplanada do Corso Italia... Talvez por aí...

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Sentido de Oportunidade!

por Robinson Kanes, em 10.09.20

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Créditos: Eroi in Divisa

 

É importante iniciar este texto sublinhando que a violência policial não é um facto inexistente, e como tal, deve merecer a nossa atenção. Penso que aqui a opinião é unânime. 

 

Com efeito, não têm sido raros os casos em que assistimos a uma mediatização excessiva e ao nascimento de novos heróis (e não são as vítimas) alicerçados numa retórica de luta contra o poder onde a polícia, por incrível que pareça, surge como um dos elos mais fracos. Pelos jornais, pela política e até por um certo humor altamente parcializado (algo que em Portugal é já uma instituição) e inclusive pelo anormal poder dos comentadores, vai sendo criada a ideia de que é uma prática diária.

 

Bater nas polícias, especialmente nas polícias nacionais e não militarizadas tem sido uma prática comum nos últimos tempos. Não censuro que se faça em relação a casos justificáveis, mas tenho de assumir algum espanto com a descontextualização e distorção dos factos, o não entendimento do contexto e a provocação em off seguida de filmagens em on

 

Como as armas são um meio de defesa mas ao mesmo tempo, na mão de humanos imbecis, podem ser um meio de ataque, também os telemóveis podem ser uma arma de ataque letal. Numa sociedade aberta onde alegadamente as aulas de cidadania podem servir para abrir horizontes, estimular o empowerment e o espírito critico, talvez não estejamos a fazer o nosso papel fundamental que é promover todos esses aspectos e com visíveis consequências na avaliação e participação dos cidadãos na vida pública. Possivelmente, nessa sociedade, muitos dos jornais e televisões actuais teriam de fechar portas devido às parcas audiências, não obstante, o país e o mundo teriam muito mais a ganhar e com toda a certeza os extremos seriam menos.

 

No final de contas, não deve existir nada mais humilhante, sobretudo quando as coisas ficam mais complicadas, que é requerermos a protecção daqueles a quem quotidianamente aplicamos a nossa "soma zero".

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A pensar Istambul...

por Robinson Kanes, em 08.09.20

istambul (1).jpgImagem: Robinson Kanes

 

Hoje é terça-feira, é dia de andarmos pelo SardinhaSemLata... Atravessamos o Bósforo e pensamos a cidade... Podem encontrar-nos aqui.

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