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141984225_10158178486731867_4966213057139066488_o.Créditos: https://www.elmundo.es/ - @taverinez

 

 

A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa futura ou passada, sobre a qual não é possível ter certezas.

António Damásio, in "Ao Encontro de Espinosa"

 

Parece que o Mundo nunca esteve tão mal... De facto, os tempos não são bons, mas não é pior momento da Humanidade e muito do caos não é obra do ocaso mas das nossas escolhas. O anunciado "fim dos tempos" com o SARS-CoV 2 leva ao pânico quase global. Estranhamente com tantas guerras, doenças e miséria que continuam e "sempre" estiveram aí não tenhamos entrado em pânico. Dá que pensar... Dá que pensar...

 

Mas enquanto a lógica vigente de que tudo é mau continua a ter lugar, existem os pessimistas optimistas que não perdem a esperança apesar de dispararem em todas as direcções. E é nesse optimismo que partilho algo que num país como Portugal importa pouco neste momento (triste sina) mas que é uma conquista única em termos de ciência! 

 

Foi na Ruhr-Universität de Bochum, Alemanha, que um conjunto de investigadores conseguiu um genial feito, e até hoje impossível em mamíferos, ao conseguirem que ratos com lesões ao nível da medula espinal voltassem a andar! Isto significa uma esperança enorme para tantos acidentados pelo mundo fora! 

 

Por intermédio da injecção de uma proteína no cérebro (hiprinterleucina-6), estes investigadores conseguiram provocar um estímulo nas células nervosas ao ponto destas se regenerar em. Está proteina espalha-se igualmente pelo cérebro conseguindo um efeito nunca alcançado até hoje. 

 

O passo seguinte serão os mamíferos de maior dimensão, todavia, e embora ainda possa levar décadas para termos resultados mais concretos, é uma conquista única para a Humanidade e sobretudo para os apaixonados das neurociências!

 

Neste mundo actual, onde após o "vai ficar tudo bem" parece ter dado lugar ao "vai ficar tudo péssimo" - como se palmas e clichés nos procurassem enganar e pensar que tudo passava em semanas - ainda vão existindo muitas coisas boas e muitas vidas a serem salvas, seja agora... Seja num futuro que parecemos não querer encarar e muito menos preservar.

 

É segunda-feira... E para os que se recusarem a estar em casa a ouvir, a ler e a visualizar uma quase lavagem cerebral (afinal, para muitos que pedem que fiquemos em casa no sofá não há nada melhor que um confinamento para aumentar audiências e likes) sempre existem boas notícias por esse mundo fora, ou até neste nosso pequeno bairro...

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EjkKZD9WoAA-Ci9.jpegCréditos: https://twitter.com/FAOYemen/status/1313092618126077954/photo/1

 

A 06 de Outubro, há pouco mais de um mês, recebia a notícia de que no Iémen a vacinação destinada a animais foi terminada devido à falta de financiamento por parte dos membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e por privados. Os mais antropocentricos pensarão porque é que a vacinação de animais tem de ser uma prioridade, mas vejamos...

 

No Iémen, cerca de 3,2 milhões de indivíduos (215 mil famílias sensivelmente) vivem da pecuária, quer em termos alimentares quer em termos de geração de income. A existência de vacinas e consequentemente a vacinação dos animais elimina a montante muitos problemas cuja resolução poderá ser mais complexa...e cara - ainda hoje a ONU afirmou que vai disponibilizar 100 milhões para combater a fome em 7 países. O Iémen está incluído, país onde 24 milhões de pessoas dependem da assistência humanitária - 24 Milhões! A população total roça os 29 milhões.

 

Vacinar estes animais é dinamizar a economia, é alimentar seres-humanos, é permitir que muitos se possam ocupar com uma actividade, sustentar a família e acima de tudo é um alívio para o Estado e para os financiadores de um país completamente devastado por um guerra civil desde 2011 aquando dos ecos da Primavera Árabe que depôs Ali Abdullah Saleh e colocou no poder Abdrabbuh Mansour Hadi. 

 

Além da corrupção, da Al-Qaeda, da insegurança alimentar e de movimentos separatistas, a gota de água foi o movimento huti que, sendo xiita e defendendo  os xiitas zaidi procurou tomar o controlo da Província de Saada. O apoio, inesperadado, de muitos sunitas a Hadi, levou à escalada da violência, ao exílio deste e a uma das mais sangrentas guerras da década - ainda tenho na memória a emboscada a centenas de soldados sauditas decepados pelos rebeldes e que não terá passado em Portugal. A hipotética ameaça da influência do Irão (xiita) levou a que a Arábia Saudita se envolvesse directamente na guerra com mais oito países árabes e ainda com o apoio logístico de países como os Estados Unidos (O nobel da paz e presidente em 2015, Barack Obama autorizou o apoio e internamente foi acusado de participar na catástrofe), Reino Unido, o pacífico Canadá e França. A ira árabe que também afecta o último país tem muito que se lhe diga, embora nada justifique as atrocidades cometidas.

 

Agora, com o fim do apoio directo à população, sobretudo numa forma de empowerment - a melhor forma de combater a miséria sendo que a caridade só a fomenta - assitimos à escalada daquela que já é uma das maiores catástrofes humanitárias do século. Em termos de má-nutrição e a título de exemplo, a Food & Agriculture Organization of the United Nations (FAO), a 27 de Outubro deste ano, dava conta do maior número de casos de nutrição registados naquele país em crianças abaixo dos cinco anos... Um aumento de 10% em relação a 2019 o que equivale a cerca de 98 000 crianças em risco de morrerem devido à má-nutrição. Em termos de Má-nutrição Severa/Severe Acute Malnutrition (SAM), a percentagem aumentou em 15.5%. Em suma, uma em cada cinco crianças corre o risco de morrer por má nutrição, sendo que em algumas provincias o número pode ser duas e até três em cada cinco.

 

O Iémen, apesar do desinteresse de quase todos, é um país importante para a estabilidade regional (se tivermos em conta que a Síria é outro foco de tensão) e arrisca-se a ser um pólo logístico da Al-Qaeda e com alcance mundial. Também é pelo estreito de Bab al-Mandab que passam muitos dos navios petroleiros do Mundo, e isto também tem que se lhe diga.

 

Em relação às vacinas para o gado, o reinício do programa implicará agora um custo de 3 milhões de dólares. Se tivermos em conta que países como Portugal gastaram milhões na aquisição de medicamentos que não têm qualquer efeito (e foram alertados para isso) contra o SARS CoV-2, dará que pensar... 

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Resposta a Gustavo Carona...

por Robinson Kanes, em 30.10.20

O pior das humilhações é que fazem quem as sofre sentir-se culpado

Javier Cercas, in "As Leis da Fronteira"

 

Caro Gustavo,

 

Não tenho dúvidas de que será um médico intensivista de topo e estou certo que se necessitasse dos seus cuidados estaria nas melhores mãos. No entanto, e talvez pela exposição pública que foi adquirindo, até porque escrever uns livros e tirar umas fotografias com uns pretinhos passa sempre a mensagem de que somos uns heróis, gente de bem e com talento, deve ter achado que poderia ser um embaixador da classe médica em Portugal, uma espécie de Buescu da medicina.

 

Não obstante, a última campanha mediática que tentou fazer passar, peca por ser tardia, nomeadamente em termos de impacte. Vir afirmar a sua exaustão, dizer às pessoas para ficarem em casa (só falta a fotografia deitado no teclado) já não tem o eco que teve em tempos. Se olhar para países como Itália, Espanha, Bélgica, Alemanha e França, essa partilha já tem mais consequências negativas que positivas - chegou tarde. Além disso, esse discurso (errado) passa a imagem de que até hoje a classe médica (e não só médica) levava uma vida tranquila, o que não é verdade e se quiser exemplos disso também lhos posso dar. Estar exausto é mais do que comum em tantas outras profissões onde não existem corporativismos, salários garantidos ao fim do mês e pagamento de horas extraordinárias ao fim de somente 35 horas de trabalho. Muitos gostariam de escrever livros e colocar licenças para tirar fotografias com os pretinhos, mas andam exaustos todos os dias do ano, todas as épocas, com ou sem vírus.

 

Também me espanta ver um médico a chamar imbecis e anormais a "negacionistas", "relativistas" e todos os outros que não colocam o SARS-CoV-2 como a doença que nos matará a todos. A título de exemplo, passar a mensagem de que o pneumologista descarrega toda a sua fúria no doente que fuma, parece-me contraproducente. Também para um médico, não me parece a melhor forma de criar empatia e abordar os potenciais pacientes. Eu entendo que explorar o mediatismo e entrar no rol dos grandes heróis nacionais contra o vírus pode levar a estes excessos, mas... Em suma, se alguma vez geriu uma equipa, sabe que não é a chamar imbecis e anormais aos seus que vai conseguir resultados, espero que não o faça quando anda por outras paragens em missões "humanitárias"... Lembre-se também que são esses imbecis e anormais que necessitam de cuidados médicos mas que por seu turno os pagam por intermédio dos seus impostos e do seu trabalho e são esses indivíduos que não são mais excepcionais que o resto de nós que fornecem exemplos impressionantes dos nossos momentos mais sublimes como seres humanos, como tão bem descreve Sapolsky. E, pela sua experiência, sabe que se não existir economia em funcionamento, também não existem impostos que paguem a um médico.

 

Aproveito também para o recordar, até porque também colabora(ou) com os Médicos sem Fronteiras, que a saúde-mental e o bem-estar também são saúde, algo que o Gustavo parece ignorar. Antes da especialidade, terá com toda a certeza abordado esta temática na sua formação, talvez uma reciclagem possa ajudar. Isso e gestão de pânico e catástrofes... Lembro-lhe que a política é importante, tem uma vísão holística que ouve todos os lados (ou deveria) e toma decisões de acordo. Por muito que não goste de como a política por vezes é gerida, esperemos que nunca a decisão e gestão perante uma catástrofe passe por uma única entidade/corporação, lamento desapontá-lo. Aliás, como eu, deve saber que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) é uma organização política e não médica que quer comparar a actuação contra o vírus na Europa e não só com a actuação localizada contra o ébola numa determinada região africana.

 

Deixe-me também dizer-lhe que me espanta, e até poderá ter as suas razões, que no dia 18 de Setembro de 2020, defenda eventos de massas como o Avante e outras manifestações similares e aponte que o risco maior se encontra nas pequenas reuniões familiares. Ainda hoje estamos à espera desses estudos. Espanta-me ainda mais que no dia de ontem, 29 de Outubro, surja de repente com um discurso ligeiramente diferente. Portanto, deixemos que as pessoas se juntem em eventos de massas mas ai daquele que ousar visitar a mãe! 

 

Lamento também desapontá-lo quando implicitamente nos diz que a ciência não se questiona e muito menos ela própria é aberta a toda e qualquer "novidade". Não sei em que meios se move, mas uma das coisas que faz a ciência avançar é a constante formulação de novas ideias e abanões ao status quo. Temo até que, se assim não fosse, a leucotomia pré-frontal, idealizada pelo seu colega Egas Moniz, ainda fosse uma prática corrente. A ciência é sempre aberta a novas ideias? Não precisarei de lhe responder... Até porque se assim fosse, não estávamos a confinar (pela primeira vez na História) pessoas saudáveis e a basear-nos em modelos aplicados no passado em contexto totalmente diferentes.

 

Utilizar um programa de televisão e o meio mediático que lhe permitiu ser mais conhecido do que propriamente a exercer o seu trabalho, não me parece de bom tom. É público que não nutro simpatia pela televisão em Portugal, mas adoptar um comportamento que até é cultural em Portugal de, e passo a expressão, de cuspir no prato onde se come é, no mínimo deselegante, sobretudo quando tornamos isso público, partilhamos os detalhes e utilizamos o acto como forma de auto-promoção. Tem passado demasiado tempo a fazer vídeos na internet, programas de rádio, artigos em todos os jornais e mais alguns, a aparecer na televisão e por certo menos tempo em contacto com pessoas. É feio e não lhe fica bem, e sim, com tudo isso para lá do trabalho que se exerce, acredito que fique exausto.

 

E como em tempo outro actor da saúde fez, Fernando Nobre, poupe-me o discurso da catástrofe lá fora, para defender as suas convicções. Não terei a sua experiência, mas também sei o que são pessoas a tombar sem assistência. Também sei o que é a fome, e também tenho fotografias ao lado dos pretinhos, ou melhor, tenho dos pretinhos apenas, os verdadeiros heróis no meio disto tudo. Sei, como não o faço em organizações onde a viagem, a comida e tudo o resto está incluído. Sai tudo do meu bolso, porque assim faço questão,inclusive quando estou longe e faço "donativos" pontuais. Com toda a certeza terá aproveitado o lucro das vendas dos seus livros para também o fazer...

 

Provavelmente este texto nunca lhe chegará, não sou propriamente conhecido na praça e no pouco que sou, e pelo que aqui escrevo, tenho mais inimigos que amigos além de que até o próprio texto vai contra o seu video que esta plataforma teve o gosto de partilhar. Também não chegará a todos aqueles que viram/leram o seu video "perturbador" e "catastrófico", mas espero sinceramente que outros cheguem para desmistificar este "show off".

 

Espero que cumpra bem o seu trabalho, exausto ou não e acima de tudo, sejamos positivos e tenhamos todos os cuidados sem parar o Mundo, isso é fundamental... O Gustavo, parece-me que está demasiado exaltado e em pânico e isso nunca é bom para gerir uma catástrofe.

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Alterações Climáticas? That's a fact Jack!

por Robinson Kanes, em 26.10.20

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Créditos: Frédéric Noy - Panos Pictures

 

Não são as grandes ideias que os outros tiveram, mas as pequenas coisas que só a ti te ocorrem.

Haruki Murakami, in "Sputnik Meu Amor"

 

Uma das situações que fez parar as alterações climáticas foi a temática do SARS-CoV-2, pelo menos é a ideia com que ficamos e onde já nem o publicitário "how dare you" de uma jovem sueca tem eco. Previsível, numa campanha que teria os dias contados pelo simples facto de não ter um plano a longo-prazo e procurar apenas um rápido impacte. 

 

No entanto, a realidade nem sempre é a que encontramos nas notícias e na verdade, com o "apoio" do Fórum Económico Mundial (FEM) foi possível aferir que talvez o actual vírus seja o menor dos nossos problemas, e como dizem os americanos "that's a fact Jack", vejamos:

 

Em 2030 (daqui a 9 anos, portanto), o degelo contiuará de tal forma que o nível do mar irá subir cerca de 20cm (US Global Change Research Program - USGCRP). Todos sabemos as consequências deste facto, sobretudo para países com costa oceânica. No Golfo do México já são actualmente 60cm (Center for Science Education) e ao qual se juntam as tempestades cada vez mais severas, bem como no Noroeste dos Estados Unidos, onde estas (desde Janeiro de 2020) já são mais de 25 (USGCRP).

 

Todavia, não é preciso viajar 9 anos no tempo para chegar à conclusão que, e ainda falando em águas oceânicas, 90% dos recifes de coral estão ameaçados e 60% em estado de ameaça grave (National Oceanic and Atmospheric Administration).

 

Viajemos para terra e encaremos o facto de que a redução da área arável já atirou 100 milhões de pessoas para a pobreza extrema (Banco Mundial). 100 milhões de novos pobres, coloquemos as coisas desta forma. Em terra também chegámos à conclusão que as mortes devido às alterações climáticas aumentam por ano em 250 000 (Organização Mundial de Saúde - OMS). Não são 250 000 mortes, mas mais 250 000! A OMS é a mesma organização que nos quis ver todos fechados em casa por causa do Coronavírus e ainda as mortes estavam bem longe deste número.

 

Neste contexto, países como o Bangladesh, Tailândia, Vietname e outros, continuam e continuarão a sofrer um aumento das tempestades e consequentes inundações que provocam migrações em massa (Climate Central). Todos sabemos como o aumento da capacidade de carga vai levar a que outros conflitos possam surgir, inclusive com países vizinhos. Se tivermos em conta que actualmente 140 milhões de pessoas já se encontram deslocadas devido à insegurança alimentar, falta de água e fenómenos extremos (Banco Mundial), podemos imaginar o futuro.

 

Também ainda não é necessário viajar mais uns anos para chegar à conclusão que 8% da população mundial sofreu no último ano uma redução na disponibilidade de água potável (Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC) e que o Ártico também já tira férias e no Verão fica sem gelo (Arctic Council) - o Ártico no Verão fica sem gelo, sublinho... Já falei em tempos da gravidade desta situação.

 

Mas viajemos agora 19 anos e vamos até 2040. 19 anos é já amanhã, pelo que é já amanhã também que o mundo irá superar o limite dos 1,5ºC de aumento de temperatura imposto pelo Acordo de Paris (IPCC). É uma espécie de diferença entre um bife mal passado e um bem passado. Mas podemos deixar a grelha e passar ao forno, pois em 2050 a previsão é de que 2000 milhões da população mundial sofra com temperaturas na ordem dos 60º durante mais de 10% do ano (The Future We Choose - Surviving the Climate Crisis por Christina Figueres e Tom Rivett-Carnac). Em suma, não iremos precisar de máscaras para nos proteger de vírus mas sim da poluição extrema.

 

Se uma das coisas que as previsões em relação às alterações climáticas nos têm mostrado é que muitas vezes falham... Falham porque o que está previsto para daqui a 100 anos pode acontecer já amanhã. E é por isso que as previsões para 2100 apontam já para uma subida da temperatura na ordem dos 4ºC, sobretudo nas latitudes mais a norte (IPCC). Não estamos a regular o esquentador, 4ºC é uma coisa demasiado séria e com consequências no nível do mar: só a título de exemplo, a Flórida passará a ser uma coisa do passado, os recifes de coral desaprecerão e as consequências ao nível da fauna e flora marinha serão mais que desastrosas (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization - UNESCO). No ar e em terra uma vasta maioria dos insectos terão desaparecido e além das consequências em vários outras áreas - também as colheitas sofrerão pela falta de polinização (Biological Conservation). Falar em cataclismo é pouco, deixemo-nos de palavras bonitas.

 

Palavras bonitas não poderão livrar ninguém da seca extrema que afectará 40% do planeta (Proceedings of the National Academy of Sciences - PNAS) e a título de exemplo significará que uma área equivalente ao Estado do Massachussets irá arder por ano nos Estados Unidos (United States Environmental Protection Agency - EPA) aliás, os recentes incêndios na Califórnia, no Colorado, na Autrália e na Sibéria já mostram essa triste realidade. E tão pouco se fala deles... Estranhamente.

 

E finalmente, porque até nos toca de forma séria, o sul de Portugal e Espanha estará transformado num autêntico deserto, provocando carências alimentares e falta de água de uma gravidade extrema (Science) e acrescento até as migrações que daí advirão. Mário Lino parecia estar certo quando nos dizia que bastava atravessar a ponte e chegar à margem sul para estar no deserto. Temo é que em pouco tempo baste atravessar o Mondego.

 

Mais do que estar fechados em casa, no shopping ou a pensarmos no nosso umbigo (com o coronavírus, o egoísmo tornou-se uma doença) é altura de pararmos para pensar,  de deixarmos de ser refractários à verdade e sensíveis apenas a estímulos artificiais sob pena de não nos sabermos governar, como escreveria Tagore. É tempo de termos ideias e acima de tudo exercermos a nossa cidadania.

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Sindemia ou Pandemia?

por Robinson Kanes, em 15.10.20

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Créditos:https://www.nationalheraldindia.com/national/by-2021-as-many-as-150-mn-people-likely-to-be-in-extreme-poverty-due-to-covid-19-world-bank /

 

Over coming  weeks - yes. In the long-term, probably not permanently, but other epidemics are certainly possible.

Eli Fenichel,  PhD, Professor Knobloch Family de Economia dos Recursos Naturais na "Yale School of the Environment". 

 

 

Emantilhados num ruído em torno do SARS Covid-19, começamos a questionar tudo aquilo que nos chega ou simplesmente a ignorar.  No entanto, um artigo recente da publicação "The Lancet" e cujo conhecimento me chegou através da BBC, levantou-me alguma curiosidade acerca da forma como abordamos esta pandemia - mas será uma pandemia? 

 

Neste artigo, Richard Horton, que não é propriamente um Buescu, alicerçado em várias análises cientificas acaba por defender que mais do que analisarmos a pandemia à luz de modelos matemáticos com base em situações como a "gripe espanhola" ou focarmo-nos no corte das cadeias de transmissão e instrumentos "obsoletos" como as quarentenas, devemos encarar a actual realidade como uma sindemia. Aliás, Horton vai mais longe e alerta que uma potencial cura ou vacina pode não ser suficiente se não foram reunidos alguns pressupostos fundamentais.

 

Estes pressupostos passam, e começando na base, por abordar a pandemia como uma sindemia, ou seja, "deixamos de lado" o foco no corte das cadeias de transmissão e focamo-nos em algo mais global. Sindemia (sinergia + pandemia), e de forma simples, é a interacção de duas ou mais doenças que provocam danos ainda maiores do que a soma de ambas as doenças. Com isto, não quer dizer que uma das mais prestigiadas revistas de medicina do Mundo esteja a adoptar uma atitude negacionista face à pandemia, mas sim a desenvolver uma abordagem mais vasta (já com sucesso, nomeadamente em relação ao HIV e à obesidade) e que inclui além do factor biológico propriamente dito, as questões sociais, o meio-ambiente e a economia, por exemplo. Podemos perceber, por exemplo, porque é que Ayuso teve de proceder aos tão contestados confinamentos locais nos bairros mais pobres de Madrid. 

 

Na realidade, Horton não descobriu a pólvora ao afirmar que a incidência de óbitos ocorre em indivíduos em situação de fragilidade social, com parcos rendimentos, em territórios vulneráveis ou em ambientes poluídos. Acrescentaria também algumas patologias associadas a comportamentos mais comuns ao primero mundo, por exemplo, a diabetes. Isto é senso comum em relação a qualquer situação, mesmo apesar da doença e a morte serem as coisas mais democráticas que temos, como diria um conceituado professor do curso de Psicologia da Universidade de Coimbra.

 

O que me deixa intrigado com esta "não descoberta" (sem com isto lhe retirar importância, bem pelo contrário) é o facto de estarmos perante uma quimera, ou seja, a aposta na resolução de vários problemas de saúde e acesso à mesma no Mundo. A redução das desigualdades sociais, o acesso a cuidados de saúde básicos, o aumento do awareness em relação a determinados factores de risco, a redução dos níveis de poluição e tantas outras situações, são fundamentais para reduzir os óbitos por Covid-19.

 

Será que no meio da desgraça temos mais uma oportunidade de criar modelos que reduzam as desigualdades sociais? Será que a "não descoberta da pólvora" mostra-nos que vivemos num Mundo recheado de pandemias até mais graves do que aquela que enfrentamos?... Como se todas as outras tivessem entrado em hibernação... E será que num mundo mais egoísta saída da epidemia, haverá abertura para apoiar, nesta matéria, os países menos desenvolvidos?

 

Esta abordagem mais holística, poderá não ter efeitos imediatos, mas no futuro poderá ser um reforço importante em termos de combate a Covid-19 e a tantas outras doenças, todavia, entramos numa espécie de dilema, ao estilo "acabar com a fome no Mundo", e sabemos como isso é impossível. Todavia pode ser um passo importante, sobretudo se o pressuposto de que uma vacina pode não ser a solução final para este vírus.

 

Fica aqui o artigo completo (pdf) onde também poderão encontrar uma definição mais aprofundada do termo desenvolvido por Merril Singer e informação mais pormenorizada.

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A Economia e o nosso cérebro não usam máscara...

por Robinson Kanes, em 14.10.20

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Créditos: Mauro Biani (http://maurobiani.it/), La Repubblica - (https://www.repubblica.it/)

 

A História encarregar-se-á de nos mostrar se de facto, no primeiro semestre de 2020, cometemos um erro ao fazer a experiência falhada de frozen-unfrozen da economia mediante uma hipotética doença mortal; se cometemos um erro ao acreditar na teoria do pós-furacão em que durante e logo a seguir à tempestade a economia cai a pique mas rapidamente recupera; se, simplesmente, fomos demasiado precipitados e cometemos o maior suicídio colectivo da História ou ainda se fomos invadidos de pânico e não soubemos reagir. Aparentemente, outro cataclismo se segue que é a aceleração das mudanças climáticas e que já representa milhões de mortes anuais.

 

No entanto, já vai sendo tempo para se fazerem os primeiros balanços e rapidamente chegamos à conclusão que nem a previsão de uma pandemia de "gripe espanhola" com um número de óbitos a rondar os 70 milhões, conseguiria fazer cair tão drásticamente o Produto Interno Bruto (PIB) como poderá provocar o SARS-CoV-2. Segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) seria de 5% para a primeira situação e é actualmente de 8% para a segunda. "Uma crise como nenhuma outra, uma recuperação incerta" como lhe chamou a instituição em Junho num dos seus habituais "World Economic Outlook Reports". Em Outubro, já temos um FMI a trilhar um caminho mais árduo que o esperado, não estivessem os casos de COVID-19 a aumentar e muitas economias ainda a adiar o seu arranque - excepto a China que está a crescer como ninguém. Será pela ausência de casos? Será pelo total desrespeito pelos Direitos Humanos (alegadamente até a utilização de campos de concentração e mão-de-obra escrava) e ausência de uma protecção social? Será um Estado a funcionar na sua perfeição?

 

Todavia, não sendo economista, preocupa-me ver (e eu que tantas vezes sou atacado por defender os ricos) que muitos chamados ricos, vão ficando cada vez mais ricos e muitos pobres vão ficando cada vez mais pobres. O vírus até pode ser democrático, tão democrático que, aparentemente, até foge dos países mais totalitários, não obstante, os seus efeitos já não são tão democráticos. O que é que está a "falhar", para que os 1% continuem cada vez mais ricos? Capacidade de superação, reinvenção? E para os pobres estarem cada vez mais pobres? Não, deixem-se de arco-iris, não está nada tudo bem e, atentando ao caso português, não é com o Estado como principal agente económico que vai ficar, mesmo sendo o tecido produtivo algo imperfeito na sua maioria - bazuca das políticas sociais (também ainda ninguém percebeu quais são) não vai chegar a todos. Infelizmente, a gestão do problema também não será fácil, pois um Estado usurpador face a um grupo grande de empresários sedentos de fundos tende sempre a não correr bem e já é um problema crónico na Lusitânia. E ainda temos a questão do endividamente público e privado, outra bomba que fará Beirute parecer um petardo.

 

Como nos diz um recente artigo publicado no "The Economist" ("The peril and the promise") a verdade é que o mundo não está parado, e que a economia não estando a crescer como o desejado, também não ficou estática e está a tentar sobreviver acelerando a mudança em áreas como o comércio, a tecnologia, a finança e a política económica. Acrescentaria também as mudanças sociais, algo que tende a escapar, por vezes, a estes publicações. Na verdade, vejamos como já estamos mais familiarizados as novas tecnologias mais básicas (o retalho que o diga) e como temos de nos adaptar a cada momento à mudança (entendo que repetir a palavra mudança em Portugal é criar o meu próprio suicídio profissional, mas...), a novas formas de trabalhar, e não é com a crescente tendência de títulos pomposos, com especialistas em LinkedIn e criação de autênticos silos no mercado de trabalho que conseguiremos resultados. É com a capacidade de nos reinventarmos, de acolhermos novas metodologias, de estarmos preparados para perceber que existiu o antes e estamos no agora (e como isto é difícil de entender) e que ainda virá o depois. É de nos retratarmos quando em tempos alguém falava em "remote" e todos desprezavam, especialmente os adeptos do presentismo (a expressão presenteísmo é infeliz) e é também de olharmos para aqueles que em tempos (e ainda hoje) se sentam à nossa frente para falar de sustentabilidade, novas formas de abordagem ao trabalho e à sociedade e reconhecermos que pelo menos alguma percentagem de razão teriam... Mas não, ao invés disso, achamos tudo o máximo e fazemos (algumas organizações e colaboradores) questão de "parolamente" promover como se tivessemos descoberto a América, práticas e processos já amplamente implementados há décadas.

 

Se não estivermos preparados alguém estará, e não tem de ser em amargo sofrimento, mas também não é com discursos motivacionais sem fundamento ou vídeos do Sinek (embora o midlle management adore) que abraçaremos essa mudança. Muitos poderão, sobretudo em Portugal, não o sentir, as bazucas vão acalmando as hostes, mas o Mundo mudou, para o bem (e já dei alguns exemplos acima), mas também para o mal: conflitos da América do Sul até ao Mar da China a acentuarem-se, a extrema-direita em ascensão na Europa face a um declinío das instituições democráticas, da social democracia, da esquerda moderada e de uma esquerda da paz e dos cidadãos que se revelou um autêntico desastre e deixou muitos sem esperança quais animais enclausurados numa quinta.

 

Estamos perante guerras e conflitos que repentinamente "deixaram de existir" e tensões económicas e sociais que um mundo altamente globalizado não consegue controlar. Para o bem, temos know-how como nunca existiu na História, temos meios para enfrentar as dificuldades (se bem que o mundo não é nem nunca será perfeito), repetimos constantemente a palavra "solidariedade" (é só colocar a mesma em prática, e solidariedade não é esmola) e uma capacidade de escolher e tomarmos decisões em conjunto. O Mundo está a mudar e aqueles que ainda querem ficar à espera de uma vacina, como se isso fosse o antídoto para voltar ao antes, esses efectivamente que vão fazer turismo... Porque se a sua acção face às dificuldades é umas mais-valia, a sua inacção é um perigo que não devemos arriscar.

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