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Discurso do Pânico... Continuem que vão bem...

por Robinson Kanes, em 21.01.21

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Capa da edição do histórico Diário de Notícias de 21/01/2021 - que para isto, não precisava de ter voltado.

Imagem: Diário de Notícias

 

 

E quando se deixa de acreditar nas pessoas, o que é que fica a um homem?!... Pouca coisa e nada de bom... Uma noite danada dentro da gente, uma grande vontade de morrer quando o coração amacia e uma grande vontade de matar quando se pensa que viver é bom e são os outros que não deixam.

Alves Redol, in "A Barca dos Sete Lemes"

 

 

O caronismo e o buescismo vieram para ficar. Já não basta a situação delicada e temos uma nova imposição do pânico e do medo. Parabéns, algumas pseudo-celebridades, médicos sem ética e alguns meios de comunicação conseguiram... "Estamos" cheios de medo.

 

Em relação ao caronismo, faz-me espécie como é que um candidato a Dr. Oz português, que não olha a meios para alcançar o protagonismo, continua a ter destaque máximo nos meios de comunicação, mais do que outros médicos experientes e muito mais prudentes quando falam da situação actual. A apologia do medo e da desgraça, sobretudo vinda de um indivíduo que diz ter estado em cenários de guerra, faz-nos pensar se tal terá servido de alguma coisa: a última coisa que, num cenário de guerra ou de pandemia, devemos fazer é a apologia do pânico e do medo, pelo menos dentro das nossas fileiras... Alguém estudou mal a lição... A cegueira por meia dúzia de likes e futuras audiências não tem limites! Caronas e dokinnis deste país semeiam o pânico e o medo sem olhar às consequências do seu discurso. Também não entendo o que os chefes do serviço destes profissionais andam a fazer...

 

Homens, verdadeiros médicos como António Sarmento (apenas um exemplo), mostram que não devemos entrar neste estado de pânico, mesmo em entrevistas que, mais do que buscar informação, o jornalista (ou licenciado apenas em jornalismo e com faltas a todas as aulas) tenta por todos os meios fazer com que o especialista ceda ao discurso do pânico. Mesmo perante as investidas sem sucesso insiste em dramatizar uma situação que ainda não chegou a tal. Para isso, para o desastre, voltaram os matemáticos dos números lapalissados, a semear o terror ao anunciarem números como 16 000 casos numa semana quando na corrente já temos 12 000 e estamos numa curva ascendente. Brilhante, e pagamos milhões a indivíduos como estes para ensinarem...

 

Também não deixa de ser paradoxal ver o mundo das pseudo-celebridades a embarcarem no discurso do medo e a apregoar o internet shaming e o encerramento de todos em casa - não seria grave se isto não afectasse a saúde mental de muitos que lhes dão ouvidos. Estas estrelas cadentes são as mesmas que há uma semana contestavam o encerramento de espaços culturais mas devem ter chegado à conclusão que, na tentativa de aparecerem, nada como ter as pessoas fechadas em casa e adoptar o discurso do medo - assim não vão cair no esquecimento de facto, mesmo que um dia sejamos contra o panda do kung fu e no outro dia a favor, vive-se de likes e a realidade pouco importa. Ninguém é responsável, mesmo que tenham passado o verão em férias à grande (e não poucas vezes pagas por outrem) a ostentar o seu confinamento. Também ninguém é responsável por, aquando de um acidente de viação em período de proibição de circulação entre concelhos, que pelo que me vem à memória deve ter sido o único em Portugal nos últimos anos, muitos destes indivíduos terem tido vontade de tomar parte na desgraça e afinal se terem esquecido que em tempo de confinamento, a A1 era um desfile destas celebridades quando outros estavam fechados.

 

Voltámos também ao discurso da guerra. Só quem nunca esteve debaixo de fogo real em situação de conflito pode chamar a isto guerra. Não, isto não é uma guerra!  Mas pelo menos, já que andamos todos tão preocupados com a guerra e com a linha da frente, pode ser que seja desta que possamos dar valor aos ex-combatentes do ultramar que combateram numa guerra que nem sabiam muito bem para quê... Esses e os desertores que um certo Presidente da República que na altura já ambicionava estar à frente de uma ditadura, apelidou de cobardes e apátridas mas quando chegou a sua vez, como sempre enquanto era jovem, lá chorou junto do pai para fugir às picadas africanas... E é isto Presidente de uma Democracia... Ainda por estes dias alguém me dizia, vocês (europeus) não sabem aproveitar a paz, estiveram demasiado tempo sem guerra.

 

Sou critico do Governo de António Costa, mas é preciso muito para sentir que desta vez o nosso Primeiro-Ministro não é dos maiores culpados (sim, é o Robinson a escrever isto). Perante tantas decisões complexas, perante tantos especialistas que só querem dar nas vistas (não todos), perante um Presidente da República que se confunde com Primeiro-Ministro quando as coisas correm bem e cospe publicamente em António Costa quando as coisas correm mal, mesmo que tenha tomado parte (e influenciado até) nas decisões, é motivo para ter alguma compaixão. Pelo menos, com más decisões, não deixa de ser um estadista, já o outro... A história falará por si e de um dos maiores actores e youtubers (seja lá o que isso for) da sociedade portuguesa

 

Assassínios em massa? Alguém tem real noção do que significa (mesmo em termos legais) de acusar um Primeiro-Ministro deste tipo de crime? Será que, com todos os erros, ainda não percebemos que não é possível salvar toda a gente e os custos económicos e sociais de um confinamento geral serão fatais? Continuo a não defender confinamentos gerais, não pode ser... Porque é que muitos europeus, e sobretudo os portugueses não se convenceram que os riscos existem? Mas onde é que andaram com a cabeça, pelo menos alguns deles, para acreditar que a segurança é absoluta? É impossível salvar toda a gente se o vírus, seja ele qual for, atacar em força! Podemos mitigar, sim podemos mitigar, mas o risco existirá sempre... Em que raio de bolha andámos a viver estes anos todos? Em que raios de guerras andaram os caronas deste mundo, pois parece que andaram foi a jogar Risco ou a Operação e quando algo é a sério parecem tontos a correr de mãos no ar a gritar acudam!

 

Já se fazem contagens de mortos nos cantos dos ecrãs... Mas o que é isto? Já não há ética, já não há decoro e o jornalismo tende a ocupar mais campas que o SARS-CoV. Somos um Heinrich de Malraux a fazer render a situação, posto que a mesma já foi encontrada! Estamos a abrir precedentes perigosos...

 

E é nesse contexto que, mais do que a situação actual, dá-me medo o futuro neste país, porque isto é só o começo do que um futuro incerto nos reserva. E como diz o povo, continuem que vão bem...

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Sardinhas Chinesas à Capitólio...

por Robinson Kanes, em 12.01.21

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Créditos: https://me.me/i/epic-fail-in32-17268995

 

Hoje lá estamos, sem empurrões, no SardinhaSemLata... É só seguir por aqui.

Consta que, apesar do frio, existe muita sardinha maruja para degustar.

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"Por qué no te callas" Mário...

por Robinson Kanes, em 06.01.21

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Créditos: https://sol.sapo.pt/artigo/645257/vice-do-conselho-da-magistratura-critica-excessos-de-linguagem-nas-sentencas

 

Se o medíocre se associa ao medíocre,  a arte de imitar, só produz mediocridades.

Platão, in "República"

 

 

É incrível como é que a questão da adulteração de um CV para fazer passar um indivíduo num crivo de um concurso internacional gera tanta polémica em Portugal. Será que estamos a evoluir e agora ao invés de termos 90% da população adorar uma boa cunha, um favor ou a mentir sobre a experiência profissional, só temos 60%? Pior ainda quando a escolhida/preferida é outra pessoa que já não importa tanto por causa das apertadas "golas".

 

No entanto, como diria o saudoso Sabino Rui, não foi isso que me trouxe aqui. O que me traz aqui é um Secretário de Estado Adjunto da Justiça que diz o seguinte sobre alguém que descobriu mais um esquema que envergonha qualquer um: "Quanto ao facto de ter sido retirado do Portal da Justiça um comunicado, a razão é simples: a dignidade das instituições e a autoridade democrática do Estado não permitem que dirigentes demitidos usem plataformas e serviços públicos como se fossem quintas privadas.". Parece-me bem, aliás, espero que Mário Belo Morgado faça disso exemplo para toda a estrutura da administração pública e local e a partir de agora esteja atento. Temo é que tenha de criar uma Secretaria de Estado só para isso. Isto é proferido no Twitter por um juiz superior e que já foi Director Nacional da Polícia de Segurança Pública (sim, é verdade, não estamos no Laos, mas é verdade)... Que sentido de responsabilidade! A censura e a falta de vergonha já não têm m limites quando para se destruir e achincalhar ainda se cai numa cinca bem pior.

 

Mas quem é o Mário? Refiro-me a este cavalheiro como Mário porque tenho dúvidas se será juiz ou político profissional tal é o número de cargos que já ocupou e que me levanta dúvidas entre aquilo a que se chama separação de poderes. Também é de estranhar que em Portugal existam tantos juízes ligados à política, quer por intermédio de cargos ocupados na mesma quer por distribuição de "benesses" aqui e acolá. O artigo de Nuno Gonçalo Poças que um amigo teve oportunidade de me enviar ontem, reflecte bem este estado da arte e a própria conivência do mais alto magistrado da nação com estes verdadeiros esquemas: o candidato Sousa, o mesmo que há mais de 20 anos continua em campanha eleitoral (descontado os anos em que queria ser o sucessor de Marcello Caetano e seguir as pisadas do seu ídolo Salazar), e nem se apercebeu que havia ganho as presidenciais. As intrigas e o comportamento de mulher de soalheiro não conseguem esconder que também Marcelo é um homem do regime e foge a sete pés quando tem que ser o Presidente diferente que diz ser. Espanta-me também (ou talvez não) que tenha sido Nuno Gonçalo Poças a fazer uma pesquisa tão aprofundada (onde nem a Ministra da Justiça escapa) sobre esta teia e não um jornalista.

 

Mas de facto, o Mário é perito em dizer uma coisa e o seu contrário o que, para um juiz do Supremo Tribunal de Justiça, me faz pensar se tem estofo para a profissão que exerce. O Mário é o mesmo que defende abertura da justiça, que esta não deve ser secreta, mas depois gosta de mostrar tiques de censura no Twitter, sem esquecer que o secretismo em torno das actas do Estado de Emergência - para o Mário, estas não deveriam ser públicas. Mas voltemos às quintas, algo que o Mário parece não gostar, mas esquece que em 2018, emitiu um despacho como Vice-Presidente do Conselho Superior da Magistratura onde pedia para ser consultado pelos magistrados das suas intenções de adiar processos e leituras de sentenças. Esta situação não ocorreu propriamente no seguimento de um processo em que um os visados tinha roubado fruta de pomar alheio, sucedeu nos casos de Duarte Lima e dos Vistos Gold.

 

Finalmente, o Mário que parece ter mais estofo para estar agarrado ao poder do que para ser juiz, é aquele que não foi reeleito para o cargo que ocupava no Conselho Superior de Magistratura, e até eu consigo entender o porquê: quem passar pela página do instagram da candidatura do mesmo fica com ideia que a Justiça é um pouco como dizia o saudoso Jeroen Dijsselbloem acerca dos mediterrânicos: "mulheres e copos". Chego a pensar se o Conselho Superior da Magistratura, no entender do Mário é uma espécie de Gambrinus ou efectivamente uma Tasca do Careca, mas com pior aspecto. Além disso o Mário não dispensa aquele nacional contração espasmódica de sacar umas boas selfies nas cadeiras do avião.

 

Na verdade, acredito que, como referiu em tempos o Presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, "os juízes reprovam essa situação (justiça de mãos dadas com a política), não por constituir uma ilegalidade (...)mas porque pode levantar problemas de ética”. Custa-me, embora reconheça a legalidade, ver juízes em cargos de confiança política, sem que abdiquem para sempre da profissão. No meu entender de cidadão, de Democracia e princípio da Separação de Poderes, tem muito pouco e se a isso juntarmos as ligações que muitos também têm com o futebol, dará que pensar se vivemos efectivamente nessa Democracia em que julgamos estar. Afinal quando temos alguém que exerce o cargo de Ministra da Justiça toma posse como juíza do Supremo Tribunal é o reflexo do estado ultrajante e totalitarista a que chegámos... Se voltarmos bem lá para trás, muitos dos envolvidos na teia que Poças apresenta ainda são encontrados no caso Casa Pia e em alguns factos que envergonhariam qualquer Democracia... Roma pagava bem aos seus generais, e pelos vistos na Lusitânia também os pulhas pagam bem aos seus bandalhos.

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Adiós Viejito...

por Robinson Kanes, em 30.12.20

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Créditos: https://www.latercera.com/culto/2020/12/28/murio-armando-manzanero-tocado-por-la-mano-de-dios/

 

Aprendí que puede un beso
Ser más dulce y más profundo
Que puedo irme mañana mismo de este mundo
Las cosas buenas ya contigo las viví
Y Contigo aprendí
Que yo nací el día en que te conocí

Armando Manzanero, Contigo Aprendí (Excerto)

 

 

O ano acabou com mais uma perda. Talvez esta não seja digna dos holofotes que outros mais inúteis tiveram, mas na verdade, depois de ter sabido da notícia via ABC (Espanha), encontrei pequenas menções ao facto em Portugal, muito pequenas... mas encontrei, algumas delas com um bom delay.

 

Armando Manzanero, músico e compositor mexicano morreu aos 85 anos. Aquele ar simpático ainda jovem e que se prolongou durante a idade adulta até ao dia em que perdeu a vida. Manzanero não é propriamente o estilo de cantor que um europeu da minha idade pudesse escutar, todavia, cresci a ouvir o senhor, não fosse presença em casa dos meus pais. Tenho de admitir que muitas das suas músicas são verdadeiros hinos que ecoaram por toda a América do Sul e em Espanha onde é admirado ao nível dos melhores cantores e músicos daquele país.

 

Com Manzanero, senti que partiu mais um pouco da minha infância, que o meu cemitério teve mais uma campa e que já precisa de um certo alargamento. Penso que também se perdeu mais um verdadeiro músico, de músicas com conteúdo, de músicas imemoráveis, daquelas que ainda nos lembramos ao fim de um mês ou até mesmo depois de abandonarem as rádios ou redes sociais porque já esgotaram a paciência dos ouvintes ou sobretudo porque já ninguém paga para que as mesmas lá estejam...

 

É o fim de mais um romântico, de alguém que escrevia e percebia de música. É a magia intrínseca das suas baladas e uma entrega única que tem vindo, e agora mais, a ser interpretada também por tantos outros músicos. 

 

A morte de Manzanero foi anunciada com "Adoro", todavia, prefiro despedir-me deste cavalheiro com outras duas músicas, uma que me apaixonou já em idade para ter juízo e outra que muitas vezes escutei lá por casa. Começo com "Contigo Aprendí", uma das músicas que nunca esquecerei... e termino com "Nada Personal", um dueto com Lisset e que chegou a ser tema de uma novela... Ninguém é perfeito...

Armando Manzanero fará parte da banda sonora desta passagem de ano com toda a certeza... Desta e de tantas outras, porque afinal, não foi só Manzanero que morreu. Do México, resta-me agora uma das suas melhores vozes, a ainda muito jovem Natalie Lafourcade.

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Créditos: https://www.dailymail.co.uk/news/article-3137211/At-18-people-killed-knife-bomb-attack-Chinese-Muslims-police-checkpoint-atheist-government-bans-fasting-Ramadan.html

 

O homo sapiens não é feito para a luta, por isso, devia aprender a arte e a sabedoria da fuga, como as lebres e os veados. Mas ele adoro a luta e a guerra. Quem terá criado esta criatura tão estúpida.

Yoko Tawada, in "Memórias de um Urso Polar"

 

 

O título deste artigo deve ser a justificação para o facto dos Rohingya e dos Uigures terem passado um pouco ao lado dos nossos pensamentos natalícios. Na verdade, assistimos a uma crescente destruição dests grupo étnicos islâmicos não só em Myanmar como na China. Enquanto no primeiro país a perseguição é clara e não se faz grande segredo em torno de, no segundo, as coisas acontecem de outra forma, numa lógica do gulag educativo e bom para todos - onde é que já vimos isto. 

 

O final de 2020 não vai trazer a vacina para que esta perseguição cesse, aliás, a mesma tem atingido outra dimensão no Bangladesh, onde os Rohingya que procuraram abrigo nesse débil país enfrentam agora, depois do medo em Myanmar, a deportação para ilhas isoladas daquele território. O Governo do Bangladesh afirma que as deportações são executadas com o consentimento dos próprios, todavia, não faltam testemunhos pela internet e pelas redes sociais do contrário. Myanmar, por sua vez, continua a limpeza étnica e recusa-se a reconhecer a cidadania a esta minoria. De facto, continuamos a cair nos erros do passado e só a reconhecer genocídios quando os mesmos passam a escala dos milhões de mortos - se bem que alguns genocídios, sobretudo para alguns indivíduos e partidos a Ocidente, parecem ser mais que os outros mesmo que a dimensão tenha sido maior. Também é importante não deixar passar que muito deste ódio teve o "alto patrocínio" da rede social Facebook que muito tardiamente começou, de forma branda, a encerrar as páginas de incitamento ao ódio.

 

Já a China comunista, e diante de quem o Chefe de Estado Português se babou, continua a sua perseguição aos Uigures com o intuito de alterar toda a sua génese e inclusive eliminar a sua fé islâmica. Na verdade, muitos dos membros desta etnia estão a ser enviados para campos de concentração, gentilmente apelidados de campos de reeducação e onde se procura desprover todos estes indivíduos daquilo que os torna... humanos. O número de detidos não cessa de crescer e a construção de campos de concentração também não, além de que a loucura não tem limites quando alegadamente até crianças com meses são encarceradas nestes campos de inferno. Assiste-se a uma verdadeira eliminação civilizacional e identitária, o que já não é uma novidade.

 

As demonstrações de preocupação que nos chegam de muitos países fazem-se notar de forma muito leve, um pouco como assistimos em períodos horrorosos da História do século XX, e onde a preocupação não é mais que uma formalidade expressa num comunicado de imprensa para ficar bem nos meandros da geopolítica e das relações internacionais.

 

Vamos ficando com a sensação de que os anos vão passando e um dos mecanismos mais maravilhosos do ser-humano, a memória, tende a ficar desgastada e corroída pelo supérfluo e pelo esquecimento. Tenhamos coragem de ousar e de fazer ouvir a nossa voz, porque o caminho para o inferno, segundo Sapolsky, está pavimentado de racionalização. Apesar de termos a falsa ideia de que elegemos os nossos governantes para nos representarem, é importante que tenhamos noção de que podemos sempre ir mais longe e garantir que a sua governação está sobre o nosso jugo... Isto se tivermos algum interesse no que se passa em locais bem distantes, é um facto...

 

Para os portugueses que também tanto andaram preocupados com as eleições norte-americanas e com a eleição de Biden, que não se esqueçam de fazer o follow up à promessa de campanha em que o presidente eleito afirmou que aplicaria sanções económicas à China motivadas pela situação dos Uigures e com a repressão em Hong Kong.

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Aos que... Feliz Natal...

por Robinson Kanes, em 24.12.20

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Créditos: https://www.pinterest.pt/pin/74168725083507425/

 

O que mais importa não é o novo que se vê mas o que se vê de novo no que já tinhamos visto.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente V"

 

Aos que todos os dias perdem tempo precioso a ler os meus disparates...

Aos que só perdem esse tempo uma vez por outra...

Aos que só me acompanham por caridade e porque também os leio...

Aos que gostavam de me comentar mas não o fazem sabe-se lá porquê...

Aos que muito comentam...

Aos que me detestam e espumam da boca sempre que escrevo alguma coisa...

Aos que me enviam emails simpáticos...

Aos que me enviam emails menos simpáticos...

Aos que enviam emails menos simpáticos para que outros não me leiam...

Aos que exigem o fim do Não é que não Houvesse...

Aos que só me vão ler ao SardinhaSemLata...

Aos que me enviaram mensagens de Natal...

Aos que de vez em quando me dão um destaque...

Aos que apreciam cogumelos em lata... Sim, eu sei que é difícil ser vosso amigo... Pior só a amizade com alguém que ouve Pólo Norte...

Aos crentes e não crentes...

Aos que acham que Paulo Coelho, Augusto Cury ou Gustavo Santos são ciência...

Aos que confundem séries do Netflix com realidade...

Aos que gostam de Rabanadas Poveiras...

Aos que se interessam realmente por isto...

Aos que já me leram no WC...

Aos que já me leram sob efeito de estupefacientes...

Aos que já mostraram o Não é que não Houvesse aos avós...

Aos que choram a ver Cinema Paradiso...

Aos poetas, prosadores, leitores de livros ou simplesmente leitores de capas...

Aos que nunca têm coragem de dizer que este ou aquele artigo é muito fraco...

Aos que tiveram vontade de bater em Skármeta e Redford por matarem o Mario no "Il Postino"...

A todos aqueles que não sabem que tenho um espaço destes...

E finalmente... A todos aqueles "Salvatores" que, de uma forma ou de outra têm estado nesta caminhada que começou para durar umas semanas e....

... Spektakulär!

 

Feliz Natal!

 

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Forte de São Filipe... Um Retiro...

por Robinson Kanes, em 21.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Se me perguntarem qual um dos melhores spots em Portugal para passar um fim de tarde, não terei dúvidas em responder que esse lugar é o Forte de São Filipe em Setúbal.

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Foi pousada, esteve fechado e há poucos anos foi devolvido ao público. Estamos perante uma das melhores coisas que se fizeram em Setúbal nos últimos tempos. Durante um dia de semana, os finais de tarde, especialmente em dias quentes, adquirem uma sensação incomparável. Entre uma bebida e um passeio pelo espaço, é o local ideal para reflectir um pouco, para sofrer até e para contemplar o Sado, o Castelo de Palmela, a cidade de Setúbal e claro, Tróia e todo um oceano. A capela é também um espaço de obrigatória visita, aliás, das mais bonitas que podemos visitar no nosso país, o verdadeiro exemplo do small is beautiful.

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Entre um copo e boa companhia, Setúbal, lá em baixo, retoma o caminho do desenvolvimento a que tem sido exposto nos últimos anos. A cidade tem todo o potencial para se tornar uma das grandes urbes do país, sem esquecer o potencial turístico. Esperemos que assim continue.

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Gosto do forte, da esplanada e de tentar encontrar entre a serra, uma outra esplanada igualmente interessante em Palmela (um dia lá iremos). A bebida convida à conversa, a conversa convida à bebida e o tempo vai passando, partilham-se histórias e claro... bebe-se. Deixo, normalmente o moscatel roxo para segundo plano, é coisa que nunca falta em casa e deixo-me levar pelas ideias de quem está no bar. Tudo menos whisky, que na minha opinião em particular, é uma bebida péssima e bebe-se só para se dizer que se é importante. 

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Gosto do Forte, permite que o Pastor Alemão entre, e acreditem que este é uma verdadeira companhia para aqueles momentos em que temos de pensar, beber e tomar decisões. Embora tenha quase a certeza que o alsaciano prefere andar no meio da Arrábida do que propriamente a aturar as epifanias do companheiro humano.

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O vento tende, pontualmente a ser uma presença, mas neste espaço, entre folhas a voar, tout disparaîtra mais, mais le vent nous portera, como cantaram os Noir Désir. Maintenant le vent me portera para a saída... Entre abraços, sorrisos, patadas e gente boa, é hora de descer à cidade e quiçá terminar a tarde num dos excelentes restaurantes desta cidade...

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A Pandemia de Gates e dos Eternos Confinadores...

por Robinson Kanes, em 17.12.20

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Créditos: https://www.euractiv.com/section/coronavirus/news/italy-to-extend-coronavirus-lockdown-until-easter-as-new-cases-fall/

 

O sentido implica a proporção; os excessos pelo contrário, apenas causam dor e destruição.

Aristóteles, in "De Anima"

 

 

Não quero ser uma espécie de moderador entre uma CNN e uma Fox News, todavia, ao escutar ou ler as palavras de Bill Gates acerca da pandemia, existe sempre qualquer coisa que me deixa inquieto. 

 

Bill Gates foi alguém que desde o primeiro momento da pandemia se mostrou deveras preocupado com toda a situação e mostrando o maior empenho na resolução do problema. É um dos homens mais ricos do Mundo (e não é má pessoa), tem uma fundação (é o maior financiador independente na luta contra a Covid-19 com 650 milhões de dólares investidos) e tudo isto também é bom para o marketing da Microsoft, nada a apontar. Também estou perfeitamente de acordo quando Gates afirma que a pandemia deixou os países pobres num estado ainda mais pobre e que a pandemia não irá durar para sempre. Ao contrário de Gates, prefiro ser mais cauteloso em relação à normalização da mesma - Gates apontou há pouco tempo o Verão de 2021.  O multimilionário foi um dos críticos da política de Trump em relação à pandemia, tendo inclusive criticado a política de encerramento de fronteiras dos Estados Unidos com a China e a Europa que, segundo o mesmo, foi um desastre.

 

Todavia, Gates é o mesmo que defende um confinamento alargado (Bill Gates não é profissional de saúde) e que é fácil para alguém que fundou a Microsoft não ter problemas com lockdowns - em Outubro o revenue chegou aos 37.2 biliões de dólares nos resultados trimestrais (aumento de 12%). Nas últimas palavras aponta para algo até 6 meses, no mínimo. Digamos que até é bom, a Microsoft pode continuar a cortar nos custos e a vender mais software, numa clara adaptação aos novos tempos (desde que não forcemos demasiado os tempos). Gates também colocou nos Estados Unidos o ónus de suportar a pandemia para lá de 2022 até que os países mais pobres possam ficar estabilizados e até a própria economia mundial. Não quero, neste caso, pegar nas palavras muitos dos que defendem que se a China criou o vírus deveria também pagar os custos, mas é no mínimo caricato que o ónus esteja a ser colocado a Ocidente e seja quase um sacrilégio afirmar que a China merece uma investigação.

 

Não questionando Gates, até porque tenho o trabalho deste senhor em boa conta, é preciso recordar, e incluo muitos adeptos do "fique em casa até morrer", que é óptimo passar um confinamento quando estamos a ganhar dinheiro com a pandemia. Também é óptimo estar em confinamento quando a nossa casa ocupa um quarteirão, temos piscina e uma sala que parece um space shuttle. Também poderei falar daqueles que acreditam que o Estado tem recursos infinitos e que portanto o dinheiro nunca vai acabar. Estados paternalistas adoram, e cidadãos que esperam tudo do Estado também. Vamos continuando naquela que, em gstão de catástrofe, se chama a fase 1 de relief.

 

Finalmente, enquanto tomamos o pequeno-almoço de Natal aos conselhos do George Villiers português, continuamos a ignorar as consequências para a saúde mental e para a "saúde social" dos confinamentos (já sem falar na económica), porque não é preciso ser especialista em saúde pública para chegar à conclusão que saúde pública não é só Sars-Cov-2, é também todos os efeitos da doença. Na verdade, é apetecível que passemos as nossas vidas agarrados a videojogos, séries de televisão e a uma inundação de informação que ao invés de nos dar empowerment e espírito crítico, só nos faz sentir inteligentemente estúpidos, no entanto, o Homem (essa natureza em perigo como nos disse Behlen), a Saúde e o Mundo são muito mais que isso... 

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Erinnerungen an Berlin...

por Robinson Kanes, em 16.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Passam agora pouco mais de seis anos desde aqueles tempos em Berlim... Dei comigo a pensar naquela época e no pequeno Mercado de Natal na Alexanderplatz, bem pertinho do Sony Center. A noite que agora me vem à memória, colocava, no segundo, o lançamento na Europa de um dos grandes êxitos cinematográficos da época - um Harry Potter qualquer. Mas era no mercado que queria estar, uns minutos antes de jantar num restaurante que fazia umas massas na hora. Massas apetecíveis, sempre repleto de gente animada, contrastando com alguns restaurantes da área. Além disso, era mais barato e quando o dinheiro não é meu, não gosto de esbanjar, afinal tenho sempre de jantar e é orçamento do esforço de todos, além de que a minha estada era bastante longa...

 

Estreava na época um sobretudo que me ajudou a combater o frio de Berlim e acima de tudo a aguentar os passeios nocturnos perto do Marriott em Alexanderplatz. Do ir e vir até ao Reichstag, do piscar de olhos às embaixadas russas e americanas e como não poderia deixar de ser, entrar na noite com algumas passagens pela Friedrichstraße para me perder na "Dussmann Kulturkaufhaus" e escutar alguns amadores do piano a tentarem a sorte. Não poderei esquecer as fortunas que aí deixei em livros e CD (e excesso de bagagem). A obra completa de John Sebastian Bach da BachAkademie, dirigida por Helmuth Rilling e distribuída pela histórica Hänssler ainda hoje faz as delícias cá por casa. Desfrutava do Mundo, essa casa dos mortais como nos fez perceber Heidegger.

 

Alexanderplatz "era" uma área com uma pujança tremenda em termos de novas construções, modernos edifícios, confortáveis e abertos, sem esquecer um evento inesquecível numa estação de metro acabada de construir e onde, à boa maneira alemã, uma das áreas ficou em tosco, antecipando um aumento de tráfego no futuro. E como nada se desperdiça, um evento singular na estação de metro que ainda hoje recordo... Serviu de inspiração, contra tudo e contra todos, para realizar algo semelhante em Portugal e que foi um sucesso. Não foi algo muito falado, também não era essa a ideia.

 

Todavia, era ao fim do dia, entre as massas, o mercado e a boa companhia que gostava de estar. Era no percorrer as ruas vazias e austeras da cidade e de entrar naquele jardim densamente arborizado e escuro que se seguia às Portas de Brandemburgo, depois de ter percorrido a Unter den Linden, que gostava de me entregar a Berlim. Esses momentos só eram igualáveis ao pequeno-almoço no simpático restaurante do hotel com vista para a avenida e para os transeuntes que logo pela manhã se dirigiam para o trabalho. Local deveras interessante... Encantador e singelo, mas sedutor o suficiente para sentir a nova Berlim de tal forma que, sempre que possível, esse pequeno-almoço alongava-se por três ou mais quartos de hora. Nesta zona era difícil imaginar a Berlim de outros tempos, a única coisa que poderia almejar dada a minha idade. Todavia, a viagem de comboio de Schönefeld (entretanto encerrado) até ao centro aguçou-me a curiosidade: a escuridão das folhas das árvores, a lama, as valas com águas negras e uma imensa sensação de ainda estarmos do lado de lá do muro.

 

Tempo para um aparte, pois recordo-me que meti conversa com um suíço, de Zurique mas que residia em Berlim, ainda no aeroporto por causa do táxi. Acabei a acompanhá-lo no comboio. Falou-me que Berlim estava agora, em pleno século XXI, a modernizar-se muito por fruto das poupanças dos alemães ao longo do século XX e primeira década do novo milénio. Brinquei com Portugal que recebia milhões há muito, inclusive dos contribuintes alemães e teimava em não dar o salto. Riu-se, julgo, não tenho dúvidas que pensou que eu estava a brincar...

 

Foi numa dessas manhãs entre croissants e uns ovos que fiquei a reflectir no que me disse um alemão no dia anterior, depois de uma pergunta minha acerca da eficiência dos membros da sua equipa... "é muito simples, equipas motivadas, apaixonadas pelo trabalho e onde cada um sabe muito bem o que tem de fazer". É muito simples, de facto... Mas ao mesmo tempo, para alguns parece ser tão complexo, tão difícil e penoso de modo a que ninguém tente harmonizar o processo. Parece um pensamento para artigo de recursos humanos ou LinkedIn, mas se o fosse provavelmente seria apenas conversa e total inacção. 

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Na minha memória faz-se noite, volto ao mercado, faço umas compras mais locais e no centro comercial diante do mesmo, algo mais internacional. Bebo Gluwien, como os melhores lebkuchen da minha vida - e se algo desperta em mim o cookie monster, são as lebkuchen - e percebo que numa língua à época totalmente desconhecida, acabei por compreender muito daquilo que sou hoje e encontrar na frieza alemã um acolhimento singular... Das gargalhadas mais sinceras que já presenciei hoje foram aí mesmo... em Berlim...

 

Acabo esta noite a ouvir Severija, uma lituana com um bom alemão e que me deu a conhecer a banda sonora de "Babylon Berlin" com "Zu Asche Zu Staub"... Berlim traz-me boas memórias...

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António José Pinto Doce... Herói Nacional...

por Robinson Kanes, em 14.12.20

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Créditos: Polícia de Segurança Pública

 

Os grandes valores não se definem, como não se define uma simples dor de dentes.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente V"

 

 

António José Pinto Doce não é famoso, e ainda bem, temo até que hoje em dia isso seja uma virtude. António José Pinto Doce também não tem horas em televisão e não traz votos que justifiquem um folclore criado em torno do mesmo, apesar de não duvidar que o Estado Português lhe prestará a devida homenagem quer por intermédio da Polícia de Segurança Pública (que já o fez) quer por via do Ministério da Administração Interna e até outras instâncias maiores...

 

António José Pinto Doce é um herói nacional simplesmente por ser um cidadão comum... Por ser um Agente Principal colocado no Comando Distrital de Évora. Neste caso, não será preciso fazer storytelling, inventar-lhe dotes e arranjar figuras públicas que digam bem do mesmo. Bastará dizer que o Agente Principal Pinto Doce, fora de serviço, ao presenciar uma agressão de um indivíduo à sua companheira (inclusive o seu arrastamento para dentro de uma viatura) agiu de imediato e tentou terminar com o crime em curso... No entanto, o agressor entrou dentro do seu automóvel, colocou-se em fuga e atropelou este agente (fora de serviço) arrastando-o por 40 metros. O desfecho foi o pior possível, o Agente Principal Pinto Doce, de 45 anos, casado e pai de dois filhos, veio a falecer ontem não resistindo às lesões provocadas pelo atropelamento. O alegado homicida, já havia sido condenado por violência doméstica e é guarda prisional. Sim, isto é possível... Como é possível que se o desfecho fosse a morte do agressor muita tinta seria impressa, mas a grandeza de cidadãos e instituições também se vê pelo seu weltanschauung.

 

Admito que me toca sempre a morte de um polícia, sobretudo em tempos conturbados como este em que as autoridades parecem ser um alvo a abater. Admito que ainda me tocou mais por a 16 de Novembro ter também eu passado pelo mesmo enquanto evitava uma fuga de um local onde se deu um pequeno acidente de viação, a diferença é que eu estou aqui e consegui escapar ao atropelamento.

 

Temos de saber reconhecer os nossos heróis, mesmo os anónimos, até porque infelizmente esta é uma pátria que distribui condecorações e homenagens consoante o show mediático, as inclinações partidárias e os amigos lá de casa. Muitos destes heróis nos escapam, mas ao invés de andarmos tão atentos a artificialismos, talvez seja a hora de perceber que na nossa família poderá estar um ou até na porta do lado. E muitos desses heróis não precisam de morrer à mão de indivíduos que nem sempre pagam o verdadeiro preço do crime... Muitos desses heróis estão até nos pequenos gestos, naqueles que vemos na rua e passamos, sem selfies, porque o segredo desta espécie de random act of kindness é esse mesmo.

 

Para estes heróis não existem dias de "luto nacional" nem chamadas para televisão filmar, todavia, em cada um de nós deverá existir o reconhecimento de que são estes os exemplos do que é ser cidadão, do que é ser português, do que é ser humano. Os actos falam por si, sem construções, pelo que hoje qualquer português, mesmo sem institucionalismos estará de luto.

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