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Créditos:https://www.straitstimes.com/sport/football/football-pope-francis-remembers-fellow-argentine-maradona-affectionately-praying-for

 

 

A política do espectáculo oculta os problemas de fundo, substitui pelos programas o encontra da personalidade, embrutece a capacidade de raciocínio e de juízo em proveito das reacções emocionais e sentimentos irracionais de atracão e antipatia (...) os cidadãos são infantilizados, deixam de se envolver na vida pública, ficam alienados, a Democracia é desnaturada e pervertida.

Gilles Lipovetsky, in "O Império dao Efémero"

 

 

Como é interessante que Maradona tenha encontrado a morte no "Dia Internacional para a Violência contra as Mulheres" e também no mesmo dia em que morreu Fidel Castro. Estranha coincidência... Perdoem-me, todavia, que não alinhe na choradeira global, até porque nunca participaria numa festa de arromba com Pablo Escobar na "La Catedral".

 

Para mim, um jogador de futebol é um jogador de futebol... Como é qualquer outro profissional, mas entendo as emoções de alguns que assim ultrapassam o racional. É interessante, cómico até, que na actualidade, onde muitos escrevinham, gritam e se revoltam para combater a violência contra as mulheres, se tenham esquecido, precisamente neste dia, que Maradona foi alguém conhecido por, passo a expressão, arrear nas companheiras. Aqui está um exemplo...

 

O chorrilho de argumentos (incidindo nas drogas, o resto não é bom trazer para a praça) para desculpar o passado negro de Maradona chega a ser assustador. Os mesmos que chamam criminoso, desprezível ao vizinho do lado porque bateu com a porta do carro no nosso, são os mesmos que agora aplaudem a chegada de Maradona aos céus na metáfora da entrega da mão a Deus, são aqueles que agora estão tristes e revoltados... Querem revolta? Eu ajudo com um pequeno exemplo: revoltem-se com o facto de ainda não existirem responsáveis pelo que se passou em Pedrogão e no Centro do país onde mais de uma centena de compatriotas morreu por irresponsabilidade nossa - somos o Estado. 

 

Maradona defendeu regimes totalitários... Maradona, alegadamente, abusou de menores... Maradona agrediu companheiras... Maradona foi alguém viciado em drogas e álcool... E a lista poderia continuar! Até podemos compreender a questão das drogas e da bebida... Todavia, tenhamos essa compreensão com todos os que passam pelo dilema, o que nem sempre sucede.

 

Andamos todos a partilhar imagens, sons e letras contra tudo isto, mas de repente, aplaudimos estes heróis quando vivos e sobretudo quando mortos! Deitamos estátuas abaixo mas depois erguemos autênticas e colossais estruturas (mentais e físicas) a indivíduos como Maradona. Mas era um bom jogador de futebol! Lembrem-se disso quando um jogador seja lá do que for, ou um profissional de outra área vos agredir ou dormir com as vossas filhas menores. Afinal sempre pode alegar que é bom naquilo que faz! 

 

De repente, o hype da violência contra mulheres que muitos já tinham na ponta da língua para ficar bem nas redes e na sociedade, foi ultrapassado exactamente pelo seu contrário... Como hoje em dia mudam as prioridades e as convicções numa tentativa de dar às nossas paixões um lugar mais alto que à verdade, como defenderia Tagore... E também como defenderia o mesmo autor, isso é somente um grande sinal de servilismo.

 

Como afirmaria (citando um outro) um indivíduo que é pago a peso de ouro com os nossos impostos na televisão pública e com fama de não ser propriamente o mais simpático com os colaboradores, "se yo fuera Maradona, vivería como él"... Caro Carlos Daniel, Director-Adjunto da RTP, eu nunca viveria como Maradona... Não gostaria de tirar fotografias com meninas adolescentes a tocarem-me no pénis, não gostaria de bater na minha companheira, não gostaria de ser traficante e consumidor de drogas e nunca me passaria pela cabeça defender regimes totalitários... Se isso a si o fascina, está no seu direito. A mim, o que me fascina é o comportamento e podridão de muitos nesta sociedade tão evoluída mas também tão bafienta e hipócrita. Acredito, no entanto, que muitos dos que irão ler as suas palavras, não irão pagar a conta da electricidade/taxa audiovisual este mês e nos próximos!

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Somos Canárias! Somos España! Somos Europa!

por Robinson Kanes, em 20.11.20

Fonte: El Mundo

 

 

Members of the educated elite upheld open-mindedness as the supreme political virtue but refused to debate their own idea of the good life, perhaps because they suspected that it could not withstand exposure to more vigorous ideas.

Christopher Lasch, in "The True and Only Heaven: Progress and Its Critics"

 

Para fechar esta semana que, no embalo do "Dia Internacional para a Tolerância", procurei debater-me sobre alguns temas que envolvem o conceito e não só, acabo por aterrar em território europeu. 

 

Trago o discurso de Ana Oramas, representante da Coalición Canárias no parlamento espanhol, que esta semana desmascarou mais uma das, e passo a expressão, poucas vergonhas que assolam as fronteiras do território europeu e obviamente com grande influência nas ilhas Canárias, onde o desemprego atinge mais de metade da população. Contudo, quando os números incidem sobre o desemprego jovem, a realidade é ainda mais assustadora.

 

Ana Oramas enfrentou a actual coligação que governa Espanha alicerçada essencialmente no PSOE e no Unidas Podemos com um braço da Esquerda Republicana da Catalunha. Esta união tem levado Espanha a uma instabilidade económica, social, politíca e ideológica nunca antes vistas - e nesta avaliação ainda incluo o século XX.

 

Ana Oramas apresentou uma região completamente destruída pelo desemprego e pelas restrições causadas pela pandemia e exigiu ser espanhola. Mais que isso, ser europeia! A coligação da qual Ana Oramas faz parte, apesar de nacionalista, não tem cariz independentista, não obstante, procura mais autonomia para a região sem deixar de tomar parte na nação espanhola. A deputada questionou se seria necessário que as Canárias tivessem um movimento independentista forte para que Espanha e a Europa pudessem olhar para o território... Este é também mais um território tampão que tem sido utilizado pelo Governo Espanhol para despejar migrantes sem quaisquer condições - os últimos duzentos foram largados numa praça e foi um povo residente, já empobrecido e confinado, que saiu à rua e prestou auxílio aos recém-chegados. No mesmo momento, o Ministério de Fernando Grande-Marlaska Gómez, um arrogante no poder, basta ver como despreza os deputados na Moncloa, congratulava-se pela solidariedade espanhola (institucional) no apoio aos migrantes.

 

No final do seu discurso, Ana Oramas questionou se o ideal seria as Canárias pedirem apoio ao Magrebe ou ao Norte de África para verem a situação das ilhas resolvidas perante o "abandono" do continente. Este é um grito desesperado de ajuda, aqui bem perto, e que surge na mesma semana em que Marlaska Gómez visita Rabat e encontra um Pablo Iglesias insurgente a hostilizar com os países do Saara - o que já criou tensões muito fortes entre Marrocos e Espanha (ver o ABC ou o La Razón de 19 de Novembro). Este imiscuir constante em assuntos alheios (a cegueira ideológica de Iglesias e do Podemos não conhece limites) tem provocado graves danos internos e externos em Espanha. Marrocos, país soberano e moderado, já pediu contenção e ameaça não entrar em negociações se o Vice-Presidente autoritário do governo espanhol não sair de cena. 

 

Está a caminho da Europa (aliás, já existe) um problema que poderá ser bem pior que a pandemia e cujas parcas tentativas de resolução do mesmo na fonte estão a ser destruídas por tiranos travestidos de democratas libertadores atulados em esquemas de corrupção que tentam esconder com activismo bacoco e totalitarista.

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EjkKZD9WoAA-Ci9.jpegCréditos: https://twitter.com/FAOYemen/status/1313092618126077954/photo/1

 

A 06 de Outubro, há pouco mais de um mês, recebia a notícia de que no Iémen a vacinação destinada a animais foi terminada devido à falta de financiamento por parte dos membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e por privados. Os mais antropocentricos pensarão porque é que a vacinação de animais tem de ser uma prioridade, mas vejamos...

 

No Iémen, cerca de 3,2 milhões de indivíduos (215 mil famílias sensivelmente) vivem da pecuária, quer em termos alimentares quer em termos de geração de income. A existência de vacinas e consequentemente a vacinação dos animais elimina a montante muitos problemas cuja resolução poderá ser mais complexa...e cara - ainda hoje a ONU afirmou que vai disponibilizar 100 milhões para combater a fome em 7 países. O Iémen está incluído, país onde 24 milhões de pessoas dependem da assistência humanitária - 24 Milhões! A população total roça os 29 milhões.

 

Vacinar estes animais é dinamizar a economia, é alimentar seres-humanos, é permitir que muitos se possam ocupar com uma actividade, sustentar a família e acima de tudo é um alívio para o Estado e para os financiadores de um país completamente devastado por um guerra civil desde 2011 aquando dos ecos da Primavera Árabe que depôs Ali Abdullah Saleh e colocou no poder Abdrabbuh Mansour Hadi. 

 

Além da corrupção, da Al-Qaeda, da insegurança alimentar e de movimentos separatistas, a gota de água foi o movimento huti que, sendo xiita e defendendo  os xiitas zaidi procurou tomar o controlo da Província de Saada. O apoio, inesperadado, de muitos sunitas a Hadi, levou à escalada da violência, ao exílio deste e a uma das mais sangrentas guerras da década - ainda tenho na memória a emboscada a centenas de soldados sauditas decepados pelos rebeldes e que não terá passado em Portugal. A hipotética ameaça da influência do Irão (xiita) levou a que a Arábia Saudita se envolvesse directamente na guerra com mais oito países árabes e ainda com o apoio logístico de países como os Estados Unidos (O nobel da paz e presidente em 2015, Barack Obama autorizou o apoio e internamente foi acusado de participar na catástrofe), Reino Unido, o pacífico Canadá e França. A ira árabe que também afecta o último país tem muito que se lhe diga, embora nada justifique as atrocidades cometidas.

 

Agora, com o fim do apoio directo à população, sobretudo numa forma de empowerment - a melhor forma de combater a miséria sendo que a caridade só a fomenta - assitimos à escalada daquela que já é uma das maiores catástrofes humanitárias do século. Em termos de má-nutrição e a título de exemplo, a Food & Agriculture Organization of the United Nations (FAO), a 27 de Outubro deste ano, dava conta do maior número de casos de nutrição registados naquele país em crianças abaixo dos cinco anos... Um aumento de 10% em relação a 2019 o que equivale a cerca de 98 000 crianças em risco de morrerem devido à má-nutrição. Em termos de Má-nutrição Severa/Severe Acute Malnutrition (SAM), a percentagem aumentou em 15.5%. Em suma, uma em cada cinco crianças corre o risco de morrer por má nutrição, sendo que em algumas provincias o número pode ser duas e até três em cada cinco.

 

O Iémen, apesar do desinteresse de quase todos, é um país importante para a estabilidade regional (se tivermos em conta que a Síria é outro foco de tensão) e arrisca-se a ser um pólo logístico da Al-Qaeda e com alcance mundial. Também é pelo estreito de Bab al-Mandab que passam muitos dos navios petroleiros do Mundo, e isto também tem que se lhe diga.

 

Em relação às vacinas para o gado, o reinício do programa implicará agora um custo de 3 milhões de dólares. Se tivermos em conta que países como Portugal gastaram milhões na aquisição de medicamentos que não têm qualquer efeito (e foram alertados para isso) contra o SARS CoV-2, dará que pensar... 

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Por África no SardinhasSemLata...

por Robinson Kanes, em 17.11.20

aa15975145383_91e165d64f_k-768x539.jpgCréditos:https://thisisafrica.me/politics-and-society/7-civil-wars-africa-must-never-forget/

 

Hoje, como é habitual à terça-feira, estaremos no SardinhaSemLata a falar da África de hoje... Passem por lá, é só clicar aqui.

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No Dia da Tolerância: o Ruanda e o Hoje

por Robinson Kanes, em 16.11.20

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Créditos:http://it.cubadebate.cu/notizie/2019/06/07/come-i-mezzi-privati-possono-incitare-al-genocidio/

 

If we cannot end now our differences, at least we can help make the world safe for diversity

John F. Kennedy (Discurso proferido a 10 de Junho de 1963 na American University)

 

Hoje é o Dia Internacional para a Tolerância... Como muitos outros, passa sem darmos por ele, embora (e ainda bem), abordemos a ideia (e a maioria é só isso, a ideia) ao longo do ano. Não me vou debater nesse conceito mas em algo que nos poderá fazer reflectir, pelo menos neste dia.

 

Escolhi Félicien Kabuga! Muitos não saberão quem é este cavalheiro, temo que os mais novos, entre tantos outros não o escutem nas aulas de cidadania ou até de História. Félicien Kabuga foi um dos estrategas e financiador (dinheiro não lhe falta) do genocídio do Ruanda. De uma forma sumária, a tentativa de eliminação da face da terra da minoria tutsi (mais ligada à elite e ao convívio com os colonialistas) pela maioria hutu (85%). Muitos hutus também não escaparam por serem simplesmente contra o genocídio e qualquer forma de violência sobre os seus compatriotas, amigos e família. 

 

Um genocídio não tem início no dia em que se dispara o primeiro projéctil, como nos díria Vergílio Ferreira, é forçosa a existência de uma ideia para dar ao gatilho. E é aqui que me foco. Félicien Kabuga e tantos outros, durante anos incutiram via media, especialmente através da Radio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM) o ódio às baratas (como eram denominados os tutsis durante as emissões). Esse ódio extravasaria as ondas da rádio e da mente de muitos hutus a 7 de Abril 1994 depois do atentado contra o avião que transportava Juvenal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, presidentes do Ruanda e do Burundi, respectivamente. Era o início do massacre que vitimou cerca de 800 000 mil pessoas em apenas 100 dias.

 

Kabuga e muitos outros, onde se destaca também Valérie Bemeriki (detida em 1999 e condenada a prisão perpétua), moldaram as mentes de todos aqueles que tinham na RTLM a sua companhia diária e a sua fonte de informação. O Mundo, pela primeira vez, assistia a imagens de cidadãos comuns a deceparem em plena rua e com total impunidade os seus irmãos, algo que a mim me remete para o longínquo século XVI de Zimler e do "O Último Cabalista de Lisboa". A lavagem cerebral resultou na perfeição sendo que, para a história ficará como a primeira guerra civil em que numa das mãos se empunhava um rádio e na outra a catana ou até uma arma de fogo (aparentemente cedidas pelo exército e financiadas por Kabuga). 

 

Em pleno banho de sangue, e qual filme alucinado, era por esta rádio que se debitavam os nomes... Idealizem que vão no carro a ouvir a vossa rádio preferida, estão a viver os primeiros momentos de um genocídio e ainda nem estão bem a aceitar a decisão, e o vosso nome e talvez os nomes dos vossos familiares saem qual roda da sorte na rádio - a partir daqui, preparem-se para morrer à catanada!

 

O Mundo, e passo a expressão, assobiou para o lado: a Bélgica e ONU viram 10 soldados morrer e todo o sangue literalmente a escorrer pelas ruas mas não tiveram consentimento para intervir e até retiraram. Não obstante, os Estados Unidos, não queriam uma repetição de Mogadíscio em Kigali. Aparentemente, o Governo francês, aliado dos hutus, enviou tropas para a área mas limitou-se a proteger interesses franceses - aliás, essa questão ainda hoje é um foco de tensão entre França e Ruanda e uma mancha da governação de Mitterrand. A 3 de Julho de 2020, ainda em histeria pandémica, o Tribunal da Relação de Paris arquivou o caso em que 9 alegados ruandeses próximos de Paul Kagame, por sinal, o actual presidente no terceiro mandato de 7 anos, eram acusados das mortes de Habyarimana e Ntaryamira, . Ainda também em plena pandemia, cerca de um mês antes, os arquivos de Mitterrand sobre o Ruanda foram colocados à disposição de François Graner, um especialista que mesmo assim terá de conciliar a liberdade de investigação com os segredos de Estado. Macron parece empenhado em resolver esta questão, veremos se será uma realidade...

 

No Dia Internacional para a Tolerância, algumas lições retirei deste genocídio: a importância de cimentarmos relações profundas e de tolerância entre povos ou questões passadas e mal resolvidas; encarar o poder dos media (e incluo as redes sociais e quem as gere) como pilar fundamental da Democracia e da Liberdade mas também uma arma que pode destruir ambas -exemplos recentes não faltam, além de que tivemos ao dispor infinitas social experiments durante o período da pandemia e das eleições norte-americanas (para o bem e para o mal) - e finalmente exigir a verdade, sempre a verdade, porque por muito crua que possa ser também ele permite criar pontes que permitam essa tolerância. Aliás, ainda dentro do contexto do genocídio, a  Frente Patriótica Ruandesa (RPF), criada por rebeldes tutsi que fugiram do país e activa numa guerra civil desde 1990, ao entrar em Kigali, consta que terá assassinado dois milhões de hutus como gesto de vingança. Uma outra lição histórica e actual: os supostos libertadores nem sempre são melhores que os agressores.

 

Numa sociedade em constante polarização, podemos e devemos até questionar os limites da tolerância, não vivemos num mundo perfeito e seria utópico que isso não acontecesse, e os olhos de Bemeriki, numa recente entrevista à Al Jazeera, isso nos mostram. Não obstante, é nas bases deste valor nos seus múltiplos tentáculos que devemos inicar o diálogo e a discussão, sob pena de não termos uma repetição da História, sendo que, é essa mesma História que nos diz que quanto mais evoluímos, mais sangrentos vão sendo os conflitos.

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Respirar Saint-Germain-des-Prés e o Sena...

por Robinson Kanes, em 13.11.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Era Victor Hugo quem dizia que respirar Paris era das melhores coisas que se poderia fazer para cuidar da alma...

 

Pois assim é... Um dia preenchido pela frente, além de que os passeios junto ao Sena são sempre uma obrigatoriedade, mesmo enfrentando alguns indivíduos que deixam cair um anel, perguntam se é nosso e depois tentam vender-nos por um bom preço alegando que se trata de ouro. E assim foi, contudo, não tentando repetir o último que praticamente acabou em Créteil.

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Saint-Germain-des-Prés sempre ali presente, sempre com o seu habitual glamour que atravessa séculos e que nos traz de volta para romances, peças de teatro e composições únicas que nos transformam a cada viagem àquela cidade. Estranhamente, talvez por ter sido um dos meu primeiros contactos com Puccini, tenha sempre esperança de encontrar Mimi; Rodolfo; Marcello; Colline; Schaunnard e Musetta a deambular pelas ruas. Espero mesmo encontrá-los e poder juntar-me num qualquer café daquela zona e beber a Murger, Puccini; a "La Bohème" sem esquecer Illica e Giacosa. 

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Paris consegue ainda conservar muito daquilo que a torna para muitos a capital do Mundo. Atravessar o quarteirão das Universidades é deambular por muito do conhecimento que ainda hoje transforma o Mundo, é sentir o Maio de 68, sobretudo por quem nunca o viveu e só o conheceu nos livros de História e Política. O Maio de 68, que grandes e acesas conversas já permitiu ter num pequeno café, junto a uma praça perto da sede da UNESCO. É também por aqui, antes de chegarmos aos "Jardins de Luxembourg" que temos talvez umas das mais belas vistas (embora distante) da "Tour Eiffel".

 

O sol convida a que apreciemos este passeio, até os corpos aquecerem e refugiarmo-nos nas sombras ou no Panteão. Hesitamos... Voltamos lá? Continuamos, este Paris soalheiro não pode ser desperdiçado e temos falta de um almoço... Escolhemos um que nos recomendou um polícia (na ausência de camionistas, os polícias e os taxistas sabem sempre onde se come bem). Como não poderia deixar de ser, não ficámos mal, uns cogumelos, uma carne daquelas e um Bordeaux tinto. 

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Planeamos a tarde... O fim do dia será num banlieue fora de Paris. Um árabe "de Agrigento" que em tempos conhecemos em Orly e que ía para a Sicília convidou-nos para um jantar, pois encontrava-se na cidade para visitar a filha. Timing perfeito! E é neste planeamento que me lembro da "Église de Saint-Denys-du-Saint-Sacrement". Um tesouro escondido, pois é lá que se encontra uma pintura de, e façamos uma vénia, de Delacroix. A "Pietá" em todo o seu esplendor "Le Christ Descendu de la Croix" bem perto de uma sala também interessante a "Comédie Bastille" e de mais uma das surpresas "escondidas" de Paris, o "Musée Cognacq-Jay" onde descobrimos o "Banquete de Cléopatra" de Tiepolo.

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E caramba, como o sol em Paris pode queimar verdadeiramente, já não precisamos de Biarritz nem tão pouco de Saint-Tropez, Paris encarrega-se de nos queimar a pele...  É hora de partir, o Hassane está à nossa espera e ainda nos deixa tirar uma fotografia da lua, fora das luzes da cidade do Sena.

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Honfleur, uma cidade portuária

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

A pacata e firme Caen

Bayeux: uma jóia normanda

Normandia: um dia de homenagem

O Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, a cidade pirata

 

 

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Créditos: https://www.playficient.com/employee-onboarding-ideas/

 

O homem não empenha numa acção uma parte limitada de si mesmo; e quanto mais acção pretende ser total, mais a parte empenhada é diminuta. O senhor sabe que é difícil ser-se homem, sr. Scali, mais difícil do que julgam os políticos.

André Malraux, in "A Esperança"

 

Com tantos anos de extrema esquerda em Portugal e perante a alegada ameaça de um também alegado partido de extrema-direita em Portugal, surgiu um daqueles manifestos que alinhou nos hypes actuais - o hype é real, se os signatários estão na moda é outra coisa. Gente nova (?), onde encontramos o cidadão português representado em toda a sua plenitude e com grande histórico laboral nas mais variadas actividades que fazem andar um país! Gente fresca uma nova mentalidade! Portugal a dar passos de gigante... Aliás, só me consigo lembrar da Ndrangheta calabresa a criar um manifesto contra a Cosa Nostra siciliana... Chamei-lhe manifesto do "coiso" porque não percebi muito bem qual é o alcance nem o nome e muito menos onde está a apregoada clareza.

 

Foi por isso que criei o Movimento 7.9.1.2.a), inspirado no Movimento 5.7, mas com identidade, com rigor e que além de pontos também tem alíneas, tomem lá que estou mais à frente. E para dar início a este movimento decidi conhecer este manifesto que, como referi, é uma amostra real do português comum:

 

Adolfo Mesquita Nunes: este indivíduo não foi aquele cavalheiro que em tudo o que conquistava, o facto de ser gay era sempre a razão de? Também não é aquele que um dia quer ser presidente do CDS e fez uma pausa política para ir para a GALP sem saber ler nem escrever? É que com os resultados das últimas legislativas e com a ascensão do CHEGA é possível que o CDS desapareça do mapa, nada como ter um pé na GALP e um no Partido, assim não se perde tudo. 


Alexandre Homem Cristo: Um académico e colunista do Observador. Hum... Pois...

Ana Margarida Craveiro: espero que não seja a Directora de Comunicação de uma... Sociedade de Advogados? Ai é?

Ana Rita Bessa: O partido do táxi está prestes a tornar-se o partido da trotinete e não há cadeiras para ocupar na Assembleia da República. E até gosto desta senhora, traz classe e requinte ao Parlamento.

Ana Rodrigues Bidarra: não era uma senhora que escrevia umas coisas com um cavalheiro que também está na lista, até tinham um "Conselho de Estado"? Só conheço isto da mesma. 

André Abrantes Amaral: Ora, mais um advogado. Afinal somos o país das licenciaturas em Direito, convenhamos.

Bruno Alves: É o jogador da bola? Se for é caceteiro!

Bruno Vieira Amaral: Escritor, critíco literário e colunista. Pronto, é isto...

Carla Quevedo: Surge-me uma actriz argentina no google, não deve ser a mesma... Espero que seja uma jovem com novas ideias.

Carlos do Carmo Carapinha: um senhor fora do sistema, completamente original... Uma novidade nestas coisas, ou talvez não. Pelo menos é Director Administrativo, um homem do sector empresarial.

Carlos Guimarães Pinto: um cavalheiro fora do sistema... Espera, foi presidente do Iniciativa Liberal. 37 anos e académico... Mais um académico e "pouco" ligado à vida partidária.

Carlos Marques de Almeida: Mais um professor universitário. Sentido prático não vai faltar a este movimento pelo que estou a ver. Isto parece o Estudo Geral.

Cecília Carmo: Esta senhora não era a jornalista do desporto? Agora tem uma agência de comunicação. Malta jovem e original.

Diana Soller: Uma académica, política e funcionária do PSD. Gente nova, menos mal e sempre tem dois "l" no nome.

Diogo Belford Henriques: Membro do Conselho de Opinião da RTP nomeado pelo CDS. Conselho de Opinião da RTP, really? Colunista e "board" numa sociedade de advogados da nossa praça. Portanto, colunistas, membros de sociedades de advogados e académicos... Vamos bem. Por pouco não tinha nome de carrinha de caixa aberta...

Eugénia Galvão Teles: Mais uma pessoa do direito e colunista. Confesso que começo a perder as deixas e assim o meu artigo começa a ser repetitivo.

Fernando Alexandre: Secretário de Estado e académico. Consoante a cor partidária vai tendo uma opinião diferente do país. Notável. Venha gente nova e original, pelo menos, neste caso, a opinião vai mudando.

Francisco José Viegas: Um dos que está sempre em todas... Colunista, editor, um dos dinossauros do país, opinador profissional. Convém ter gente mais velha da nossa sociedade, é preciso moderar a rebeldia desta juventude no manifesto. Tem uma coisa boa, adora Vergílio Ferreira.

Francisco Mendes da Silva: Mais um advogado de uma grande sociedade e político profissional. Tenho de ir ver outra vez se no manifesto consta, de facto, originalidade.

Gonçalo Dorotea Cevada: mais um cavalheiro das consultoras, especialista em matéria fiscal e... colunista... Pois...

Henrique Burnay: Um independente... Não... Mais um cavalheiro do Direito e académico, é senior partner de uma consultora. Mais um representante do que é ser português. 

Henrique Raposo: ainda dizem que Marcelo está em todas. Este é mais um daqueles cavalheiros que está em todas sem ninguém perceber muito bem porquê... Aqui é um típico português. E também é colunista em tudo e mais alguma coisa.

Inês Teotónio Pereira: jornalista e política e mais uma cara nova, ou talvez não. Jornalista e política, também não preciso de dizer mais nada.

João Amaro Correia: arquitecto e fervoroso benfiquista. Pelo menos, no clube tem semelhança com mais de metade da população. Consta que é blogger com vocação e instagramer por intuição. Um bom mote para mudar o país.

João Diogo Barbosa: aquela malta que ainda não terminou a universidade mas já tem uma carreira em ascensão? É jovem, mas os hábitos são velhos e bons amigos não devem faltar.

João Nuno Vaz Tomé: se é quem eu estou a pensar, mais um cavalheiro independente. Perdão, afinal é do CDS.

João Taborda da Gama: Secretário de Estado e filho de Jaime Gama... Que original... A grande família socialista também a ter representação. 

José Diogo Quintela: Olha o indivíduo que gosta de explorar trabalhadores e gosta de dizer isso na televisão. Também não é aquele que é apanhado alcoolizado a conduzir e todos acham imensa piada? Mais um colunista no Público e no Observador, bons fornecedores deste movimento. E pensar que este indivíduo, tal como os restantes Gato Fedorento evoluíram de "palmeiros profissionais" e com píadas que hoje criticam...  Admira-me que não esteja aqui um Tiago Dores, um sem-abrigo a quem o Observador deu um jeito.

José Eduardo Martins: advogado, colunista, deputado e um dos barões do PSD. Só sangue novo e com ideias novas...

Lourenço Cordeiro: não conheço mas numa coisa é moderno: frequenta muito o twitter.

Margarida Olazabal Cabral: mais uma advogada de uma grande sociedade de advogados... Irra, não cessa...

Miguel Esteves Cardoso: escreve-se uns livros com vernáculo, o Público e umas rádios elevam-no a intelectual, cria um jornal para dizer mal da concorrência olhando pouco à ética e aí está: sempre em tudo e todas... Mais uma pessoa jovem e muito original. Desde Março fechado em casa! O homem com que podemos contar para vir para a rua combater pelo país!

Miguel Loureiro: Um homem das artes! Ena, menos mal... Espero...

Miguel Monjardino: colunista e académico. Eu sei, não é de propósito, mas não posso evitar.

Miguel Poiares Maduro: olha o cavalheiro preocupado com o mundo mas gourmet de grande gabarito. Afinal eu também sou um pouco hipócrita. Vá lá que não tem filiação política, não é colunista e não é mais um académico. Alto... Um momento... Afinal é tudo isso... Até gosto do cavalheiro.

Nuno Amaral Jerónimo: Espero que não seja o cavalheiro que faz tudo em 10 e 15 minutos! É mesmo... Este cavalheiro sabe "como ficar estupidamente culto em apenas 10 minutos" ou então "como salvar o mundo em 15 minutos". O rei da TedEx, vou já largar o Tony Robbins. 

Nuno Gonçalo Poças: mais um advogado e mais um colunista do Observador... E lá vai o coelinho da Duracell.

Nuno Miguel Guedes: é aquele cavalheiro jornalista que tira sempre fotos em grande estilo e com a cabeça sempre de lado não é?

Nuno Sampaio: Arquitecto, certo? Já são dois... Cuidado, senhores advogados.

Pedro Gomes Sanches: Um homem do Estado, académico e colunista do Observador... "And going and going...". Proferiu isto: "Não sou conservador porque sou católico, ou porque sou avesso à mudança, ou porque antigamente é que era bom. E por isso sou do CDS e creio que é o João Almeida a escolha de que o partido necessita". Um génio.

Pedro Mexia: Mais um real emplastro... Uma cara nova. Poeta, colunista, critíco literário. Só novidades e um digno representante do que é ser português.

Pedro Norton: um homem da televisão, que até gosto de ouvir, e também da Gulbenkian. Já faltava uma novidade perante tanto mais do mesmo... Hum...

Pedro Picoito: Académico, colunista e já viram a foto do cavalheiro no Observador? Hilariante... Vejam...

Raquel Vaz-Pinto: Com um apelido totalmente desconhecido e mais uma académica. Estamos bem entregues, portanto. E viva a gente nova e original.

Rubina Berardo: esta economista soube cedo o que era importante para vencer na vida: tirar cursos superiores e ser política. Original não é?

Samuel de Paiva Pires: já foi muita coisa, mas é essencialmente mais um académico. Como muitos desta lista, já tem no LinkedIn que faz parte do manifesto, toca a criar engagement

Samuel Úria: já mais de uma dúzia de pessoas me perguntou quem era este cavalheiro. É músico e colunista. Não gosto como músico fui ver como se safava a dar opiniões. Continue músico... Também está em todas, não vá cair no esquecimento.

Sandra Clemente: Direito, Academia, Colunismo... E pronto, é isto...

Sebastião Bugalho: então mas este não era aquele jovem estudante, filho de jornalistas e que sem saber ler nem escrever rapidamente ascendeu no i, passou para o Sol, TVI,  vendeu-se a um partido, agora está no Observador e pelo meio tem grandes flops quando o assunto é ética. Jovem, mas vícios de dinossauro do burgo. É inacreditável como é que estes indivíduos... E como é que alguém ainda o convida para um manifesto. Por este andar, quem será o seguinte, o Armando Vara?

Teresa Caeiro: política, direito... E pronto, lá vai o coelinho Duracell...Gente jovem não falta.

Teresa Violante: Académica e colunista no... Observador. Esta malta janta todos os dias no mesmo restaurante e na mesma mesa, certo? Ah, também tem Direito na formação.

Vasco Ressano Garcia: Alguém que mistura política e Igreja como quem faz uma salada de alface e tomate para o jantar sem lhe colocar oregãos e azeite. Alguém que está voltado para o futuro, sem dúvida.

Vasco Rosa: mais um colunista do Observador, penso eu. Desconheço o CV, mas já vi que também é pouco importante.

Vera Gouveia Barros: colunista, académica e uma mulher do Estado. Era aqui que eu tinha esperança de encontrar uma mulher empresária... Ah... Foi por pouco.

 

De facto é interessante ver aqui o português comum, fora das lides partidárias, longe da sociedade bafienta alfacinha, dos jantares de troca de favores. O português que trabalha e que todos os dias vive realmente em Portugal. Vejo aqui empresários, gente de trabalho, e uma representação de Norte a Sul, desde Tui até Huelva... Perdão, Valença até Vila Real de Santo António. Temos futuro! Temos futuro! Haja esperança... Para ser ainda mais actual, apenas sugiro que não só a maioria apresente nomes com dois apelidos mas todos os assinantes. Se querem estar actuais é fundamental.

 

Falta a assinatura do Bloco de Esquerda, do PCP e de António Costa... Aliás, ver António Costa criticar uma geringonça entre PSD e Chega é o mesmo que ver Estaline a chamar nomes a Pol Pot, doesn't match. Além de que em Portugal já chegámos à conclusão que direita e esquerda, de facto, não existem... Tem outro nome, mas não é esquerda nem direita.

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Sardinhas Sem Interesse...

por Robinson Kanes, em 10.11.20

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Créditos: https://victawr.wordpress.com/tag/epic-fail-guy/

 

Fujam que hoje não vale a pena passar por aqui. É "whataboutism" e muitos outros temas que não têm grande interesse...

Uma lamentável terça-feira no SardinhaSemLata...

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Félicitacions Boris Vian...Oh! C'est Divin...

por Robinson Kanes, em 07.11.20

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Créditos: https://beta.prx.org/stories/126076

 

Este Domingo, o CCB vai homenagear Boris Vian , um dos grandes mestres da literatura e da música que em Março faria 100 anos... Deste senhor, "Irei Cuspir-vos nos Túmulos", "A Espuma dos Dias" ou "As Formigas" estarão sempre cá guardados... E quando a prosa é boa e a música também, não haverá muito a dizer... Vamos apanhar uma valente bebedeira de "Bordeaux" no "Club Saint German des Prés" e celebrar até a malta cair ao Sena!

 

A mon "ami" Vian, Félicitacions! Pour vous "Le Déserteur", et on va écouter pour Jacques Canetti! 

J'suis snob... j'suis snob...Tous mes amis le sont...On est snob et c'est bon... Temos pena!

Bom Domingo!

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Em Montparnasse com Rodin, Sartre e Donizetti...

por Robinson Kanes, em 06.11.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens nunca é absurdo senão relativamente em relação às circunstância que o acompanham. As palavras de um doido, por exemplo, são absurdas em relação à situação em que ele se encontra, mas não em relação ao seu delírio.

Jean Paul Sartre, in "A Náusea"

 

 

Não é Paris - Marseille, mas poderia ser. Para trás fica a Normandia e a Bretanha e muitos dias de asfalto, terra e até mar. Depois do delta à beira da estrada, chegamos a Paris. Chegar a Paris é sempre aquela sensação glamourosa, seja de avião, comboio ou por estrada, mesmo que as horas na fila possam ser intermináveis, o que, desta vez, não foi o caso. Paris faz parte das nossas vidas, o fascínio dos nossos pais pela cidade, pela França e também pelas muitas viagens em trabalho ou lazer que já nos trouxeram aqui. Falar de Paris é repetir tudo aquilo que já foi dito.

 

Desta vez, ficamos mesmo no centro da cidade, uma pequena paragem de três dias antes de apontarmos a Lille e à Flandres francesa. O périplo promete, com mais paragens e por isso é preciso estar fresco. Mas ficar fresco... em Paris? Só se for o tempo e nestes dias com temperaturas acima dos 30º e em alguns casos alternadas com grandes chuvadas, não foi propriamente para se descansar. Os jantares no Marais e os convivios no 7.º arrondissement perto do Musée Rodin ocuparam as noites e os dias... Quem é que descansa? Talvez, e como de Paris estará tudo dito, possa ser este o mote para abordar um dos escultores predilectos de qualquer amante de arte e respectivamente o seu museu que não me canso de visitar.

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Passar em qualquer lado e vibrar quando se identifica uma obra deste escultor já é qualquer coisa, entrar numa propriedade onde os jardins e o interior do seu edifício está repleto de obras de Rodin, é entrar no céu. Um simpático jardim e um pequeno "palais" guardam alguns dos maiores tesouros da Humanidade e permitem que nos embriaguemos com Rodin. Como é possível? Como é que alguém...

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O museu não é grande, mas a visita dura uma eternidade, sendo que ainda não atingiu as 7 horas que ficámos no Prado e as 6 no Louvre. Está sol, aproveitamos para descer ao jardim e apanhar um pouco de ar... Pensar que museologia em Paris é o Louvre, é um dos maiores erros que se podem cometer quando temos na mesma cidade o Musée Rodin, o Musée Picasso, o belíssimo e riquissímo Musée d´Orsay, o arrebatador Musée Delacroix e tantos outros que poderia enumerar e que incluem muitas pequenas galerias que nos arrebatam com toda a sua grandeza artística.

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E no meio de toda esta pseudo-intelectualidade, aquilo que mais me apetece é abrir o Pont l'Évêque que ainda temos connosco e que no hotel tiveram a amabilidade de preservar (parolo, eu sei, mas em França solicitar a guarda de um queijo é o mesmo que em Nova Iorque solicitar a guarda de um diamante) e ainda juntar-lhe uma sidra bretã. Chamemos para se juntar a nós "O Pensador" - para descer do pedestal e juntar-se a nós enquanto entre um "mais non" e um "si, mais" pensamos o Mundo... Hoje muitas perguntas teriamos para aquele cavalheiro de bronze.

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Antes de sair, aproveitamos as vistas para o Hôtel des Invalides... Paris, como Roma, obrigaria um ser-humano a ter uma vista 360º para aproveitar tudo aquilo que a paisagem lhe oferece. É um espaço fascinante, nunca nos apaixonou como outros, mas sentimos o peso e a força que de lá emana e mais ainda se sente quando cruzamos a entrada. 

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É hora de almoço, queremos debater tudo aquilo que vimos, temos vontade de discutir aquilo que acabámos de presenciar, além de que a paixão por Rodin, na Alemã, é qualquer coisa... Caminhamos e Montparnasse apetece-nos. É por aí que ficamos, um restaurante marroquino, "Chez Berberett", com empregados gentis e gente simpática na esplanada surge-nos como uma boa opção... Não desilude, e em Montparnasse é fácil comer mal e pagar muito, apesar de alguns restaurantes que são uma referência.

 

O tempo passa, e Rodin fica para trás... O empregado, um marroquino extremamente gentil e que mais parece um norueguês, inicialmente questionando se eu era argelino, percebe que sou português e começamos a falar de História. Lembra-se de D. Sebastião e de D. João I. Tanta história para perceber que partilhamos tanta coisa, inclusive os genes... Rodin fica para trás, ultrapassado pela antropologia, pela história e pela biologia.

 

Com o estômago bem acomodado pelas iguarias do Norte de África, decidimos ir prestar homenagem a alguns ilustres que repousam ali bem perto, antes de nos encontrarmos com Donizetti e a sua obra "Don Pasquale"no "Palais Garnier" - o tempo não está contado, mas com Rodin e o empregado de mesa, e um jantar entre amigos depois do espectáculo, o dia não poderia ter ficado mais bem preenchido.

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Antes de sairmos, conversamos com o Sartre e Beauvoir... Falamos de Camus, falamos de uma época de pensamento que apesar de esquecida ainda hoje é tão actual, uma verdadeira lição de Humanidade e do que é ser Homem. Os cemitérios tranquilizam-nos, é como se nos sentissemos mais seguros... É como se os mortos nos protegessem dos vivos e onde também podemos cuspir na campa daqueles que nem a terra deveriam ter pisado., talvez porque a sabedoria só lhes tivesse chegado quando já para nada servia, como diría Garcia Márquez.

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Percorremos as ruas desta cidade... Caminhamos junto ao Sena e chega a hora de "Don Pasquale"... Chega a hora de nos deixarmos levar pela força do amor de Ernesto e Norina...

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Honfleur, uma cidade portuária

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

A pacata e firme Caen

Bayeux: uma jóia normanda

Normandia: um dia de homenagem

O Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, a cidade pirata

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