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Créditos: https://www.healtheuropa.eu/brits-demand-more-mental-health-services-after-covid-19/102922/

Quanto mais sabemos menos conseguimos prever.

Yuval Noah Harari, in "Homo Deus"

 

A globalização, o progresso e até o conhecimento produzido, permitiu que pandemia de SARS-CoV-2 atingisse uma escala nunca antes vista na Humanidade. Todavia, o balanço ainda vai demorar muitos anos e (espero eu que não) talvez possamos chegar à inferência que fizemos uma gestão desastrosa da mesma, seja ao nível governamental seja ao nível de todos nós, cidadãos. 

 

Tentei evitar a partilha de alguns casos, mas o somatório de situações coloca-me perante uma situação mais complexa. Se por um lado a saúde mental dá uma oportunidade a quem nela trabalha nestes tempos (ou melhor, aos que colocam o paciente como prioritário e que não vendem banha da cobra, como diz o povo) por outro deixa-nos muitas questões por responder. A situação actual permitiu também perceber que no foro médico, a saúde mental não tem o valor que deveria ter e que uma Ordem dos Psicólogos Portugueses não é mais que um baile de máscaras e posições bem remuneradas - a existência da mesma chega a ser uma castração da própria saúde mental.

 

O primeiro caso que aqui trago é de uma professora que está perto dos 60 anos. Uma pessoa extremamente inteligente, viajada e com uma visão da realidade bastante apreciável. Até aqui nada de novo, apenas que, esta senhora, entrou numa espiral de medo em relação à pandemia que ninguém consegue explicar. O espoletar do pânico surgiu em Abril, durante o confinamento e, segundo o esposo, devido às horas fechada em casa com a televisão como companhia. Actualmente não sai de casa e só chamadas via Skype com os netos estão a atenuar a situação. Não a reconheço...

 

O segundo caso é similar em termos de formação profissional e humana, todavia ainda estamos a falar de alguém mais viajado e completamente fora do status quo. Esta é a mulher que se o marido não quer sair do país para viajar ela sai... É a mulher livre, que se cuida e vive toda a sua vida com uma postura, se me permitem, bastante para a frente. Só recentemente consegiu sair à rua e mesmo isso é uma tormenta para o marido pois, e a título de exemplo, nem sequer tem ajuda com os sacos do supermercado, não vá o vírus estar presente. Tudo o que é possível é congelado, tudo o que não é, é escaldado... O que não encaixa, não se consome. A senhora não coloca a mão numa maçaneta, seja em casa ou fora dela. Não é de televisões, mas de jornais... Atenta aos comentadores e às notícias destes. Não a reconheço, e aqui devo dizer que fiquei deveras surpreendido, podia cair uma bomba nuclear que esta senhora rapidamente levantaria a cabeça e socorreria os mortos.

 

O terceiro caso é um cavalheiro. Imaginem alguém com uma carreira política, conhecedor do mundo, empresário e uma daquelas pessoas que se lhe apetecer jantar  esta noite em Nova Iorque de tudo faz para que isso aconteça. Alguém também esclarecido, atento, com formação superior e que muito dificilmente embarca em situações de pânico, bem pelo contrário. Actualmente não sai de casa, vive fechado e culpando todos os outros que relativizam o que se passa na televisão (televisão essa que está sempre ligada à espera de desenvolvimentos acerca da pandemia), porque continuam com a sua vida. Ninguém fora do seio familiar entra em casa, nem para fazer reparações... Os negócios não são prioridade, controlo dos mesmos totalmente perdido.

 

Outros casos poderia juntar, pelo que, a minha questão é simples... Como é que estamos a lidar com estas situações? Como é que, em certa medida, não seremos também responsáveis por estar a destruir a vida de dezenas (e escrevo dezenas porque só me estou a cingir aos casos que conheço) de cidadãos com o actual estado de pânico e informação excessiva, não raras vezes, sem qualquer filtro ou aferição se a mesma é real. Em Espanha, dispararam ao pontos dos dentistas não terem mãos a medir, os casos de bruxismo que podem ter danos irreversíveis nas articulações temporomaxilares e causar um desgaste gigantesco nos dentes. Nos Estados Unidos a Kaiser Family Foundation (KFF) reportou que 53% dos norte-americanos reportou que a sua saúde mental tinha sido afectada (durante os primeiros tempos da pandemia eram 32%). Os números, até Julho, não pararam de subir como se pode aferir pelo gráfico abaixo. Se a isto juntarmos o consumo de fármacos, o aumento das taxas de alcoolismo e suicídios, temos um cocktail explosivo, além de que, não será novo dizer que este tipo de problemas não se resolve com vacinas de um dia para o outro.

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Fonte: KFF, 2020

 

Em Wuhan, e segundo a Lancet, o alegado berço do vírus, profissionais de saúde tiveram um acompanhamento psicológico singular com duas equipas, uma equipa de resposta com a participação de directores e assessores de imprensa nos hospitais (geriu equipas e a comunicação) e uma outra equipa técnica que formulou instrumentos de intervenção, regras e providenciou pareceres técnicos supervisionando o processo. Uma terceira equipa composta por psiquiatras fez a intervenção no terreno e uma quarta participou numa espécie de hotline assistance dando formação em como lidar com o vírus e também como lidar com alguns problemas de saúde mental. Foi na China... Com tanta informação, tantas tendências importadas e neste campo estamos a ser tão tardios.

 

E como não poderia deixar de ser, os indivíduos mais vulneráveis, apesar de não representarem os casos que acima apresentei, serão os mais afectados que em termos de saúde mental e também em termos de salários e condições de vida. Se a isto juntarmos o aumento da workload e de traumas que os tornam mais susceptíveis a situações de stress, burnout, depressão e situações de stress pós-traumático, temos um futuro negro para muitos indivíduos.

 

Uma boa saúde mental, em circunstâncias normais é fundamental para uma sociedade funcionar bem, se tivermos em conta os números que não cessam de aumentar por causa da pandemia, vamos perceber que a reposta e a recuperação durante e após a pandemia será muito mais desafiante, além de que a saúde mental de um país não é conduzida por académicos nem pode viver apenas de palestras e artigos de opinião.

 

Virá um pós-covid, aliás para mim já é uma realidade, não consigo estar quieto, todavia ele virá e alguém terá de apanhar os cacos...

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Resposta a Gustavo Carona...

por Robinson Kanes, em 30.10.20

O pior das humilhações é que fazem quem as sofre sentir-se culpado

Javier Cercas, in "As Leis da Fronteira"

 

Caro Gustavo,

 

Não tenho dúvidas de que será um médico intensivista de topo e estou certo que se necessitasse dos seus cuidados estaria nas melhores mãos. No entanto, e talvez pela exposição pública que foi adquirindo, até porque escrever uns livros e tirar umas fotografias com uns pretinhos passa sempre a mensagem de que somos uns heróis, gente de bem e com talento, deve ter achado que poderia ser um embaixador da classe médica em Portugal, uma espécie de Buescu da medicina.

 

Não obstante, a última campanha mediática que tentou fazer passar, peca por ser tardia, nomeadamente em termos de impacte. Vir afirmar a sua exaustão, dizer às pessoas para ficarem em casa (só falta a fotografia deitado no teclado) já não tem o eco que teve em tempos. Se olhar para países como Itália, Espanha, Bélgica, Alemanha e França, essa partilha já tem mais consequências negativas que positivas - chegou tarde. Além disso, esse discurso (errado) passa a imagem de que até hoje a classe médica (e não só médica) levava uma vida tranquila, o que não é verdade e se quiser exemplos disso também lhos posso dar. Estar exausto é mais do que comum em tantas outras profissões onde não existem corporativismos, salários garantidos ao fim do mês e pagamento de horas extraordinárias ao fim de somente 35 horas de trabalho. Muitos gostariam de escrever livros e colocar licenças para tirar fotografias com os pretinhos, mas andam exaustos todos os dias do ano, todas as épocas, com ou sem vírus.

 

Também me espanta ver um médico a chamar imbecis e anormais a "negacionistas", "relativistas" e todos os outros que não colocam o SARS-CoV-2 como a doença que nos matará a todos. A título de exemplo, passar a mensagem de que o pneumologista descarrega toda a sua fúria no doente que fuma, parece-me contraproducente. Também para um médico, não me parece a melhor forma de criar empatia e abordar os potenciais pacientes. Eu entendo que explorar o mediatismo e entrar no rol dos grandes heróis nacionais contra o vírus pode levar a estes excessos, mas... Em suma, se alguma vez geriu uma equipa, sabe que não é a chamar imbecis e anormais aos seus que vai conseguir resultados, espero que não o faça quando anda por outras paragens em missões "humanitárias"... Lembre-se também que são esses imbecis e anormais que necessitam de cuidados médicos mas que por seu turno os pagam por intermédio dos seus impostos e do seu trabalho e são esses indivíduos que não são mais excepcionais que o resto de nós que fornecem exemplos impressionantes dos nossos momentos mais sublimes como seres humanos, como tão bem descreve Sapolsky. E, pela sua experiência, sabe que se não existir economia em funcionamento, também não existem impostos que paguem a um médico.

 

Aproveito também para o recordar, até porque também colabora(ou) com os Médicos sem Fronteiras, que a saúde-mental e o bem-estar também são saúde, algo que o Gustavo parece ignorar. Antes da especialidade, terá com toda a certeza abordado esta temática na sua formação, talvez uma reciclagem possa ajudar. Isso e gestão de pânico e catástrofes... Lembro-lhe que a política é importante, tem uma vísão holística que ouve todos os lados (ou deveria) e toma decisões de acordo. Por muito que não goste de como a política por vezes é gerida, esperemos que nunca a decisão e gestão perante uma catástrofe passe por uma única entidade/corporação, lamento desapontá-lo. Aliás, como eu, deve saber que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) é uma organização política e não médica que quer comparar a actuação contra o vírus na Europa e não só com a actuação localizada contra o ébola numa determinada região africana.

 

Deixe-me também dizer-lhe que me espanta, e até poderá ter as suas razões, que no dia 18 de Setembro de 2020, defenda eventos de massas como o Avante e outras manifestações similares e aponte que o risco maior se encontra nas pequenas reuniões familiares. Ainda hoje estamos à espera desses estudos. Espanta-me ainda mais que no dia de ontem, 29 de Outubro, surja de repente com um discurso ligeiramente diferente. Portanto, deixemos que as pessoas se juntem em eventos de massas mas ai daquele que ousar visitar a mãe! 

 

Lamento também desapontá-lo quando implicitamente nos diz que a ciência não se questiona e muito menos ela própria é aberta a toda e qualquer "novidade". Não sei em que meios se move, mas uma das coisas que faz a ciência avançar é a constante formulação de novas ideias e abanões ao status quo. Temo até que, se assim não fosse, a leucotomia pré-frontal, idealizada pelo seu colega Egas Moniz, ainda fosse uma prática corrente. A ciência é sempre aberta a novas ideias? Não precisarei de lhe responder... Até porque se assim fosse, não estávamos a confinar (pela primeira vez na História) pessoas saudáveis e a basear-nos em modelos aplicados no passado em contexto totalmente diferentes.

 

Utilizar um programa de televisão e o meio mediático que lhe permitiu ser mais conhecido do que propriamente a exercer o seu trabalho, não me parece de bom tom. É público que não nutro simpatia pela televisão em Portugal, mas adoptar um comportamento que até é cultural em Portugal de, e passo a expressão, de cuspir no prato onde se come é, no mínimo deselegante, sobretudo quando tornamos isso público, partilhamos os detalhes e utilizamos o acto como forma de auto-promoção. Tem passado demasiado tempo a fazer vídeos na internet, programas de rádio, artigos em todos os jornais e mais alguns, a aparecer na televisão e por certo menos tempo em contacto com pessoas. É feio e não lhe fica bem, e sim, com tudo isso para lá do trabalho que se exerce, acredito que fique exausto.

 

E como em tempo outro actor da saúde fez, Fernando Nobre, poupe-me o discurso da catástrofe lá fora, para defender as suas convicções. Não terei a sua experiência, mas também sei o que são pessoas a tombar sem assistência. Também sei o que é a fome, e também tenho fotografias ao lado dos pretinhos, ou melhor, tenho dos pretinhos apenas, os verdadeiros heróis no meio disto tudo. Sei, como não o faço em organizações onde a viagem, a comida e tudo o resto está incluído. Sai tudo do meu bolso, porque assim faço questão,inclusive quando estou longe e faço "donativos" pontuais. Com toda a certeza terá aproveitado o lucro das vendas dos seus livros para também o fazer...

 

Provavelmente este texto nunca lhe chegará, não sou propriamente conhecido na praça e no pouco que sou, e pelo que aqui escrevo, tenho mais inimigos que amigos além de que até o próprio texto vai contra o seu video que esta plataforma teve o gosto de partilhar. Também não chegará a todos aqueles que viram/leram o seu video "perturbador" e "catastrófico", mas espero sinceramente que outros cheguem para desmistificar este "show off".

 

Espero que cumpra bem o seu trabalho, exausto ou não e acima de tudo, sejamos positivos e tenhamos todos os cuidados sem parar o Mundo, isso é fundamental... O Gustavo, parece-me que está demasiado exaltado e em pânico e isso nunca é bom para gerir uma catástrofe.

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Sardinhada com Giuseppe...

por Robinson Kanes, em 27.10.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Mais uma terça-feira, e mais uma passagem pelo SardinhaSemLata. Hoje vamos à península itálica, onde partilhamos duas histórias que mostram um outro lado da crise, talvez aquele que daqui a uns anos poderá ter tido mais óbitos que o vírus. É só irem por aqui.

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Alterações Climáticas? That's a fact Jack!

por Robinson Kanes, em 26.10.20

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Créditos: Frédéric Noy - Panos Pictures

 

Não são as grandes ideias que os outros tiveram, mas as pequenas coisas que só a ti te ocorrem.

Haruki Murakami, in "Sputnik Meu Amor"

 

Uma das situações que fez parar as alterações climáticas foi a temática do SARS-CoV-2, pelo menos é a ideia com que ficamos e onde já nem o publicitário "how dare you" de uma jovem sueca tem eco. Previsível, numa campanha que teria os dias contados pelo simples facto de não ter um plano a longo-prazo e procurar apenas um rápido impacte. 

 

No entanto, a realidade nem sempre é a que encontramos nas notícias e na verdade, com o "apoio" do Fórum Económico Mundial (FEM) foi possível aferir que talvez o actual vírus seja o menor dos nossos problemas, e como dizem os americanos "that's a fact Jack", vejamos:

 

Em 2030 (daqui a 9 anos, portanto), o degelo contiuará de tal forma que o nível do mar irá subir cerca de 20cm (US Global Change Research Program - USGCRP). Todos sabemos as consequências deste facto, sobretudo para países com costa oceânica. No Golfo do México já são actualmente 60cm (Center for Science Education) e ao qual se juntam as tempestades cada vez mais severas, bem como no Noroeste dos Estados Unidos, onde estas (desde Janeiro de 2020) já são mais de 25 (USGCRP).

 

Todavia, não é preciso viajar 9 anos no tempo para chegar à conclusão que, e ainda falando em águas oceânicas, 90% dos recifes de coral estão ameaçados e 60% em estado de ameaça grave (National Oceanic and Atmospheric Administration).

 

Viajemos para terra e encaremos o facto de que a redução da área arável já atirou 100 milhões de pessoas para a pobreza extrema (Banco Mundial). 100 milhões de novos pobres, coloquemos as coisas desta forma. Em terra também chegámos à conclusão que as mortes devido às alterações climáticas aumentam por ano em 250 000 (Organização Mundial de Saúde - OMS). Não são 250 000 mortes, mas mais 250 000! A OMS é a mesma organização que nos quis ver todos fechados em casa por causa do Coronavírus e ainda as mortes estavam bem longe deste número.

 

Neste contexto, países como o Bangladesh, Tailândia, Vietname e outros, continuam e continuarão a sofrer um aumento das tempestades e consequentes inundações que provocam migrações em massa (Climate Central). Todos sabemos como o aumento da capacidade de carga vai levar a que outros conflitos possam surgir, inclusive com países vizinhos. Se tivermos em conta que actualmente 140 milhões de pessoas já se encontram deslocadas devido à insegurança alimentar, falta de água e fenómenos extremos (Banco Mundial), podemos imaginar o futuro.

 

Também ainda não é necessário viajar mais uns anos para chegar à conclusão que 8% da população mundial sofreu no último ano uma redução na disponibilidade de água potável (Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC) e que o Ártico também já tira férias e no Verão fica sem gelo (Arctic Council) - o Ártico no Verão fica sem gelo, sublinho... Já falei em tempos da gravidade desta situação.

 

Mas viajemos agora 19 anos e vamos até 2040. 19 anos é já amanhã, pelo que é já amanhã também que o mundo irá superar o limite dos 1,5ºC de aumento de temperatura imposto pelo Acordo de Paris (IPCC). É uma espécie de diferença entre um bife mal passado e um bem passado. Mas podemos deixar a grelha e passar ao forno, pois em 2050 a previsão é de que 2000 milhões da população mundial sofra com temperaturas na ordem dos 60º durante mais de 10% do ano (The Future We Choose - Surviving the Climate Crisis por Christina Figueres e Tom Rivett-Carnac). Em suma, não iremos precisar de máscaras para nos proteger de vírus mas sim da poluição extrema.

 

Se uma das coisas que as previsões em relação às alterações climáticas nos têm mostrado é que muitas vezes falham... Falham porque o que está previsto para daqui a 100 anos pode acontecer já amanhã. E é por isso que as previsões para 2100 apontam já para uma subida da temperatura na ordem dos 4ºC, sobretudo nas latitudes mais a norte (IPCC). Não estamos a regular o esquentador, 4ºC é uma coisa demasiado séria e com consequências no nível do mar: só a título de exemplo, a Flórida passará a ser uma coisa do passado, os recifes de coral desaprecerão e as consequências ao nível da fauna e flora marinha serão mais que desastrosas (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization - UNESCO). No ar e em terra uma vasta maioria dos insectos terão desaparecido e além das consequências em vários outras áreas - também as colheitas sofrerão pela falta de polinização (Biological Conservation). Falar em cataclismo é pouco, deixemo-nos de palavras bonitas.

 

Palavras bonitas não poderão livrar ninguém da seca extrema que afectará 40% do planeta (Proceedings of the National Academy of Sciences - PNAS) e a título de exemplo significará que uma área equivalente ao Estado do Massachussets irá arder por ano nos Estados Unidos (United States Environmental Protection Agency - EPA) aliás, os recentes incêndios na Califórnia, no Colorado, na Autrália e na Sibéria já mostram essa triste realidade. E tão pouco se fala deles... Estranhamente.

 

E finalmente, porque até nos toca de forma séria, o sul de Portugal e Espanha estará transformado num autêntico deserto, provocando carências alimentares e falta de água de uma gravidade extrema (Science) e acrescento até as migrações que daí advirão. Mário Lino parecia estar certo quando nos dizia que bastava atravessar a ponte e chegar à margem sul para estar no deserto. Temo é que em pouco tempo baste atravessar o Mondego.

 

Mais do que estar fechados em casa, no shopping ou a pensarmos no nosso umbigo (com o coronavírus, o egoísmo tornou-se uma doença) é altura de pararmos para pensar,  de deixarmos de ser refractários à verdade e sensíveis apenas a estímulos artificiais sob pena de não nos sabermos governar, como escreveria Tagore. É tempo de termos ideias e acima de tudo exercermos a nossa cidadania.

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O virus é democrático mas parece ser o único...

por Robinson Kanes, em 23.10.20

235866_RGB-981x1024.jpgCréditos: Caglecartoons.com, The Netherlands, March 6, 2020 | By Joep Bertrams

 

 

A certeza com que agimos hoje pode parecer medonha não só para as gerações futuras, mas também para os nossos "eus" futuros.

Robert Sapolsky, in "Comportamento"

 

Até o dia dos mortos se finou... Não acredito que uma romaria aos cemitérios possa fazer grande diferença no facto de gostarmos de alguém, está morto e pronto, não obstante, reconheço quem tem nesta prática e nesta forma de lidar com a morte uma visão diferente da minha e que está tão enraizada na nossa sociedade e costumes e que vai muito para além da crença católica. Todavia, este constante ataque ao cidadão que faz por sobreviver e cumprir o pouco que ainda lhe resta de liberdade começa a ser assustador - e pensar que em tempos alguém foi tão criticado por "querer" congelar a Democracia por seis meses.

 

Vejamos, todos aqueles que nos cortam a vida social, humana, cultural e profissional, são os mesmos que no Verão não hesitaram em (e sempre com o jornalismo medíocre atrás) mostrar-se na praia, fins-de-semana seguidos e chamando todos para o ajuntamento parolo habitual do Verão. São os mesmos que não hesitaram em jantar nos restaurantes da praça para português pobre que come uma sopinha ver. São também os mesmos que permitiram ajuntamentos como o 1º de Maio, várias manifestações da direita à esquerda e o grande acontecimento de 2020 que foi a festa do Avante. Não paga impostos, utiliza o erário público, utiliza mão de obra a custo zero e ainda recebe este prémio, enquanto os outros encerram empresas. São os mesmos que se congratularam com a Fórmula 1 no Algarve e permitem uma multidão num fim-de-semana e proibem o cidadão comum de velar os mortos ou estar em família no outro. São os mesmos que encheram o campo pequeno mal o vírus saiu do confinamento e parece ter dito "bem, vou-me embora, vou partir naquela estrada". O vírus é democrático, mas começo a crer que Portugal não...

 

Começa também a ser em demasia o pânico que é gerado nas televisões e jornais - e já lá vão seis meses. Basta! Basta! Basta! As pessoas estão cansadas e assustadas e estou em crer que muitos dos media que embarcam nesta lógica perceberam que três meses de lockdown fazem maravilhas pelas audiências e também pela destruição da inteligência dos cidadãos. Basta de termos matemáticos; profissionais de saúde;  físicos; filósofos; "comentadeiros"; "viradores de frangos" e mais um sem número de indivíduos que procuram destaque a todo o custo e todos os dias nos apresentam modelos e teorias completamente descabidas de base cientifica ou assentes em modelos ultrapassados e que só aumentam o pânico, deixem de ser "wannabes" e concentrem-se no essencial. Isto não é uma guerra como nos querem fazer crer e muito menos o fim do Mundo. É, sem dúvida, um aviso à nossa sociedade, mas sobretudo pela forma como somos "geridos", "controlados" e claro, como nos comportamos. Existem muitas soluções, a economia não pode parar! Mas a Irlanda confinou! Sim, e vejam como economicamente e laboralmente se organizou. Vejam um website de ofertas de emprego naquele país ou tentem ver como se está a comportar o tecido empresarial e percebam que tem mais dinâmica e ofertas de emprego (com qualidade) que um Portugal em tempos áureos!

 

Começa também a ser cansativo ter uma Organização Mundial de Saúde (OMS) e por cá uma Direcção Geral da Saúde (DGS) que um dia nos dizem que a máscara é para utilizar e no outro já não! Que às nove da manhã nos dizem que o contágio não se dá por contacto com superfícies a à tarde já nos diz que afinal todo o cuidado é pouco. É uma OMS que privilegiou os confinamentos mas agora volta atrás... Para o caso de alguém se ter olvidado, a OMS, legalmente, não é uma organização cientifica e muito menos médica, é uma organização política, é essa a sua base!

 

Também não podemos ter confiança total do lado da saúde (não estou a afirmar que não devemos escutar e seguir os conselhos), pelo simples facto de não ter uma visão holística da sociedade, da economia e do Mundo, e é aí que o poder político e cívico tem de mostrar que pode ouvir, acatar, mas exercer uma espécie de gestão da situação do que lhe chega. Também não podemos ter sociedades médicas a afirmarem que os melhores não estão a ser ouvidos em detrimento de outros que provavelmente se movimentam melhor no plano mediático e político. Passámos demasiado tempo no Verão a apanhar sol na praia, sejamos consistentes nas mensagens e nos alertas.

 

Todos sabemos que os números estão a ser "martelados", não tenhamos ilusões, mas mesmo assim, não podemos deixar de viver, não podemos parar a economia e muito menos destruir o que temos de nosso, já nem como cidadãos mas como pessoas! Não façam isso e não deixem que isso vos seja feito.

 

O Mundo do pânico pandémico (e não escrevi da pandemia) está, entre as gotas da chuva a transformar-se. Existem conflitos a eclodir por todo o Mundo, muitos deles pela liberdade de países e povos outros somente a aproveitarem a baixa atenção mediática a outros temas. É terrorífico ver que por cá, inclusive em espaços de blogues e artigos de opinião ainda se defende, aproveitando a embalagem da pandemia, um regime maoista que desenvolve campos de concentração! Existem, como na Nigéria, Colômbia, Chile e outras nações, ataques coordenados a quem diz não: na Nigéria as autoridades antes de abaterem manifestantes pela Liberdade que só estavam concentrados pacificamente, tiveram o cuidado de preparar o terreno, afastando testemunhas com zonas de contenção, retirando câmeras e limpando a zona! Estes são os testemunhos mais violentos, mas também sabemos como Portugal é um país perfeito para "abater" quem diz não!

 

Respeitemos os outros, tenhamos todos os cuidados exigidos para não multiplicar a propagação do vírus, mas acima de tudo não deixemos de viver e não embarquemos numa espécie de suicídio colectivo. Mais do que morrer de medo e desprovido de qualquer personalidade, importa sim saber como reagir face à adversidade e apostar numa mudança que tem de acontecer, e nesse aspecto, o vírus é uma grande oportunidade de nos tornarmos melhores em muitos campos, embora, infelizmente, em muitos territórios, não seja uma prioridade.

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Sindemia ou Pandemia?

por Robinson Kanes, em 15.10.20

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Créditos:https://www.nationalheraldindia.com/national/by-2021-as-many-as-150-mn-people-likely-to-be-in-extreme-poverty-due-to-covid-19-world-bank /

 

Over coming  weeks - yes. In the long-term, probably not permanently, but other epidemics are certainly possible.

Eli Fenichel,  PhD, Professor Knobloch Family de Economia dos Recursos Naturais na "Yale School of the Environment". 

 

 

Emantilhados num ruído em torno do SARS Covid-19, começamos a questionar tudo aquilo que nos chega ou simplesmente a ignorar.  No entanto, um artigo recente da publicação "The Lancet" e cujo conhecimento me chegou através da BBC, levantou-me alguma curiosidade acerca da forma como abordamos esta pandemia - mas será uma pandemia? 

 

Neste artigo, Richard Horton, que não é propriamente um Buescu, alicerçado em várias análises cientificas acaba por defender que mais do que analisarmos a pandemia à luz de modelos matemáticos com base em situações como a "gripe espanhola" ou focarmo-nos no corte das cadeias de transmissão e instrumentos "obsoletos" como as quarentenas, devemos encarar a actual realidade como uma sindemia. Aliás, Horton vai mais longe e alerta que uma potencial cura ou vacina pode não ser suficiente se não foram reunidos alguns pressupostos fundamentais.

 

Estes pressupostos passam, e começando na base, por abordar a pandemia como uma sindemia, ou seja, "deixamos de lado" o foco no corte das cadeias de transmissão e focamo-nos em algo mais global. Sindemia (sinergia + pandemia), e de forma simples, é a interacção de duas ou mais doenças que provocam danos ainda maiores do que a soma de ambas as doenças. Com isto, não quer dizer que uma das mais prestigiadas revistas de medicina do Mundo esteja a adoptar uma atitude negacionista face à pandemia, mas sim a desenvolver uma abordagem mais vasta (já com sucesso, nomeadamente em relação ao HIV e à obesidade) e que inclui além do factor biológico propriamente dito, as questões sociais, o meio-ambiente e a economia, por exemplo. Podemos perceber, por exemplo, porque é que Ayuso teve de proceder aos tão contestados confinamentos locais nos bairros mais pobres de Madrid. 

 

Na realidade, Horton não descobriu a pólvora ao afirmar que a incidência de óbitos ocorre em indivíduos em situação de fragilidade social, com parcos rendimentos, em territórios vulneráveis ou em ambientes poluídos. Acrescentaria também algumas patologias associadas a comportamentos mais comuns ao primero mundo, por exemplo, a diabetes. Isto é senso comum em relação a qualquer situação, mesmo apesar da doença e a morte serem as coisas mais democráticas que temos, como diria um conceituado professor do curso de Psicologia da Universidade de Coimbra.

 

O que me deixa intrigado com esta "não descoberta" (sem com isto lhe retirar importância, bem pelo contrário) é o facto de estarmos perante uma quimera, ou seja, a aposta na resolução de vários problemas de saúde e acesso à mesma no Mundo. A redução das desigualdades sociais, o acesso a cuidados de saúde básicos, o aumento do awareness em relação a determinados factores de risco, a redução dos níveis de poluição e tantas outras situações, são fundamentais para reduzir os óbitos por Covid-19.

 

Será que no meio da desgraça temos mais uma oportunidade de criar modelos que reduzam as desigualdades sociais? Será que a "não descoberta da pólvora" mostra-nos que vivemos num Mundo recheado de pandemias até mais graves do que aquela que enfrentamos?... Como se todas as outras tivessem entrado em hibernação... E será que num mundo mais egoísta saída da epidemia, haverá abertura para apoiar, nesta matéria, os países menos desenvolvidos?

 

Esta abordagem mais holística, poderá não ter efeitos imediatos, mas no futuro poderá ser um reforço importante em termos de combate a Covid-19 e a tantas outras doenças, todavia, entramos numa espécie de dilema, ao estilo "acabar com a fome no Mundo", e sabemos como isso é impossível. Todavia pode ser um passo importante, sobretudo se o pressuposto de que uma vacina pode não ser a solução final para este vírus.

 

Fica aqui o artigo completo (pdf) onde também poderão encontrar uma definição mais aprofundada do termo desenvolvido por Merril Singer e informação mais pormenorizada.

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Freud também comia sardinhas...

por Robinson Kanes, em 29.09.20

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Créditos: https://www.pinterest.es/pin/446067538073729058/?amp_client_id=CLIENT_ID(_)&mweb_unauth_id={{default.session}}&amp_url=https%3A%2F%2Fwww.pinterest.es%2Famp%2Fpin%2F446067538073729058%2F&from_amp_pin_page=true

 

E para "acabar" o dia em cheio e porque é terça-feira... Convidámos Freud a comer umas sardinhas. Temo que lhe sejam indigestas mas... Acompanhem-nos aqui!

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Obrigado SNS!

por Robinson Kanes, em 26.08.20

15287fcb90c41af48bf9a578484890fe-783x450.jpgCréditos: https://zap.aeiou.pt/hospital-lisboa-sem-radiologistas-202802

 

Este não é um artigo que surja no rescaldo do "vamos todos ficar bem" (uma bela cópia forçada do que espontaneamente surgiu em Itália), das palavras amáveis com profissionais de saúde e com palmas à janela para televisão captar ou porque estávamos com um medo enorme de morrer de COVID-19.

 

Este é um artigo que surge para agradecer de facto o bom trabalho realizado por muitos profissionais que todos os dias dando ou não o seu máximo garantem a nossa saúde. É também para enaltecer o bom trabalho e colocar um contraponto aos que argumentam que dispendem rios de dinheiro no privado (quem acha que a saúde não custa dinheiro ou então é grátis anda completamente alheado da realidade) mas não dão uma oportunidade ao Serviço Nacional da Saúde, não é tão... Aliás, quando o tema é medicina privada, já repararam que ninguém vai ai hospital? Vão à Luz, aos Lusíadas ou à CUF, entre tantos outros.

 

Todos os dias conheço muitos e muitos casos com relativa proximidade, pelo que, me focarei num dos mais recentes.

 

Em pleno pico da pandemia em Portugal, e perante a impossibilidade de um utente se dirigir ao seu médico de família, foi-lhe sugerido que contactasse a sua médica via email - contactar a médica de família via email, em Portugal, ainda é uma daquelas coisas que faz levantar um tornado de reclamações. Deu-se o contacto, e no dia seguine surge uma resposta. Mais uma troca de emails e o "convite" para em menos de uma semana se dirigir ao centro de saúde. Entrada imediata, atendimento em menos de 30 minutos e sem a enchente habitual daqueles que frequentam os centros de saúde diariamente como se fosse o café. Quando, incrivelmente, não se paga nem um euro de taxa moderadora é natural que tudo isto aconteça. Ser consultado e não pagar por isso, pouco que seja, nos tempos actuais, é qualquer coisa.

 

Feita uma observação clínica, porque era necessário, foram marcados exames que ao fim de uma semana e meia estavam prontos. Nova análise à distância com uma rapidez louvável (no próprio dia da recepção dos exames) e uma resposta com a indicação de que estava marcada uma consulta de especialidade num hospital central, nomeadamente o São José, em Lisboa - a carta chegaria entretanto.

 

Em menos de um mês chegou a carta e também em menos de um mês a consulta teve lugar. Hospital, normalmente a abarrotar e onde  confusão reina, totalmente calmo, apesar de algum movimento. Auxiliares à entrada dos serviços com mais simpatia, afinco e dedicação que em muitos lugares onde se vendem artigos ou experiências de luxo.

 

Espera para se ser atendido? Nem 30 minutos. O especialista, um médico da velha guarda, com muito conhecimento que em menos de um minuto deslindou o caso e, não sendo nada de grave, "quase colocou" a opção de cirurgia nas mãos do paciente, pois não era um caso de extrema gravidade. Papéis assinados, uma enorme simpatia (e até sou da opinião que um médico pode, mas não está lá para ser simpático) e a informação de que seria agendada a cirurgia.

 

Cirurgias no SNS? Lista de Espera? Nem neste ano nem para o próximo. Passavam pouco mais de 3 horas desde a consulta e um telefonema de uma médica (não foi de um assistente administrativo) a indagar da disponibilidade do doente para uma cirurgia em menos de um mês. Face à resposta de que existia essa disponibilidade, ficou marcado e aguarda-se o contacto do secretariado tendo em vista o fornecimento de todos os detalhes.

 

Entretanto, em todo este processo, ainda nem um euro saiu do bolso do utente que nem é isento e fica perplexo como é que tudo isto se está a fazer sem custos. Sem custos directos para si, mas com um gigantesco custo para o SNS, ou seja, para o Orçamento de Estado e consequentemente para todos nós. Não é uma pessoa rica, muito longe disso, mas não consegue ainda hoje lidar com o facto de não pagar nada, e até a cirurgia parece não ser uma preocupação.

 

Por tudo isto e muito mais, OBRIGADO SNS!

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por MJP...

por Robinson Kanes, em 09.07.20

be68076629107c4fe0814e3187f3a227-1000.jpgCréditos: Amarjeet Kumar Singh/SOPA Images/Lightrocket via Getty Images - https://www.sciencemag.org/news/2020/05/doctors-race-understand-rare-inflammatory-condition-associated-coronavirus-young-people  (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

O que aprendi nos últimos seis meses…

Quando recebi o generoso convite do R., que muito me honra e agradeço, para reflectir sobre o que aprendi nos últimos seis meses, pensei que seria uma boa oportunidade de colocar em palavras escritas o que me vai no pensamento.

 

E, assim, de repente  (ou talvez não!), já passou metade de 2020... um ano diferente... arriscaria, mesmo, dizer que este será, muito provavelmente, o ano mais atípico que a maioria de nós já experienciou...

Fomos brindados com acontecimentos inesperados  (inimagináveis)  que abalaram, algumas das nossas certezas...

No início do ano, creio que poucos pensariam que este vírus chegaria à Europa... à medida que o tempo foi decorrendo e as imagens do desespero  (e da morte), que chegavam de Itália e de Espanha,  invadiam os nossos ecrãs, fomo-nos dando conta que isto era "real"... que o"nosso dia" haveria de chegar... era inevitável a chegada do vírus a Portugal... muitos de nós, conhecedores das fragilidades do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) - onde eu me incluo - temeram o pior...

Entretanto, ocorreu o proclamado “milagre Português”, que redundou no cenário que, actualmente, experienciamos…

 

A verdade é que depois de muito pensar, não creio que tenha aprendido nada de novo nestes últimos seis meses (decorrente da Pandemia) … mas, a verdade é que, constatei muitas coisas que já sabia, nomeadamente:

 

- O Ser Humano é muito vulnerável e controla muito pouco (ou nada) à sua volta, ao contrário do que muitos pensam;

- O Bem comum deverá sobrepor-se à (minha) vontade individual, ainda que, signifique ter de abdicar da Minha Liberdade de circulação, que tanto prezo;

- Nada é garantido, de um momento para o outro tudo pode mudar “sem aviso prévio” e, por isso, devemos aproveitar o melhor possível o momento presente e não adiar aquilo que consideramos importante;

- O que se torna essencial, em momentos de crise, são as relações de qualidade que estabelecemos com as nossas pessoas e que se revelam à prova de qualquer distanciamento físico;

- A Saúde Mental (tão estigmatizada e desvalorizada) é muito mais frágil (e difícil de manter, sobretudo, em confinamento) do que a Saúde Física;

- As crises não tornam os indivíduos “melhores Pessoas”, apenas evidenciam as suas características mais marcantes, ou seja, tornam-nos mais refinados;

- O Mundo não é cor-de-rosa, não somos todos amigos e não vai ficar tudo bem para todos;

- O Mundo é um lugar repleto de desigualdades, que se evidenciam e acentuam em momentos de crise;

- Há sempre quem esteja pronto a lucrar com a tragédia alheia;

- A memória é curta e os erros cometidos são facilmente repetíveis;

- Há muita gente que não saber viver em sociedade, adoptando comportamentos de risco que fazem perigar a saúde alheia;

- Os profissionais de saúde apenas são reconhecidos e valorizados pelo seu trabalho quando uma crise sanitária se instala e ninguém deseja morrer por ausência de cuidados de saúde!!!  

MJP

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A Elite dos Otorrinos no SNS!

por Robinson Kanes, em 16.12.19

Stupid Stock Photos (1).jpg

Créditos: https://1.bp.blogspot.com/-Ao6nkr-G444/Tq2QXGb3JSI/AAAAAAAALCs/Gr7if-G6uv0/s1600/Stupid+Stock+Photos+%25281%2529.jpg

 

Os grandes valores não se definem, como se não define uma simples dor de dentes.

Vegílio Ferreira, in "Conta Corrente V"

 

 

Sou um acérrimo defensor do Serviço Nacional de Saúde (SNS), aliás, quando a coisa aperta é lá que todos vão parar! Junto-me nessa causa a muitos políticos deste país onde se inclui o Presidente da República que defende com unhas e dentes o SNS, sobretudo se a lista de espera, para este, não se aplicar.

 

O que vou contar vem de fonte mais que fidedigna, aliás, assisti a algumas das peripécias. Um doente que se desloque a um certo hospital da cidade de Lisboa e que seja um caso de vertigem postural paroxística benigna (VPPB) é atendido por um internista, o que é rotineiro. Mas, e porque existem critérios, não é visto por um otorrinolaringolista, mesmo que este esteja disponível. Ou seja, "leva" com o habitual "Betaserc" e com sorte um "Primperan", além do "vá para casa descansar que isso passa" (independentemente deste nem se aguentar de pé ou estar há dias/semanas nesta situação). E antes de começarmos a pensar mal dos internistas, lembrem-se que estes nada podem fazer quando o outro especialista recusa ver o doente... Nesta primeira situação, a enfermeira, já na triagem, pediu desculpas pelo facto de não conseguir que o doente (diagnosticado, por sinal no privado mas por um excelente profissional do SNS) fosse visto logo pelo otorrino pois já não é novo e é perfeitamente explicado pelo doente - o que não dispensa que o profissional de saúde faça a sua avaliação.

 

A verdade é que a velha história de que o "Betaserc" e o "Primperan" resolvem, não é assim tão linear. Existe ainda a hipótese de realizar a manobra de reposicionamento dos canalitos, (manobra de Epley) ou então a manobra de Sermont e a manobra de Brandt-Daroff. Existem especialistas que imediatamente seguem o caminho das manobras, outros nem tanto, mas não é a minha especialidade e não quero ir mais longe sob pena de começar a tecer disparates.

 

Com a repetição dos sintomas, o doente regressou ao hospital. Desta vez, temendo o mesmo tratamento,  foi a outro hospital central que, por sinal, nesse dia, tinha a urgência de otorrino a funcionar no hospital anteriormente escolhido. Sem solução, regressou ao primeiro hospital, onde o enfermeiro da triagem informou que o ideal era ser visto por um otorrino. Mais um telefonema, mais umas trocas de olhares e mais um pedido de desculpas por parte da enfermeira: "desculpem, não posso fazer mais, mas isto está assim...". E mais não digo para não comprometer ninguém.

 

Mais uma vez, a chegada ao internista, uma médica jovem e excelente, daquelas que ainda é humana. Contada a história, e após contacto com a especialista, seguido de contacto com chefe de equipa, sugere uma ida ao privado - e acreditem que insistiu muito para que o doente tivesse o tratamento adequado. A especialista recusara atender este caso - não reúne os critérios! Ou seja, após 20 minutos de insistência por parte da internista que diz não poder fazer mais nada, é sugerida uma consulta de urgência nos dois dias seguintes: isto enquanto o paciente vomita, vê tudo a andar à roda e não come há mais de 4 dias porque, passo a expressão, tudo o que entra sai. "Vão ao privado, ninguém merece ficar a sofrer assim só porque...".

 

Dois dias depois, com o doente um pouco recuperado depois de mais um dia e meio infernal, o atendimento numa consulta onde lhe é dado um novo medicamento que calmamente (mais de duas semanas e...) lá foi diminuindo os sintomas... Com manobras o alívio é quase imediato, todavia, mais do fazer ou não as manobras - não domino a especialidade - é esta forma de encarar os doentes. Se a culpa é dos otorrinolaringolistas, da direcção clínica ou do Ministério da Saúde, não sei, mas que nos colocar a pensar, é um facto e chega a roçar a omissão de auxílio. Mas também não é de admirar... Basta andar atento às peripécias (algumas criminais) que ocorrem com alguns directores de serviço nesta área...

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