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Traga as pipocas e junte a família! Amanhã, quando chegar ao trabalho também se vai sentir parte do grupo de malta "fixe" que vê séries a "bombar"!

Com os cumprimentos da Agência da ONU para os refugiados!

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Um Sírio em Český Krumlov...

por Robinson Kanes, em 18.04.18

IMG_4345.jpg

Fonte da Imagem: própria

 

Estava uma tarde de frio, de um frio aconchegante, longe daquela intensidade que nos congela os ossos quando a Boémia decide testar os limites do sofrimento humano. A baixa temperatura, associada ao tempo nublado, convidava a uma entrada na "ilha" e a uma das suas praças onde, numa pequena feira de Natal, se poderia comer uma carne assada ou então o tradicional  "trdelník".

 

Não sentimos a simpatia dos vendedores daquela praça, ou talvez esse espírito não estivesse em nós, afinal já eram quase 300 quilómetros desde Bratislava. Procurámos por esse espírito ao longo das ruelas de uma das belas cidades do centro da Europa e foi numa pequena loja que parámos para vencer a fome. Por fora, uma loja simples, sem grande história, colorida mas confundindo-se com todas as outras. Quase que numa espécie de desespero entrámos, afinal já estávamos outra vez perto do rio Moldava, o mesmo que atravessa Praga.

 

Lá dentro, um pequeno espaço onde o "kebab" era rei. Um balcão sujo para comermos de pé, uma mesa com duas cadeiras, bebidas de um supermercado low cost dentro de um frigorifico de self service e as paredes com um sem número de fotografias com monumentos milenares que chamaram a minha atenção. Por momento dei comigo na Turquia e pelo médio-oriente.

 

O empregado era árabe. Numa primeira abordagem apresentou-se mais fechado mas rapidamente abriu o sorriso às nossas perguntas. Disse-nos que nos havia confundido com húngaros e daí a sua reticência em arriscar um comportamento mais expansivo. Falámos muito de Marrocos, da presença dos árabes em Espanha e Portugal e da nossa paixão pela Turquia - isto até ter indagado que duas das fotografias eram de Palmira. Foi aí que percebemos que não estávamos perante um turco mas sim perante um sírio que tinha fugido da guerra.

 

Enquanto comíamos um kebab, e também enquanto o sírio ia brincando, mexendo com as mãos na alface e na cenoura do balcão que albergava as cubas com que ornamentava a iguaria da casa, ficámos a saber mais sobre as suas origens - a família que vivia na Síria, alguns em Aleppo e outros próximos de Palmira - foi neste intervalo que pudemos ver fotografias de Palmira completamente destruída, fotografias reais, daquelas que não surgem nos jornais mas nos olhos trágicos daqueles que sempre viveram naqueles territórios, fotografias actualizadas que, depois comparámos em nada tinham a ver com as últimas que haviam chegado aos media.

 

Apesar de alguma tristeza que os seus olhos não conseguiam disfarçar, o sírio mostrava-se optimista no seu sorriso humilde. Fazia perguntas acerca de Portugal e de como poderia lá montar o seu negócio - respondemos que não era fácil e de como o nosso país também não era tão atraente como se vendia nos postais turísticos. Foi aí que levantou os olhos, sorriu, estendeu as mãos para a alemã e disse: "mas vocês têm paz".

 

Mas nós temos paz, de facto. Dei comigo a pensar no que seria pior, se enfrentar toda uma máfia que prolifera no nosso país ou se, realmente, deitar-me sem saber se no dia seguinte acordaria tal o estrondo das bombas à minha volta. Pensámos ambos em como era morrer sufocado por gases tóxicos, como era ser atingido por uma bala perdida enquanto se vai comprar algo para comer no intervalo em que também as peças de artilharia precisam de respirar antes de debitarem o seu fogo.

 

Para aquele Ser, pessoas como Assad,Obama, Trump e Putin eram todos terroristas, pouco diferentes de um Estado Islâmico. Para aquele Ser, qualquer um deles podia acabar com a guerra num minuto mas não era essa a sua vontade nem o seu interesse. Perguntei como era possível que o Presidente de um país ordenasse um ataque químico como de Ghouta em 2013 e que matou milhares de compatriotas - hoje, quando muitos partidos políticos, facções e pseudo-personalidades falam de mentira em Douma e tentam também influenciar e tirar proveitos dessas declarações, é importante fazer recuar as mesmas uns 5 anos e perceber que nada disto é novo e que esse arsenal químico existe e é utilizado! Perguntei e o sírio baixou ainda mais os olhos, não me respondeu - optei por não desenvolver o assunto.

 

Pedi um copo para despejar o refrigerante que tinha tirado do frigorífico. De entre vários copos, pois consegui apreciar a procura, escolheu o mais limpo. O copo mais limpo que levou a que a "alemã" arregalasse os olhos tal era a gordura que envolvia o mesmo, muito por culpa de uma má lavagem. Não era novo para nós, despejei algum refrigerante e bebi, não seria de bom tom beber pela garrafa. A conversa continuou e ficámos a saber o destino, à data, da irmã e do irmão daquele indivíduo... Dos sobrinhos... Da restante família... Ficámos a conhecer os rostos e aqueles olhares, apesar de tudo... Felizes. Estarão ainda vivos?

 

Entrou um checo, conhecido já do proprietário do estabelecimento. Cumprimentou, assistiu um pocuco à nossa conversa, sorriu... Sorriu bastante e em checo disse algo como "volto mais tarde". Deve ter pensado que eu era árabe, sobretudo porque entrou no momento em que eu dizia também ter esse sangue e orgulhar-me desta mescla de culturas em que nasci e cujos meus genes não me deixam mentir.

 

Como bom árabe, ofereceu-se para nos fazer um café. Café de cafeteira, como tem de ser entre seres que partilham esse "maldito" sangue! O café veio prolongar a conversa e permitir que numa cidade Património da Humanidade, mais que construções e um sem número de património material, o verdadeiro Património da Humanidade, indestrutível e rico estava ali, naquelas pessoas que conversavam. Gostámos da cidade, mas sem dúvida que a grande recordação que de lá temos foram estes momentos onde o frio da Boémia foi vencido pelo calor de uma boa conversa, de uma amizade, do conforto da troca de laços. O aroma de um café que não era brilhante mas carregado de amizade, perseguiu-nos até ao adormecer.

 

Chegada a hora de pagar, indaguei do valor do café, erro crasso e que já não deveria permitir a mim mesmo. Reparei que o sírio quase que ficou ofendido, tendo eu, sido obrigado a dizer que estava demasiado ocidentalizado e ele que me perdoasse o facto de me ter deixado levar por aquela lógica. Quebrámos o gelo, e antes de sair, entre um forte abraço, olhámos mais uma vez aquelas fotografias e o sírio... Queríamos levar aquele momento connosco e sem qualquer suporte digital afinal, dia menos dia iria desaparecer - queríamos registar aquele acontecimento no melhor disco rígido do mundo e assim o fizemos.

 

Não vou falar dos ataques dos últimos dias, mas não posso deixar a revolta que sinto ao, num dos países que mais me apaixona naquela região, a par do Líbano, ver e ouvir o que vejo. Revolta-me que tenha de assistir a uma matança que ninguém percebe muito o porquê, que tenha de assistir a um ditador que não hesita um segundo em matar todo o seu povo, seja de que forma for! Sugiro, aliás, que se matem todos os sírios e que fique Assad e a sua legião a governarem um país vazio e que não alimente as vidas de luxo que este e a sua família não hesitam em ostentar... Tudo isto enquanto cartuxos de gás matam o seu povo e tornam, como dizia Gabriel Garcia Márquez,  invisíveis todos aqueles que morrem, porque é esse uma das faces da fatalidade.

 

Entretanto, em Český  Krumlov, espero que o sírio continue a mostrar as fotografias da família com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos e não com as lágrimas de quem já só pode contemplar aqueles rostos numa fotografia.

 

 

 

 

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É Tudo Uma Questão de Nervos...

por Robinson Kanes, em 06.04.17

 

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Fonte da Imagem: http://www.cbsnews.com/news/chemical-nerve-agents-a-very-toxic-and-horrible-way-to-die/

 

Um serão em família bem planeado... pai e mãe chegam dos empregos, ele prepara o jantar, ela dá banho aos miúdos. Brinca-se, pensa-se em como pagar o empréstimo da casa, diz-se mal dos amigos e chega a hora do jantar.

 

Entre chamadas de “João anda para a mesa” ou “Matilde, deixa a internet”, todos se sentam à mesa e começam a jantar. Cheira a comida oriental, uma receita que o pai retirou de um blogue. Uma ideia dos amigos e que, segundo ele, é uma receita de um país atrasado e de Terceiro Mundo.

 

A cidade está alegre, é Verão, ouvem-se crianças a brincar na rua, o vizinho do lado a chegar e aquela família a jantar com os últimos raios de sol a inundarem a cozinha daquele T3 nos arredores de Lisboa.

 

Pelo meio fala-se de futebol e do Ronaldo, fala-se do carro novo que já está decidido, dos detalhes do empréstimo e da escola dos miúdos. João exige umas sapatilhas novas, todos os amigos têm.

 

De repente, um estrondo... a mãe levanta-se, vai ver. Só os cães ladram, as crianças na rua continuam a brincar. O sol em Lisboa é mágico e inunda a praceta de uma cor de fim de tarde que contrasta com o cinzento esverdeado dos prédios.

 

A televisão ligada corta o diálogo, deixou-se de falar do melhor penteado e da figura pública mais bem vestida e chegam as notícias do mundo. O Pai diz - Não há paciência, merda para esses árabes! – e desliga a televisão.

 

É nesse momento que o som das crianças na praceta também se desliga, é também nesse momento que João começa a tossir. Os músculos do rosto contraem de tal modo que o João fica desfigurado num rosto digno de uma tela de Goya no seu período mais negro. Cai ao chão e apresenta convulsões que o fazem babar o ladrilho e urinar as calças que a avó com tanto carinho lhe deu. Agarra o pescoço, luta com os seus braços ainda pequenos, mas em vão...

 

Os pais acorrem em pânico, não conseguem perceber o que se passa, a linha de emergência está ocupada... Matilde, até então em choque, contorce-se na cadeira, agarra-se ao peito, o coração deixa de bater e os pulmões contraem-se de tal modo que nenhum oxigénio circula. Asfixia, cai perto de João que jaz já cadáver perante a falência respiratória. O seu rosto de menino transformou-se num retrato dantesco, as suas pupilas transformadas em mínimas esferas e o rosto com um olhar de horror, transformaram-no num pedaço de tragédia humana. A mãe vem gritar para a janela e vê os corpos das crianças que brincavam na rua no chão e amortalhados entre saliva e urina. Os pais, em pânico na praceta, choram e agridem os tripulantes das primeiras ambulâncias a chegar ao local.

 

No apartamento, de joelhos e em lágrimas, os pais sentem-se perdidos no mundo, João de 10 anos e Matilde de 8, foram vítimas de um ataque com agente nervoso. O cheiro da urina dá lugar a um cheiro pesado a insecticida... a um cheiro a morte.

 

Um dia pode ser na sua casa... com os seus filhos... os ataques com armas químicas são crimes de guerra, são verdadeiros crimes contra a Humanidade! Humanidade, significa que são contra si. Já foi ver se os seus filhos estão bem?

 

 

(Os ataques com armas químicas não são recentes. Sobretudo na Síria não é nada de novo, em 2013 não morreram 100 pessoas como no último ataque conhecido... morreram 1300 pessoas e o mundo virou a cara. Ao longo destes últimos anos o cenário tem-se repetido e penso... não aprendemos nada com a memória plástica que nos deixou Pablo Picasso com o seu Guernica.)

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Je Suis Palmira... Je Suis Aleppo...

por Robinson Kanes, em 17.12.16

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Je suis Palmira ou Je suis Aleppo não é tão pomposo como Je suis Charlie Hebdo ou Je suis Bataclan e existem algumas razões, nomeadamente...

 

Em Aleppo e Palmira não se compram discos, não se arranjam empregos e há pouca gente interessada no local onde fomos jantar ontem. Os “famosos” não encontram, aí também, gente que esteja muito interessada nestes - ou seja, gente que não permite que os primeiros se perpetuem com pequenas mensagens egoístas de solidariedade – mas gente que somente procura fugir da guerra e isso não é lucrativo para a imagem de bom cidadão das redes sociais mas que nem se levanta da cama se a casa do vizinho estiver em chamas.

 

Dar um concerto de “solidariedade” no Bataclan é mais interessante para as vendas do novo disco, do que arriscar a pele num Estado Árabe.

 

Aleppo e Palmira estão cheia de gente esfarrapada que convive “bem” com a morte e (in)felizmente está até preparada para morrer. Na Europa e na restante sociedade ocidental, a morte é somente um espectáculo a que todos gostam de se associar. Fica bem dizer que estou solidário com uns atentados na Alemanha, mesmo que não entenda o contexto em que os mesmos ocorreram... afinal, para os canais noticiosos é mais fácil e... barato... conseguir imagens praticamente em directo de todos os acontecimentos cá em casa do que esperar três dias para que os preços praticados pelas grandes agências noticiosas baixem e estes possam adquirir uma versão low-cost do que se passa lá tão longe. Aquela morte espectáculo chega-nos com outro impacte.

 

“A Síria é longe, quero lá saber”... é verdade, mas também é verdade que foi por ali perto que cedo se ficou a conhecer o termo “civilização”. Ou seja, como sociedade que somos devíamos estar gratos por ser ali a nossa génese (como organização de pessoas).

 

Também é verdade e... paradoxal, que num mundo globalizado, onde estamos todos interligados olhemos para esta realidade como... distante... A Síria faz fronteira com a Turquia que por sua vez ocupa também um espaço na Europa e onde em menos de meia dúzia de horas é possível chegar de avião.

 

Morrer na Síria e em massa... ou em muitos outros países não é notícia, não é uma tragédia... nem é uma estatística como diria Estaline, é ignorar... é não existir. Morrer na Europa é diferente, é alguém que morre na nossa casa, é um cidadão que tinha nome, vida, família e um sem número de características que a sociedade ocidental tem e os outros não... os outros não, pensamos nós de forma arrogante... Morrer na Europa é caro, morrer na Síria sai barato.

 

Na Síria morre-se porque sim, não existe uma ideia para dar ao gatilho como dizia Vergílio Ferreira, morre-se sem saber porquê... um tiro, numa conjuntura destas, nunca poderá ser eficaz.

 

Falar da morte de Mário Soares (poderia ser outro) antes do mesmo morrer efectivamente, mesmo que mais de metade dos portugueses não nutram por este grande simpatia, é mais lucrativo e sempre abre mais umas portas do que pensar no que se passa ali ao lado, também em hospitais (hospitais?) da Cruz Vermelha, mas com tanta gente como nós que... humildemente só quer paz.

 

De facto, pensar nas coisas não é algo que se partilhe nas redes sociais, mas talvez permita construir seres-humanos mais atentos à realidade. A verdadeira rede social somos todos nós... independentemente da localização ou do credo.

 

Fonte da Imagem: http://imguol.com/c/noticias/5d/2016/02/06/6fev2016

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