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Imagem: http://globalfoodconnections.com/climate-change-threatens-ancient-mayan-farming-practices/ 

 

 

E se culturalmente quase que podemos afirmar que existia um povo dentro de um outro povo, também socialmente as desigualdades eram profundas e além dos mais desfavorecidos, está o exemplo das mulheres, completamente afastadas de toda e qualquer intervenção no conselho.

 

Neste contexto de Rio de Onor, poderemos contar uma “estória” que se afasta radicalmente da realidade e que para a discussão de uma economia mais solidária somente poderá dar o seu maior contributo no espírito de união que permite muitas vezes a populações completamente isoladas geograficamente e socialmente sobreviverem perante condições tremendamente adversas ao invés de sociedades que nasceram por oposição a outras. Nesse sentido Rio de Onor é efectivamente um grande exemplo a par com a segurança da identidade cultural e comunitária.

 

Actualmente este é o seu contributo, sobretudo para uma sociedade cada vez mais individualista e sem sentido de comunidade e cidadania. Por outro lado, é um exemplo a não seguir no que toca ao papel das mulheres e dos mais desfavorecidos nas novas práticas económicas que deverão encarar estes, não dignos de dádiva, mas sobretudo actores ao nível de qualquer outro, tornando-se também eles agentes de mercado e de desenvolvimento local sustentável.

 

Conclusão

 

Rio de Onor preencheu e ainda hoje preenche o imaginário de muitos estudiosos e antropólogos. Todavia, Rio de Onor.

 

Em relação aos quatro pontos de partida deste texto, o primeiro ponto efectivamente vai ao encontro de uma das bases de uma economia solidária: a união dos interessados em comunidade, como forma de vencer os obstáculos económicos e geográficos que jamais seriam vencidos se cada um o fizesse de forma isolada. A questão da cultura de oposição está completamente de lado, pelo contrário os laços transfronteiriços eram extremamente fortes e tanto o lado espanhol como o português partilhavam deste espírito de interajuda e cooperação nos destinos da aldeia.

 

Rio de Onor não passa o teste de sociedade igualitária quer na administração dos recursos (não confundir com distribuição), na sua posse e sobretudo no afastamento das mulheres no que concerne aos destinos e até vida quotidiana da aldeia. Atentemos provavelmente à época, e que num regime ditatorial não tinha aberto ainda espaço para a formalização dos direitos das mulheres. Importa, no entanto, não esquecer que antes do regime ditatorial já existia Rio de Onor.

 

Do ponto de vista de sucesso rural, Rio de Onor nunca conseguiu produzir grandes quantidades de produtos, pelo que alimentava praticamente uma economia de subsistência. A dimensão também deverá ser tida em conta, pelo que para o futuro, talvez não seja de descorar que, ao invés de comunidades aldeãs isoladas, ser dado o passo para a criação de redes aldeãs com um modelo de gestão comum a todas.

 

No que concerne ao quarto e último ponto, a resposta é sim. Claramente as mulheres, sobretudo das zonas raianas e serranas, têm cada vez mais um papel fundamental na dinamização do interior ou de áreas isoladas. A partida dos maridos, não deve passar pela espera de um hipotético encaixe financeiro no futuro, mas sim por uma mobilização destas para o trabalho da\na terra.

 

Face a todos estes argumentos, Rio de Onor é uma “estória” da qual podemos tirar muitas lições de sobrevivência e esquecermos as utopias.

 

Rio de Onor tinha as suas lacunas, no entanto, retirando o sumo das boas práticas e aprendendo com os factores negativos, até porque, a título de exemplo, seria um autêntico suicídio afastar desta forma as mulheres, muitas destas aldeias e vilas terão muito a ganhar - sobretudo se não cometerem o erro de se voltarem somente para si mesmas. Poderão desenvolver-se numa óptica socioeconómica e com isso garantir patamares de sustentabilidade para todos os seus habitantes.

 

Citando os rionorenses "bamus a deitar piedras" e ver o resultado final.

 

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

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O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (4)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (5)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (6)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (7)

 

Leituras recomendadas:

 

  • Dias, Jorge, Rio de Onor, Comunitarismo AgroZPastoril, Editorial Presença, Lisboa;

  • Laville, Jean Louis, A Economia Solidária: Um Movimento Internacional, Revista crítica de Ciências Sociais, 84, Março 2009: 7Z47;

  • Marques, Joana S.; Social and Solidarity Economy, United Nations Research Institute for Social Development, Geneva, 2013;

  • McMurtry, John, Prometheus, Trojan Horse or Frankenstein The Social and Solidarity Economy as Community Creation, Market Wedge, or State Monster, United Nations Research Institute for Social Development, Geneva, 2013;

  • O’Neil, Brian Juan, Proprietários, Lavradores e Jornaleiras, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Pais de Brito, Joaquim, Retrato de Aldeia com Espelho, Ensaio sobre Rio de Onor, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Piolanyi, Karl, A Grande Transformação, Editora Campus, Rio de Janeiro, 2000;

  • Prügl, Elizabeth; Razavi, Shahra; Reysoo; Fenneke, Gender and Agriculture After Neoliberalism, The Graduate Institute Geneva, Geneva, 2012;

  • Wolf, Eric, Peasants, Prentice Hall, New Jersey, 1966;

 

 

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 Créditos - Imagem: http://www.openresearchwestminster.org/2015/02/re-imagining-rurality-conference-and-exhibition-27-28-february-2015/

 

 

Rio de Onor, como muitos outros exemplos de aldeias do Norte de Portugal, é essencialmente agrícola. As vantagens que uma economia mais solidária pode tirar destas vilas agrícolas podem estar num actor que outrora foi ostracizado, ou seja, se Rio de Onor foi outrora fechado à participação das mulheres, hoje poderia aprender com o modelo latino-americano onde a participação das mulheres é cada vez maior e parece intensificar-se em relação ao sexo masculino. Um dos estudiosos desta temática Deere, chega mesmo a afirmar que a agricultura efeminizou-se e as mulheres deixaram de ser trabalhadores de segundo plano e tornaram-se autênticas managers para a agricultura. (Deere: 2005) Isto muito por culpa da emigração dos homens em busca de melhores condições de vida - algo que é cada vez mais uma realidade em Portugal e sobretudo naquele Portugal profundo onde por exemplo Rio de Onor se encaixa. 

 

O que daqui retiramos? Um impacte social gigantesco, com as mulheres a terem uma palavra a dizer nos destinos destas comunidades e acima de tudo a serem elas próprias um dos motores de desenvolvimento da comunidade.

 

O papel da formação (imperial para o sucesso de políticas de economia mais solidária) é fundamental na medida em que tem de criar o espaço para o empowerment destas, sobretudo na exploração das mais valias do seu próprio território.

 

Rio de Onor é sem dúvida fascinante do ponto de vista da comunidade e do estudo antropológico-económico. O comunitarismo ligado às dificuldades territoriais; a suposta igualdade entre os membros da comunidade, a aparente democracia participativa, a divisão dos recursos e a correcta distribuição da terra fazem-nos pensar em importar do passado um conceito apaixonante. Todavia, esse mesmo conceito acarreta os riscos de idealizar algo que as monografias de alguns autores, nomeadamente Dias, criaram e mais que isso, criar estereótipos que praticamente por obrigação ou vaidade levam uma comunidade a agir como tal.

 

Rio de Onor efectivamente, dá-nos muitas lições, nomeadamente em relação ao próprio conceito de comunitarismo, mas também do modo como os indivíduos, face às dificuldades que o terreno e a localização, se uniram e levaram avante formas de organização que os permitissem sobreviver de uma forma que isoladamente jamais conseguiriam, aliás, o endividamento crescente e o carácter dionisíaco apontados por Dias disso também são exemplo.

 

Se do ponto de vista ambiental, artístico e de bem-estar não existe informação relevante, do ponto de vista económico e de gestão podemos retirar daqui um pouco de cooperativismo que ia até à própria gestão dos costumes, ultrapassando largamente a esfera económica, embora nem sempre numa óptica de reciprocidade.

Continuando a explorar a óptica de conhecimento, começamos a entrar em terrenos mais isolados que a própria aldeia, nomeadamente no que concerne ao carácter social e ao projecto políticonos mostra: a pouca equidade na distribuição das terras, do trabalho e do gado.

 

Continua...

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

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 Fonte da Imagem: http://alfarrabio.di.uminho.pt/arqevo/arqetnoevo.html

 

 

Rio de Onor para o Futuro

 

Uma economia mais humana procura outro modo de fazer economia, outro modo de instalar vida nos territórios, surgindo aqui a questão da materialidade que acaba também por ser um meio, Não se desvincula das relações sociais e culturais e vai buscar formas de auto-governação o que lhe dá também uma dimensão política (França Filho, citado por Estivill).

 

É daqui que devem partir as comunidades do futuro. Rio de Onor é hoje uma vila museu, uma vila que habita na memória de alguns interessados pela temática antropológica. No entanto, Rio de Onor pode ser também numa óptica sistémica e policêntrica (Laville, 2013) um exemplo para o futuro - e para desenvolver no futuro - quer no território da própria vila, quer servindo como inspiração para outras, com os devidos ajustes que até a História já se encarregou de fazer (17).

Os Rios de Onor do futuro terão de incorporar a visão macaronésica defendida por Amaro, mas também ser uma alternativa e não um ataque à economia dominante, apresentando-se como uma academia/economia doméstica através do “doar” sem grandes contrapartidas mas mais afectiva. A grande história da humanidade foi sempre neste ramo da economia e não no capitalismo (Polanyi: 2000). À visão da Macaronésia já desenvolvida, importa não somente defender esta, é importante aliar a questão da sua sobrevivência. É neste contexto que Estivill defende sete pontos fundamentais para o sucesso destas iniciativas:

 

  1. Articulação entre a dimensão económica e social;

  2. O nascimento da “organização” tem de ser parte do processo e não um entusiasmo do momento, que se perde ao fim de alguns dias;

  3. A importância dos fundadores, terem alguma experiência em trabalhos colectivos ou em gestão de equipas;

  4. Enraizamento territorial com correspondência às necessidades dos locais e que projectem mais a terra que a organização em si (o exemplo galaico português é um mau exemplo que poderia ser revisto para o bem das terras da raia);

  5. O triunfo do geral face ao particular – numa sociedade cada vez mais individualista este aspecto é fundamental.;

  6. Liderança. Esta é uma das questões-chave. Uma liderança participativa e democrática, é o garante de sucesso para toda e qualquer organização;

  7. Capacidade de adaptação: num mundo que muda a cada segundo, quem não conseguir acompanhar a mudança, está condenado a afogar-se no passado.

 

Com este conjunto de factores a trabalhar entre si, podemos efectivamente olhar para comunidades de sucesso e que poderão ser os "Rios de Onor" do futuro.

 

 

17. Seria hoje impensável que as mulheres fossem afastadas do conselho, somente pela questão de género, num país como Portugal.

 

Continua...

 

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Fonte da imagem: Gustavex 

 

 

Podemos afirmar que Rio de Onor se assumiu como uma aldeia comunal bem ao gosto do que fora idealizado por Owen aquando da sua ida para os Estados Unidos com o intuito de fundar New Larnack - sobretudo do ponto de vista rural e não industrial. Denote-se que Rio de Onor viveu também em plena ausência de estado providência, pelo que a associação de pessoas se tornou imperial para combater as dificuldades impostas pelo território e pelas dificuldades da época (Portugal vivia também um período de ditatura).

 

Nesta questão poderíamos abrir o leque para uma outra discussão que seria o facto de ser mais fácil uma economia mais solidária, mais comunal até, vingar em países onde os suportes estatais são menores ou inexistentes - uma espécie de paradoxo em que a "economia das pessoas" tende a ganhar terreno mais facilmente em tempos de crise do que em épocas de prosperidade.

 

Rio de Onor jamais poderá ser também um exemplo de economia solidária neste ponto: “nem todas as “novas” famílias poderiam participar no conselho, embora com margem para serem ajudadas por este, no entanto, não participando na definição dos destinos da terra”. Aqui não encontramos uma verdadeira abertura inclusive para a criação de subconselhos, disso não existe registo, até porque o sucesso de muitas iniciativas destas no passado se deveu ao facto de muitas delas depois darem origem a outras, garantindo a sustentabilidade destas e das demais posteriormente criadas.

 

Tudo isto vai ao encontro do facto de nem podermos falar sequer de Democracia quanto mais de Democracia Participativa, senão vejamos: as “mulheres que, jamais, poderiam ser nomeadas mordomos e não existindo homens numa casa, quando muito a casa da mulher poderia ser admitida (mediante pagamento) no conselho, mas nunca nomeada para os cargos de administração, não tendo participação nas reuniões, mas embora beneficiando das regalias do conselho”. 

 

Em resumo, podemos dizer que ao nível económico, poderemos encaixar Rio de Onor numa espécie de cooperativa rural e social que vendia de igual modo os produtos dos seus associados a terceiros e aqui qualificar a mesmo como um exemplo de economia solidária.

 

Como projecto social e cultural, teremos de ter em conta as desigualdades que embora negadas por muitos autores eram bem latentes, todavia o sentido identitário era uma das marcas bem vincadas, um dos exemplos era a manutenção dos costumes e ritos - os responsáveis por se deslocarem a Bragança utilizavam uma indumentária própria que os distinguia na cidade dos demais.

 

Como projecto ambiental, Rio de Onor dá-nos poucos exemplos também atendendo à época. Na actualidade, poderíamos encaixar em Rio de Onor uma dinamização das actividades de agricultura biológica. O projecto territorial eram sem dúvida uma das mais valias de Rio de Onor, além das condicionantes do território serem uma das situações que levaram ao desenvolvimento deste tipo de comunidade, também muitos dos dividendos gerados pelo comércio dos produtos rionorenses eram reinvestidos na terra.

 

Contudo, O’Neill ao ver os rionorenses como povo endividado e dionisíaco deixou a porta aberta para um estudo mais aprofundado, nomeadamente se um povo assim, permitia uma tão equitativa distribuição dos bens e dos dividendos.

 

Como projecto de gestão, sem dúvida, podemos assemelhar Rio de Onor a uma cooperativa popular, quer pelo tipo de associação, mas também das regras e políticas traçadas.

 

Como projecto de conhecimento, Rio de Onor, deu muito à Antropologia e denotou-se que durante os anos de vida desta comunidade a transformação pela aprendizagem foi latente, um dos exemplos está relacionado com o facto de se ter passado da votação à rotação, no caso da eleição dos mordomos do conselho.

 

O projecto político já foi abordado e fica longe de ser perfeito, aliás, é aqui que Rio de Onor se desloca largamente do conceito de economia comunitária.

 

Do ponto de vista artístico não há muito para falar, porque pouco se conhece destes hábitos nos rionorenses.

 

Já o projecto transfronteiriço é um exemplo interessante porque a questão dos países não era importante e Rio de Onor de cima era vista como parte integrante de Rio de Onor de baixo e não como Espanha e/ou Portugal.

 

Finalmente a questão da felicidade. Até que ponto podemos afirmar que Rio de Onor era um pequeno Butão? A inexistência de dados não permite ir mais longe, e infelizmente somos levados a pensar que estas gentes assim agiam por necessidade e com trabalho, e pouco tempo dedicavam a estudar/desenvolver esta forma de estar, se assim lhe quisermos chamar.

 

Continua...

 

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

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 Le Pâturage à la Gardeuse d'Oies,  Constant Troyon, Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Da Perfeição do Comunitarismo à Realidade.

 

Rio de Onor é actualmente um “museu”, algo que ficou do passado e com o qual hoje podemos aprender, sobretudo em duros tempos de crise que têm um impacte tremendo nas culturas serranas transmontanas. Importa assim descobrir se o exemplo de Rio de Onor será hoje um mecanismo ou até um case study para ultrapassar tamanhas dificuldades.

 

Rio de Onor não pode viver num isolamento como o de outrora, o Mundo mudou de uma forma avassaladora nos últimos 50 anos, pelo que o contexto de Rio de Onor está efectivamente desligado da realidade actual e jamais se poderia adaptar a uma nova prática de economia comunal ou de solidariedade.

 

Comecemos pelo próprio erro de interpretação apresentado por O’Neill ao deitar por terra a defesa de que em termos de igualdade, esta aldeia seria um exemplo à semelhança de Fontelas onde fez trabalho de campo. O’Neill chegou mesmo a dividir a aldeia em três extractos sociais distintos: proprietários, lavradores e jornaleiros. Começaria na distribuição da terra que era atribuída de forma desigual, pois as permutas iguais de trabalho cooperativo somente existiam entre casas do mesmo nível, O’Neill dá um exemplo categórico nomeadamente de um jornaleiro que possui uma vaca e um lavrador que possui duas, afirmando que “o primeiro está condenado a vender o seu trabalho ou a pedir emprestada a vaca de outro vizinho, de modo a poder lavrar enquanto o último é de facto um camponês médio, produtor de cereal situado num nível equitativamente diferente(15). O’Neill apontou também os  casamentos que raramente eram celebrados fora do seio do mesmo grupo, e ainda o trabalho na terra através do facto de que aqueles que produzissem menos teriam de trabalhar mais na terra dos que produziam mais.

 

Retomando o tema anterior, esta espécie de reciprocidade, tão importante nesta aldeia, não era elevada ao verdadeiro sentido da palavra. Em Fontelas, por exemplo, O’Neill deparou-se com a seguinte questão: se eu colher 75 alqueires na minha terra ajudado por outrem que tem detém 750 alqueires e que também vou ter de ajudar acabo por sair mais prejudicado. Ou seja, não existe aqui igualdade, embora possamos afirmar que o contributo para o bem comum de outrem é maior. Finalmente acrescentemos que em Rio de Onor a participação das mulheres era nula no conselho e nas decisões, ou seja quando usufruíam das mesmas regalias, não se poderia chamar uma economia de solidariedade ou até de reciprocidade, mas sim de dádiva ou rompendo estes conceitos e dando lugar à caridade. Poderíamos ir mais longe e até falar numa certa ostracização.

 

Todavia entremos numa questão mais técnica e utilizando a grelha de análise de Amaro com base no exemplo da Macaronésia e tentemos perceber em que medida Rio de Onor pode tentar ser visto como um exemplo e ao qual acrescentámos mais 3 valias:

 


Projecto Económico

Em Rio de Onor a prática agrícola e o gado forneciam e podem actualmente fornecer um vasto conjunto de produtos que podem ser comercializados nos mercados ou até a um nível mais local.

 

Projecto Social

Em Rio de Onor, a participação das mulheres e dos desfavorecidos no conselho era nula e embora cada um pudesse cultivar a terra (aliás este mecanismo foi garante da instituição durante largos anos) não podia participar nas decisões.

 

Projecto Cultural

Rio de Onor, é actualmente uma aldeia “museu”, no entanto a história e a identidade estão lá e sem dúvida toda e qualquer futura intervenção pode e deve preservar a cultura local. À época Rio de Onor defendia a sua cultura fortemente levando inclusive a que os Rionorenses alimentassem ódios das aldeias vizinhas e fossem alvo de chacota nomeadamente em Bragança.

 

Projecto Ambiental

Passou-se em Rio de Onor, de uma agricultura de estrume e pousio, para uma cultura com adubos e fertilizantes. Efectivamente os novos tempos, práticas agrícolas e desejos dos consumidores, voltados cada vez mais para uma agricultura biológica podem criar aqui um nicho de mercado amigo do ambiente e altamente rentável.

 

Projecto Territorial

Muitos dos dividendos da vendas em mercado era reinvestidos na aldeia com a criação de infraestruturas. 

 

Projecto de Gestão

Em Rio de Onor assistíamos a uma espécie de cooperativa e aliás até um pouco mais que isso, pois o dia-a-dia era gerido também pelo conselho. Este funcionava sobretudo com um cariz distributivo ao invés da tão defendida reciprocidade. Do ponto de vista da economia social e solidária o segura mútuo era um dos seus maiores exemplos.

 
Projecto de Conhecimento

Embora não aplicado intrafronteiras da aldeia, Rio de Onor foi alvo de vários estudos. Um deles aliás levou a que a própria população optasse por começar a agir como ”erradamente” havia sido retratada na monografia de Jorge Dias.

 

Projecto Político

Embora a rotatividade e o sufrágio universal fossem de facto levados a sério em Rio de Onor, o poder de decisão estava longe de ser algo ao alcance de todos.

 

Projecto Artístico

Em Rio de Onor o trabalho era máxima que imperava. artístico

 

Projecto de Felicidade

Sem dados.

 

Projecto Transfronteiriço

Rio de Onor era no fundo um projecto transfronteiriço e cuja retoma na actualidade podia ser sem dúvida uma mais valia na cooperação entre duas regiões irmãs. 

 

Continua...

 

(15) O’Neill dá também o seguinte exemplo “ durante os primeiros meses do trabalho de campo, a minha ligação com as famílias mais pobres foi vista com desconfiança por alguns dos proprietários mais abastados, enquanto um certo número de mulheres pobres me dizia que eu era o primeiro Senhor Doutor a vir a Fontelas e a falar tanto com os ricos como com os pobres” (O’Neill)

 

Artigos anteriores:

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

 

 

 

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Respigadoras,  Jean-François Millet - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Finalmente, a questão das mulheres, que jamais poderiam ser nomeadas mordomos e não existindo homens numa casa, quando muito a casa da mulher poderia ser admitida (mediante pagamento) no conselho, mas nunca nomeada para os cargos de administração, não tendo participação nas reuniões, mas embora beneficiando das regalias do conselho. Apesar de tudo isto, todos os membros eram obrigados a participar no conselho, caso contrário seriam obrigados a pagar uma multa (jeiras). Também a exigência para com os líderes era tal que a qualquer momento poderia ser convocada uma reunião extraordinária com vista à expulsão destes - seria então eleito o responsável da contestação de modo a colocar à prova as suas capacidades de chefia - interessante(11). Aliás, uma das mais-valias deste tipo de organização era que as pessoas jamais seriam confundidas com os cargos.

 

Uma outra instituição, se assim lhe quisermos chamar, eram os Homens de Rodra, designados pelos mordomos e que eram os responsáveis por fazerem quase todos os serviços fora da aldeia (compras, representações...).

 

Uma palavra para a justiça . No caso de Rio de Onor só muito raramente se recorria à justiça fora de portas (Bragança era o tribunal mais próximo). A justiça era feita pelos mordomos e quando incapazes de decidir somente por si, convocavam o conselho. Quando existiam queixas, o próprio conselho nomeava peritos internos para aferir das diferentes partes. Sempre que era impossível acusar alguém, pois desconheciam-se os responsáveis do dolo, o próprio conselho agia como força policial de investigação. Associada a esta tarefa, o conselho, fiscalizava as áreas da aldeia, como o polícia de giro.

 

Existia também em Rio de Onor um seguro mútuo gerido pelo conselho. Sempre que tinha lugar qualquer desastre grave , a comunidade poderia ser obrigada a suportar os prejuízos (12).

 

A economia rionoresa era praticamente de subsistência, vivia-se do gado, da agricultura, e os mais pobres do carvão vegetal. Nos mercados, só o gado, o trigo e o carvão tinham saída. O dinheiro advindo destas vendas era reinvestido para pagar décimas, comprar adubos, cimento, ferro, tecidos e utensílios domésticos, bem como alguma mercearia. A subsistência assentava à data também na existência de algumas casas que não fazendo parte do conselho tinham de pagar o facto de pertencerem à aldeia com outros serviços, aliás, alguns vizinhos ganhavam também algo extra com serviços que normalmente não conseguiriam ser realizados pelos habitantes de Rio de Onor.

 

A igualdade é aparentemente visível, até porque o baixo nível económico era transversal. Havia também alguma economia local: arrendamento de terras (tendo como base um sistema quase feudal), trabalhos à jeira em terras mais abastadas, além de que o conselho não negava terras a quem as quisesse cultivar, obrigando à existência de uma junta de bois que não estava ao alcance de todos (denotam-se já aqui ligeiras oscilações no conceito de igualdade). Notar contudo, que os rionoreses eram também um povo dionisíaco (Dias; 1953) pelo que as dívidas aos bancos eram grandes, sobretudo do lado português, mais gastador e mais aberto à natalidade. Nota final, para o facto do pastoreio ser colectivo e composto pelo gado dos diferentes vizinhos (boiada, Cabrada e Al Ganau-ovelhas) (13) - tudo era aproveitado, até a bosta, para estrumar as culturas.

 

Muitos destes aspectos, tiveram uma análise funcionalista , ou seja uma tendência para olhar os organismos como casos perfeitos em que tudo funciona bem, o que se veio a revelar desastroso (14).

 

Continua...

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(11) Uma outra prova de que os poderes dos mordomos não eram absolutos, prende-se com o facto de que aquando da discordância do conselho face a estes, os casos eram alvo de uma votação (bamus a deitar piedras) da qual sairia a decisão por maioria absoluta.

(12) Se uma vaca quebrasse uma perna e existindo necessidade de ser abatida, os vizinhos eram obrigados a comprar uma quantidade de carne proporcional ao número de pessoas que têm em casa e aos bens que possuem em solidariedade com o vizinho que tivera o prejuízo.

(13) O gado era recolhido todas as manhãs e levado pelos pastores para o monte, regressando ao fim da tarde. Quando existia a necessidade de passarem mais tempo fora, os pastores eram revezados por outros todas as manhãs.

(14) Além desta análise sujeita a grandes falhas, em Rio de Onor, assistiu-se, como em muitas outras aldeias a uma espécie de representação. Ou seja após a monografia de Dias, os rionorenses alteraram o seu comportamento de modo a que este ficasse intimamente ligado à escrita e análise deste. O investigador acabou por interferir nos rituais locais e com isso moldar uma cultura. Um dos principais críticos desta situação foi o já referido O’Neill.

 

Os artigos anteriores podem ser consultados aqui e aqui.

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IMG_7160.jpgExemplares de "Talas", o registo administrativo e buriocrático da aldeia (um pequeno e simpres resumo do que eram, encontra-se aqui) - Museu Nacional de Etnologia.

Fonte da Imagem: Própria

 

 

Rio de Onor foi outrora uma aldeia transmontana que, pela sua sociedade comunal, apaixonou um sem número de investigadores, nomeadamente, com o intuito de perceber e contribuir para o esclarecimento do seu modelo de organização comunitária (4) e do conceito de closed corporate community (Wolf, 1955). Estes conceitos e estudos encaixaram em comunidades de montanha, com um enorme património colectivo, na altura somente tendo como base a agricultura e o pastoreio e os seus respectivos constrangimentos, nomeadamente a organização do território (5) , as culturas, a assembleia de vizinhos (órgão de gestão e controlo), os direitos e obrigações e homogeneidade ocupacional, promovendo uma democracia participativa e igualitária assente no isolamento e no arcaísmo, aliás, conceitos muitos explorados pelos estudiosos deste tipo de comunidades, não só na Península Ibérica, mas também por toda a Europa.

 

Deste modo, Rio de Onor formava duas comunidades semelhantes entre si, e cada uma bastante homogénea. A Portuguesa com raízes mais intactas e a espanhola mais “modernizada” também por culpa das convulsões políticas em Espanha (Dias, 1953: 79).

 

Tendo em conta o lado português, a organização comunitária era assente em famílias  sendo o conjunto das diversas famílias, os vizinhos. A família tinha como base estrutural a casa - terá sido do conceito de domesticidade que se terá chegado à organização de vizinhos, ou seja, a casa abriu e deu lugar a uma lógica de reciprocidade. No entanto, e tendo em conta o conceito de família e casa, encontramos aqui uma situação que agradaria aos clássicos da Economia, sobretudo para Mill e Malthus: em Rio de Onor os casamentos eram tardios de modo a evitar famílias numerosas cujo apetite seria superior à capacidade de produção das agricola e pecuária (idem) (6). Esta situação, contudo, viria a ser invertida com o progresso  técnico que permitiu um melhor aproveitamento das terras. Todavia, nem todas as “novas” famílias poderiam participar no conselho, embora com margem para serem ajudadas por este. Não participando na definição dos destinos da terra, estas famílias quase com toda a certeza ficariam em situações de grande dependência, para além da simples marginalização que foi defendida por muitos autores.

 

Um outro pilar da organização era o conselho, ou seja, a organização de todos os participantes na propriedade colectiva integral: “até princípios do séc. XX, o conselho era a organização social que permitia a todos os habitantes comunitários de Rio de Onor fazer face aos múltiplos problemas da sua economia de povos [criadores de gado]” (Dias, 1953: 81). A propriedade colectiva era de todos, no entanto, foi alvo de uma organização rígida com regras e leis, direitos e deveres, onde não foram esquecidas as medidas coercivas através de um sistema de penas.

 

Estamos aqui perante uma alternativa política de democracia participativa. O conselho tinha também intervenção na propriedade privada, aliás muitos dos trabalhos nestas propriedades também estavam sujeitos à regulamentação do conselho. A propriedade colectiva encontrava-se dividida em terras de pastagem (monte); terras de sementeira (rocadas) e os coutos (lameiros e prados de erva).

 

Uma nota, somente para um exemplo de coesão social e solidariedade, que era o facto dos coutos, apesar de se encontrarem matricialmente em nome de alguns vizinhos cujos encargos eram por estes suportados, estavam à mercê da comunidade/conselho (7). O conselho era liderado com base num diuunvirato anual, não existindo eleições, que foram substituídas por um sistema de rotação cíclica (8). Existe ainda uma espécie de solidariedade entre mordomos, pois a cada  mudança de mandato, os mordomos antigos passavam as talas (9) aos novos detentores do cargo, procurando resolver no dia da passagem do testemunho, todos os assuntos pendentes, para que os novos pudessem começar o novo ano livre de encargos (10).

 

Continua...

 

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(4) Um dos maiores exemplos foi a monografia de Jorge Dias, que em 1948 já havia feito o mesmo para a aldeia de Vilarinho da Furna.
(5) Daqui sobressai o conceito de open field (Hoffman, 1975) e a sua origem medieval assente ainda numa espécie de sociedade feudal.

(6) Esta questão era tão levada a sério que os filhos mais novos não casavam de modo a garantir o controlo da natalidade familiar, o que em muitos casos levava a que três gerações partilhassem a mesma casa (extended family) (Dias, 1953). Jorge Dias dá-nos também um exemplo em que a economia familiar foi garantida após uma sucessão de mortes repentinas, que levaram a que somente ficassem dois irmãos. Estes de modo a garantirem uma linhagem e aqui Dias não aborda, mas também uma economia familiar e comunal sustentável, acordaram que somente um se casaria, garantido essa mesma estabilidade económica. Um deles casou e viveram todos no mesmo lar, pois era necessário ter uma mulher em casa. Mais tarde com a saída de muitos jovens, nomeadamente para o serviço militar esta situação foi sendo menos frequente.

(7) Dias, reforçando a questão da coesão aqui descrita, alertava já em 1953, que mediante o facto dos proprietários dos coutos exigirem os seus direitos sobre os mesmos, a organização sucumbiria.

(8) Nesta prática, todos os vizinhos eram obrigados a desempenhar o cargo de mordomo. A alteração deu-se segundo Dias, pelo facto de anteriormente existirem reclamações de alguns dos vizinhos que contestavam outros que eram eleitos várias vezes, em detrimento de outros que não eram nunca.

(9) Varas de madeira, onde se gravavam (de acordo com os fins a que se destinavam) a navalha, secções de intervalos iguais, correspondendo cada uma à casa de um vizinho. Cada tala correspondia a diferentes assuntos, nomeadamente rebanhos; fenos; eleições; multas; etc.

(10) A título de curiosidade, as multas eram pagas em vinho, pelo que antes de cada sessão do conselho se perguntava quem queria vinho. Em caso de resposta afirmativa, eram consultadas as talas dos devedores que deveriam pagar a sua dívida.

 

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