Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



sushi prova regia.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

 

Todavía cambian más las cosas que tenemos delante de loso ojos que las que viven sin distancia debajo de la frente. El agua que viene por el río es completamente distinta de la que se va. ¿Y quién recuerda un mapa exacto de la arena del desierto.... o del rostro de un amigo  cualquiera?

Federico García Lorca, in "Así que pasen cinco años" 

 

 

Tarde vai um Sábado onde se almoçou sushi para fugir à rotina -  entrar na comida da moda para dar descanso ao estômago - se bem que um branco de Bucelas no Inverno cai sempre bem, sobretudo numa monocasta de Arinto. Arinto... Aquela coisa que até o pior apreciador reconhece logo pelo aroma e pelo paladar. Desta vez foi um "Prova Régia" e que mesmo refrescado ao momento não desapontou.

 

Apesar de bastante trabalho, uma semana com muita actividade... No que concerne à sétima arte, dose tripla do melhor, uma da Geórgia, outra da Coreia e outra de França. Tentar perceber qual das três a melhor é um exercício demasiado complexo. Graças à quarentena cinéfila do meu adorado Nimas/Medeia consegui ver "Chantrapas" de Otar Iosseliani - um quase filme de cinema dentro do cinema e nos mostra uma realidade que, muito provavelmente já vivemos. Juntemos-lhe "Le P'tit Quinquin" de Bruno Dumont. Adorei o "Commandant Van der Weyden" interpretado por alguém que não é propriamente actor mas faz ver a muitos: Bernard Pruvost. Uma interpretação fantástica (e bem real, porque aquele senhor não está só a representar) para um filme que enquanto toca entre alguns dos males da sociedade explora o já conhecido naturalismo de Dumont. Este ainda é passível de ser visto no site da Medeia Filmes. Três horas de filme que valem cada minuto... Cada minuto até o "Commandant" virar as costas perante o olhar de Quinquin.

Dose tripla a terminar, já fora do espaço Medeia, com mais um daqueles filmes coreanos que, à semelhança dos filmes japoneses, conseguem entre a fantasia e a realidade espoletar em nós as mais profundas emoções. "Deok-Gu", mais conhecido por "Stand by Me" é uma obra prima entre a história de um avô e do seu neto e de como existem separações que não são possíveis, simplesmente... Um filme, à partida para preencher um início de noite, mas que acaba por nos deixar a pensar noite dentro. Grande obra de Bang Soo-In e uma interpretação maravilhosa de Lee Soon-jae como avô! 

Um fim-de-semana este, apimentado com Lenny Kravitz , especialmente com "Ride". Este músico é daqueles que não perde aquilo que o tornou famoso e vai conservando um estilo muito próprio sem ceder às tendências de destruição da boa música. É sempre um gosto ouvir o intérprete da brilhante "It Ain't Over Til It's Over".

Fecho com uma das minhas últimas leituras do universo García Lorca, nomeadamente duas peças extraordinárias: "El público" e a espectacular "Así que pasen cinco años". Quem já viu as duas representadas vai perceber a intensidade das mesmas e a presença do espírito de García Lorca em cada fala. García Lorca foi um génio e mais do que uma vítima da guerra civil, é um verdadeiro colosso da poesia e dramaturgia espanhola... E de uma época que, apesar de toda a turbulência, deixou a sua marca na História Mundial, sobretudo a nível político, social e claro, artístico.

asi que pasen cinco anos.jpg

Bom fim-de-semana...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do Uganda... Com dor e esperança...

por Robinson Kanes, em 05.02.21

uganda (3).jpg

Imagem: John B. 

 

 

Em nove décimos do homem o que pensa é o animal. E é com o décimo que resta que quereis reinventá-lo? Quereis? 

Mas é da parte que negais nos outros que vos servis de engodo para a pregação.

Vergílio Ferreira, in "Signo Sinal"

 

Em tempos, por estas bandas, uma espécie de indivíduo"distorce discursos", dizia-me que estava feliz com a vitória de Biden numa tentativa de "sair por cima" e com isso me fazer sentir mal, apenas porque (de forma errada devido a lacunas pedagógicas na interpretação de textos) me julgava apoiante de Trump. Tempos de delírio louco nas semanas que antecederam a eleição e que agora se esgotou numa espécie de marido que atinge o climax e se vira para o lado a ressonar - ou seja, mãos cheias de nada. Tristes aqueles cuja felicidade anda ao sabor da moda, "ovelhoas" modernos como diria John Littman...

 

Todos os dias encontro sempre algo que me faça feliz, não preciso de eleições nos Estados Unidos enquanto pactuo com ditaduras internas para encontrar algo de bom. Mas ontem, bem cedo o meu dia começou da melhor forma: O Tribunal Penal Internacional, finalmente deu como culpado de crimes de guerra e contra a Humanidade, Domonic Ongwen. Ainda sem sentença, esta besta humana foi o Comandante do "Lords of Resistance Army" (LRA) no Uganda, o que lhe permitiu cometer toda a espécie de atrocidades como raptos, violações e a utilização de crianças-soldado entre 2002 e 2004.

 

Sob a égide de Joseph Kony e da sua distorção do cristianismo (o LRA é uma espécie de Estado Islâmico versão cristã), estes cavalheiros espalharam/espalham o terror não só no Uganda mas também  no Sudão do Sul, República Democrática do Congo e República Central Africana... Três países que estão como estão, sendo que Kony é talvez o homem mais procurado de África.

 

Talvez tenha pouco interesse por estes dias, mas ainda online, o rosto de quem sofreu esta violência e medo na pele é algo indescritível num misto de alegria e pesar. A felicidade tem destas coisas...

 

Aproveitando a minha presença no Uganda, as eleições acabaram por ter lugar, apesar da contestação ao ditador-mor Museveni. O corte no acesso à internet, a prisão do opositor Bobi Wine, as mortes encetadas pelas forças ugandesas permitiram que mais uma velha besta continue no poder. Bobi Wine continua numa espécie de prisão domiciliária após as eleições, todavia nasceu uma esperança... Os jovens do Uganda despertaram e vão querer um novo país. Um dos mais jovens países do Mundo terá dado o primeiro passo para um futuro melhor e mesmo que Bobi Wine não venha a ser um líder perfeito as pessoas acordaram e estão empenhadas, quando todo o Mundo treme, em mostrar do que o Uganda é capaz e tem gente para isso... Se quiserem importar cidadãos com essa vontade para Portugal, serão bem-vindos... 

 

E falando de  importação... É absolutamente fantástico o discurso daquele povo. Aquele povo deseja arduamente que os seus jovens e melhores profissionais regressem/fiquem no país. Não defendem a emigração para a Europa, por exemplo... Não defendem muitos dos seus serem humilhados por traficantes e trabalhos de baixa linha no velho continente, querem-nos ao serviço do seu país. Por vezes chego a pensar se um país como Portugal não estará no ranking do desenvolvimento abaixo do Uganda. E é também aqui que fico a pensar num ponto extremamente importante defendido por mim e por muitos... As grandes vagas de imigração para a Europa são resolvidas a montante! É um facto que isso implica investimento e pode ser mau para o negócio que muitas ONG estão a fazer no Mediterrâneo (verdadeiras e ricas multinacionais do coitadinho), mas não está a resolver o problema. Primeiro pensa-se em como encontrar fundos, depois prolonga-se o problema e quando secarem os fundos, encontra-se outro teatro de miséria com acesso a outros fundos.

 

Hoje, sendo sexta-feira, deveria ser como já o aqui disseram, um dia mais calmo e com algumas partilhas menos pesadas neste espaço, mas talvez existam coisas que são bem melhores que um copo de vinho... Todavia, uma coisa é certa... Hoje será aberta uma garrafa de um dos melhores vinhos cá de casa e celebraremos a punição dos maus e a esperança num futuro melhor para aquele país... Tanto entusiasmo e há quem me diga que isso já é o desligar do meu próprio país... 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os Heróis da Natureza em Virunga...

por Robinson Kanes, em 01.02.21

rdc rangers.jpg

Créditos: The Jane Goodall Institute

 

A fatalidade faz-nos invisíveis.

Gabriel García Marquéz, in "Crónica de uma Morte Anunciada"

 

 

Apesar de acharmos que estamos a passar por algo único (porque nos bateu à porta "finalmente") não estamos. Lamento decepcionar aqueles que só encontram "covid" à frente e até se "esqueceram" das habituais campanhas quando existem tempestades em Moçambique como as das últimas semanas... 

 

O que não faltam são heróis neste mundo, que agora descobriu tal palavra, mas que também rapidamente a esquece tal o modo como é levada à exaustão. É inacreditável pensar que existem indivíduos que morrem a tentar defender a natureza, sobretudo habitats e animais. Na verdade, é algo que acontece praticamente numa base diária, mas os recentes acontecimentos na República Democrática do Congo (RDC) vieram mais uma vez demonstrar que as frentes de combate não se resumem a um vírus. 

 

No conhecido Parque Nacional de Virunga (o mais antigo e o primeiro "site" africano a ser declarado Património Mundial da UNESCO) seis guardas foram alvo de uma emboscada que os matou a todos de uma vez só. No ano passado foram treze, na última década cerca de duzentos! Também é moda utilizar o conceito de "linha da frente" (enfim...), pois existem muitas por esse mundo fora e desta vez o ataque foi impiedoso àqueles que defendem a vida selvagem e lutam contra o tráfico de plantas e sobretudo, neste caso em particular, contra a extinção do Gorila da Montanha, uma espécie em vias de extinção. Muitos poderão não ter noção da importância desta espécie, mas bastará, mesmo que a alguma distância, observar um animal destes para perceberem do que estamos a falar.

 

Em relação à RDC, um dos países mais "ricos" de África, já nem será necessário tecer comentários... Um mundo Ocidental em modo cataclismo só aumentará a destruição de um país, de um continente... Até um grupo de patifes no Myanmar, em paragens mais distantes, aproveitou a deixa da fragilidade Ocidental para fazer valer a sua força e com o alto patrocínio dos suspeitos do costume... Espero ver os senhores Zuckerberg e Dorsey a cortarem as redes sociais para estes senhores da guerra como o fizeram para Trump... Ou talvez não.

 

Estes rangers, como as Akashinga, são a verdadeira linha da frente da Natureza e pagam com a vida essa paixão. Num país onde a vida tem o valor de uma moeda de um euro, e o vírus actual será o menor dos problemas, o tráfico de recursos naturais chega aos 170 milhões de dólares - sendo que 47 milhões financiam milícias e grupos terroristas - um orçamento que ultrapassa largamente quem pouco tem mais do que uma automática que constantemente encrava e ainda tem de contar as munições. E desenganemo-nos quando desvalorizamos o papel destes homens na medida em que alguns já morreram a salvar cidadãos ocidentais - recordo o caso de uma senhora, a ranger Rachel Masika Baraka que perdeu a vida ao tentar salvar de um rapto dois indivíduos britânicos.

rachelmasikabaraka.jpg

Créditos: Virunga National Park (Foto de Rachel Masika Baraka)

 

Estes senhores não defendem a Natureza a viajar de veleiro e muito menos com discursos pomposos emitidos a milhares de quilómetros e carregados de nada. Estes senhores defendem com o seu sangue a própria natureza e isso merece o nosso reconhecimento e a nossa acção, porque na maioria dos casos, os milhões produzidos pela violência não são para consumo interno...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Balada do Pequeno Soldado...

por Robinson Kanes, em 13.01.21

columbano_bordalo_pinheiro_cabeca_de_rapaz.jpg

Columbano Bordalo Pinheiro - "Cabeça de Rapaz" (Museu José Malhoa)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Dei por mim, mais uma vez a tentar interpretar o Mundo, a "sofrer", afinal precisamos desse tempo, e fui catapultado nos meus pensamentos para um tema que já abordei aqui aqui.

 

Um dia de sol, não o de hoje onde os pneus já comem asfalto há muitos quilómetros e este artigo irá ser disparado, mas um outro, com vista do Tejo.  O Tejo com as suas pequenas vagas adivinhando o vento que irá entrar pela planície adentro e afastar os flamingos para as salinas. Recordo a "Ballade vom kleinen Soldaten, ou se preferirem a "Balada do Pequeno Soldado", obra de um dos mais brilhantes realizadores do nosso tempo, o alemão Werner Herzog.

 

Somos transportados para a Nicarágua dos anos oitenta, terra onde os sandinistas na sua cavalgada para impôr um regime socialista naquele país, tomaram como uma das suas frentes de batalha a eliminação dos povos indígenas, neste caso em particular os Miskito. Nada de novo numa ideologia que procura limpar a História e o que dela resta, mesmo que tal testemunho tenha a forma de um ser-humano.

 

Recordo aquele pequeno soldado que abre o "documentário" e também o "Dia Mundial dos Povos Indigenas". Foi no dia 09 de Agosto, por sinal, o dia em que escrevo este texto. Poucos se terão recordado da data, é impossível chegar a tudo. Sem perceber porquê, e perdoem não ter uma história cheia de epifanias para contar acerca de, os meus pensamentos foram levados para esta obra de Herzog. Talvez culpa dos meus pais, da minha irmã, que me carregaram de realidade e nunca tiveram qualquer pejo em mostrar-me o que era o Mundo. Até aquilo a que memória me alcança, vejo-me a absorver todo o tipo de documentários na televisão, para o bem e para o mal. Sangue, morte, fome... Nunca foram um problema que levasse os meus pais a desligarem a televisão, a tirarem-me um livro da mão ou até a orientarem o caminho que percorria, bem pelo contrário. Bem, a minha mãe...

 

Na Nicarágua dos anos 80 e até 90, estes pequenos guerreiros formaram batalhões inteiros, muitos deles porque só tinham esse destino  - destino, não raras vezes, desenhado pelos pais e pelos desejos de vingança. Podemos tecer todo o tipo de comentários anti-violência, eu próprio os faço, mas explicar isso a quem vê toda uma aldeia ou vila incendiadas, os seus habitantes (independentemente de serem homens, mulheres ou crianças) serem fuzilados não é de todo a tarefa mais fácil do Mundo... O "olho por olho, dente por dente" tende a ser mais forte.

 

Quiçá por isso recorde um amigo de alguém cá de casa que fugiu de um país da América Latina com a família. Diz-nos ele que, naquele país, todos sabem que existe um projéctil com o seu nome, é uma roleta russa.

 

Crianças fardadas e prontas para a guerra, é dos crimes mais hediondos que se podem cometer. É ver a infância roubada, mesmo que as hipóteses de atingir algum nível de felicidade sejam baixas. Ver crianças que já perderam tudo e se transformaram em máquinas de guerra ou simplesmente carne para canhão deveria chocar, fazer-nos tremer! Ainda são milhares - e sabemos como as estatísticas são generosas nestes números - as crianças que sabem manejar um morteiro ou uma automática melhor que a maioria da população adulta. Provavelmente, quandos os nossos filhos brincam na rua e fazem o "pfiii pxiiiiu" com uma arma de plástico, outros sentem o som dos projécteis a passar-lhes por cima e sentem a dor de ver a pela rechassada por um ferro a alta velocidade ou por uma explosão. Enquanto os nossos filhos dão à costa embalados pelas pequenas ondas e riem, outros dão à costa ou à margem de rios crivados de balas.

 

A somar a tudo isto, porque isto é "só" uma consequência de, é importante que olhemos para os povos indígenas deste mundo. Em alguns casos, é lá que está a nossa história como seres-humanos, como homens que somos - simplesmente ignoramo-los como o faríamos se hoje em dia Edison fosse vivo e tantos outros pioneiros do nosso bem-estar. Não basta andar vestido em tons tribais e achar-se um cidadão mais para a frente, bastará afinal, saber que estes povos existem, até porque, numa época em que algumas vidas interessam, talvez fosse mais humano perceber que todas as vidas importam, mesmo aquelas cujas raízes ancestrais jamais deverão ser esquecidas ou destruídas. Mesmo aqueles cujos descendentes já não são mais que um pequeno grupo de dezenas ou centenas.

 

Olho o horizonte e acompanho o pequeno soldado, cuja Kalashnikov mais parece uma viola e onde o olhar de criança é corrompido por um olhar vazio e triste de menino soldado...

 

(...)

Que te pasa chiquillo, que te passa

Me dicen en la escuela y me preguntan en mi casa

Y hasta ahora lo supe de repente

Cuando vi pasar la lista y ella no estuvo presente 

Ella de la mochila azul

la de ojitos dormilones

Me dejo gran inquetud

Y bajas calificaciones 

Ni al recreo quiero salir

No me divierto con nada

No puedo leer ni escribir

Me hace falta su mirada

De recuerdo me quedan sus colores

Dos hojas del cuaderno dice amores entre borrones

Yo quisiera mirarla en su pupitre

Porque si ella ya no vuelve mi salon sera muy triste

(...)

Bulmaro Bermúdez, "La  de la Mochila Azul"

 

(Publicado originalmente a 11 de Agosto de 2020 no espaço SardinhaSemLata)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pedalar a Ecopista do Tâmega (1/2)

por Robinson Kanes, em 04.01.21

ecopista tamega.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A manhã estava quente, o mês de Agosto por terras do Baixo-Tâmega não costuma ser suave. Deixava Cabeceiras de Basto e estacionava as quatro rodas na Estação de Caminho-de-Ferro do Arco de Baúlhe, freguesia do mesmo concelho. Todavia, mesmo ali ao lado do Museu das Terras de Basto, uma interessante recuperação da estação ferroviária (encerrada em 1990). O objectivo deste dia era chegar a Amarante de duas rodas percorrendo a Ecopista do Tâmega, umas das mais belas e que mais me surpreendeu. Sobretudo porque tinha uma parte do percurso em terra batida por causa das obras da barragem.

 

A Linha do Tâmega, foi inicialmente denominada de Caminho de Ferro do Valle do Tâmega, ligava a estação de Livração (Marco de Canaveses), da Linha do Douro, à Estação de Arco de Baúlhe em Cabeceiras de Basto. Esta foi desactivada em 1990 o que veio a dar na actual ecopista que liga Amarante a Arco de Baúlhe (troço Livração-Amarante não está disponível).

 

Em 2007 as Autarquias envolvidas, a REFER (agora Infraestruturas de Portugal) e o Estado assinaram um protocolo que resultaria na construção da Ecopista da Linha do Tâmega, uma via que atravessa três Municípios ao longo de 50 quilómetros, Amarante, Celorico de Basto e Cabeceiras de Basto.

ecopista tamega (3).jpg

Esta Ecopista percorre uma das mais belas linhas ferroviárias do país, permitindo o contacto directo com o património histórico e natural envolvente, nomeadamente as muitas aldeias e pontes que encontramos ao longo de toda a sua extensão, as paisagens verdejantes de inigualável beleza e oRio Tâmega, ex-líbris desta região. Este projecto, que se inclui na Rede Europeia de Vias Verdes, tem o seu início ao km 12,467, na cidade de Amarante, e término ao km 51,733 no Arco de Baúlhe.

 

Começo a etapa  que levaria 100 quilómetros. A extensão oficial do trajecto é de 39 km, ou seja, um percurso ida-e-volta pode ficar pelos 80/85 km.

ecopista tamega canedo.jpg

Começar no Arco é já um bom motivo para fazer o percurso, a beleza da estação é qualquer coisa e os primeiros quilómetros apetecem, com pequenas inclinações, nada de muito difícil até Vila Nune e com uma passagem por cima da A7 onde temos uma vista de montanha e vales com algumas passagens por zonas de vinha - o Tâmega não anda longe. A paragem seguinte é no Apeadeiro de Canedo, e aqui começamos a encontrar as belas estações que se mostravam ao longo da linha. Com esta imaginação sempre fértil, não consigo deixar de pensar no bulício, embora mais contido, que outrora caracterizara aquele lugar. Se há coisa que me deixa num misto de paixão e tristeza são as estações desactivadas. Devem ser dos locais com mais histórias para contar, não só pelos que frequentavam as mesmas mas também por aqueles que ainda lá viveram. Ainda tive oportunidade de conhecer alguns, sobretudo na zona Centro e as histórias são tantas. Talvez tema para um destes dias...

IMG_3874.jpg

Senhores passageiros, a próxima paragem será Mondim de Basto, passando ainda por Padredo. Não existirão passeios tão encantadores como este quando por um caminho lindíssimo em que pelo meio de hortas, pequenos lugares, alguns monumentos, temos sempre a companhia do Monte da Senhora de Graça, o que, para quem estiver de bicicleta ainda tem um gosto mais especial. É como se subíssemos o Monte de uma outra forma, é como que desta vez não fosse propriamente uma luta entre o homem e altitude, mas um passeio lado-a-lado. Simplesmente deslumbrante! É também no concelho de Mondim de Basto que encontramos algumas das mais interessantes vistas do percurso e a belíssima estação - além de outras, pensei em tempos num projecto para a mesma tal a beleza da infraestrutura bem como as vistas e a proximidade com as duas pontes que são um dos atractivos do percurso. Passaria dias inteiros à varanda da estação, com um Hendrick's e um livro a apreciar aquela paisagem.

ecopista tamega (1).jpg

As Terras de Basto têm um encanto tão especial, sobretudo no território de Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena onde já não temos sequer noção de estar no Minho e nos sentimos transmontanos. Nas pessoas, quer pela sua austeridade e bravura quer pela simpatia e humildade, não há como negar o lado mais transmontano. Não falarei de gastronomia porque aí, de facto, é mais que notório e a passagem a Montalegre, por exemplo, nem se faz notar quando entramos em Salto

ecopista tamega (2).jpg

Mondim atrasa-me as contas em termos de horário, além disso, esperam-me as iguarias da Dona Lídia no regresso a Cabeceiras, mais propriamente para os lados de Cavez. Vou chegar atrasado, tenho a certeza...

 

Continua...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adiós Viejito...

por Robinson Kanes, em 30.12.20

armando manzanero.jpg

Créditos: https://www.latercera.com/culto/2020/12/28/murio-armando-manzanero-tocado-por-la-mano-de-dios/

 

Aprendí que puede un beso
Ser más dulce y más profundo
Que puedo irme mañana mismo de este mundo
Las cosas buenas ya contigo las viví
Y Contigo aprendí
Que yo nací el día en que te conocí

Armando Manzanero, Contigo Aprendí (Excerto)

 

 

O ano acabou com mais uma perda. Talvez esta não seja digna dos holofotes que outros mais inúteis tiveram, mas na verdade, depois de ter sabido da notícia via ABC (Espanha), encontrei pequenas menções ao facto em Portugal, muito pequenas... mas encontrei, algumas delas com um bom delay.

 

Armando Manzanero, músico e compositor mexicano morreu aos 85 anos. Aquele ar simpático ainda jovem e que se prolongou durante a idade adulta até ao dia em que perdeu a vida. Manzanero não é propriamente o estilo de cantor que um europeu da minha idade pudesse escutar, todavia, cresci a ouvir o senhor, não fosse presença em casa dos meus pais. Tenho de admitir que muitas das suas músicas são verdadeiros hinos que ecoaram por toda a América do Sul e em Espanha onde é admirado ao nível dos melhores cantores e músicos daquele país.

 

Com Manzanero, senti que partiu mais um pouco da minha infância, que o meu cemitério teve mais uma campa e que já precisa de um certo alargamento. Penso que também se perdeu mais um verdadeiro músico, de músicas com conteúdo, de músicas imemoráveis, daquelas que ainda nos lembramos ao fim de um mês ou até mesmo depois de abandonarem as rádios ou redes sociais porque já esgotaram a paciência dos ouvintes ou sobretudo porque já ninguém paga para que as mesmas lá estejam...

 

É o fim de mais um romântico, de alguém que escrevia e percebia de música. É a magia intrínseca das suas baladas e uma entrega única que tem vindo, e agora mais, a ser interpretada também por tantos outros músicos. 

 

A morte de Manzanero foi anunciada com "Adoro", todavia, prefiro despedir-me deste cavalheiro com outras duas músicas, uma que me apaixonou já em idade para ter juízo e outra que muitas vezes escutei lá por casa. Começo com "Contigo Aprendí", uma das músicas que nunca esquecerei... e termino com "Nada Personal", um dueto com Lisset e que chegou a ser tema de uma novela... Ninguém é perfeito...

Armando Manzanero fará parte da banda sonora desta passagem de ano com toda a certeza... Desta e de tantas outras, porque afinal, não foi só Manzanero que morreu. Do México, resta-me agora uma das suas melhores vozes, a ainda muito jovem Natalie Lafourcade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Sarah no SardinhaSemLata

por Robinson Kanes, em 22.12.20

uganda-2132664_1920.jpgCréditos: David Peterson / pixabay.com

 

Hoje é dia de escrevermos no SardinhaSemLata... E é só isso...

Passem por lá, é só clicar aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Forte de São Filipe... Um Retiro...

por Robinson Kanes, em 21.12.20

forte sao filipe (1).jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

Se me perguntarem qual um dos melhores spots em Portugal para passar um fim de tarde, não terei dúvidas em responder que esse lugar é o Forte de São Filipe em Setúbal.

forte sao filipe.jpg

Foi pousada, esteve fechado e há poucos anos foi devolvido ao público. Estamos perante uma das melhores coisas que se fizeram em Setúbal nos últimos tempos. Durante um dia de semana, os finais de tarde, especialmente em dias quentes, adquirem uma sensação incomparável. Entre uma bebida e um passeio pelo espaço, é o local ideal para reflectir um pouco, para sofrer até e para contemplar o Sado, o Castelo de Palmela, a cidade de Setúbal e claro, Tróia e todo um oceano. A capela é também um espaço de obrigatória visita, aliás, das mais bonitas que podemos visitar no nosso país, o verdadeiro exemplo do small is beautiful.

forte sao filipe (2).jpg

Entre um copo e boa companhia, Setúbal, lá em baixo, retoma o caminho do desenvolvimento a que tem sido exposto nos últimos anos. A cidade tem todo o potencial para se tornar uma das grandes urbes do país, sem esquecer o potencial turístico. Esperemos que assim continue.

forte sao filipe (3).jpg

Gosto do forte, da esplanada e de tentar encontrar entre a serra, uma outra esplanada igualmente interessante em Palmela (um dia lá iremos). A bebida convida à conversa, a conversa convida à bebida e o tempo vai passando, partilham-se histórias e claro... bebe-se. Deixo, normalmente o moscatel roxo para segundo plano, é coisa que nunca falta em casa e deixo-me levar pelas ideias de quem está no bar. Tudo menos whisky, que na minha opinião em particular, é uma bebida péssima e bebe-se só para se dizer que se é importante. 

setubal.jpg

Gosto do Forte, permite que o Pastor Alemão entre, e acreditem que este é uma verdadeira companhia para aqueles momentos em que temos de pensar, beber e tomar decisões. Embora tenha quase a certeza que o alsaciano prefere andar no meio da Arrábida do que propriamente a aturar as epifanias do companheiro humano.

troia.jpg

O vento tende, pontualmente a ser uma presença, mas neste espaço, entre folhas a voar, tout disparaîtra mais, mais le vent nous portera, como cantaram os Noir Désir. Maintenant le vent me portera para a saída... Entre abraços, sorrisos, patadas e gente boa, é hora de descer à cidade e quiçá terminar a tarde num dos excelentes restaurantes desta cidade...

setubal (1).jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Pandemia de Gates e dos Eternos Confinadores...

por Robinson Kanes, em 17.12.20

lockdown-Italy-800x450.jpg

Créditos: https://www.euractiv.com/section/coronavirus/news/italy-to-extend-coronavirus-lockdown-until-easter-as-new-cases-fall/

 

O sentido implica a proporção; os excessos pelo contrário, apenas causam dor e destruição.

Aristóteles, in "De Anima"

 

 

Não quero ser uma espécie de moderador entre uma CNN e uma Fox News, todavia, ao escutar ou ler as palavras de Bill Gates acerca da pandemia, existe sempre qualquer coisa que me deixa inquieto. 

 

Bill Gates foi alguém que desde o primeiro momento da pandemia se mostrou deveras preocupado com toda a situação e mostrando o maior empenho na resolução do problema. É um dos homens mais ricos do Mundo (e não é má pessoa), tem uma fundação (é o maior financiador independente na luta contra a Covid-19 com 650 milhões de dólares investidos) e tudo isto também é bom para o marketing da Microsoft, nada a apontar. Também estou perfeitamente de acordo quando Gates afirma que a pandemia deixou os países pobres num estado ainda mais pobre e que a pandemia não irá durar para sempre. Ao contrário de Gates, prefiro ser mais cauteloso em relação à normalização da mesma - Gates apontou há pouco tempo o Verão de 2021.  O multimilionário foi um dos críticos da política de Trump em relação à pandemia, tendo inclusive criticado a política de encerramento de fronteiras dos Estados Unidos com a China e a Europa que, segundo o mesmo, foi um desastre.

 

Todavia, Gates é o mesmo que defende um confinamento alargado (Bill Gates não é profissional de saúde) e que é fácil para alguém que fundou a Microsoft não ter problemas com lockdowns - em Outubro o revenue chegou aos 37.2 biliões de dólares nos resultados trimestrais (aumento de 12%). Nas últimas palavras aponta para algo até 6 meses, no mínimo. Digamos que até é bom, a Microsoft pode continuar a cortar nos custos e a vender mais software, numa clara adaptação aos novos tempos (desde que não forcemos demasiado os tempos). Gates também colocou nos Estados Unidos o ónus de suportar a pandemia para lá de 2022 até que os países mais pobres possam ficar estabilizados e até a própria economia mundial. Não quero, neste caso, pegar nas palavras muitos dos que defendem que se a China criou o vírus deveria também pagar os custos, mas é no mínimo caricato que o ónus esteja a ser colocado a Ocidente e seja quase um sacrilégio afirmar que a China merece uma investigação.

 

Não questionando Gates, até porque tenho o trabalho deste senhor em boa conta, é preciso recordar, e incluo muitos adeptos do "fique em casa até morrer", que é óptimo passar um confinamento quando estamos a ganhar dinheiro com a pandemia. Também é óptimo estar em confinamento quando a nossa casa ocupa um quarteirão, temos piscina e uma sala que parece um space shuttle. Também poderei falar daqueles que acreditam que o Estado tem recursos infinitos e que portanto o dinheiro nunca vai acabar. Estados paternalistas adoram, e cidadãos que esperam tudo do Estado também. Vamos continuando naquela que, em gstão de catástrofe, se chama a fase 1 de relief.

 

Finalmente, enquanto tomamos o pequeno-almoço de Natal aos conselhos do George Villiers português, continuamos a ignorar as consequências para a saúde mental e para a "saúde social" dos confinamentos (já sem falar na económica), porque não é preciso ser especialista em saúde pública para chegar à conclusão que saúde pública não é só Sars-Cov-2, é também todos os efeitos da doença. Na verdade, é apetecível que passemos as nossas vidas agarrados a videojogos, séries de televisão e a uma inundação de informação que ao invés de nos dar empowerment e espírito crítico, só nos faz sentir inteligentemente estúpidos, no entanto, o Homem (essa natureza em perigo como nos disse Behlen), a Saúde e o Mundo são muito mais que isso... 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Erinnerungen an Berlin...

por Robinson Kanes, em 16.12.20

berlim .jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

Passam agora pouco mais de seis anos desde aqueles tempos em Berlim... Dei comigo a pensar naquela época e no pequeno Mercado de Natal na Alexanderplatz, bem pertinho do Sony Center. A noite que agora me vem à memória, colocava, no segundo, o lançamento na Europa de um dos grandes êxitos cinematográficos da época - um Harry Potter qualquer. Mas era no mercado que queria estar, uns minutos antes de jantar num restaurante que fazia umas massas na hora. Massas apetecíveis, sempre repleto de gente animada, contrastando com alguns restaurantes da área. Além disso, era mais barato e quando o dinheiro não é meu, não gosto de esbanjar, afinal tenho sempre de jantar e é orçamento do esforço de todos, além de que a minha estada era bastante longa...

 

Estreava na época um sobretudo que me ajudou a combater o frio de Berlim e acima de tudo a aguentar os passeios nocturnos perto do Marriott em Alexanderplatz. Do ir e vir até ao Reichstag, do piscar de olhos às embaixadas russas e americanas e como não poderia deixar de ser, entrar na noite com algumas passagens pela Friedrichstraße para me perder na "Dussmann Kulturkaufhaus" e escutar alguns amadores do piano a tentarem a sorte. Não poderei esquecer as fortunas que aí deixei em livros e CD (e excesso de bagagem). A obra completa de John Sebastian Bach da BachAkademie, dirigida por Helmuth Rilling e distribuída pela histórica Hänssler ainda hoje faz as delícias cá por casa. Desfrutava do Mundo, essa casa dos mortais como nos fez perceber Heidegger.

 

Alexanderplatz "era" uma área com uma pujança tremenda em termos de novas construções, modernos edifícios, confortáveis e abertos, sem esquecer um evento inesquecível numa estação de metro acabada de construir e onde, à boa maneira alemã, uma das áreas ficou em tosco, antecipando um aumento de tráfego no futuro. E como nada se desperdiça, um evento singular na estação de metro que ainda hoje recordo... Serviu de inspiração, contra tudo e contra todos, para realizar algo semelhante em Portugal e que foi um sucesso. Não foi algo muito falado, também não era essa a ideia.

 

Todavia, era ao fim do dia, entre as massas, o mercado e a boa companhia que gostava de estar. Era no percorrer as ruas vazias e austeras da cidade e de entrar naquele jardim densamente arborizado e escuro que se seguia às Portas de Brandemburgo, depois de ter percorrido a Unter den Linden, que gostava de me entregar a Berlim. Esses momentos só eram igualáveis ao pequeno-almoço no simpático restaurante do hotel com vista para a avenida e para os transeuntes que logo pela manhã se dirigiam para o trabalho. Local deveras interessante... Encantador e singelo, mas sedutor o suficiente para sentir a nova Berlim de tal forma que, sempre que possível, esse pequeno-almoço alongava-se por três ou mais quartos de hora. Nesta zona era difícil imaginar a Berlim de outros tempos, a única coisa que poderia almejar dada a minha idade. Todavia, a viagem de comboio de Schönefeld (entretanto encerrado) até ao centro aguçou-me a curiosidade: a escuridão das folhas das árvores, a lama, as valas com águas negras e uma imensa sensação de ainda estarmos do lado de lá do muro.

 

Tempo para um aparte, pois recordo-me que meti conversa com um suíço, de Zurique mas que residia em Berlim, ainda no aeroporto por causa do táxi. Acabei a acompanhá-lo no comboio. Falou-me que Berlim estava agora, em pleno século XXI, a modernizar-se muito por fruto das poupanças dos alemães ao longo do século XX e primeira década do novo milénio. Brinquei com Portugal que recebia milhões há muito, inclusive dos contribuintes alemães e teimava em não dar o salto. Riu-se, julgo, não tenho dúvidas que pensou que eu estava a brincar...

 

Foi numa dessas manhãs entre croissants e uns ovos que fiquei a reflectir no que me disse um alemão no dia anterior, depois de uma pergunta minha acerca da eficiência dos membros da sua equipa... "é muito simples, equipas motivadas, apaixonadas pelo trabalho e onde cada um sabe muito bem o que tem de fazer". É muito simples, de facto... Mas ao mesmo tempo, para alguns parece ser tão complexo, tão difícil e penoso de modo a que ninguém tente harmonizar o processo. Parece um pensamento para artigo de recursos humanos ou LinkedIn, mas se o fosse provavelmente seria apenas conversa e total inacção. 

berlim.jpg

Na minha memória faz-se noite, volto ao mercado, faço umas compras mais locais e no centro comercial diante do mesmo, algo mais internacional. Bebo Gluwien, como os melhores lebkuchen da minha vida - e se algo desperta em mim o cookie monster, são as lebkuchen - e percebo que numa língua à época totalmente desconhecida, acabei por compreender muito daquilo que sou hoje e encontrar na frieza alemã um acolhimento singular... Das gargalhadas mais sinceras que já presenciei hoje foram aí mesmo... em Berlim...

 

Acabo esta noite a ouvir Severija, uma lituana com um bom alemão e que me deu a conhecer a banda sonora de "Babylon Berlin" com "Zu Asche Zu Staub"... Berlim traz-me boas memórias...

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sardinhas em Lata

Todas as Terças, aqui! https://sardinhasemlata.blogs.sapo.pt/

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Mensagens






Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB