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Fonte de Imagem: Associated Press

 

De resto, nós não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos.

Albert Camus, in a Queda

 

 

São oito horas da manhã, acabo de chegar ao carro depois de um passeio pela praia com o meu cão, ligo o rádio e escuto: 43 mortos e 59 feridos no incêndio de Pedrógão Grande (última actualização a 21/06: 64 mortos e mais de 179 feridos + 25 em Góis)! Muitos dos mortos morreram ao tentar fugir das chamas dentro das viaturas!

 

Não sei o que dizer! Por muito que tenha um Primeiro Ministro que, perante a ausência de uma equipa de comunicação não consiga ter um discurso à altura; por muito que tenha um presidente de afectos e do povo (mas sem perder o discurso burilado) que, sem informação concreta e sempre na busca de protagonismo, tem como primeira abordagem dizer que a culpa é do tempo; por muito que tenha um presidente da Liga de Bombeiros que ocupa uma “centena” de cargos neste país e salienta que é a natureza revoltada a causa de tantas mortes, só me apraz dizer: VERGONHA!

 

Vergonha de todos os anos ser a mesma coisa! Vergonha de ir constantemente a Espanha e, quando o tema são os incêndios, indagarem como é possível num país como o nosso! Estar em Plasencia, local árido e debaixo de 43 graus e me dizerem que não têm medo dos incêndios mas sim daqueles que podem chegar do outro lado da fronteira! Vergonha de ouvir promessas, de ver o meu povo a entrar em depressão porque não tem lugar para colocar a toalha na praia ao invés de exigir mais àqueles que nos governam! Vergonha de ver um lobby de indústrias e de associações (incluo aqui muitas corporações de bombeiros e outras associações de cariz solidário) a continuar a facturar com a miséria daqueles que vêm os seus bens ou as suas vidas destruídas pelos incêndios! Ver a total displicência dos altos cargos da nação visivelmente comprometidos e numa posição de “sacudir água do capote”, do seu e de outros! Vergonha de ver os mesmos oportunistas de sempre a pedirem donativos para as vítimas dos incêndios (não darei um euro)! Vergonha de não existir uma clara aposta na prevenção! Vergonha pela ausência de meios! Vergonha por ver helicópteros e aviões parados por falta de milhares para a manutenção, quando as frotas de viaturas de luxo do Estado são renovadas constantemente e até se pagam subsídios mensais de €40.00 a motoristas para lavarem as mesmas (e ai de quem ousar retirar tal subsídio). Vergonha de ver alguém (sem formação sequer na área) arrecadar €15.000 para “estudar” a compra de uma viatura táctica de combate a incêndios que custa pouco mais que esse valor! Vergonha de ver reinar uma sensação de impunidade e o compadrio provinciano ao qual também estão sujeitas entidades da protecção civil! Vergonha de ver um povo que se revolta mais se o país vizinho levanta um processo a um jogador de futebol por fuga aos impostos e até aplaude a corrupção em muitas áreas (com a célebre desculpa do “se não for assim”) e não é capaz de pedir mais ou assumir uma posição em relação aos destinos do seu país, sobretudo quando está em chamas! 

 

Onde estão os pais que tanto apregoam amar os filhos mas não se preocupam com as gerações futuras? Onde estão as acções concretas para mudar o rumo das coisas? Onde estão os cidadãos? Partilhar a “porcaria” de lamentos e cruzes nas redes sociais não muda a situação! Torna-vos (na vossa cabeça) mais aceites pelos outros, mas é só isso! Porque é que entre os países do sul da Europa, Portugal é o único a ver a sua área florestal a decrescer (30%!!!)? E a questão do corpo de guardas florestais? Porque é que só se fala de incêndios no Verão? Porque temos sempre a sensação de que a abertura da "Época de Incêncios" é uma espécie de "vamos lá que isto agora é que vai ser"?

 

Já chega! É preciso dizer basta!

 

Onde estão cumpridas as promessas do ano passado, feitas à pressa e com tanta pompa e circunstância (e com o país em chamas) por parte de Primeiro Ministro e Presidente da República? Não chegam sorrisos e afectos! Num mundo onde os sorrisos e as palavras soltas valem mais que acções concretas, temos de começar a pensar nos riscos e nos prejuízos da inoperância prática! Ignorarmos os factos e focarmo-nos na autopromoção e no discurso elaborado, sobretudo nesta temática, está a destruir o país! Onde estão os resultados? As coisas não acontecem com demagogia e afectos, bem como o mundo não avança com selfies! Se tivermos noção que aqueles que devem fazer algo o estão a fazer, passamos bem sem abraços e beijinhos!... Ou talvez a nossa preferência se fique efectivamente pelo folclore digno de filmes satíricos balcânicos.

 

Não digam também, às famílias daqueles que morreram que a culpa é do tempo, quando a ausência de trabalho e prevenção são notórias. Até poderão ter sido as condições meteorológicas, mas todos os anos? Tenham a vergonha de nem sequer aparecer junto dessas famílias! Não são discursos dignos de eucaristia a horas de telejornal que mudam as coisas! A responsabilidade de termos um país mais dia menos dia, transformado em carvão é vossa!

 

Eu tenho vergonha... Porque a culpa também é minha! Porque os culpados somos todos nós! À data, sinto que também sou responsável pela morte deste número de pessoas e isso envergonha-me!

 

 

 

 

Ainda a digerir esta situação, este espaço vai estar parado durante os próximos dias... Até porque o ano passado disse convictamente que uma desgraça muito, mas muito grande um dia iria acontecer a propósito do nosso “desprezo” pela questão dos incêndios... 

 

Últimas notas: a todos os que lutam contra a chamas com sentido patriótico enquanto, muitas vezes, outros sem qualquer preparação os empurram para o inferno, as minhas palavras de profunda ADMIRAÇÃO! Já escrevi sobre isto aqui. Lutemos! Agora, de facto, é o melhor a fazer.

 

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Dijsselbloem ou Dissaborem?

por Robinson Kanes, em 23.03.17

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Gerrit van Honthorst, O Violinista Alegre (Museu Thyssen-Bornemisza)
Fonte da Imagem: Própria

 

Racismo: teoria sem quaisquer fundamentos científicos que defende a existência de uma hierarquia entre grupos humanos, definidos segundo carateres físicos e hereditários como a cor da pele, atribuindo aos grupos considerados superiores o direito de dominar ou mesmo suprimir outros considerados inferiores,

racismo in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 16:15:58]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/racismo

Xenofobia: antipatia ou aversão pelas pessoas ou coisas estrangeiras; preconceito ou atitude hostil contra o que é de outro país

xenofobia in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 16:16:47]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/xenofobia

Sexismo: discriminação de pessoas ou de grupos de pessoas de determinado sexo, feita com base em noções de superioridade de um sexo sobre o outro (geralmente do masculino sobre o feminino)

sexismo in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 20:28:56]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/sexismo

 

E o senhor Dijsselbloem, “dijsse” aquilo que ninguém queria ouvir...

 

Não é em Amesterdão que as prostitutas são colocadas em montras como carne no talho? Já estive no Red Light District e foi o que vi. Também estranho é o coro daqueles que achavam ser muito para a frente essa forma de actuação agora criticarem a mesma. Também não é na Holanda que se assistem a autênticas pielas que chegam a acabar com corpos a boiar no rio ou no mar? Isto para dizer que alguém tem de olhar para dentro de casa antes de atirar uma pedra à janela do vizinho... mas o vizinho também...

 

Nem vou para Espanha, nem para Itália (que na defesa dos países do sul nem mencionou Portugal), França (sim, também é um país do sul), Grécia, Malta ou Chipre. Vou ficar pelo nosso país.

 

Reparo que Primeiro-Ministro, Governo, Presidente da República, deputados e outros ficaram bastante ofendidos com as palavras do "Sr. Dissaborem". O "Dissaborem" só teria feito sentido se alguém dissesse que os portugueses são um povo que gosta de brinquedos caros (citando um antigo embaixador Americano em Lisboa) e de luvas.

 

Censuro a atitude, mas acusar ao mais alto nível diplomático uma opinião vulgar (infeliz ou não) e catalogar a mesma com conceitos de racismo, xenofobia e sexismo não é ir longe demais?

 

Hoje em dia não posso dizer que gosto mais de "Paella" do que de "Cozido à Portuguesa" que já estou a ser xenófobo! Também não posso dizer que não gosto de porco preto porque estou a ser racista! Não posso chamar preguiçoso a um nórdico, porque este vai partir do principio que estou a dizer que o mesmo é magrebino. E em Portugal? Não existem prostitutas? Mas onde é que está uma ofensa às mulheres? Quando muito é aos homens!

 

O circo, contudo, permite a alguns países desviarem as atenções de temas, esses sim que mereceriam uma palavra, pelo que… pergunto?

 

Que nome se dá a um indivíduo que diz que o um país tem milhares e milhares de casos de crime de colarinho branco provados e só umas poucas dúzias de penas aplicadas?

Que nome se dá a um Governo que sustenta Secretários de Estado que se deixaram comprar a troco de bilhetes de futebol e continuam no Governo em processo sensíveis com as mesmas organizações que pagaram os bilhetes e as viagens?

Que nome se dá a uma política totalmente corrompida e ao serviço de aparelhos partidários ao invés dos interesses da res publica?

Que nome se dá a um Primeiro-Ministro que acusa um Ministro das Finanças de Racismo e Xenofobia, mas é oriundo de um país (à época sob governação portuguesa) onde o sistema de castas vigora? Aliás, o mesmo esteve lá recentemente e não o vi chocado.

Que nome se dá a um Presidente da República que dá um puxão de orelhas a um ministro porque este não deu o dinheiro dos contribuintes para que os amigos continuassem a ter um teatro que não era rentável?

Que nome se dá a um país que, ao invés de limpar a casa dentro de portas, insiste em mostrar-se lá fora com uma propaganda que desaponta muitos empresários estrangeiros quando estes se debatem com a realidade intra-muros?

Que nome se dá a comissões de inquérito a bancos e off-shores que não trazem resultados e perpetuam a impunidade?

Que nome se dá a um Primeiro Ministro que alegadamente tentou obstruir a justiça num caso de pedofilia?

 

Pedofilia: atração sexual patológica de um adulto por crianças

pedofilia in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 16:37:48]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/pedofilia

 

Foram comentários infelizes, mas não temos moral para punir alguém que deu um soco em outrem, com um pelotão de fuzilamento e… sobretudo, quando os vidros do nosso telhado estão a estalar. Os comentários a que tenho assistido mostram uma resposta de metralhadora a alguém que nos arremessa pedras. Quem são os piores?

 

E porque não pensar que, tendo em conta o meio onde o Sr. Dijsselbloem se move, que é a política, não é também daí que encontra uma base para os comentários?

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