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It's Wonderful... Via con me...

por Robinson Kanes, em 02.11.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Os hábitos são fáceis de criar, mas muito difíceis de quebrar.

Paul Dolan, in "Projectar a Felicidade"

 

Um Domingo a pensar no presente... Dou comigo a desejar as últimas gotas do FIUZA Cabernet Sauvignon de 2016 e a deixar-me envolver por sons que me acompanharam ao longo de toda a vida... Alguns mais recentes, outros recordações de um passado que nunca vivi mas que chego a ter saudades, estranha sensação... Talvez por isso, me sinta tentado a partilhar um pouco daquilo que são mais algumas músicas da minha vida e que ontem me acompanharam, entre um tinto e umas festas ao Pastor Alemão.

 

Começo a disparar com Paolo Conte... A música italiana sempre presente na minha vida, não posso deixar de passar a sua poderosa voz em "Via con Me". Um colosso da música para se degustar entre um copo de vinho e uma prosa de Tomasi di Lampedusa... E que colosso!

Não me distancio muito e acabo nos anos 80 em Bordéus para me deixar levar pelo vento da Nouvelle-Aquitaine. É lá que encontro a música dos Noir Désir e como não poderia deixar de ser. É impossível passar ao lado de "Le Vent Nous Portera". Tenho vontade de me fazer à estrada, ir contra todas as regras e apenas parar no Farol de Cap Ferret... Sinto-me "L'Homme Pressé", mais um dos temas desta banda...

De volta a Itália, sem saber ler nem escrever e ainda limitado na minha capacidade de interpretar músicas, existem cantores e compositores que nunca se esquecem, não tivesse uma irmã, aliás duas, com idade para serem minhas mães. Zucchero tornou-se uma voz que sempre andou lá por casa, pelo menos enquanto uma delas não "aparolou". Passa "Oltre le Rive". Na dificuldade em escolher uma só...

Por estes dias, um ou outro elemento que tem a paciência e o mau gosto de me acompanhar noutras paragens, terá lido a letra desta música. Tão actual e tão verdadeira. Ontem dançou-se ao som desta música, ontem apeteceu-nos pegar na bandeira francesa e caminhar qual turba de Delacroix em direcção a esse, cada vez mais, mito! Efeitos do FIUZA, por certo... Falo de Jovanotti, esquecido em Portugal (um sucesso em Itália e no Mundo) devido às prioridades das editoras e das fracas rádios da nação. "Viva la Libertà"... Viva! Viva! Viva!

Um dos colossos da música e um inesquecível concerto que não me sai da memória no Royal Albert Hall! Ainda hoje é recordado por cá com uma saudade daquelas... É difícil de escolher uma música deste cavalheiro, por isso fico-me por um clássico que não poderia ter melhor voz... Joseph Kosma e Jacques Prévert não poderiam ter ficado mais felizes... "Autumn Leaves" pelo brilhante Eric Clapton -  bem a propósito enquanto o vento lá fora faz as folhas esvoaçarem até à Janela. Simplesmente brutal!

Este foi o ano da morte de Morricone, talvez repita a sugestão... Mas o dia convida a esta música e deu-me uma saudade imensa da Sicília. Lembrei-me da Scala dei Turchi e não podia deixar passar "Malena". Hei-de morrer em Cefalu, na Pérsia, no Uganda ou na ilha das Flores, se entretanto não me fizerem a folha por causa do blogue ou eventualmente a senhora da foice se antecipar.

Hoje, enquanto recebia notícias da Arménia, engolia em seco a pensar em como é aqueles dois países (o outro é o Azerbeijão) podem estar em guerra. Caramba, não podem! Não posso pensar que aquelas pessoas com quem bebi o melhor café do mundo possam estar em guerra com outro igualmente afável povo, os azeris. Espero que o entendimento seja para breve, pois a riqueza daqueles países, onde se incluem as suas gentes não pode estar a ser destruído, além de que por aquelas bandas, uma guerra pode ter consequências nefastas para o médio-oriente e para a Europa. Partilho uma descoberta do novo milénio e que passa também hoje na playlist de uma outunal tarde de Domingo: Aram Movsisyan e uma herança arménia, "Msho Gorani".

A culpa de andar sempre rodeado de velhos e de ser o mais novo da família durante muitos e muitos anos levou-me a incorporar gostos que acabaram por ficar. Desde muito cedo Joaquin Sabina acabou por fazer parte da minha vida e nesta tarde em que recordo os presentes e também os ausentes. "Y Sin Embargo" fica também na memória, até porque como dizia Levinas, "a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente". Os anos e as saudades não deixam esquecer este colosso da música espanhola.

Por falar em velhos... Só me lembro deste cavalheiro que enche as prateleiras de discos e a memória do computador. Ainda há esperança (talvez não) de jantarmos em Nova Iorque com este cavalheiro a acompanhar ao microfone ou simplesmente a partilhar a mesa. "The Good Life" de poder usufruir desse momento com Tony Bennett seria um dos grandes momentos da nossa vida. Podiam ser tantas... Tantos beijos e abraços, tantas danças e jantares... "That's the good life"...

A banda sonora da tarde prolongou-se, fiquei indeciso em relação a quem deixaria o último lugar da playlist de hoje, entre Beirut, Kings of Convenience e Feist, os últimos a serem ouvidos, escolhi Feist e a poderosa "The Bad in Each Other"...

 

Boa semana e... "Viva la Libertà"...

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"Fiesta", Sol e Solidão...

por Robinson Kanes, em 19.03.18

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Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Admito que, embora Hemingway até seja um Existencialista, nem sempre tenho a melhor relação com o autor, no entanto, existem livros que nos colocam numa situação em que percebemos o porquê de alguém ter sido elevado à categoria de génio - nada como começar com "As Neves do Kilimanjaro" e deixar que Francis Macomber nos deixe emocionados com o seu sofrimente em "A Curta e Feliz Existência de Francis Macomber".

 

Mas quando falo dos confrontos com tamanho génio, fica-me na mente a obra "Fiesta" ou "O Sol Nasce Sempre" - é uma dessas situações... Uma dessas situações em que num contexto diferente nos deparamos com uma igualdade de pensamento assustadora... Inspirado em muitas das vivências e numa parte do seu círculo de amigos, Hemingway retrata bem a apatia dos esclarecidos e a triste solidão dos fortes e dos inteligentes - de como a guerra (pós 1ª Guerra Mundial) destruiu uma sociedade, lhe tirou a sua capacidade de pensar - estranho que o contraste com os dias de hoje não existe, todavia não estamos em guerra (pelo menos a Ocidente) mas estamos paradigmaticamente numa sociedade de abundância onde, aparentemente, não existe uma resposta para os desafios que nos são colocados e somente um berreiro atroz que camufla a apatia generalizada.

 

Muitos apontam que Hemingway se inspirou em indivíduos como Picasso ou Scott Fitzgerald para nos dar a conhecer uma espécie de geração perdida - embora alguns tenham sido mestres na sua arte!

 

"Hoje", enquantos os toros correm pelas ruas de Pamplona, as bebedeiras aplaudem o circo - que não é o dos "toiros" - mas dos cabrestos que assumem a arena enquanto aos verdadeiros "toiros" não é permitida a saída dos curros...

 

Esperemos que o Sol não deixe de nascer... Ou talvez até já se tenha iniciado o crepúsculo e ninguém parece dar por isso, tal é a luz artificial à sua volta...

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A Morte... Nós... Eles...

por Robinson Kanes, em 09.10.17

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Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Malraux dizia que "a morte transforma a vida em destino" e chegamos à conclusão que, quer queiramos quer não, esse é o destino da vida. Embora afastemos esse pensamento do nosso quotidiano, façamos o que fizermos, esse destino determinado irá acontecer transformando as palavras de Malraux num lugar-comum.

 

Pelo meio, ainda há quem planeie a vida no sentido de pensar o que está para lá da morte: os que ficam, a memória, o prestígio, o reconhecimento... Mas na realidade e pegando nas palavras de Vergílio Ferreira, "é perfeitamente absurdo dizermos   «quando estivermos mortos». Porque nos imaginamos «nós» quando já não há «nós». Não estamos mortos, haverá apenas mortos.". De facto, podemos alegar que existe, independentemente das nossas crenças um mundo para lá da morte, mas a realidade demonstra-nos - pelo menos até aos dias de hoje - que se existe, ou é algo de tão fantástico que ninguém regressa ou então não passa disso mesmo... Morte! Morte não como um vazio, mas numa lógica ao estilo de Lavoisier em que somos apenas matéria que não se perde, mas que se transforma. Contudo, sem as qualidades que nos caracterizam como humanos.

 

 

Também o meu pai dizia, quando se falava de heranças ou temas afins, "que quem cá ficar que se oriente" - e foi assim que este procurou encarar a vida. Não se preocupou com o dia depois da sua morte, embora tenha feito muitos sacrificios que permitiram que me transformasse na pessoa que sou hoje e procurando garantir uma vida feliz sem destruir os outros e o futuro. Na verdade, de que nos vale pensar em quando estivermos mortos? Não existirá nós! Não seremos nós, não seremos mais nada a não ser um punhado de matéria que deambula pelo ar e permitirá que outros sistemas se desenvolvam... Não passaremos do sujo porto onde as fezes e a urina fazem nascer as grandes obras, como defendia Agustina em "Fanny Owen".

 

Aceite esta concepção, será que já estamos a abraçar essa lógica de tal forma que não concebemos o futuro? Camus dizia que o "homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro (...) mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador". Será que já não temos futuro e somos um bando de seres sem esperança que, pelo presente abdicamos da nossa ética, dos nossos valores, das nossas faculdades de sermos... humanos? Mais que nunca, a Humanidade não pensa o futuro, não o pensa na medida em que não defende os valores essenciais da experiência humana e esquece inclusivamente que, ao focar-se tanto no agora, está a matar o amanhã. Não podemos tentar escapar ao universo da nossa criação se o egoísmo for imenso que nos consome em cada acto.

 

Pior, nunca tivemos tantos instrumentos para criar um mundo melhor, e não me foco apenas nas questões técnicas mas também nas questões do pensamento. Deus morreu, o pensamento tem vindo a morrer, o espírito critico da segunda metade do século XX está a morrer e no fim, somos apenas um rebanho sem esperança... Somos um rebanho sem esperança que chora as mortes do terrorismo mas não o hesita em praticar com os colegas no trabalho, com os vizinhos no prédio ou na rua, com aqueles com quem nos cruzamos e nos fazem pensar o nosso caminho. Lutamos por questões fúteis, enchemos jornais e redes sociais com temas e preocupações que já não se deveriam colocar e esquecemos as verdadeiras questões estruturais da existência: as boas e as más. Uns chamam-lhe desumanização, procurando um conceito mais pomposo, eu chamo-lhe desleixo ou até mesmo fraqueza.

 

Teremos perdido a esperança e estamos a alimentar o "nós" com tanta sagacidade que esquecemos, estando o mundo entregue ao Homem, que também ele é o responsável pela solidariedade com as gerações futuras e, no fundo, com as presentes. Dispenso também o discurso de que a culpa é do Capitalismo como forma de colocar num conceito/prática os nossos pecados.

 

Será que o Homem não é capaz de perceber que o único Deus é ele próprio e assumir essa responsabilidade? Acredito, verdadeiramente, que é por aí que se trilha o "nós", porque depois de mortos...  e encontrando aqui o pensamento de Levinas, depois de mortos, a morte será levada, não pelo morto, mas por aqueles que ficam e aí... Aí não teremos um "nós" mas teremos  "eles" e isso faz toda a diferença.

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