Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



"Fiesta", Sol e Solidão...

por Robinson Kanes, em 19.03.18

IMG_20180319_075804.jpg

Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Admito que, embora Hemingway até seja um Existencialista, nem sempre tenho a melhor relação com o autor, no entanto, existem livros que nos colocam numa situação em que percebemos o porquê de alguém ter sido elevado à categoria de génio - nada como começar com "As Neves do Kilimanjaro" e deixar que Francis Macomber nos deixe emocionados com o seu sofrimente em "A Curta e Feliz Existência de Francis Macomber".

 

Mas quando falo dos confrontos com tamanho génio, fica-me na mente a obra "Fiesta" ou "O Sol Nasce Sempre" - é uma dessas situações... Uma dessas situações em que num contexto diferente nos deparamos com uma igualdade de pensamento assustadora... Inspirado em muitas das vivências e numa parte do seu círculo de amigos, Hemingway retrata bem a apatia dos esclarecidos e a triste solidão dos fortes e dos inteligentes - de como a guerra (pós 1ª Guerra Mundial) destruiu uma sociedade, lhe tirou a sua capacidade de pensar - estranho que o contraste com os dias de hoje não existe, todavia não estamos em guerra (pelo menos a Ocidente) mas estamos paradigmaticamente numa sociedade de abundância onde, aparentemente, não existe uma resposta para os desafios que nos são colocados e somente um berreiro atroz que camufla a apatia generalizada.

 

Muitos apontam que Hemingway se inspirou em indivíduos como Picasso ou Scott Fitzgerald para nos dar a conhecer uma espécie de geração perdida - embora alguns tenham sido mestres na sua arte!

 

"Hoje", enquantos os toros correm pelas ruas de Pamplona, as bebedeiras aplaudem o circo - que não é o dos "toiros" - mas dos cabrestos que assumem a arena enquanto aos verdadeiros "toiros" não é permitida a saída dos curros...

 

Esperemos que o Sol não deixe de nascer... Ou talvez até já se tenha iniciado o crepúsculo e ninguém parece dar por isso, tal é a luz artificial à sua volta...

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Morte... Nós... Eles...

por Robinson Kanes, em 09.10.17

IMG_0676.jpg

Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Malraux dizia que "a morte transforma a vida em destino" e chegamos à conclusão que, quer queiramos quer não, esse é o destino da vida. Embora afastemos esse pensamento do nosso quotidiano, façamos o que fizermos, esse destino determinado irá acontecer transformando as palavras de Malraux num lugar-comum.

 

Pelo meio, ainda há quem planeie a vida no sentido de pensar o que está para lá da morte: os que ficam, a memória, o prestígio, o reconhecimento... Mas na realidade e pegando nas palavras de Vergílio Ferreira, "é perfeitamente absurdo dizermos   «quando estivermos mortos». Porque nos imaginamos «nós» quando já não há «nós». Não estamos mortos, haverá apenas mortos.". De facto, podemos alegar que existe, independentemente das nossas crenças um mundo para lá da morte, mas a realidade demonstra-nos - pelo menos até aos dias de hoje - que se existe, ou é algo de tão fantástico que ninguém regressa ou então não passa disso mesmo... Morte! Morte não como um vazio, mas numa lógica ao estilo de Lavoisier em que somos apenas matéria que não se perde, mas que se transforma. Contudo, sem as qualidades que nos caracterizam como humanos.

 

 

Também o meu pai dizia, quando se falava de heranças ou temas afins, "que quem cá ficar que se oriente" - e foi assim que este procurou encarar a vida. Não se preocupou com o dia depois da sua morte, embora tenha feito muitos sacrificios que permitiram que me transformasse na pessoa que sou hoje e procurando garantir uma vida feliz sem destruir os outros e o futuro. Na verdade, de que nos vale pensar em quando estivermos mortos? Não existirá nós! Não seremos nós, não seremos mais nada a não ser um punhado de matéria que deambula pelo ar e permitirá que outros sistemas se desenvolvam... Não passaremos do sujo porto onde as fezes e a urina fazem nascer as grandes obras, como defendia Agustina em "Fanny Owen".

 

Aceite esta concepção, será que já estamos a abraçar essa lógica de tal forma que não concebemos o futuro? Camus dizia que o "homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro (...) mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador". Será que já não temos futuro e somos um bando de seres sem esperança que, pelo presente abdicamos da nossa ética, dos nossos valores, das nossas faculdades de sermos... humanos? Mais que nunca, a Humanidade não pensa o futuro, não o pensa na medida em que não defende os valores essenciais da experiência humana e esquece inclusivamente que, ao focar-se tanto no agora, está a matar o amanhã. Não podemos tentar escapar ao universo da nossa criação se o egoísmo for imenso que nos consome em cada acto.

 

Pior, nunca tivemos tantos instrumentos para criar um mundo melhor, e não me foco apenas nas questões técnicas mas também nas questões do pensamento. Deus morreu, o pensamento tem vindo a morrer, o espírito critico da segunda metade do século XX está a morrer e no fim, somos apenas um rebanho sem esperança... Somos um rebanho sem esperança que chora as mortes do terrorismo mas não o hesita em praticar com os colegas no trabalho, com os vizinhos no prédio ou na rua, com aqueles com quem nos cruzamos e nos fazem pensar o nosso caminho. Lutamos por questões fúteis, enchemos jornais e redes sociais com temas e preocupações que já não se deveriam colocar e esquecemos as verdadeiras questões estruturais da existência: as boas e as más. Uns chamam-lhe desumanização, procurando um conceito mais pomposo, eu chamo-lhe desleixo ou até mesmo fraqueza.

 

Teremos perdido a esperança e estamos a alimentar o "nós" com tanta sagacidade que esquecemos, estando o mundo entregue ao Homem, que também ele é o responsável pela solidariedade com as gerações futuras e, no fundo, com as presentes. Dispenso também o discurso de que a culpa é do Capitalismo como forma de colocar num conceito/prática os nossos pecados.

 

Será que o Homem não é capaz de perceber que o único Deus é ele próprio e assumir essa responsabilidade? Acredito, verdadeiramente, que é por aí que se trilha o "nós", porque depois de mortos...  e encontrando aqui o pensamento de Levinas, depois de mortos, a morte será levada, não pelo morto, mas por aqueles que ficam e aí... Aí não teremos um "nós" mas teremos  "eles" e isso faz toda a diferença.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Mensagens

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB