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Barceloneta, Onde Fica o Coração...

por Robinson Kanes, em 08.11.17

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Do Port Olímpic caminhamos facilmente junto ao mar pelo passeio marítimo. Este é talvez um dos melhores programas entre o bulício de uma moderna metrópole e o azul do mediterrâneo, isto, enquanto observamos as crianças de diferentes origens e nacionalidades no "Parc de la Barceloneta". E é aí, ao chegar a Barceloneta que o ar tem outro cheiro, que uma diferente Barcelona olha para nós e nos apela a deixar o mar apesar do convite dos bares mais turísticos.

 

Barceloneta não é um bairro muito antigo, percebe-se pela arquitectura. Nasceu no século XVIII quando os habitantes da "La Ribera" foram expulsos por Filipe IV que ordenou a construção da "Ciutadella". Foi, e é ainda, um bairro típico de pescadores e operários (uma dos ambientes que gosto de frequentar), todavia, bem diferente daquele que era antes da modernização de que foi alvo aquando dos Jogos Olímpicos em 92.

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Lembro-me de Barceloneta que, segundo alguns, inspirou Cervantes numa passagem de D. Quixote, e sentir inveja de ver muitos dos meus amigos morarem naquele bairro - denote-se que estava a viver em Ausiàs Marc, pelo que não me poderia queixar, pelo contrário. Barceloneta é o expoente máximo da cultura mediterrânica em Barcelona (apesar de ser um bairro recente), dos cheiros, das conversas, da vida e contrastes que nos fazem indagar se estamos no norte de África, ou num qualquer bairro do sul de Itália. Mas não comparemos, Barceloneta é diferente. Foi lá que aprendi a cozinhar alguns petiscos senegaleses, foi lá que descobri uma forma low-cost e eficaz de polir faróis, foi também naqueles recantos que, entre peixe frito e outras tapas únicas me foi possível conhecer grandes indivíduos.

 

É também aqui que fica o "La Bombeta", um pequeno restaurante e sempre apinhado de gente e que acabava por ser o escape aos restaurantes caros e tremendamente turísticos do "Passeig Joan de Borbó". Aliás, como qualquer bairro, para se encontrar boa comida e... bons amigos, o ideal é sempre ir para o centro, neste caso, alguns dos mais especiais encontram-se perto do "Mercat de la Barceloneta", uma óptima alternativa à carérrima e descaracterizada "Boqueria". Basta seguir pela "Carrer de la Maquinista" que é também onde se encontra o "La Bombeta". Nem cinco minutos são a pé e sempre é possível recordar os bombardeamentos da aviação alemã durante a "Guerra Civil" através da inúmeras placas que se encontram espalhadas. Também é aí que temos uma imagem tipicamente mediterrânica, com habitantes locais à conversa e crianças ainda a brincar na rua - uma raridade - bem mesmo em frente na "Plaça de Pompeu Gener". E depois de tantos recantos, perceberemos que o "La Bombeta" nem é o melhor de todos...

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Neste pequeno bairro conquistado ao mar, existe também espaço para apreciar o património que vai para além das construções civis, refiro-me sobretudo à "Església de Sant Miquel del Port", uma igreja barroca que vibra, quando em Setembro, Barceloneta é um palco de festa com cortejos e uma animação no bairro e nas praias. É totalmente impossível não ficar contagiado pelas danças e folia daqueles dias. Penso que só em Andaluzia conseguem isso de mim, até porque não sou de danças, mas este foi um dos locais onde não consegui resistir.

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Uma outra nota de destaque é o edifício e o próprio "Museu de História da Catalunha", já na direcção do "Port Vell". Este museu é interessante, pois além de contar a história da Catalunha desde a época pré-história é bastante interactivo, os miúdos adoram-no e os adultos apaixonam-se pelo restaurante no piso superior com um terraço e umas vistas únicas para o "Port Vell".

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Recordo agora com saudade a praia depois de umas animadas conversas entre vinho e comida em alguns dos pequenos recantos de Barceloneta... Recordo aquele momento que nos fins de tarde outonais tinha para mim um encanto especial, mais do que no Verão onde os turistas e os próprios habitantes da cidade preenchem o espaço até à exaustão. Recordo o dia em que tirei algumas destas fotografias, um dia em que vesti a pele de turista e não senti nem um terço das emoções que se têm como habitante...

Barcelona é especial e se admito que o meu coração ainda hoje está naquela cidade, por certo está bem guardado num qualquer local de Barceloneta, possivelmente numa das varandas à espera que o resto do corpo o encontre um dia.

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

 

Os encontros com a minha miúda perto da Torre Agbar fizeram-me desviar caminho e deixar para trás um outro percurso que não era raro fazer durante aqueles tempos por Barcelona. Tantas e tantas vezes chegou a ser feito a dois ou mesmo com um pequeno grupo de amigos.

 

De facto, quando o desvio pela "Avinguda Meridiana" não se impunha, a entrada pelo "Parc de la Ciutadella" assumia a preferência, sobretudo como uma travessia, em direcção ao "Port Olímpic" ou às "Platjias de la Mar Bella" ou da "Nova Icària". Este parque, mais uma vez abençoado por aquela luz solar que vem do lado do mar tem na sua cascata monumental a grande atracção, obviamente, sem esquecer o "ZOO", e alguns edifícios de interesse como o "Castell dels Tres Dragons", o próprio Parlamento e as "Cavalariças da Guardia Urbana" que faziam delirar a minha miúda mas que infelizmente, nem sempre estão abertas ao público.

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É um local encantador sempre povoado de gente bem disposta e ponto de passagem para muitos praticantes de desporto que por ali deambulam pela manhã ou ao fim da tarde. Nos primeiros dias, admito que a subida à cascata monumental funcionava como uma espécie de ritual que foi desaparecendo com o tempo e com a pressa, muitas vezes, de chegar ao destino. Era lá em cima, depois de subir as escadas, que contemplava aquele espaço e me sentia cidadão de Barcelona.

 

Agradava-me, naquele parque, a mistura de atracções e diferentes funções que o mesmo adquiria - além da componente natural, tinha as componentes cultural, desportiva, política e claro o jardim zoológico. Era uma pequena cidade sustentável... Aliás, o parque encontra-se naquela que foi a antiga cidadela de Barcelona e ainda hoje conserva vários testemunhos da Exposição Mundial de 1888 - a Cascata Monumental tem a mão de Gaudí entre outros, e os próprios Jardins de Fontserè são uma homenagem àquele que os projectou, nomeadamente Josep Fontserè. Com parques tão belos espalhados pelo mundo fora, este não é excepção.

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Mas toda esta magia, era apenas parte do caminho que terminava no "Port Olímpic" e cuja estrela-guia era assegurada pelas torres da MAPFRE e do Hotel Arts.  Não posso esquecer "Platijas de Nova Icaria" e "Somorrostro" e bons momentos vividos naquelas areias. Apreciar todo aquele mar, passear entre os veleiros e beber algo nas noites quentes (e frias) daquela cidade era sem dúvida um júbilo, apesar dos preços praticados. Assumo, no entanto, que sentia sempre a chamada de Barceloneta, que fica um pouco mais adiante.

 

Recordo-me de grandes fins de tarde naquele porto a discutir política, a monarquia espanhola, o porquê dos espanhóis adorarem Portugal e os portugueses nem sempre gostarem dos espanhóis, o porquê de ser mais bem tratado em Espanha do que em Portugal (mas aí não era só eu) e acima de tudo de sentir um convívio verdadeiro onde as cervejas eram acompanhadas por temas que escapavam à tradicional gabarolice e onde a amizade era realmente verdadeira. 

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Considerava aquele porto como o meu espaço "in" na cidade, sobretudo pelo mar e pela companhia. Todavia, onde nós gostávamos mesmo de estar, de rir e conversar, era sem dúvida nos recantos de Barceloneta, mas essa será uma recordação para mais tarde.

 

Na minha memória, sentado num desses bancos de cimento junto à marina, vejo agora os aviões a fazer a aproximação à pista de "El Prat". Gostaria de estar num deles, para ali, onde o mediterrâneo também une culturas, sentir o pulsar daquela cidade e daqueles amigos... Acompanha-me um compositor contemporâneo nascido em Barcelona, Federico Mompou, talvez para me fazer sentir, também eu... "un pájaro triste".

 

 

 

Grácies Barcelona...

 

 

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