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O Holocausto do West Bank...

por Robinson Kanes, em 11.02.21

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Créditos: Associated Press

 

No Verão de 1948, no espaço de algumas horas, os meus pais, como centenas de milhar de palestinianos, perderam tudo. O meu contou-me que estava no colégio quando souberam que os israelitas estavam a massacrar as pessoas nas aldeias vizinhas. A sua família e todos os vizinhos fugiram em direcção a Gaza, então sob domínio egípcio. Como muitos jovens, critiquei o meu pai durante muito tempo por não ter ficado e lutado, mas depois li os relatos dos "novos historiadores" israelitas e compreendi que os palestinianos, com as sua espingardas de má qualidade, não tinham qualquer hipótese. Ficar teria sido um verdadeiro suicídio, e era preciso sobreviver para preservar o futuro.

Kenizé Mourad, in "O Perfume da Nossa Terra - Vozes da Palestina e de Israel" 

 

 

Dei comigo, por várias vezes esta semana, a olhar para esta fotografia... Assumo até que tentei prestar pouca atenção à mesma. Procurei filtrar, afinal a propaganda não é só de um lado e por isso é necessário manter algum distanciamento. Também já escrevi sobre isto algumas vezes, "não deveria" ser tema sequer para voltar a trazer... É pouco relevante, não é importante, actualmente é como faire monter la mayonnaise.

 

A verdade é que ninguém, e passo a expressão, com dois dedos de testa, consegue ficar indiferente aos crimes que continuam a ocorrer, crimes contra a Humanidade! O Estado de Israel (o Estado e não os israelitas) continua impunemente a semear o terror no Vale do Jordão. Na Cisjordânia continuam a cometer-se atrocidades dignas também de um Holocausto, todavia, surgem apenas avisos, apenas consternação. Alguns esperam por Biden, como se este fosse o salvador, pois que desesperem... O silêncio pode manter as luzes, mas não pode esconder o resto... Apenas um assobiar para o lado numa guerra em que não podemos dizer que existe um lado totalmente inocente. É também relevante afirmar que não deixa de ser estranho, até quando já a própria Arábia Saudita ganha alguma consciência (independentemente do que levou a) e liberta a activista Loujain al-Hathloul - um ponto para os alegados radicais, muitos pontos a menos para os pacíficos e pobres perseguidos.

 

A história da comunidade de Khirbet Humsu é uma das mais intrigantes e mais interessantes na luta de territórios entre David e Golias... As mais recentes peripécias passam por três meses, ou perto disso, em que as forças israelitas, sem qualquer motivo, derrubaram por três vezes aldeias e vilas inteiras e também por três vezes o povo palestiniano as reergueu. O mesmo povo que diz não ter para onde ir, já nem é uma questão de reclamar território... Até porque, diz-nos a História e o presente, que nenhum dos lados, quer ao mais alto nível político quer a nível militar, parece estar interessado em resolver a questão pacificamente.

 

Esta fotografia, contudo, transporta-me para um cenário misto, onde uma película bem realizada se mistura com a realidade. Os sorrisos e a alegria de crianças que nem sabem bem que bandeira transportam, mas de uma coisa estão certas: é a sua terra! É a sua terra e o seu futuro que, esperamos, entre sorrisos e muitas lágrimas, não acabe com um projéctil na testa ou com um colete armadilhado. Espero que transportem a bandeira da esperança e que possam ser os futuros líderes de um povo. Futuros líderes vencedores na diplomacia e na paixão pelos seus, mesmo que tenham sofrido tentativas de deportação quase como numa espécie de vingança por aqueles que mais de meio século antes passaram pelo mesmo.

 

Estes putos são o pó e a esperança de um Mundo melhor... Não os ignoremos... E não faltam por aí putos a transportar bandeiras...

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É passar por lá...

por Robinson Kanes, em 09.02.21

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Créditos: https://www.ebaumsworld.com/images/feminism-fail/81157278/

 

Pronto, hoje é terça-feira... Dia de estarmos no SardinhaSemLata... Passem por

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Lokman Slim - E assim se mata um Cidadão!

por Robinson Kanes, em 08.02.21

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Créditos: AFP

 

Meu caro Negus, disse cordialmente, quando se deseja que a revolução seja uma maneira de viver por si própria, quase sempre se torna uma maneira de morrer.

André Malraux, in "A Esperança"

 

 

Lokman Slim dirá pouco a quem não tem grande afinidade com o Líbano. É um daqueles nomes que, para o bem e para o mal, vive sobretudo ligado aos que sentem, numa base diária, a violência na pele e que, no caso do Líbano, procuram uma solução para um dos mais belos países do médio-oriente.

 

Mas porquê o interesse em Slim? É simples... Slim, um activista e realizador libanês era um cidadão. Slim era um cidadão empenhado em fazer a diferença no Líbano combatendo o sectarismo envolvendo a participação dos cidadãos e assim levar, através desse empowerment, uma espécie de transição verdadeiramente democrática e participativa naquela pérola de país! Um promotor daquilo a que também chamamos a "Cultura da Lembrança" ou se preferirem da "Memória". Foi alguém que, criado numa família com actividade política e religiosa, foi estudar para Paris e voltou, trazendo e dinamizando as artes no Líbano e apelando sempre à paz, aliás, o filme "Massaker" é uma das suas grande obras. Alguém que defendeu o seu país lá dentro e não a milhões de quilómetros... Alguém que não voltou como herói quando vivia ricamente em Paris e depois de ter sido "terminada" uma revolução.

 

Slim lutava contra o sectarismo onde se incluía o Hezbollah e do qual era inimigo, todavia, naquela região, quando o tema é paz e empowerment, temos sempre a sensação de que o inimigo por vezes também pode estar do lado mais... amigo. O Hezbollah negou o assassinato e até já exigiu investigação, todavia, independentemente de quem terá ordenado a morte deste homem, é certo que a investigação pouco ou nada resolverá. O Líbano é fascinante, os seus habitantes igualmente, mas a tensão política, as guerras com Israel, têm destruído o país de uma forma lamentável.

 

No passado dia 3 de Fevereiro morreu, com quatro tiros na cabeça e um nas costas, mais um agente da paz, mais alguém que não queria sectarismos e aparelhos partidários e pejados de interesses a Governar, minorias sedentas de poder e riqueza que subjugam milhões... Esse foi o seu erro e provavelmente, até em Portugal, muitos saberão o que terá tantas vezes sentido Slim, sobretudo aqueles que não vendem a alma ao diabo e colocam o interesse do país à frente dos interesses partidários e de outros interesses que oscilam em torno deste cangalho em que se transformou a Democracia portuguesa - e que também pouca importância deu ao facto, ou não fosse esse um conceito, o de cidadania, algo que aterroriza muita gente.

 

A cidadania perdeu um dos seus principais actores e a paz voltou a ser alvejada...

 

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Holocausto ou Holocaustos?

Onde a vítima se confunde com o agressor...

por Robinson Kanes, em 28.01.21

RTS1RIU6_IsraelPalestine_Nakba_protest_0.jpgCréditos: Mohamad Torokman/Reuters

 

Um cérebro pode servir para fins bastante diferentes e (a) conquista do mundo é mais desejável que a sua ordem.

André Malraux, in "A Tentação do Ocidente"

 

Causa-me alguma angústia pensar que muitos jovens não sabem o que foi o Holocausto nazi. Causa-me também igual angústia imaginar que um número ainda maior nem sabe o que foi a União Soviética, o que não é de estranhar tendo em conta os adeptos que esta ainda vai tendo, sobretudo em Portugal onde, neste campo, se tenta reescrever a História. Podemos desculpar os jovens, já não podemos desculpabilizar os adultos, os mesmos que fecham os olhos aos holocaustos presentes.

 

Esquecer o Holocausto é esquecer toda uma História que está para trás, aliás, os holocaustos até lá não foram uma novidade, todavia, a proximidade, o horror e uma máquina bem oleada de propaganda (é inegável) dão-nos a sensação de que foi caso único. Não foi! Mesmo depois da guerra, os holocaustos multiplicaram-se e de uma forma ou de outra, alguns ainda por aí existem... Passemos pela China, por alguns países do Sudoeste Asiático, por África e até por Israel.

 

Nada me move contra israelitas ou judeus, bem pelo contrário. Provavelmente terei influências judaicas também e tenho uma grande admiração por todos aqueles com quem tenho oportunidade de partilhar momentos da minha vida e onde os conflitos israelo-árabes são sempre tema de discussão. Todavia...

 

... Não deixa de ser caricato que o "estado do Holocausto", desde há muito, e também por causa das políticas de desenhar fronteiras a régua e esquadro das potências europeias, seja também aquele que tem mais guerras em pouco mais de meio século de História do que alguns com milénios. A Guerra dos Seis Dias, a Crise do Suez e tantas outras bravatas que inclusive culminaram com a anexação de territórios de outros países, veja-se o exemplo dos Montes Golan e dos denominados "territórios ocupados", tem lançado a região no caos.

 

Já passou tempo suficiente para "pagarmos" pelo Holocausto e começar a exigir que Israel (também conhecida pelo seu terrorismo de Estado) cumpra os Direitos Humanos e se abstenha de perpetrar um Holocausto contra o povo palestiniano, numa sede imensa de ampliar o seu território. A questão palestiniana é complexa, daria muitos artigos, até porque a dificuldade em encontrar quem tenha mais razão nesse conflito não é fácil e talvez por isso seja algo que até hoje ainda não foi resolvido - o estadista israelita que esteve mais perto de uma solução foi assassinado por um dos seus. 

 

Numa base diária, Israel tem subjugado o povo palestiniano, tem-no morto e tem-lhe roubado território com uma passividade internacional gritante, direi até assustadora - um pouco à semelhança do que foi encetado pelos causadores do "Holocausto" nos primórdios da Segunda Guerra Mundial. Não é justificável e não deixa de ser um paradoxo ver a vítima a fazer exactamente o mesmo que o agressor. Imaginem estar na vossa casa, no vosso bairro e no vosso país e de repente terem um bulldozer e dezenas de soldados a expulsarem-vos de casa sem razão aparente e a destruir-vos o lar... Dizer que isto é algo normal é quase como negar o Holocausto - por menos começou uma guerra violentíssima na Síria. Neste campo, a loucura com o coronavirus, tem ajudado a que muitas destas acções praticamente nem sejam do conhecimento público - não se confinam só pessoas, confina-se o pensamento e a liberdade.

 

Na verdade, esta sensação de impunidade permitiu o desplante, e aliás o erro histórico de, nos mesmos dias em que se "celebrava" o aniversário do Holocausto, Israel ter feito um ultimato ameaçador aos Estados Unidos a propósito da aproximação ao Irão e inclusive deixar transparecer que planeia um ataque àquele país. Imaginem confortar um inocente que, enquanto recebe o vosso abraço, carrega a sua masada para matar ainda mais inocentes. O timing foi desastroso e o argumento ainda mais. Se a isto juntarmos também o facto de terem "passado ao lado" os alegados bombardeamentos israelitas em solo sírio, junto à fronteira com o Iraque da passada semana, temos um estranho cocktail de hipocrisia. 

 

Se tratar outro povo como bestas, retirando-lhe direitos, humilhando-os numa base diária, criando muros e invadindo as suas casas e dispondo das suas vidas rasgando toda e qualquer emanação da Carta dos Direitos Humanos é digno, pois bem, então não se admirem de que, mais do que um dia nos esquecermos do Holocausto, o aplaudirmos...

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Discurso do Pânico... Continuem que vão bem...

por Robinson Kanes, em 21.01.21

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Capa da edição do histórico Diário de Notícias de 21/01/2021 - que para isto, não precisava de ter voltado.

Imagem: Diário de Notícias

 

 

E quando se deixa de acreditar nas pessoas, o que é que fica a um homem?!... Pouca coisa e nada de bom... Uma noite danada dentro da gente, uma grande vontade de morrer quando o coração amacia e uma grande vontade de matar quando se pensa que viver é bom e são os outros que não deixam.

Alves Redol, in "A Barca dos Sete Lemes"

 

 

O caronismo e o buescismo vieram para ficar. Já não basta a situação delicada e temos uma nova imposição do pânico e do medo. Parabéns, algumas pseudo-celebridades, médicos sem ética e alguns meios de comunicação conseguiram... "Estamos" cheios de medo.

 

Em relação ao caronismo, faz-me espécie como é que um candidato a Dr. Oz português, que não olha a meios para alcançar o protagonismo, continua a ter destaque máximo nos meios de comunicação, mais do que outros médicos experientes e muito mais prudentes quando falam da situação actual. A apologia do medo e da desgraça, sobretudo vinda de um indivíduo que diz ter estado em cenários de guerra, faz-nos pensar se tal terá servido de alguma coisa: a última coisa que, num cenário de guerra ou de pandemia, devemos fazer é a apologia do pânico e do medo, pelo menos dentro das nossas fileiras... Alguém estudou mal a lição... A cegueira por meia dúzia de likes e futuras audiências não tem limites! Caronas e dokinnis deste país semeiam o pânico e o medo sem olhar às consequências do seu discurso. Também não entendo o que os chefes do serviço destes profissionais andam a fazer...

 

Homens, verdadeiros médicos como António Sarmento (apenas um exemplo), mostram que não devemos entrar neste estado de pânico, mesmo em entrevistas que, mais do que buscar informação, o jornalista (ou licenciado apenas em jornalismo e com faltas a todas as aulas) tenta por todos os meios fazer com que o especialista ceda ao discurso do pânico. Mesmo perante as investidas sem sucesso insiste em dramatizar uma situação que ainda não chegou a tal. Para isso, para o desastre, voltaram os matemáticos dos números lapalissados, a semear o terror ao anunciarem números como 16 000 casos numa semana quando na corrente já temos 12 000 e estamos numa curva ascendente. Brilhante, e pagamos milhões a indivíduos como estes para ensinarem...

 

Também não deixa de ser paradoxal ver o mundo das pseudo-celebridades a embarcarem no discurso do medo e a apregoar o internet shaming e o encerramento de todos em casa - não seria grave se isto não afectasse a saúde mental de muitos que lhes dão ouvidos. Estas estrelas cadentes são as mesmas que há uma semana contestavam o encerramento de espaços culturais mas devem ter chegado à conclusão que, na tentativa de aparecerem, nada como ter as pessoas fechadas em casa e adoptar o discurso do medo - assim não vão cair no esquecimento de facto, mesmo que um dia sejamos contra o panda do kung fu e no outro dia a favor, vive-se de likes e a realidade pouco importa. Ninguém é responsável, mesmo que tenham passado o verão em férias à grande (e não poucas vezes pagas por outrem) a ostentar o seu confinamento. Também ninguém é responsável por, aquando de um acidente de viação em período de proibição de circulação entre concelhos, que pelo que me vem à memória deve ter sido o único em Portugal nos últimos anos, muitos destes indivíduos terem tido vontade de tomar parte na desgraça e afinal se terem esquecido que em tempo de confinamento, a A1 era um desfile destas celebridades quando outros estavam fechados.

 

Voltámos também ao discurso da guerra. Só quem nunca esteve debaixo de fogo real em situação de conflito pode chamar a isto guerra. Não, isto não é uma guerra!  Mas pelo menos, já que andamos todos tão preocupados com a guerra e com a linha da frente, pode ser que seja desta que possamos dar valor aos ex-combatentes do ultramar que combateram numa guerra que nem sabiam muito bem para quê... Esses e os desertores que um certo Presidente da República que na altura já ambicionava estar à frente de uma ditadura, apelidou de cobardes e apátridas mas quando chegou a sua vez, como sempre enquanto era jovem, lá chorou junto do pai para fugir às picadas africanas... E é isto Presidente de uma Democracia... Ainda por estes dias alguém me dizia, vocês (europeus) não sabem aproveitar a paz, estiveram demasiado tempo sem guerra.

 

Sou critico do Governo de António Costa, mas é preciso muito para sentir que desta vez o nosso Primeiro-Ministro não é dos maiores culpados (sim, é o Robinson a escrever isto). Perante tantas decisões complexas, perante tantos especialistas que só querem dar nas vistas (não todos), perante um Presidente da República que se confunde com Primeiro-Ministro quando as coisas correm bem e cospe publicamente em António Costa quando as coisas correm mal, mesmo que tenha tomado parte (e influenciado até) nas decisões, é motivo para ter alguma compaixão. Pelo menos, com más decisões, não deixa de ser um estadista, já o outro... A história falará por si e de um dos maiores actores e youtubers (seja lá o que isso for) da sociedade portuguesa

 

Assassínios em massa? Alguém tem real noção do que significa (mesmo em termos legais) de acusar um Primeiro-Ministro deste tipo de crime? Será que, com todos os erros, ainda não percebemos que não é possível salvar toda a gente e os custos económicos e sociais de um confinamento geral serão fatais? Continuo a não defender confinamentos gerais, não pode ser... Porque é que muitos europeus, e sobretudo os portugueses não se convenceram que os riscos existem? Mas onde é que andaram com a cabeça, pelo menos alguns deles, para acreditar que a segurança é absoluta? É impossível salvar toda a gente se o vírus, seja ele qual for, atacar em força! Podemos mitigar, sim podemos mitigar, mas o risco existirá sempre... Em que raio de bolha andámos a viver estes anos todos? Em que raios de guerras andaram os caronas deste mundo, pois parece que andaram foi a jogar Risco ou a Operação e quando algo é a sério parecem tontos a correr de mãos no ar a gritar acudam!

 

Já se fazem contagens de mortos nos cantos dos ecrãs... Mas o que é isto? Já não há ética, já não há decoro e o jornalismo tende a ocupar mais campas que o SARS-CoV. Somos um Heinrich de Malraux a fazer render a situação, posto que a mesma já foi encontrada! Estamos a abrir precedentes perigosos...

 

E é nesse contexto que, mais do que a situação actual, dá-me medo o futuro neste país, porque isto é só o começo do que um futuro incerto nos reserva. E como diz o povo, continuem que vão bem...

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Sardinhas de raça e Eugénio de Andrade...

por Robinson Kanes, em 19.01.21

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Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje é o dia da habitual sardinhada no espaço SardinhaSemLata, onde o anti-racismo, mais do que o racismo, merecerá destaque, vejam aqui

 

Não posso também deixar passar, sobretudo tendo em conta o poeta e a paixão que alguém próximo tem pelo mesmo... A 19 de Janeiro de 1923, entre as terras frias do Fundão nascia um dos maiores vultos da poesia: Eugénio de Andrade!

 

Adeus

Como se houvesse uma tempestade 

escurecendo os teus cabelos belos,

ou se preferes, a minha boca nos teus olhos 

carregada de flor e dos teus dedos

 

como se houvesse uma criança cega

aos tropeções dentro de ti,

eu falei em neve, e tu calavas,

a voz onde contigo me perdi.

 

Como se a noite viesse e te levasse,

eu era só fome o que sentia;

digo-te adeus, como se não voltasse

ao país onde o teu corpo principia.

 

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,

e sobre as nuvens mar perfeito,

ou se preferes, a tua boca clara

singrando largamente no meu peito

Andrade, E (1990). Obra de Eugénio de Andrade / 2 (pp.16). Porto: Limiar

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Al Qaeda no Irão? Really?

por Robinson Kanes, em 15.01.21

irão.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A new challenge everyday

You keep away and delay;

When I act to close the gap

Fate says there is a bigger play.

Hāfez

 

Ainda bem que existem notícias que passam ao lado (estou a ironizar) embora me admire que tendo o Irão como tema central não tenha sido mesmo algo bombástico. Será que foi por ser Trump e existe um acordo tácito em muita imprensa para não dar aval às declarações dos seus correligionários como Mike Pompeo?

 

Pompeo teve o seu momento Cantinflas ao afirmar que a nova casa da Al Qaeda é no Irão! Eu acredito que depois da invasão do Iraque tudo seria possível, mas colocar os headquarters da Al Qaeda no Irão é só mesmo para nos trazer algum humor em tempos difíceis, além de causar alguma pressão na presidência de Biden e nas relações que esta terá com a antiga Pérsia. Estas afirmações surgem numa altura em que o Irão está em exercícios militares no Golfo Pérsico, o que poderá estar a causar alguma consternação junto dos aliados americanos na região.

 

Sendo que Pompeo é livre de ter o seu palco, também é livre de estudar um pouco das relações entre o Irão e a organização terrorista. Pompeo também se terá esquecido que a Al Qaeda é essencialmente Sunita e o regime de Teerão é na sua maioria Xiita? Basta este ponto para fazer toda a diferença... E já que falámos em Iraque, um dos motivos para a má relação entre a Bagdade de Saddam e Teerão era a perseguição do primeiro aos xiitas. 

 

A estratégia de "maximum pressure" ao Irão é de tal modo desesperada (e perigosa) que nem se preocupa em apresentar provas. Todavia, não seria perigosa se não estivéssemos numa época em que os factos são ultrapassados pelo discurso e pelas convicções. Juntar o Irão com a Al Qaeda é quase como juntar Israel com o Hezbollah... Mesmo que os serviços secretos daquele país tenham abatido em Teerão um alto responsável da Al Qaeda no ano passado. 

 

Finalmente, e posto que o fantasma do 11 de Setembro também foi abordado por Pompeo, importa reter que nenhum dos terroristas que perpetraram os atentados eram iranianos mas sim de outras nacionalidades bem próximas dos Estados Unidos e até com grandes ligações aos governantes americanos.

Motivo para dizer... Really? 

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Balada do Pequeno Soldado...

por Robinson Kanes, em 13.01.21

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Columbano Bordalo Pinheiro - "Cabeça de Rapaz" (Museu José Malhoa)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Dei por mim, mais uma vez a tentar interpretar o Mundo, a "sofrer", afinal precisamos desse tempo, e fui catapultado nos meus pensamentos para um tema que já abordei aqui aqui.

 

Um dia de sol, não o de hoje onde os pneus já comem asfalto há muitos quilómetros e este artigo irá ser disparado, mas um outro, com vista do Tejo.  O Tejo com as suas pequenas vagas adivinhando o vento que irá entrar pela planície adentro e afastar os flamingos para as salinas. Recordo a "Ballade vom kleinen Soldaten, ou se preferirem a "Balada do Pequeno Soldado", obra de um dos mais brilhantes realizadores do nosso tempo, o alemão Werner Herzog.

 

Somos transportados para a Nicarágua dos anos oitenta, terra onde os sandinistas na sua cavalgada para impôr um regime socialista naquele país, tomaram como uma das suas frentes de batalha a eliminação dos povos indígenas, neste caso em particular os Miskito. Nada de novo numa ideologia que procura limpar a História e o que dela resta, mesmo que tal testemunho tenha a forma de um ser-humano.

 

Recordo aquele pequeno soldado que abre o "documentário" e também o "Dia Mundial dos Povos Indigenas". Foi no dia 09 de Agosto, por sinal, o dia em que escrevo este texto. Poucos se terão recordado da data, é impossível chegar a tudo. Sem perceber porquê, e perdoem não ter uma história cheia de epifanias para contar acerca de, os meus pensamentos foram levados para esta obra de Herzog. Talvez culpa dos meus pais, da minha irmã, que me carregaram de realidade e nunca tiveram qualquer pejo em mostrar-me o que era o Mundo. Até aquilo a que memória me alcança, vejo-me a absorver todo o tipo de documentários na televisão, para o bem e para o mal. Sangue, morte, fome... Nunca foram um problema que levasse os meus pais a desligarem a televisão, a tirarem-me um livro da mão ou até a orientarem o caminho que percorria, bem pelo contrário. Bem, a minha mãe...

 

Na Nicarágua dos anos 80 e até 90, estes pequenos guerreiros formaram batalhões inteiros, muitos deles porque só tinham esse destino  - destino, não raras vezes, desenhado pelos pais e pelos desejos de vingança. Podemos tecer todo o tipo de comentários anti-violência, eu próprio os faço, mas explicar isso a quem vê toda uma aldeia ou vila incendiadas, os seus habitantes (independentemente de serem homens, mulheres ou crianças) serem fuzilados não é de todo a tarefa mais fácil do Mundo... O "olho por olho, dente por dente" tende a ser mais forte.

 

Quiçá por isso recorde um amigo de alguém cá de casa que fugiu de um país da América Latina com a família. Diz-nos ele que, naquele país, todos sabem que existe um projéctil com o seu nome, é uma roleta russa.

 

Crianças fardadas e prontas para a guerra, é dos crimes mais hediondos que se podem cometer. É ver a infância roubada, mesmo que as hipóteses de atingir algum nível de felicidade sejam baixas. Ver crianças que já perderam tudo e se transformaram em máquinas de guerra ou simplesmente carne para canhão deveria chocar, fazer-nos tremer! Ainda são milhares - e sabemos como as estatísticas são generosas nestes números - as crianças que sabem manejar um morteiro ou uma automática melhor que a maioria da população adulta. Provavelmente, quandos os nossos filhos brincam na rua e fazem o "pfiii pxiiiiu" com uma arma de plástico, outros sentem o som dos projécteis a passar-lhes por cima e sentem a dor de ver a pela rechassada por um ferro a alta velocidade ou por uma explosão. Enquanto os nossos filhos dão à costa embalados pelas pequenas ondas e riem, outros dão à costa ou à margem de rios crivados de balas.

 

A somar a tudo isto, porque isto é "só" uma consequência de, é importante que olhemos para os povos indígenas deste mundo. Em alguns casos, é lá que está a nossa história como seres-humanos, como homens que somos - simplesmente ignoramo-los como o faríamos se hoje em dia Edison fosse vivo e tantos outros pioneiros do nosso bem-estar. Não basta andar vestido em tons tribais e achar-se um cidadão mais para a frente, bastará afinal, saber que estes povos existem, até porque, numa época em que algumas vidas interessam, talvez fosse mais humano perceber que todas as vidas importam, mesmo aquelas cujas raízes ancestrais jamais deverão ser esquecidas ou destruídas. Mesmo aqueles cujos descendentes já não são mais que um pequeno grupo de dezenas ou centenas.

 

Olho o horizonte e acompanho o pequeno soldado, cuja Kalashnikov mais parece uma viola e onde o olhar de criança é corrompido por um olhar vazio e triste de menino soldado...

 

(...)

Que te pasa chiquillo, que te passa

Me dicen en la escuela y me preguntan en mi casa

Y hasta ahora lo supe de repente

Cuando vi pasar la lista y ella no estuvo presente 

Ella de la mochila azul

la de ojitos dormilones

Me dejo gran inquetud

Y bajas calificaciones 

Ni al recreo quiero salir

No me divierto con nada

No puedo leer ni escribir

Me hace falta su mirada

De recuerdo me quedan sus colores

Dos hojas del cuaderno dice amores entre borrones

Yo quisiera mirarla en su pupitre

Porque si ella ya no vuelve mi salon sera muy triste

(...)

Bulmaro Bermúdez, "La  de la Mochila Azul"

 

(Publicado originalmente a 11 de Agosto de 2020 no espaço SardinhaSemLata)

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Sardinhas Chinesas à Capitólio...

por Robinson Kanes, em 12.01.21

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Créditos: https://me.me/i/epic-fail-in32-17268995

 

Hoje lá estamos, sem empurrões, no SardinhaSemLata... É só seguir por aqui.

Consta que, apesar do frio, existe muita sardinha maruja para degustar.

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"Por qué no te callas" Mário...

por Robinson Kanes, em 06.01.21

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Créditos: https://sol.sapo.pt/artigo/645257/vice-do-conselho-da-magistratura-critica-excessos-de-linguagem-nas-sentencas

 

Se o medíocre se associa ao medíocre,  a arte de imitar, só produz mediocridades.

Platão, in "República"

 

 

É incrível como é que a questão da adulteração de um CV para fazer passar um indivíduo num crivo de um concurso internacional gera tanta polémica em Portugal. Será que estamos a evoluir e agora ao invés de termos 90% da população adorar uma boa cunha, um favor ou a mentir sobre a experiência profissional, só temos 60%? Pior ainda quando a escolhida/preferida é outra pessoa que já não importa tanto por causa das apertadas "golas".

 

No entanto, como diria o saudoso Sabino Rui, não foi isso que me trouxe aqui. O que me traz aqui é um Secretário de Estado Adjunto da Justiça que diz o seguinte sobre alguém que descobriu mais um esquema que envergonha qualquer um: "Quanto ao facto de ter sido retirado do Portal da Justiça um comunicado, a razão é simples: a dignidade das instituições e a autoridade democrática do Estado não permitem que dirigentes demitidos usem plataformas e serviços públicos como se fossem quintas privadas.". Parece-me bem, aliás, espero que Mário Belo Morgado faça disso exemplo para toda a estrutura da administração pública e local e a partir de agora esteja atento. Temo é que tenha de criar uma Secretaria de Estado só para isso. Isto é proferido no Twitter por um juiz superior e que já foi Director Nacional da Polícia de Segurança Pública (sim, é verdade, não estamos no Laos, mas é verdade)... Que sentido de responsabilidade! A censura e a falta de vergonha já não têm m limites quando para se destruir e achincalhar ainda se cai numa cinca bem pior.

 

Mas quem é o Mário? Refiro-me a este cavalheiro como Mário porque tenho dúvidas se será juiz ou político profissional tal é o número de cargos que já ocupou e que me levanta dúvidas entre aquilo a que se chama separação de poderes. Também é de estranhar que em Portugal existam tantos juízes ligados à política, quer por intermédio de cargos ocupados na mesma quer por distribuição de "benesses" aqui e acolá. O artigo de Nuno Gonçalo Poças que um amigo teve oportunidade de me enviar ontem, reflecte bem este estado da arte e a própria conivência do mais alto magistrado da nação com estes verdadeiros esquemas: o candidato Sousa, o mesmo que há mais de 20 anos continua em campanha eleitoral (descontado os anos em que queria ser o sucessor de Marcello Caetano e seguir as pisadas do seu ídolo Salazar), e nem se apercebeu que havia ganho as presidenciais. As intrigas e o comportamento de mulher de soalheiro não conseguem esconder que também Marcelo é um homem do regime e foge a sete pés quando tem que ser o Presidente diferente que diz ser. Espanta-me também (ou talvez não) que tenha sido Nuno Gonçalo Poças a fazer uma pesquisa tão aprofundada (onde nem a Ministra da Justiça escapa) sobre esta teia e não um jornalista.

 

Mas de facto, o Mário é perito em dizer uma coisa e o seu contrário o que, para um juiz do Supremo Tribunal de Justiça, me faz pensar se tem estofo para a profissão que exerce. O Mário é o mesmo que defende abertura da justiça, que esta não deve ser secreta, mas depois gosta de mostrar tiques de censura no Twitter, sem esquecer que o secretismo em torno das actas do Estado de Emergência - para o Mário, estas não deveriam ser públicas. Mas voltemos às quintas, algo que o Mário parece não gostar, mas esquece que em 2018, emitiu um despacho como Vice-Presidente do Conselho Superior da Magistratura onde pedia para ser consultado pelos magistrados das suas intenções de adiar processos e leituras de sentenças. Esta situação não ocorreu propriamente no seguimento de um processo em que um os visados tinha roubado fruta de pomar alheio, sucedeu nos casos de Duarte Lima e dos Vistos Gold.

 

Finalmente, o Mário que parece ter mais estofo para estar agarrado ao poder do que para ser juiz, é aquele que não foi reeleito para o cargo que ocupava no Conselho Superior de Magistratura, e até eu consigo entender o porquê: quem passar pela página do instagram da candidatura do mesmo fica com ideia que a Justiça é um pouco como dizia o saudoso Jeroen Dijsselbloem acerca dos mediterrânicos: "mulheres e copos". Chego a pensar se o Conselho Superior da Magistratura, no entender do Mário é uma espécie de Gambrinus ou efectivamente uma Tasca do Careca, mas com pior aspecto. Além disso o Mário não dispensa aquele nacional contração espasmódica de sacar umas boas selfies nas cadeiras do avião.

 

Na verdade, acredito que, como referiu em tempos o Presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, "os juízes reprovam essa situação (justiça de mãos dadas com a política), não por constituir uma ilegalidade (...)mas porque pode levantar problemas de ética”. Custa-me, embora reconheça a legalidade, ver juízes em cargos de confiança política, sem que abdiquem para sempre da profissão. No meu entender de cidadão, de Democracia e princípio da Separação de Poderes, tem muito pouco e se a isso juntarmos as ligações que muitos também têm com o futebol, dará que pensar se vivemos efectivamente nessa Democracia em que julgamos estar. Afinal quando temos alguém que exerce o cargo de Ministra da Justiça toma posse como juíza do Supremo Tribunal é o reflexo do estado ultrajante e totalitarista a que chegámos... Se voltarmos bem lá para trás, muitos dos envolvidos na teia que Poças apresenta ainda são encontrados no caso Casa Pia e em alguns factos que envergonhariam qualquer Democracia... Roma pagava bem aos seus generais, e pelos vistos na Lusitânia também os pulhas pagam bem aos seus bandalhos.

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