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Sardinhas de raça e Eugénio de Andrade...

por Robinson Kanes, em 19.01.21

eugenio de andrade.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje é o dia da habitual sardinhada no espaço SardinhaSemLata, onde o anti-racismo, mais do que o racismo, merecerá destaque, vejam aqui

 

Não posso também deixar passar, sobretudo tendo em conta o poeta e a paixão que alguém próximo tem pelo mesmo... A 19 de Janeiro de 1923, entre as terras frias do Fundão nascia um dos maiores vultos da poesia: Eugénio de Andrade!

 

Adeus

Como se houvesse uma tempestade 

escurecendo os teus cabelos belos,

ou se preferes, a minha boca nos teus olhos 

carregada de flor e dos teus dedos

 

como se houvesse uma criança cega

aos tropeções dentro de ti,

eu falei em neve, e tu calavas,

a voz onde contigo me perdi.

 

Como se a noite viesse e te levasse,

eu era só fome o que sentia;

digo-te adeus, como se não voltasse

ao país onde o teu corpo principia.

 

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,

e sobre as nuvens mar perfeito,

ou se preferes, a tua boca clara

singrando largamente no meu peito

Andrade, E (1990). Obra de Eugénio de Andrade / 2 (pp.16). Porto: Limiar

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Um Hendrick's com Whitman, Clio e Leone...

por Robinson Kanes, em 08.01.21

walt whitman.jpg

Imagem: Robinson Kanes

I know I have the best of time and space, and was never measured and never will be measured.

Walt Whitman, in "Canto de Mim Mesmo"

 

 

Quem me conhece por aqui, provavelmente terá ainda estranhado o facto de não ter abordado a invasão do Capitólio. Tenho de admitir que me preocupa mais a invasão da Assembleia da República por alguma gente da pior espécie e que esta semana esteve na ribalta. Confesso que também aguardo mais dados para formular o meu pensamento. Talvez para a semana, longe do chinfrim e com toda a informação recolhida, porque para já, o palco já tem muitos actores.

 

Admito que agora o que me apetece é mesmo um Hendrick's com uns cubos de gelo, a rodela de limão e a tónica... É bom o mundo parar de vez em quando, sobretudo na nossa varanda. Entre os raios de sol que combatem este frio, acompanho o gin com um livro: Walt Whitman é o escolhido com "Canto de Mim Mesmo". Tenho dias em que me dá para a poesia, embora a poesia de Whtiman seja pouco poética no sentido em que podemos interpretar a mesma como uma lição prática, não só da realidade norte-americana mas também de nós próprios: talvez isso nos ajude a não ser tão idiotas na interpretação de certas realidades.

 

Com o gin ainda a meio, é provável que me deixe levar pela música, uma presença constante ao longo da vida. Ainda não passaram duas semanas que morreram dois dos mais elevados intérpretes latinos, Armando Manzanero e Carlos do Carmo. Do "viejito" falei aqui, do segundo recordo uma das suas menos conhecidas: "Palavras Minhas", uma interpretação única dos versos de Pedro Tamen. Todavia, tenho de reconhecer que o dia se vira para outras sonoridades e é aí que encontro uma paixão de longa data, a francesa Clio... Escolho "Amoureuse" no iPod. Sim, hoje estou um iPod. Talvez o final da minha estada na varanda, antes que me transforme num abominável homem das neves, seja reservado para os Groove Armada e onde não poderá faltar "My Friend". Esta música traz-me demasiadas memórias, de uns anos em que um "contrato" não me permite falar sobre o que vi, ouvi e fiz... Grande banda sonora para tanta coisa...

É provável que este fim-de-semana contenha cinema e se assim for, já está ali de lado a obra prima de Sergio Leone, "Once Upon a Time in America". Um dos filmes de gangsters mais longos da história e um dos mais apaixonantes... James Woods e Robert de Niro (e até uma presença de Joe Pesci). É mais um daqueles filmes que nunca se apagarão da nossa memória e que veremos vezes sem conta. Um lado de Sergio Leone apaixonante que foi um tremendo sucesso na Europa depois de ter sido mal visto nos Estados Unidos, sobretudo pela duração... Bons actores, uma excelente realização e sem esquecer o brilhante Ennio Morricone com uma das suas mais belas bandas sonoras - a música é de arrepiar, indiscritível em termos de emoções e com cada nota composta com uma alma que só Morricone possuía. Um filme duro, bem duro como qualquer bom filme de gangsters e com uma das cenas finais, entre Woods e De Niro que nos deixará a todos...

E como diria Whitman, I take part, I see and hear the whole/The cries, curses, roar, the plaudits for well-aim'd shots/The ambulanza slowly passing trailing its red drip/Workingman searching after damages, making indispensable repairs/The fall of grenades through the rent roof, the fan-shaped explosion/The whizz of limbs, head, stone wood, iron, high in the air.

 

Bom fim-de-semana...

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Parabéns Dr. Adolfo...

por Robinson Kanes, em 12.08.20

miguel-torga.jpg

Créditos: https://tamtampress.es/2016/08/09/la-galerna-publica-el-diario-del-portugues-miguel-torga/

 

 

Muitos parabéns,  Sr. Doutor... Hoje um dos grandes génios do século XX português e do Mundo faria 113 anos! A devida vénia! Perdoa-me Vergílio, mas hoje o dia tem de ser do Torga... Com o "Pico Cornón" à vista, não podia deixar passar esta data de um transmontano apaixonado pela montanha. Nunca mais esqueci o "Nora", bem como nunca mais deixei de pensar naquele perdigueiro...

 

Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in "Diário XIV".

 

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prague_czech_republic.jpgImagens: Robinson Kanes

 

 

É Natal e com o mau tempo os portugueses lidam mal... É natural num país onde uma grande parte das infraestruturas são castelos de papel.

 

E não seja por isso, já que o fim-de-semana com cheiro a Natal vem aí! Sim, afinal algum dia tinha de ser e na época apropriada. Quando o Natal já não é tema é que eu venho falar do mesmo, apesar do esgotamento a que foi sujeito, desde Outubro, por estas bandas e não só. Acho estranho ainda ninguém ter falado do Carnaval ou até da Páscoa, já vai sendo hora.

eugenio_de_andrade_coracao_do_dia_mar_de_setembro-

Uma boa leitura para o Natal... Para aqueles que dizem que a poesia não tem grande interesse para mim, hoje até lhes faço a vontade e atiro-lhes com o "Coração do Dia Mar de Setembro" de Eugénio Andrade. O senhor já morreu há algum tempo, por isso nem estou a aproveitar uma onda de falar que se gosta ou se aprecia um escritor recém-falecido. Tomem e embrulhem com um momento pedante...

 

Variações em Tom Menor

 

Para jardim te queria

Te queria para gume

ou o frio das espadas.

Te queria para lume

Para orvalho te queria

sobre as horas transtornadas.

 

Para a boca te queria.

Te queria para entrar

e partir pela cintura.

Para barco te queria.

Te queria para ser

Canção breve, chama pura.

 

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia - Mar de Setembro"

 

Vou já ao teatro, e aproveito para comprar uns bilhetes para "Ricardo III", encenado por Thomas Ostermeier e texto do grande Shakespeare e em alemão (com tradução). Ideal para a passagem de ano, pois há espectáculo dia 31 também! Podem saber mais sobre esta peça no Teatro Nacional D. Maria II.

 

Para escutar... Música de Natal, admito que já irrita. Por isso, o melhor do Natal pode ser passado com Johann Sebastian Bach e uma bela de uma Kantate. Tomem lá a Cantata BW 142 - Uns ist ein Kind geboren que dizem ser de Bach. Digo-vos que é do bufo, ou não as tivesse todas por cá...

E como existe algo ainda pior que música de Natal, nada como um filme para esta época e bem católico, Forušande, do realizador Asghar Farhadi. Filme iraniano, não podia ser mais adequado ao Natal. A vida e o teatro e o teatro da vida... Enfim, é isto e o filme é muito porreiro! Libertem-se das amarras do menino nas palhas estendido (ou será deitado?) e mergulhem na realidade. Os iraninanos são dos melhores neste mundo a fazer filmes e este é um exemplo supremo!

E finalmente porque é Natal, aproveitem para dizer àquela pessoa que gostam realmente dela, isto se tiverem tempo enquanto dão umas moedinhas ao pobrezinho no momento em que tiram uma selfie... ou no espectáculo de abertura das prendas que em algumas casas chega a ser repugnante, sobretudo quando são tantas que, no caso dos miúdos, nem se apercebem do que estão a abrir e parecem autênticas bestas perdidas no meio de tanta oferta...

 

Feliz Natal...

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