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O Fim do Não é que não houvesse...

por Robinson Kanes, em 20.02.21

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Créditos: https://www.pinterest.pt/carlosserrenho/no-masculino/

 

 

Não é que não houvesse... Haver havia... Não era grande coisa... Mas haver havia...

 

Quem me acompanha sabe que não sou adepto do bafio ou de me perpetuar em algo. Acredito na renovação e na procura de diferentes desafios. Ficar agarrado ao mesmo uma vida inteira é como se me matassem. Prefiro a dedicação total no tempo que tenho ao laissez faire da eternidade. Gosto de novos desafios e também de ver outros tomarem um caminho que eu já percorri, por certo o enriquecerão. A toda a hora a natureza, o espaço, tudo se renova, porque nós também não o fazermos?

 

Quem me conhece, também sabe que quando discordo de algo ou não me revejo em, alerto e abandono (o chorrilho português tem o habitual discurso escroque do "quem está mal que se mude") ao invés de preferir pactuar com ou tomar parte em. E existem, por certo, em muitas coisas boas, outras tantas coisas que a minha, digamos, forma de estar, não quer pactuar ou estar associado. 

 

Defendo também que espaços como os blogues são espaços de inovação, de mudança e não de pó entranhado. Assumi isso no primeiro dia em que aqui publiquei e hoje é o dia de fechar o "Não é que não houvesse" que, em meu entender, até durou muito. Fico contente pelas conquistas e também pelas aprendizagens que tive com todos aqueles que por aqui passaram: os comentários; as mensagens de email; os ataques e os elogios; os que não nos seguem ou nos abandonam por medo de acicatarem alguma força que por aí anda e com isso matar a sua imagem virtual na plataforma; os que nos abandonam porque perderam o interesse; os que nos seguem porque os seguimos, uma espécie de moeda de troca, e finalmente os que nos seguem desde o primeiro momento, entre o apreciar e o discordar. Tenho de admitir que estes últimos são os melhores, a par daqueles que nem a existência conhecemos - a sua dedicação e capacidade de discussão, o seu silêncio até, são qualquer coisa e a grande riqueza deste espaço.

 

É tempo de parar, de pensar em novos projectos e de com menos fazer mais, até porque, acredito, só 10% do que poderia adicionar foi escrito. Continuarei, para já, no SardinhaSemLata a espalhar veneno à terça-feira, todavia as portas aqui se fecham. O caminho faz-se caminhando, e além disso, as palavras são uma coisa boa mas terei agora ainda mais tempo para o terreno... Para o pó e para a lama e sem dúvida para um acréscimo do risco. Não poderei estar mais feliz.

 

Para o fim, deixo o porquê do "Não é que não Houvesse" e do seu "Haver havia e por aí adiante"... Foi numa loja de bairro, onde aquando da compra de farinha, uma personagem de provecta idade falava do seu passeio de autocarro a um restaurante (aqueles passeios dos velhos que todos conhecem) e da comida... Repetiu a lenga-lenga umas sete ou oito vezes, o que levou a que uma besta (eu), tivesse tido vontade de lhe despejar um pacote de farinha em cima. Quem díria que acabou por servir de inspiração a...

 

A todos os que por aqui andaram, só tenho de deixar o meu agradecimento, porque quem escreve, gosta sempre de ter o seu público, ou melhor, de criar relação - é isso mesmo. Se não quisesse não publicava, sejamos sérios - outra coisa é afastarmos a clientela ou abanarmos uma certa estrutura, momento em que agora colocaria um smile à gargalhada. Vou estando por aí, algures nesta poeira cósmica que somos e com o mau-feitio do costume. Sabem onde me encontrar...

 

Obrigado a todos e muitos sucessos!

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Do Subnutrido Iémen...

por Robinson Kanes, em 18.02.21

 

Fechar os olhos não muda nada. As coisas não desaparecem pelo simples facto de não estares a ver. Pelo contrário. Da próxima vez que abrires os olhos, revelar-se-ão ainda piores (...) só os cobardes vivem de olhos. Fechá-los e tapar os ouvidos não faz passar o tempo.

Haruki Murakami, in "Kafka à Beira-Mar"

 

Nos anos 90, ainda muito pequeno, e com a visão mais apurada para a televisão que os outros sentidos, acabei por ficar marcado pelas imagens de crianças subnutridas em África. Já referi em tempos que os meus pais nunca me privaram de visualizar qualquer conteúdo mais horrendo... O Mundo é como é...

 

Qualquer criança ou adulto que tenha passado pelos anos 90 (e muito provavelmente nos anos 70 e 80) terá assistido a este triste espectáculo que marcou décadas e cujo esquecimento - e um certo sucesso no combate à fome - acabou por transformar esse passado em algumas piadas: as piadas são boas, além de nos permitirem desanuviar na desgraça, também podem demonstrar o distanciamento face a algo que deixou de existir.

 

Todavia, parece que o passado, e em alguns casos o apagar ideológico do mesmo, leva-nos a pactuar com o regresso de determinadas catástrofes. Não obstante, a diferença é que num Mundo pouco ligado a luta contra a injustiça tinha outra força, muito mais que num Mundo hoje ligado e onde, temas como a fome, só surgem quando alguém tem interesse em tirar uma fotografia junto dos pretos ou dos asiáticos para colocar na capa e um livro.

 

Desta vez volto ao Iémen, país que já abordei aqui, para chegar à conclusão que infalivelmente a História se repete. E a cada vez que se repete, a nossa ignorância e desprezo perante os factos é ainda maior. É perturbador como em países onde os bancos alimentares são verdadeiras indústrias e oligarquias de milhões de euros, se inventa fome que não se vê e quando ela existe, uns quilómetros mais à frente, fingimos nem ver... Ou mais grave que isso, não vemos...

 

Dispenso mais palavras, o vídeo que acompanha este artigo fala por si... Engoli em seco e tive vontade de bater em alguém, mais ainda quando recebia a notícia de que um carregamento de armas de fabrico chinês (alegadamente sem o envolvimento do Governo comunista daquele país) seguia clandestinamente em direcção a este país e foi capturado por uma fragata norte-americana. No meio disto tudo, existem uns olhos que não esquecerei tão depressa...

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Marcelino da Mata no SardinhaSemLata

por Robinson Kanes, em 17.02.21

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Créditos: http://ultramar.terraweb.biz/CTIG/Imagens_CTIG_TenCorMarcelinodaMata_Apadrinhou_seu_neto_PupilosdoExercito.htm

Ontem foi assim na habitual passagem pelo SardinhaSemLata.

 

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O Holocausto do West Bank...

por Robinson Kanes, em 11.02.21

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Créditos: Associated Press

 

No Verão de 1948, no espaço de algumas horas, os meus pais, como centenas de milhar de palestinianos, perderam tudo. O meu contou-me que estava no colégio quando souberam que os israelitas estavam a massacrar as pessoas nas aldeias vizinhas. A sua família e todos os vizinhos fugiram em direcção a Gaza, então sob domínio egípcio. Como muitos jovens, critiquei o meu pai durante muito tempo por não ter ficado e lutado, mas depois li os relatos dos "novos historiadores" israelitas e compreendi que os palestinianos, com as sua espingardas de má qualidade, não tinham qualquer hipótese. Ficar teria sido um verdadeiro suicídio, e era preciso sobreviver para preservar o futuro.

Kenizé Mourad, in "O Perfume da Nossa Terra - Vozes da Palestina e de Israel" 

 

 

Dei comigo, por várias vezes esta semana, a olhar para esta fotografia... Assumo até que tentei prestar pouca atenção à mesma. Procurei filtrar, afinal a propaganda não é só de um lado e por isso é necessário manter algum distanciamento. Também já escrevi sobre isto algumas vezes, "não deveria" ser tema sequer para voltar a trazer... É pouco relevante, não é importante, actualmente é como faire monter la mayonnaise.

 

A verdade é que ninguém, e passo a expressão, com dois dedos de testa, consegue ficar indiferente aos crimes que continuam a ocorrer, crimes contra a Humanidade! O Estado de Israel (o Estado e não os israelitas) continua impunemente a semear o terror no Vale do Jordão. Na Cisjordânia continuam a cometer-se atrocidades dignas também de um Holocausto, todavia, surgem apenas avisos, apenas consternação. Alguns esperam por Biden, como se este fosse o salvador, pois que desesperem... O silêncio pode manter as luzes, mas não pode esconder o resto... Apenas um assobiar para o lado numa guerra em que não podemos dizer que existe um lado totalmente inocente. É também relevante afirmar que não deixa de ser estranho, até quando já a própria Arábia Saudita ganha alguma consciência (independentemente do que levou a) e liberta a activista Loujain al-Hathloul - um ponto para os alegados radicais, muitos pontos a menos para os pacíficos e pobres perseguidos.

 

A história da comunidade de Khirbet Humsu é uma das mais intrigantes e mais interessantes na luta de territórios entre David e Golias... As mais recentes peripécias passam por três meses, ou perto disso, em que as forças israelitas, sem qualquer motivo, derrubaram por três vezes aldeias e vilas inteiras e também por três vezes o povo palestiniano as reergueu. O mesmo povo que diz não ter para onde ir, já nem é uma questão de reclamar território... Até porque, diz-nos a História e o presente, que nenhum dos lados, quer ao mais alto nível político quer a nível militar, parece estar interessado em resolver a questão pacificamente.

 

Esta fotografia, contudo, transporta-me para um cenário misto, onde uma película bem realizada se mistura com a realidade. Os sorrisos e a alegria de crianças que nem sabem bem que bandeira transportam, mas de uma coisa estão certas: é a sua terra! É a sua terra e o seu futuro que, esperamos, entre sorrisos e muitas lágrimas, não acabe com um projéctil na testa ou com um colete armadilhado. Espero que transportem a bandeira da esperança e que possam ser os futuros líderes de um povo. Futuros líderes vencedores na diplomacia e na paixão pelos seus, mesmo que tenham sofrido tentativas de deportação quase como numa espécie de vingança por aqueles que mais de meio século antes passaram pelo mesmo.

 

Estes putos são o pó e a esperança de um Mundo melhor... Não os ignoremos... E não faltam por aí putos a transportar bandeiras...

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É passar por lá...

por Robinson Kanes, em 09.02.21

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Créditos: https://www.ebaumsworld.com/images/feminism-fail/81157278/

 

Pronto, hoje é terça-feira... Dia de estarmos no SardinhaSemLata... Passem por

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As Mamas da Liz Hurley...

por Robinson Kanes, em 03.02.21

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Créditos: yahoo.co.uk / Liz Hurley Instagram

 

E de repente, a chavasqueira toma conta deste espaço porque vamos falar de mamas! Sim, a Liz Hurley tem 55 anos e um corpo invejável onde se incluem as mamas, por sinal, igualmente atraentes. So what? Sim a Liz Hurley deverá ser das poucas britânicas realmente atraentes, so what? Sim, muitas mulheres gostariam de chegar aos 55 como a Liz Hurley. So what

 

Mas tendo em conta que o chavascal tem limites, não vou entrar na discussão das redes sociais nem das celebridades, seria perda de tempo, fico-me mesmo pela apreciação dos seios da senhora. Não obstante, quando alguém como a Liz Hurley expõe parcialmente os seus seios e é alvo de um coro de criticas, inclusive de um dos mais mediáticos gentlemen de bem, mas que não passa de um dos novos censores, Piers Morgan, começamos a pensar. Ninguém sabe muito bem o que é este cavalheiro e o que é que ainda faz nas manhãs de Inglaterra. Ninguém percebe como é que uma coisa destas escalou em importância enquanto o Mundo está transformado numa autêntica sarrafusca! Abrir noticiários com isto é...

 

Posto que, nesta sociedade aberta do politicamente correcto é mau dizer que a roupa é preta pois já estamos a ser racistas, é mau até falar de racismo em África porque não é cool (mas se for nos Estados Unidos já é ser activisita) e é mau levantar um braço ou até fazer humor, todos os cuidados são poucos... a bem da liberdade, dizem. Um humorista que hoje em dia queira fazer jus à profissão não vai longe, ou se vende à política e ao futebol (sim, o Ricardo Araújo Pereira, o Nogueira e tantos outros... acho que houve um que até se trocou todo a propósito de uma passagem de ano mais rebelde) e passa a ser um canal de débito político e ao sabor de quem governa , ou então procura uma nova profissão... Já não se pode ser engraçado que é o fim do mundo. Aliás, já nem assertivo, fará engraçado... Não fosse o humor e tanta coisa já seria esquecida, como se tem tentado que seja nas escolas.

 

Penso hoje que uma série como o Allo' Allo'! nunca teria sucesso, aliás, seria censurada logo à partida! Eu vejo o Allo' Allo', tenho todos os episódios e parto o caco a rir com os alemães, ou melhor, com os nazis! Com os nazis, com os franceses, com a Resistência, com os ingleses, com o fascista Bertorelli e claro com o fantástico agente da Gestapo, Herr Flick! Tornei-me numa besta? Não! Não tendo acompanhado aquando da estreia, vi em diferido e suscitou-me até bastante curiosidade acerca de alguns tópicos. Mas depois criticamos umas mamas atraentes praticamente escondidas... 

 

E enquanto reprovamos as mamas da Liz Hurley, vamos empreendendo o novo hype de uma sociedade decadente que dá demasiada importância a desocupados, perdão, influencers, e embarcou naquela coisa de liberdade feminina que se chama... menstruação! Aliás, vestir de branco e exibir uma enorme mancha vermelha é o que está a dar! Ainda bem que a maioria das mulheres não se revê nisto e outras até dizem que se a emancipação da mulher é isto mais vale voltar ao que era! Como as consigo entender... E sim, não sou mulher, mas posso falar sobre, poupem-me à superioridade moral. Não sou mulher e gosto de mulheres, preferencialmente atraentes como a Liz! Uau! Posso?

 

Enquanto criticamos a mamas da Liz Hurley, estamos a ir contra aquilo que queremos para as mulheres, enquanto criticamos a Liz Hurley mostramos quão hipócritas somos e como fazemos parte de um monte de ovelhas que coloca o bem-estar à frente do look at me. Enquanto enxovalhamos a Liz Hurley, e até achando que é creepy que tivesse sido o filho maior a fotografar, fechamos os olhos a tanta coisa e escavamos um buraco maior do que aquele que queremos tapar. 

 

Esta é a mesma hipocrisia que assistimos em movimentos e causas criadas no momento e ao sabor do like mas depois enfiamos a cabeça na areia porque ser homossexual em Aceh, Indonésia, pronto, como é bem longe, vá... uma 43 chibatadas no lombo e à frente de quem quiser ver até é uma coisa aceitável. A Indonésia é cool, tem Bali, pronto... Nem tudo é mau. Recordo-me do episódio hipócrita do "batom vs velhos bêbados"  e de facto, como tão bem retrata Houellebecq, de que "no mundo moderno (é) permitido trocar a toda a hora, ser bi, trans, zoófilo, sadomaso, mas (é) proibido ser velho". Basta pegar nesta observação e transportá-la para tantos episódios do quotidiano.

 

O vírus tem-nos roubado tanta coisa que é tão nossa, que é tão humana, que não nos roube as nossas liberdade e não nos coloque na cabeça a pedra da loucura de Bosch ou até da histeria colectiva que mais parece um pelourinho mas com gente ainda mais louca com tiques de altamente civilizada e desenvolvida. Realmente... como diz o povo, "o trabalho faz tanta falta"...

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Holocausto ou Holocaustos?

Onde a vítima se confunde com o agressor...

por Robinson Kanes, em 28.01.21

RTS1RIU6_IsraelPalestine_Nakba_protest_0.jpgCréditos: Mohamad Torokman/Reuters

 

Um cérebro pode servir para fins bastante diferentes e (a) conquista do mundo é mais desejável que a sua ordem.

André Malraux, in "A Tentação do Ocidente"

 

Causa-me alguma angústia pensar que muitos jovens não sabem o que foi o Holocausto nazi. Causa-me também igual angústia imaginar que um número ainda maior nem sabe o que foi a União Soviética, o que não é de estranhar tendo em conta os adeptos que esta ainda vai tendo, sobretudo em Portugal onde, neste campo, se tenta reescrever a História. Podemos desculpar os jovens, já não podemos desculpabilizar os adultos, os mesmos que fecham os olhos aos holocaustos presentes.

 

Esquecer o Holocausto é esquecer toda uma História que está para trás, aliás, os holocaustos até lá não foram uma novidade, todavia, a proximidade, o horror e uma máquina bem oleada de propaganda (é inegável) dão-nos a sensação de que foi caso único. Não foi! Mesmo depois da guerra, os holocaustos multiplicaram-se e de uma forma ou de outra, alguns ainda por aí existem... Passemos pela China, por alguns países do Sudoeste Asiático, por África e até por Israel.

 

Nada me move contra israelitas ou judeus, bem pelo contrário. Provavelmente terei influências judaicas também e tenho uma grande admiração por todos aqueles com quem tenho oportunidade de partilhar momentos da minha vida e onde os conflitos israelo-árabes são sempre tema de discussão. Todavia...

 

... Não deixa de ser caricato que o "estado do Holocausto", desde há muito, e também por causa das políticas de desenhar fronteiras a régua e esquadro das potências europeias, seja também aquele que tem mais guerras em pouco mais de meio século de História do que alguns com milénios. A Guerra dos Seis Dias, a Crise do Suez e tantas outras bravatas que inclusive culminaram com a anexação de territórios de outros países, veja-se o exemplo dos Montes Golan e dos denominados "territórios ocupados", tem lançado a região no caos.

 

Já passou tempo suficiente para "pagarmos" pelo Holocausto e começar a exigir que Israel (também conhecida pelo seu terrorismo de Estado) cumpra os Direitos Humanos e se abstenha de perpetrar um Holocausto contra o povo palestiniano, numa sede imensa de ampliar o seu território. A questão palestiniana é complexa, daria muitos artigos, até porque a dificuldade em encontrar quem tenha mais razão nesse conflito não é fácil e talvez por isso seja algo que até hoje ainda não foi resolvido - o estadista israelita que esteve mais perto de uma solução foi assassinado por um dos seus. 

 

Numa base diária, Israel tem subjugado o povo palestiniano, tem-no morto e tem-lhe roubado território com uma passividade internacional gritante, direi até assustadora - um pouco à semelhança do que foi encetado pelos causadores do "Holocausto" nos primórdios da Segunda Guerra Mundial. Não é justificável e não deixa de ser um paradoxo ver a vítima a fazer exactamente o mesmo que o agressor. Imaginem estar na vossa casa, no vosso bairro e no vosso país e de repente terem um bulldozer e dezenas de soldados a expulsarem-vos de casa sem razão aparente e a destruir-vos o lar... Dizer que isto é algo normal é quase como negar o Holocausto - por menos começou uma guerra violentíssima na Síria. Neste campo, a loucura com o coronavirus, tem ajudado a que muitas destas acções praticamente nem sejam do conhecimento público - não se confinam só pessoas, confina-se o pensamento e a liberdade.

 

Na verdade, esta sensação de impunidade permitiu o desplante, e aliás o erro histórico de, nos mesmos dias em que se "celebrava" o aniversário do Holocausto, Israel ter feito um ultimato ameaçador aos Estados Unidos a propósito da aproximação ao Irão e inclusive deixar transparecer que planeia um ataque àquele país. Imaginem confortar um inocente que, enquanto recebe o vosso abraço, carrega a sua masada para matar ainda mais inocentes. O timing foi desastroso e o argumento ainda mais. Se a isto juntarmos também o facto de terem "passado ao lado" os alegados bombardeamentos israelitas em solo sírio, junto à fronteira com o Iraque da passada semana, temos um estranho cocktail de hipocrisia. 

 

Se tratar outro povo como bestas, retirando-lhe direitos, humilhando-os numa base diária, criando muros e invadindo as suas casas e dispondo das suas vidas rasgando toda e qualquer emanação da Carta dos Direitos Humanos é digno, pois bem, então não se admirem de que, mais do que um dia nos esquecermos do Holocausto, o aplaudirmos...

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Porque existem vírus bem mais perigosos...

por Robinson Kanes, em 26.01.21

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Créditos: https://imgflip.com/i/3u4tcj

 

Hoje estamos no SardinhaSemLata a falar de vírus muito perigosos, mas podem ficar mais calmos... O SARS-CoV 2 não é um deles... 

Passem por lá, é só clicar aqui.

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Irrepresentable...

por Robinson Kanes, em 22.01.21

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Imagem: GC e Robinson Kanes

 

Mon royame est de c'est monde.

Albert Camus, in "L'Envers et l'Endroit" (Amour de Vivre) - Camus cita os gregos contrariando o que Cristo respondeu a Pilates em João, XVIII, 36 

 

Não tento sobreviver ao vírus, tenho as minhas cautelas, os riscos existem, isso basta-me para me sentir bem - no que concerne à desgraça, lamento não dar para o peditório, usando as palavras de um dos visitantes deste espaço.

 

Procuro sobreviver ao agudizar da hipocrisia (agora as políticas governamentais já são más, mas há uns meses chamavam a quem tal afirmava de idiota) numa fase em que temos de garantir a paz e a calma, agora é tarde e também é cedo para apontar armas. Agora não é tempo de discursos da moral, das opiniões que mudam segundo as redes sociais, segundo a turba e as diferentes plataformas, noticiosas e não noticiosas. Como se muda de opinião de um minuto para o outro, hoje em dia... Ainda bem que tal, maioritariamente, só acontece a quem usa o teclado de forma pública... Ainda bem...

 

Tento sobreviver ao pânico e ao medo, não em mim, mas junto de alguns que me rodeiam, não é fácil quando tenho uns minutos face aos meses de invasão grosseira da mente que  tantos continuam a perpetrar a troco de leituras e audiências. Talvez agora me chamem de idiota, como "chamaram" há uns tempos... Mas perdoem-me não resistir ao mordaz e cínico: eu bem dizia! Leia-se eu como um grande "nós".

 

Não exploro esta situação como uma espécie de carona invertido, não me coloco como especialista em saúde, apenas alguém que diz umas coisas e que parece que ao invés de procurar holofotes, teima em disparar sobre qualquer luz que se acenda - uma busca por não sofrer por aquilo em que não acredito, pois isso faz-me não acreditar na vida e não a pretendo jogar à aventura, socorrendo-me aqui "Do Mundo Original" do grande VF . Talvez um dia me arrependa, quiçá... 

 

Nessa sobrevivência, e não sendo um homem que aprecie as quatro paredes de um escritório, por vezes é necessário uma retirada, não gosto da palavra meditação... Sair das gentes, pensar a sós, isolar-me desse mundo nem que o escritório mais formal dê lugar ao assento de um carro ou mesmo a um tijolo qualquer numa praia ou beira-rio desprezada e pejada de detritos. 

 

Retiro-me, não escuto o "Addio a Palermo", de Morricone e composto para o filme "Corleone", como por estes dias mencionei ao amigo João-Afonso. Procuro outras sonoridades, talvez me faça bem agora o "Vacío Sideral" de Miguel Ángel Delgado e do espectacular albúm "En Mundo en la Boca".

 

Deixo que o vento me misture os pensamentos, o meu reino é, de facto, deste mundo... De um mundo que desconheço e que rapidamente oscila entre o discurso mais terno e a mais ignóbil descarga de ódio. Um mundo de faz de conta ou talvez não... Talvez esse reino seja mesmo assim e os restos de acomisme sejam isso mesmo, detritos de uma esperança que nunca se concretizará - o melhor dos mundos poderia ser hoje e não é, porque terá de ser no futuro que se avizinha ainda mais desafiante e sedento de Homens sem conseguir livrar-se de wannabes. A Terra bem roda... Mas teima em não conseguir sacudi-los para fora da sua órbita ou sequer transformá-los em húmus transformando podres almas em saprófitas.

 

Acabo este texto a ouvir Davide Salvado, e o seu galego inconfundível... Talvez o "Aire" de um dos melhores músicos da Ibéria me possa inundar e me dar todas as forças para vencer mais um dia em que sei que tenho de estar bem para que outros também possam estar. Preciso dos ares de lá... Sufocam-me os ares de um rectângulo fechado sobre si próprio... Um rectângulo irrepresentable de García Lorca mas com uma náusea perpétua cujas metástases corrompem um dos solos mais ricos do Mundo.

 

São horas de levantar, aguardo mais uns minutos. Fecho um pouco os olhos e deixo que o Tejo se transforme na Avenida de la Constitución em Granada... Permito-me, eventualmente, a ter dois dedos de conversa com o poeta e com o dramaturgo acerca da revolução social antes de voltar ao reino.

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Discurso do Pânico... Continuem que vão bem...

por Robinson Kanes, em 21.01.21

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Capa da edição do histórico Diário de Notícias de 21/01/2021 - que para isto, não precisava de ter voltado.

Imagem: Diário de Notícias

 

 

E quando se deixa de acreditar nas pessoas, o que é que fica a um homem?!... Pouca coisa e nada de bom... Uma noite danada dentro da gente, uma grande vontade de morrer quando o coração amacia e uma grande vontade de matar quando se pensa que viver é bom e são os outros que não deixam.

Alves Redol, in "A Barca dos Sete Lemes"

 

 

O caronismo e o buescismo vieram para ficar. Já não basta a situação delicada e temos uma nova imposição do pânico e do medo. Parabéns, algumas pseudo-celebridades, médicos sem ética e alguns meios de comunicação conseguiram... "Estamos" cheios de medo.

 

Em relação ao caronismo, faz-me espécie como é que um candidato a Dr. Oz português, que não olha a meios para alcançar o protagonismo, continua a ter destaque máximo nos meios de comunicação, mais do que outros médicos experientes e muito mais prudentes quando falam da situação actual. A apologia do medo e da desgraça, sobretudo vinda de um indivíduo que diz ter estado em cenários de guerra, faz-nos pensar se tal terá servido de alguma coisa: a última coisa que, num cenário de guerra ou de pandemia, devemos fazer é a apologia do pânico e do medo, pelo menos dentro das nossas fileiras... Alguém estudou mal a lição... A cegueira por meia dúzia de likes e futuras audiências não tem limites! Caronas e dokinnis deste país semeiam o pânico e o medo sem olhar às consequências do seu discurso. Também não entendo o que os chefes do serviço destes profissionais andam a fazer...

 

Homens, verdadeiros médicos como António Sarmento (apenas um exemplo), mostram que não devemos entrar neste estado de pânico, mesmo em entrevistas que, mais do que buscar informação, o jornalista (ou licenciado apenas em jornalismo e com faltas a todas as aulas) tenta por todos os meios fazer com que o especialista ceda ao discurso do pânico. Mesmo perante as investidas sem sucesso insiste em dramatizar uma situação que ainda não chegou a tal. Para isso, para o desastre, voltaram os matemáticos dos números lapalissados, a semear o terror ao anunciarem números como 16 000 casos numa semana quando na corrente já temos 12 000 e estamos numa curva ascendente. Brilhante, e pagamos milhões a indivíduos como estes para ensinarem...

 

Também não deixa de ser paradoxal ver o mundo das pseudo-celebridades a embarcarem no discurso do medo e a apregoar o internet shaming e o encerramento de todos em casa - não seria grave se isto não afectasse a saúde mental de muitos que lhes dão ouvidos. Estas estrelas cadentes são as mesmas que há uma semana contestavam o encerramento de espaços culturais mas devem ter chegado à conclusão que, na tentativa de aparecerem, nada como ter as pessoas fechadas em casa e adoptar o discurso do medo - assim não vão cair no esquecimento de facto, mesmo que um dia sejamos contra o panda do kung fu e no outro dia a favor, vive-se de likes e a realidade pouco importa. Ninguém é responsável, mesmo que tenham passado o verão em férias à grande (e não poucas vezes pagas por outrem) a ostentar o seu confinamento. Também ninguém é responsável por, aquando de um acidente de viação em período de proibição de circulação entre concelhos, que pelo que me vem à memória deve ter sido o único em Portugal nos últimos anos, muitos destes indivíduos terem tido vontade de tomar parte na desgraça e afinal se terem esquecido que em tempo de confinamento, a A1 era um desfile destas celebridades quando outros estavam fechados.

 

Voltámos também ao discurso da guerra. Só quem nunca esteve debaixo de fogo real em situação de conflito pode chamar a isto guerra. Não, isto não é uma guerra!  Mas pelo menos, já que andamos todos tão preocupados com a guerra e com a linha da frente, pode ser que seja desta que possamos dar valor aos ex-combatentes do ultramar que combateram numa guerra que nem sabiam muito bem para quê... Esses e os desertores que um certo Presidente da República que na altura já ambicionava estar à frente de uma ditadura, apelidou de cobardes e apátridas mas quando chegou a sua vez, como sempre enquanto era jovem, lá chorou junto do pai para fugir às picadas africanas... E é isto Presidente de uma Democracia... Ainda por estes dias alguém me dizia, vocês (europeus) não sabem aproveitar a paz, estiveram demasiado tempo sem guerra.

 

Sou critico do Governo de António Costa, mas é preciso muito para sentir que desta vez o nosso Primeiro-Ministro não é dos maiores culpados (sim, é o Robinson a escrever isto). Perante tantas decisões complexas, perante tantos especialistas que só querem dar nas vistas (não todos), perante um Presidente da República que se confunde com Primeiro-Ministro quando as coisas correm bem e cospe publicamente em António Costa quando as coisas correm mal, mesmo que tenha tomado parte (e influenciado até) nas decisões, é motivo para ter alguma compaixão. Pelo menos, com más decisões, não deixa de ser um estadista, já o outro... A história falará por si e de um dos maiores actores e youtubers (seja lá o que isso for) da sociedade portuguesa

 

Assassínios em massa? Alguém tem real noção do que significa (mesmo em termos legais) de acusar um Primeiro-Ministro deste tipo de crime? Será que, com todos os erros, ainda não percebemos que não é possível salvar toda a gente e os custos económicos e sociais de um confinamento geral serão fatais? Continuo a não defender confinamentos gerais, não pode ser... Porque é que muitos europeus, e sobretudo os portugueses não se convenceram que os riscos existem? Mas onde é que andaram com a cabeça, pelo menos alguns deles, para acreditar que a segurança é absoluta? É impossível salvar toda a gente se o vírus, seja ele qual for, atacar em força! Podemos mitigar, sim podemos mitigar, mas o risco existirá sempre... Em que raio de bolha andámos a viver estes anos todos? Em que raios de guerras andaram os caronas deste mundo, pois parece que andaram foi a jogar Risco ou a Operação e quando algo é a sério parecem tontos a correr de mãos no ar a gritar acudam!

 

Já se fazem contagens de mortos nos cantos dos ecrãs... Mas o que é isto? Já não há ética, já não há decoro e o jornalismo tende a ocupar mais campas que o SARS-CoV. Somos um Heinrich de Malraux a fazer render a situação, posto que a mesma já foi encontrada! Estamos a abrir precedentes perigosos...

 

E é nesse contexto que, mais do que a situação actual, dá-me medo o futuro neste país, porque isto é só o começo do que um futuro incerto nos reserva. E como diz o povo, continuem que vão bem...

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