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Sardinhada em Odivelas...

por Robinson Kanes, em 01.12.20

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Créditos: https://imgflip.com/i/4cwh5z

 

Hoje, na nossa presença habitual de terça-feira no SardinhasSemLata, fomos a Odivelas, ainda passámos por São Paulo e eis que terminámos em Barcelona com uma descarga eléctrica daquelas... As sardinhas ficaram chamuscadas, mas algumas ainda se comem... Passem por lá se quiserem saber mais, é só clicar aqui.

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Créditos:https://www.straitstimes.com/sport/football/football-pope-francis-remembers-fellow-argentine-maradona-affectionately-praying-for

 

 

A política do espectáculo oculta os problemas de fundo, substitui pelos programas o encontra da personalidade, embrutece a capacidade de raciocínio e de juízo em proveito das reacções emocionais e sentimentos irracionais de atracão e antipatia (...) os cidadãos são infantilizados, deixam de se envolver na vida pública, ficam alienados, a Democracia é desnaturada e pervertida.

Gilles Lipovetsky, in "O Império dao Efémero"

 

 

Como é interessante que Maradona tenha encontrado a morte no "Dia Internacional para a Violência contra as Mulheres" e também no mesmo dia em que morreu Fidel Castro. Estranha coincidência... Perdoem-me, todavia, que não alinhe na choradeira global, até porque nunca participaria numa festa de arromba com Pablo Escobar na "La Catedral".

 

Para mim, um jogador de futebol é um jogador de futebol... Como é qualquer outro profissional, mas entendo as emoções de alguns que assim ultrapassam o racional. É interessante, cómico até, que na actualidade, onde muitos escrevinham, gritam e se revoltam para combater a violência contra as mulheres, se tenham esquecido, precisamente neste dia, que Maradona foi alguém conhecido por, passo a expressão, arrear nas companheiras. Aqui está um exemplo...

 

O chorrilho de argumentos (incidindo nas drogas, o resto não é bom trazer para a praça) para desculpar o passado negro de Maradona chega a ser assustador. Os mesmos que chamam criminoso, desprezível ao vizinho do lado porque bateu com a porta do carro no nosso, são os mesmos que agora aplaudem a chegada de Maradona aos céus na metáfora da entrega da mão a Deus, são aqueles que agora estão tristes e revoltados... Querem revolta? Eu ajudo com um pequeno exemplo: revoltem-se com o facto de ainda não existirem responsáveis pelo que se passou em Pedrogão e no Centro do país onde mais de uma centena de compatriotas morreu por irresponsabilidade nossa - somos o Estado. 

 

Maradona defendeu regimes totalitários... Maradona, alegadamente, abusou de menores... Maradona agrediu companheiras... Maradona foi alguém viciado em drogas e álcool... E a lista poderia continuar! Até podemos compreender a questão das drogas e da bebida... Todavia, tenhamos essa compreensão com todos os que passam pelo dilema, o que nem sempre sucede.

 

Andamos todos a partilhar imagens, sons e letras contra tudo isto, mas de repente, aplaudimos estes heróis quando vivos e sobretudo quando mortos! Deitamos estátuas abaixo mas depois erguemos autênticas e colossais estruturas (mentais e físicas) a indivíduos como Maradona. Mas era um bom jogador de futebol! Lembrem-se disso quando um jogador seja lá do que for, ou um profissional de outra área vos agredir ou dormir com as vossas filhas menores. Afinal sempre pode alegar que é bom naquilo que faz! 

 

De repente, o hype da violência contra mulheres que muitos já tinham na ponta da língua para ficar bem nas redes e na sociedade, foi ultrapassado exactamente pelo seu contrário... Como hoje em dia mudam as prioridades e as convicções numa tentativa de dar às nossas paixões um lugar mais alto que à verdade, como defenderia Tagore... E também como defenderia o mesmo autor, isso é somente um grande sinal de servilismo.

 

Como afirmaria (citando um outro) um indivíduo que é pago a peso de ouro com os nossos impostos na televisão pública e com fama de não ser propriamente o mais simpático com os colaboradores, "se yo fuera Maradona, vivería como él"... Caro Carlos Daniel, Director-Adjunto da RTP, eu nunca viveria como Maradona... Não gostaria de tirar fotografias com meninas adolescentes a tocarem-me no pénis, não gostaria de bater na minha companheira, não gostaria de ser traficante e consumidor de drogas e nunca me passaria pela cabeça defender regimes totalitários... Se isso a si o fascina, está no seu direito. A mim, o que me fascina é o comportamento e podridão de muitos nesta sociedade tão evoluída mas também tão bafienta e hipócrita. Acredito, no entanto, que muitos dos que irão ler as suas palavras, não irão pagar a conta da electricidade/taxa audiovisual este mês e nos próximos!

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A Morte do Homem Branco...

por Robinson Kanes, em 25.11.20

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Créditos:https://sylg1.files.wordpress.com/2016/09/keep-calm-and-kill-all-white-people.png

 

O homem precisa de ver mais as suas possibilidades que as suas prisões!

Agustina Bessa-Luís, in "Ternos Guerreiros"

 

Enquanto uns dizem que o comunismo nunca existiu, outros também podem incitar ao ódio com palmas. Ainda esta semana, um indivíduo que tem sido um dos garantes que o discurso de ódio em Portugal não cessa, e onde nem a polícia escapa, é aquele que recentemente agitou a bandeira da morte ao homem branco. Várias conclusões têm de ser retiradas sendo que, se fosse um outro qualquer a minha opinião seria exactamente a mesma.

 

Será que se fosse um indivíduo da nossa praça, e já nem vou sublinhar André Ventura, a proferir essas mesmas palavras mas com uma diferença, a mudança no tom de pele, a reacção seria mesma? Um processo judicial, extravasamento de competências e pedidos de investigação por parte de Ferro Rodrigues e Marcelo Rebelo de Sousa, além dos habituais pacíficos/manipuladores humoristas e jornalistas da nossa praça a pedirem a sua cabeça... Mas foi Mamadou Ba, que em Portugal goza de especial estatuto - ainda desconheço a que propósito, mas somos o país dos estatutos, este é mais um.

 

Por outro lado, surgiu o discurso (mesmo daqueles que sabem muito bem o que Ba quis dizer, todavia, a sua voz revolucionária cessa quando a imagem pública pode ficar manchada pelo políticamente incorrecto) de defesa do contexto em que as mesmas palavras foram proferidas. Eu não ouvi só aquelas palavras e a ideia com que fiquei foi de que todo o contexto era de ódio, de repulsa e de incitamento ao combate. Amedronta-me ver que aqueles que atacam os discursos extremistas mas depois desculpabilizam estas palavras - afinal é só retórica, são metáforas, são palavras mal escolhidas! Se hoje disser que não gosto de cerveja preta, são os mesmos que dizem logo que sou racista! Onde é que está a coerência? Corremos o risco de perder palco e de sermos conotados com extrema-direita? Com reaccionarismo? A verdade, a pluralidade e moderação nunca serão de extremos... No entanto, é a conivência com um extremo que alimenta o outro, além da criação de fantasmas numa sociedade que tem tantos problemas para resolver e que acaba por criar no cidadão comum uma certa desilusão quando começa a conceber que está na base da pirâmide, amordaçado e escravizado.

 

Também me assusta o discurso: "homem branco"; "homem preto"; "eles"; "nós"... Tenho muitas dúvidas que a grande maioria dos indivíduos que Mamadou Ba diz defender se revejam nestas palavras... Ainda bem que não estamos na África do Sul, caso contrário, Malema teria um aliado de peso. Ou então talvez seja um defeito meu que vejo seres-humanos e iguais perante a lei... e não catálogos...

 

Mais do que as palavras, o ódio que vemos nestas reuniões privadas, neste discurso que não é público e onde os "sociais utópicos" lá estão para defender os pobres coitados, é corrente. É certo que alguns estão por bem, mas conheço suficientemente alguns destes defensores para perceber que estou mais seguro junto de uma hiena esfomeada do que propriamente junto de determinadas personagens, normalmente apenas predadores de subvenções dos regimes que eles próprios criticam.

 

Assusta-me, mas isso talvez seja porque ontem perdi uma noite inteira a falar de Democracia, liberdade e acesso à educação com um "homem preto" que ninguém conhece, mas coloca a emancipação do seu povo à frente de querelas e discursos de ódio extremo, porque no final, é na luta pela paz, pela liberdade e pela educação do seu povo que coloca o seu foco...

 

P.S.: um dos últimos indivíduos (Fredrick Demond Scott) que disse "kill all the white  people" abriu a cabeça a seis inocentes norte-americanos, um deles uma sem-abrigo idosa.

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Somos Canárias! Somos España! Somos Europa!

por Robinson Kanes, em 20.11.20

Fonte: El Mundo

 

 

Members of the educated elite upheld open-mindedness as the supreme political virtue but refused to debate their own idea of the good life, perhaps because they suspected that it could not withstand exposure to more vigorous ideas.

Christopher Lasch, in "The True and Only Heaven: Progress and Its Critics"

 

Para fechar esta semana que, no embalo do "Dia Internacional para a Tolerância", procurei debater-me sobre alguns temas que envolvem o conceito e não só, acabo por aterrar em território europeu. 

 

Trago o discurso de Ana Oramas, representante da Coalición Canárias no parlamento espanhol, que esta semana desmascarou mais uma das, e passo a expressão, poucas vergonhas que assolam as fronteiras do território europeu e obviamente com grande influência nas ilhas Canárias, onde o desemprego atinge mais de metade da população. Contudo, quando os números incidem sobre o desemprego jovem, a realidade é ainda mais assustadora.

 

Ana Oramas enfrentou a actual coligação que governa Espanha alicerçada essencialmente no PSOE e no Unidas Podemos com um braço da Esquerda Republicana da Catalunha. Esta união tem levado Espanha a uma instabilidade económica, social, politíca e ideológica nunca antes vistas - e nesta avaliação ainda incluo o século XX.

 

Ana Oramas apresentou uma região completamente destruída pelo desemprego e pelas restrições causadas pela pandemia e exigiu ser espanhola. Mais que isso, ser europeia! A coligação da qual Ana Oramas faz parte, apesar de nacionalista, não tem cariz independentista, não obstante, procura mais autonomia para a região sem deixar de tomar parte na nação espanhola. A deputada questionou se seria necessário que as Canárias tivessem um movimento independentista forte para que Espanha e a Europa pudessem olhar para o território... Este é também mais um território tampão que tem sido utilizado pelo Governo Espanhol para despejar migrantes sem quaisquer condições - os últimos duzentos foram largados numa praça e foi um povo residente, já empobrecido e confinado, que saiu à rua e prestou auxílio aos recém-chegados. No mesmo momento, o Ministério de Fernando Grande-Marlaska Gómez, um arrogante no poder, basta ver como despreza os deputados na Moncloa, congratulava-se pela solidariedade espanhola (institucional) no apoio aos migrantes.

 

No final do seu discurso, Ana Oramas questionou se o ideal seria as Canárias pedirem apoio ao Magrebe ou ao Norte de África para verem a situação das ilhas resolvidas perante o "abandono" do continente. Este é um grito desesperado de ajuda, aqui bem perto, e que surge na mesma semana em que Marlaska Gómez visita Rabat e encontra um Pablo Iglesias insurgente a hostilizar com os países do Saara - o que já criou tensões muito fortes entre Marrocos e Espanha (ver o ABC ou o La Razón de 19 de Novembro). Este imiscuir constante em assuntos alheios (a cegueira ideológica de Iglesias e do Podemos não conhece limites) tem provocado graves danos internos e externos em Espanha. Marrocos, país soberano e moderado, já pediu contenção e ameaça não entrar em negociações se o Vice-Presidente autoritário do governo espanhol não sair de cena. 

 

Está a caminho da Europa (aliás, já existe) um problema que poderá ser bem pior que a pandemia e cujas parcas tentativas de resolução do mesmo na fonte estão a ser destruídas por tiranos travestidos de democratas libertadores atulados em esquemas de corrupção que tentam esconder com activismo bacoco e totalitarista.

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Sardinhas Sem Interesse...

por Robinson Kanes, em 10.11.20

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Créditos: https://victawr.wordpress.com/tag/epic-fail-guy/

 

Fujam que hoje não vale a pena passar por aqui. É "whataboutism" e muitos outros temas que não têm grande interesse...

Uma lamentável terça-feira no SardinhaSemLata...

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Créditos: https://www.healtheuropa.eu/brits-demand-more-mental-health-services-after-covid-19/102922/

Quanto mais sabemos menos conseguimos prever.

Yuval Noah Harari, in "Homo Deus"

 

A globalização, o progresso e até o conhecimento produzido, permitiu que pandemia de SARS-CoV-2 atingisse uma escala nunca antes vista na Humanidade. Todavia, o balanço ainda vai demorar muitos anos e (espero eu que não) talvez possamos chegar à inferência que fizemos uma gestão desastrosa da mesma, seja ao nível governamental seja ao nível de todos nós, cidadãos. 

 

Tentei evitar a partilha de alguns casos, mas o somatório de situações coloca-me perante uma situação mais complexa. Se por um lado a saúde mental dá uma oportunidade a quem nela trabalha nestes tempos (ou melhor, aos que colocam o paciente como prioritário e que não vendem banha da cobra, como diz o povo) por outro deixa-nos muitas questões por responder. A situação actual permitiu também perceber que no foro médico, a saúde mental não tem o valor que deveria ter e que uma Ordem dos Psicólogos Portugueses não é mais que um baile de máscaras e posições bem remuneradas - a existência da mesma chega a ser uma castração da própria saúde mental.

 

O primeiro caso que aqui trago é de uma professora que está perto dos 60 anos. Uma pessoa extremamente inteligente, viajada e com uma visão da realidade bastante apreciável. Até aqui nada de novo, apenas que, esta senhora, entrou numa espiral de medo em relação à pandemia que ninguém consegue explicar. O espoletar do pânico surgiu em Abril, durante o confinamento e, segundo o esposo, devido às horas fechada em casa com a televisão como companhia. Actualmente não sai de casa e só chamadas via Skype com os netos estão a atenuar a situação. Não a reconheço...

 

O segundo caso é similar em termos de formação profissional e humana, todavia ainda estamos a falar de alguém mais viajado e completamente fora do status quo. Esta é a mulher que se o marido não quer sair do país para viajar ela sai... É a mulher livre, que se cuida e vive toda a sua vida com uma postura, se me permitem, bastante para a frente. Só recentemente consegiu sair à rua e mesmo isso é uma tormenta para o marido pois, e a título de exemplo, nem sequer tem ajuda com os sacos do supermercado, não vá o vírus estar presente. Tudo o que é possível é congelado, tudo o que não é, é escaldado... O que não encaixa, não se consome. A senhora não coloca a mão numa maçaneta, seja em casa ou fora dela. Não é de televisões, mas de jornais... Atenta aos comentadores e às notícias destes. Não a reconheço, e aqui devo dizer que fiquei deveras surpreendido, podia cair uma bomba nuclear que esta senhora rapidamente levantaria a cabeça e socorreria os mortos.

 

O terceiro caso é um cavalheiro. Imaginem alguém com uma carreira política, conhecedor do mundo, empresário e uma daquelas pessoas que se lhe apetecer jantar  esta noite em Nova Iorque de tudo faz para que isso aconteça. Alguém também esclarecido, atento, com formação superior e que muito dificilmente embarca em situações de pânico, bem pelo contrário. Actualmente não sai de casa, vive fechado e culpando todos os outros que relativizam o que se passa na televisão (televisão essa que está sempre ligada à espera de desenvolvimentos acerca da pandemia), porque continuam com a sua vida. Ninguém fora do seio familiar entra em casa, nem para fazer reparações... Os negócios não são prioridade, controlo dos mesmos totalmente perdido.

 

Outros casos poderia juntar, pelo que, a minha questão é simples... Como é que estamos a lidar com estas situações? Como é que, em certa medida, não seremos também responsáveis por estar a destruir a vida de dezenas (e escrevo dezenas porque só me estou a cingir aos casos que conheço) de cidadãos com o actual estado de pânico e informação excessiva, não raras vezes, sem qualquer filtro ou aferição se a mesma é real. Em Espanha, dispararam ao pontos dos dentistas não terem mãos a medir, os casos de bruxismo que podem ter danos irreversíveis nas articulações temporomaxilares e causar um desgaste gigantesco nos dentes. Nos Estados Unidos a Kaiser Family Foundation (KFF) reportou que 53% dos norte-americanos reportou que a sua saúde mental tinha sido afectada (durante os primeiros tempos da pandemia eram 32%). Os números, até Julho, não pararam de subir como se pode aferir pelo gráfico abaixo. Se a isto juntarmos o consumo de fármacos, o aumento das taxas de alcoolismo e suicídios, temos um cocktail explosivo, além de que, não será novo dizer que este tipo de problemas não se resolve com vacinas de um dia para o outro.

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Fonte: KFF, 2020

 

Em Wuhan, e segundo a Lancet, o alegado berço do vírus, profissionais de saúde tiveram um acompanhamento psicológico singular com duas equipas, uma equipa de resposta com a participação de directores e assessores de imprensa nos hospitais (geriu equipas e a comunicação) e uma outra equipa técnica que formulou instrumentos de intervenção, regras e providenciou pareceres técnicos supervisionando o processo. Uma terceira equipa composta por psiquiatras fez a intervenção no terreno e uma quarta participou numa espécie de hotline assistance dando formação em como lidar com o vírus e também como lidar com alguns problemas de saúde mental. Foi na China... Com tanta informação, tantas tendências importadas e neste campo estamos a ser tão tardios.

 

E como não poderia deixar de ser, os indivíduos mais vulneráveis, apesar de não representarem os casos que acima apresentei, serão os mais afectados que em termos de saúde mental e também em termos de salários e condições de vida. Se a isto juntarmos o aumento da workload e de traumas que os tornam mais susceptíveis a situações de stress, burnout, depressão e situações de stress pós-traumático, temos um futuro negro para muitos indivíduos.

 

Uma boa saúde mental, em circunstâncias normais é fundamental para uma sociedade funcionar bem, se tivermos em conta os números que não cessam de aumentar por causa da pandemia, vamos perceber que a reposta e a recuperação durante e após a pandemia será muito mais desafiante, além de que a saúde mental de um país não é conduzida por académicos nem pode viver apenas de palestras e artigos de opinião.

 

Virá um pós-covid, aliás para mim já é uma realidade, não consigo estar quieto, todavia ele virá e alguém terá de apanhar os cacos...

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Félicitacions Boris Vian...Oh! C'est Divin...

por Robinson Kanes, em 07.11.20

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Créditos: https://beta.prx.org/stories/126076

 

Este Domingo, o CCB vai homenagear Boris Vian , um dos grandes mestres da literatura e da música que em Março faria 100 anos... Deste senhor, "Irei Cuspir-vos nos Túmulos", "A Espuma dos Dias" ou "As Formigas" estarão sempre cá guardados... E quando a prosa é boa e a música também, não haverá muito a dizer... Vamos apanhar uma valente bebedeira de "Bordeaux" no "Club Saint German des Prés" e celebrar até a malta cair ao Sena!

 

A mon "ami" Vian, Félicitacions! Pour vous "Le Déserteur", et on va écouter pour Jacques Canetti! 

J'suis snob... j'suis snob...Tous mes amis le sont...On est snob et c'est bon... Temos pena!

Bom Domingo!

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Dos biltres cavalheiros...

por Robinson Kanes, em 04.11.20

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Jan Asselijn - O Cisne Assustado - Rijksmuseum

Imagem: Robinson Kanes

 

 

A principal diferença entre a célula do túmor maligno e o tecido normal reside fundamentalmente no facto daquela ter perdido a informação genética que precisa para representar o seu papel como membro útil na comunidade de interesses do organismo. Comporta-se como um animal unicelular (...) desprovido de estruturas especiais, dividindo-se anárquicamente de tal modo que o tecido tumoral, ao infiltrar-se nos tecidos, todavia saudáveis, desenvolve-se e acaba por destruí-los.

Konrad Lorenz, in "Os Oito Pecados Mortais da Humanidade Civilizada"

 

 

Pior que um metralha assumido ou um verdadeiro birbante é o, e passo a redundância, indecente biltre. O biltre pulula pela nossa sociedade, bebendo do que ela tem pior e muitas vezes até ele próprio criando esse cocktail fatal para o desenvolvimento da mesma, já Rousseau dizia que a verdade não nos torna ricos e o povo também não atribui embaixadas, nem lugares e muito menos pensões.No entanto, é o biltre que não hesita em mostrar o seu lado bom, de preocupação com o próximo e crente que é um embaixador para um mundo melhor e até "suavemente" critica a mesma. Pessoalmente, prefiro lidar com uma verdadeira besta (e uma besta verdadeira) do que com um pulha. Antes um bufo (só disse bufo para fazer tremer a malta da PIDE) que acerta no alvo que um calculista psicopata.

 

E foi neste sentido que, entre tantas peripécias deste âmbito, fui encontrar uma raiz aljofareira. Se tal até pode ter pouco valor, na realidade, pode ter efeitos que vão bem para lá de duas ou três vitimas e tem um efeito montra assinalável. A personagem, um homem "conhecido" da praça e sempre que estala os dedos tem um séquito de lambe-botas que procura não sair da sua pseudo-esfera de influência pois nunca se sabe quando é que vamos concretizar a ambição de conseguir aquele emprego mais exectuvio, sabendo também que não será a responder ao anúncio que lá chegaremos. Alguns seguem-no apaixonadamente, outros com medo, pois em país pequeno e tacanho, basta movimentar um cordel ou dois para destruir uma carreira... Ou assim se quer fazer pensar.

 

Defendia portanto o mesmo, com um grafismo ajustado e já na habitual forma de storytelling, sublinhada por auto-citações com o intuito de criar impacte qual Marco Aurélio da Rua dos Bacalhoeiros - interessante como de repente agora todos temos milhões de histórias inspiradoras para contar, sssim de repente, não é? - que conhecia um familiar que trabalhava numa empresa de telecomunicações e que tinha sido esse mesmo indivíduo que lhe havia desvendado ter instruções da mesma para não recrutar candidatos acima dos 45 anos. Malvados! Como é que é possível que neste mundo existam ainda organizações com essa postura! Malvados, caiam os demónios, desça Deus ao Campo de Ourique e que o cavaleiro do apocalipse destrua a terra mas deixe ficar a o "Maria de Perre" em Viana... Sinto-me enternecido, escorre-me uma lágrima pelo canto do olho (tenho uma lágrima no canto do olho... tenho uma lágrima no canto do olho... ok, menos...).

 

Neste momento, meio LinkedIn, meio mundo empresarial em Portugal vai estar ao lado deste cavalheiro cujo apelido rima com bombeiro. Deste e de tantos outros que todos os dias se dizem a mudar o mundo do trabalho em Portugal mas não há forma de os vermos para lá das habituais histórias e comentários na imprensa e nas redes sociais. Além de que se há coisa que não evoluiu muito foi essa área, estranho facto, tendo em conta os títulos inelegíveis que muitos destes especialistas ostentam, e que nos dão a sensação que lidam com matérias ao nível da compreensão de um Spock.

 

Mas agora já não é só uma lágrima... Choro! Choro mesmo com pena das pessoas com mais de 45 anos! E é aqui que eu também penso... Malvados, como é possível, que Buda desça à Terra e condene toda esta gente, que a espada de Rei Artur trespasse toda essa gente, que o Power Ranger vermelho venha dar uma coça nessa gente e que o Chuck Norris ainda tenha forças para pontampear esta gente para Ilha da Fuseta! E é também aqui que eu e outros atrevidos (e alguns fizeram-no directamente) colocamos a questão: mas olha lá oh bombeiro, qual é a empresa? É que um testemunho daqueles atirado desta forma para o ar só me faz lembrar o Kim Jong Un a dizer ao povo norte-coreano que temos de combater e matar o inimigo... O tal inimigo ou inimigos que muitos norte-coreanos combatem há décadas nessa guerra que não existe, mas que são levados a pensar que sim. Talvez Jerónimo de Sousa, tão próximo do cavalheiro até saiba. Ainda me lembro dos tempos em que via o South Park e quando numa das muitas mortes do Kenny, alguém dizia "they killed Kenny" e perante a pergunta "who killed him?" a resposta era sempre "they... they... they killed him".

 

E pronto, acabou aqui este texto porque o cavalheiro, mesmo em off, divulgou o nome da organização. 

 

Não, não acabou... Porque respondendo apenas a um dos seus lambe-botas e provavelmente clientes de topo, esquecendo os outros... Quem anda por Portugal sabe que há por aí muita malta aberta e moderna (e rasteira) mas que não fala com a plebe (embora se alimente dela), só com o topo ou com aqueles que levam a cabeça baixa ou a língua de fora... Lá disse que não era simpático divulgar até porque podia prejudicar o familiar e toda aquela conversa de circunstância habitual tipíca do "vamos a eles em plena Avenida da Liberdade" mas quando enfrentamos as fera e olhamos para trás à procura de apoio, o fervoroso porta-estandarte já está em Almeirim a comer uma espetada de lulas no Minhoto. O típico intocável que não lida bem com a verdade e cuja coragem deixa muito a desejar.

 

Vamos assim caminhando, com mãos cheias de nada que se alimentam das munições que carregam as bazucas, com mãos cheias de nada que alimentam castelos de cartas e egos e cuja produção e qualidade é igual a zero. Assim vamos sendo sérios, abertos e inovadores, mas no fundo conservando todos os tabus e todo o status quo, o mesmo status quo que alimenta estas nulidades e todos aqueles que as suportam e admiram. Os outros podem sempre emigrar, podem sempre afastar-se do lobby, do compadrio, do bacoco e fraco networking, as verdadeiras indústrias, ou não fosse uma das frases preferidas de uma certa falange populacional "quem está mal que se mude". O biltre... O biltre continua por aí a vaguear, a beber e a criar o pior que a sociedade tem e que nem sempre é o mal, mas muito provavelmente aqueles que o dizem combater.

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A Sardinha é só minha...

por Robinson Kanes, em 03.11.20

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Créditos: https://www.coolpun.com/topic/safari

 

Hoje é terça-feira e estamos no SardinhaSemLata, mas não partilhamos a nossa sardinha. Saibam mais aqui.

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Resposta a Gustavo Carona...

por Robinson Kanes, em 30.10.20

O pior das humilhações é que fazem quem as sofre sentir-se culpado

Javier Cercas, in "As Leis da Fronteira"

 

Caro Gustavo,

 

Não tenho dúvidas de que será um médico intensivista de topo e estou certo que se necessitasse dos seus cuidados estaria nas melhores mãos. No entanto, e talvez pela exposição pública que foi adquirindo, até porque escrever uns livros e tirar umas fotografias com uns pretinhos passa sempre a mensagem de que somos uns heróis, gente de bem e com talento, deve ter achado que poderia ser um embaixador da classe médica em Portugal, uma espécie de Buescu da medicina.

 

Não obstante, a última campanha mediática que tentou fazer passar, peca por ser tardia, nomeadamente em termos de impacte. Vir afirmar a sua exaustão, dizer às pessoas para ficarem em casa (só falta a fotografia deitado no teclado) já não tem o eco que teve em tempos. Se olhar para países como Itália, Espanha, Bélgica, Alemanha e França, essa partilha já tem mais consequências negativas que positivas - chegou tarde. Além disso, esse discurso (errado) passa a imagem de que até hoje a classe médica (e não só médica) levava uma vida tranquila, o que não é verdade e se quiser exemplos disso também lhos posso dar. Estar exausto é mais do que comum em tantas outras profissões onde não existem corporativismos, salários garantidos ao fim do mês e pagamento de horas extraordinárias ao fim de somente 35 horas de trabalho. Muitos gostariam de escrever livros e colocar licenças para tirar fotografias com os pretinhos, mas andam exaustos todos os dias do ano, todas as épocas, com ou sem vírus.

 

Também me espanta ver um médico a chamar imbecis e anormais a "negacionistas", "relativistas" e todos os outros que não colocam o SARS-CoV-2 como a doença que nos matará a todos. A título de exemplo, passar a mensagem de que o pneumologista descarrega toda a sua fúria no doente que fuma, parece-me contraproducente. Também para um médico, não me parece a melhor forma de criar empatia e abordar os potenciais pacientes. Eu entendo que explorar o mediatismo e entrar no rol dos grandes heróis nacionais contra o vírus pode levar a estes excessos, mas... Em suma, se alguma vez geriu uma equipa, sabe que não é a chamar imbecis e anormais aos seus que vai conseguir resultados, espero que não o faça quando anda por outras paragens em missões "humanitárias"... Lembre-se também que são esses imbecis e anormais que necessitam de cuidados médicos mas que por seu turno os pagam por intermédio dos seus impostos e do seu trabalho e são esses indivíduos que não são mais excepcionais que o resto de nós que fornecem exemplos impressionantes dos nossos momentos mais sublimes como seres humanos, como tão bem descreve Sapolsky. E, pela sua experiência, sabe que se não existir economia em funcionamento, também não existem impostos que paguem a um médico.

 

Aproveito também para o recordar, até porque também colabora(ou) com os Médicos sem Fronteiras, que a saúde-mental e o bem-estar também são saúde, algo que o Gustavo parece ignorar. Antes da especialidade, terá com toda a certeza abordado esta temática na sua formação, talvez uma reciclagem possa ajudar. Isso e gestão de pânico e catástrofes... Lembro-lhe que a política é importante, tem uma vísão holística que ouve todos os lados (ou deveria) e toma decisões de acordo. Por muito que não goste de como a política por vezes é gerida, esperemos que nunca a decisão e gestão perante uma catástrofe passe por uma única entidade/corporação, lamento desapontá-lo. Aliás, como eu, deve saber que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) é uma organização política e não médica que quer comparar a actuação contra o vírus na Europa e não só com a actuação localizada contra o ébola numa determinada região africana.

 

Deixe-me também dizer-lhe que me espanta, e até poderá ter as suas razões, que no dia 18 de Setembro de 2020, defenda eventos de massas como o Avante e outras manifestações similares e aponte que o risco maior se encontra nas pequenas reuniões familiares. Ainda hoje estamos à espera desses estudos. Espanta-me ainda mais que no dia de ontem, 29 de Outubro, surja de repente com um discurso ligeiramente diferente. Portanto, deixemos que as pessoas se juntem em eventos de massas mas ai daquele que ousar visitar a mãe! 

 

Lamento também desapontá-lo quando implicitamente nos diz que a ciência não se questiona e muito menos ela própria é aberta a toda e qualquer "novidade". Não sei em que meios se move, mas uma das coisas que faz a ciência avançar é a constante formulação de novas ideias e abanões ao status quo. Temo até que, se assim não fosse, a leucotomia pré-frontal, idealizada pelo seu colega Egas Moniz, ainda fosse uma prática corrente. A ciência é sempre aberta a novas ideias? Não precisarei de lhe responder... Até porque se assim fosse, não estávamos a confinar (pela primeira vez na História) pessoas saudáveis e a basear-nos em modelos aplicados no passado em contexto totalmente diferentes.

 

Utilizar um programa de televisão e o meio mediático que lhe permitiu ser mais conhecido do que propriamente a exercer o seu trabalho, não me parece de bom tom. É público que não nutro simpatia pela televisão em Portugal, mas adoptar um comportamento que até é cultural em Portugal de, e passo a expressão, de cuspir no prato onde se come é, no mínimo deselegante, sobretudo quando tornamos isso público, partilhamos os detalhes e utilizamos o acto como forma de auto-promoção. Tem passado demasiado tempo a fazer vídeos na internet, programas de rádio, artigos em todos os jornais e mais alguns, a aparecer na televisão e por certo menos tempo em contacto com pessoas. É feio e não lhe fica bem, e sim, com tudo isso para lá do trabalho que se exerce, acredito que fique exausto.

 

E como em tempo outro actor da saúde fez, Fernando Nobre, poupe-me o discurso da catástrofe lá fora, para defender as suas convicções. Não terei a sua experiência, mas também sei o que são pessoas a tombar sem assistência. Também sei o que é a fome, e também tenho fotografias ao lado dos pretinhos, ou melhor, tenho dos pretinhos apenas, os verdadeiros heróis no meio disto tudo. Sei, como não o faço em organizações onde a viagem, a comida e tudo o resto está incluído. Sai tudo do meu bolso, porque assim faço questão,inclusive quando estou longe e faço "donativos" pontuais. Com toda a certeza terá aproveitado o lucro das vendas dos seus livros para também o fazer...

 

Provavelmente este texto nunca lhe chegará, não sou propriamente conhecido na praça e no pouco que sou, e pelo que aqui escrevo, tenho mais inimigos que amigos além de que até o próprio texto vai contra o seu video que esta plataforma teve o gosto de partilhar. Também não chegará a todos aqueles que viram/leram o seu video "perturbador" e "catastrófico", mas espero sinceramente que outros cheguem para desmistificar este "show off".

 

Espero que cumpra bem o seu trabalho, exausto ou não e acima de tudo, sejamos positivos e tenhamos todos os cuidados sem parar o Mundo, isso é fundamental... O Gustavo, parece-me que está demasiado exaltado e em pânico e isso nunca é bom para gerir uma catástrofe.

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