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Irrepresentable...

por Robinson Kanes, em 22.01.21

rocinha brasil.jpg

Imagem: GC e Robinson Kanes

 

Mon royame est de c'est monde.

Albert Camus, in "L'Envers et l'Endroit" (Amour de Vivre) - Camus cita os gregos contrariando o que Cristo respondeu a Pilates em João, XVIII, 36 

 

Não tento sobreviver ao vírus, tenho as minhas cautelas, os riscos existem, isso basta-me para me sentir bem - no que concerne à desgraça, lamento não dar para o peditório, usando as palavras de um dos visitantes deste espaço.

 

Procuro sobreviver ao agudizar da hipocrisia (agora as políticas governamentais já são más, mas há uns meses chamavam a quem tal afirmava de idiota) numa fase em que temos de garantir a paz e a calma, agora é tarde e também é cedo para apontar armas. Agora não é tempo de discursos da moral, das opiniões que mudam segundo as redes sociais, segundo a turba e as diferentes plataformas, noticiosas e não noticiosas. Como se muda de opinião de um minuto para o outro, hoje em dia... Ainda bem que tal, maioritariamente, só acontece a quem usa o teclado de forma pública... Ainda bem...

 

Tento sobreviver ao pânico e ao medo, não em mim, mas junto de alguns que me rodeiam, não é fácil quando tenho uns minutos face aos meses de invasão grosseira da mente que  tantos continuam a perpetrar a troco de leituras e audiências. Talvez agora me chamem de idiota, como "chamaram" há uns tempos... Mas perdoem-me não resistir ao mordaz e cínico: eu bem dizia! Leia-se eu como um grande "nós".

 

Não exploro esta situação como uma espécie de carona invertido, não me coloco como especialista em saúde, apenas alguém que diz umas coisas e que parece que ao invés de procurar holofotes, teima em disparar sobre qualquer luz que se acenda - uma busca por não sofrer por aquilo em que não acredito, pois isso faz-me não acreditar na vida e não a pretendo jogar à aventura, socorrendo-me aqui "Do Mundo Original" do grande VF . Talvez um dia me arrependa, quiçá... 

 

Nessa sobrevivência, e não sendo um homem que aprecie as quatro paredes de um escritório, por vezes é necessário uma retirada, não gosto da palavra meditação... Sair das gentes, pensar a sós, isolar-me desse mundo nem que o escritório mais formal dê lugar ao assento de um carro ou mesmo a um tijolo qualquer numa praia ou beira-rio desprezada e pejada de detritos. 

 

Retiro-me, não escuto o "Addio a Palermo", de Morricone e composto para o filme "Corleone", como por estes dias mencionei ao amigo João-Afonso. Procuro outras sonoridades, talvez me faça bem agora o "Vacío Sideral" de Miguel Ángel Delgado e do espectacular albúm "En Mundo en la Boca".

 

Deixo que o vento me misture os pensamentos, o meu reino é, de facto, deste mundo... De um mundo que desconheço e que rapidamente oscila entre o discurso mais terno e a mais ignóbil descarga de ódio. Um mundo de faz de conta ou talvez não... Talvez esse reino seja mesmo assim e os restos de acomisme sejam isso mesmo, detritos de uma esperança que nunca se concretizará - o melhor dos mundos poderia ser hoje e não é, porque terá de ser no futuro que se avizinha ainda mais desafiante e sedento de Homens sem conseguir livrar-se de wannabes. A Terra bem roda... Mas teima em não conseguir sacudi-los para fora da sua órbita ou sequer transformá-los em húmus transformando podres almas em saprófitas.

 

Acabo este texto a ouvir Davide Salvado, e o seu galego inconfundível... Talvez o "Aire" de um dos melhores músicos da Ibéria me possa inundar e me dar todas as forças para vencer mais um dia em que sei que tenho de estar bem para que outros também possam estar. Preciso dos ares de lá... Sufocam-me os ares de um rectângulo fechado sobre si próprio... Um rectângulo irrepresentable de García Lorca mas com uma náusea perpétua cujas metástases corrompem um dos solos mais ricos do Mundo.

 

São horas de levantar, aguardo mais uns minutos. Fecho um pouco os olhos e deixo que o Tejo se transforme na Avenida de la Constitución em Granada... Permito-me, eventualmente, a ter dois dedos de conversa com o poeta e com o dramaturgo acerca da revolução social antes de voltar ao reino.

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Sardinhas de raça e Eugénio de Andrade...

por Robinson Kanes, em 19.01.21

eugenio de andrade.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje é o dia da habitual sardinhada no espaço SardinhaSemLata, onde o anti-racismo, mais do que o racismo, merecerá destaque, vejam aqui

 

Não posso também deixar passar, sobretudo tendo em conta o poeta e a paixão que alguém próximo tem pelo mesmo... A 19 de Janeiro de 1923, entre as terras frias do Fundão nascia um dos maiores vultos da poesia: Eugénio de Andrade!

 

Adeus

Como se houvesse uma tempestade 

escurecendo os teus cabelos belos,

ou se preferes, a minha boca nos teus olhos 

carregada de flor e dos teus dedos

 

como se houvesse uma criança cega

aos tropeções dentro de ti,

eu falei em neve, e tu calavas,

a voz onde contigo me perdi.

 

Como se a noite viesse e te levasse,

eu era só fome o que sentia;

digo-te adeus, como se não voltasse

ao país onde o teu corpo principia.

 

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,

e sobre as nuvens mar perfeito,

ou se preferes, a tua boca clara

singrando largamente no meu peito

Andrade, E (1990). Obra de Eugénio de Andrade / 2 (pp.16). Porto: Limiar

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Balada do Pequeno Soldado...

por Robinson Kanes, em 13.01.21

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Columbano Bordalo Pinheiro - "Cabeça de Rapaz" (Museu José Malhoa)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Dei por mim, mais uma vez a tentar interpretar o Mundo, a "sofrer", afinal precisamos desse tempo, e fui catapultado nos meus pensamentos para um tema que já abordei aqui aqui.

 

Um dia de sol, não o de hoje onde os pneus já comem asfalto há muitos quilómetros e este artigo irá ser disparado, mas um outro, com vista do Tejo.  O Tejo com as suas pequenas vagas adivinhando o vento que irá entrar pela planície adentro e afastar os flamingos para as salinas. Recordo a "Ballade vom kleinen Soldaten, ou se preferirem a "Balada do Pequeno Soldado", obra de um dos mais brilhantes realizadores do nosso tempo, o alemão Werner Herzog.

 

Somos transportados para a Nicarágua dos anos oitenta, terra onde os sandinistas na sua cavalgada para impôr um regime socialista naquele país, tomaram como uma das suas frentes de batalha a eliminação dos povos indígenas, neste caso em particular os Miskito. Nada de novo numa ideologia que procura limpar a História e o que dela resta, mesmo que tal testemunho tenha a forma de um ser-humano.

 

Recordo aquele pequeno soldado que abre o "documentário" e também o "Dia Mundial dos Povos Indigenas". Foi no dia 09 de Agosto, por sinal, o dia em que escrevo este texto. Poucos se terão recordado da data, é impossível chegar a tudo. Sem perceber porquê, e perdoem não ter uma história cheia de epifanias para contar acerca de, os meus pensamentos foram levados para esta obra de Herzog. Talvez culpa dos meus pais, da minha irmã, que me carregaram de realidade e nunca tiveram qualquer pejo em mostrar-me o que era o Mundo. Até aquilo a que memória me alcança, vejo-me a absorver todo o tipo de documentários na televisão, para o bem e para o mal. Sangue, morte, fome... Nunca foram um problema que levasse os meus pais a desligarem a televisão, a tirarem-me um livro da mão ou até a orientarem o caminho que percorria, bem pelo contrário. Bem, a minha mãe...

 

Na Nicarágua dos anos 80 e até 90, estes pequenos guerreiros formaram batalhões inteiros, muitos deles porque só tinham esse destino  - destino, não raras vezes, desenhado pelos pais e pelos desejos de vingança. Podemos tecer todo o tipo de comentários anti-violência, eu próprio os faço, mas explicar isso a quem vê toda uma aldeia ou vila incendiadas, os seus habitantes (independentemente de serem homens, mulheres ou crianças) serem fuzilados não é de todo a tarefa mais fácil do Mundo... O "olho por olho, dente por dente" tende a ser mais forte.

 

Quiçá por isso recorde um amigo de alguém cá de casa que fugiu de um país da América Latina com a família. Diz-nos ele que, naquele país, todos sabem que existe um projéctil com o seu nome, é uma roleta russa.

 

Crianças fardadas e prontas para a guerra, é dos crimes mais hediondos que se podem cometer. É ver a infância roubada, mesmo que as hipóteses de atingir algum nível de felicidade sejam baixas. Ver crianças que já perderam tudo e se transformaram em máquinas de guerra ou simplesmente carne para canhão deveria chocar, fazer-nos tremer! Ainda são milhares - e sabemos como as estatísticas são generosas nestes números - as crianças que sabem manejar um morteiro ou uma automática melhor que a maioria da população adulta. Provavelmente, quandos os nossos filhos brincam na rua e fazem o "pfiii pxiiiiu" com uma arma de plástico, outros sentem o som dos projécteis a passar-lhes por cima e sentem a dor de ver a pela rechassada por um ferro a alta velocidade ou por uma explosão. Enquanto os nossos filhos dão à costa embalados pelas pequenas ondas e riem, outros dão à costa ou à margem de rios crivados de balas.

 

A somar a tudo isto, porque isto é "só" uma consequência de, é importante que olhemos para os povos indígenas deste mundo. Em alguns casos, é lá que está a nossa história como seres-humanos, como homens que somos - simplesmente ignoramo-los como o faríamos se hoje em dia Edison fosse vivo e tantos outros pioneiros do nosso bem-estar. Não basta andar vestido em tons tribais e achar-se um cidadão mais para a frente, bastará afinal, saber que estes povos existem, até porque, numa época em que algumas vidas interessam, talvez fosse mais humano perceber que todas as vidas importam, mesmo aquelas cujas raízes ancestrais jamais deverão ser esquecidas ou destruídas. Mesmo aqueles cujos descendentes já não são mais que um pequeno grupo de dezenas ou centenas.

 

Olho o horizonte e acompanho o pequeno soldado, cuja Kalashnikov mais parece uma viola e onde o olhar de criança é corrompido por um olhar vazio e triste de menino soldado...

 

(...)

Que te pasa chiquillo, que te passa

Me dicen en la escuela y me preguntan en mi casa

Y hasta ahora lo supe de repente

Cuando vi pasar la lista y ella no estuvo presente 

Ella de la mochila azul

la de ojitos dormilones

Me dejo gran inquetud

Y bajas calificaciones 

Ni al recreo quiero salir

No me divierto con nada

No puedo leer ni escribir

Me hace falta su mirada

De recuerdo me quedan sus colores

Dos hojas del cuaderno dice amores entre borrones

Yo quisiera mirarla en su pupitre

Porque si ella ya no vuelve mi salon sera muy triste

(...)

Bulmaro Bermúdez, "La  de la Mochila Azul"

 

(Publicado originalmente a 11 de Agosto de 2020 no espaço SardinhaSemLata)

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A Ouvir no SardinhaSemLata...

por Robinson Kanes, em 05.01.21

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Créditos: https://imgflip.com/i/13s769

 

E como é apanágio todas as terças, estamos no SardinhaSemLata... Hoje falamos de espécies em vias de extinção, o ouvir é uma delas... Saibam mais aqui.

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Pedalar a Ecopista do Tâmega (1/2)

por Robinson Kanes, em 04.01.21

ecopista tamega.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A manhã estava quente, o mês de Agosto por terras do Baixo-Tâmega não costuma ser suave. Deixava Cabeceiras de Basto e estacionava as quatro rodas na Estação de Caminho-de-Ferro do Arco de Baúlhe, freguesia do mesmo concelho. Todavia, mesmo ali ao lado do Museu das Terras de Basto, uma interessante recuperação da estação ferroviária (encerrada em 1990). O objectivo deste dia era chegar a Amarante de duas rodas percorrendo a Ecopista do Tâmega, umas das mais belas e que mais me surpreendeu. Sobretudo porque tinha uma parte do percurso em terra batida por causa das obras da barragem.

 

A Linha do Tâmega, foi inicialmente denominada de Caminho de Ferro do Valle do Tâmega, ligava a estação de Livração (Marco de Canaveses), da Linha do Douro, à Estação de Arco de Baúlhe em Cabeceiras de Basto. Esta foi desactivada em 1990 o que veio a dar na actual ecopista que liga Amarante a Arco de Baúlhe (troço Livração-Amarante não está disponível).

 

Em 2007 as Autarquias envolvidas, a REFER (agora Infraestruturas de Portugal) e o Estado assinaram um protocolo que resultaria na construção da Ecopista da Linha do Tâmega, uma via que atravessa três Municípios ao longo de 50 quilómetros, Amarante, Celorico de Basto e Cabeceiras de Basto.

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Esta Ecopista percorre uma das mais belas linhas ferroviárias do país, permitindo o contacto directo com o património histórico e natural envolvente, nomeadamente as muitas aldeias e pontes que encontramos ao longo de toda a sua extensão, as paisagens verdejantes de inigualável beleza e oRio Tâmega, ex-líbris desta região. Este projecto, que se inclui na Rede Europeia de Vias Verdes, tem o seu início ao km 12,467, na cidade de Amarante, e término ao km 51,733 no Arco de Baúlhe.

 

Começo a etapa  que levaria 100 quilómetros. A extensão oficial do trajecto é de 39 km, ou seja, um percurso ida-e-volta pode ficar pelos 80/85 km.

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Começar no Arco é já um bom motivo para fazer o percurso, a beleza da estação é qualquer coisa e os primeiros quilómetros apetecem, com pequenas inclinações, nada de muito difícil até Vila Nune e com uma passagem por cima da A7 onde temos uma vista de montanha e vales com algumas passagens por zonas de vinha - o Tâmega não anda longe. A paragem seguinte é no Apeadeiro de Canedo, e aqui começamos a encontrar as belas estações que se mostravam ao longo da linha. Com esta imaginação sempre fértil, não consigo deixar de pensar no bulício, embora mais contido, que outrora caracterizara aquele lugar. Se há coisa que me deixa num misto de paixão e tristeza são as estações desactivadas. Devem ser dos locais com mais histórias para contar, não só pelos que frequentavam as mesmas mas também por aqueles que ainda lá viveram. Ainda tive oportunidade de conhecer alguns, sobretudo na zona Centro e as histórias são tantas. Talvez tema para um destes dias...

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Senhores passageiros, a próxima paragem será Mondim de Basto, passando ainda por Padredo. Não existirão passeios tão encantadores como este quando por um caminho lindíssimo em que pelo meio de hortas, pequenos lugares, alguns monumentos, temos sempre a companhia do Monte da Senhora de Graça, o que, para quem estiver de bicicleta ainda tem um gosto mais especial. É como se subíssemos o Monte de uma outra forma, é como que desta vez não fosse propriamente uma luta entre o homem e altitude, mas um passeio lado-a-lado. Simplesmente deslumbrante! É também no concelho de Mondim de Basto que encontramos algumas das mais interessantes vistas do percurso e a belíssima estação - além de outras, pensei em tempos num projecto para a mesma tal a beleza da infraestrutura bem como as vistas e a proximidade com as duas pontes que são um dos atractivos do percurso. Passaria dias inteiros à varanda da estação, com um Hendrick's e um livro a apreciar aquela paisagem.

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As Terras de Basto têm um encanto tão especial, sobretudo no território de Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena onde já não temos sequer noção de estar no Minho e nos sentimos transmontanos. Nas pessoas, quer pela sua austeridade e bravura quer pela simpatia e humildade, não há como negar o lado mais transmontano. Não falarei de gastronomia porque aí, de facto, é mais que notório e a passagem a Montalegre, por exemplo, nem se faz notar quando entramos em Salto

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Mondim atrasa-me as contas em termos de horário, além disso, esperam-me as iguarias da Dona Lídia no regresso a Cabeceiras, mais propriamente para os lados de Cavez. Vou chegar atrasado, tenho a certeza...

 

Continua...

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O Amor Grrrr de 2021...

por Robinson Kanes, em 31.12.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Então... Muda-se o calendário mas será que muda alguma coisa? Eu acredito que não. Entendo a mudança como uma prática contínua para lá das datas que tentamos à força colocar para nos desafiarmos e que no fim não são mais que uma santola sem conteúdo. 

 

Acredito no Amor, que se quisermos e pelo menos existirem dois jogadores, a coisa dá-se... Será que nos próximos dias e por aí adiante conseguimos mostrar mais a

Amor? Não falo daquele Amor paternalista ou daquele Amor sem fogo (mesmo que outro diga que não se vê), falo mesmo daquele Amor assim mais... GRRR? Eu sei que onomatopeias não ficam bem na prosa e na fala, mas convenhamos, quantos actos de Amor não são recheados de belas onomatopeias? Além disso, é sempre importante quebrar os hábitos rotineiros pois são esses que dificultam a buca das coisas perdidas, um pouco à imagem dos "Cem Anos de Solidão" de Garcia Márquez.

 

O Amor é de facto importante, demasiado sério na sua compreensão, mas demasiado simples e prático na sua realização, mais fácil ainda quando falamos de Amor entre lençóis e umas boas voltas numa cama quente seja lá isso onde for, embora se em Capri ou Positano e com uma boa vista para o mar, até que possa ser algo diferente...

 

Deste modo e como aparentemente estamos a mudar de século... Até já temos o melhor jogador do século, somos tão patéticos na nossa pequenez provinciana... E afinal sempre me ensinaram que um século tem cem anos e não têm de ser de solidão. Onde é que eu estava? Sim, aproveitemos isso para amar, sobretudo os que estão juntos... que não raras vezes estão mais encalhados que aquela malta que come pipocas enquanto está agarrada à Netflix e desata a chorar (e a engordar) enquanto vê comédias românticas ou séries sobre a realeza. Mas de repente, liga-se a música e temos a Fanfare Ciocârlia a tocar o "Asfalt Tango" e seguimos em fila para declararmos o nosso Amor àquele ou àquela que... Estão a ver a coisa, não estão? Começamos assim e acabamos ao som de "Kalashnikov" de Bregovic no quarto... É pouco romântico e cheio de onomatopeias mas é bom e não faz mal a ninguém. O Pão de Ló de Ovar que já me está ali a piscar o olho também é uma bomba em calorias e não estou muito preocupado com isso. É um pouco como dizerem que não estão para aturar discursos e partilhas enfadonhas do Simon Sinek por muito que isso vos possa fazer pensar que são únicos no vosso trabalho e no LinkedIn.

 

Se a coisa correr mal, pois... Pão de Ló de Ovar é bom para compensar as crises amorosas desencadeadas por um valente "chega p'ra lá".

 

Por isso, nada como umas loucuras amorosas e bem marotas a acabar o ano e a começar o próximo, afinal... No mal ou no bem, no terror ou na felicidade, o AMOR É IMPORTANTE, PORRA!

 

P.S.: aquele amor GRRRRR, de belas cambalhotas e onomatopeias... É desse que estou a falar.

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Aos que... Feliz Natal...

por Robinson Kanes, em 24.12.20

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Créditos: https://www.pinterest.pt/pin/74168725083507425/

 

O que mais importa não é o novo que se vê mas o que se vê de novo no que já tinhamos visto.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente V"

 

Aos que todos os dias perdem tempo precioso a ler os meus disparates...

Aos que só perdem esse tempo uma vez por outra...

Aos que só me acompanham por caridade e porque também os leio...

Aos que gostavam de me comentar mas não o fazem sabe-se lá porquê...

Aos que muito comentam...

Aos que me detestam e espumam da boca sempre que escrevo alguma coisa...

Aos que me enviam emails simpáticos...

Aos que me enviam emails menos simpáticos...

Aos que enviam emails menos simpáticos para que outros não me leiam...

Aos que exigem o fim do Não é que não Houvesse...

Aos que só me vão ler ao SardinhaSemLata...

Aos que me enviaram mensagens de Natal...

Aos que de vez em quando me dão um destaque...

Aos que apreciam cogumelos em lata... Sim, eu sei que é difícil ser vosso amigo... Pior só a amizade com alguém que ouve Pólo Norte...

Aos crentes e não crentes...

Aos que acham que Paulo Coelho, Augusto Cury ou Gustavo Santos são ciência...

Aos que confundem séries do Netflix com realidade...

Aos que gostam de Rabanadas Poveiras...

Aos que se interessam realmente por isto...

Aos que já me leram no WC...

Aos que já me leram sob efeito de estupefacientes...

Aos que já mostraram o Não é que não Houvesse aos avós...

Aos que choram a ver Cinema Paradiso...

Aos poetas, prosadores, leitores de livros ou simplesmente leitores de capas...

Aos que nunca têm coragem de dizer que este ou aquele artigo é muito fraco...

Aos que tiveram vontade de bater em Skármeta e Redford por matarem o Mario no "Il Postino"...

A todos aqueles que não sabem que tenho um espaço destes...

E finalmente... A todos aqueles "Salvatores" que, de uma forma ou de outra têm estado nesta caminhada que começou para durar umas semanas e....

... Spektakulär!

 

Feliz Natal!

 

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A Sarah no SardinhaSemLata

por Robinson Kanes, em 22.12.20

uganda-2132664_1920.jpgCréditos: David Peterson / pixabay.com

 

Hoje é dia de escrevermos no SardinhaSemLata... E é só isso...

Passem por lá, é só clicar aqui.

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Forte de São Filipe... Um Retiro...

por Robinson Kanes, em 21.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Se me perguntarem qual um dos melhores spots em Portugal para passar um fim de tarde, não terei dúvidas em responder que esse lugar é o Forte de São Filipe em Setúbal.

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Foi pousada, esteve fechado e há poucos anos foi devolvido ao público. Estamos perante uma das melhores coisas que se fizeram em Setúbal nos últimos tempos. Durante um dia de semana, os finais de tarde, especialmente em dias quentes, adquirem uma sensação incomparável. Entre uma bebida e um passeio pelo espaço, é o local ideal para reflectir um pouco, para sofrer até e para contemplar o Sado, o Castelo de Palmela, a cidade de Setúbal e claro, Tróia e todo um oceano. A capela é também um espaço de obrigatória visita, aliás, das mais bonitas que podemos visitar no nosso país, o verdadeiro exemplo do small is beautiful.

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Entre um copo e boa companhia, Setúbal, lá em baixo, retoma o caminho do desenvolvimento a que tem sido exposto nos últimos anos. A cidade tem todo o potencial para se tornar uma das grandes urbes do país, sem esquecer o potencial turístico. Esperemos que assim continue.

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Gosto do forte, da esplanada e de tentar encontrar entre a serra, uma outra esplanada igualmente interessante em Palmela (um dia lá iremos). A bebida convida à conversa, a conversa convida à bebida e o tempo vai passando, partilham-se histórias e claro... bebe-se. Deixo, normalmente o moscatel roxo para segundo plano, é coisa que nunca falta em casa e deixo-me levar pelas ideias de quem está no bar. Tudo menos whisky, que na minha opinião em particular, é uma bebida péssima e bebe-se só para se dizer que se é importante. 

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Gosto do Forte, permite que o Pastor Alemão entre, e acreditem que este é uma verdadeira companhia para aqueles momentos em que temos de pensar, beber e tomar decisões. Embora tenha quase a certeza que o alsaciano prefere andar no meio da Arrábida do que propriamente a aturar as epifanias do companheiro humano.

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O vento tende, pontualmente a ser uma presença, mas neste espaço, entre folhas a voar, tout disparaîtra mais, mais le vent nous portera, como cantaram os Noir Désir. Maintenant le vent me portera para a saída... Entre abraços, sorrisos, patadas e gente boa, é hora de descer à cidade e quiçá terminar a tarde num dos excelentes restaurantes desta cidade...

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Erinnerungen an Berlin...

por Robinson Kanes, em 16.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Passam agora pouco mais de seis anos desde aqueles tempos em Berlim... Dei comigo a pensar naquela época e no pequeno Mercado de Natal na Alexanderplatz, bem pertinho do Sony Center. A noite que agora me vem à memória, colocava, no segundo, o lançamento na Europa de um dos grandes êxitos cinematográficos da época - um Harry Potter qualquer. Mas era no mercado que queria estar, uns minutos antes de jantar num restaurante que fazia umas massas na hora. Massas apetecíveis, sempre repleto de gente animada, contrastando com alguns restaurantes da área. Além disso, era mais barato e quando o dinheiro não é meu, não gosto de esbanjar, afinal tenho sempre de jantar e é orçamento do esforço de todos, além de que a minha estada era bastante longa...

 

Estreava na época um sobretudo que me ajudou a combater o frio de Berlim e acima de tudo a aguentar os passeios nocturnos perto do Marriott em Alexanderplatz. Do ir e vir até ao Reichstag, do piscar de olhos às embaixadas russas e americanas e como não poderia deixar de ser, entrar na noite com algumas passagens pela Friedrichstraße para me perder na "Dussmann Kulturkaufhaus" e escutar alguns amadores do piano a tentarem a sorte. Não poderei esquecer as fortunas que aí deixei em livros e CD (e excesso de bagagem). A obra completa de John Sebastian Bach da BachAkademie, dirigida por Helmuth Rilling e distribuída pela histórica Hänssler ainda hoje faz as delícias cá por casa. Desfrutava do Mundo, essa casa dos mortais como nos fez perceber Heidegger.

 

Alexanderplatz "era" uma área com uma pujança tremenda em termos de novas construções, modernos edifícios, confortáveis e abertos, sem esquecer um evento inesquecível numa estação de metro acabada de construir e onde, à boa maneira alemã, uma das áreas ficou em tosco, antecipando um aumento de tráfego no futuro. E como nada se desperdiça, um evento singular na estação de metro que ainda hoje recordo... Serviu de inspiração, contra tudo e contra todos, para realizar algo semelhante em Portugal e que foi um sucesso. Não foi algo muito falado, também não era essa a ideia.

 

Todavia, era ao fim do dia, entre as massas, o mercado e a boa companhia que gostava de estar. Era no percorrer as ruas vazias e austeras da cidade e de entrar naquele jardim densamente arborizado e escuro que se seguia às Portas de Brandemburgo, depois de ter percorrido a Unter den Linden, que gostava de me entregar a Berlim. Esses momentos só eram igualáveis ao pequeno-almoço no simpático restaurante do hotel com vista para a avenida e para os transeuntes que logo pela manhã se dirigiam para o trabalho. Local deveras interessante... Encantador e singelo, mas sedutor o suficiente para sentir a nova Berlim de tal forma que, sempre que possível, esse pequeno-almoço alongava-se por três ou mais quartos de hora. Nesta zona era difícil imaginar a Berlim de outros tempos, a única coisa que poderia almejar dada a minha idade. Todavia, a viagem de comboio de Schönefeld (entretanto encerrado) até ao centro aguçou-me a curiosidade: a escuridão das folhas das árvores, a lama, as valas com águas negras e uma imensa sensação de ainda estarmos do lado de lá do muro.

 

Tempo para um aparte, pois recordo-me que meti conversa com um suíço, de Zurique mas que residia em Berlim, ainda no aeroporto por causa do táxi. Acabei a acompanhá-lo no comboio. Falou-me que Berlim estava agora, em pleno século XXI, a modernizar-se muito por fruto das poupanças dos alemães ao longo do século XX e primeira década do novo milénio. Brinquei com Portugal que recebia milhões há muito, inclusive dos contribuintes alemães e teimava em não dar o salto. Riu-se, julgo, não tenho dúvidas que pensou que eu estava a brincar...

 

Foi numa dessas manhãs entre croissants e uns ovos que fiquei a reflectir no que me disse um alemão no dia anterior, depois de uma pergunta minha acerca da eficiência dos membros da sua equipa... "é muito simples, equipas motivadas, apaixonadas pelo trabalho e onde cada um sabe muito bem o que tem de fazer". É muito simples, de facto... Mas ao mesmo tempo, para alguns parece ser tão complexo, tão difícil e penoso de modo a que ninguém tente harmonizar o processo. Parece um pensamento para artigo de recursos humanos ou LinkedIn, mas se o fosse provavelmente seria apenas conversa e total inacção. 

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Na minha memória faz-se noite, volto ao mercado, faço umas compras mais locais e no centro comercial diante do mesmo, algo mais internacional. Bebo Gluwien, como os melhores lebkuchen da minha vida - e se algo desperta em mim o cookie monster, são as lebkuchen - e percebo que numa língua à época totalmente desconhecida, acabei por compreender muito daquilo que sou hoje e encontrar na frieza alemã um acolhimento singular... Das gargalhadas mais sinceras que já presenciei hoje foram aí mesmo... em Berlim...

 

Acabo esta noite a ouvir Severija, uma lituana com um bom alemão e que me deu a conhecer a banda sonora de "Babylon Berlin" com "Zu Asche Zu Staub"... Berlim traz-me boas memórias...

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