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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por MJP...

por Robinson Kanes, em 09.07.20

be68076629107c4fe0814e3187f3a227-1000.jpgCréditos: Amarjeet Kumar Singh/SOPA Images/Lightrocket via Getty Images - https://www.sciencemag.org/news/2020/05/doctors-race-understand-rare-inflammatory-condition-associated-coronavirus-young-people  (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

O que aprendi nos últimos seis meses…

Quando recebi o generoso convite do R., que muito me honra e agradeço, para reflectir sobre o que aprendi nos últimos seis meses, pensei que seria uma boa oportunidade de colocar em palavras escritas o que me vai no pensamento.

 

E, assim, de repente  (ou talvez não!), já passou metade de 2020... um ano diferente... arriscaria, mesmo, dizer que este será, muito provavelmente, o ano mais atípico que a maioria de nós já experienciou...

Fomos brindados com acontecimentos inesperados  (inimagináveis)  que abalaram, algumas das nossas certezas...

No início do ano, creio que poucos pensariam que este vírus chegaria à Europa... à medida que o tempo foi decorrendo e as imagens do desespero  (e da morte), que chegavam de Itália e de Espanha,  invadiam os nossos ecrãs, fomo-nos dando conta que isto era "real"... que o"nosso dia" haveria de chegar... era inevitável a chegada do vírus a Portugal... muitos de nós, conhecedores das fragilidades do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) - onde eu me incluo - temeram o pior...

Entretanto, ocorreu o proclamado “milagre Português”, que redundou no cenário que, actualmente, experienciamos…

 

A verdade é que depois de muito pensar, não creio que tenha aprendido nada de novo nestes últimos seis meses (decorrente da Pandemia) … mas, a verdade é que, constatei muitas coisas que já sabia, nomeadamente:

 

- O Ser Humano é muito vulnerável e controla muito pouco (ou nada) à sua volta, ao contrário do que muitos pensam;

- O Bem comum deverá sobrepor-se à (minha) vontade individual, ainda que, signifique ter de abdicar da Minha Liberdade de circulação, que tanto prezo;

- Nada é garantido, de um momento para o outro tudo pode mudar “sem aviso prévio” e, por isso, devemos aproveitar o melhor possível o momento presente e não adiar aquilo que consideramos importante;

- O que se torna essencial, em momentos de crise, são as relações de qualidade que estabelecemos com as nossas pessoas e que se revelam à prova de qualquer distanciamento físico;

- A Saúde Mental (tão estigmatizada e desvalorizada) é muito mais frágil (e difícil de manter, sobretudo, em confinamento) do que a Saúde Física;

- As crises não tornam os indivíduos “melhores Pessoas”, apenas evidenciam as suas características mais marcantes, ou seja, tornam-nos mais refinados;

- O Mundo não é cor-de-rosa, não somos todos amigos e não vai ficar tudo bem para todos;

- O Mundo é um lugar repleto de desigualdades, que se evidenciam e acentuam em momentos de crise;

- Há sempre quem esteja pronto a lucrar com a tragédia alheia;

- A memória é curta e os erros cometidos são facilmente repetíveis;

- Há muita gente que não saber viver em sociedade, adoptando comportamentos de risco que fazem perigar a saúde alheia;

- Os profissionais de saúde apenas são reconhecidos e valorizados pelo seu trabalho quando uma crise sanitária se instala e ninguém deseja morrer por ausência de cuidados de saúde!!!  

MJP

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por menina-mulher.

por Robinson Kanes, em 02.07.20

be68076629107c4fe0814e3187f3a227-1000.jpgCréditos: https://www.wallpaperup.com/528753/mood_sensual_fashion_beauty_beautiful_girl_face_cute_attractive_lovely_woman_female_model.html ( (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

 

Começo com um paradoxo: tenho tentado não pensar demais, passando o dia a pensar – especialmente nos últimos seis meses. Por isso este convite foi um desafio, mas um dos bons, que como vão ver, a seguir, acabou a fazer-me sorrir.

 

Admito que desde dezembro (daí os seis meses) estava atenta às notícias do Oriente, mas, na minha inocência de pessoa pouco ligada às Ciências, acreditava que íamos passar “só” por uma “sequela” do SARS 1, ou seja, volta e meia ouvir falar da nova gripe nos noticiários, quase como um fait-divers, mas a achar que a sua representatividade no nosso “cantinho à beira mar plantado” ia ser mínima.

 

Chega março e percebi... pânico, particularmente em quem me rodeia, ou não seja eu irmã de uma pessoa em imunodepressão e que está dependente de medicações e tratamentos diários. No “nosso umbigo familiar”, o que primeiro percebemos é que a (agora nova) Covid-19 ia mudar os nossos dias e as prioridades do país e logo do curso dos tratamentos com que vivemos, todos os dias.

 

Seguiu-se a muito lenta alteração do espírito e atitudes dos lisboetas nos transportes públicos e nos restaurantes (os meus habitats mais naturais aqui na capital), tanto que, na noite anterior ao decretar do isolamento voluntário pela empresa onde trabalho, estive com amigos a jantar e a Covid não foi, de todo, o principal tema de conversa.

E plim! Na tarde seguinte, entrei em confinamento voluntário e por cá continuo quase 120 dias depois.

 

O que aprendi?

  • Que lido melhor com o confinamento do que esperava. Lido bem com o trabalhar de casa, com as reuniões com câmara e sem ela; que os meus gatos também têm horários e que conseguem ser companheiros de trabalho muito chatinhos...;
  • Que cozinhar me acalma e me dá um foco ao dia: o alimentar os outros, o encontrar novidades seguras, o ganhar coragem para experimentar, mesmo dentro das minhas “quatro paredes”;
  • Que morar numa casa não é o mesmo que viver numa casa, e que passar tanto tempo dentro de casa leva a um graaaande “síndroma de ninho;
  • Que “as dicas certas”, “a produtividade”, o “melhoramento pessoal” não funciona igual para todos, e pode bem até aumentar a ansiedade e o sentimento de alienação;
  • Que morar a 300 quilómetros da nossa família é difícil, mas agora experimentem viver com a regra “não podes sair de casa” e vão ver que centenas de quilómetros se transformam num continente com um oceano pelo meio;
  • Que descer as escadas para ir à mercearia ao lado da porta pode ser todo um programa, agora na companhia de máscara e luvas e um cronómetro.

 

Mas, acima de tudo, aprendi que vivemos num país que se entrega e se ouve quando o mal é comum, mas que se distrai facilmente quando os estímulos são muitos.

Aprendi que informação pode ser demais, mas que o “lava sempre bem as mãos”, o “mantém 2 metros de distância”, o “apoia os negócios locais” já não são informação, mas são sim formação da nossa personalidade no “novo normal”.

 

Venha o copo de vinho à 6ª feira, para brindar a mais uma semana (minimamente) sãos, e cá estaremos daqui a meio ano, para nos abraçarmos virtualmente, outra vez!

Blog da menina-Mulher

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Final de dia...

por Robinson Kanes, em 20.06.20

IMG_3295.jpgImagem: Robinson Kanes

 

Ce n'était pas des action de grâces qui pouvaient me monter au lèvres , mais ce Nada qui n'a pu naître que devant de paysages écrasés de soleil. Il n'y a pas de l'amour de vivre san désespoir de vivre

Albert Camus, in "L' Envers et L'Endroit"

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por GC...

por Robinson Kanes, em 18.06.20

rubens_nao_e_que_nao_houvesse.jpg

Peter Paul Rubens - "Retrato da Filha do Artista" (Scottish National Gallery) 

Imagem: Robinson Kanes

 

Quando penso nos últimos seis meses tenho a sensação de ter passado já muito tempo. Não por causa da pandemia e do consequente recolhimento forçado, que obriga a mais tempo de reflexão e contacto com a nossa mais íntima realidade, mas porque uma parte de mim parece ter ficado lá atrás - enquanto a minha essência mais profunda está a voltar e a caminhar em frente. Qualquer que seja a razão para isso ter acontecido, parece que devo ter motivos para ficar feliz.

 

Nos últimos seis meses aprendi que, embora seja por vezes doloroso, a escolha pelos nossos ideais e valores em detrimento de títulos (profissionais ou outros) vale sempre a pena. É um caminho solitário e muitas vezes incompreendido. Mas a coerência e consistência com o que temos de mais estrutural traz-nos uma tranquilidade impagável.

 

Aprendi, igualmente, que a minha ignorância é afinal bem maior do que julgava. Há tantos livros para ler, tantos cursos para fazer, tantos filmes e música e poesia para me emocionar, que a única hipótese viável é reservar uma parte do dia para me cultivar e tentar ser melhor a partir do conhecimento e da experiência dos outros.

 

Aprendi ainda que a vida pode ser tão simples para nós, humanos, como é para um cão. O meu Pastor Alemão descobre, à medida que vai ficando mais velho, muito mais sítios interessantes para farejar, brincadeiras muito mais divertidas para me pedir ou técnicas bem mais ardilosas para me obrigar a levá-lo a dar passeios mais longos pela natureza. Quando penso que poderia traduzir tudo isso para a minha própria experiência humana, chego à conclusão de que, tal como para ele, descobrir constantemente novos motivos para me fascinar perante o mundo poderá ser algo verdadeiramente espontâneo - basta estar atenta ao que me rodeia.

 

Aprendi também que, embora não se morra, literalmente, de saudades, é possível morrer metaforicamente. Porque é por dentro, no invisível traço que nos une a alguém, que a falta acontece sem pedir licença. Um dia disseram-me que não era de uma pessoa que sentíamos saudades mas do que ela nos fazia sentir. Talvez seja verdade. Ainda assim, há olhares, aromas, sorrisos, abraços e cumplicidade que não são repetíveis - por muito que outra ou outras pessoas cheguem entretanto à nossa vida. Aquela marca, aquela ausência, aquela memória pertencem unicamente a quem no-la gravou cá dentro.

 

Aprendi, finalmente, que não há nenhuma forma de saber o que cada dia nos reserva, por muito que gostemos de nos defender dessa certeza com falsas seguranças e vidas muito cronometradas. A inevitabilidade e o mistério do desconhecido parecem-nos longínquos quando estamos a viver em piloto automático. Mas o facto de não podermos controlar tudo pode trazer uma bênção impensada: a de sermos, finalmente, aquilo que somos, sem amarras, sem controlo de cada gesto, sem medo que a nossa essência transborde para lá do barco imenso da nossa plena existência.

 

GC

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por José da Xã...

por Robinson Kanes, em 04.06.20

Jan.-11-2016.jpgCréditos: https://elmlearning.com/lxd-instructional-designer/ (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

O que aprendi nos últimos seis meses…

Foi com um misto de espanto e, porque não dizê-lo, de alguma vaidade que recebi o convite do Robinson para escrever aqui sobre um tema que nos tocou e toca ainda a todos. Desde já o meu muuuuuuuuuuito obrigado por este convite que só me lisonjeia.

Espero, contudo, estar à altura do desafio…

Então vejamos… desde o início do ano o Mundo, literalmente, virou de pernas para o ar. Uma pandemia com origem (dizem!!!) na República Popular da China rapidamente se alastrou a todos os países.

Em Portugal e após consciência do mal que se estava a alastrar, por exemplo, em Itália e aqui na nossa vizinha Espanha, justificadamente, o governo decretou o confinamento geral.

Ora bem… é deste tempo, destes seis meses desde o dealbar do ano que fui convidado a falar (leia-se escrever), nomeadamente naquilo que aprendi neste derradeiro meio ano.

A primeira lição é que jamais comerei pangolim… nem morcegos, não obstante a chusma destes que livremente se passeiam num barracão que tenho na Beira e que se fossem comestíveis… já eram!

Depois aprendi a colocar uma máscara cirúrgica na cara. Das muito poucas vezes que saí de casa andei com a máscara ao contrário. Até que me ensinaram!

Aprendi a lavar as mãos. Antigamente aquilo era uma passagem e já está… Agora tinha de ser mais demorado… Parece que não, mas até agora fez efeito!

No entanto a maior lição que aprendi prende-se com um mito bem luso e que após esta pandemia caiu totalmente por terra. A verdade, verdadinha é que ninguém em Portugal ou noutro local, morre de saudades.

Nem eu que fui avô dois meses antes do confinamento, nem os meus pais idosos e que se viram privados da minha companhia e dos netos (e da bisneta, claro!), ninguém pereceu às mãos de um sentimento tão luso. Nem os meus filhos, sobrinhos, amigos e colegas morreram com saudades minhas. Nem eu deles.

Também aprendi que teletrabalho é fixe… Levanto-me cinco minutos antes de começar e não tenho de apanhar trânsito, calor, chuva, frio… O que custa mais será o pequeno-almoço em casa já que sou da mesma opinião do Obélix quando falava dos Romanos: lá foram são melhores que os de dentro.

Outra coisa que eu aprendi nesta meia dúzia de meses foi fazer compras on-line. Até agora de todos os livros que comprei só me falta entregarem um… Os supermercados nunca falharam e os cafés também não!

Finalmente… aprendi que se pode viver sem futebol. Quem diria?

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1_YHCUfvoIa-36YJGmIfIXAw.jpegCréditos: https://medium.com/@buchireddy/the-importance-of-unlearning-765f4c32112e (responsabilidade do autor do espaço)

 

O meu estimadíssimo amigo Robinson Kanes convidou-me para escrevinhar no seu blog, Não é que não houvesse, um dos espaços que há mais tempo acompanho e um dos que me suscita mais carinho.
Sendo assim é fácil imaginar a honra que senti diante de tal convite, perante a generosidade do meu anfitrião.
O desafio foi...
O que aprendi nestes últimos seis meses?
Ora bem...
Se me dissessem nos primeiros dias de 2020 que iríamos todos, o mundo, passar dois meses confinados em casa com o receio de uma Pandemia que chegava para aniquilar parte da Humanidade, iria achar uma patetice.
Sentiria que a impossibilidade dessa realidade só poderia ser descrita num guião de péssima qualidade, apressado e sem adesão à vida quotidiana deste planeta.
Enganei-me.
Aqui está uma das primeiras lições...
Não menosprezar a impossibilidade desses “impossíveis” que um dia se tornam realidade.
Deve ter sido isso que sentiram aquelas pessoas entregues a um Tsunami, descrito no filme O Impossível, esmagados por uma onda que tomou conta desse momento parecendo sair de um filme de terror.
Pois é...
Às vezes pode ser possível.
Outra das coisas que aprendi, foi a gerir o compartilhar de espaço e tempo, confinado em família, olhando para os mesmos rostos, as mesmas vozes, 24 sobre 24 horas...
O que eu troçava desta frase, de autoria dos concorrentes de Reality Shows, mas que durante esta Pandemia se tornou real em nossas vidas.
Por vezes a realidade que chega não necessita de ser extraída de um filme de ficção cientifica, pode mesmo ser de um qualquer BIG BROTHER, no entanto, não deixa de trazer consigo um pedaço de ensinamento.
Só aprendizado.
Durante este tempo aprendi ainda a partilhar em comunidade, neste caso no Sapo, juntando-me a um estimado grupo de amigos, com personalidades diferentes, ideias diferentes, para num projecto comum dar voz ao tamanho mar que se atreve a libertar pedaços de pensamento amarrado a cristalinas ondas salgadas.
O sardinhaSemlata é esse pedaço de abraço que conjuga dentro de si, vidas, realidades, gente...
Numa partilha maior da palavra.
Aprendi tanta coisa...
Aprendi a ter saudades, tamanhas e pequenas, desgarradas e serenas, pessimistas e optimistas.
Aprendi a ter saudades dos abraços perdidos em braços esquecidos de um tempo por viver.
Aprendi a aprender...
Tentando discernir sobre as milhões de questões que invadiam o dia a dia deste nosso Pandémico quotidiano, nesse medo de sair, de conviver, de viver.
Tantas e tamanhas aprendizagens que não caberão num texto para este Blog, mesmo sendo o Não é que não houvesse, habituado a viagens e palavras, frases e retratos, pequenos pedaços de deslumbre da responsabilidade deste queridíssimo amigo, de seu nome Robinson.
Obrigado meu amigo, pelo convite, pela amizade, pela partilha desta nossa viagem em lata e por tanto que ainda se vislumbra no horizonte.

Um abraço

Filipe Vaz Correia

Caneca de Letras

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Sem Destino no Adriático...

por Robinson Kanes, em 23.05.20

albania.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

A maioria dos homens não tem destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa"

 

Já tão perto, o mar Adriático arrasta-nos para a Costa Albanesa com o Parque Natural de Llogara a Norte. Terras perigosas dizem, em tempos talvez, hoje mais seguras apesar da distância que nos separa de Tirana a nordeste. Sem destino, apenas com o gelado italiano na memória e com águas que brotam história, cada salpico traz consigo milhares de anos de diálogos e de sangue. O mar tem a capacidade de nos retirar o peso do mundo mas também de nos fazer reflectir sobre o mesmo, apreende-nos e faz-nos querer ir mais longe... Talvez o desabafo para percorrer a Albânia, a Macedónia e entrar em Istambul pela Bulgária, percorrer o Mar Negro até Batumi ou Poti, já na Geórgia, e aí repousar antes do regresso à Arménia.

 

Sem destino, "como barcos contra a corrente, arrastados incessantemente", para citar Scott Fitzgerald, ao sabor das vagas... Ensina-nos a vida moderna, que o destino não existe, ou simplesmente acontece e todos os dias se renova numa espécie de conceito cuja formulação deixo aos pensadores deste século. Absorvem-se já os ares da terra albanesa, pois as suas águas territoriais já nos acolheram. Nesse embalo rimo-nos de como é que é possível acreditar e viver num mundo em que damos tudo como um dado adquirido e tamb´ém troçamos daqueles que, evidentemente, se riem de pensarmos dessa forma... Como era bom que a pandemia que assola o mundo em 2020 tivesse sido há uns anos. Talvez aqueles que perdendo o estrelato, o topo da hierarquia em prol da verdade tenham a razão do seu lado, talvez até não. Quiçá o herói de Kazantzakis tenha toda a razão do mundo enquanto dançava nas areias das não distantes praias gregas. Quiçá nenhum de nós tenha real noção e no conforto de uma paz sustentada em tenros pilares tenha sucumbido ao drama do conforto, mesmo que aponte os tempos actuais como um período de mudança. Também nos podemos rir, afinal a mudança há muito que começou e só um jerico pode afirmar que, agora nestes meses, é que é o tempo de mudar. 

 

Cheira a Tavë Kosi, ou melhor, talvez nós queiramos que esse aroma e o que vem atrás dele nos entre pelo estômago... O Souvlaki há muito para trás já não nos engana o apetite. Podemos atravessar a Macedónia e ficar pelas praias da Bulgária antes de seguir caminho? Mil e um destinos, mil e um de nadas e naquele momento, onde a água e a terra albanesa se beijam e levam o que ainda de mediterrânico existe até aos balcãs, seja também o momento oportuno para selarmos com um beijo e um sorriso o destino. Para o escrever e transformá-lo em passado, porque não me quero mover no contínuo mas sim ficar extremamente sensível naquilo a que Cortázar chamava de descontinuidade vertiginosa da existência.

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Chazada com a Alice...

por Robinson Kanes, em 04.05.20

imgID134049270.jpg.gallery.jpgCréditos: https://www.harrowtimes.co.uk/news/15663073.boris-johnson-drops-in-at-eastcote-care-home/

 

Não é que não houvesse... Haver havia, não era grande coisa, mas haver havia... E como havia, hoje estamos no espaço da Alice com uma chazada  e um grande passeio pela Arrábida...

Boa semana,

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Talvez Volver...

por Robinson Kanes, em 27.04.20

IMG_20190105_193110-2.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

La mayoría de los hombres non tienen destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa"

 

Talvez porque sim... Talvez porque, mais uma vez, já sinta tanto a tua falta... Talvez porque um dia possa ser, finalmente, em definitivo! Talvez porque nem a mais perigosa das pestes conseguirá esvaziar as tuas ruas, os teus becos e bares do ruído e da presença daqueles que não trocam a rua nem o constante empurrar e conversas perdidas em alta voz enquanto se escuta "las cosas pequeñitas".

 

Não,  "La Latina" nunca conseguirá sobreviver sem os gritos, os risos, as tapas e as cervejas que a enchem de Segunda-Feira a Domingo, até porque, naquelas ruas, não existe nem Lunes nem Viernes, nem Sabado nem Domingo. Talvez porque a fronteira um destes dias abrirá e entre o "Espanol" e o "La Zarzuela", lá estaremos para tomar aquele tão apetecível anti-depressivo que tão bem nos faz... 

 

Talvez porque nos faz falta a aridez da Extremadura, de La Mancha e da Comunidad, sem esquecer o acolhimento que sempre nos proporcionas... Mesmo que a altas horas na "La Segunda Base" entre a Mauricio Legendre e a Augustin Foxá, já perto de Chamartín e onde debaixo daquelas arcadas, a animação é uma constante e não nos faz sentir a falta da loucura das Cortes.

 

Talvez por isso, volveremos cuanto antes...

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Paisagens de Portugal: Palmela/Setúbal

por Robinson Kanes, em 25.11.19

palmela_setubal.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Subir ao Castelo de Palmela é sempre um dos pontos altos de qualquer percurso de bicicleta no Parque Natural da Arrábida. Subir o paralelo que nos leva pelas ruelas da pequena vila até ao cimo é entrar dentro dos ritmos daquele lugar que na época das vindimas adquire um aroma especial. É subir... subir... sem nos cansarmos... É subir sabendo da conquista que nos aguarda no topo.

 

Mas chegar ao Castelo é também ser dono do Mundo, é olhar ao longe o encontro entre o Sado e o Atlântico. É apreciar Setúbal e a sua baía, uma das mais belas do Mundo. É vislumbrar a Península de Tróia que procura tocar o outro lado do estuário, é ver quase todo o Alentejo que se está ali tão perto. É comungar com tamanha imensidão e beleza e pensar: como é belo e eclético este distrito! E é com um dos grandes deste distrito, mais precisamente de Azeitão, que recordo agora, tão longe... esta paisagem.

 

Versos ao Mar

Ai!,
o berço da tua voz,...
e esse jeito de mão que tens nas ondas,
Mar!

Quando eu cair exausto
sobre as conchas da praia e fique ali
doente e sem ninguém,
hás-de ser tu quem me trate,
quero que sejas tu a minha Mãe.

Há-de embalar-me a tua voz de berço,
pra que a febre me deixe sossegar,
e hás-de passar, ó Mar!
pelo meu corpo em chaga,
as tuas mãos piedosas comovidas,
pra que sintas por mim as minhas dores
e eu sinta só o bálsamo nas feridas.

Como se fosses tu a minha Mãe…
Como se fosses tu a minha Noiva…

E hás-de contar-me histórias velhas
de Marinheiros…
Histórias de Sereias e de Luas
que se perderam por ti…
E se a Morte vier há-de quedar,
toda encantada, a ouvir-te,
e, sem ânimo já me há-de quedar,
Toda encantada, a ouvir-te,
E, sem ânimo já de me levar,
sorrindo, voltará por seu caminho
(não na sentimos vir, nem ir, tão de mansinho
se passou tudo, Mar!),
voltará de mansinho,
pé ante pé, pra não nos perturbar,

mas saudosa da tua voz de berço…

Sebastião da Gama, in "Serra-Mãe"

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