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O Mosteiro de Santa Maria das Júnias...

por Robinson Kanes, em 20.11.17

IMG_6875.JPG Fonte das Imagens: Própria.

 

Como prometido, teria de voltar a Pitões das Júnias. O espaço de um artigo, que pode ser lido aqui, é pequeno para a grandeza desta aldeia, "perdida" no concelho de Montalegre e onde o Gerês termina a sua conquista de vales e montes e abraça o Barroso. 

 

Não podemos falar de Pitões sem mencionar o Mosteiro que aí se encontra perdido e em ruínas. Não defendendo que o mesmo esteja em ruinas, de facto, é um marco e uma imagem inesquecível, um pouco ao nível do que encontramos no Convento do Carmo, que não precisa de obras para ser imponente e apetecível. Todavia, e segundo a Câmara Municipal de Montalegre, já existe um projecto para reabilitar o mesmo... Fantástico, não é?

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O Mosteiro encontra-se, na maioria das publicações, datado no pré-românico, mais precisamente no século IX. Todavia, as investigações mais recentes apontam para o século XII - com alguma precisão para o ano de 1147. Acerca da história deste mosteiro, inicialmente Beneditino, sugiro este artigo do Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.  

 

Com uma planta trapezoidal, é um mosteiro românico mas com um claustro já com alguns apontamentos góticos, pelo que não nos devemos deixar enganar pelos arcos de volta perfeita, mais românicos. À semelhança de muitos destes espaços, a evolução do mesmo esteve sempre lado-a-lado com a História e respectivamente com a arquitectura da época. Desde então as grandes mudanças deram-se sobretudo ao nível social, primeiramente com a absorção dos Beneditinos pela Ordem de Cister e já em 1834 com a extinção do mesmo por arrasto da extinção das ordens religiosas. Passou a ser paróquia e a ter outras utilidades e hoje, no dia 15 de Agosto ainda é alvo da romaria dos habitantes de Pitões e aldeias vizinhas.

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Chegar ao mosteiro é entrar num cenário digno de filme ou, como alguém no artigo sobre Pitões apontou, encontrar uma terra encantada. Atravessar os campos, sempre com uma vista soberba para o rio e para as montanhas a sul, acompanhar o ritmo da fauna e seguir os lameiros é, sem dúvida, a melhor porta de entrada para o vale em que encontramos estas ruinas e percebemos como o homem e a natureza são capazes de viver e criar em harmonia. Para mim, este é sem dúvida um dos melhores locais para a realização de um piquenique ou até para nos deixarmos cair no chão e esperar que o sol nos aqueça o rosto ou a chuva nos lave de todas as inquietações.

 

Com o som da água, pela ribeira que passa mesmo ao lado do mosteiro, em sintonia perfeita com os pássaros e um "barulho silencioso" de todo aquele vale, diria que estamos no mais perfeito dos romances. Disse acima que é um local perfeito para um piquenique, e diria até, que é o local perfeito para acompanhar os amantes que naquele encanto natural podem viver a sua paixão eterna em perfeita simbiose com o meio-envolvente. Um dos locais mais românticos no Gerês, é sem dúvida o Mosteiro de Santa Maria das Júnias.

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 Para os mais curiosos, sugiro algumas publicações acerca do mosteiro, da aldeia e até da própria região:

 

BARROCA, Mário Jorge – “Mosteiro de Santa Maria das Júnias – Notas para o estudo da sua evolução arquitectónica”, in Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, II série, vol. 11, Porto, 1994, pp. 417-443.

BORRALHEIRO, Rogério – Montalegre - Memórias e História – Montalegre: Barrosana, E.M., 2005.

COUCHERIL, Maur - Routier des Abbayes Cisterciennes du Portugal - Paris: Fondation Calouste Gulbenkian,  Centre Cultural Portugais, 1986.

GUERREIRO, Manuel Viegas - Pitões das Júnias. Esboço de monografia etnoigráfica - Lisboa, 1981.

MARTINS, Clara Joana - Mosteiro de Pitões das Júnias. Um caso de obstinação, in Revista Descobrir, nº 0, Lisboa, 1995, pp.110-115.

VASCONCELOS, Joaquim - A Arte Românica em Portugal, Publicações Dom Quixote: Lisboa, 1992.

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IMG_6891.JPGFonte das Imagens: Própria.

 

Ontem falei do Outono e... Falar do Outono sem falar em Trás-os-Montes e mais especificamente em Pitões das Júnias é um autêntica falta de sensibilidade para com esta estação.

 

Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre, não está na moda, por isso não confundamos as coisas. Aliás, se alguma vez esteve na moda foi no âmbito da etnologia e da antropologia sobretudo no estudo e na abordagem às aldeias comunitárias.  Sobre uma delas debrucei-me em tempos, Tourém.O próprio nome da aldeia ainda hoje é alvo de um grande debate, pois não é fácil perceber a sua origem.

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Pitões das Júnias é a aldeia mais alta do Barroso e encontra-se no Parque Natural da Peneda-Gerês. Apesar da proximidade com Espanha, não deixa de ser uma aldeia perdida do interior, uma aldeia esquecida e que tem, graças ao turismo, conseguido manter-se de forma a que não se torne apenas mais uma recordação do passado. A abordagem a Pitões também não pode ficar circunscrita só a um artigo (cá voltaremos), apesar da dimensão da aldeia e da sua população de pouco mais de 150 habitantes. Pitões é mais que uma aldeia, e quando chegamos a Pitões é fácil sentir essa diferença. Pitões é a história de um povo que numa região inóspita lutou contra as adversidades de um clima rigoroso e contra a distância dos grandes centros e isso reconhece-se ainda hoje nos rostos daquelas gentes - gente forte, dura mas de uma humildade e carinho singulares. A própria génesa das aldeias comunitárias nasce dessa necessidade de união e partilha face aos diferentes desafios.

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Entre o rio, a "Pala da Vaca" e os "Cornos de Pitões" (Cornos da Fonte Fria), como são chamadas pelos locais as elevações que "protegem" a aldeia e que contribuem para uma imagem pitoresca sobretudo ao amanhecer e durante o crespúsculo. A vista da aldeia a partir do cemitério é algo que fica para sempre na nossa memória. Daí podemos rever o nosso circuito dentro da aldeia e imaginarmo-nos nós também como parte da mesma. O forno comunitário/Ecomuseu, as fontes com uma água cristalina, a Igreja e as diferentes casas são de uma beleza indescritível e não faltam relatos desta riqueza em livros e também na web, sobretudo daqueles que lá vivem, e não daqueles que, como eu, só lá vão de vez em quando.

 

Também não é incomum encontrarmo-nos com amigos de 4 patas, sejam bois ou enormes cães que nos abordam com um olhar inquiridor mas rapidamente se deixam contagiar pelas nossas festas.

 

Entre os "Prados do Lima", os "cornos" e os ribeiros podemos encontrar verdadeiros dias de descanso, considero até que é um dos locais perfeitos para fugir do mundo e reflectir. Contudo não nos deixemos enganar, pois não perdemos a ligação com a vida e com as pessoas, a outra grande riqueza desta aldeia. Em Pitões apodemos perder a carteira com algum dinheiro e rapidamente toda uma aldeia se mobiliza para encontrar o proprietário da mesma, mesmo que este já se encontre em Lisboa com a memória da "Cascata" ainda bem presente nos seus pensamentos.

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Mas voltaremos a Pitões para descobrir mais um dos segredos deste nosso país. Por agora repousemos entre um clareira rodeada de carvalhos e estudemos este interessante percurso recomendado pelo ICNF. Depois, abramos os nosso cesto de piquenique porque a fome já aperta. Ao que sei está rechedado de enchidos e licores da região...

 

Finalmente, e como Pitões se encontra num Parque Natural, nada como recordar o Código de Conduta e Boas Práticas que deve ser interiorizado por todos os visitantes das áreas protegidas.

 

Bom fim-de-semana...

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Estação da Minha Terra

por Robinson Kanes, em 08.02.17

 

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Em Portugal, o encerramento de linhas férreas, algumas delas entre as mais belas do Mundo (Tua, Sabor, Corgo, parcialmente o Douro), a desertificação do interior e a aposta no transporte rodoviário, levaram, nalguns casos, à extinção de toda uma actividade, de todo um modo de vida, poder-se-á arriscar em dizer até... de todo um cosmopolitismo que à escala local era inúmeras vezes responsabilidade deste meio de transporte.

 

A estação, em muitas situações, era a Ágora de muitas localidades. A chegada e a partida do comboio eram motivo de bulício quase instantâneo, já para não falarmos do emprego gerado por esta actividade. Das que se “salvaram”, algumas estão ao cuidado de autarquias e instituições públicas que, por sua vez, as remodelam mas esquecem a verdadeira essência que estas um dia tiveram.

 

A degradação de alguns destes espaços é absolutamente avassaladora e... só caminhando sobre ruinas podemos sentir o que outrora foi o fervilhar de pessoas e mercadorias, agora votado ao abandono. As estações remodeladas, uma minoria, albergam espaços como bibliotecas (Vila Pouca de Aguiar), associações (Óbidos), alojamentos turísticos (Celorico de Basto); hostels (Rossio e São Bento, embora sejam duas estações activas e das mais frequentadas do país); museus (Arco de Baúlhe); centros comerciais (Viana do Castelo, estação ainda activa); papelarias (Alto Estanqueiro-Jardia). No entanto, o retorno para as populações é escasso. Muitos destes espaços acabam por continuar degradados e alguns deles até rapidamente se veem obrigados a fechar portas.

 

Muitas das estações abandonadas encontram-se num Portugal longe das grandes cidades e o meio-envolvente não é o mais favorável em termos económicos e sociais. O poder político, local e central, parece ignorar o estado crítico das mesmas e a concessionária (Infraestruturas de Portugal) procede a contratos de arrendamento que incluem, sob inúmeras condições, a remodelação dos espaços pelos arrendatários (maioritariamente as autarquias) que empreendem parcerias com a mesma, ficando muitas vezes aquém da vontade e consulta popular que reivindica as reabertura das linhas.

 

A população, por sua vez, olha para estas decisões somente como meros paliativos de controlo da revolta destas gentes...

 

... os mais novos, aqueles que não conheceram o comboio em muitas linhas... 

 

... limitam-se a imaginar.

 

Fonta da Imagem: Própria.

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Descalçada Portuguesa...

por Robinson Kanes, em 05.11.16

 

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É verdade! Finalmente alguém retirou do mais recôndito e inverosímil da sua mente que a Calçada Portuguesa é digna de ser exaltada como Património da Humanidade.

 

Confesso que saúdo e saúdo também que se inclua nesse registo empreendimentos de calçada portuguesa não só por Portugal mas também pelo mundo.

 

Mas hoje o que me faz vir aqui e ficar recostado na cadeira enquanto escrevo é a Descalçada Portuguesa.

 

Efectivamente, presenciei um pouco desse imaterial património num destes dias enquanto passeava o Rufus  em plena Avenida da República (Lisboa).

 

É algo digno, não fosse a cidade estar toda esburacada e muitas das calçadas também. No entanto, nada me preparou para o que iria ver – uma verdadeira manifestação cultural de Descalçada Portuguesa.

 

Uma senhora, de tailleur escuro, camisa branca, uns cabelos castanhos lisos e uma pele clara daquelas que é difícil resistir ao toque, circulava pelo passeio e eis senão que, tropeça num buraco da calçada e... a partir daqui é épico, é imaterialmente etnográfico - um sapato preto, de salto alto, coisa fina até... voa pelo ar no céu cinzento de Lisboa e cai metros atrás de tão elegante e delicada figura.

 

-Raios, já viste isto? – interrogou-se com um misto de riso e fúria.

 

Eu sorri e dei graças a Deus por ter sido contemplado com uma frequente manifestação imaterial de um património que é de todos nós, a Descalçada Portuguesa.

 

Fotografia: http://www.plantagri.com, 2016.

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