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Respirar Saint-Germain-des-Prés e o Sena...

por Robinson Kanes, em 13.11.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Era Victor Hugo quem dizia que respirar Paris era das melhores coisas que se poderia fazer para cuidar da alma...

 

Pois assim é... Um dia preenchido pela frente, além de que os passeios junto ao Sena são sempre uma obrigatoriedade, mesmo enfrentando alguns indivíduos que deixam cair um anel, perguntam se é nosso e depois tentam vender-nos por um bom preço alegando que se trata de ouro. E assim foi, contudo, não tentando repetir o último que praticamente acabou em Créteil.

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Saint-Germain-des-Prés sempre ali presente, sempre com o seu habitual glamour que atravessa séculos e que nos traz de volta para romances, peças de teatro e composições únicas que nos transformam a cada viagem àquela cidade. Estranhamente, talvez por ter sido um dos meu primeiros contactos com Puccini, tenha sempre esperança de encontrar Mimi; Rodolfo; Marcello; Colline; Schaunnard e Musetta a deambular pelas ruas. Espero mesmo encontrá-los e poder juntar-me num qualquer café daquela zona e beber a Murger, Puccini; a "La Bohème" sem esquecer Illica e Giacosa. 

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Paris consegue ainda conservar muito daquilo que a torna para muitos a capital do Mundo. Atravessar o quarteirão das Universidades é deambular por muito do conhecimento que ainda hoje transforma o Mundo, é sentir o Maio de 68, sobretudo por quem nunca o viveu e só o conheceu nos livros de História e Política. O Maio de 68, que grandes e acesas conversas já permitiu ter num pequeno café, junto a uma praça perto da sede da UNESCO. É também por aqui, antes de chegarmos aos "Jardins de Luxembourg" que temos talvez umas das mais belas vistas (embora distante) da "Tour Eiffel".

 

O sol convida a que apreciemos este passeio, até os corpos aquecerem e refugiarmo-nos nas sombras ou no Panteão. Hesitamos... Voltamos lá? Continuamos, este Paris soalheiro não pode ser desperdiçado e temos falta de um almoço... Escolhemos um que nos recomendou um polícia (na ausência de camionistas, os polícias e os taxistas sabem sempre onde se come bem). Como não poderia deixar de ser, não ficámos mal, uns cogumelos, uma carne daquelas e um Bordeaux tinto. 

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Planeamos a tarde... O fim do dia será num banlieue fora de Paris. Um árabe "de Agrigento" que em tempos conhecemos em Orly e que ía para a Sicília convidou-nos para um jantar, pois encontrava-se na cidade para visitar a filha. Timing perfeito! E é neste planeamento que me lembro da "Église de Saint-Denys-du-Saint-Sacrement". Um tesouro escondido, pois é lá que se encontra uma pintura de, e façamos uma vénia, de Delacroix. A "Pietá" em todo o seu esplendor "Le Christ Descendu de la Croix" bem perto de uma sala também interessante a "Comédie Bastille" e de mais uma das surpresas "escondidas" de Paris, o "Musée Cognacq-Jay" onde descobrimos o "Banquete de Cléopatra" de Tiepolo.

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E caramba, como o sol em Paris pode queimar verdadeiramente, já não precisamos de Biarritz nem tão pouco de Saint-Tropez, Paris encarrega-se de nos queimar a pele...  É hora de partir, o Hassane está à nossa espera e ainda nos deixa tirar uma fotografia da lua, fora das luzes da cidade do Sena.

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Honfleur, uma cidade portuária

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

A pacata e firme Caen

Bayeux: uma jóia normanda

Normandia: um dia de homenagem

O Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, a cidade pirata

 

 

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At Montparnasse with Rodin, Sartre and Donizetti...

por Robinson Kanes, em 09.11.20

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Photos: Robinson Kanes

 

 

A gesture, an event in the small colourful world of men is never preposterous except in relation to the facts that go with it. The words of a madman, for example, are absurd in relation to the situation in which he finds himself, but not in relation to his delirium.

Jean Paul Sartre, in "Nausea"

 

It's not Paris-Marseille, but it could be. We leave behind Normandy and Brittany and many days of asphalt, land and sea. After the Portuguese coffee by the road, we arrive in Paris. Getting to Paris is always that glamorous feeling, whether by plane, train or road, even if the hours in line can be endless, which was not the case this time. Paris is part of our lives, the fascination of our parents for the city, for France and also for the many business or leisure trips that have already brought us here. Talking about Paris is to reproduce everything that has already been said.

 

This time, we stayed right in the centre, a small stop of three days before heading to Lille and French Flanders. A tour full of new stops, so we need to be chilled out. But.. in Paris? Come on... A couple of dinners at Marais and a few gatherings at the 7th arrondissement near the Musée Rodin. Who takes a rest? Perhaps, and as everything in Paris will be said, this could be the motto to approach one of the favorite sculptors for any art enthusiast.

rodin.jpgTo pass anywhere and to vibrate when one identifies a work of this sculptor is already something, and get into a property where the gardens and the building are flooded with Rodin's works, is to enter the paradise. A nice garden and a small "palais" keep some of the greatest treasures of Humanity and allow us to be seduced by Rodin. How is it possible? How can anyone...

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The museum is not that big, but the tour can last an eternity, and it has not yet reached the 7 hours we stayed in the Prado and the 6 in the Louvre. It's sunny, we took the opportunity to go down to the garden and get some fresh air... To think that museology in Paris is the Louvre is one of the biggest mistakes you can make when you have in the same city the Musée Rodin, the Musée Picasso, the beautiful and thrilling Musée d'Orsay, the ravishing Musée Delacroix and so many others that you could list and that include many small galleries that ravish us with all their artistic magnificence.

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And in the midst of all this pseudo-intellectualism, what I feel most like is a taste of the Pont l'Évêque which we still have with us and which in the hotel they were kind enough to preserve ( I know, but in France asking for cheese is the same as in New York asking for a diamond) and also adding a Breton cider. Let the "The Thinker" to join us - to come down from the pedestal and join us while between a "mais non" and a "si, mais" we can question nowadays world? Today we would have many questions for that bronze gentleman.

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Before leaving, we took advantage of the views of the Hôtel des Invalides... Paris, like Rome, would force a human being to have a 360º view to enjoy all that the landscape offers him. It is a fascinating place, where we can feel the energy and strength that comes from there and even more when we cross the entrance. 

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It's lunchtime, we want to discuss everything we've seen, we want to debate what we've just witnessed, besides the passion for Rodin. We walk around and Montparnasse feels like it. That's where we stay... A Moroccan restaurant, "Chez Berberett", with friendly waiters and nice guests in the terrace comes to us as a good option... It does not disappoint us, and in Montparnasse, it is easy to eat poorly and pay a lot, despite some restaurants that are a reference.

 

Time goes by, and Rodin is left behind... The waiter, an extremely kind Moroccan who seems more like a Norwegian, initially questioning whether I was Algerian, realizes that I am Portuguese and we start talking about History. He remembers D. Sebastião and D. João I. So much history to realize that we share so much, including the genes... Rodin is left behind, overtaken by anthropology, history and biology.

 

Well settled by the delicacies of North Africa, we decided to go to pay tribute to some illustrious people who rest nearby, before meeting Donizetti and his work "Don Pasquale" at the "Palais Garnier".

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Before we left, we meet with Sartre and Beauvoir... We talk about Camus, we talk about existentialism although forgotten today is still so actual, a real lesson of Humanity. The cemeteries comfort us, we feel safe... It is as if the dead protected us from the living and where we can also spit on the graves of those who should not even have trod the earth, perhaps because wisdom only reached them when it was of no use, as Garcia Márquez would say.

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We walked through the streets... We walked along the Seine and the time came for "Don Pasquale"... The time has come to let ourselves be carried away by the love of Ernesto and Norina...

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Honfleur, a fishing town

Looking for Marcel Proust in Cabourg

The peaceful and firm Caen

Bayeux, a Norman Jewel

Normandy: a tribute day

The Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, the city of pirates

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Em Montparnasse com Rodin, Sartre e Donizetti...

por Robinson Kanes, em 06.11.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens nunca é absurdo senão relativamente em relação às circunstância que o acompanham. As palavras de um doido, por exemplo, são absurdas em relação à situação em que ele se encontra, mas não em relação ao seu delírio.

Jean Paul Sartre, in "A Náusea"

 

 

Não é Paris - Marseille, mas poderia ser. Para trás fica a Normandia e a Bretanha e muitos dias de asfalto, terra e até mar. Depois do delta à beira da estrada, chegamos a Paris. Chegar a Paris é sempre aquela sensação glamourosa, seja de avião, comboio ou por estrada, mesmo que as horas na fila possam ser intermináveis, o que, desta vez, não foi o caso. Paris faz parte das nossas vidas, o fascínio dos nossos pais pela cidade, pela França e também pelas muitas viagens em trabalho ou lazer que já nos trouxeram aqui. Falar de Paris é repetir tudo aquilo que já foi dito.

 

Desta vez, ficamos mesmo no centro da cidade, uma pequena paragem de três dias antes de apontarmos a Lille e à Flandres francesa. O périplo promete, com mais paragens e por isso é preciso estar fresco. Mas ficar fresco... em Paris? Só se for o tempo e nestes dias com temperaturas acima dos 30º e em alguns casos alternadas com grandes chuvadas, não foi propriamente para se descansar. Os jantares no Marais e os convivios no 7.º arrondissement perto do Musée Rodin ocuparam as noites e os dias... Quem é que descansa? Talvez, e como de Paris estará tudo dito, possa ser este o mote para abordar um dos escultores predilectos de qualquer amante de arte e respectivamente o seu museu que não me canso de visitar.

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Passar em qualquer lado e vibrar quando se identifica uma obra deste escultor já é qualquer coisa, entrar numa propriedade onde os jardins e o interior do seu edifício está repleto de obras de Rodin, é entrar no céu. Um simpático jardim e um pequeno "palais" guardam alguns dos maiores tesouros da Humanidade e permitem que nos embriaguemos com Rodin. Como é possível? Como é que alguém...

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O museu não é grande, mas a visita dura uma eternidade, sendo que ainda não atingiu as 7 horas que ficámos no Prado e as 6 no Louvre. Está sol, aproveitamos para descer ao jardim e apanhar um pouco de ar... Pensar que museologia em Paris é o Louvre, é um dos maiores erros que se podem cometer quando temos na mesma cidade o Musée Rodin, o Musée Picasso, o belíssimo e riquissímo Musée d´Orsay, o arrebatador Musée Delacroix e tantos outros que poderia enumerar e que incluem muitas pequenas galerias que nos arrebatam com toda a sua grandeza artística.

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E no meio de toda esta pseudo-intelectualidade, aquilo que mais me apetece é abrir o Pont l'Évêque que ainda temos connosco e que no hotel tiveram a amabilidade de preservar (parolo, eu sei, mas em França solicitar a guarda de um queijo é o mesmo que em Nova Iorque solicitar a guarda de um diamante) e ainda juntar-lhe uma sidra bretã. Chamemos para se juntar a nós "O Pensador" - para descer do pedestal e juntar-se a nós enquanto entre um "mais non" e um "si, mais" pensamos o Mundo... Hoje muitas perguntas teriamos para aquele cavalheiro de bronze.

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Antes de sair, aproveitamos as vistas para o Hôtel des Invalides... Paris, como Roma, obrigaria um ser-humano a ter uma vista 360º para aproveitar tudo aquilo que a paisagem lhe oferece. É um espaço fascinante, nunca nos apaixonou como outros, mas sentimos o peso e a força que de lá emana e mais ainda se sente quando cruzamos a entrada. 

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É hora de almoço, queremos debater tudo aquilo que vimos, temos vontade de discutir aquilo que acabámos de presenciar, além de que a paixão por Rodin, na Alemã, é qualquer coisa... Caminhamos e Montparnasse apetece-nos. É por aí que ficamos, um restaurante marroquino, "Chez Berberett", com empregados gentis e gente simpática na esplanada surge-nos como uma boa opção... Não desilude, e em Montparnasse é fácil comer mal e pagar muito, apesar de alguns restaurantes que são uma referência.

 

O tempo passa, e Rodin fica para trás... O empregado, um marroquino extremamente gentil e que mais parece um norueguês, inicialmente questionando se eu era argelino, percebe que sou português e começamos a falar de História. Lembra-se de D. Sebastião e de D. João I. Tanta história para perceber que partilhamos tanta coisa, inclusive os genes... Rodin fica para trás, ultrapassado pela antropologia, pela história e pela biologia.

 

Com o estômago bem acomodado pelas iguarias do Norte de África, decidimos ir prestar homenagem a alguns ilustres que repousam ali bem perto, antes de nos encontrarmos com Donizetti e a sua obra "Don Pasquale"no "Palais Garnier" - o tempo não está contado, mas com Rodin e o empregado de mesa, e um jantar entre amigos depois do espectáculo, o dia não poderia ter ficado mais bem preenchido.

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Antes de sairmos, conversamos com o Sartre e Beauvoir... Falamos de Camus, falamos de uma época de pensamento que apesar de esquecida ainda hoje é tão actual, uma verdadeira lição de Humanidade e do que é ser Homem. Os cemitérios tranquilizam-nos, é como se nos sentissemos mais seguros... É como se os mortos nos protegessem dos vivos e onde também podemos cuspir na campa daqueles que nem a terra deveriam ter pisado., talvez porque a sabedoria só lhes tivesse chegado quando já para nada servia, como diría Garcia Márquez.

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Percorremos as ruas desta cidade... Caminhamos junto ao Sena e chega a hora de "Don Pasquale"... Chega a hora de nos deixarmos levar pela força do amor de Ernesto e Norina...

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Honfleur, uma cidade portuária

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

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Normandia: um dia de homenagem

O Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, a cidade pirata

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L'Amitié...

por Robinson Kanes, em 26.10.18

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

Não procuro fazer uma homenagem a Françoise Hardy e à eterna música "L'Amitié" mas sobretudo à amizade... Uma amizade celebrada nos bancos de jardim entre pingas de chuva extemporâneas e vendavais que não nos tiram a vontade de abandonar aquele com quem estamos, com quem trocamos uma experiência única e que, não raramente, nos vem à memória.

 

Como cantará Hardy "Ils ont fait la saison des amitiés sincères", e na verdade, quão sinceras serão as amizades de hoje, ou pelo menos, a maioria delas? Quanto não valerão algumas gotas de chuva, algum pó na cara arrastado pelo vento, enquanto ali, sentados, podemos ter todo o mundo a dois...

 

Qual o valor de uma conversa num banco de jardim, entre as compras do fim de tarde e o regresso do labor diário? Serão aqueles dois vestidos pretos a celebração de um momento tão humano ou o luto por um comportamento cada vez mais singular.... 

 

Talvez volte a colocar essa questão quando novamente cruzar o 4me arrondissement.... 

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Desde o Jardim de Luxemburgo, Uma Paris Quente...

por Robinson Kanes, em 14.09.18

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Créditos: Robinson Kanes 

 

 

Fim de tarde quente... Anormalmente, Paris estava quente, quente como um deserto com temperaturas a tocarem os 40 graus. Anormalmente, também Paris tinha, finalmente, uma luz... Não era uma luz forte, talvez uma luz diferente mas que colocava a cidade com uma iluminação homogénea mas alegre.

 

Sentada, num banco, a nossa "modelo" da fotografia contemplava o horizonte, algo smoggy mas encantador. Bela contemplação terá sido, pois foi tempo suficiente para aquele clara, de uma tonalidade bretã ficar tocada por uma cor mais escura. Ao longe a Torre Eiffel, imponente, não tão bela ao perto, mas de uma imponência que a tornou na imagem de marca da cidade e, injustamente, até de um país. Ao longe, o verde em contraste com o cinzento enriquecia a visão...

 

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Mas é ali, no "Jardin de Luxembourg", entre o "Quartier Latin" e "Saint-Germain-des-Prés que temos a vista mais romântica da torre em todo o seu esplendor. Entre as árvores que abundam nos 25 hectares de jardim e a vista também para o "Palácio de Luxemburgo" é possível nestes finais de tarde quentes, apreciar uma Paris diferente, uma Paris, aí sim, talvez mais romântica e apaixonante, sem estereótipos ou qualquer outra imagem de marca que nem sempre corresponde à realidade.

 

Com uma pequena coroa de tranças, a nossa bretã - não sei se o seria - apreciava essa Paris, sentia essa Paris. À sua volta a cidade parou, as crianças deixaram de correr, outros pararam as suas leituras, outros bloquearam no seu passeio e assim a cidade ficou à mercê dos seus olhos ou da sua paz... Olhando à volta, percebiamos que afinal a nossa bretã era apenas mais uma entre tantos outros que especialmente respiravam aquele ar quente  e se entregavam a tal contemplação.

 

Naquele final de tarde, Paris escaldava, mas estranhamente parecia mais calma, mais romântica e mais humilde em toda a sua sumptuosidade.

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Encontrei Philippe Noiret...

por Robinson Kanes, em 08.08.18

 

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 Fonte: Própria

 

Já muitas vezes falei de um dos meus actores preferidos - é ele Philippe Noiret. Abordei este grande actor aquando do meu artigo sobre "Il Postino" e também aquando do artigo sobre "Cinema Paradiso". Todavia, este actor mereceria tantos outros destaques, nomeadamente com um dos filmes que lhe deu mais prémios, falo de "La Vie en Rien d'Autre", datado de 1989 e obra do realizador Bertrand Tavernier. Já em 1984 havia, também com a presença de Noiret, realizado "Coup de Torchon".

 

Mas o que hoje me faz recordar Noiret é ter descoberto o mesmo em Montparnase, mais precisamento no cemitério onde está sepultado e onde, apesar das minhas pesquisas, nunca encontrei menção à sua presença. Se Sartre e Beavouir, ou até Beckett e Duras já estavam na minha lista, ter encontrado Noiret por mero acaso enquanto vagueava entre campas foi uma grande surpresa (até porque nem está nos destaques que o cemitério tem para personalidades reconhecidas), uma surpresa boa nesta visita ao cemitério de Paris que me faltava.

 

De facto, sabendo que ali está apenas terra, foi como se tivesse encontrado o velho Alfredo com aquele sorriso tão próximo, tão franco e tão puro. Sim, estava ali Alfredo, estava ali Philippe Noiret que me encheu ainda mais de alegria quando me pude aperceber da sua paixão por cães e por cavalos - desconhecia a primeira. Simples como as personagens de Noiret, devo dizer que foi um dos pontos altos em mais um regresso a Paris.

 

Enquanto procurava o grande mestre Becket, encontrei Noiret... A minha tristeza? Não me poder ter sentado entre os dois e ter falado um pouco de dramaturgia, literatura e cinema... Acredito que entre mortos, saíria mais vivo e mais rico que nunca.

 

 

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Amor em Tempos de Cólera...

por Robinson Kanes, em 03.08.18

Roubei o título ao grande Gabriel García Marquez... Todavia, com a cólera que grassa neste pequeno planeta que já começa a contratar um cobrador do fraque para saldar a dívida, ainda vai existindo tempo para se amar e apreciar o que é realmente importante .. L'amour...

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

E como o amor não se explica, deixo-me envolver por um poema que poderia estar escrito naquele livro e ilustrar aquela cena na "Place des Vosges".

 

Só de espelhos o crânio mobilado

Um corpo de mulher posto no centro

Outro jogo de espelhos lá por dentro

O meu crânio no centro colocado

 

E cada  corpo o crânio projectado

E em nenhum me detendo em todos entro

se de encontro aos espelhos me concentro

se do crânio me encontro descentrado

 

Os espelhos reflectem só o fogo

do sol que desses corpos anda ausente

porque só no meu crânio tem morada

 

E é sem dúvida Amor todo este jogo

É sem dúvida Amor Mas de repente

é sem dúvida Amor e não é nada

 

Mourão-Ferreira, David (1998). "É Sem Dúvida Amor", Antologia Poética, Lisboa, Editorial Presença.

 

Bom fim de semana...

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Na Flor da Rosa com "La Traviata"...

por Robinson Kanes, em 04.08.17

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Dizem que este espaço andou à boa vida por estes dias... É possível, desde que não seja atacado pela silly season ainda se vai tolerando...

 

Esta semana, e posto que ainda se vai relendo o Sr. Garcia Márquez e o seu "Amor em Tempos de Cólera" - Fermina Daza volta a pensar em Florentino Ariza, mas lá acaba por se aproximar mais uma vez de Juvenal Urbino - deixo apenas uma sugestão que combina música e representação: a ópera "La Traviata" de Verdi... Por aqui até costumamos dizer, "Não é que não houvesse, haver havia, mas eram verdis".

 

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E porquê "La Traviata"? Primeiro porque tivemos a experiência de assistir a esta ópera em exterior, mais propriamente no jardim da Pousada do Convento da Flor da Rosa (localidade no concelho do Crato), numa noite quente e onde a companhia "Ópera del Mediterráneo" deu um espectáculo daqueles, sobretudo a Soprano Gema Scabal (Violetta) e o Barítono Carlos Andrade (Giorgio Germont). Falta "Alfredo", mas Vicenç Esteve Madrid poderia ter estado melhor. O facto de se ter realizado no Convento da Flor da Rosa e de ser "La Traviata" não nos fez hesitar um minuto, sobretudo quando já tinhamos visto Rolando Villazón e Anna Netrebko nos papéis de Alfredo e Violetta. O cenário é fascinante, não se nota tanto pseudo-elitismo e o convento fica situado dentro da aldeia - enquanto a ópera se desenrolava sob a luz das estrelas conseguíamos ouvir pontualmente os cães a ladrar e os sinos a tocar - ao invés de prejudicarem a peça, só lhe deram mais força!

 

Mas a "La Traviata"... Adoro esta ópera, apesar de algum dramatismo exagerado, talvez pela inspiração que a mesma tem na obra de Alexandre Dumas Filho, "A Dama das Camélias" (o libretto é de Francesco Maria Piave). No entanto, é também apaixonante na medida em que estreou em 1853 numa das mais belas salas de ópera que conheço, a "La Fenice" (em Veneza) e depois porque tem árias como "Libiamo ne' lieti calici", "Sempre Libera" e "Addio del passato"... Verdadeiramente brilhantes e das quais partilho convosco alguns vídeos. 

 

A história? Tudo começa com um baile em casa de Violetta, uma cortesã mundana, e a quem é apresentado Alfredo, um nobre que se apaixona por esta, mesmo sabendo que existe um amante: o Barão Douphol. Perante a abordagem de Alfredo, Violetta admite sempre ser incapaz de amar pois mais uma vez é uma imoral mundana! A ária "Sempre Libera" vem daí e perante a insistência de Alfredo à qual Violetta acaba por ceder. Acabam ir viver juntos para a casa de campo da cortesã.

 

Será também na casa de campo que Alfredo descobre as dificuldades financeiras de Violetta e secretamente se oferece para as colmatar. Contudo, O Sr. Germont, pai de Alfredo e regressado da Provença, receando ver o seu filho enamorado por uma cortesã de má fama, pede a esta que se afaste do seu amado sob pena da irmã de Alfredo não ser desposada e do nome da família ficar manchado. Violetta acaba por ceder, contra todos os seus desejos, e abandona Alfredo. Já vi isto em qualquer lado...

 

O reencontro dá-se quando Violetta aceita o convite para uma festa em casa da amiga Flora e se faz acompanhar pelo Barão... Nessa festa está também Alfredo que entra em vários desafios com o Barão, quer no jogo (onde o vence) quer depois quando o desafia para um duelo! Este desafio surge porque, a sós com Violetta, Alfredo tenta reaver a sua amada mas esta, satisfazendo o pai de Alfredo, diz amar só e só o Barão! Alfredo humilha e trata Violetta como uma prostituta, chama todos os convidados e atira o dinheiro ganho no jogo para cima desta e sente o repúdio de todos, inclusive do pai que entra em cena já no fim do segundo acto.

 

Violetta abre mais um acto numa Paris que celebra o Carnaval, tísica e esquecida pelos amigos, excepto Grenvil, médico e amigo (mais um toque de Verdi à sociedade da época). É aqui que recebe uma carta do pai de Alfredo e onde este confessa ter falado ao filho do sacrifício de Violetta. Giorgio Germont diz também na carta que Alfredo se encontra a caminho para pedir o seu perdão. Violetta, contudo, teme que Alfredo não chegue a tempo e é aqui que canta "Addio del passato bei sogni ridenti"... Maravilhoso!!! A gravação da albanesa Ermonela Jaho (último vídeo) é um hino!

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Alfredo chega entretanto, acreditando que o amor vencerá a doença mas... Logo após a chegada deste, de Grenvil e de Giorgio Germont, Violetta cai sob os seus braços e morre, não sem antes ter conseguido forças e esperança para acreditar num amor tão poderoso capaz de desafiar o destino cruel.

 

Como muitos lhe chamaram, uma ópera imoral... Eu iria mais longe e diria que é uma ópera romântica e real que aos morais de capote provoca o asco de se reverem em alguns comportamentos. Uma ópera cujo amor vence tudo, mas só não vence a doença. Um amor que não pode escapar ao destino mortal mas tem de escapar ao, muitas vezes, desejo de morte e à moral.   Sobre isso, dizia Ferreira de Castro (in "A Experiência") que "uma moral, qualquer que seja, se, por um lado, se renova, por outro envelhece, e há normas de moralidade colectiva que, com o tempo, revelam toda a sua desumanidade e tornam-se, portanto, imorais".

 

Apesar da morte de Violetta, talvez seja a lição de que o amor por nada deve ser trocado e contra tudo e contra todos deve ser defendido, porque só a morte tem o direito natural de pôr fim a tudo.

 

Bom fim de semana...

 

As três árias para vos contagiar:

 

"Libiamo ne'lieti calici"

 

 

"Sempre Libera"

 

 

 

"Addio del passato"

 

 

 

 

 

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Há bons blogues de viagens? Há, ponto assente!

 

Mas também existem blogues de viagens por esse mundo fora que mais se parecem com um anúncio da Pescanova.  Vejo com cada posta de pescada chilena que me ponho logo a pensar numas batatas e num refogado - tomate incluido, fica um mimo! Passo a explicar o modo como leio a receita na embalagem dos ditos mimos de pescada.

 

Assim que se abre o blogue espera-se logo encontrar paisagens ou sitios culturais deslumbrantes, mas, na verdade, o que surge ou são casais ou indivíduos sozinhos em poses que me fazem pensar se não terei entrado num blogue de moda... ou até no website da Caras.

 

Revejo o título do blogue bem como a temática e confirmo que estamos a falar de viagens. Selecciono um destino, imaginemos... Paris! Toda a gente gosta de Paris, eu também, mas daí a enfatizarem aquela cidade escura como um local cheio de luz e romântico - já visitaram Lisboa?

 

Já em Paris, vejo que a maioria vai aos locais do costume. Quando estamos a pensar que lá vem aquela foto no Museu D'Orsay com aquela pintura de Degas que nos tinha escapado... não! Surge uma senhora (pode ser um senhor), a proprietária do blogue, a pousar como se fosse uma espécie de representação grega de Helena. E qual o local escolhido? A entrada! E em muitos, acabamos por chegar à conclusão que afinal nem é o Museu D'Orsay mas um outro museu não tão conhecido: o Louvre! Quem diria, uma pirâmide de vidro (quem nunca viu essa foto de um parolo a fazer que segura a pirâmide?)... o Louvre! Se não fosse esse blogue, eu algum dia saberia o que era o Louvre!

 

Vamos seguindo e visitamos a Torre Eiffel, com mais uma senhora em pose Vogue à frente. Percorremos o Marais... não, não percorremos, provavelmente nem sabe onde isso fica... Mais adiante, passeamos pelos Jardins de Luxembourg e percebemos que os mesmos estão ocultados por um corpo sorridente e com "bico de pato". Segue-se o Palais Garnier, e aí descobrimos que alguém faz jus à Garnier e pousa com os cabelos ao vento tapando a fachada da Ópera de Paris... e finalmente, chegamos ao Sacré Coeur e a Montmartre onde nos é dito que o romance, o glamour e a beleza abundam... se estiveram no mesmo Montmartre que eu viram, além de sex-shops, toxicodependentes e indivíduos dispostos a um roubo por esticão ou executarem manobras distratoras com o intuito de levarem a carteira da pessoa que vos acompanha, foi um local que de glamour tem pouco. Aproveitem e visitem o cemitério... o túmulo de Degas (lembram-se dele ali de cima?) está uma miséria. Também podem aproveitar e conseguir umas fotos execelentes! Mórbido? Realista...

 

À noite onde vamos jantar? A um restaurante fantástico, muito típico e que paga para estar em todos os roteiros. Não vejo a comida mas alguém a sorrir para o flash (não usem flash à noite só porque é noite). Afinal não é em todo o lado que nos sentamos à mesa para comer, digno de registo... é Paris!

 

Foi óptimo ter conhecido a "Dadá" ou o "Vagueando pelo Mundo" (perfis ficcionais) e ter percebido que Paris é uma cidade sui generis mas sem a presença daqueles ilustres visitantes não seria a mesma coisa.

 

Fonte da Fotografia:  http://bucketlistjourney.net/2014/01/bucket-list-cheesy-travel-pictures/

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