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Do turismo LGBTYZGHJKL...

por Robinson Kanes, em 15.01.20

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Imagem: https://www.projectq.us/atlanta/atlanta_stages_gay_pensacola2014_instagram_takeover?gid=15667

 

Existe uma coisa que me faz alguma confusão e que me custa a entender do ponto de vista pessoal embora reconheça que, se gera lucro, deve ser aproveitado num âmbito mais empresarial. Refiro-me àquela designação de turismo que tem muitas letras e todos os dias vai tendo uma nova, algo como turismo LGBTWSCEFBRTYHGBNUNMKIOLPQAX...

 

De facto, o arco-iris é um mercado apetecível do ponto de vista das vendas, no entanto, aqueles que tanto reinvindicam igualdade não estarão a cair no erro de criar mais desigualdade? A sede de igualdade é cada vez mais uma forma de criar uma espécie de elite e que por sua vez alimenta o ódio de outros.

 

Custa-me perceber porque é que vejo dinheiros públicos a promoverem, por exemplo, um turismo que promove a desigualdade. Ainda preciso que alguém me explique se um hotel para um indivíduo LGBGHJDXVNTEXHMJUDFHGNJTYTEYGTJTEJYRTJYTJT é diferente de um hotel para um homem ou para uma mulher que não se identifica com siglas.

 

Alguém me pode explicar se o facto de ser LGBTVFEWFGWGRWGWGTGTRG obriga a que existam acessos diferentes num museu ou se a comida tem de ser diferente. Eu assumo-me como hetero, e espero não ser perseguido por ser hetero, pois sou e assumo isso sem medo de represálias, mas será que devo começar a não frequentar determinados locais e destinos sob pena de ser perseguido ou até me sentir mal - perante a lei, e como cidadãos, não somos todos iguais? É que nem é só nesta matéria, mas em outras, começo a sentir que o facto de ser um indivíduo que paga impostos, trabalha, é hetero, consegue pagar as contas, não vive de subsídios, não embandeira em arco o facto de ter esta ou aquela doença e procura ter uma vida normal me começa a prejudicar....

 

É óbvio que existem temáticas e atracções diferentes dependendo dos gostos de cada um, mas uma coisa é promover isso comercialmente, outra é utilizar a arma dos direitos e do civismo para promover algo que além de ser, por vezes ridículo, é mais corrosivo do que propriamente agregador.

 

Agora podem chamar-me homofóbico, mas se achar que todos somos iguais é uma espécie de homofobia, pois bem, então que me chamem de tal e já agora não se esqueçam da designação de populista ou fascista, tão comum nos dias de hoje e que encaixa em todos aqueles que fazem perguntas ou dizem não!

 

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Do Irão com Paixão...

por Robinson Kanes, em 08.01.20

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Imagem: Robinson Kanes (Não percam nunca a vossa amizade...)

 

 

O direito do homem a não matar. A não aprender a matar. Este direito não está consagrado em nenhuma constituição.

Svetlana Alexievich, in "Rapazes de Zinco"

 

 

Hoje não venho falar de visitas ao Irão... O Irão é mais que isso, é mais do que um postal, é um país com uma cultura e uma História que países como os Estados Unidos, por exemplo, nunca terão. Não vou ser contra os Estados Unidos, até porque prefiro (pelo menos para já) viver num regime mais semelhante ao norte-americano.

 

No entanto, não posso deixar de elogiar uma terra que me recebeu muito bem, quer pelas minhas origens culturais e religiosas totalmente diferentes quer por respeitar a minha negação das segundas. Denoto que algumas das discussões religiosas mais leves e mais abertas que tive aconteceram no Irão. Senti até que, ao contrário do que se diz, o dilema não se dá entre religiões mas entre "derivações" da mesma.

 

Não posso deixar de recordar aqueles sorrisos de homens carimásticos e de belas mulheres que podemos encontrar em qualquer cidade ou vila iraniana! Caramba, deixemos a porcaria da política e de interesses obscuros (vejam as acções de algumas empresas de armamento a subir) e foquemo-nos nas pessoas, no povo! Esse é um povo que não deseja violência, sobretudo no caso iraniano, que até por vários acontecimentos históricos demonstra uma grande vontade em estar junto do Ocidente, inclusive dos Estados Unidos.

 

Todavia, o que um povo não pode suportar é sofrer ameaças e sanções só porque uma Democracia decidiu atacar directamente o país - a morte de Qasem Soleimani é um ataque ao país. O povo iraniano e também o iraquiano não podem tolerar que uma Democracia invada os seus territórios e mate os seus líderes com total apoio de vários outros países e ainda recuse abandonar esses mesmos territórios. As ameaças de Donald Trump ao Iraque (e não falo do Irão) são qualquer coisa que deveria envergonhar qualquer democrata, qualquer cidadão com direitos, seja ele americano ou não! Junte-se a isto o abandono dos aliados curdos e mais vale cavarmos um buraco e escondermo-nos bem lá no fundo. A postura da comunidade internacional ocidental também é lamentável e nem o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas consegue esconder o facciosismo.

 

Todo este aparato só servirá para uma coisa: endurecer a postura do regime iraniano que já mostrava alguma vontade de abertura, além de que existem países aliados do Ocidente com maior limitação aos direitos humanos, e ainda reforçar o apoio ao regime por parte dos iranianos. Ninguém é isento de culpas, mas este levantar de poeira pode acabar da pior forma, até porque uma nação soberana e com a dimensão do Irão não pode cruzar os braços sob pena de se repetirem mais actos hediondos.

 

Os Estados Unidos e Europa estão também a perder uma oportunidade soberana de tomar parte na(s) nova(s) Rota(s) da Seda e com isso embarcar num caminho de prosperidade económica, social e política, aliás, estão neste momento a ser um entrave a esse desenvolvimento e a permitirem que países como a China e a própria Rússia aproveitem e assumam os destinos da região.

 

Todavia, neste momento, só me posso recordar de toda aquela gente boa, especialmente um pequeno grupo que, nas margens do Zāyandé-Rūd, partilhou connosco da sua comida, da sua casa e da sua vida, desde o primeiro momento em que nos conheceu numa clara demonstração de afecto que não vemos por cá, inclusive em Portugal, onde os principais seguidores da política dos afectos são os mais distantes daqueles a quem querem vender tamanha falsa ideia.

 

O Irão, aliás, os iranianos são um povo com quem todos temos de aprender e com uma bagagem intelectual e cultural que me faz, perante os mesmos, curvar-me e fazer uma vénia em respeito por tão importantes indivíduos. 

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Ferro Rodrigues e a Oxidação da Política.

por Robinson Kanes, em 06.01.20

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Henri Regnault - Execução Sumária (Musée d'Orsay)

Imagem: Robinson Kanes

 

A moral, mesmo quando se renova, anda mais atrasada em relação à melhor inteligência de cada época, do que os comboios em relação aos seus horários, quando os nevões obstruem as linhas.

Ferreira de Castro, in "A Experiência".

 

Já diz a malta que "e se o Ferro Rodrigues incomoda muita gente, o Ventura incomoda muito mais". Ou talvez não... Se existe uma coisa que André Ventura tem incomodado são os criminosos e muitos políticos deste país que, por sinal, alguns também são criminosos - tendo em conta que são cada vez mais, talvez daqui a um ano a forma como escrevi dê lugar a uma figura de estilo.

 

Sabemos que Ferro Rodrigues é mais um daqueles portugueses da nossa praça que caminha impunemente e não teme nada nem ninguém. Não querendo tecer considerações se foi ou não culpado (eu quero acreditar que não) num daqueles casos no processo Casa-Pia que poderia ter ficado mais bem esclarecido, até em abono do próprio. A nuvem em torno deste ainda paira!

 

Ferro Rodrigues também é aquele que disse não querer saber do segredo de justiça e claro defensor de um governo socialista que tem uma grande parte dos seus membros, inclusive o então chefe do executivo a contas com a justiça. Ferro Rodrigues também é aquele que abomina a palavra vergonha, e talvez por isso não utilize a mesma quando percebe que as dívidas dos partidos prescreveram. Não é uma vergonha, é um facto. É pulhice, é intrujice, é uma embaçadela criminosa!

 

Dá também que pensar o facto de Ferro Rodrigues, como presidente da Assembleia da República, venha ser parcial e atacar um deputado que estava a pôr a descoberto algumas peripécias do seu partido. Em Portugal deixou de ser pemitido utilizar a palavra "vergonha" ao que parece, desde que se seja de Esquerda, obviamente...

 

Ferro Rodrigues é mais um dos escroques que vai pululando por aí, com uma rede de influências nefasta e que é carregado qual Leão X aos ombros de todos nós que não exigimos justiça, não exigimos carácter e muitos menos integridade a alguém que tem ocupado os cargos que Ferro Rodrigues tem tido a sorte (só pode ser sorte...) de ocupar.

 

André Ventura não é perfeito, está longe de ser perfeito, no entanto, o patinho feio dos pequenos partidos entretanto eleitos para a Assembleia da República, parece estar a fazer mais que uma Iniciativa Liberal que se quer profissional e vanguardista mas que é antiquada e está na posse de meia-dúzia que de diferente em relação aos demais da praça, tem pouco. É uma espécie de malta cuja pele já não exala mofo, usa camisa sem gravata e blazer caro, mas ainda tem muito do seu pensamento a cheirar a bafio e vestido de preto. Uma espécie de "cool people" com mentalidade "retro".

 

Falar do Livre e da sua deputada, é pura perda de tempo...

 

André Ventura agradece e demonstra que é capaz de colocar muita gente incomodada - inclusive o próprio Marcelo que já aconselha este e aquele a candidatar-se ou não à Presidência, qual Presidente do Conselho perante Humberto Delgado, velhos tiques que não se perdem). Depois da vergonhosa atitude de Ferro Rodrigues, os aplausos de algumas bancadas, demonstraram bem de como o sistema político está montado em Portugal, ou seja, um verdadeiro cancro, com metástases que fazem do nosso país a república das bananas, como, certo ministro, há algumas semanas, fez questão de dizer que não o é. Um ministro que  foi empurrado pelo mesmo aparelho e por padrinhos e que Ferro Rodrigues bem conhece.

 

É importante lembrar que o Presidente da Assembleia da República é "só" a segunda figura da nação... Talvez Ferro Rodrigues leve isso tão a peito e ache que lhe dá direito de ser déspota ou simplesmente um sem vergonha, porque isto de ser déspota também exige um nível que Ferro Rodrigues e outros não apresentam.

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Paisagens de Portugal: Bataria do Outão.

por Robinson Kanes, em 02.01.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Existe um local onde é possível tocar as águas do Atlântico como se fôssemos uma espécie de Gulliver. Não é preciso irmos para muito longe, basta ficarmos por Setúbal e subir à Bataria do Outão... A bataria naval abandonada que é um dos locais com maior potencial lúdico e hoteleiro do nosso país. Espero que possa ser um lugar aberto a todos, porque a Arrábida, Setúbal e o Atlântico bem merecem que todos possam contemplar um dos mais belos cenários do mundo.

 

Pasmo

 

Nessas noites de morna calmaria

em que o Mar se não mexe e o Arvoredo

não murmura, pedindo o Sol mais cedo,

que o resguarde da fria Ventania;

 

em que a Lua boceja, se embacia,

e as palavras estagnam, no ar quedo,

noites podres - até chego a ter medo

de me volver também Monotonia.

 

E então sinto vontade de atirar 

meu corpo bruto e nu contra o espanto

da Noite, a ver se o quebro e vibro, enfim;

 

cair no lago morto e acordar

os cisnes que adormecem de quebranto...

... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Mas só caio, afinal, dentro de mim.

 

Sebastião da Gama, in "Serra-Mãe"

 

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Somos todos uma bela cambada de mendazes...

por Robinson Kanes, em 31.12.19

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Imagem: Benoit Gauzere

 

Antes de me levantarem o dedo, é só para dizer que eu também me incluo como palerma nas palavras que irei escrever.

 

A verdade é que quem me estiver a ler neste momento, pelo menos a maioria, vai estar a fazê-lo através de um aparelho produzido por uma marca que compactua com trabalho infatil. Claro que esse trabalho não é na Europa nem nos Estados Unidos, os nossos filhos têm direitos humanos! No entanto, os filhos dos outros não, e o facto de darmos um euro ou um pacote de arroz enquanto tiramos uma selfie permite-nos ignorar os direitos humanos dos filhos dos outros.

 

Ficamos muito chocados com o filho que ajuda o pai que é carpinteiro mas gastamos milhares de euros com gadgets e carros com pinta (ainda me hão-de dizer onde é que um Tesla é bonito, mas admito que gostos não se discutem) mesmo sabendo que parte da laboração teve mão-de-obra infantil. Sim, porque nós sabemos, e estas coisas são notícia de roda-pé - quando são. São aquele género de notícias que gente evoluída, solidária e atenta aos problemas do mundo (pena que seja do seu pequeno mundo) não lê e muito menos pensa para 2020.

 

Ignoramos aquilo que está à frente dos nossos olhos a troco de um falso conforto e ainda falamos de questões ambientais e escolha consciente! O mundo não pode contar com tartufos que defendem o ambiente e uma pseudo-capacidade evolutiva e depois assobiam para o lado quando descobrimos que alguns dos gigantes tecnológicos e não só usam crianças para produzir artigos ao preço da chuva que são adquiridos por nós a preço de ouro! Boicotamos as "padarias portuguesas" deste mundo mas não boicotamos as "apples" porque dá status, mesmo que uma outra empresa de telemóveis nos tenha enviado alguns para utilizarmos e que em alguns casos até são melhores! Casos destes não são raros nas nossas empresas, por exemplo, onde gestores preferem o status à eficiência. Estou a escrever num "mac", podem atirar as vossas pedras.

 

E porque é Natal (sim, escrevi isto no Natal), enquanto estiverem a trocar mensagens do vosso automóvel que "anda sozinho" ou a partir de um telemóvel de "ponta" à mesa da ceia, não vos fica mal pensar nisto... Ou talvez fique, pelo menos não esperem muitos "likes" quando partilharem este presente. Terão mais quando partilharem aquele que vocês pensam que é único mas milhões têm igual. É uma questão de pensarem na prioridade. E pronto assim incluo uma linha para este artigo ter qualquer coisa relacionada com o final do ano.

 

Em jeito de conclusão, não se pede que se acabem com estes gigantes, pede-se acima de tudo mais Responsabilidade Social que não pode vir só das grandes corporações. Essa Responsabilidade Social está em cada um de nós e pode começar na forma como fazemos as nossas escolhas e como também elas influenciam muitas práticas e os próprios mercados. Nada como pensar nisto para 2020!

 

Feliz 2020, que já ninguém se lembra do Natal que foi há pouco mais de cinco dias...

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Paisagens Portugal: Sudoeste Alentejano

por Robinson Kanes, em 30.12.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Changer la vie, ou, mais non le monde, dont je faisais ma divinité.

Albert Camus, in "L' envers et l' endroit"

Bem tento fugir a esta paisagem... Bem tento fugir do Alentejo, seja aquele mais seco, seja aquele onde as águas do atlântico nos chegam ao rosto com um toque especial que só naquela região este oceano o consegue fazer... Não consigo fugir, simplesmente não consigo.

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Paisagens de Portugal: Pulo do Lobo

por Robinson Kanes, em 22.12.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Ainda pelo Alentejo, agora mais a sul no concelho de Mértola, local onde encontramos uma das mais belas quedas de água do país. É em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana que encontramos o Pulo do Lobo!

 

É um local particular onde a água a escopo e martelo vai construíndo um cenário único! Acredito até que o Homem não seria capaz de tal proeza, por muito que utilizasse as mais modernas tecnologias.

 

Chegar aqui pelo lado de Mértola, é de uma beleza inigualável e entre um lanche junto das águas do Guadiana, não podemos ficar indiferentes ao acesso que, em algumas alturas do ano, nos recorda uma paisagem toscana.

 

Apoteose

 

Mastros quebrando, singro num mar d' Ouro

Dormindo fogo, incerto, longemente...

Tudo se me igualou num sonho rente,

E em metade de mim hoje só moro...

 

São tristezas de bronze as que inda chora -

Pilastras mortas, mármores ao Poente...

Lajearam-se as Ânsias brancamente

Por claustros falsos onde nunca oro...

 

Desci de mim. Dobrei o manto d' Astro

Quebrei a taça de cristal e espanto,

Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

 

Findei... Horas-platina... Olor brocado...

Luar-ânsia... Luz perdão... Orquídeas-pranto...

 

............................................................................................................

 

- Ó pântanos de mim - jardim estagnado...

Mário de Sá-Carneiro, in "Indícios de Oiro"

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Paisagens de Portugal: Alqueva

De Monsaraz...

por Robinson Kanes, em 21.12.19

alqueva_monsaraz.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

O homem em comunhão com a natureza, e apesar de todos os impactes, foi responsável por uma das mais belas paisagens do mundo: o Alqueva. O Alqueva visto de Monsaraz é simplesmente apaixonante, seja através das esplanadas de alguns dos seus restaurantes, seja através dos inigualáveis crepúsculos ou das belas auroras. Monsaraz, em Espanha, é considerado um dos mais belos pueblos de Portugal... E não é difícil perceber porquê...

 

Com uma perdiz no prato, o cante alentejano nos ouvidos e tamanha vista diante dos meus olhos, devo dizer que é uma das mais belas experiências que um mortal pode ter...

 

Passeio ao Campo

 

Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo!

Colhe a hora que passa, hora divina,

Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo"

Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

 

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...

Pele doirada de alabastro antigo...

Frágeis mãos de madona florentina...

- Vamos correr e rir por entre o trigo! -

 

Há rendas de gramíneas pelos montes...

Papoilas rubras nos trigais maduros...

Água azulada a cintilar nas fontes...

 

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras

Dos caminhos selvagens e escuros,

Num astro só, as nossas duas sombras!

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

 

 

Ai Monsaraz... Ai Alqueva...

 

 

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prague_czech_republic.jpgImagens: Robinson Kanes

 

 

É Natal e com o mau tempo os portugueses lidam mal... É natural num país onde uma grande parte das infraestruturas são castelos de papel.

 

E não seja por isso, já que o fim-de-semana com cheiro a Natal vem aí! Sim, afinal algum dia tinha de ser e na época apropriada. Quando o Natal já não é tema é que eu venho falar do mesmo, apesar do esgotamento a que foi sujeito, desde Outubro, por estas bandas e não só. Acho estranho ainda ninguém ter falado do Carnaval ou até da Páscoa, já vai sendo hora.

eugenio_de_andrade_coracao_do_dia_mar_de_setembro-

Uma boa leitura para o Natal... Para aqueles que dizem que a poesia não tem grande interesse para mim, hoje até lhes faço a vontade e atiro-lhes com o "Coração do Dia Mar de Setembro" de Eugénio Andrade. O senhor já morreu há algum tempo, por isso nem estou a aproveitar uma onda de falar que se gosta ou se aprecia um escritor recém-falecido. Tomem e embrulhem com um momento pedante...

 

Variações em Tom Menor

 

Para jardim te queria

Te queria para gume

ou o frio das espadas.

Te queria para lume

Para orvalho te queria

sobre as horas transtornadas.

 

Para a boca te queria.

Te queria para entrar

e partir pela cintura.

Para barco te queria.

Te queria para ser

Canção breve, chama pura.

 

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia - Mar de Setembro"

 

Vou já ao teatro, e aproveito para comprar uns bilhetes para "Ricardo III", encenado por Thomas Ostermeier e texto do grande Shakespeare e em alemão (com tradução). Ideal para a passagem de ano, pois há espectáculo dia 31 também! Podem saber mais sobre esta peça no Teatro Nacional D. Maria II.

 

Para escutar... Música de Natal, admito que já irrita. Por isso, o melhor do Natal pode ser passado com Johann Sebastian Bach e uma bela de uma Kantate. Tomem lá a Cantata BW 142 - Uns ist ein Kind geboren que dizem ser de Bach. Digo-vos que é do bufo, ou não as tivesse todas por cá...

E como existe algo ainda pior que música de Natal, nada como um filme para esta época e bem católico, Forušande, do realizador Asghar Farhadi. Filme iraniano, não podia ser mais adequado ao Natal. A vida e o teatro e o teatro da vida... Enfim, é isto e o filme é muito porreiro! Libertem-se das amarras do menino nas palhas estendido (ou será deitado?) e mergulhem na realidade. Os iraninanos são dos melhores neste mundo a fazer filmes e este é um exemplo supremo!

E finalmente porque é Natal, aproveitem para dizer àquela pessoa que gostam realmente dela, isto se tiverem tempo enquanto dão umas moedinhas ao pobrezinho no momento em que tiram uma selfie... ou no espectáculo de abertura das prendas que em algumas casas chega a ser repugnante, sobretudo quando são tantas que, no caso dos miúdos, nem se apercebem do que estão a abrir e parecem autênticas bestas perdidas no meio de tanta oferta...

 

Feliz Natal...

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Yazd: Uma Pérola no Deserto.

por Robinson Kanes, em 18.12.19

yazd-2.jpgImagens: Robinson Kanes

 

Depois de um duche que soube pela vida e uma noite de descanso com uma vista sobre a cidade, é altura de caminhar até Yazd ou Yezd! Yazd é uma cidade de comércio, é também a capital da província que tem o mesmo nome. Esta cidade, que se vai adptando consoante  a disposição do deserto e do seu clima imprevisível, é tambémPatrimónio Mundial da UNESCO.

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Além de Yazd ser a cidade com maior número de bicicletas per capita do Irão, é também um território onde o zoroastrismo tem uma forte presença! Aliás, é aqui que está a conhecida "Torre do Silêncio", local de culto (culto esse que é proibido actualmente) e de grande importância para todos os zoroastras. É também aqui que encontramos muitos verdadeiros persas e percebemos o quão afáveis e humildes são. Entre um sumo de romã "amarela", bem mais doce que a "encarnada", é possível conversar com mil e uma pessoas que nos abordam ou que podemos abordar. É simples e fácil, para europeus habituados a estar rodeados de gente com caras de atum e pouco afáveis.

tower_of_silence.jpg

Gente boa que vagueia pelas ruas e nos transmite uma segurança e um sentido de pertença que não sentimos em todo o lado, tudo isto enquanto admiramos os tecidos e as carpetes de alta qualidade e a preços bem mais baixos que em outras localizações do mundo.

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Uma das outras curiosidade de Yazd, é o imenso número de qanats. Os qanats são canais subterrâneos de água criados pelo homem, (aliás, encontram-se em Yazd os melhores construtores de qanats) e que surgem da necessidade de armazenar e "proteger" a água das altas temperaturas. Falando de frio, é também em Yazd que encontramos uma grande concentração de Yakhchāls, uma espécie de frigoríficos que, e de uma forma muito rápida, funcionam por evaporação, posto que é colocado gelo na base e que permite que os produtos se mantenham frescos e conservados - o da imagem fica no caminho entre Yazd e Isfahan. Estamos a falar de construções que remontam a 4 séculos antes de Cristo! Canais de água, frigoríficos gigantes... Não me venham dizer que a Pérsia é um "país" qualquer!

Yakhchāls.jpg

Mas os dias no Irão começam cedo e por isso, a primeira visita da manhã começa pelo Yazd Atash Behram - um templo zoroastra onde podemos conhecer muita da cultura e hábitos dos zoroastras. É um edifício de 1934 dedicado ao Atash Bahram (Fogo Vitorioso) que arde desde 470ac. Dos nove existentes, é o único no Irão, sendo que os restantes se encontram na Índia. Este fogo permanece sem ser apagado desde essa época, é um fogo sagrado e que sobreviveu à revolução. É também aqui que podemos escutar as orações zoroastras que são de uma beleza que nos entra nos ouvidos e nos acompanha ao longo de dias, de meses e de anos. É simplesmente a paz no nosso espírito! Não é fácil conseguir as gravações, mas...

Yazd_Atash_Behram .jpg

O calor aperta, por isso, não podemos deixar para trás a "Torre do Silêncio" ou "Dakhma" cuja função principal, além de lugar de culto, é servir para que os corpos dos mortos sejam deixados ao sol e sejam posteriormente devorados pelos abutres. Para os zoroastras um corpo morto é uma ameaça ao fogo e à água e daí a necessidade de ser exposto ao sol e devorado por abutres. A história é bem mais complexa, mas a ideia base é esta.

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Também na Índia encontramos alguns e aí o culto ainda se pratica, no Irão é proibido. Este espaço é mágico... É também um daqueles locais onde conseguimos absorver toda uma cultura somente por pisar o chão e sentir um sem número de emoções, mesmo que não nos expliquem nada. Subir às torres, contemplar o edificado daquele espaço onde se incluem as casas dos sacerdotes, contemplar Yazd e as montanhas, e deixarmos que a nossa memória caminhe para trás, é uma experiência que todos devemos experimentar lá do alto, mesmo que o calor nos empurre para baixo ou nos tente convencer a não subir.

tower_of_silence.jpg

Voltamos ao centro da cidade, e conhecemos a famosa pastelaria. Admito que não é a que mais me fascina, salvo uma ou outra especialidade, no entanto, admito que a maioria das pessoas se apaixona pelas diferentes iguarias. É hora de deixar os doces e seguir em direcção à Mesquita de Jameh: a grande mesquita de Yazd! Esta tem a sua origem no século XII e foi construída durante a dinastia Âl-e Buye. Os minaretes e a cerâmica são alguns dos seus detalhes que nos fascinam.

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A rua que leva à mesma é repleta de interessantes lojas e nas suas traseiras encontra-se uma sinagoga. Sim, o culto judaico pratica-se também no Irão. A mesquita permite-nos uma paragem para respirar e para nos prepararmos para tentar encontrar a sinagoga que nos obriga a percorrer os bairros antigos de casas de adobe, algumas com enormes mas belas e luminosas caves. A utilização do adobe é óbvia: enfrentar as altas temperaturas que assolam a região.

mesquita_de_jameh_yazd-2.jpg

Passear nestes bairros é uma das melhores experiências de Yazd. Em cada canto encontramos uma surpresa. Encontramos alguém que nos fala, alguém que nos oferece fruta ou simplesmente alguém que nos olha com um sorriso verdadeiro. Encontramos crianças que estão a sair da escola, pequenas mesquistas que naquele dia estão reservadas às mulheres. Tentamos penetrar numa delas, e após autorização, consigo entrar por um minuto. A minha chegada provoca mil e um cumprimentos por parte das mulheres que aí se encontram. É aí também que viveremos mais uma experiência única e mais um verdadeiro "soco no estômago". Talvez tema para outro artigo, ou talvez não... 

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Saímos da mesquita e voltamos para terminar o "soco no estômago"... Por momentos nada nos interessa a não ser quem deixámos para trás e as gentes que deambulam por aquelas ruas. É difícil voltar a colocar o foco na arquitectura e só as "Torres de Vento" chamam a nossa atenção. Estamos perante autênticos sistema de ar condicionado com séculos de existência! São de uma eficiência que muitos dos mais modernos não conseguem atingir. Sugiro uma busca na internet para perceberem como os persas não são um povo qualquer e por isso também devem ser dos mais respeitados!

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Caminhamos entre o adobe, os sorrisos das crianças e o carinho dos transeuntes. Pedimos para tirar fotografias, pedido esse que é sempre aceite. Queremos tirar outras tantas fotografias mas não temos coragem ou então, noutras situações, o egoísmo toma conta de nós - o querer viver o momento é de tal forma forte que a máquina ou o telemóvel regressam à mochila. Além disso, as experiências únicas não se fotografam...

yazd.png

Somos convidados a visitar muitas das casas, somos confundidos com iranianos, especialmente eu - a alemã não engana a não ser em França - e já nem pensamos que existem refeições necessárias para nos ajudarem a sobreviver à intensidade do dia. Esse dia é terminado junto das cores de Amir Chakhmaq. Uma das grandes atracções da cidade e zona de comércio, doçaria e de encontro para os habitantes de Yazd.

Amir Chakhmaq_yazd.jpg

Com a tarde a querer despedir-se do sol, pensamos nos dias seguintes, em Kharanaq, por exemplo, e em como o Irão tem uma capacidade de nos surpreender dia após dia. A arquitectura, a história, a geografia e o clima sem esquecer uma aura especial que parece ter-se plantado nesta região fazem-nos, mais uma vez, ter vontade de voltar - sim, muito possivelmente!

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No entanto, mais uma vez também, o que levamos de Yazd é que, por incrível que pareça, o Irão consegue ser extremamente romântico e o local ideal para se viver uma grande paixão! Yazd ficará também para sempre no nosso coração bem como aquela mãe e os seus filhos... Todas aquelas mulheres e os seus filhos.

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Viremos a despedirmo-nos da cidade com o fascínio que já não é novo por estas terras e com o sentimento de Schindler, aquele sentimento de que podíamos ter feito mais... Mas isso já é tema para outra conversa.

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