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Atrás de Marcel Proust em Cabourg...

por Robinson Kanes, em 23.09.20

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Imagens: Robinson Kanes & GC

 

A única verdadeira viagem de descoberta, a única fonte da eterna juventude, será não visitar terras que nos são estranhas, mas sim possuir outros olhos, contemplar o universo através dos olhos do outro, de centenas de outros, ver as centenas de universos que cada um contempla, ver o que cada um deles é.  

Marcel Proust, in "Em Busca do Tempo Perdido - Volume V: A Prisioneira"

 

 

Já tive oportunidade de falar de Erik Satie, ou até de Eugène Bodin aquando do meu artigo sobre Honfleur. No entanto, agora é a vez de um mestre das letras merecer um destaque, é ele Marcel Proust!

 

Falo de Marcel Proust para poder também falar de Cabourg. Esta é umalocalidade, sobretudo conhecida por ter sido o local preferido de férias do escritor! Estar em Trouville-sur-Mer, ou mesmo em Dieppe e não passar por Cabourg acabará por ser quase um crime, nomeadamente cometido por parte daqueles que têm em Proust uma referência.

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Cabourg, ainda no Departamento de Calvados, é um daqueles locais de França em que as flores e as plantas transformam uma cidade... E uma espécie de cataplana típica também, devo confessar. Para mim, é também um local onde, como amante do estudo da 2ª Guerra Mundial, olhando o mar, já começo a ter uma sensação menos boa. Devo admitir que, na primeira vez que visitei Cabourg - e já explico porque é importante lá voltar - não consegui colocar um pé na água. Já imaginava muito daquilo que iria sentir mais para a frente... ao chegar a Caen.

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Mas Cabourg é mais que um majestoso Casino do século XIX. Cabourg é poder passear na "Promenade Marcel Proust" e sentir a aura de tempos que não vivi. É sentir um certo glamour dos anos 60, 70, 80 ou até mesmo de finais do século XIX e imaginar o charme e requinte de tal estância balnear. Não será dificil conceber Cabourg, e daí ser importante regressar, como uma daquelas escapadas românticas únicas ou não fosse conhecido pelo Festival de Cinema, também ele dedicado a filmes românticos! Acrescentem a isto, que uma parte do programa inclui cinema na praia!

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Mas Cabourg não se fica por aqui no que concerne a romantismo! O São Valentim é também celebrado de uma forma muito especial, com direito a banhos nocturnos e muito fogo de artifício - esta temática é tão levada a sério que se abrem ciclos de debates e um sem número de iniciativas culturais e até cientificas ligadas ao amor... Quiçá, e nem sou adepto da data, o próximo dia 14 de Fevereiro não venha a ser passado em Cabourg!

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Ainda falando de amor, Cabourg, mais precisamente da "Promenade Marcel Proust", é também o local onde encontramos o "Le Méridien de L'Amour", uma celebração do amor a uma escala universal e onde vários "quiosques" nos abrem os horizontes nesta matéria e em 104 línguas" - algo que não fica indiferente a ninguém! É fácil deambular por entre os  telegramas em diferentes línguas e sentir o amor num passeio junto à praia, numa localização privilegiada e romântica. Talvez seja isso que está a sentir aquele casal na segunda fotografia.

 

Honfleur, uma cidade portuária...

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Honfleur, uma cidade portuária.

por Robinson Kanes, em 22.09.20

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Imagens: Robinson Kanes & GC

 

A minha paixão por cidades portuárias é mais que evidente... Durante toda a minha infância e adolescência (e ... idade adulta) o mar foi uma presença. Tendo uma parte da família ligada ao mar é natural que os genes cá estejam a desempenhar o seu papel.

 

Honfleur, embora não sendo um colosso, é aquela cidade onde o Sena encontra o Canal da Mancha e, segundo alguns (ou seja, eu), onde esse rio perde todo aquele romantismo, que alguns (ou seja, eu), não lhe reconhecem. Gosto, apesar de tudo, de Honfleur... Uma cidade pacata do Departamento de Calvados, em plena Normandia. Cidade tranquila, com uma pequena baía onde encontramos algumas embarcações de lazer que contrastam com aquelas que laboram e procuram as riquezas marinhas do Canal da Mancha. Ainda continuo a preferir que fosse ao contrário, mas o turismo, as cidades e o próprio funcionalismo a essa mudança obrigam.

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Gosto, sobretudo, do interior da cidade... Estar em Honfleur e não usufruir dos bares e restaurantes junto aos veleiros não é ir a Honfleur - essa área tem o nome de "Vieux Bassin". Todavia, e conhecendo relativamente bem (para um visitante) a Normandia, nunca tinha estado em Honfleur. Gosto dos cafés dentro da cidade, sobretudo, das ruas calmas, de uma forma diferente de estar numa cidade portuária que acabar por ser invadida por turistas ou não fosse uma das primeiras atracções turísticas para quem atravessa o Canal da Mancha vindo de Inglaterra ou até entrado pelo norte de França.

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Cidade comercial ao logo da História e uma das mais disputadas durante a Guerra dos Cem Anos (mais uma vez a proximidade com a vizinha Inglaterra), agrada-me também por ser a cidade onde nasceu Erik Satie - quem sabe, algumas das suas "Gymnopédies", não terão tido alguma inspiração por estas bandas... Não creio, todavia fica essa nota que reforça uma necessidade de visitar esta cidade. Com uma história ligada ao Impressionismo, é também uma cidade onde as artes plásticas têm o seu lugar, destaco apenas o "Museu Eugène Boudin" que alberga pinturas do artista e inclusive de Monet.

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Uma das grandes atracções, contudo, é a "Igreja de Santa Catarina"! Totalmente de madeira, muito por culpa da tradição naval, é deveras um encanto para quem gosta de arquitectura! Uma igreja de madeira, com o cheiro intenso da madeira velha e toda aquela austeridade particular, é uma supresa daquelas que marca!

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Cansados do cheiro da madeira e de tão grande riqueza, nada como parar na boutique de café junto ao restaurante "Entre Terre & Mer". Sendo os mesmos proprietários, tenho a agradecer a simpatia das duas colaboradoras que, servindo apenas dois cafés, nos trataram como se tivessemos jantar lavagante ou outras iguarias daquele mar ali tão perto - sem publicidade porque paguei os respectivos dois euros por cada um.

 

Finalmente, e falar deste aspecto num país com tão belas pontes como Portugal não é propriamente fascinante, todavia, nada como aproveitar as vistas (caras) da "Ponte de Normandie" para o Estuário do Sena ou até do mesmo rio ainda confinado num espaço mais curto pela "Ponte de Tancarville" - vindos de Le Havre, não há como fugir.

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A recuperar uma aventura que deixei a meio...

 

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

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Filhos em Lata...

por Robinson Kanes, em 22.09.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje, no SardinhaSemLata e na habitual participação à terça-feira, falaremos de filhos e pressão social. 

Acompanhem o nosso texto aqui.

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"Kiss & Ride"

por Robinson Kanes, em 21.09.20

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Créditos: https://www.mirror.co.uk/news/weird-news/kiss--ride-signs-installed-5017292

 

"Kiss & Ride" é uma nomenclatura que já não é nova, mesmo em Portugal. De uma forma simplista, não é mais que a existência de uma faixa na via pública onde se pode parar e deixar entrar ou sair alguém - normalmente alunos em escolas.

 

Todavia, e especialmente em Lisboa, onde a febre da mobilidade continua a expandir-se mais que um vírus e sem olhar a planeamento, estas faixas têm sido criadas junto de algumas escolas. É interessante que a primeira faixa tenha sido criada no Colégio Sagrado Coração de Maria e não numa escola pública, sendo que a 50 metros existe uma. Esperemos que Lisboa não se transforme na cidade de "Kiss & Rides" só para topos de gama ou de jovens alérgicos a transportes públicos. Vai um pouco contra o turismo de "pé de chinelo", convenhamos...

 

Também podemos sempre enquadrar este tipo de medidas na nova moda de fragmentar cidades, e dentro de um bairro com 100 habitantes criar 120 nichos. Não obstante, podemos olhar para estas iniciativas como uma forma de facilitar a circulação do trânsito e até fomentar a segurança rodoviária junto das escolas.

 

Pessoalmente, e sendo praticável em várias escolas, pode ser uma boa alternativa, desde que respeitada pelos automobilistas - o que já levanta outras questões quando falamos de encartados com sangue luso.

 

Importará também perceber até que ponto estas áreas são deveras fundamentais e se são reservadas a estas actividades numa lógica de 24/7 ou só em períodos de pico (entrada e saída de alunos das escolas).

 

No entanto, e também seguindo a moda dos últimos anos, a edilidade de Lisboa importou o conceito na sua linguagem original: "Kiss & Ride". E parece ser aqui que, reina a discórdia. Se por um lado, a faixa "Bus" também não é uma coisa muito portuguesa, como também o "STOP", será que não se poderá optar por algo mais português? Recuperando a música de João Galhardo e Raul Ferrão, não é motivo para dizer "Lisboa não Sejas Francesa"? Sabemos que a Lisboa dos últimos anos tem procurado ser uma cidade para estrangeiro ver e viver, excluindo-se a manutenção de alguma "vida alfacinha" em alguns bairros bafientos especialmente nas Avenidas Novas e com um público difícil parado ainda anos 60 e 70 mas... Já assisti a indivíduos que achavam bem ser em inglês porque o futuro (presente?) habitacional de Lisboa são os estrangeiros.

 

Se assim é, será que também não devemos defender mais a nossa língua? Portugal é um país membro, aliás, a génese da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) pelo que, não podemos fazer um pouco mais pelo português ? Se até naquilo que sustenta uma organização desta importância nada conseguimos fazer, de que valerá ter/pertencer a esta espécie de Commonwealth? 

 

A tarefa não é fácil, quando provavelmente quem decide deve ter um daqueles títulos de "Mobility Specialist and Very Intelligent Unique and Gorgeous God of Lisbon", coisa pouca  o país onde o sujeito que atende telefonemas e aufere €530 mensais é o "Customer Engagement Lead Specialist" ou quando uma padaria é coisa de labregos e "Baker Lab" uma coisa de gente mais do que letrada na arte de bem fazer pão, perdão, bread.

 

Fica o tema a discussão e até aproveito para sugerir a criação de faixas de "Kiss & Ride" noutras zonas da cidade onde se apanham e largam passageiros com um beijinho, nomeadamente no Monsanto, no Instituto Superior Técnico (sobretudo depois da hora de expediente) e no Alto do Parque Eduardo VII. Digamos que aí o nome pode nem estar mal escolhido. Já temos a "Pink Street" mas nessa rua os "topos de gama" de vidros fumados não deambulam tanto.

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Um Mero! Um Mero!

por Robinson Kanes, em 18.09.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Porquê este título? Podemos dizer que é uma espécie de private joke relativa a um comensal que em tempos afirmava ter capturado um exemplar deste peixe... O resto, só assistindo, porque contado. Embora não tenho dúvidas que em termos de apetite seja cavalheiro para devorar uma baleia!

 

Entrando também em modo "Sabino Rui", sim, já começo a ter saudades do trânsito em tempos de confinamento, mas não foi isso que me trouxe aqui.

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O que me traz aqui hoje é algo de fulcral importância para a nação: um mero grelhado, uma esmagada de batata doce e uns restos de feijão verde. Chegar a casa e não saber o que fazer, dá nisto. Aproveitam-se sempre uns restos, é um facto e acaba por ser a oportunidade para abrir uma botella. Consta por aí que alguém também andou a fazer das suas, pelo que, fica lançado o mote para vir partilhar ou fazer o mesmo lá nas terras dele.

 

Assim foi esta semana e fica aqui uma sugestão de fazer água na boca e que é bastante simples: um mero (e que seja bem fresquinho), uma esmagada de batata doce, se possível regada com um bom balsâmico, o da imagem já tem uns tempos e veio directamente de Modena, bem perto de Bolonha. Por falar em Bolonha e em iguarias, juntem-lhe umas "Ervas de Provence" (ao peixe) e fica uma maravilha, estas vieram de Avignon, mas penso que até se conseguem arranjar por aí.

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A acompanhar, depois de acabado um resto de tinto alentejano, algo que me tem surpreendido bastante, o "Albariño" das Rias Baixas, zona de Cambados e com perfume do Atlântico. Não confundir com o outro, mais perto da nossa zona de Monção e Melgaço. É de um aroma e de um sabor de tal forma frutados que é impossível dizer não. Neste caso em particular, não abrimos os dois, mas estamos a falar de vinhos que oscilam entre os três e os seis euros. Aquilo a que se chama uma bela pomada, adquirida em Vilagarcía de Arousa e com excelente relação qualidade-preço. O "Cruz de Montirago" é um verdadeiro exemplo de um excelente vinho a preço low-cost.

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Finalmente, e porque o fim-de-semana está aí, uma leitura atenta (até porque é francamente rápida) ao livre do Bernard-Henri Lévy, o conhecido filósofo francês que foi um dos primeiros a questionar o "pânico" em torno do vírus. Uma leitura interessante de alguém que não entra em delírio e nem sempre come aquilo que lhe colocam à frente.

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Em jeito de conclusão, façam uma visita aos Açores, especialmente ao Corvo, hoje dei comigo a recordar aquela malta... Podem começar por aqui e também por aqui

 

 

P.S.: Perdoem a apresentação, mas como referi, é uma daquelas refeições preparadas à pressa, e honestamente, não tenho muita preocupação em colocar tudo no sítio para a fotografia... 

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As polícias que se lixem! Viva a ETA!

por Robinson Kanes, em 17.09.20

 

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Créditos: Chema Barroso - https://www.madridiario.es/policias-y-guardias-civiles-protestan-en-el-congreso-por-el-pesame-de-sanchez-a-un-etarra

 

 

O pior das humilhações  é que fazem quem as sofre sentir-se  culpado.

Javier Cercas, in "As Leis da Fronteira".

 

Espanha vive tempos conturbados, à semelhança de Portugal, onde a extrema-esquerda com a conivência do centro-esquerda impõe a agenda atropelando muitos dos valores mais básicos. Parece subsistir, numa base diária, um claro exemplo para demonstrar o cataclismo político e social para onde algumas áreas caminham. Acresce a este facto, uma direita fraca e uma extrema-direita em franca ascenção - não incluo o VOX neste rótulo de extrema-direita, ao contrário do que muitos tentaram fazer sem sucesso.

 

A mais recente, e permitam-me a expressão, escandaleira, foi protagonizada pelo Primeiro Ministro Pedro Sánchez que veio a público e com toda a solenidade prestar as suas condolências e grande pesar pelo suícido de um Euskadi Ta Askatasuna (ETA) na prisão onde se encontrava a cumprir pena. Num país que, nos tempos actuais, precisa de estar mais unido que nunca, ver um chefe de Governo a assumir esta posição face a um violento separatista é, no mínimo, rocambolesco e sem qualquer sentido de Estado. Fazer ressurgir feridas ainda mal fechadas de um passado muito recente não é próprio de um Governo e atentará até contra a própria Constituição e unidade de Espanha.

 

Por certo, a pressão de Iglesias, alguém que acredita piamente que irá conquistar o poder e transformar Espanha num campo de batalha emergindo como um totalitarista travestido de suino orwelliano, terá tido os seus efeitos. Iglesias, contudo, à semelhança daqueles que lutaram na Guerra Civil espanhola, não tem ideais e não procura a paz entre os seus concidadãos apenas a vontade em se assumir como uma espécie de Demiurgo com tiques estalinistas.

 

No entanto, em Espanha, o povo e as próprias polícias não vão no discurso da serenidade (e até algo totalitarista), encetado por muitos dirigentes e que sai sempre da cartola, sobretudo do nosso Presidente da República, nomeadamente quando as coisas podem correr mal. Foi neste contexto que todo um povo e especialmente os agentes da ordem, particularmente a Guardia Civil e o Corpo Nacional de Polícia, mostraram o seu descontentamento, colocando inclusive, no Palácio das Cortes, um sem número de urnas encenando os funerais dos agentes da autoridade mortos pela ETA, que cometeram suícido ou que foram mortos no cumprimento do dever nunca tendo merecido qualquer palavra deste e de muitos governos espanhóis. Acresce aos factos, um pouco à semelhança do que também acontece por cá, a irresponsabilidade de ainda não se ter desenvolvido um programa de prevenção do suicídio nas forças de autoridade e que em Espanha é um dos principais cavalos de batalha destas.

 

É é trazendo a discussão para Portugal, que é notório que temos assistido a selfies tiradas pelas mais altas individualidades do Estado junto dos heróis que apedrejam ou disparam sobre a polícia ou então que simplesmente desprezam toda e qualquer indicação das autoridades. Pensar que ter os militares na mão, sobretudo mantendo incompreensíveis regalias, é a solução para se manter um Estado em paz e sob controlo, pode ser um erro crasso no longo prazo, até porque, não vivemos no país "orgulhosamente só" que em muita alta esfera política, sobretudo aquela que adora mergulhos no mar, ainda causa saudade.

 

E se, à semelhança do que vai sendo sublinhado por muitos, o discurso que acabei de ter é populista, aliás, como o próprio combate à corrupção, então é com muito orgulho que o sou. 

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Uma Surpresa entre Vialonga e Bucelas...

por Robinson Kanes, em 16.09.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Há que distinguir entre conhecer e experimentar. Verdade conhecida não é o mesmo que verdade experimentada. Devia haver duas palavras distintas.

Aldous Huxley, in "Sem Olhos em Gaza"

 

Ainda eram os tempos da roda 26" e da Scott que, pontualmente, ainda roda por estas bandas. Descarregada perto do Parque das Nações e já a rolar, a direcção apontada foi a chamada "Serra de Santa Iria", já no concelho de Loures. À partida seria um passeio "pouco" interessante, citadino e com muita estrada, no entanto...

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No entanto... Chegar ao Parque Urbano de Santa Iria e ver a lezíria de Loures, leva a que exista uma enorme vontade em prosseguir com o caminho, até porque, tendo em conta a localização da minha base, podia fazer o percurso de forma circular e chegar rapidamente por Unhos até à foz do Trancão. Assim seria, não fosse descer a serra e ao chegar à Granja e deparar-me, para lá do MARL, com outra serra e com a ideia de que as vistas não me iriam desiludir. Pensar que por ali, entre a Granja e Vialonga, às portas de Lisboa e já no concelho de Vila Franca de Xira, teve lugar a famosa Batalha de Alfarrobeira que opôs a Casa de Bragança à Casa de Coimbra em Maio de 1449 e que ditou a morte do Infante D. Pedro e do famoso Conde de Avranches.

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Sigo o percurso, atravesso alguns bairros de má fama que tendem a afastar visitantes, no entanto, como é habitual, tudo decorre sem problemas e ainda há tempo para receber o bom dia (algo que em bairros de melhor fama escasseia). Subo por Mogos e passo ao lado da Mata Paraíso. Decido parar e beber um pouco de água. Um local simples, já de algum modo altaneiro e incrivelmente surpreendente. Dou comigo a pensar que estou na estrada que vai terminar nos "queijinhos frescos", uma pequena taberna que muitas vezes visitei na infância e que, pasme-se, me encantava já pela boa comida e por ter um parque onde, não raramente, fazia os chamados amigos de ocasião. Ficava em Santa Cruz e é por aí que passo.

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Prossigo, a manhã está fria e não me arrependo do equipamento de Inverno da saudosa Trek, sigo pela direita e vou em direcção ao monte, ladeado por pedreiras, mas que ainda continua preservado. Pelo caminho, ainda há tempo para fazer amigos - um porco preto no meio da serra às portas de Lisboa... 

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É depois de subir com alguma força no pedal, que chego ao topo e me deparo com uma das melhores vistas da área de Lisboa a este. De um lado os montes e a vila de Bucelas (terra de bom vinho e especialmente de Arinto) do outro uma vista para cidade e para o Tejo já com o Ribatejo no horizonte. Lá em baixo a Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) e o verde que já antecipa os limites da cidade. Tão perto de tudo e já tão longe numa manhã deveras inesperada. O almoço foi regado com um Arinto de Bucelas, não poderia haver melhor celebração para tão rica e surpreendente manhã.

 

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Sardinhas com libretto dos tempos modernos...

por Robinson Kanes, em 15.09.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Hoje é dia de andarmos pelo SardinhaSemLata... Decidimos escrever um libretto enquanto se devoram algumas sardinhas, sardinhas essas, que ainda pingam no pão. Acompanhe-se com "vinho tostão" e temos o manjar perfeito para uma pós-modernidade, eventualmente imperfeita. É só seguirem-nos aqui.

 

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Costa Nostra...

por Robinson Kanes, em 12.09.20

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Créditos: https://jornalacores9.pt/costa-acompanha-frustracao-de-medina-mas-defende-que-meios-estao-a-ser-reforcados/

 

A melhor forma de assustares um português? Fala-lhe em mudança, nunca mais o vês!

GC

 

Admito que, depois do último artigo, tinha pouco interesse em repetir o tema da Sicília, todavia, algumas das "grandes" figuras nacionais não me dão muita hipótese de ser impopular. Como poderá dizer uma certa juíza entretanto silenciada, "são escolhas".

 

Na verdade, e nada tenho contra o futebol, devo admitir que em Portugal (e não só) a promíscuidade entre política, comunicação social e clubes de futebol é escandalosamente arrepiante.

 

Para citar alguns exemplos, temos o caso de um sem número de governantes que em tempos, a troco de um jogo de futebol num europeu de, venderam a alma ao diabo. Um faleceu entretanto e foi visto como um herói, outros pagaram uns tostões e não foram a julgamento. Para mim isso não é inocência, é pagar para não ser encarcerado e manter as regalias na função pública. Afinal, também por "cá", Cristiano Ronaldo e José Mourinho pagaram e ficaram "meninos de bem". Ai se o "Toino" sabe, da próxima vez que se vir a passar 5 anos na cadeia por ter roubado uma banana no hiper low cost vai alegar a jurisprudência para se livrar do cárcere.

 

Outro exemplo, é também o de um ex-ministro das finanças (e não é caso único) que utilizando o cargo, mendigava lugares na tribuna de honra de um determinado clube de futebol para que o filho também pudesse assistir a jogosl, e sobretudo trabalhar o seu networking com a malta influente.

 

Temos ainda o sem número de agentes políticos que surgem em comissões de honra e orgãos gestores de clubes de futebol, mesmo quando ainda exercem funções públicas e com total incompatibilidade com os cargos, o mais recente caso de Rui Moreira na Câmara Municipal do Porto disso é exemplo.

 

Finalmente, temos também um jornal nacional que tem como comentador o Director Geral da Microsoft para a Europa Ocidental, e é com este título e também como sócio que se apresenta, a defender um clube de futebol - não como um parceiro de negócios, mas como uma espécie de adepto possuído. Se está autorizado pela organização que representa, podemos aceitar, embora não me pareça propriamente a melhor prática dentro da Microsoft. Em relação ao jornal que publica o artigo, já sabemos como estas coisas funcionam... "Está desculpado". Sabemos que a Microsoft tem o Benfica como cliente, e isso é óptimo e em nada censurável, bem pelo contrário, no entanto existem linhas, mesmo no negócio, que nunca se ultrapassam - e não é só por uma questão ética e profissional, mas também relacionada com o próprio negócio. 

 

E tudo isto para chegarmos ao mais recente exemplo, onde o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o Primeiro-Ministro (o primeiro sem o segundo não existiria, portanto, uma espécie de "mini me") surgem na comissão de honra de um candidato à presidência de um clube de futebol. A promiscuidade, mais uma vez ao seu mais alto nível, sem esquecer que num país civilizado e prudentemente governado, não é admissível este comportamento. Na eventualidade  de ser uma prática moralmente aceitável, existem mais clubes na cidade. Por sua vez, também a pessoa do candidato que ambos apoiam e o próprio clube encontram-se envoltos em polémicas e processos judiciais. Todos são inocentes até trânsito em julgado, no entanto, patrocinar candidaturas no decorrer do processo não é a melhor forma de mostrar neutralidade e ausência de pressão sobre os agentes policiais e judiciários. Talvez a impunidade que ambos têm tido em várias situações os deixe tranquilos.

 

Concluíndo, e voltando à Microsoft, é bom lembrar que por muito menos, existiram marcas que abandonaram determinados indivíduos ou organizações. Por cá, parece que as coisas funcionam ao contrário.

 

Em suma, é motivo para dizer que num país de máfias, umas mais pequenas e outras maiores (e na sua maioria recheadas de alorpados cretinos) mas com graves danos para o país, a Costa Nostra é mais uma que veio para ficar.

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Il Gattopardo... Il Robinsonpardo...

por Robinson Kanes, em 11.09.20

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Imagem: https://www.pinterest.pt/classical826/il-gattopardo/

 

Foi na quarta-feira que tive a oportunidade de rever o filme baseado na obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Il Gattopardo". Mais um filme de se lhe tirar o chapéu do mestre Visconti (sem esquecer a banda sonora de outro mestre: Nino Rota). Com o Nimas totalmente ocupado, respeitando o devido distanciamento, aquele momento foi mais um daqueles em que viajamos pela Itália profunda e pela Sicília, terra apreciada pelos cineastas italianos e também berço de muitos. 

 

Em relação à película, estar vivo e não ter visto a mesma, é como já ter morrido. Com efeito, agora com outra maturidade, recordo as palavras de Fabrizío (interpretado pelo magnifíco Burt Lancaster), aquando da sua visão da Sicília: “I siciliani non vorranno mai migliorare per la semplice ragione che credono di essere perfetti; la loro vanità è più forte della loro miseria.”.

 

Por momentos, senti a pele e a alma a envelhecerem-me, a tomarem conta de um aspecto ainda jovem em mim e a tornarem-me desencantado por uma nação, tal como o Princípe de Salina. Nesta espécie de exaltação e de show, de ineptas personagens aos pulos em busca de, sento-me num chesterfield, algures no Palazzo Valguarnera Gangi, e partilho da desilusão daquele nobre que afinal, antes de tudo e todos, percebeu que a saída de uns e a entrada de outros, só permitiu mudar algumas personagens e conceder algum poder a - mas na realidade, tudo ficou na mesma. Até mesmo o Conde de Tancredi, aquele que lutou a favor de Garibaldi e "desonrou" a nobreza se deixou levar pela não mudança. Também aqui vi Portugal, vi até parte da minha Espanha e de facto, reconheci que para evitar a contaminação dos deuses que preferem a apatia e o provincianismo da sua mentalidade, sair aos 20 anos do rectângulo já é sair tarde, pois algumas crostas entretanto se formam e podem dificultar o processo.

 

Talvez tenha ganho maturidade (e aqui tenho sérias dúvidas, não chego lá tão cedo) e esteja em crer que, como dirão os psicólogos clinícos, o paciente tem de ser o primeiro a querer a cura da sua perturbação - talvez tenha de me convencer nisso e desistir do doente. Talvez assista ao baile, talvez não... Talvez troque a casaca real pela casaca de Garibaldi e continue a lutar e a acreditar mesmo quando a ataraxia está por todo o lado, ou talvez queira estar sozinho a percorrer um qualquer quelho em Palermo, pois desejando, como um certo Lobo de Hesse, "música em vez de chinfrim, felicidade em vez de divertimento, alma em vez de dinheiro e verdadeiro trabalho em vez de bulício, paixão em vez de brincadeira", por certo, não é nestas fronteiras que encontrarei o meu lar. Talvez em Céfalu, aquele lugar junto ao mar onde nos esperarão os nossos amigos romanos, uma bela salada ao pequeno-almoço e um dos mais belos "tramontos" do Mundo. Talvez em Palermo ou mesmo em Bagheria sentados numa qualquer esplanada do Corso Italia... Talvez por aí...

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