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Na Flor da Rosa com "La Traviata"...

por Robinson Kanes, em 04.08.17

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Dizem que este espaço andou à boa vida por estes dias... É possível, desde que não seja atacado pela silly season ainda se vai tolerando...

 

Esta semana, e posto que ainda se vai relendo o Sr. Garcia Márquez e o seu "Amor em Tempos de Cólera" - Fermina Daza volta a pensar em Florentino Ariza, mas lá acaba por se aproximar mais uma vez de Juvenal Urbino - deixo apenas uma sugestão que combina música e representação: a ópera "La Traviata" de Verdi... Por aqui até costumamos dizer, "Não é que não houvesse, haver havia, mas eram verdis".

 

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E porquê "La Traviata"? Primeiro porque tivemos a experiência de assistir a esta ópera em exterior, mais propriamente no jardim da Pousada do Convento da Flor da Rosa (localidade no concelho do Crato), numa noite quente e onde a companhia "Ópera del Mediterráneo" deu um espectáculo daqueles, sobretudo a Soprano Gema Scabal (Violetta) e o Barítono Carlos Andrade (Giorgio Germont). Falta "Alfredo", mas Vicenç Esteve Madrid poderia ter estado melhor. O facto de se ter realizado no Convento da Flor da Rosa e de ser "La Traviata" não nos fez hesitar um minuto, sobretudo quando já tinhamos visto Rolando Villazón e Anna Netrebko nos papéis de Alfredo e Violetta. O cenário é fascinante, não se nota tanto pseudo-elitismo e o convento fica situado dentro da aldeia - enquanto a ópera se desenrolava sob a luz das estrelas conseguíamos ouvir pontualmente os cães a ladrar e os sinos a tocar - ao invés de prejudicarem a peça, só lhe deram mais força!

 

Mas a "La Traviata"... Adoro esta ópera, apesar de algum dramatismo exagerado, talvez pela inspiração que a mesma tem na obra de Alexandre Dumas Filho, "A Dama das Camélias" (o libretto é de Francesco Maria Piave). No entanto, é também apaixonante na medida em que estreou em 1853 numa das mais belas salas de ópera que conheço, a "La Fenice" (em Veneza) e depois porque tem árias como "Libiamo ne' lieti calici", "Sempre Libera" e "Addio del passato"... Verdadeiramente brilhantes e das quais partilho convosco alguns vídeos. 

 

A história? Tudo começa com um baile em casa de Violetta, uma cortesã mundana, e a quem é apresentado Alfredo, um nobre que se apaixona por esta, mesmo sabendo que existe um amante: o Barão Douphol. Perante a abordagem de Alfredo, Violetta admite sempre ser incapaz de amar pois mais uma vez é uma imoral mundana! A ária "Sempre Libera" vem daí e perante a insistência de Alfredo à qual Violetta acaba por ceder. Acabam ir viver juntos para a casa de campo da cortesã.

 

Será também na casa de campo que Alfredo descobre as dificuldades financeiras de Violetta e secretamente se oferece para as colmatar. Contudo, O Sr. Germont, pai de Alfredo e regressado da Provença, receando ver o seu filho enamorado por uma cortesã de má fama, pede a esta que se afaste do seu amado sob pena da irmã de Alfredo não ser desposada e do nome da família ficar manchado. Violetta acaba por ceder, contra todos os seus desejos, e abandona Alfredo. Já vi isto em qualquer lado...

 

O reencontro dá-se quando Violetta aceita o convite para uma festa em casa da amiga Flora e se faz acompanhar pelo Barão... Nessa festa está também Alfredo que entra em vários desafios com o Barão, quer no jogo (onde o vence) quer depois quando o desafia para um duelo! Este desafio surge porque, a sós com Violetta, Alfredo tenta reaver a sua amada mas esta, satisfazendo o pai de Alfredo, diz amar só e só o Barão! Alfredo humilha e trata Violetta como uma prostituta, chama todos os convidados e atira o dinheiro ganho no jogo para cima desta e sente o repúdio de todos, inclusive do pai que entra em cena já no fim do segundo acto.

 

Violetta abre mais um acto numa Paris que celebra o Carnaval, tísica e esquecida pelos amigos, excepto Grenvil, médico e amigo (mais um toque de Verdi à sociedade da época). É aqui que recebe uma carta do pai de Alfredo e onde este confessa ter falado ao filho do sacrifício de Violetta. Giorgio Germont diz também na carta que Alfredo se encontra a caminho para pedir o seu perdão. Violetta, contudo, teme que Alfredo não chegue a tempo e é aqui que canta "Addio del passato bei sogni ridenti"... Maravilhoso!!! A gravação da albanesa Ermonela Jaho (último vídeo) é um hino!

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Alfredo chega entretanto, acreditando que o amor vencerá a doença mas... Logo após a chegada deste, de Grenvil e de Giorgio Germont, Violetta cai sob os seus braços e morre, não sem antes ter conseguido forças e esperança para acreditar num amor tão poderoso capaz de desafiar o destino cruel.

 

Como muitos lhe chamaram, uma ópera imoral... Eu iria mais longe e diria que é uma ópera romântica e real que aos morais de capote provoca o asco de se reverem em alguns comportamentos. Uma ópera cujo amor vence tudo, mas só não vence a doença. Um amor que não pode escapar ao destino mortal mas tem de escapar ao, muitas vezes, desejo de morte e à moral.   Sobre isso, dizia Ferreira de Castro (in "A Experiência") que "uma moral, qualquer que seja, se, por um lado, se renova, por outro envelhece, e há normas de moralidade colectiva que, com o tempo, revelam toda a sua desumanidade e tornam-se, portanto, imorais".

 

Apesar da morte de Violetta, talvez seja a lição de que o amor por nada deve ser trocado e contra tudo e contra todos deve ser defendido, porque só a morte tem o direito natural de pôr fim a tudo.

 

Bom fim de semana...

 

As três árias para vos contagiar:

 

"Libiamo ne'lieti calici"

 

 

"Sempre Libera"

 

 

 

"Addio del passato"

 

 

 

 

 

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Um Fim de Semana La Bohéme

por Robinson Kanes, em 28.04.17

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Fonte das Imagens: Própria

 

 

Não é bem a vida que faz falta - só aquilo que a  faz viver.

Vergílio Ferreira  in  "Para Sempre"

 

Já há algum tempo que não falo de sugestões para o fim de semana. Talvez por tédio, talvez porque outros temas se descobrem, talvez por... apatia.

 

Lembrei-me de recomendar uma ópera, uma das minhas grandes paixões, uma ópera verdadeira, simples e até contestada, sobretudo o seu compositor (Giacomo Puccini), por ter escolhido como personagens principais figuras do povo.

 

Sou seguidor confesso de Puccini e, La Bohéme é talvez uma daquelas óperas mágicas. Pode não agradar a muitos pseudo-intelectuais que a acusam de ser uma ópera de povo, uma ópera básica no seu argumento... talvez por ser uma Ópera verdadeira que fala do verdadeiro amor e da realidade como ela é... talvez, por isso, não seja do agrado dessa pseudo-elite.

 

Tive oportunidade, e a honra, de assistir a esta ópera ao vivo, em Praga, mais precisamente no Národiní Divadlo (Teatro Nacional). Mais honra tive de, ao sair, encontrar a neve a cobrir de branco aquela noite escura de Novembro e a most Legií. A neve é uma constante nesta peça... aliás, é ela que acompanha a chegada de Mimi e apadrinha também o seu desespero quando se sente perdida sem Rodolfo. É a queda de neve e o frio que lá foram embalam Mimi quando se despede de Rodolfo e dos seus amigos: Marcello, Colline, Schaunard e a bela Musetta. Devo dizer-vos que beijar apaixonadamente a minha miúda depois daquela ópera, ali mesmo em cima da ponte, naquela noite fria de Praga, é um momento que ainda não esqueci... sobretudo porque eu me encontrava vestido como um praticante de trail e ela como uma princesa, qual Turandot...

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Esta é uma ópera na Paris de 1830, dominada pela pobreza, pela fome e pelo frio... é uma ópera da vida como ela é, do amor real, de vidas perdidas e deambulantes nas grandes cidades, da pobreza, do quotidiano... sem magia, sem a beleza dos grandes palácios. Não encanta os pedantes, muito menos encanta quem almeja um dia ser uma elite. Mas acredito, que encanta todos os outros, desde os mais pobres às verdadeiras elites.

 

O amor e a simplicidade de Mimi, admito, comovem-me ao longo de toda a obra... e destaco Mirella Freni como a minha intérprete preferida neste papel. Confesso que uma das minhas grandes surpresas foi o papel de Musetta, brilhantemente interpretado em Praga por Marie Fajtová e com especial destaque para a interpretação de "Quando m'en vo". A forma como Mimi se apresenta com "Se mi chiamano Mimi" é algo de único... bem como Rodolfo com o seu "Che gelida manina" e "Oh soave fanciulla".

 

Deixo-vos a ópera completa, aliás, até é a versão em DVD que tenho em casa com a Mirella Freni e uma das minhas preferidas (existem outras mais recentes e com tradução, ou então podem ouvir apenas). Aos que estão sozinhos, deixem-se envolver e quem sabe a Mimi vos entre pela porta, ou o Rodolfo... aos que estão acompanhados, pois que se deixem contagiar pelo carisma de Rodolfo e pela pureza de Mimi, talvez porque como dizia Delhomme, "a eternidade do instante é a sua profundeza, não a sua extensão".

 

Bom fim de Semana

 

 

 

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