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Imagens: Robinson Kanes

 

Decidi antecipar o "Dia dos Mortos" e consequentemente aquele artigo que antecede quase sempre o final da semana. Talvez esse sentimento de perda se tenha abatido sobre mim por antecipação, talvez essa saudade, não das coisas más, mas das coisas boas que este dia trouxe durante muito tempo... Aproveitarei, no entanto, para amanhã deixar algo mais reconfortante para os três dias de "descanso" que se avizinham.

 

Para uma leitura, depois de "A Esperança" terei de voltar a André Malraux, é imperativo que assim o seja. Para estes dias, nada melhor que "A Estrada Real", que conhecer pelos olhos de Claude o grande Perken e a sua luta pelos valores e quiçá pela morte. É um livro que nos torna mais adultos enquanto deambulamos pela Indochina.

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Uma das minhas paixões por música clássica deve-se aos requiem. Este estilo, apesar da tristeza, mas também da força e da esperança que nos dá tem-me acompanhado desde muito jovem - cedo fiquei fascinado com as composições de Mozart e Verdi. No entanto, ao longo dos anos, fui descobrindo preciosas obras e deixo as minhas duas sugestões para estes dias, talvez os melhores (ou não) para escutarmos um requiem. A primeira audição vai para um dos meus preferidos, o "Requiem em Dó Menor" de Luigi Cherubini. Imaginem-se em Florença, junto ao rio ou até em Fiesole, bem perto a escutar esta composição! Talvez me tenha deixado influenciar pela naturalidade do compositor, porque o mesmo foi escrito em memória de Luis XVI de França.

E porque é importante não compactuar com a ocultação dos nossos grandes mestres, não posso deixar passar um dos mais belos requiem de sempre e que é português! O "Requiem Op.23" de João Domingos Bomtempo! Uma "homenagem" a Camões, à sua memória e à língua portuguesa que hoje está sob ataque cerrado! Escutemos Bomtempo e escutemos aquele(s) que muitos teimam em fazer esquecer mesmo que continue a passar nas grandes salas por esse mundo fora.

E a propósito de Bomtempo, porque não irem à Igreja de São Roque no dia 1, pelas 21h:00m, ouvir o Ensemble MPMP? Poderão ouvir do compositor Bomtempo "LIBERA ME" e as "Quatro Absolvições". Aproveitem e vejam também a estreia das "Canções do espaço e da luz" de Hugo Ribeiro. Estas apresentações estao incluídas na Temporada de Música em São Roque! Podem consultar aqui o programa.

 

E porque o pedantismo já vai longo, nada como fechar com um filme... Amor e morte, mas muito mais amor. O filme "Amour" de Michael Aneke deveria ser obrigatório para jovens e adultos. Um filme que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro - conta ainda com a portuguesa Rita Blanco e duas brilhantes interpretações de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Há quem o veja como um retrato positivo no meio de tanta dor, tristeza e solidão, no entanto, desperta-nos para a realidade inerente a todos os estados anteriormente enumerados - e essa nem sempre é a mais agradável... Mas o amor, o amor tudo vence e aí sim, poderemos esboçar um sorriso ao longo do filme. Além disso, foi lançado numa data muito especial para mim.

E para reflectir durante os dias que se avizinham, e desta vez não é uma má notícia - os gorilas das montanha, no Ruanda, cuja extinção esteve anunciada para o ano 2000 passaram por estes dias a espécie "em perigo" deixando a categoria de " em grande perigo". É uma vitória para todos aqueles que protegem uma espécie que partilha 98% do nosso ADN. Os gorilas têm aumentado em número e por isso todos estão de parabéns, não só no Ruanda, mas também na República Democrática do Congo e Uganda. África também precisa que as boas notícias cheguem até nós!

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Imagens: Robinson Kanes

 

Já estão a chegar mais dois dias de boa vida. Pelo menos para alguns, pois há quem trabalhe, muitas vezes, para que esses dois dias sejam óptimos para os outros. A semana passada, como em outras, dei folga a esta rubrica, se assim preferirem chamar a mesma - mas o "Dia Internacional da Paz" surgiu-me como prioritário, sobretudo pela ligação que tem agora às questões climáticas e pela ausência de alguma discussão em torno do mesmo.

 

Por aqui será feita uma pausa de alguns dias. Dias para experimentar uma realidade diferente, dias para equacionar uma presença, dias para muitas outras coisas. 

 

E que tal um fim de semana com Albert Camus? "A Queda" é talvez a sugestão que mais se enquadra para o dia de hoje, talvez aquele que me pode fazer reflectir no dia de hoje.

 

Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa então, que sejam verdadeiras ou falsas, se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente do que no que fala a verdade.

Albert Camus, in "A Queda"

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Deixo também uma ideia (sugestão é colocar-me em bicos de pés), musical. Talvez um dos melhores complementes à leitura da obra que falei anteriormente - Rachmaninov e o "Concerto para Piano nº2 em Dó Menor op.18 ". Escrito depois de um colapso nervoso no início do século XX é uma obra clássico-romântica e capaz de nos fazer ir bem para além da compreensão humana.

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É talvez o mais conhecido e em alguns trechos irão reconhecer alguns acordes que foram aproveitados por cantores actuais. Optei por seleccionar uma versão com menos qualidade mas tocada pelo próprio. Para algo "melhor", Rafael Orozco não é uma má opção.

Finalmente, fica uma ideia para ver cinema... Cinema espanhol, de Miguel Ángel Lamata, o filme "Nuestros Amantes". Aquilo que parece ser uma comédia não o é e acaba por tocar em pontos bem profundos das relações... Aquilo que parece ser uma brincadeira é algo muito sério. Enquanto conhecem (ou recordam) um pouco de Zaragoza (e até de Teruel) vão rir e pensar muito... Não tenho dúvidas. Não gosto como Miguel Ángel Lamata filma, no entanto é um filme actual e para os amantes de hoje.

E para pensarmos enquanto adoramos viver neste país e talvez chegarmos à conclusão que não somos um povo de brandos costumes mas de acomodados, corruptos e apáticos (para ser simpático): Pedrogão; Incêndios de Outubro; Tancos (ninguém me diz que o papagaio-mor do reino não é...); perdões aos bancos; perdões do banco público Novo Banco a instituições como a Malo Clinic; perdões à EDP, partidos que vendem a ideologia a troco de maiorias; falta de condenções a detentores de cargos públicos ou aplicação de simpáticas penas suspensas; destruição do ambiente; golas anti-fumo; habitantes do concelho, dito o mais desenvolvido do país, a votarem em massa e a defenderem um corrupto; sempre os mesmos nas universidades e sempre os mesmos em várias áreas profissionais a opinarem sobre aquilo que não sabem e não fazem; sempre os mesmos a dizerem aquilo que é bom para nós e e ainda um sem número de situações que envergonhariam qualquer cidadão digno desse rótulo... Mas por cá há poucos, logo a vergonha também tende a escassear...

 

Até breve e bom fim de semana,

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Allegro Vicacissimo adiado...

por Robinson Kanes, em 23.09.19

Jabr-Walking.jpgImagem: https://www.newyorker.com/tech/annals-of-technology/walking-helps-us-think

 

Pensava em como as pessoas que se querem bem, sem pensar em mais nada a não ser na triste insensatez da vida e no carácter vão do amor, acabam por viver lado a lado os próprios destinos que, por serem incompreensíveis as mantêm afastadas como nos pesadelos sem sentido.

Hermann Hess, in  "Gertrud"

 

Tchaikovsky escuta o seu concerto para violino e pensará em como é possível numa interpretação de pouco mais de meia-hora colocar tantas emoções, tantos sentimentos e tantos sonhos que fora da partitura se desfazem. Nem sempre a música ajuda as mentes perturbadas, ao contrário do que dizia Horácio. Essa mesma música tende, por vezes, a colocar-nos ainda mais perturbados e destruídos. Pode ter um efeito nefasto no modo como gerimos as nossas emoções...

 

Essa música faz-nos pensar no sonho mas também na realidade, de ter de acreditar naquilo que não queremos, de perceber que queremos deixar de ser um fantoche, de chegar à conclusão que o presente e o futuro dessa realidade não precisa de nós! Que nós somos pedras no caminho, que tudo tem um tempo e o tempo de uns não é o tempo de outros. Encarar esta realidade não é fácil para alguns, acaba por ser mais simples para os outros e é isso que lhes dá força para continuar.

 

Esses que não percebem o tempo, esses que se preocupam com um mundo, esses que não se cansam de falhar, ou porque a vida os marcou para sempre com esse destino ou simplesmente porque são efectivamente falhados. Não terão a consciência de que tudo tem um limite e que a realidade que um dia almejam e que até conquistaram durante algum tempo não estará lá para sempre - ninguém aguenta para sempre viver com um falhado, ninguém aguenta uma vida ao lado de um idealista. Ninguém aguenta para sempre quem acredite efusivamente no amor e aqueles que talvez acabam por viver de olhos fechados como se a própria existência fosse um acto de cobardia.

 

Oui, tout est simple. Ce sont les hommes qui compliquent les choses... Diz-nos Camus no ensaio "Entre oui et non" do seu ""L'Envers et l'Endroit". E sim, são os homens que complicam as coisas, que criam distrações, que criam convenções que decidem como se manipulam e jogam os sentimentos... São os homens que querem dominar a natureza e acabam dominados pela sua vontade de indagar, de ir mais além mesmo que estejam numa espécie de curva de 360º. São os homens que se cansam daquilo que outrora amaram, é humano, sobretudo num mundo que se devora a si próprio em consumo material e emocional.

 

Ficamos a meio na "Canzonetta", porque o "Allegro Vicacissimo" não é para hoje... Amanha será outro dia, e o mundo nasce todos os dias, mesmo que a força humana nos tente impor, não raras vezes, o mesmo mundo de ontem ou o mesmo mundo monótono e amorfo, mesmo que lutemos para fazer a diferença já ontem! E se um dia o "Allegro Vicacissimo" não tiver lugar, pois bem... Talvez que o "Hino dos Querubins" nos acompanhe numa ascenção que não será rodeada de anjos e de Deus, mas da tristeza que nos consumirá até ao dia em que o céu da boca nos arrefecer e não mais a nosso cérebro receber a mensagem que nos chega dos olhos e dos ouvidos. Até ao dia em que afastaremos o nosso pensamento do mundano...

 

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Alberto Iglesias: uma Playlist.

por Robinson Kanes, em 18.09.19

albertoiglesias1.jpg

Imagem: http://nbclatino.com/2012/02/08/17285476487/

 

 

Ainda a semana passada falei do basco Alberto Iglesias a propósito do novo filme de Almodóvar, "Dolor y Gloria" (melhor banda sonora em Cannes). Talvez por isso, um destes finais de tarde mais recentes tenha sido dedicado a ouvir algumas das obras deste compositor apaixonante e que já é conhecido por cá há muito.

 

Começo com uma das que mais me agrada, "Los Abrazos Rotos", escrita para o filme de Almodóvar com o mesmo nome. Alberto Iglesias e Almodóvar são uma dupla que se repete por diversas vezes tornando o primeiro num quase exclusivo do segundo. "Los Abrazos Rotos" está impecavelmente composta e quem vir o filme vai perceber - não é hoje que falarei dos filmes. Esta banda sonora ganhou um Goya! Música fantástica...

"Habla con Ella" é outra das grandes obras de Iglesias. O filme bem presente, toda a emoção que o caracteriza e aquele sangre espanhol. Se "Los Abrazos Rotos" nos encosta ao sofá e nos faz fechar os olhos, esta composição não é diferente. Para mim, uma das melhores de Alberto Iglesias e que só um compositor espanhol é capaz de criar!

Esta é um clássico, "Me Voy a Morir de Amor", do filme "Lucía y el Sexo". Um estilo, mais uma vez, inconfundível, onde o erotismo e o romance surgem associados a uma certa ingenuidade que também caracterizam o filme. Aqui foi o realizador Julio Medem que soube escolher Iglesias... É impossível não entrarmos na mente de Lucía ao ouvir esta música.

"Tessa's Death" é outra das composições que admiro e que retratam o papel de Iglesias na banda sonora do filme "The Constant Gardener", mais conhecido pelo "Fiel Jardineiro". Num registo ligeiramente diferente, Iglesias mostra-nos que não é só um compositor de Espanha, é um compositor do mundo - Fernando Meirelles não poderia ter feito melhor escolha para um fime onde Ralph Fiennes e Rachel Weisz não poderiam ter estado melhores.

Uma das composições que mais me surpreendeu pela positiva! "Fly a Kite" faz parte da banda sonora de um filme que me encantou igualmente: "The Kite Runner", mais conhecido por cá, quer em livro quer em filme, pelo nome de "O Amigo de Cabul". Um filme para levantar a cabeça, para nos dar uma lição e para nos levar para um mundo real que tendemos a esquecer, isto enquanto se desenrola uma história que não vai deixar ninguém indiferente. Alonguei-me na questão do filme, mas é daquelas bandas sonoras que nos "apunhalam" mais se forem acompanhadas pelas emoções geradas com o filme.

"Kyrie", da banda sonora (mais uma de Almodóvar) do filme "Mala Educación", é já um "clássico" que não pode ser esquecido quando se fala de Alberto Iglesias. Na actualidade, só um compositor com esta categoria poderia compor uma "kyrie" com este talento, com esta força e com esta dor, formidável! Uma obra clássica de se lhe tirar o chapéu.

Quem viu "Volver", também de Almodóvar, vai reconhecer de imediato "El Año Seco". Iglesias, mais uma vez, a impressionar e mostrar porque tende a ser o favorito de Pedro Alomodóvar. Se a estrela da banda sonora é "Volver" de Estrella Morente,  o lado mais orquestral não deixa ninguém indiferente. Quiçá, para ouvir depois de Estrella Morente... 

"Pavana par Agrado" é outra composição, também de um filme de Almodóvar: "Todo Sobre mim Madre". Mais uma daquelas bandas sonoras em que a capacidade de Iglesias para se reinventar sobressai. O filme é genial e a banda sonora também - filme pesado, com uma banda sonora sui generis, não dura mas talvez cínica, talvez real.

Uma interpretação excelente de Elena Anaya em "En Tu Piel" ressalta sempre que escuto "Los Vestidos Desgarrados", mais Almodóvar e mais Banderas... Mas como é que se fica indiferente?

E podia estar aqui o resto do artigo a debitar mais composições de Iglesias... Interrogo-me como hei-de fechar esta selecção, como poderei não deixar passar nada, mas é certo que o farei, tantas músicas me afloram ao pensamento... Não vou deixar passar, vou até à década de 90 para encontrar "Tierra", música da banda sonora de mais um filme de Medem, e que tem o mesmo nome. Não posso deixar passar... Não posso...

 

 

 

 

 

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O Wine & Music Valley e o Grande Bryan!

por Robinson Kanes, em 16.09.19

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Imagens: GC

 

Até há uns anos arrogava-me no direito de dizer que conhecia o Douro... Até ter conhecido a alemã que me veio mostrar verdadeiramente aquela região, e consequentemente, fazer-me chegar à conclusão que não conhecia nada...

 

E foi neste cenário, do Douro, que decorreu o Wine & Music Valley. Devo expressar que o mote da viagem foi, sem dúvida, assistir ao concerto de Bryan Ferry e à despedida do dia 14 com DJ Vibe e Rui Vargas... Tivemos tempo para assistir a uma parte do concerto de Mariza, mas não sendo admiradores da mesma, temos de assumir que a senhora esteve bem e até caminhou entre o público enquanto cantava o "Oh Gente da Minha Terra". Caiu bem...

 

Mas o grande momento da noite foi mesmo Bryan Ferry - com grandes sucessos, o gentleman da música, num tom bastante descontraído encantou todos os presentes, mesmo alguns que não o conheciam. Uma banda singular, muita sabedoria do que é música e claro... Bryan Ferry sempre impecável num estilo inconfundível e que o tornam num dos grandes músicos vivos! Com as vinhas atrás de nós, um cenário de lua cheia, bom vinho branco da região - só bebemos o branco porque a noite a isso convidava e o almoço no "Cortiço" (sempre em grande, do melhor) em Viseu também a isso obrigou. Digamos que não acabámos propriamente sóbrios, e isso foi bom!

 

Bryan Ferry deu para abraçar, para beijar e para dançar, há muito que não nos divertiamos tanto com um concerto e ainda por cima tivemos companhia - um casal de ingleses que, como nós, vibrou o concerto inteiro e nos acompanhou na nossa bolha, aquela onde dançávamos. Bryan Ferry, bom vinho, o rio Douro e todo aquele cenário, não podia ter sido melhor! Grande momento e sem dúvida que fica o mote para futuras iniciativas do género, mesmo que tenhamos de fazer quase 800 km.

 

Também não somos propriamente pessoas de reclamar, no entanto, em muitos aspectos a organização deixou muito a desejar! A GNR no local não conhecia os parques, "estacione por aí" disseram-nos. O "estacione por aí" levou também a que o real civismo nacional afastasse as fitas da GNR e da protecção civil e desse lugar ao estacionamento de viaturas, uns reboques não teriam feito mal nenhum! Lembremo-nos que estamos em Cambres/Lamego e na Régua!

 

Também, só no próprio dia é que recebemos um email, já estávamos em Lamego, que nos dava conta de pormenores do evento e da existência de transfers a €1 por viagem. Ao vermos tantas dificuldades, pensámos em voltar a Lamego e estacionar o carro, aí não faltava espaço e foi o que fizemos. Aliás, o ideal é nunca levar o carro e ir de transportes, mas esquecemos essa velha máxima! No entanto, o transporte não pode ser uma carrinha com "meia-dúzia" de lugares da Junta de Freguesia de Magueija e o autocarro da Filarmónica da mesma localidade! Estivemos, para chegar ao recinto, cerca de duas horas à espera do autocarro! Além de ser só um autocarro entre curvas, subidas e descidas, claro está, as dificuldades mais perto do recinto eram imensas devido à inexistência de corredores de passagem e ao volume de trânsito. Mais uma vez, o facto de não apreciarmos Salvador Sobral (voltou a achar que era um grande músico e portou-se mal, segundo soubemos), acharmos António Zambujo o mestre da desafinação, permitiu que chegássemos a tempo ao recinto, muitos não o conseguiram.

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No regresso, a mesma situação, e a total ausência de informações claras - eram alguns festivaleitros locais que conheciam este e aquele e que via telemóvel íam conseguindo informações. Apesar de tudo, o esforço e muito boa vontade daqueles dois motoristas foi fundamental para que as coisas não tivessem sido piores! Cumprissem todas as instruções e muita gente só de taxi ou nem isso é que teria chegado a Lamego. Soubemos também que os transfers da Régua foram cancelados cerca da meia-noite, alegadamente, por motivos de segurança. Nesta aspecto, uma coisa é Lisboa e Porto, outra coisa é organizar eventos deste género em Lamego/Régua. O lado bom, no meio das ervas e no alcatrão não faltavam espectadores deitados a curar alguns excessos mas sempre todos de bom humor, ou não estivesse o Douro mesmo ao lado.

 

Apesar de tudo, é um evento a repetir e lá estaremos se o cartaz o justificar, porque contávamos ir ver Bryan Ferry fora do país e as notícias de que este estava de volta a Portugal só nos animaram! Bryan é grande, e mesmo a poupar a voz, mostrou o Senhor que é. E claro... Sempre de fato e até gravata, como nos habituou.

 

Ah! Bôlas de Lamego... Lá veio o carro cheio... Enfim, não temos emenda.

 

Uma nota final: o habitual fogo de artifício da Festa da Senhora dos Remédios (uma festa onde já estive e recomendo, merece bastante a pena) não teve lugar no último dia da mesma e veio a ocorrer no dia do festival, no recinto do festival. Quem agradeceu foram os habitantes da Régua que viram o fogo da outra margem do Douro. Além de desconhecer se o fogo terá sido cancelado devido às proibições vigentes, importa referir que estes eventos são bons e trazem visitantes à terra, no entanto, é importante ter em conta que são os locais que lá vivem e é deles que devemos cuidar e com eles planear estas coisas sob pena de termos o efeito de repulsa. É assim que se governa! Até porque em Lamego a satisfação não era assim tanta com a história do adiamento do fogo de artifício. 

 

 

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Entre deveres e pérolas até à ressurreição...

por Robinson Kanes, em 06.09.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Como a injustiça pode ser cometida de duas maneiras, isto é: pela força ou pela fraude - assemelhando-se a fraude à da raposa e a força, à do leão - são ambas totalmente ,indignas do homem, suscitando, porém, a fraude um ódio ainda maior. Em todas as injustiças nenhuma é mais hedionda do que aquela cometida por aqueles que, enquanto ludibriam com o ar mais refinado, a fazem, assim parecendo a sua acção ser própria da conduta do homem de bem. E isto basta para a discussão acerca da justiça.

Cicero, in "De officiis"

 

 

Uma semana complicada, um fim de semana para fugir para perto, um próximo para fugir para mais ou menos perto (e cumprimentar o Bryan Ferry em Lamego) e depois, duas semanas para muito, muito longe...

 

A semana complicada fez-me recorrer aos livros e à música como há muito já não o fazia. Fez-me recordar também as palavras e os conselhos da GC (a alemã) e do meu pai... O último, infelizmente, já não está cá para acompanhar as peripécias. Não está, nem nas estrelas nem em mais lado algum, não está...

 

Talvez por isso a minha selecção literária vá para os clássicos, para Cicero e o seu "De officiis" que é o mesmo que dizer "Dos Deveres". Li vários excertos deste livro em latim e depois, já na minha língua mãe, e é um verdadeiro tratado. Hoje muito se escreve disto e daquilo, mil e uma pessoas a escreverem tudo e nada do mesmo assunto, mas quantos textos perdurarão? Este, de Cicero, ainda perdura, cada vez mais escondido nas prateleiras da História até ser esquecido... Como tantos outros. Por vezes, chego também à conclusão que não deveria ter lido nenhum deles... "Nah"...

 

Tudo aquilo que é honesto dimana dos seguintes quatro elementos: o primeiro é conhecimento, o segundo , o espírito de solidariedade, o terceiro a magnanimidade, e o quarto, a moderação.

Cicero, in "De officiis"

 

Musicalmente, esta semana tenho de entrar na ópera, uma das minhas paixões, embora algumas figuras da nossa praça insistam em dizer que a mesma se encontra morta - uma certa forma de criticarem uma elite como estratégia para fazerem prevalecer a sua, mesmo que também se seja radialista e nunca tenha existido preocupação em trabalhar a dicção...  Só me posso recordar de uma obra magnifica de Georges Bizet, "Les Pêcheurs de Perles" ou seja, "Os Pescadores de Pérolas"... O CD comprado no "Palais Garnier" ainda cá mora...

 

Gratidão, coragem e amor - o amor, sempre presente mesmo em tempos conturbados! O exemplo de Nadir e Leila e sobretudo de Zurga não deixa ninguém indiferente! Uma ópera, um libretto que deveria ser obrigatório em todas as estantes... Fica a ária, talvez a mais conhecida e consequentemente a mais bela, aqui interpretada por Roberto Alagna e o grande Bryn Terfel: "Au fond du temple saint".

Finalmente... Esta semana também recordei, de Florian Henckel von Donnersmarck,  o filme "Das Leben der Anderen" (penso que traduzido como "A Vida dos Outros") - vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007. Alguns talvez conheçam melhor este realizador através do filme "O Turista". Sem desvendar muito, vamos assistir à passagem de um homem da "morte" para a "vida" por intermédio da experiência que terá como agente da Stasi na antiga República Democrática Alemã. Amor, história, calculismo... 

Finalmente, e para que tenham um excelente fim de semana, pensem alegremente que arderam em Agosto deste ano, na Amazónia brasileira, cerca de 2,5 milhões de hectares e na Venezuela, Bolívia e Colômbia foram registados, respectivamente 26000, 18000 e 14000 incêndios! Em África foram detectados pela NASA (até 21 de Agosto) 6902 focos de incêndio em Angola e 3395 na República Democrática do Congo (RDC) - vejam a fauna e a flora que existem nestes países, nomeadamente a floresta tropical da RDC.

Para Domingo, podem sempre pensar que na Sibéria arderam até hoje 5,4 milhões de hectares de bosques e floresta e só 9% dos fogos estão a ser combatidos - é bom que arda para se começar a extrair o que há naquele solo, maravilha! Na Indonésia, onde todos gostam de passar umas boas férias, só na primeira metade do ano e na região de Kalimantan (o lado indonésio da ilha de Bornéu) a desflorestação aumentou 52% em comparação com 2018! O governo indonésio tem vindo a ser pressionado pela comunidade internacional, mas nada faz... Na Europa, mais precisamente na Península Ibérica, para terminar, estamos a assistir ao nascimento de um novo conceito de fogo: " incêndios sem capacidade de extinção". Nada mau, hein?

 

Bom fim de semana...

 

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O Mundo Envia-nos Lixo e Nós Damos-lhe Música!

por Robinson Kanes, em 15.03.17

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Fonte das Imagens: Orquesta de Reciclados de Cateura

 

No seguimento de um artigo muito interessante que tive oportunidade de ler (http://quimeraseutopias.blogs.sapo.pt/do-lixo-para-a-boca-38578) e que me chocou profundamente, aproveito esta minha exposição, não só para divulgar o mesmo – posto que a comunicação social em Portugal prefere virar o foco para o futebol e para o fútil – mas também para abordar uma iniciativa que é um verdadeiro exemplo de como se pode sair do lixo... ainda tive esperança de ver aquele artigo em destaque...

 

Cateura, no Paraguai, é a maior lixeira daquele país, aliás, é considerada uma zona inabitável face à degradação que aí se encontra e ao elevadíssimo risco de cheia. Inabitável... mas local de residência para 2500 famílias!

 

0c2f2c_e5e7546a109849b6bc0b23b206f01add.jpgFoi entre esta degradação que um indivíduo encontrou uma forma de criar valor acrescentado... valor acrescentado numa lixeira. Começou por fazer instrumentos com o próprio lixo e o resultado foi que um grupo de crianças completamente esquecidas pela sociedade se transformaram em artistas e deram origem à “Landfil Harmonic” ou, menos sonante mas mais genuíno, a “Orquesta de Reciclados de Cateura”.

 

O lema da orquestra é algo extraordinário e ao mesmo tempo provocador: “O Mundo envia-nos lixo e nós damos-lhe música”. Num só projecto temos uma lição ambiental, uma lição educacional e uma lição social. Do atelier, porque existe um atelier, saem todos os instrumentos feitos à base de... lixo... são esses instrumentos que vão acompanhando um grupo de crianças na sua educação e viagens pelo mundo, crianças perdidas e entregues a uma sorte que... de sorte tem pouco.

 

Lembro-me de ter partilhado esta temática com muita gente (sobretudo da área social e ambiental em Portugal) que, simplesmente, olhou para mim com um desprezo tal que me fez pensar onde estaria a lixeira... se em Cateura, se numa mentalidade triste e tacanha que habita na cabeça de muitos portugueses que se orgulham de ter dado mundos ao Mundo, mas cuja cabeça e visão não vai além do seu pequeno quintal.

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Todo este projecto começou sem apoios do Estado, afinal falamos de pobreza em Portugal, mas não sabemos realmente o que é ser pobre. Hoje, além de vários prémios (inclusive para um documentário) e apoios de vários mecenas esta orquestra é um verdadeiro sucesso. Mas há países onde alguns indivíduos, que se dizem homens e mulheres de terreno, ou os apóstolos da felicidade, cujo suícidio é iminente se ficam sem o relógio de marca, se riem e exclamam: “instrumentos de lixo, que estupidez!”.

 

Talvez a música que nos chegue desta orquestra possa inspirar muitos que andam por aí, numa lixeira diária... e se esquecem que... mesmo com talas nos olhos, cavalos e burros caminham em frente... talvez a inspiração possa vir do texto de Agustina em “Fanny Owen” porque muito provavelmente “ as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina”.

 

Um pequeno vídeo, resumo da "Orquesta de Reciclados de Cateura"

 

 

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