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O Wine & Music Valley e o Grande Bryan!

por Robinson Kanes, em 16.09.19

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Imagens: GC

 

Até há uns anos arrogava-me no direito de dizer que conhecia o Douro... Até ter conhecido a alemã que me veio mostrar verdadeiramente aquela região, e consequentemente, fazer-me chegar à conclusão que não conhecia nada...

 

E foi neste cenário, do Douro, que decorreu o Wine & Music Valley. Devo expressar que o mote da viagem foi, sem dúvida, assistir ao concerto de Bryan Ferry e à despedida do dia 14 com DJ Vibe e Rui Vargas... Tivemos tempo para assistir a uma parte do concerto de Mariza, mas não sendo admiradores da mesma, temos de assumir que a senhora esteve bem e até caminhou entre o público enquanto cantava o "Oh Gente da Minha Terra". Caiu bem...

 

Mas o grande momento da noite foi mesmo Bryan Ferry - com grandes sucessos, o gentleman da música, num tom bastante descontraído encantou todos os presentes, mesmo alguns que não o conheciam. Uma banda singular, muita sabedoria do que é música e claro... Bryan Ferry sempre impecável num estilo inconfundível e que o tornam num dos grandes músicos vivos! Com as vinhas atrás de nós, um cenário de lua cheia, bom vinho branco da região - só bebemos o branco porque a noite a isso convidava e o almoço no "Cortiço" (sempre em grande, do melhor) em Viseu também a isso obrigou. Digamos que não acabámos propriamente sóbrios, e isso foi bom!

 

Bryan Ferry deu para abraçar, para beijar e para dançar, há muito que não nos divertiamos tanto com um concerto e ainda por cima tivemos companhia - um casal de ingleses que, como nós, vibrou o concerto inteiro e nos acompanhou na nossa bolha, aquela onde dançávamos. Bryan Ferry, bom vinho, o rio Douro e todo aquele cenário, não podia ter sido melhor! Grande momento e sem dúvida que fica o mote para futuras iniciativas do género, mesmo que tenhamos de fazer quase 800 km.

 

Também não somos propriamente pessoas de reclamar, no entanto, em muitos aspectos a organização deixou muito a desejar! A GNR no local não conhecia os parques, "estacione por aí" disseram-nos. O "estacione por aí" levou também a que o real civismo nacional afastasse as fitas da GNR e da protecção civil e desse lugar ao estacionamento de viaturas, uns reboques não teriam feito mal nenhum! Lembremo-nos que estamos em Cambres/Lamego e na Régua!

 

Também, só no próprio dia é que recebemos um email, já estávamos em Lamego, que nos dava conta de pormenores do evento e da existência de transfers a €1 por viagem. Ao vermos tantas dificuldades, pensámos em voltar a Lamego e estacionar o carro, aí não faltava espaço e foi o que fizemos. Aliás, o ideal é nunca levar o carro e ir de transportes, mas esquecemos essa velha máxima! No entanto, o transporte não pode ser uma carrinha com "meia-dúzia" de lugares da Junta de Freguesia de Magueija e o autocarro da Filarmónica da mesma localidade! Estivemos, para chegar ao recinto, cerca de duas horas à espera do autocarro! Além de ser só um autocarro entre curvas, subidas e descidas, claro está, as dificuldades mais perto do recinto eram imensas devido à inexistência de corredores de passagem e ao volume de trânsito. Mais uma vez, o facto de não apreciarmos Salvador Sobral (voltou a achar que era um grande músico e portou-se mal, segundo soubemos), acharmos António Zambujo o mestre da desafinação, permitiu que chegássemos a tempo ao recinto, muitos não o conseguiram.

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No regresso, a mesma situação, e a total ausência de informações claras - eram alguns festivaleitros locais que conheciam este e aquele e que via telemóvel íam conseguindo informações. Apesar de tudo, o esforço e muito boa vontade daqueles dois motoristas foi fundamental para que as coisas não tivessem sido piores! Cumprissem todas as instruções e muita gente só de taxi ou nem isso é que teria chegado a Lamego. Soubemos também que os transfers da Régua foram cancelados cerca da meia-noite, alegadamente, por motivos de segurança. Nesta aspecto, uma coisa é Lisboa e Porto, outra coisa é organizar eventos deste género em Lamego/Régua. O lado bom, no meio das ervas e no alcatrão não faltavam espectadores deitados a curar alguns excessos mas sempre todos de bom humor, ou não estivesse o Douro mesmo ao lado.

 

Apesar de tudo, é um evento a repetir e lá estaremos se o cartaz o justificar, porque contávamos ir ver Bryan Ferry fora do país e as notícias de que este estava de volta a Portugal só nos animaram! Bryan é grande, e mesmo a poupar a voz, mostrou o Senhor que é. E claro... Sempre de fato e até gravata, como nos habituou.

 

Ah! Bôlas de Lamego... Lá veio o carro cheio... Enfim, não temos emenda.

 

Uma nota final: o habitual fogo de artifício da Festa da Senhora dos Remédios (uma festa onde já estive e recomendo, merece bastante a pena) não teve lugar no último dia da mesma e veio a ocorrer no dia do festival, no recinto do festival. Quem agradeceu foram os habitantes da Régua que viram o fogo da outra margem do Douro. Além de desconhecer se o fogo terá sido cancelado devido às proibições vigentes, importa referir que estes eventos são bons e trazem visitantes à terra, no entanto, é importante ter em conta que são os locais que lá vivem e é deles que devemos cuidar e com eles planear estas coisas sob pena de termos o efeito de repulsa. É assim que se governa! Até porque em Lamego a satisfação não era assim tanta com a história do adiamento do fogo de artifício. 

 

 

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Entre deveres e pérolas até à ressurreição...

por Robinson Kanes, em 06.09.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Como a injustiça pode ser cometida de duas maneiras, isto é: pela força ou pela fraude - assemelhando-se a fraude à da raposa e a força, à do leão - são ambas totalmente ,indignas do homem, suscitando, porém, a fraude um ódio ainda maior. Em todas as injustiças nenhuma é mais hedionda do que aquela cometida por aqueles que, enquanto ludibriam com o ar mais refinado, a fazem, assim parecendo a sua acção ser própria da conduta do homem de bem. E isto basta para a discussão acerca da justiça.

Cicero, in "De officiis"

 

 

Uma semana complicada, um fim de semana para fugir para perto, um próximo para fugir para mais ou menos perto (e cumprimentar o Bryan Ferry em Lamego) e depois, duas semanas para muito, muito longe...

 

A semana complicada fez-me recorrer aos livros e à música como há muito já não o fazia. Fez-me recordar também as palavras e os conselhos da GC (a alemã) e do meu pai... O último, infelizmente, já não está cá para acompanhar as peripécias. Não está, nem nas estrelas nem em mais lado algum, não está...

 

Talvez por isso a minha selecção literária vá para os clássicos, para Cicero e o seu "De officiis" que é o mesmo que dizer "Dos Deveres". Li vários excertos deste livro em latim e depois, já na minha língua mãe, e é um verdadeiro tratado. Hoje muito se escreve disto e daquilo, mil e uma pessoas a escreverem tudo e nada do mesmo assunto, mas quantos textos perdurarão? Este, de Cicero, ainda perdura, cada vez mais escondido nas prateleiras da História até ser esquecido... Como tantos outros. Por vezes, chego também à conclusão que não deveria ter lido nenhum deles... "Nah"...

 

Tudo aquilo que é honesto dimana dos seguintes quatro elementos: o primeiro é conhecimento, o segundo , o espírito de solidariedade, o terceiro a magnanimidade, e o quarto, a moderação.

Cicero, in "De officiis"

 

Musicalmente, esta semana tenho de entrar na ópera, uma das minhas paixões, embora algumas figuras da nossa praça insistam em dizer que a mesma se encontra morta - uma certa forma de criticarem uma elite como estratégia para fazerem prevalecer a sua, mesmo que também se seja radialista e nunca tenha existido preocupação em trabalhar a dicção...  Só me posso recordar de uma obra magnifica de Georges Bizet, "Les Pêcheurs de Perles" ou seja, "Os Pescadores de Pérolas"... O CD comprado no "Palais Garnier" ainda cá mora...

 

Gratidão, coragem e amor - o amor, sempre presente mesmo em tempos conturbados! O exemplo de Nadir e Leila e sobretudo de Zurga não deixa ninguém indiferente! Uma ópera, um libretto que deveria ser obrigatório em todas as estantes... Fica a ária, talvez a mais conhecida e consequentemente a mais bela, aqui interpretada por Roberto Alagna e o grande Bryn Terfel: "Au fond du temple saint".

Finalmente... Esta semana também recordei, de Florian Henckel von Donnersmarck,  o filme "Das Leben der Anderen" (penso que traduzido como "A Vida dos Outros") - vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007. Alguns talvez conheçam melhor este realizador através do filme "O Turista". Sem desvendar muito, vamos assistir à passagem de um homem da "morte" para a "vida" por intermédio da experiência que terá como agente da Stasi na antiga República Democrática Alemã. Amor, história, calculismo... 

Finalmente, e para que tenham um excelente fim de semana, pensem alegremente que arderam em Agosto deste ano, na Amazónia brasileira, cerca de 2,5 milhões de hectares e na Venezuela, Bolívia e Colômbia foram registados, respectivamente 26000, 18000 e 14000 incêndios! Em África foram detectados pela NASA (até 21 de Agosto) 6902 focos de incêndio em Angola e 3395 na República Democrática do Congo (RDC) - vejam a fauna e a flora que existem nestes países, nomeadamente a floresta tropical da RDC.

Para Domingo, podem sempre pensar que na Sibéria arderam até hoje 5,4 milhões de hectares de bosques e floresta e só 9% dos fogos estão a ser combatidos - é bom que arda para se começar a extrair o que há naquele solo, maravilha! Na Indonésia, onde todos gostam de passar umas boas férias, só na primeira metade do ano e na região de Kalimantan (o lado indonésio da ilha de Bornéu) a desflorestação aumentou 52% em comparação com 2018! O governo indonésio tem vindo a ser pressionado pela comunidade internacional, mas nada faz... Na Europa, mais precisamente na Península Ibérica, para terminar, estamos a assistir ao nascimento de um novo conceito de fogo: " incêndios sem capacidade de extinção". Nada mau, hein?

 

Bom fim de semana...

 

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O Mundo Envia-nos Lixo e Nós Damos-lhe Música!

por Robinson Kanes, em 15.03.17

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Fonte das Imagens: Orquesta de Reciclados de Cateura

 

No seguimento de um artigo muito interessante que tive oportunidade de ler (http://quimeraseutopias.blogs.sapo.pt/do-lixo-para-a-boca-38578) e que me chocou profundamente, aproveito esta minha exposição, não só para divulgar o mesmo – posto que a comunicação social em Portugal prefere virar o foco para o futebol e para o fútil – mas também para abordar uma iniciativa que é um verdadeiro exemplo de como se pode sair do lixo... ainda tive esperança de ver aquele artigo em destaque...

 

Cateura, no Paraguai, é a maior lixeira daquele país, aliás, é considerada uma zona inabitável face à degradação que aí se encontra e ao elevadíssimo risco de cheia. Inabitável... mas local de residência para 2500 famílias!

 

0c2f2c_e5e7546a109849b6bc0b23b206f01add.jpgFoi entre esta degradação que um indivíduo encontrou uma forma de criar valor acrescentado... valor acrescentado numa lixeira. Começou por fazer instrumentos com o próprio lixo e o resultado foi que um grupo de crianças completamente esquecidas pela sociedade se transformaram em artistas e deram origem à “Landfil Harmonic” ou, menos sonante mas mais genuíno, a “Orquesta de Reciclados de Cateura”.

 

O lema da orquestra é algo extraordinário e ao mesmo tempo provocador: “O Mundo envia-nos lixo e nós damos-lhe música”. Num só projecto temos uma lição ambiental, uma lição educacional e uma lição social. Do atelier, porque existe um atelier, saem todos os instrumentos feitos à base de... lixo... são esses instrumentos que vão acompanhando um grupo de crianças na sua educação e viagens pelo mundo, crianças perdidas e entregues a uma sorte que... de sorte tem pouco.

 

Lembro-me de ter partilhado esta temática com muita gente (sobretudo da área social e ambiental em Portugal) que, simplesmente, olhou para mim com um desprezo tal que me fez pensar onde estaria a lixeira... se em Cateura, se numa mentalidade triste e tacanha que habita na cabeça de muitos portugueses que se orgulham de ter dado mundos ao Mundo, mas cuja cabeça e visão não vai além do seu pequeno quintal.

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Todo este projecto começou sem apoios do Estado, afinal falamos de pobreza em Portugal, mas não sabemos realmente o que é ser pobre. Hoje, além de vários prémios (inclusive para um documentário) e apoios de vários mecenas esta orquestra é um verdadeiro sucesso. Mas há países onde alguns indivíduos, que se dizem homens e mulheres de terreno, ou os apóstolos da felicidade, cujo suícidio é iminente se ficam sem o relógio de marca, se riem e exclamam: “instrumentos de lixo, que estupidez!”.

 

Talvez a música que nos chegue desta orquestra possa inspirar muitos que andam por aí, numa lixeira diária... e se esquecem que... mesmo com talas nos olhos, cavalos e burros caminham em frente... talvez a inspiração possa vir do texto de Agustina em “Fanny Owen” porque muito provavelmente “ as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina”.

 

Um pequeno vídeo, resumo da "Orquesta de Reciclados de Cateura"

 

 

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