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historia_da_morte_ocidente.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A última coisa que vem à cabeça de alguém que está prestes a ir de fim de semana é a morte! No entanto, o prometido é devido (promessa à MJP) e assim sendo começa de forma bastante célere o artigo de hoje como uma sugestão do diabo: Philippe Ariès e o seu trabalho "Sobre a História da Morte no Ocidente". Arìes foi um historiador, no entanto, foi um pioneiro a desmistificar a morte, sobretudo numa óptica mais sociológica e até antropológica.

 

Arìes faz-nos uma demonstração de como a temática da morte, a Ocidente, foi evoluindo ao longo dos séculos  bem como dos seus avanços e recuos na forma como lidamos com a mesma. Arìes vai ao homem medieval que se preparava para a morte e chega ao homem moderno com descobertas muito interessantes como a evolução da própria localização do cemitério. Esta é uma das obras que mais gostei de ler e de facto é fascinante, levando-me a aferir de que em muitas situações relacionadas com o tema da morte, estamos mesmo lá para trás. Em muitas situações o homem medieval estava bastante mais à frente que nós, sobretudo na preparação para a morte - é um facto que a religião ajudava, a fé em algo superior também.

 

Em termos musicais, o último fim de semana de Agosto traz-me algumas memórias e uma certa nostalgia... Sinto que tenho de ouvir "The Last Waltz" do compositor sul-coreano Jo Yeong-wook. Transporta-nos efectivamente para essa nostalgia, para esses passos alegres num passado distante alternando entre as memórias longínquas e os sorrisos presentes. Este tema faz parte da banda sonora do filme "Old Boy", prémio do júri, em 2014, no Festival de Cannes - não associo a música ao filme, mas tenho de admitir que a banda sonora e o filme merecem uma visita.

Um fim de semana sem um filme não é um digno desse nome... Não sei porquê, de repente recordei-me do filme "Merry Christmas Mr. Lawrence", indicado para uma palma de ouro em Cannes e que até contou com David Bowie como actor. É um filme de 1983 e que baseia nos livros e experiências de Laurens van der Post como prisioneiro de guerra no Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez me tenha deixado influenciar por "Old Boy" ou talvez não...

 

Afinal, a banda sonora tem esta obra-prima de Ryuichi Sakamoto - "Merry Christmas Mr. Lawrece" para escutar e ver. Acho que ainda anda algures por aqui! Sakamoto (que participou no filme) anda de certeza em CD, mas será tema para outro artigo...

E porque as boas notícias são para ser dadas e sempre fica algo para se pensar: Angola também está a arder... Muitos países em África também estão a arder... A Sibéria arde há meses... Em Moçambique continuam a morrer milhares de pessoas devido às cheias, mas ninguém quer saber... Desta vez não há folclore e por isso também não existem likes. Quando o tecto vos cair em cima, os vossos corpos forem carbonizados ou descobrirem qual a sensação de morrerem afogados, lembrem-se que também só serão lembrados se as vossas mortes derem likes.

 

Um apontamente final: em Hong Kong também se cancelou uma manifestação pela Democracia e por não ser possível acautelar a integridade física dos participantes. Na Rússia a história repete-se, mas aqueles que andaram calados nos incêndios de Pedrogão (PAN, BE, PCP, PS, Quercus e demais suspeitos do costume) criticam Portugal por não tomar uma posição em relação à Amazónia e até se esquecem do nosso papel em Timor e nos 20 anos do referendo para a independência - algo que tem sido celebrado ao longo da semana...

 

Bom fim de semana...

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Entre o "Acomisme" e as Cinzas...

por Robinson Kanes, em 18.07.19

asturias.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que ermege da imagem de qualquer coisa futura ou passada, sobre a qual não é possível ter certezas

António Damásio, in "Ao Encontro de Espinosa"

 

Talvez um dos maiores segredos para uma vida de sucessos esteja de facto relacionada com a capacidade de nos despojarmos de um certo "acomisme", de pensarmos a nossa realidade com aquilo que temos agora e pensar pouco no que há-de vir. Talvez sim, talvez não... Retirando intelectualidade à coisa, será o mesmo que dizer "vive o momento".

 

Será isso que nos torna mais fortes perante a adversidade, perante todos os mal-entendidos que, de um minuto para o outro, podem dinamitar as nossas relações? Dou comigo a pensar em como as coisas mudam ao longo dos tempos, em como na distracção dos dias nos desviamos daquilo que é importante, e talvez... outrem o faça. Porque é que os abraços se perdem, porque é que os beijos e os carinhos se perdem? Será porque vivemos esse "acomisme"? Nós estamos presentes, estamos face a face com numa vivência diária... E porque é que? Porque é que a falta/ausência nos leva a questionar tudo isso? Talvez não esteja apto a responder a essa questão, talvez a minha capacidade de ter ideias esteja reduzida na tristeza e aguarde a ventura para poder ser mais expansiva.

 

De facto, não sei... Custa-me perceber o turbilhão de emoções que de repente se alteram e de um minuto para o outro se transformam. Talvez as palavras de García Márquez tenham razão de ser quando este nos diz que "os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as suas mães os dão à luz, mas que a vida os obriga uma e outra vez ainda a parirem-se a si mesmos". Talvez nesse trecho da "Crónica de uma Morte Anunciada" esteja resumido uma componente da nossa vivência! Somos paridos uma vez, mas temos de nos parir uma e outra e outra vez...

 

Talvez tenha nascido novamente por estes dias, ou talvez não... É neste anabolismo que nos podemos bater até o cansaço - correndo o risco de cair na apatia total e no vazio. É neste anabolismo que nos afundamos e percebemos que o mundo é como é, sem utopias... Sem coisas belas que duram para sempre. E assim caminhamos até ao dia em que já não queremos ser fetos, não queremos ser corpos extraídos numa fecundadidade que teima em não cessar. Esse é o dia, ou a escala de dias, em que deixamos cair a toalha ao chão e ficamos abandonados à nossa tristeza, deixando que a vida corra o seu caminho até sermos estrume... Até sermos nós nas lágrimas dos outros, pelo menos até ao momento em que deixam o crematório e depois de um banho, já em casa, sacodem o pouco que ainda resta do que de nós ficou no ar poluído da cidade ou na terra que se renova com a nossa massa...

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Fechados em respeito pela Grande...

por Robinson Kanes, em 04.06.19

32381364452959G.jpg

Créditos: https://www.skoob.com.br/autor/3238-agustina-bessa-luis

 

E porque aqui sempre se seguiu Agustina... E porque aqui não nos lembramos dos grandes só quando morrem ou quando dão mais visualizações... E porque aqui sabemos que somos parolos e sempre seremos sem ser necessário camuflar tal facto com pseudo-intelectualidades... E porque aqui continuaremos a ler Agustina, mesmo quando o hype de falar da sua morte passar já amanhã... E porque aqui sabemos que existe alguém que está de rastos com a morte de uma das suas escritores de eleição... E porque aqui Vila Meã será sempre ponto de paragem... E porque aqui somos assim e sabemos que "as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina” (quem leu Fanny Owen sabe o que quero dizer) estaremos de luto.

 

E agora, sem perceber porquê, recordei-me do grande Eugénio de Andrade...

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Ցտեսություն Aznavour...

por Robinson Kanes, em 03.10.18

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Imagem: Robinson Kanes 

 

 

E acerca do grande "Formidable", não preciso de dizer mais nada!

 

շնորհակալություն Charles...

 

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Morreu o Correia!

por Robinson Kanes, em 23.08.18

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 Imagem: Própria.

 

 

 

A morte não é, então, o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta.

Emmanuel Levinas, in "Deus, a Morte e o Tempo".

 

Num canal ou numa época em que, quando alguém conhecido da praça morre e de repente se percebe que tinha milhões e milhões de amigos que procuram prestar-lhe uma homenagem, venho recordar um daqueles primeiros artigos que aqui se escreveram e que hoje me veio à memória... Chegou-me à memória porque me lembrei do Correia... O Correia que não era uma pop star ou um indivíduo daqueles que, quando morre, é notícia e todos têm opinião sobre o mesmo (mesmo aqueles que nunca ouviram falar dele). O Correia, apesar de conhecido num meio mais fechado, era o Correia, um anónimo... E é como anónimo que, mais uma vez, recordo o Correia...

 

Hoje morreu o Correia.

 

Não! O Correia (nome fictício) morreu em Janeiro. É como se praticamente 10 meses nos separassem desde aquela última conversa em Novembro. Recordo-me, estava com a Maria (nome fictício). Em trabalho visitámos o nosso amigo de curta data. Uns meses... fomos àquele teatro, mais um vez, descobrimos a doença recém-diagnosticada e quedámo-nos desamparados perante a subtileza do destino.

 

Sim, a doença também toma conta dos mestres. Sim, o Correia, naquele seu ar austero, com um sorriso contido mas genuíno como o halo que circundava os seus gestos, também contidos, era um mestre do Teatro e da Cultura.

 

Era o amigo de curta data que nos contagiou de imediato e nos ensinou a diferença entre o animar e o criar, entre o fazer teatro e o fazer espectáculo. Que nos mostrou, como outros, que o Teatro é de todos e não somente de alguns, no fundo como a sua própria personagem, agora contida, mas abatida pelas escaras da doença que lhe dava um ar inverosímil.

 

Discutimos, ainda sorrimos e inclusive, no seu estilo rebelde, lá tivemos de tirar o Correia daquele parque de estacionamento sem que este tivesse que pagar por ele. Quem me lê, vai-me já atirar a primeira pedra, mas apesar de defender a ética e a transparência também tenho o meu lado rebelde e de criança, beati mundo corde.

 

A chuva de Novembro, que sempre tirou um ar luminoso ao mês do meu aniversário, caía forte sobre Lisboa, aquela Lisboa esquecida lá para os lados do Beato, aquela Lisboa que por mais escura que seja, não consegue cevar aquele ar escuro e carrancudo quando o sol cruza o mar da palha, entra rio adentro e decide ali pintar de cor aqueles bairros que até há muito pouco tempo, eram a porta de entrada da cidade.

 

Saímos e nem pensámos em trabalho... tomámos a difícil decisão de deixar o Correia descansar. Por vezes sentíamos que carregava o peso do mundo e apesar do paz exterior, internamente tentava dominar todos as erupções que emergiam do interior da terra.

 

O Correia morreu, mas não foi hoje, foi em Janeiro... e só hoje soubemos que o nosso parceiro e amigo tinha morrido. Talvez, e como o disse Levinas, tenhamos em nós aquele sentimento de que a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente. Talvez tenhamos aquele arrependimento de não ter percebido os sinais. Talvez o trabalho e todos os desafios que dez meses nos proporcionaram e quase sem tempo para respirar, nos tenham deixado ficar somente por correspondência electrónica à qual não tivemos resposta. E o telefone que estava tão ali à mão...

 

Por certo o nosso parceiro, o nosso colega de trabalho sempre estivesse ali, mas nós não. Talvez até, o Correia, que de nós pouco conhecia, não quisesse a nossa presença.

 

Talvez ouse escolher uma banda sonora para o Correia, para este momento e para alguém que gostava de piano tal como eu, talvez lá do alto (se ele assim existir) esteja sentado ao lado de Beethoven, enquanto este executa com mestria o Concerto para Piano nº 5 e se possa deixar envolver por cada acorde tocado com toda a emoção que cada nota nos transmite. Talvez, também para mim, para nós, essa banda sonora seja uma espécie da cura e não de paliativo... minuetur atrae carmine curae.

 

Termina Bethoven, que nos tenta escutar de “funil” ao ouvido e é como se sentisse uma alegria desesperada nesta tarde aérea de brisas. É assim que estou, é assim que me quero sentir.

 

Hoje morreu o Correia, hoje morremos também nós um pouco...

 

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Beber um Copo no Hospital!

por Robinson Kanes, em 09.12.17

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 O Violinista Feliz, Gerad van Honthorst - Rijksmuseum

Fonte: própria.

 

Quando estamos com amigos, uma das poucas coisas que nos passa pela cabeça é ir tomar um copo ao hospital. No entanto, em França pode ser uma realidade.

 

Um dos exemplos mais falados foi o "Bar à Vin" criado num dos hospitais do Centro Hospitalar de Clermont-Ferrand, nomeadamente, numa das infraestruturas destinadas a cuidados paliativos e geriátricos. Segundo os responsáveis, esta iniciativa, destinada a doentes, amigos e familiares, visa atenuar os efeitos dos tratamentos paliativos que podem durar semanas ou meses. Sendo a vida, o foco principal destes profissionais, nada como garantir que a mesma, mesmo nestes momentos mais difíceis é aproveitada. É ir mais longe na medicina e trazer variáveis como as emoções e garantir um nível de satisfação e bem-estar a quem já pouco espera da vida... Além disso, paliativos não é sinónimo de "vegetal".

 

Mais do que discutir se o vinho faz bem ou mal à saúde é, com a correcta supervisão, promover qualidade de vida àqueles que se encontram numa situação em que já não podem esperar muito da mesma. É promover também o bem-estar, o diálogo - beber é um acto social - e acima de tudo ir mais longe e não cair no erro de continuar a limitar o acesso a coisas que no fundo, já não mudarão o infeliz diagnóstico de todos aqueles que aí se encontram. 

 

Sobre esta temática, deixo-vos uma entrevista de Catherine Le Grand-Sébille ao "Libération"  e onde a investigadora e autora do estudo "Fins de vie" desmistifica algumas questões que ainda se podem colocar acerca do consumo de álcool em ambiente hospitalar.

 

A presença do "vinho" nos hospitais não é nova, aliás, chegaram a ser uma espécie de remédio para o bem-estar dos pacientes durante séculos. Até em Portugal o vinho do Porto tem várias histórias associadas aos benefícios deste para a cura de algumas doenças, inclusive da peste, mas isto são, sobretudo, histórias que foram sendo contadas e com difícil constatação cientifica. Todavia, não é incomum encontrar histórias, relatos e testemunhos de hospitais que produziam vinho e também o consumiam internamente, sobretudo em França.

 

Por cá continuamos a falar de paliativos, com os especialistas do costume... A falar... A falar... Mas estes continuam a ser uma espécie de ante-câmara da morte, muitas vezes, com pior aspecto que a própria morte... Afinal, os últimos dias de um paciente não têm de ser um autêntico martírio só porque preferimos fazer outsourcing do nosso sofrimento e fechá-lo também num quarto deprimente...

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Trovatore_1985-s.jpg

 Fonte: http://www.thirteen.org/13pressroom/press-release/great-performances-at-the-met-il-trovatore/

 

Ontem tive a notícia de que o mundo da música ficou mais pobre... Fui confrontado com a morte do siberiano Dmitri Hvorostovsky, o grande barítiono russo que não resistiu a dois anos e meio de luta contra um tumor cerebral.

 

Dmitri Hvorostovsky é uma jóia russa e isso ficou bem patente nas condolências prestadas pela presidência do seu país. De Hvorostovsky só posso recordar algumas árias de grandes óperas, uma delas a "Di Provenza il Mar Il Suol" da "La Traviata",ópera de Verdi que já abordei aqui, onde desempenhou o papel do pai de Alfredo, o Sr. Giorgio Germont. Deixo aqui uma dessas interpretações, é belo... E porque não dedicarem uma parte do fim-de-semana à "La Traviata?

 

E como hoje é dia 24 de Novembro, celebra-se também o aniversário da morte de outro senhor da música... O tanzaniano Farrokh Bulsara que em 1991 nos deixava um dia após ter assumido a doença (HIV). Para muitos, este nome é estranho, mas se vos falar em Freddy Mercury já é possível que conheçam... Por isso, depois de uma triste "La Traviata" e de chorarmos a morte de Violetta, nada como apreciar os "Princes of the Universe" dos "Queen"... Afinal acabamos todos por ser principes neste universo infinito... Gosto especialmente da sonoridade deste tema e claro, da guitarrada a solo do Brian May, o grande guitarrista da banda... 

 

Finalmente, tenho de falar num livro de Ludgero Santos e que não é fácil encontrar em livrarias... Falo do "Perfume da Savana"... Sei que muito já se falou deste livro por aqui, pelo que vos dispenso a descrição do enredo. Aponto, contudo, que só alguém com uma grande vivência em África poderia escrever tal livro... Muito se escreve de África mas poucos terão experenciado e conseguido colocar em livro ou documentário aquilo que Ludgero Santos nos descreve... Ludgero é um guia de uma África única e de tempos passados que marcaram gerações de negros e brancos... A coroar tudo isto, a capacidade de Ludgero em descrever o amor e em criar uma daquelas histórias que nos prendem e que nem sempre acabam como desejamos...

 

Desconheço se estamos a falar de ficção ou de realidade, mas a sensação com que fico é que estamos quase num relato na primeira pessoa. Obrigado Ludgero.

 

IMG_20171124_083415.jpg

Fonte: Própria.

 

 Bom fim-de-semana...

 

 

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A Uber dos Mortos...

por Robinson Kanes, em 23.11.17

IMG_4464.jpg

Fonte da Imagem: Própria. 

 

Se fosse hoje, a versão da música dos Ghostbusters (Caça-Fantasmas), da autoria de Ray Parker Jr. seria algo como:

 

Se queres fazer um jantar de gala...

Quem é vais chamar?

O Panteão Nacional!

 

Se ao centro de Lisboa queres chegar, mas não queres um taxista que te leve a Cascais...

Quem é que vais chamar?

A Uber!

 

Se o teu amigo ou familiar morreu e queres enterrá-lo ou cremá-lo...

Quem é que vais chamar?

A UMER!

 

A UMER! Pois é, empacotar os nossos entes queridos agora está ao alcance de uma "app" (https://www.umer.mobi) termo porreiraço para aplicação. Até porque aplicação dá sempre aquela sensação de que estamos a falar de bricolage e se não formos alemães ou esmerados pais de familia americanos é provável que o impacte seja fraco.

 

Quando ouvi falar da UMER há algum tempo ainda pensei que era mais uma daquelas coisas que nascem e morrem no dia a seguir mas... A verdade, é que a "app" dos mortos continua activa e de boa saúde. Imaginem o vosso ente querido a quinar e toda aquela papelada que é preciso preencher além de termos de encontrar a melhor cama possível, uma espécie de IKEA mas sem o "monte você mesmo"? É aborrecido e além disso, tal como com alguns taxistas, estamos sempre sujeitos a ser também enganados por alguns abutres do ramo.

 

Mas a UMER resolve o problema, basta puxarmos do nosso smartphone e tratamos logo ali do serviço. Aliás, UMER em russo, significa algo como "morrer" e o próprio slogan da aplicação é: a aplicação que o ajuda se alguém morrer, ou algo como isto Приложение, которое помогает, если кто-то UMER. Tendo em conta alguns comportamentos a que tenho assistido, o UMER em Portugal fazia sucesso e... Quantos não davam para que um simples clique praticamente fizesse desaparecer os tão amados pais ou amigos? Já viram quão bom pode ser ao não permitir que as férias sejam interrompidas? Quem é que quer deixar os areais do Algarve para chorar os amigos ou enterrar os pais? Cada vez menos! Aposto que a próxima inovação da UMER será o imediato envio de uma mensagem via "whatsapp" com o texto: "o Valdemar morreu, Deus o tenha. Se quiser aparecer na cremação informamos que terá lugar no cemitério de Carnide pelas 16h:30m, o dress code é casual death. Mais informamos que temos o serviço de florista, carpideiras do Trocadero, estacionamento e transfer para convidados. Não hesite em contactar-nos".

 

Também já estou a imaginar a UMER a fazer promoções ou a dinamizar, qual "Bookingdos jazigos, um segmento "genius" para os clientes mais fiéis. Ainda vamos ter os caça funerais sempre à procura do desconto. Imaginem uma pastelaria em que um velho diabético cheio de problemas cardíacos ao empaturrar-se de bolas de berlim e galões cai e morre ali mesmo... Primeiro tirar-se-ão as "selfies" enquanto se simulam manobras de RCP - isso é fundamental - depois todos se irão agarrar ao smartphone na tentativa de serem os primeiros a fazer a reserva... Isto até alguém que ainda vive no século XIX se lembrar de dizer: "então e ninguém ajuda o velho, ele ainda respira! Liguem para o 112". Preparem-se é para ouvir é que afinal "não está nada vivo, está é mal morto!". Ninguém vai querer perder a oportunidade, acreditem.

 

Para o caso de ser comigo, aviso já que quero um funeral ao estilo de Nova Orleães e pretendo ser colocado num local onde todas as noites existam jantaradas e festas... A morada para pagamento das respectivas contas pode ser a Rua do Enxofre Lote 23, Casal do Ò Diabo, 2039-428 Lagameças.

 

A todos uma boa morte...

 

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Do Dia dos Mortos...

por Robinson Kanes, em 31.10.17

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Fonte da Imagem: Própria.

 

Independentemente das convicções religiosas, o "Dia de Todos os Santos" é um dia em família e de alguma reflexão que, em Portugal, tende a ficar transformado numa espécie de Carnaval dos Mortos com o toque de "Halloween" ou "Dia das Bruxas". 

 

É por respeitar as diferentes culturas que sou levado a aceitar que esta é mais uma daquelas importações que jamais deveria ter saído dos países anglo-saxónicos. Podemos alegar que também tem raízes cristãs, o que seria discutível porque há quem aponte os celtas e outras tradições pagãs, muito antes de alguém ter decidido criar uma religião! Transformamos tudo numa festa que mais parece um filme de comédia de terceira linha. Querem fazer festas com mortos? Vão ao México, ou então até muitas regiões de África, aí sim vão ver como estas coisas se fazem e com uma componente étnica e cultural digna de registo. Substituir o "Pão por Deus" ou outras tradições mais bem enraizadas por algo forçado e completamente fora da nossa realidade é, no mínimo, triste! Portugal parece estar na moda desde que se transforme numa colónia de importações "baratas".

 

Eu sugiro até que possamos celebrar o "Halloween" em todos os velórios. Pela forma como tenho visto alguns, além de ser um enfado para muitos que só lá estão para ficar bem perante a sociedade, é também uma festa para outros. O morto já começa a ficar como adereço nestes encontros, em que numa boa forma primitiva, depois de enterrado ou cremado, todos lhe cospem em cima e se juntam para uns copos. Tenho sempre a sensação que o único morto não é aquele que se encontra no caixão, mas um sem número de almas que por ali vagueia sem realmente saber o que está ali a fazer, serão esses os verdadeiros mortos?

 

Recordo-me sempre do "Dia dos Mortos" como aquele dia que era passado em família, com um passeio, mas sem esquecer aqueles que já não estão cá. Não era um dia alegre, não era um dia triste, era sobretudo uma forma de celebrarmos a vida sem andarmos vestidos como se de repente entrássemos no Carnaval de Torres Vedras ou num desfile da "Moda Lisboa". E não, não lhe chamem saudosismo que ainda não estou em idade para isso... Talvez valorizasse o convívio genuíno ao invés dos efeitos distractores.

 

E como é feriado, para o "Dia dos Mortos", nada como uma sugestão! Talvez o meu requiem preferido (esqueçam o de Mozart que é sobrenatural e não entra nestas contas), "Ein deutsches Requiem, Op.45" ou em português "Um Requiem Alemão, Op.45" de Johannes Brahms! Dividido em 7 partes, é a maior obra do compositor, dedicado à sua mãe e também a Schumann. Ao contrário de outros requiem, este baseia-se na tradução da bíblia encetada por Martinho Lutero, um requiem verdadeiramente protestante.

 

 

Admito que me sinto abençoado por já ter ouvido o mesmo ao vivo num Domingo de Páscoa. Na Alemanha, não precisamos de pagar para assistir a concertos porque basta assistir a algumas cerimónias religiosas para ter momentos sinfónicos de uma qualidade que não lembra a ninguém. Um destes locais é a Michaelskirche (Igreja de São Miguel) em Munique! Ainda hoje consigo colocar a música de Brahms nos ouvidos e recordar aqueles momentos singulares em que nos sentimos a ficar sem ar perante tamanho arrebatamento e força com que aqueles coros e aquelas orquestras nos contagiam e ecoam pelas paredes das austeras igrejas da Baviera.

 

Bom feriado...

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"Ter de Ser é Ter de Morrer".

por Robinson Kanes, em 10.10.17

IMG_0647.jpg

Fonte da Imagem: Própria.

 

Ontem escrevi sobre a morte, aliás, penso que escrevi sobre a vida... Tentei rondar algumas das minhas inquietações, colocando o "nós" perante a morte como um não "nós", como um nada, pelo menos enquanto humanos. Procurei, com base numa abordagem mais literária e cientifica, trazer a importância do Homem no quadro do seu destino e de como este ainda não percebeu a enorme responsabilidade que lhe foi atribuida, mesmo tendo chegado à conclusão que não é possível delegar a mesma num ser superior para lá de toda e qualquer possível interpretação.

 

Ao reler o texto de ontem fui novamente à procura Levinas (que também serviu de base), mais precisamente ao seu "Deus, a Morte e o Tempo". Voltei a Levinas, talvez depois de reler nos meus apontamentos a sua interpretação do "ter de ser é ter de morrer", frase que resume a primeira parte do meu texto de ontem. Mas Levinas vai mais longe e coloca-nos perante a realidade de que "a fuga diante  da morte é que atesta a própria morte". Será que ao não fugirmos da morte viveremos mais? Será essa uma forma de protelar a nossa morte e viver um dia-a-dia mais tranquilo? Mas será também esse o caminho mais correcto, o de fechar numa gaveta essa realidade que pode ser o próximo instante?

 

Os antigos, e algumas sociedades ainda hoje convivem bem com a morte, mas a esse contexto está agarrado um outro factor que é uma profunda fé (maior parte das vezes) em algo sobrenatural. O homem medieval do ocidente lidava muito bem com a morte, recebia-a tranquilamente e tudo se cumpria num ritual minuciosamente preparado. No entanto, este não tinha dúvidas de que seria recebido nos céus... Aliás, todo o trabalho de fuga ao "inferno" era realizado muito antes de forma a evitar o castigo divino - hoje, no entanto, percebemos que também foi enganado por uma estrutura religiosa.

 

Fui relendo mais umas páginas, cruzando anteriores leituras com a actual e no fundo a conclusão foi óbvia: "a morte não é, então, o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta". É uma fuga constante, de facto, mesmo que não demos conta dela, é o facto dessa possibilidade existir, mesmo que não pensemos nela, daí o nosso choque com a morte fora da "idade para a mesma", talvez influenciados por aquilo que, mais uma vez, Levinas diz e que se resume no seguinte: "fugimos à morte mantendo-nos ao pé das coisas e interpretando-nos a partir das coisas da vida quotidiana". É talvez essa fuga com motivos distractores que nos fecha neste círculo - fugimos sem ter sequer consciência disso, mas estamos nessa fuga constante. Será também essa fuga e permanência perto das coisas da vida que permitem a própria vida como a conhecemos.

 

Mais uma vez, penso que esta reflexão faz-nos pensar no tipo de vida que queremos, naquilo que ambicionamos e nos guia no quotidiano. Talvez isso, apesar de ser uma covarde fuga, nos permite encetar caminhos mais claros, justos e com uma enorme responsabilidade perante nós, perante os outros e a sociedade em geral... Podemos pensar nisto e, no fundo, conservar alguma esperança, pois "não podemos ignorar o nada da morte, mas também não o podemos conhecer". Por estas palavras, Levinas tentará criar aqui uma atenuante ao estado "negro" dessa condição humana e abrir caminho para uma certa fé/esperança, cabendo a cada um interpretá-la de diferentes formas e com isso estabelecer um caminho de vida que lhe permita ser feliz e permitir que os outros também o sejam... Mesmo que sem fé em algo para lá da morte...

 

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