Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Adiós Viejito...

por Robinson Kanes, em 30.12.20

armando manzanero.jpg

Créditos: https://www.latercera.com/culto/2020/12/28/murio-armando-manzanero-tocado-por-la-mano-de-dios/

 

Aprendí que puede un beso
Ser más dulce y más profundo
Que puedo irme mañana mismo de este mundo
Las cosas buenas ya contigo las viví
Y Contigo aprendí
Que yo nací el día en que te conocí

Armando Manzanero, Contigo Aprendí (Excerto)

 

 

O ano acabou com mais uma perda. Talvez esta não seja digna dos holofotes que outros mais inúteis tiveram, mas na verdade, depois de ter sabido da notícia via ABC (Espanha), encontrei pequenas menções ao facto em Portugal, muito pequenas... mas encontrei, algumas delas com um bom delay.

 

Armando Manzanero, músico e compositor mexicano morreu aos 85 anos. Aquele ar simpático ainda jovem e que se prolongou durante a idade adulta até ao dia em que perdeu a vida. Manzanero não é propriamente o estilo de cantor que um europeu da minha idade pudesse escutar, todavia, cresci a ouvir o senhor, não fosse presença em casa dos meus pais. Tenho de admitir que muitas das suas músicas são verdadeiros hinos que ecoaram por toda a América do Sul e em Espanha onde é admirado ao nível dos melhores cantores e músicos daquele país.

 

Com Manzanero, senti que partiu mais um pouco da minha infância, que o meu cemitério teve mais uma campa e que já precisa de um certo alargamento. Penso que também se perdeu mais um verdadeiro músico, de músicas com conteúdo, de músicas imemoráveis, daquelas que ainda nos lembramos ao fim de um mês ou até mesmo depois de abandonarem as rádios ou redes sociais porque já esgotaram a paciência dos ouvintes ou sobretudo porque já ninguém paga para que as mesmas lá estejam...

 

É o fim de mais um romântico, de alguém que escrevia e percebia de música. É a magia intrínseca das suas baladas e uma entrega única que tem vindo, e agora mais, a ser interpretada também por tantos outros músicos. 

 

A morte de Manzanero foi anunciada com "Adoro", todavia, prefiro despedir-me deste cavalheiro com outras duas músicas, uma que me apaixonou já em idade para ter juízo e outra que muitas vezes escutei lá por casa. Começo com "Contigo Aprendí", uma das músicas que nunca esquecerei... e termino com "Nada Personal", um dueto com Lisset e que chegou a ser tema de uma novela... Ninguém é perfeito...

Armando Manzanero fará parte da banda sonora desta passagem de ano com toda a certeza... Desta e de tantas outras, porque afinal, não foi só Manzanero que morreu. Do México, resta-me agora uma das suas melhores vozes, a ainda muito jovem Natalie Lafourcade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

António José Pinto Doce... Herói Nacional...

por Robinson Kanes, em 14.12.20

50088046368_4579460da5_c.jpg

Créditos: Polícia de Segurança Pública

 

Os grandes valores não se definem, como não se define uma simples dor de dentes.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente V"

 

 

António José Pinto Doce não é famoso, e ainda bem, temo até que hoje em dia isso seja uma virtude. António José Pinto Doce também não tem horas em televisão e não traz votos que justifiquem um folclore criado em torno do mesmo, apesar de não duvidar que o Estado Português lhe prestará a devida homenagem quer por intermédio da Polícia de Segurança Pública (que já o fez) quer por via do Ministério da Administração Interna e até outras instâncias maiores...

 

António José Pinto Doce é um herói nacional simplesmente por ser um cidadão comum... Por ser um Agente Principal colocado no Comando Distrital de Évora. Neste caso, não será preciso fazer storytelling, inventar-lhe dotes e arranjar figuras públicas que digam bem do mesmo. Bastará dizer que o Agente Principal Pinto Doce, fora de serviço, ao presenciar uma agressão de um indivíduo à sua companheira (inclusive o seu arrastamento para dentro de uma viatura) agiu de imediato e tentou terminar com o crime em curso... No entanto, o agressor entrou dentro do seu automóvel, colocou-se em fuga e atropelou este agente (fora de serviço) arrastando-o por 40 metros. O desfecho foi o pior possível, o Agente Principal Pinto Doce, de 45 anos, casado e pai de dois filhos, veio a falecer ontem não resistindo às lesões provocadas pelo atropelamento. O alegado homicida, já havia sido condenado por violência doméstica e é guarda prisional. Sim, isto é possível... Como é possível que se o desfecho fosse a morte do agressor muita tinta seria impressa, mas a grandeza de cidadãos e instituições também se vê pelo seu weltanschauung.

 

Admito que me toca sempre a morte de um polícia, sobretudo em tempos conturbados como este em que as autoridades parecem ser um alvo a abater. Admito que ainda me tocou mais por a 16 de Novembro ter também eu passado pelo mesmo enquanto evitava uma fuga de um local onde se deu um pequeno acidente de viação, a diferença é que eu estou aqui e consegui escapar ao atropelamento.

 

Temos de saber reconhecer os nossos heróis, mesmo os anónimos, até porque infelizmente esta é uma pátria que distribui condecorações e homenagens consoante o show mediático, as inclinações partidárias e os amigos lá de casa. Muitos destes heróis nos escapam, mas ao invés de andarmos tão atentos a artificialismos, talvez seja a hora de perceber que na nossa família poderá estar um ou até na porta do lado. E muitos desses heróis não precisam de morrer à mão de indivíduos que nem sempre pagam o verdadeiro preço do crime... Muitos desses heróis estão até nos pequenos gestos, naqueles que vemos na rua e passamos, sem selfies, porque o segredo desta espécie de random act of kindness é esse mesmo.

 

Para estes heróis não existem dias de "luto nacional" nem chamadas para televisão filmar, todavia, em cada um de nós deverá existir o reconhecimento de que são estes os exemplos do que é ser cidadão, do que é ser português, do que é ser humano. Os actos falam por si, sem construções, pelo que hoje qualquer português, mesmo sem institucionalismos estará de luto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do Neocarpideirismo...

por Robinson Kanes, em 07.12.20

vultures-4600468_1920.jpgCréditos Nel_Botha-NZ /Pixabay

 

O neocarpideirismo parece ser uma arte que veio para ficar com as redes sociais o com o "look at me", uma espécie de evolução daquilo que foi o carpideirismo.

 

Mas o que foi essa ciência do carpideirismo? Imaginem umas moças contratadas ou convidadas para carpir em honra dos defuntos para conseguir que as famílias e amigos destes mostrassem à freguesia que aquele corpo em câmara-ardente tinha sido um indivíduo muito conhecido e que será por todos para sempre recordado. Referi moças mas mas normalmente eram aquelas velhas viúvas ou solteiras que andavam sempre de negro.

 

O carpideirismo era uma arte que atingia o seu real esplendor aquando do momento da descida do corpo à terra para se encontrar com Deus... Descer à terra para subir aos céus e assim encontrar a vida eterna... Interessante, mas no mínimo paradoxal... O choro e as lamentações, as flores e os gritos que ecoam pelas campas... "Ele eraaaa tãooooo boooom, coitadinhooooo". Era digno de ser, aliás, muitas sopranos foram contratadas no cemitério do Alto de São João.

 

Contudo, o carpideirismo esteve adormecido e voltou em força com novos artistas que recolheram muita da sabedoria desses anos e o adaptaram aos novos tempos, nascendo assim, o neocarpideirismo. E o que é o neocarpideirismo?

 

O neocarpideirismo, ao contrário do primeiro, sai mais barato. A chusma agora voluntaria-se para ser carpideiro. Além de ser mais barato, já não é só composto por velhas e viúvas de negro, mas por gente de todas as idades sendo que agora é mais direccionado para caras conhecidas. E é aqui que encontramos uma das grandes diferenças: antes carpia-se para exaltar o morto, hoje anda-se a carpir para exaltar o carpideiro. Ou seja, sendo o morto alguém conhecido - mesmo que tenha sido um traste - é este que presta um serviço (também ele livre de custos) ao carpideiro.

 

Todos querem estar associados à morte de, seja por prestar sentidos pêsames a alguém que não conhecem de lado nenhum (e não raras vezes nem acompanharam da sua vida) seja para prestar condolências à família como se isso fosse importante. Muitos são os mesmos que não enviam uma mensagem quando alguém próximo empaveia.

 

Além disso o neocarpideirismo reveste-se do neoborreguismo, que é uma espécie de condenação daqueles que estiveram a chorar na morte do pai mas não se emocionam com a morte de um desconhecido. Mesmo que tenham sido os mesmos a ouvirem "é a vida, Deus assim quis"... Aquele cliché que fica sempre bem num funeral mesmo que o tipo seja ateu. 

 

No entanto, existe ainda uma elite dentro do neocarpideirismo, que são os carpidosapadores, sobretudo em redes sociais ou espaços de visibilidade e que emitem imediatamente o seu parecer e o seu pesar às 19h:00m quando a certidão de óbito marca 18:h59m. Eu tenho de confessar uma coisa... Aquela malta já só pode ter uma pasta com uma caterva de nomes e a cada um tem atribuido um epitáfio ou um triste texto de como aquele que parte era gente de bem e que marcou para sempre a sua vida. Existem alguns que também se atrasam e fazem sair o documento depois de perceberem que aquilo está a ganhar tracção pois ao anteciparem-se podem ferir o politicamente correcto, não vá um opinion-maker tecer algum ódio ou divulgar algum pormenor escabroso. Ninguém gosta de ficar mal na fotografia.

 

Igualmente, alguém ainda me há-de explicar - esta arte não é para todos - como é que alguém que sofre tanto com a morte de outrem, nos minutos seguintes já consegue ter uma música, um poema, um texto de 200 páginas ou um filme e estar de cinco em cinco minutos a disparar "instas" e "tweets". Eu admito que não sou capaz, mesmo quando não quero dar nas vistas e conto mesmo dizer algo verdadeiro. Bem, mais ou menos, porque algumas vezes se for verdadeiro é possível que diga algo como: o gajo também não era propriamente flor que se cheirasse, convenhamos.

 

Existe também o taberno-carpideirismo que não foi alvo de grandes transformações. Este consiste basicamente numa colectânea de documentos que também alguém tem armazenada e pronta a sair sempre que alguém fenece. Mas como agora "não se" podem fazer piadas quando alguém nos abandona (nem dizer a verdade do passado de muitos), estes artistas tendem a circular numa espécie de underground como locais de trabalho, cafés, "whatsapps" e jantaradas de amigos... Normalmente, muito destes taberno-carpideiros também assumem o papel da elite acima referida, afinal a neohipocrisia também veio para ficar.

 

E finalmente, qual inquisição de novos saberes, existem os sucessores dos cristãos-novos, aqueles que em tempos gozavam com tudo e com todos e assim chegaram ao estrelato, especialmente nestas ocasiões, e agora são conhecidos por, sempre que a alguém  (de preferência que lhes traga retorno) lhe arrefece o céu da boca, serem os primeiros a lamentar tamanha perda com palavras bonitas e fofinhas.

 

Temos arte culta e adulta, como dizem os outros...

Autoria e outros dados (tags, etc)

historia_da_morte_ocidente.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A última coisa que vem à cabeça de alguém que está prestes a ir de fim de semana é a morte! No entanto, o prometido é devido (promessa à MJP) e assim sendo começa de forma bastante célere o artigo de hoje como uma sugestão do diabo: Philippe Ariès e o seu trabalho "Sobre a História da Morte no Ocidente". Arìes foi um historiador, no entanto, foi um pioneiro a desmistificar a morte, sobretudo numa óptica mais sociológica e até antropológica.

 

Arìes faz-nos uma demonstração de como a temática da morte, a Ocidente, foi evoluindo ao longo dos séculos  bem como dos seus avanços e recuos na forma como lidamos com a mesma. Arìes vai ao homem medieval que se preparava para a morte e chega ao homem moderno com descobertas muito interessantes como a evolução da própria localização do cemitério. Esta é uma das obras que mais gostei de ler e de facto é fascinante, levando-me a aferir de que em muitas situações relacionadas com o tema da morte, estamos mesmo lá para trás. Em muitas situações o homem medieval estava bastante mais à frente que nós, sobretudo na preparação para a morte - é um facto que a religião ajudava, a fé em algo superior também.

 

Em termos musicais, o último fim de semana de Agosto traz-me algumas memórias e uma certa nostalgia... Sinto que tenho de ouvir "The Last Waltz" do compositor sul-coreano Jo Yeong-wook. Transporta-nos efectivamente para essa nostalgia, para esses passos alegres num passado distante alternando entre as memórias longínquas e os sorrisos presentes. Este tema faz parte da banda sonora do filme "Old Boy", prémio do júri, em 2014, no Festival de Cannes - não associo a música ao filme, mas tenho de admitir que a banda sonora e o filme merecem uma visita.

Um fim de semana sem um filme não é um digno desse nome... Não sei porquê, de repente recordei-me do filme "Merry Christmas Mr. Lawrence", indicado para uma palma de ouro em Cannes e que até contou com David Bowie como actor. É um filme de 1983 e que baseia nos livros e experiências de Laurens van der Post como prisioneiro de guerra no Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez me tenha deixado influenciar por "Old Boy" ou talvez não...

 

Afinal, a banda sonora tem esta obra-prima de Ryuichi Sakamoto - "Merry Christmas Mr. Lawrece" para escutar e ver. Acho que ainda anda algures por aqui! Sakamoto (que participou no filme) anda de certeza em CD, mas será tema para outro artigo...

E porque as boas notícias são para ser dadas e sempre fica algo para se pensar: Angola também está a arder... Muitos países em África também estão a arder... A Sibéria arde há meses... Em Moçambique continuam a morrer milhares de pessoas devido às cheias, mas ninguém quer saber... Desta vez não há folclore e por isso também não existem likes. Quando o tecto vos cair em cima, os vossos corpos forem carbonizados ou descobrirem qual a sensação de morrerem afogados, lembrem-se que também só serão lembrados se as vossas mortes derem likes.

 

Um apontamente final: em Hong Kong também se cancelou uma manifestação pela Democracia e por não ser possível acautelar a integridade física dos participantes. Na Rússia a história repete-se, mas aqueles que andaram calados nos incêndios de Pedrogão (PAN, BE, PCP, PS, Quercus e demais suspeitos do costume) criticam Portugal por não tomar uma posição em relação à Amazónia e até se esquecem do nosso papel em Timor e nos 20 anos do referendo para a independência - algo que tem sido celebrado ao longo da semana...

 

Bom fim de semana...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Entre o "Acomisme" e as Cinzas...

por Robinson Kanes, em 18.07.19

asturias.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que ermege da imagem de qualquer coisa futura ou passada, sobre a qual não é possível ter certezas

António Damásio, in "Ao Encontro de Espinosa"

 

Talvez um dos maiores segredos para uma vida de sucessos esteja de facto relacionada com a capacidade de nos despojarmos de um certo "acomisme", de pensarmos a nossa realidade com aquilo que temos agora e pensar pouco no que há-de vir. Talvez sim, talvez não... Retirando intelectualidade à coisa, será o mesmo que dizer "vive o momento".

 

Será isso que nos torna mais fortes perante a adversidade, perante todos os mal-entendidos que, de um minuto para o outro, podem dinamitar as nossas relações? Dou comigo a pensar em como as coisas mudam ao longo dos tempos, em como na distracção dos dias nos desviamos daquilo que é importante, e talvez... outrem o faça. Porque é que os abraços se perdem, porque é que os beijos e os carinhos se perdem? Será porque vivemos esse "acomisme"? Nós estamos presentes, estamos face a face com numa vivência diária... E porque é que? Porque é que a falta/ausência nos leva a questionar tudo isso? Talvez não esteja apto a responder a essa questão, talvez a minha capacidade de ter ideias esteja reduzida na tristeza e aguarde a ventura para poder ser mais expansiva.

 

De facto, não sei... Custa-me perceber o turbilhão de emoções que de repente se alteram e de um minuto para o outro se transformam. Talvez as palavras de García Márquez tenham razão de ser quando este nos diz que "os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as suas mães os dão à luz, mas que a vida os obriga uma e outra vez ainda a parirem-se a si mesmos". Talvez nesse trecho da "Crónica de uma Morte Anunciada" esteja resumido uma componente da nossa vivência! Somos paridos uma vez, mas temos de nos parir uma e outra e outra vez...

 

Talvez tenha nascido novamente por estes dias, ou talvez não... É neste anabolismo que nos podemos bater até o cansaço - correndo o risco de cair na apatia total e no vazio. É neste anabolismo que nos afundamos e percebemos que o mundo é como é, sem utopias... Sem coisas belas que duram para sempre. E assim caminhamos até ao dia em que já não queremos ser fetos, não queremos ser corpos extraídos numa fecundadidade que teima em não cessar. Esse é o dia, ou a escala de dias, em que deixamos cair a toalha ao chão e ficamos abandonados à nossa tristeza, deixando que a vida corra o seu caminho até sermos estrume... Até sermos nós nas lágrimas dos outros, pelo menos até ao momento em que deixam o crematório e depois de um banho, já em casa, sacodem o pouco que ainda resta do que de nós ficou no ar poluído da cidade ou na terra que se renova com a nossa massa...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fechados em respeito pela Grande...

por Robinson Kanes, em 04.06.19

32381364452959G.jpg

Créditos: https://www.skoob.com.br/autor/3238-agustina-bessa-luis

 

E porque aqui sempre se seguiu Agustina... E porque aqui não nos lembramos dos grandes só quando morrem ou quando dão mais visualizações... E porque aqui sabemos que somos parolos e sempre seremos sem ser necessário camuflar tal facto com pseudo-intelectualidades... E porque aqui continuaremos a ler Agustina, mesmo quando o hype de falar da sua morte passar já amanhã... E porque aqui sabemos que existe alguém que está de rastos com a morte de uma das suas escritores de eleição... E porque aqui Vila Meã será sempre ponto de paragem... E porque aqui somos assim e sabemos que "as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina” (quem leu Fanny Owen sabe o que quero dizer) estaremos de luto.

 

E agora, sem perceber porquê, recordei-me do grande Eugénio de Andrade...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ցտեսություն Aznavour...

por Robinson Kanes, em 03.10.18

IMG_4806.JPG

Imagem: Robinson Kanes 

 

 

E acerca do grande "Formidable", não preciso de dizer mais nada!

 

շնորհակալություն Charles...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Morreu o Correia!

por Robinson Kanes, em 23.08.18

IMG_0680.jpg

 Imagem: Própria.

 

 

 

A morte não é, então, o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta.

Emmanuel Levinas, in "Deus, a Morte e o Tempo".

 

Num canal ou numa época em que, quando alguém conhecido da praça morre e de repente se percebe que tinha milhões e milhões de amigos que procuram prestar-lhe uma homenagem, venho recordar um daqueles primeiros artigos que aqui se escreveram e que hoje me veio à memória... Chegou-me à memória porque me lembrei do Correia... O Correia que não era uma pop star ou um indivíduo daqueles que, quando morre, é notícia e todos têm opinião sobre o mesmo (mesmo aqueles que nunca ouviram falar dele). O Correia, apesar de conhecido num meio mais fechado, era o Correia, um anónimo... E é como anónimo que, mais uma vez, recordo o Correia...

 

Hoje morreu o Correia.

 

Não! O Correia (nome fictício) morreu em Janeiro. É como se praticamente 10 meses nos separassem desde aquela última conversa em Novembro. Recordo-me, estava com a Maria (nome fictício). Em trabalho visitámos o nosso amigo de curta data. Uns meses... fomos àquele teatro, mais um vez, descobrimos a doença recém-diagnosticada e quedámo-nos desamparados perante a subtileza do destino.

 

Sim, a doença também toma conta dos mestres. Sim, o Correia, naquele seu ar austero, com um sorriso contido mas genuíno como o halo que circundava os seus gestos, também contidos, era um mestre do Teatro e da Cultura.

 

Era o amigo de curta data que nos contagiou de imediato e nos ensinou a diferença entre o animar e o criar, entre o fazer teatro e o fazer espectáculo. Que nos mostrou, como outros, que o Teatro é de todos e não somente de alguns, no fundo como a sua própria personagem, agora contida, mas abatida pelas escaras da doença que lhe dava um ar inverosímil.

 

Discutimos, ainda sorrimos e inclusive, no seu estilo rebelde, lá tivemos de tirar o Correia daquele parque de estacionamento sem que este tivesse que pagar por ele. Quem me lê, vai-me já atirar a primeira pedra, mas apesar de defender a ética e a transparência também tenho o meu lado rebelde e de criança, beati mundo corde.

 

A chuva de Novembro, que sempre tirou um ar luminoso ao mês do meu aniversário, caía forte sobre Lisboa, aquela Lisboa esquecida lá para os lados do Beato, aquela Lisboa que por mais escura que seja, não consegue cevar aquele ar escuro e carrancudo quando o sol cruza o mar da palha, entra rio adentro e decide ali pintar de cor aqueles bairros que até há muito pouco tempo, eram a porta de entrada da cidade.

 

Saímos e nem pensámos em trabalho... tomámos a difícil decisão de deixar o Correia descansar. Por vezes sentíamos que carregava o peso do mundo e apesar do paz exterior, internamente tentava dominar todos as erupções que emergiam do interior da terra.

 

O Correia morreu, mas não foi hoje, foi em Janeiro... e só hoje soubemos que o nosso parceiro e amigo tinha morrido. Talvez, e como o disse Levinas, tenhamos em nós aquele sentimento de que a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente. Talvez tenhamos aquele arrependimento de não ter percebido os sinais. Talvez o trabalho e todos os desafios que dez meses nos proporcionaram e quase sem tempo para respirar, nos tenham deixado ficar somente por correspondência electrónica à qual não tivemos resposta. E o telefone que estava tão ali à mão...

 

Por certo o nosso parceiro, o nosso colega de trabalho sempre estivesse ali, mas nós não. Talvez até, o Correia, que de nós pouco conhecia, não quisesse a nossa presença.

 

Talvez ouse escolher uma banda sonora para o Correia, para este momento e para alguém que gostava de piano tal como eu, talvez lá do alto (se ele assim existir) esteja sentado ao lado de Beethoven, enquanto este executa com mestria o Concerto para Piano nº 5 e se possa deixar envolver por cada acorde tocado com toda a emoção que cada nota nos transmite. Talvez, também para mim, para nós, essa banda sonora seja uma espécie da cura e não de paliativo... minuetur atrae carmine curae.

 

Termina Bethoven, que nos tenta escutar de “funil” ao ouvido e é como se sentisse uma alegria desesperada nesta tarde aérea de brisas. É assim que estou, é assim que me quero sentir.

 

Hoje morreu o Correia, hoje morremos também nós um pouco...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Beber um Copo no Hospital!

por Robinson Kanes, em 09.12.17

IMG_4621.jpg

 O Violinista Feliz, Gerad van Honthorst - Rijksmuseum

Fonte: própria.

 

Quando estamos com amigos, uma das poucas coisas que nos passa pela cabeça é ir tomar um copo ao hospital. No entanto, em França pode ser uma realidade.

 

Um dos exemplos mais falados foi o "Bar à Vin" criado num dos hospitais do Centro Hospitalar de Clermont-Ferrand, nomeadamente, numa das infraestruturas destinadas a cuidados paliativos e geriátricos. Segundo os responsáveis, esta iniciativa, destinada a doentes, amigos e familiares, visa atenuar os efeitos dos tratamentos paliativos que podem durar semanas ou meses. Sendo a vida, o foco principal destes profissionais, nada como garantir que a mesma, mesmo nestes momentos mais difíceis é aproveitada. É ir mais longe na medicina e trazer variáveis como as emoções e garantir um nível de satisfação e bem-estar a quem já pouco espera da vida... Além disso, paliativos não é sinónimo de "vegetal".

 

Mais do que discutir se o vinho faz bem ou mal à saúde é, com a correcta supervisão, promover qualidade de vida àqueles que se encontram numa situação em que já não podem esperar muito da mesma. É promover também o bem-estar, o diálogo - beber é um acto social - e acima de tudo ir mais longe e não cair no erro de continuar a limitar o acesso a coisas que no fundo, já não mudarão o infeliz diagnóstico de todos aqueles que aí se encontram. 

 

Sobre esta temática, deixo-vos uma entrevista de Catherine Le Grand-Sébille ao "Libération"  e onde a investigadora e autora do estudo "Fins de vie" desmistifica algumas questões que ainda se podem colocar acerca do consumo de álcool em ambiente hospitalar.

 

A presença do "vinho" nos hospitais não é nova, aliás, chegaram a ser uma espécie de remédio para o bem-estar dos pacientes durante séculos. Até em Portugal o vinho do Porto tem várias histórias associadas aos benefícios deste para a cura de algumas doenças, inclusive da peste, mas isto são, sobretudo, histórias que foram sendo contadas e com difícil constatação cientifica. Todavia, não é incomum encontrar histórias, relatos e testemunhos de hospitais que produziam vinho e também o consumiam internamente, sobretudo em França.

 

Por cá continuamos a falar de paliativos, com os especialistas do costume... A falar... A falar... Mas estes continuam a ser uma espécie de ante-câmara da morte, muitas vezes, com pior aspecto que a própria morte... Afinal, os últimos dias de um paciente não têm de ser um autêntico martírio só porque preferimos fazer outsourcing do nosso sofrimento e fechá-lo também num quarto deprimente...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Trovatore_1985-s.jpg

 Fonte: http://www.thirteen.org/13pressroom/press-release/great-performances-at-the-met-il-trovatore/

 

Ontem tive a notícia de que o mundo da música ficou mais pobre... Fui confrontado com a morte do siberiano Dmitri Hvorostovsky, o grande barítiono russo que não resistiu a dois anos e meio de luta contra um tumor cerebral.

 

Dmitri Hvorostovsky é uma jóia russa e isso ficou bem patente nas condolências prestadas pela presidência do seu país. De Hvorostovsky só posso recordar algumas árias de grandes óperas, uma delas a "Di Provenza il Mar Il Suol" da "La Traviata",ópera de Verdi que já abordei aqui, onde desempenhou o papel do pai de Alfredo, o Sr. Giorgio Germont. Deixo aqui uma dessas interpretações, é belo... E porque não dedicarem uma parte do fim-de-semana à "La Traviata?

 

E como hoje é dia 24 de Novembro, celebra-se também o aniversário da morte de outro senhor da música... O tanzaniano Farrokh Bulsara que em 1991 nos deixava um dia após ter assumido a doença (HIV). Para muitos, este nome é estranho, mas se vos falar em Freddy Mercury já é possível que conheçam... Por isso, depois de uma triste "La Traviata" e de chorarmos a morte de Violetta, nada como apreciar os "Princes of the Universe" dos "Queen"... Afinal acabamos todos por ser principes neste universo infinito... Gosto especialmente da sonoridade deste tema e claro, da guitarrada a solo do Brian May, o grande guitarrista da banda... 

 

Finalmente, tenho de falar num livro de Ludgero Santos e que não é fácil encontrar em livrarias... Falo do "Perfume da Savana"... Sei que muito já se falou deste livro por aqui, pelo que vos dispenso a descrição do enredo. Aponto, contudo, que só alguém com uma grande vivência em África poderia escrever tal livro... Muito se escreve de África mas poucos terão experenciado e conseguido colocar em livro ou documentário aquilo que Ludgero Santos nos descreve... Ludgero é um guia de uma África única e de tempos passados que marcaram gerações de negros e brancos... A coroar tudo isto, a capacidade de Ludgero em descrever o amor e em criar uma daquelas histórias que nos prendem e que nem sempre acabam como desejamos...

 

Desconheço se estamos a falar de ficção ou de realidade, mas a sensação com que fico é que estamos quase num relato na primeira pessoa. Obrigado Ludgero.

 

IMG_20171124_083415.jpg

Fonte: Própria.

 

 Bom fim-de-semana...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sardinhas em Lata

Todas as Terças, aqui! https://sardinhasemlata.blogs.sapo.pt/

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog


subscrever feeds



Mensagens






Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB