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Um Fim de Semana La Bohéme

por Robinson Kanes, em 28.04.17

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Fonte das Imagens: Própria

 

 

Não é bem a vida que faz falta - só aquilo que a  faz viver.

Vergílio Ferreira  in  "Para Sempre"

 

Já há algum tempo que não falo de sugestões para o fim de semana. Talvez por tédio, talvez porque outros temas se descobrem, talvez por... apatia.

 

Lembrei-me de recomendar uma ópera, uma das minhas grandes paixões, uma ópera verdadeira, simples e até contestada, sobretudo o seu compositor (Giacomo Puccini), por ter escolhido como personagens principais figuras do povo.

 

Sou seguidor confesso de Puccini e, La Bohéme é talvez uma daquelas óperas mágicas. Pode não agradar a muitos pseudo-intelectuais que a acusam de ser uma ópera de povo, uma ópera básica no seu argumento... talvez por ser uma Ópera verdadeira que fala do verdadeiro amor e da realidade como ela é... talvez, por isso, não seja do agrado dessa pseudo-elite.

 

Tive oportunidade, e a honra, de assistir a esta ópera ao vivo, em Praga, mais precisamente no Národiní Divadlo (Teatro Nacional). Mais honra tive de, ao sair, encontrar a neve a cobrir de branco aquela noite escura de Novembro e a most Legií. A neve é uma constante nesta peça... aliás, é ela que acompanha a chegada de Mimi e apadrinha também o seu desespero quando se sente perdida sem Rodolfo. É a queda de neve e o frio que lá foram embalam Mimi quando se despede de Rodolfo e dos seus amigos: Marcello, Colline, Schaunard e a bela Musetta. Devo dizer-vos que beijar apaixonadamente a minha miúda depois daquela ópera, ali mesmo em cima da ponte, naquela noite fria de Praga, é um momento que ainda não esqueci... sobretudo porque eu me encontrava vestido como um praticante de trail e ela como uma princesa, qual Turandot...

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Esta é uma ópera na Paris de 1830, dominada pela pobreza, pela fome e pelo frio... é uma ópera da vida como ela é, do amor real, de vidas perdidas e deambulantes nas grandes cidades, da pobreza, do quotidiano... sem magia, sem a beleza dos grandes palácios. Não encanta os pedantes, muito menos encanta quem almeja um dia ser uma elite. Mas acredito, que encanta todos os outros, desde os mais pobres às verdadeiras elites.

 

O amor e a simplicidade de Mimi, admito, comovem-me ao longo de toda a obra... e destaco Mirella Freni como a minha intérprete preferida neste papel. Confesso que uma das minhas grandes surpresas foi o papel de Musetta, brilhantemente interpretado em Praga por Marie Fajtová e com especial destaque para a interpretação de "Quando m'en vo". A forma como Mimi se apresenta com "Se mi chiamano Mimi" é algo de único... bem como Rodolfo com o seu "Che gelida manina" e "Oh soave fanciulla".

 

Deixo-vos a ópera completa, aliás, até é a versão em DVD que tenho em casa com a Mirella Freni e uma das minhas preferidas (existem outras mais recentes e com tradução, ou então podem ouvir apenas). Aos que estão sozinhos, deixem-se envolver e quem sabe a Mimi vos entre pela porta, ou o Rodolfo... aos que estão acompanhados, pois que se deixem contagiar pelo carisma de Rodolfo e pela pureza de Mimi, talvez porque como dizia Delhomme, "a eternidade do instante é a sua profundeza, não a sua extensão".

 

Bom fim de Semana

 

 

 

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