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IMG_1701.JPGImagens: Robinson Kanes

 

Amanhece em Shiraz, o sol brilha logo cedo e nem sentimos a diferença de horário. Preparar um jantar iraniano foi fantástico, abençoada suite de hotel que nos permitiu, nesta estada, também tomar parte neste cultura de forma mais profunda.

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Não deixámos de passar uma noite agradável e na companhia de duas jovens iranianas que nos mostraram um pouco das ruas do norte da cidade e ainda nos fizeram prometer que faríamos compras no supermercado dos pais. Uma sem sonhos ainda definidos, outra com um desejo de ser professora de inglês. Quiseram saber tantas e tantas coisas da nossa vida e que nos interrogaram mil e uma vezes do porquê de não poderem ter um namorado não-iraniano.

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Mas temos de seguir caminho pela cidade, há tanto para ver e sentir. Depois do "Jardim Eram" e das suas águas límpidas, a "Casa Qavam/Museu Nerenjestan", construída em finais do século XVIII por ricos comerciantes de Qazvin.

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Os jardins e o espaço são mais uma demonstração do encontro da cultura ocidental com a cultura persa - uma curiosa representação de como ambas podem combinar muito bem arquitectonicamente. A rua movimentada lá fora, não nos deixa permanecer por lá muito tempo, chama por nós... Não obstante, à saída, paramos, olhamos mais uma vez os jardins, recordamos os espelhos, inalamos o odor das flores do jardim e saímos para um sumo de romã.

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Entre talhos, lojas de ferragens, lojas de comida, enfim... lojas de tudo, percebemos que está a chegar a melhor hora para visitar a "Mesquita Nasir ol Molk", também conhecida como "Mesquita Rosa". No bairro de Gawd-i Arabān, encontramos esta herança dos Qajars. Amplamente conhecida, esta é uma mesquita singular pelos seus vitrais que, escolhida a hora certa da posição do sol, se tornam ainda mais encantadores! É um local muito procurado pelos turistas para as fotos, mas é no pico da sua beleza que encontramos menos gente e nos permite apreciar toda a sua arquitectura. Podemos examinar o seu pátio e deixar que as cores dos vitrais se possam reflectir no nosso rosto, nos tapetes persas e transformar-nos também em parte daquele mundo de maravilhas. É um monumento único, belo e onde nos sentimos a viajar por contos e lendas da pérsia.

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Alguns turistas "irritam-nos" tentanto simular orações e uma certa pose para a fotografia, o banalismo habitual... Fascina-nos, contudo, a condescendência da segurança que com um sorriso no rosto sente que partilha um pouco de si com todos aqueles que deliciam perante um património de uma riqueza invejável... Fascinam-nos aqueles que lá se encontram em recolhimento... E é junto desses que também nos sentamos antes de abandonar o local e voltar às movimentadas ruas da cidade. No entanto, a sensação de que saímos de um mundo grandioso e mirífico contido numa sala tão pequena não nos abandona.

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E é tão difícil deixar este templo, no entanto, mal sabemos que ao longo dos dias ficaremos a perceber que uma das imagens de marca do Irão está longe de ser apenas esta e mais uma ou duas que conhecemos até agora. É hora de almoçar e pela rua vamos comendo aquilo que nos oferecem, temos que passar pela famosa "Universidade de Shiraz" e pela "Porta Quran" - queremos apenas sentir se o conhecimento que já temos destes locais se reflecte de poderosa forma nas nossas emoções.

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É hora de começar a pensar no "Santuário de Ali Ibn-e Hamze" que se apresenta hoje como mais uma reconstrução pois os sismos em Shiraz são frequentes.

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Ao entrarmos sentimos o peso da religião e da história. Sentimos o peso da amizade, nenhum dos acessos nos é vedado, tomamos chá, comemos doces e ainda temos um diálogo sobre o Islão e o Cristianismo. O diálogo e a experiência acaba por se sobrepor à beleza do espaço, dos seus espelhos, da sua arquitectura. Para nós é interessante na medida em que sendo pouco crentes (pelo menos eu), do outro lado temos um crente fervoroso mas com uma abertura de espírito tal que reconhece as fragilidades da sua religião e entre esse reconhecimento (até porque o tema das mulheres acaba sempre por surgir) nos prova que a própria Bíblia é muito mais castradora em relação às mulheres do que o Alcorão.

Ali Ibn-e Hamze_shiraz_iran.jpgÉ interessante esse diálogo... A abertura religiosa é, aliás, uma das imagens de marca deste povo. Como já havíamos sentido noutros países, por vezes, algum desconforto religioso sucede dentro da própria confissão e não com crenças exteriores. Conversamos largos minutos... Sentados dentro do santuário enquanto outros estudam e fazem as suas orações, o diálogo inter-religioso (e até entre quem não é crente) a acontecer e o respeito permanente entre os três vértices deste triângulo. 

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Terminamos a conversa com um convite para a "Mesquita Vakil", um edifício que ocupa uma área de mais de 8500m2 e que foi construído no terceiro quartel do século XVIII durante a dinastia Zand, sendo restaurado já no século XIX sob a liderança dos Qajars.

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A entrada, o pátio das orações, os minaretes e os pilares são algumas dos seus aspectos mais peculiares. O pôr-do-sol é também o momento perfeito para apreciar este espaço. A luz do crepúsculo cria uma imagem perfeita que, se complementada com aqueles que vêm aqui prestar o seu culto, se torna ainda mais pulcra.

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"Acompanhamos" as orações e voltamos ao exterior. Hoje ainda lá anda o "nosso" declamador de poesia persa. E é com ele que deixamos que o anoitecer se intensifique... E é com a poesia de Hafez e de tantos  outros que nos entregamos novamente às delicias astronómicas iranianas...

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Uma nota final para o facto de Shiraz ser também a região onde, no Irão, se produz/produzia um vinho fantástico. Até hoje, ainda é controverso se a casta Syrah vem de Shiraz. Testes genéticos dizem que não, todavia, também a produção deste vinho (deste e de outros) em terras iranianas não é permitida desde a revolução de 1979.

 

Sobre Shiraz

Shiraz: Cidade dos Jardins e dos Poetas

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Córdoba: O Quartel General Cristão.

por Robinson Kanes, em 09.02.17

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Com o centro das operações em Antequera e também em Córdoba, os cristão, sob o comando dos Reis Católicos e com o auxílio de tantos outros cavaleiros, especialmente o Marquês de Cádiz, continuavam a semear o pânico em território Mouro.

 

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Foi de Antequera que, em 1484 (já os portugueses andavam por África há muito), saiu uma enorme força com vista à conquista de territórios mouros. A curiosidade assenta no facto de que , nesta campanha de 40 dias, a rainha Católica ordenou a criação de uma espécie de hospital de campanha que ficou conhecido como “Hospital de la Reina”. Esta fora a primeira vez que se levara “camas” para a frente de batalha para ajudar os feridos... uma tremenda inovação. No final, esta incursão acabaria por ser um preparativo para a tomada de Ronda, à qual já fiz uma pequena descrição.

 

Mas se Antequera era uma espécie de posto de comando avançado, Córdoba era o quartel-general. Em Córdoba, desfilavam os cavaleiros faustosamente ornamentados, era o local onde se encontravam os reis católicos (embora Fernando II sempre estivesse presente nas operações) e no fundo, onde a mais alta elite da cavalaria, corte e Igreja  se pavoneava. Foi em Córdoba, também, que se vieram juntar os cavaleiros ingleses que ajudariam na tomada de Málaga, comandados por Lord Scales, Conde de Rivers e irmão da rainha de Inglaterra, mulher de Henrique VII.

 

Se nos lembrarmos que Córdoba já fora entregue pelos mouros em 1236, será interessante assistir a esta como palco dos planos para a conquista de Granada. Será interessante esperar pela passagem dos cavaleiros cristãos pela fabulosa ponte romana através da Puerta del Puente (Puerta de Algeciras durante a Reconquista), em direcção a terras mouras, e contemplar os rostos que celebram garra mas também escondem temor pelo que se avizinha.

 

Córdoba conserva tudo o que é Árabe e é um verdadeiro fascínio para os olhos... as muralhas, o Alcazár (ainda descendente da ocupação romana), as estreitas ruas e os próprios habitantes da cidade que, apesar de espanhóis, ainda hoje, conservam o sorriso e muito do comportamento que podemos encontrar nos povos árabes.

 

IMG_4277.jpgConfesso que gosto de cidades, vilas ou aldeias, onde o “mix” de culturas é grande. À cultura árabe, visigoda, múdejar e romana, em Córdoba, junta-se também a judaica (a sinagoga é a única de Andaluzia e a terceira mais bem conservada de Espanha).

 

Gente boa a de Córdoba... foi lá que fiquei “a conhecer” Ronda e tive uma verdadeira lição de História de Andaluzia. Foi com aquele cordovês, de quem já falei num artigo anterior sobre Ronda, que tive oportunidade de muito aprender. De ser estimulado a decorar todas as províncias de Espanha e, sobretudo, de admirar a Catedral (permitam-me os católicos, mas será sempre uma Mesquita). Usufruir de mais de uma hora de partilha e conversa no pátio com laranjeiras que se encontra em frente à fachada é aglo que nunca esquecerei.

 

A paixão dos mouros por extensos jardins e árvores de fruto, remete-nos para a época em que naquele pátio desfilavam belas mouriscas e os turbantes se amontoavam para as orações. Aliás, Córdoba é conhecida pelos seus pátios e pelo festival que aí tem lugar. Córdoba, capital do Califado Muçulmano que governou uma grande parte da Península Ibérica e que, até ao século X, foi a maior cidade do Mundo... quem diria, também, que ainda sob domínio de Roma, aqui havia nascido Séneca! Também foi aqui que nasceu Averroes (grande filósofo muçulmano ou não estivesse ele também representado na Escola de Atenas de Rafael).

 

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Em Córdoba é fácil ser um membro da plebe que tenta escapar ao desfile dos cavaleiros e infantes que preparam as suas armas para uma nova etapa da guerra. Facilmente vemos a Rainha Católica a chegar com a sua guarda e com os seus conselheiros para a celebração da eucarística naquela Catedral, que por mais que tente esconder, será sempre uma Mesquita e onde os seus arcos – em contraste com o altar e o coro - são uma verdadeira demonstração de que todas as culturas podem conviver, independentemente das diferenças culturais, religiosas, sociais e até políticas.

 

Comamos um torrão acabado de fazer num pote de ferro e, entre os cavalos arreados e luxuosamente ornamentados, esperemos o cortejo real... que toquem os sinos que ecoarão pelos vales de Marchena, passando por Carmona até se encontrarem com os seus semelhantes da Giralda em Sevilha, ou então, em sentido contrário... com os sinos da Catedral de Jaén. 

 

Outras peripécias da Crónica da "Conquista de Granada":

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

 

Fonte das Imagens: Própria

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