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Quando as Minorias São a Maioria...

por Robinson Kanes, em 02.03.17

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Juan José Gárate Clavero , O Banquete Interrompido (Museu Carmen Thyssen)

 

Dizia Lenine que as minorias têm sempre razão. Penso que tal figura histórica se regozijaria imenso com alguns episódios a que assistimos actualmente. Ontem, num jantar realizado entre amigos, não consegui fugir ao tema e dei comigo numa conversa sobre comentários em redes sociais. O que me faz escrever este artigo, no dia de hoje, está relacionado com o facto de até já existirem queixas de uma associação que dá pelo de SOS Racismo.

 

Coloco uma questão: dizer que “pretos” e “gays” ganham óscares é crime? Não elogio o modo em como o comentário foi feito, de facto, mas é motivo para tanto alarido? Que faria a associação SOS Racismo numa estação de caminhos-de-ferro alemã onde indivíduos, por norma, não alemães, são abordados pela “Polizei” de uma forma menos amistosa e são convidados a mostrar a identificação? Teria espaço para tanta acção? E quando é perfeitamente normal ir numa carruagem na República Checa e só ao indivíduo turco ser solicitada a identificação? E eu nem tenho aspecto de eslavo...

 

Que diria a associação SOS Racismo pelo facto de eu ter pedido a indivíduos de raça negra (poderia ser qualquer outra) alguma contenção, numa situação de clara violação da lei e ter sido ofendido com as palavras “não ouçam esse C... ele é branco”? Será que posso apresentar uma queixa por racismo com o apoio desta associação? Se sim, seria interessante perceber os trâmites, mas é claro, o meu caso não seria mediático. Em jeito de nota, a maioria dos indivíduos presentes nessa situação moderou o comportamento e até pediu desculpa aos “lesados”.

 

Sinto-me confortável para falar sobre estas matérias, tenho amigos pretos, brancos, amarelos, árabes, judeus, chineses, cor-de-rosa, azuis, gays, heterossexuais e com eles já trabalhei, apoiei e fui apoiado. Em relação a pretos, árabes, judeus, gays e tantos outros já partilhei muitas experiências e até uma mesa e muitos abraços.... pelo que, poupem-me ao politicamente correcto.

 

O que temo hoje em dia, é na transformação que se faz de episódios sem dimensão em autênticos crimes contra a humanidade! O que temo hoje em dia é uma ditadura das redes sociais e do politicamente correcto onde a maioria que expressar a sua opinião rapidamente é exterminada pela minoria “coitadinha”. Se há uma coisa que o genocídio no Ruanda nos ensinou é que, se protegemos demasiado uma minoria e, quando as bases dessa protecção falham, vamos ter uma grande revolta da maioria.

 

Porque é que se dá importância a um fadista (que nem é brilhante) e ninguém se revolta contra os impostos não cobrados e que estão em offshores? Porque não se dá importância aos preços proibitivos dos combustíveis? Porque é que não se questiona que um interveniente nas negociações da TAP (ao serviço do Governo e "pro bono", lembram-se?) aquando da privatização seja agora indicado para um alto cargo nessa mesma instituição?  Porque é que se faz a apologia de políticos que se venderam por um bilhete para um jogo de futebol? Perde-se demasiado tempo neste país de comadres a falar do que não interessa, a atirar chavões que depois não têm conteúdo, mas quando o assunto é o bem comum...

 

Para mim são todos cidadãos, iguais perante a lei, independentemente das orientações sexuais ou da raça e acredito que se a nossa Constituição fosse olhada como o deveria ser, e não somente para reivindicar direitos de alguns sobre a asfixia de outros, talvez muitas associações deixassem de ser necessárias. Mas quem invoca a Constituição são sobretudo os cidadãos e é a inoperância prática destes que provoca estes conflitos.

 

Encerro com uma citação de uma publicação extremamente actual e que nos pode fazer reflectir,  o "Regresso ao Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley - aqui numa fase mais triste e desencantada face ao "Admirável Mundo Novo - e que dizia que  "a liberdade é um grande bem, a tolerância uma grande virtude e a arregimentação uma grande infelicidade"... 

 

Fonte da Imagem: Própria.

 

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