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Com Lenine, Estaline e Tchaikovsky...

por Robinson Kanes, em 10.11.17

IMG_20171110_090509.jpgFonte da Imagem: Própria.

 

Por estes dias "celebrou-se" o aniversário da revolução soviética pelo que, embora tenha muitas questões em relação à mesma, não podemos negar que nos ficou comouma marca histórica que não pode ser apagada, mesmo que esse fosse o modus operandi, aliás, continua a ser, de uma esquerda mais radical. Foi isto que me deu a ideia para criar este artigo que já vai sendo de sugestões para o fim-de-semana e para a semana...

 

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 A primeira prende-se com Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido por Lenine. Mas não vos vou falar do estadista mas sim de um filme que é um dos relatos ficcionais mais brilhantes da história do cinema: o filme alemão "Good bye Lenin!" ou como é conhecido em Portugal, "Adeus Lenine!". Para muitos é uma comédia, para mim é um drama, sobretudo se escutarmos atentamente a banda sonora (Yann Tiersen) e nos deixarmos envolver na história. É o relato de uma mulher, comunista fervorosa que após um coma de 8 meses em 1989, desperta já em 1990 numa Alemanha unificada, onde já não existe divisão. Para evitar futuros ataques cardíacos, o filho, um anti-comunista, tudo fará para proporcionar no apartamento de Berlim uma encenação de como a Alemanha de Leste continua activa e o comunismo não caiu. O grande desafio vai ser, num país que abre os braços ao capitalismo, tudo fazer para parar a história. Um filme alemão dos mais brilhantes do século XXI e um dos meus preferidos onde política e família desempenham um papel ímpar e digno de apreciação. Este filme foi galardoado com um Goya, um César e tantos outros prémios. 

(Fonte da Imagem:http://www.wartburg.edu/2017/01/24/wartburgs-german-film-series-continues-with-good-bye-lenin/)

 

 

 

 

De Lenine, vamos até Estaline onde "A Vida Privada de Estaline", de Lilly Marcou merece o meu destaque. Uma daquelas biografias que não nos cansam, mesmo que descritas com minúcia. Mostra-nos sobretudo o homem com um carácter mais humano e familiar contra o homem que vive na obcessão da traição e que o fazia eliminar todos aqueles que julgava serem potenciais traidores, inclusive alguns dos que lhe eram mais queridos. Fala da eliminação de Trotsky e de como se aproximava daqueles que, pelos quais, não nutria grande simpatia e afastava quem já não lhe pudesse acrescentar nada de novo aos seus planos como foi o caso de Kamenev, após o assassintato de Trótski.

É um livro nada tendencioso e que não teme em elogiar, quando assim tem de ser, o monstro que, segundo muitos, exterminou mais seres-humanos que o próprio Hitler. Interessante será observar a relação deste com a mãe.

 

Finalmente, temos de abrir espaço para um génio e para um dos mais belos concertos para violino: Pyotr Ilyich Tchaikovsky e o "Concerto para Violino em Ré Maior Op. 35". Para mim é uma obra-prima e talvez um dos mais belos concertos alguma vez compostos! É daqueles registos clássicos que ouvimos vezes sem fim e que para os intérpretes é um desafio e tanto na medida em que é conhecido pela sua dificil execução. Cá por casa é presença habitual e já me tem valido alguns comentários do género "não ouves mais nada?". Estreado em Viena tem a particularidade de ter sido dedicado a Leopold Auer que se recusou a interpretar o mesmo, recaindo uma segunda dedicatória em Adolf Brodsky. Composto em 1878 na Suiça é talvez a expressão da depressão que o afectou então a propósito do divórcio com Antonina Miliukova! Para os que não apreciam música clássica, não tenho a mínima dúvida que serão os 35 minutos musicais mais preciosos que poderão escutar, o primeiro andamento (Allegro Moderato) será o suficiente para vos conquistar. Não faltam intérpretes a percorrer a obra do autor, por cá, Valeriy Sokolov é um deles, no entanto rapidamente encontramos vários em registo de disco ou nos canais online.

 

É um concerto inspirador e uma presença constante em momentos mais tenebrosos mas também naqueles momentos em que são necessários decisões com impacte em larga escala. Não gosto de entrar neste tipo de rótulos mas é sem dúvida uma das 10 músicas para ouvir antes de morrer. Deixo-vos numa interpretação feminina de Julia Fischer com a Orquestra da Radio France.

 

Bom fim-de-semana e... Sonhem...

 

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Na Flor da Rosa com "La Traviata"...

por Robinson Kanes, em 04.08.17

IMG_20170730_002454.jpg

Fonte das Imagens: Própria. 

 

Dizem que este espaço andou à boa vida por estes dias... É possível, desde que não seja atacado pela silly season ainda se vai tolerando...

 

Esta semana, e posto que ainda se vai relendo o Sr. Garcia Márquez e o seu "Amor em Tempos de Cólera" - Fermina Daza volta a pensar em Florentino Ariza, mas lá acaba por se aproximar mais uma vez de Juvenal Urbino - deixo apenas uma sugestão que combina música e representação: a ópera "La Traviata" de Verdi... Por aqui até costumamos dizer, "Não é que não houvesse, haver havia, mas eram verdis".

 

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E porquê "La Traviata"? Primeiro porque tivemos a experiência de assistir a esta ópera em exterior, mais propriamente no jardim da Pousada do Convento da Flor da Rosa (localidade no concelho do Crato), numa noite quente e onde a companhia "Ópera del Mediterráneo" deu um espectáculo daqueles, sobretudo a Soprano Gema Scabal (Violetta) e o Barítono Carlos Andrade (Giorgio Germont). Falta "Alfredo", mas Vicenç Esteve Madrid poderia ter estado melhor. O facto de se ter realizado no Convento da Flor da Rosa e de ser "La Traviata" não nos fez hesitar um minuto, sobretudo quando já tinhamos visto Rolando Villazón e Anna Netrebko nos papéis de Alfredo e Violetta. O cenário é fascinante, não se nota tanto pseudo-elitismo e o convento fica situado dentro da aldeia - enquanto a ópera se desenrolava sob a luz das estrelas conseguíamos ouvir pontualmente os cães a ladrar e os sinos a tocar - ao invés de prejudicarem a peça, só lhe deram mais força!

 

Mas a "La Traviata"... Adoro esta ópera, apesar de algum dramatismo exagerado, talvez pela inspiração que a mesma tem na obra de Alexandre Dumas Filho, "A Dama das Camélias" (o libretto é de Francesco Maria Piave). No entanto, é também apaixonante na medida em que estreou em 1853 numa das mais belas salas de ópera que conheço, a "La Fenice" (em Veneza) e depois porque tem árias como "Libiamo ne' lieti calici", "Sempre Libera" e "Addio del passato"... Verdadeiramente brilhantes e das quais partilho convosco alguns vídeos. 

 

A história? Tudo começa com um baile em casa de Violetta, uma cortesã mundana, e a quem é apresentado Alfredo, um nobre que se apaixona por esta, mesmo sabendo que existe um amante: o Barão Douphol. Perante a abordagem de Alfredo, Violetta admite sempre ser incapaz de amar pois mais uma vez é uma imoral mundana! A ária "Sempre Libera" vem daí e perante a insistência de Alfredo à qual Violetta acaba por ceder. Acabam ir viver juntos para a casa de campo da cortesã.

 

Será também na casa de campo que Alfredo descobre as dificuldades financeiras de Violetta e secretamente se oferece para as colmatar. Contudo, O Sr. Germont, pai de Alfredo e regressado da Provença, receando ver o seu filho enamorado por uma cortesã de má fama, pede a esta que se afaste do seu amado sob pena da irmã de Alfredo não ser desposada e do nome da família ficar manchado. Violetta acaba por ceder, contra todos os seus desejos, e abandona Alfredo. Já vi isto em qualquer lado...

 

O reencontro dá-se quando Violetta aceita o convite para uma festa em casa da amiga Flora e se faz acompanhar pelo Barão... Nessa festa está também Alfredo que entra em vários desafios com o Barão, quer no jogo (onde o vence) quer depois quando o desafia para um duelo! Este desafio surge porque, a sós com Violetta, Alfredo tenta reaver a sua amada mas esta, satisfazendo o pai de Alfredo, diz amar só e só o Barão! Alfredo humilha e trata Violetta como uma prostituta, chama todos os convidados e atira o dinheiro ganho no jogo para cima desta e sente o repúdio de todos, inclusive do pai que entra em cena já no fim do segundo acto.

 

Violetta abre mais um acto numa Paris que celebra o Carnaval, tísica e esquecida pelos amigos, excepto Grenvil, médico e amigo (mais um toque de Verdi à sociedade da época). É aqui que recebe uma carta do pai de Alfredo e onde este confessa ter falado ao filho do sacrifício de Violetta. Giorgio Germont diz também na carta que Alfredo se encontra a caminho para pedir o seu perdão. Violetta, contudo, teme que Alfredo não chegue a tempo e é aqui que canta "Addio del passato bei sogni ridenti"... Maravilhoso!!! A gravação da albanesa Ermonela Jaho (último vídeo) é um hino!

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Alfredo chega entretanto, acreditando que o amor vencerá a doença mas... Logo após a chegada deste, de Grenvil e de Giorgio Germont, Violetta cai sob os seus braços e morre, não sem antes ter conseguido forças e esperança para acreditar num amor tão poderoso capaz de desafiar o destino cruel.

 

Como muitos lhe chamaram, uma ópera imoral... Eu iria mais longe e diria que é uma ópera romântica e real que aos morais de capote provoca o asco de se reverem em alguns comportamentos. Uma ópera cujo amor vence tudo, mas só não vence a doença. Um amor que não pode escapar ao destino mortal mas tem de escapar ao, muitas vezes, desejo de morte e à moral.   Sobre isso, dizia Ferreira de Castro (in "A Experiência") que "uma moral, qualquer que seja, se, por um lado, se renova, por outro envelhece, e há normas de moralidade colectiva que, com o tempo, revelam toda a sua desumanidade e tornam-se, portanto, imorais".

 

Apesar da morte de Violetta, talvez seja a lição de que o amor por nada deve ser trocado e contra tudo e contra todos deve ser defendido, porque só a morte tem o direito natural de pôr fim a tudo.

 

Bom fim de semana...

 

As três árias para vos contagiar:

 

"Libiamo ne'lieti calici"

 

 

"Sempre Libera"

 

 

 

"Addio del passato"

 

 

 

 

 

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