Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um Hendrick's com Whitman, Clio e Leone...

por Robinson Kanes, em 08.01.21

walt whitman.jpg

Imagem: Robinson Kanes

I know I have the best of time and space, and was never measured and never will be measured.

Walt Whitman, in "Canto de Mim Mesmo"

 

 

Quem me conhece por aqui, provavelmente terá ainda estranhado o facto de não ter abordado a invasão do Capitólio. Tenho de admitir que me preocupa mais a invasão da Assembleia da República por alguma gente da pior espécie e que esta semana esteve na ribalta. Confesso que também aguardo mais dados para formular o meu pensamento. Talvez para a semana, longe do chinfrim e com toda a informação recolhida, porque para já, o palco já tem muitos actores.

 

Admito que agora o que me apetece é mesmo um Hendrick's com uns cubos de gelo, a rodela de limão e a tónica... É bom o mundo parar de vez em quando, sobretudo na nossa varanda. Entre os raios de sol que combatem este frio, acompanho o gin com um livro: Walt Whitman é o escolhido com "Canto de Mim Mesmo". Tenho dias em que me dá para a poesia, embora a poesia de Whtiman seja pouco poética no sentido em que podemos interpretar a mesma como uma lição prática, não só da realidade norte-americana mas também de nós próprios: talvez isso nos ajude a não ser tão idiotas na interpretação de certas realidades.

 

Com o gin ainda a meio, é provável que me deixe levar pela música, uma presença constante ao longo da vida. Ainda não passaram duas semanas que morreram dois dos mais elevados intérpretes latinos, Armando Manzanero e Carlos do Carmo. Do "viejito" falei aqui, do segundo recordo uma das suas menos conhecidas: "Palavras Minhas", uma interpretação única dos versos de Pedro Tamen. Todavia, tenho de reconhecer que o dia se vira para outras sonoridades e é aí que encontro uma paixão de longa data, a francesa Clio... Escolho "Amoureuse" no iPod. Sim, hoje estou um iPod. Talvez o final da minha estada na varanda, antes que me transforme num abominável homem das neves, seja reservado para os Groove Armada e onde não poderá faltar "My Friend". Esta música traz-me demasiadas memórias, de uns anos em que um "contrato" não me permite falar sobre o que vi, ouvi e fiz... Grande banda sonora para tanta coisa...

É provável que este fim-de-semana contenha cinema e se assim for, já está ali de lado a obra prima de Sergio Leone, "Once Upon a Time in America". Um dos filmes de gangsters mais longos da história e um dos mais apaixonantes... James Woods e Robert de Niro (e até uma presença de Joe Pesci). É mais um daqueles filmes que nunca se apagarão da nossa memória e que veremos vezes sem conta. Um lado de Sergio Leone apaixonante que foi um tremendo sucesso na Europa depois de ter sido mal visto nos Estados Unidos, sobretudo pela duração... Bons actores, uma excelente realização e sem esquecer o brilhante Ennio Morricone com uma das suas mais belas bandas sonoras - a música é de arrepiar, indiscritível em termos de emoções e com cada nota composta com uma alma que só Morricone possuía. Um filme duro, bem duro como qualquer bom filme de gangsters e com uma das cenas finais, entre Woods e De Niro que nos deixará a todos...

E como diria Whitman, I take part, I see and hear the whole/The cries, curses, roar, the plaudits for well-aim'd shots/The ambulanza slowly passing trailing its red drip/Workingman searching after damages, making indispensable repairs/The fall of grenades through the rent roof, the fan-shaped explosion/The whizz of limbs, head, stone wood, iron, high in the air.

 

Bom fim-de-semana...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adiós Viejito...

por Robinson Kanes, em 30.12.20

armando manzanero.jpg

Créditos: https://www.latercera.com/culto/2020/12/28/murio-armando-manzanero-tocado-por-la-mano-de-dios/

 

Aprendí que puede un beso
Ser más dulce y más profundo
Que puedo irme mañana mismo de este mundo
Las cosas buenas ya contigo las viví
Y Contigo aprendí
Que yo nací el día en que te conocí

Armando Manzanero, Contigo Aprendí (Excerto)

 

 

O ano acabou com mais uma perda. Talvez esta não seja digna dos holofotes que outros mais inúteis tiveram, mas na verdade, depois de ter sabido da notícia via ABC (Espanha), encontrei pequenas menções ao facto em Portugal, muito pequenas... mas encontrei, algumas delas com um bom delay.

 

Armando Manzanero, músico e compositor mexicano morreu aos 85 anos. Aquele ar simpático ainda jovem e que se prolongou durante a idade adulta até ao dia em que perdeu a vida. Manzanero não é propriamente o estilo de cantor que um europeu da minha idade pudesse escutar, todavia, cresci a ouvir o senhor, não fosse presença em casa dos meus pais. Tenho de admitir que muitas das suas músicas são verdadeiros hinos que ecoaram por toda a América do Sul e em Espanha onde é admirado ao nível dos melhores cantores e músicos daquele país.

 

Com Manzanero, senti que partiu mais um pouco da minha infância, que o meu cemitério teve mais uma campa e que já precisa de um certo alargamento. Penso que também se perdeu mais um verdadeiro músico, de músicas com conteúdo, de músicas imemoráveis, daquelas que ainda nos lembramos ao fim de um mês ou até mesmo depois de abandonarem as rádios ou redes sociais porque já esgotaram a paciência dos ouvintes ou sobretudo porque já ninguém paga para que as mesmas lá estejam...

 

É o fim de mais um romântico, de alguém que escrevia e percebia de música. É a magia intrínseca das suas baladas e uma entrega única que tem vindo, e agora mais, a ser interpretada também por tantos outros músicos. 

 

A morte de Manzanero foi anunciada com "Adoro", todavia, prefiro despedir-me deste cavalheiro com outras duas músicas, uma que me apaixonou já em idade para ter juízo e outra que muitas vezes escutei lá por casa. Começo com "Contigo Aprendí", uma das músicas que nunca esquecerei... e termino com "Nada Personal", um dueto com Lisset e que chegou a ser tema de uma novela... Ninguém é perfeito...

Armando Manzanero fará parte da banda sonora desta passagem de ano com toda a certeza... Desta e de tantas outras, porque afinal, não foi só Manzanero que morreu. Do México, resta-me agora uma das suas melhores vozes, a ainda muito jovem Natalie Lafourcade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Só eu Escapei porque o Mal não Existe...

por Robinson Kanes, em 19.12.20

so eu escapei.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

O homem não quer matar a sede. O homem quer é a sede. Por isso é que come tremoços quando bebe cerveja.

Vergílio Ferreira, in "Promessa"

 

 

Deixar passar a oportunidade de ver no mesmo palco, Lídia Franco, Márcia Breia, Maria Emília Correia e Catarina Avelar seria um ultraje. Foi por isso que voltei ao Teatro Aberto para assistir à peça "Só eu Escapei" de Caryl Churchill e encenada por João Lourenço. Não estamos perante uma peça para tempos de Natal, no entanto, a mesma, sendo escrita há cerca de 4 anos é mais actual que nunca - temo até que Caryl Churchill tenha um oráculo. O teatro tem a capacidade de nos colocar a pensar e a reflectir, de nos chocar até... E é nesse choque que abandonamos a sala com a sensação de que o Mundo não é aquilo que pensamos e de que caminhamos para um "fim" iminente, trágico até, em contraste com toda a inovação que temos. Fazendo até aqui uma ponte com o romance, somos em alguns momentos transportados para os admiráveis mundos de Huxley. 

 

A cultura faz bem, um jantar no "Pano de Boca", o restaurante do teatro que muito aprecio, faz maravilhas... Não me canso de repetir que os filetes de peixe-espada preto, com banana e milho, simplesmente geniais.

 

Um dos melhores filmes que vi este ano e vencedor do Urso de Ouro em Berlim, "O Mal não Existe". A minha admiração pelo cinema iraniano fica mais uma vez reforçada com este filme de Mohammad Rasoulof. Um filme que se foca na pena de morte e na luta que os indivíduos enfrentam na concretização ou não da mesma. É um filme extraordinário, com a sensibilidade que só os iranianos conseguem ter e que custou a liberdade (cerca de um ano) a Rasoulof por desafiar o regime. O filme é fantástico e penso que nos traz uma realidade que nos orgulhamos de já não ter de enfrentar e onde até fomos pioneiros no combate a... Admirável! Assisti nos cinemas UCI em Lisboa, mas vai andar pelo país...

Para terminar, não podia deixar de lado alguém de quem falei recentemente num artigo de memórias sobre Berlim: Severija - uma actriz lituana que deslumbra a cantar, sobretudo em alemão. Simplesmente adoro "Zu Asche, Zu Staube" e embora nunca tenha visto "Babylon Berlin", a banda sonora é qualquer coisa. Um timbre semelhante ao de Sónia Tavares, mas esta senhora é mais humilde e sabe cantar, além de que trabalhou a respiração.

Já agora, anda tudo doido ou a falta de trabalho (ou melhor, o emprego sem trabalho e com a real cunha) anda a deixar algumas pessoas completamente tontas? Até o anúncio da CNE para as eleições presidenciais gera revolta? Será que é desta que a estátua do Marquês vai abaixo? Como diz o outro, "olha, escuta... vai mas é trabalhar e fazer algo de útil pela sociedade".

 

Boas Festas...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Convidei Obama para beber um Villas-Boas

Porque o resto ainda está para vir...

por Robinson Kanes, em 06.12.20

barack obama.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

Talvez os princípios da organização comunitária pudessem ser orientados não somente para realizar uma campanha, mas para governar, para encorajar a participação e a cidadania activa, franquiando o processo àqueles que haviam sido deixados de fora. Ensinar as pessoas a não se limitarem a confiar nos seus líderes eleitos, mas a confiarem umas nas outras e em si próprias.

Barack Obama, in "Uma Terra Prometida"

 

 

Não tenho por prática escrever sobre um livro antes de terminar a leitura, e não raras vezes, até de submeter a obra a uma releitura. No entanto, e graças à minha mãe, uma apreciadora de Barack Obama e que se convence que o tenho como um ídolo, embora questione muito a sua governação, dei uma oportunidade ao cavalheiro em "Uma Terra Prometida".

 

Comecei a lê-lo, acompanhou-me um "Villas-Boas Reserva 2016", e de facto, não poderia ter feito melhor escolha, que rapidamente transitou para o jantar - o vinho. Não é um vinho em que se sinta totalmente o Douro, mas é apetecível para acompanhar uma leitura e um queijo de ovelha (meia-cura) de Zugarramurdi... Sinto saudades de "Nafarroa" e de "Euskadi".

 

villas boas douro.jpg

 

Assisto a um homem simples, o Presidente (esse título nunca se perde) Obama, pelo menos na fase em que ainda está na campanha às primárias. Um homem com real vontade em mudar o Mundo e com um foco muito interessante na sua vida pessoal e na família - a relação com Michelle e com as filhas é apaixonante. Além de que, Obama também é daqueles que dispensa festas e encontros mascarados de palcos para ascensão social e privilegia a família e um pequeno círculo de amigos. Para já, tem o meu voto por também me rever no mesmo.

 

E como é Domingo, e ainda tenho os dedos a estalar depois de ter ido correr com um gelo daqueles, deixo-vos com uma sugestão musical e cinematográfica.

 

Começo pela segunda: "Le Meilleur Reste à Venir" - os franceses (a produção é franco-belga) não conseguem fazer comédias sem uma boa carga dramática e é por isso que um Dezembro não deve passar sem uma ida ao cinema para ver este filme de Alexandre De La Patellière e Matthieu Delaporte. Adorei o duo Fabrice Luchini-Patrick Bruel, especialmente o último actor... É uma verdadeira história de amizade e das decisões difíceis que temos de tomar quando uma verdadeira amizade - algo raro nos dias de hoje - nos coloca à prova. O resto... Vejam o filme.

Para terminar, recupero algo que me tem acompanhado várias vezes neste início de Dezembro... Amilcare Ponchielli e o seu mais que fabuloso "Capriccio per oboe e pianoforte, op.80". Isto é maravilhoso... Ideal para acompanhar uma leitura, o trabalho ou simplesmente para acendermos um candeeiro de pé e ficarmos no sofá a entregar o nosso pensamento às mil e umas taquicaridas que a nossa condição nos obriga a enfrentar.

Bom Domingo...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Félicitacions Boris Vian...Oh! C'est Divin...

por Robinson Kanes, em 07.11.20

30185_1381417339-borisvian_small.jpg

Créditos: https://beta.prx.org/stories/126076

 

Este Domingo, o CCB vai homenagear Boris Vian , um dos grandes mestres da literatura e da música que em Março faria 100 anos... Deste senhor, "Irei Cuspir-vos nos Túmulos", "A Espuma dos Dias" ou "As Formigas" estarão sempre cá guardados... E quando a prosa é boa e a música também, não haverá muito a dizer... Vamos apanhar uma valente bebedeira de "Bordeaux" no "Club Saint German des Prés" e celebrar até a malta cair ao Sena!

 

A mon "ami" Vian, Félicitacions! Pour vous "Le Déserteur", et on va écouter pour Jacques Canetti! 

J'suis snob... j'suis snob...Tous mes amis le sont...On est snob et c'est bon... Temos pena!

Bom Domingo!

Autoria e outros dados (tags, etc)

It's Wonderful... Via con me...

por Robinson Kanes, em 02.11.20

estuario_do_tejo_alcochete.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Os hábitos são fáceis de criar, mas muito difíceis de quebrar.

Paul Dolan, in "Projectar a Felicidade"

 

Um Domingo a pensar no presente... Dou comigo a desejar as últimas gotas do FIUZA Cabernet Sauvignon de 2016 e a deixar-me envolver por sons que me acompanharam ao longo de toda a vida... Alguns mais recentes, outros recordações de um passado que nunca vivi mas que chego a ter saudades, estranha sensação... Talvez por isso, me sinta tentado a partilhar um pouco daquilo que são mais algumas músicas da minha vida e que ontem me acompanharam, entre um tinto e umas festas ao Pastor Alemão.

 

Começo a disparar com Paolo Conte... A música italiana sempre presente na minha vida, não posso deixar de passar a sua poderosa voz em "Via con Me". Um colosso da música para se degustar entre um copo de vinho e uma prosa de Tomasi di Lampedusa... E que colosso!

Não me distancio muito e acabo nos anos 80 em Bordéus para me deixar levar pelo vento da Nouvelle-Aquitaine. É lá que encontro a música dos Noir Désir e como não poderia deixar de ser. É impossível passar ao lado de "Le Vent Nous Portera". Tenho vontade de me fazer à estrada, ir contra todas as regras e apenas parar no Farol de Cap Ferret... Sinto-me "L'Homme Pressé", mais um dos temas desta banda...

De volta a Itália, sem saber ler nem escrever e ainda limitado na minha capacidade de interpretar músicas, existem cantores e compositores que nunca se esquecem, não tivesse uma irmã, aliás duas, com idade para serem minhas mães. Zucchero tornou-se uma voz que sempre andou lá por casa, pelo menos enquanto uma delas não "aparolou". Passa "Oltre le Rive". Na dificuldade em escolher uma só...

Por estes dias, um ou outro elemento que tem a paciência e o mau gosto de me acompanhar noutras paragens, terá lido a letra desta música. Tão actual e tão verdadeira. Ontem dançou-se ao som desta música, ontem apeteceu-nos pegar na bandeira francesa e caminhar qual turba de Delacroix em direcção a esse, cada vez mais, mito! Efeitos do FIUZA, por certo... Falo de Jovanotti, esquecido em Portugal (um sucesso em Itália e no Mundo) devido às prioridades das editoras e das fracas rádios da nação. "Viva la Libertà"... Viva! Viva! Viva!

Um dos colossos da música e um inesquecível concerto que não me sai da memória no Royal Albert Hall! Ainda hoje é recordado por cá com uma saudade daquelas... É difícil de escolher uma música deste cavalheiro, por isso fico-me por um clássico que não poderia ter melhor voz... Joseph Kosma e Jacques Prévert não poderiam ter ficado mais felizes... "Autumn Leaves" pelo brilhante Eric Clapton -  bem a propósito enquanto o vento lá fora faz as folhas esvoaçarem até à Janela. Simplesmente brutal!

Este foi o ano da morte de Morricone, talvez repita a sugestão... Mas o dia convida a esta música e deu-me uma saudade imensa da Sicília. Lembrei-me da Scala dei Turchi e não podia deixar passar "Malena". Hei-de morrer em Cefalu, na Pérsia, no Uganda ou na ilha das Flores, se entretanto não me fizerem a folha por causa do blogue ou eventualmente a senhora da foice se antecipar.

Hoje, enquanto recebia notícias da Arménia, engolia em seco a pensar em como é aqueles dois países (o outro é o Azerbeijão) podem estar em guerra. Caramba, não podem! Não posso pensar que aquelas pessoas com quem bebi o melhor café do mundo possam estar em guerra com outro igualmente afável povo, os azeris. Espero que o entendimento seja para breve, pois a riqueza daqueles países, onde se incluem as suas gentes não pode estar a ser destruído, além de que por aquelas bandas, uma guerra pode ter consequências nefastas para o médio-oriente e para a Europa. Partilho uma descoberta do novo milénio e que passa também hoje na playlist de uma outunal tarde de Domingo: Aram Movsisyan e uma herança arménia, "Msho Gorani".

A culpa de andar sempre rodeado de velhos e de ser o mais novo da família durante muitos e muitos anos levou-me a incorporar gostos que acabaram por ficar. Desde muito cedo Joaquin Sabina acabou por fazer parte da minha vida e nesta tarde em que recordo os presentes e também os ausentes. "Y Sin Embargo" fica também na memória, até porque como dizia Levinas, "a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente". Os anos e as saudades não deixam esquecer este colosso da música espanhola.

Por falar em velhos... Só me lembro deste cavalheiro que enche as prateleiras de discos e a memória do computador. Ainda há esperança (talvez não) de jantarmos em Nova Iorque com este cavalheiro a acompanhar ao microfone ou simplesmente a partilhar a mesa. "The Good Life" de poder usufruir desse momento com Tony Bennett seria um dos grandes momentos da nossa vida. Podiam ser tantas... Tantos beijos e abraços, tantas danças e jantares... "That's the good life"...

A banda sonora da tarde prolongou-se, fiquei indeciso em relação a quem deixaria o último lugar da playlist de hoje, entre Beirut, Kings of Convenience e Feist, os últimos a serem ouvidos, escolhi Feist e a poderosa "The Bad in Each Other"...

 

Boa semana e... "Viva la Libertà"...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Les Divas du Taguerabt

por Robinson Kanes, em 22.10.20

taguerabt.jpg

Créditos: https://mk2films.com/en/film/taguerabt-divas/

 

 

A sabedoria só nos chega quando não serve para nada.

Gabriel Garcia Marquéz, in "O Amor nos Tempos de Cólera"

 

Em Portugal, ficou famoso um indivíduo que deu a ópera como morta e constantemente faz questão de reforçar essa temática. Compreendo as palavras do mesmo, o Ser alpinista que bebendo da vontade das elites pseudo-intelectuais e que estranhamente ocupa o espaço radiofónico sem ter qualquer dicção poderá encontrar na realidade nacional um São Carlos deprimido sempre com os mesmos espectadores, uma maioria a convite ou que simplesmente não paga e uma outra que só vai à ópera porque sim.

 

Todavia, Portalegre e Lisboa não são o centro do mundo e a cultura não se adquire com uma viagem aqui ou acolá para preencher CV, pelo que, caminhemos até à terra que viu Camus nascer. Foi através da Ópera National de Paris que ficou famosa a construção de uma sala de ópera em Argel com capacidade para 1400 pessoas.Estamos a falar de Argel, capital de um país sem grande tradição operática mas de uma riqueza cultural imensa. Foi também neste contexto que no passado mês de Setembro saiu para a rua o pequeno documentário de Karim Moussaoui, "Les Divas du Taguerabt".

 

Moussaoui partiu em busca de uma espécie de ópera ancestral, das mulheres que cantam nas grutas melodias que encantam e seduzem todos aqueles que escutam estas vozes com atenção. E encontrou-as... Encontrou-as e descobriu um opíparo Património da Humanidade que, sem dúvida, também terá o seu lugar na nova sala de Argel.

 

Neste imenso país, de ancestrais tradições, de nascimento, passagem e queda de muitos impérios, Moussaoui deu a conhecer ao Mundo as vozes da terra, as vozes do Norte de África, um cântico feminino de valor incalculável e que pode ser apresentado lado-a-lado com qualquer ópera, com qualquer outro espectáculo até, prova de que, por muito que queiramos porque é "cool", existem coisas que não poderemos destruir, mesmo julgando-nos grandes (e só mesmo isso) no nosso pequeno rectângulo. É importante perceber que também todos os dias são compostas novas óperas, novas peças e não são somente as mais conhecidas que marcam a agenda que queremos destruir - argumentar contra isto, é seguir um discurso "ovelhoa" encomendado entre uma cerveja artesanal e um prato vegan em bares do Bairro Alto. 

 

Vejam o documentário, são só 15 minutos e está no Youtube e deixem-se encantar por estas Senhoras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Então não se vê que é um Atum!

por Robinson Kanes, em 21.08.20

atum_vallado.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

Recordo-me de um sketch para trazer mais um desastre na cozinha. Desta feita, aproveitei o facto da matéria-prima ter chegado directamente dos Açores durante a madrugada e consequentemente me ter destruído a carteira. Mas tendo em conta que não passaram 24 horas entre a captura, o transporte de avião e a mesa cá de casa, não nos podemos queixar.

 

Um formoso atum, não tão bom como o senhor Genuíno no Faial ou da "Casa do Rei nas Flores", mas o suficiente para nos encher as medidas. Coisa simples, basta acompanhar com o puré da praxe, o saboroso molho (nem ver sal) e está feito. Esta foi para o Pedro e para a Alice. Por falar nisso, amanhã a Alice será a convidada semanal do SardinhasSemLata.

 

As melhores coisas do mundo são assim, simples. Recordo a experiência maravilhosa que foi também um bonito da Cantábria comprado em Santander. 

 

Todavia, estas coisas nunca podem ser degustadas a seco, e não seguindo a tentação de escolher um vinho do Pico, particularmente não aprecio, fiquei-me por um "Vallado" - um tinto do Douro de 2014. Esta foi para o José e para a Maria. Bem... E para o outro José e para o Folhas... Só não é para este porque é mais apreciador de bebidas brancas.

 

O resto é história e demasiado... pessoal para contar. No entanto, tanto a confecção, como a degustação, não dispensaram uma bela música... Ermal Meta foi o artista deste jantar e destaco uma das suas melhores: "A parte te".

O que é que atum tem a ver com música italiana? Nada! Mas por aqui tem tudo... Além disso estou com umas ganas de percorrer o "Parco Nazionale del Cilento" e gravar mais umas boas caminhadas para trocar com o Pedro!

 

Bom fim de semana,

 

P.S.: esta semana não houve o habitual espaço "O que aprendi nos últimos seis meses". Tal deveu-se a um motivo de força maior e inultrapassável: esqueci-me completamente e não convidei ninguém.

Autoria e outros dados (tags, etc)

braga (1).jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

 

Faz-me favas com chouriço... O meu prato favorito... Quando chego para jantar... Quase nem acredito! Poderia ser a música de José Cid, mas não. Desta feita o Robinson foi à fava e sacou um belo entrecosto com favas, mentira, foi mesmo a alemã. A carne de porco não é uma das presenças mais habituais cá em casa, não obstante, um belo entrecosto bem temperado e uma favas, quem resiste? A receita também não é das mais complexas e acompanhada, mais uma vez, por uma Moretti, é de chorar por mais... Aprecio bastante a Nastro Azurro é mais difícil de encontrar por cá, embora em Santa Maria da Feira exista um distribuidor.

favas_entrecosto_moretti.jpg

Para os que defendem que beber cerveja é coisa que não vai bem que um petisco destes, junto um pouco de atitude e nobreza ao prato e carrego com um "Pacheca". Um tinto de 2017 a trazer-nos de volta ao Douro. E o Douro, o que dizer...

pacheca_tinto_vinho.jpg

E agora entro em mais um momento old school e sendo um apaixonado pelo Mediterrâneo e por Espanha, não posso deixar de me recordar de um dos maiores êxitos de Joan Manuel Serrat, "Mediterráneo". É música de velho, mas tendo em conta o que se ouve hoje. A propósito, Lena D'Água é a artista feminina do ano... Pronto, lá se vai o entrecosto pela goela acima. Como é que é possível que... Em Portugal o "choradinho", a família e os amigos nos locais certos fazem milagres. E convenhamos, um milagre de todo o tamanho, acho que nem Nossa Senhora foi capaz de atingir tão elevado grau de complexidade.

E antes que um cavalheiro me venha chamar burguês, passem num cinema e vejam o novo filme do sempre brilhante Elia Sulleiman "It Must be Heaven" ou como é conhecido por cá, "O Paraíso, provavelmente". Confesso que adorei este filme premiado em Cannes e onde me ri e fiquei a pensar... Em como lá, como cá, ficamos a pensar no que realmente muda. Top! Será o mundo realmente uma Palestina como disse o realizador?

Finalmente um livro... "A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro. Os recentes incêndios na Covilhã despertaram-me para a memória deste livro. Tendo uma mãe beirã, entendo o que significa e  amargura-me ver como a serra vai ardendo... Tempos difíceis os relatados no livro onde a esperança alterna com o desencanto.

ferreira_de_castro_la_neve.jpg

E para pensarmos... Sobretudo tendo em conta os tempos actuais e um episódio em particular relacionado com bancos, uma frase de Manuel Vilas, um dos melhores da Espanha actual, que pode ser lida na sua obra "Ordesa": E quem é o Estado? É uma sobreposição amarelecida de vontades cansadas, que já não pensam, que pensaram há muitas décadas,  e que a preguiça,  que é a mãe da inteligência , perpetua.

 

Bom fim-de-semana,

 

P.S.: as mulheres de Braga "têêm" charme, aproveitem e levem uma às "Frigideiras do Cantinho"... Apesar da simpatia, pago-as sempre pelo que, a sugestão é baseada apenas no meu bom gosto, vá... Mesmo congeladas e depois aquecidas, ui...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ainda ontem se andou por Braga... Mas admito que hoje ainda subi mais, até às Astúrias, e tive de ir à procura das lentilhas negras ou belugas. Das Astúrias porque foi lá que comprei a última embalagem desta iguaria, mais precisamente em Cangas de Onís. Com uns camarões e uns chocos, temos o jantar perfeito para uma noite bem animada e proteica. A receita é simples e segue por email para os mais interessados...

lentilhas_negras.jpg

 

E como este autêntico caviar, aliás, bem melhor que caviar (abomino caviar), não pode ser ingerido a seco e a água não abona ao paladar de tal iguaria, vou ceder a um afordable  "Castelo do Sulco Tinto 2016" da Quinta do Gradil.  Bom preço e não fica nada mal... Como os vinhos desta região mudaram e se tornaram tão apreciáveis.

castelo_do_sulco_wine.jpg

Para acompanhar todo este cerimonial, nada como ter uma música de fundo que acaba por nos acompanhar ao longo do fim-de-semana, e nos transporta para as Astúrias e até para estes novos tempos, a "Sinfonia nº 9" do compositor  checo  Antonín Dvořák, mais conhecida como "Sinfonia do Novo Mundo". É  uma das mais belas obras do compositor e que foi a minha banda sonora aquando da visita à última morada do mesmo, em Vyšehrad. 

dvorak_new_world.jpg

E como estamos por Praga, nada como encontrar Kafka e começar o fim-de-semana com uma leitura de "Amerika", bem ao estilo que Kafka nos habituou mas com a ligeira diferença, imprevisível ao início, em que finalmente temos uma personagem principal que... de forma simplista, consegue dar a volta.

kafka_amerika.jpg

E como não falta embalagem e também há sempre tempo para bom cinema, uma sugestão do Cazaquistão, o filme de Sergay Dvortsevoy, "Tulpan". É impossível ficarmos indiferentes e apaixonados pela personagem de Tulpan e o enredo em torno do seu futuro, onde o casamento se revestirá como "obstáculo" principal os desafios do mesmo. 

Bom fim-de-semana,

*Imagens: Robinson Kanes

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor



Instagram



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sardinhas em Lata

Todas as Terças, aqui! https://sardinhasemlata.blogs.sapo.pt/

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog


subscrever feeds




Mensagens







Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB