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Imagens: Robinson Kanes

 

"Happy Friday", meus senhores e minhas senhoras! "Happy Friday" também para aqueles que vão passar o fim-de-semana a trabalhar! (Nunca me esqueço, até porque, não raras vezes, também sou um deles).

 

Ontem estava deitado e dei comigo a pensar que esta semana carreguei demasiado no pedal. Quem deve estar contente com isso é o Pedro, aqui do SAPO. 

 

E sexta, pontualmente, tende a ser um dia em que partilho também algumas das minhas paixões ou preferências - sugerir acho pesado, embora utilize o termo, afinal... Quem sou eu para sugerir o que quer que seja? Começo pela música, e esta semana com duas recomendações. Uma delas porque foi a minha banda sonora no carro e como é bom uma das viaturas lá de casa ainda trazer leitor de CD - aliás, todas trazem, embora a mais recente tenha sido uma grande surpresa! Obrigado à malta da DS por se ter lembrado de quem também ainda utiliza CD!  Sting, fui à prateleira e não resisti ao "Symphonicities" gravado com a Royal Philharmonic Orchestra (RPO). Se as músicas de Sting (e não gosto dos "Police") já são qualquer coisa, com a RPO é um delírio para quem gosta muito do artista e de música clássica! E não se sintam amedrontados se podem achar que é pseudo; ao ouvirem a primeira faixa e a versão de "Next to You" irão perceber de imediato o que quero dizer:

Depois de Sting, o fim-de-semana pode ser preenchido com algo mais particular, Yann Tiersen! Recordo-me também do tempo dos CD e de "La Valse des Monstres", o primeiro do compositor e que além de outras composições para filmes, inclui já dois temas que acabaríamos por encontrar no sucesso de Jean-Pierre Jeunet, "Amélie". Deixo aquela que dá o título ao disco - "La Valse des Monstres" - e uma que reconhecerão de imediato, "Le Banquet" - e como é bom ouvir algo que também sabemos interpretar.

Para ler, não posso deixar de me recordar da MJP que, em tempos, me perguntou de onde conhecia Marie de Hennezel! Marie de Hennezel, é uma psicóloga clínica e terapeuta que, em França (e não só), transformou o modo como encaramos a morte e também como vivemos os nossos últimos dias, especialmente quando sabemos que tudo está perdido! Foi sobretudo a partir da Unidade de Cuidados Paliativos para doentes terminais de Paris que o Mundo pôde conhecer o trabalho desta senhora, essa sim, uma verdadeira heroína quer em termos de humanidade quer em termos profissionais! Deixo "O Coração não Envelhece"... E não se deixem levar pela capa - de romance "barato" tem pouco. Tem um peso extraordinário e acredito que a muitos pode ajudar. Apesar da carga espiritual, é algo completamente exposto com ciência e com um conhecimento único! Imaginem um "De Senectute" dos séculos XX e XXI mas com uma visão mais cientifica. Ou não imaginem... Sobretudo se tiveram que ler a obra de Cicero em latim... O livro lê-se com uma facilidade tremenda e gera emoções que não vos vão deixar com a mesma visão da velhice dos tempos modernos!

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E para que este cavalheiro venha para aqui dizer que peco por excesso, nada como deixar "Mia Madre" de Nanni Moretti, realizador de quem já falei aqui. A história de uma mulher que entre os desafios profissionais, o fim de uma relação e a adolescência da filha ainda tem de pensar na sua mãe doente - é um filme de Moretti, não é fácil de digerir, mas é sempre uma valente dose do que é ser humano, algo que não vemos em todos as produções cinematográficas.

E é isto... Se não estiverem interessados em conversas sobre a proibição de piropos, falsas acusações de racismo e gente fanática disfarçada de bons moralistas e defensores de grandes causas, sempre podem dar uma vista de olhos por isto...

Bom fim-de-semana,

 

P.S.: Caro "X", não me esqueci da Cantábria... Para a semana está prometido, mas tenho de estar em sintonia para me recordar de todas as emoções e vasculhar todos os meus apontamentos. Caro Folhas, o Tejo também não está esquecido.

 

 

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Fechados em respeito pela Grande...

por Robinson Kanes, em 04.06.19

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Créditos: https://www.skoob.com.br/autor/3238-agustina-bessa-luis

 

E porque aqui sempre se seguiu Agustina... E porque aqui não nos lembramos dos grandes só quando morrem ou quando dão mais visualizações... E porque aqui sabemos que somos parolos e sempre seremos sem ser necessário camuflar tal facto com pseudo-intelectualidades... E porque aqui continuaremos a ler Agustina, mesmo quando o hype de falar da sua morte passar já amanhã... E porque aqui sabemos que existe alguém que está de rastos com a morte de uma das suas escritores de eleição... E porque aqui Vila Meã será sempre ponto de paragem... E porque aqui somos assim e sabemos que "as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina” (quem leu Fanny Owen sabe o que quero dizer) estaremos de luto.

 

E agora, sem perceber porquê, recordei-me do grande Eugénio de Andrade...

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Obrigado Estação de Metro do Aeroporto!

por Robinson Kanes, em 06.03.19

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Fotografias: Robinson Kanes

 

Honestos ou patifórios, triunfadores ou vencidos - onde é que? Cresceu a erva por cima - que é que quer dizer a moral por baixo da erva?  Muito bem. Somente o absoluto existe no absoluto da tua vida. Realiza-as nos limites do teu trajecto visível. Treva e irrealidade o resto e é só. Tu aí, a tua vida é essa para preparares o que te falta. É pouco o que te falta - bem pouco. Prepara o resto por cima da erva, enquanto não estás por baixo que é onde já não há preparação.

 

Vergílio Ferreira,in "Para Sempre"

E o resto são tretas... Fica também uma recomendação de leitura para esta semana...

 

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Encontrei Philippe Noiret...

por Robinson Kanes, em 08.08.18

 

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 Fonte: Própria

 

Já muitas vezes falei de um dos meus actores preferidos - é ele Philippe Noiret. Abordei este grande actor aquando do meu artigo sobre "Il Postino" e também aquando do artigo sobre "Cinema Paradiso". Todavia, este actor mereceria tantos outros destaques, nomeadamente com um dos filmes que lhe deu mais prémios, falo de "La Vie en Rien d'Autre", datado de 1989 e obra do realizador Bertrand Tavernier. Já em 1984 havia, também com a presença de Noiret, realizado "Coup de Torchon".

 

Mas o que hoje me faz recordar Noiret é ter descoberto o mesmo em Montparnase, mais precisamento no cemitério onde está sepultado e onde, apesar das minhas pesquisas, nunca encontrei menção à sua presença. Se Sartre e Beavouir, ou até Beckett e Duras já estavam na minha lista, ter encontrado Noiret por mero acaso enquanto vagueava entre campas foi uma grande surpresa (até porque nem está nos destaques que o cemitério tem para personalidades reconhecidas), uma surpresa boa nesta visita ao cemitério de Paris que me faltava.

 

De facto, sabendo que ali está apenas terra, foi como se tivesse encontrado o velho Alfredo com aquele sorriso tão próximo, tão franco e tão puro. Sim, estava ali Alfredo, estava ali Philippe Noiret que me encheu ainda mais de alegria quando me pude aperceber da sua paixão por cães e por cavalos - desconhecia a primeira. Simples como as personagens de Noiret, devo dizer que foi um dos pontos altos em mais um regresso a Paris.

 

Enquanto procurava o grande mestre Becket, encontrei Noiret... A minha tristeza? Não me poder ter sentado entre os dois e ter falado um pouco de dramaturgia, literatura e cinema... Acredito que entre mortos, saíria mais vivo e mais rico que nunca.

 

 

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"Fiesta", Sol e Solidão...

por Robinson Kanes, em 19.03.18

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Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Admito que, embora Hemingway até seja um Existencialista, nem sempre tenho a melhor relação com o autor, no entanto, existem livros que nos colocam numa situação em que percebemos o porquê de alguém ter sido elevado à categoria de génio - nada como começar com "As Neves do Kilimanjaro" e deixar que Francis Macomber nos deixe emocionados com o seu sofrimente em "A Curta e Feliz Existência de Francis Macomber".

 

Mas quando falo dos confrontos com tamanho génio, fica-me na mente a obra "Fiesta" ou "O Sol Nasce Sempre" - é uma dessas situações... Uma dessas situações em que num contexto diferente nos deparamos com uma igualdade de pensamento assustadora... Inspirado em muitas das vivências e numa parte do seu círculo de amigos, Hemingway retrata bem a apatia dos esclarecidos e a triste solidão dos fortes e dos inteligentes - de como a guerra (pós 1ª Guerra Mundial) destruiu uma sociedade, lhe tirou a sua capacidade de pensar - estranho que o contraste com os dias de hoje não existe, todavia não estamos em guerra (pelo menos a Ocidente) mas estamos paradigmaticamente numa sociedade de abundância onde, aparentemente, não existe uma resposta para os desafios que nos são colocados e somente um berreiro atroz que camufla a apatia generalizada.

 

Muitos apontam que Hemingway se inspirou em indivíduos como Picasso ou Scott Fitzgerald para nos dar a conhecer uma espécie de geração perdida - embora alguns tenham sido mestres na sua arte!

 

"Hoje", enquantos os toros correm pelas ruas de Pamplona, as bebedeiras aplaudem o circo - que não é o dos "toiros" - mas dos cabrestos que assumem a arena enquanto aos verdadeiros "toiros" não é permitida a saída dos curros...

 

Esperemos que o Sol não deixe de nascer... Ou talvez até já se tenha iniciado o crepúsculo e ninguém parece dar por isso, tal é a luz artificial à sua volta...

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O Som de Stelar e a Fúria de Faulkner...

por Robinson Kanes, em 15.02.18

 

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Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Vem aí mais uma fim de semana, quase prolongado para este espaço, pelo que, só voltaremos lá para segunda ou terça-feira, depende se há paciência para escrever algo durante a viagem...

 

Por aqui, de vez em quando, lá se vão deixando umas sugestões, e esta semana, ouso em deixar uma que nem me apaixonou: o "Som e a Fúria" de William Faulkner. Faulkner já passou por este espaço em Outubro de 2017, aqui mesmo! Falou-se de "Os Ratoneiros" - um livro com uma leitura algo simples mas incontestavelmente mais apaixonante, sobretudo quando acompanhamos Boon num sem número de peripécias que nos divertem até um feliz desenlace.

 

Quem espera uma exploração profunda da época, nomeadamente do contexto sulista pós-revolução americana, do incesto, do amor e da decadência das famílias do sul, pode preparar-se para não encontrar aquilo que procura... Os quatro narradores, três deles personagens, acabam por nos levar para um exercício de fluxo de consciência que nem todos apreciam. Apesar de ser colocado como um livro de dificil leitura não me alongo mais na apreciação do mesmo, até porque muitas das abordagens que existem, e como acontece em tantas obras, são por vezes tão forçadas que ficamos com a sensação de que, ou somos ignorantes ou efectivamente alguém quer colocar as coisas num patamar em que não estão! No entanto, isso não nos impede de olhar para o choro de Benjy de uma forma diferente e que no fundo descreve um pouco de todo o colapso da família e das diferentes personagens, como Caddy, a inocente e pura; Quentin, o irmão incestuoso; e finalmente Jason a personagem dura e patriarca da família após a morte de Mr. Compson.

 

Finalmente, uma nota para Dilsey que só aquele narrador (Faulkner?) poderia chamar a atenção... Dilsey, talvez a grande "patriarca" activa e moral da família, a criada em nada reconhecida e valorizada, mas que é sinónimo de estabilidade emocional, moral, valores e paz!

 

E... Para que não me acusem de estar desfazado meu tempo, faço a minha primeira abordagem à música electrónica, e neste campo, não poderia deixar passar Parov Stelar, o austríaco criador do "Electro Swing"... O que me apaixona é a combinação entre a música electrónica e o jazz que conseguem criar obras, algumas delas em estilo mais underground e que naquelas noites mais ousadas nos proporcionam um misto de paz combinado com uma eterna vontade de movimento. Outras, talvez sejam a banda sonora ideal para uma Primavera em Maiorca ou no sul de França... Longe do bulício das grandes discotecas, naquela praia mais recatada e onde as mesas de bar são de madeira desgastada...

 

 

Não é dos meus compositores mais apreciados, mas é sem dúvida a confirmação de que nos anos 90 já existia alguém a adivinhar os ritmos que hoje são autênticos sucessos internacionais! Talvez por isso, a minha escolha... E talvez porque não há nada melhor (pronto, ou talvez haja) que esta banda sonora (vide abaixo) para ir de Sanremo, atravessando a Ligúria até Savona e chegando a Turim onde deixamos que as montanhas nos engulam em cada curva até à fronteira com a Suiça, já em Zermatt... 

 

 

Bom fim de semana e tomem lá mais uma... Até porque ainda é Carnaval! Gozem mais as épocas e menos o "show off" consumista ou gabarolado em torno das mesmas...

 

 Bom fim de semana...

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Semana de Um Condenado...

por Robinson Kanes, em 27.01.18

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

Foi na segunda ou terceira exibição que tive oportunidade de utilizar um "voucher sapo" e fui ver, ao Teatro Armando Cortez, a peça "O Último Dia de um Condenado" de Victor Hugo, encenada por Paulo Sousa Costa e representada por Virgílio Castelo. O que me chamou à atenção, além do preço do voucher, foi o facto de se tratar de uma obra magnifica que já havia lido há tempos.

 

A sala não estava ainda muito composta, talvez por ainda estarmos no início e a divulgação a ter lugar. "Não conhecia" Vergílio Castelo e devo dizer que esteve magnífico. Como vem aí mais uma boa semana (e o fim de semana também não acabou), nada como ir ao Teatro Armando Cortez ver bom teatro - e os preços não são desculpa para não ir. Aqui, lanço o meu primeiro agradecimento ao "SAPO".

 

Em relação ao livro... É um romance de 1829 e que, segundo alguns relatos da época, se deveu ao triste espectáculo a que Victor Hugo muitas vezes teve de assistir: a morte pela guilhotina. É a angústia de um condenado à morte, da vontade de viver, das recordações, do homem que preso já não é ninguém, do homem que já é esquecido pela sociedade, inclusive pela própria filha (e aqui, na peça, a interpretação de Virgílio Castelo é genial), é o homem esquecido por todos. É uma angústia latente e a interrogação se, de facto, a morte de alguém resolve ou atenua verdadeiramente o crime cometido anteriormente - aliás, a mesma celebra os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal e que, naquele tempo, também mereceu um grandioso elogio de Victor Hugo.

 

Uma vez cravado a esta cadeia, não se é mais que uma fracção deste todo hediondo a que se chama o cordão, e que se move como um só homem. A inteligência  deve abdicar, a golilha de prisioneiro condena-o à morte: e o próprio animal  nunca mais deve ter apetites nem necessidades sem ser a horas fixas. In "O Último Dia de Um Condenado", Edição Verbo de 1972, vide pág. 43.

 

Na verdade, e a peça (e bem) não vai por aí, o final do livro conta a história de um prisioneiro real, Claude Gueux que, devido a um evento na prisão onde se encontrava condenado a 5 anos de prisão, acaba por ser condenado à morte... A interrogação que vão encontrar neste texto é notável e fazer-nos-á pensar bastante em crime e inocência, em justiça e injustiça... Mas para isso, nada como ler este pequeno livro, uma obra-prima deste grande génio.

 

Todo esse povo rirá, baterá palmas, aplaudirá. E entre todos esses homens, livres e desconhecidos dos carcereiros, que acorrem cheios de alegria a uma execução, nessa multidão de cabeças que cobrirá a praça, haverá mais de uma cabeça predestinada que seguirá a minha mais cedo ou mais tarde no tapete vermelho. Mais de um dos que aí vier para mim aí voltará para si mesmo.

Para estes seres fatais há um certo ponto da Praça de Gréve, um lugar fatal, um centro de atracção, uma armadilha.Vão andando à volta até cair nele. In "O Último Dia de Um Condenado", Edição Verbo de 1972, vide pág. 107.

 

Bom fim de semana... Boa semana...

 

P.S: Obrigado ao "SAPO" por me ter permitido tomar conhecimento desta peça e obrigado também pelo destaque do artigo "Retratos de Inverno - Cogumelos".

 

 

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IMG_7160.jpgExemplares de "Talas", o registo administrativo e buriocrático da aldeia (um pequeno e simpres resumo do que eram, encontra-se aqui) - Museu Nacional de Etnologia.

Fonte da Imagem: Própria

 

 

Rio de Onor foi outrora uma aldeia transmontana que, pela sua sociedade comunal, apaixonou um sem número de investigadores, nomeadamente, com o intuito de perceber e contribuir para o esclarecimento do seu modelo de organização comunitária (4) e do conceito de closed corporate community (Wolf, 1955). Estes conceitos e estudos encaixaram em comunidades de montanha, com um enorme património colectivo, na altura somente tendo como base a agricultura e o pastoreio e os seus respectivos constrangimentos, nomeadamente a organização do território (5) , as culturas, a assembleia de vizinhos (órgão de gestão e controlo), os direitos e obrigações e homogeneidade ocupacional, promovendo uma democracia participativa e igualitária assente no isolamento e no arcaísmo, aliás, conceitos muitos explorados pelos estudiosos deste tipo de comunidades, não só na Península Ibérica, mas também por toda a Europa.

 

Deste modo, Rio de Onor formava duas comunidades semelhantes entre si, e cada uma bastante homogénea. A Portuguesa com raízes mais intactas e a espanhola mais “modernizada” também por culpa das convulsões políticas em Espanha (Dias, 1953: 79).

 

Tendo em conta o lado português, a organização comunitária era assente em famílias  sendo o conjunto das diversas famílias, os vizinhos. A família tinha como base estrutural a casa - terá sido do conceito de domesticidade que se terá chegado à organização de vizinhos, ou seja, a casa abriu e deu lugar a uma lógica de reciprocidade. No entanto, e tendo em conta o conceito de família e casa, encontramos aqui uma situação que agradaria aos clássicos da Economia, sobretudo para Mill e Malthus: em Rio de Onor os casamentos eram tardios de modo a evitar famílias numerosas cujo apetite seria superior à capacidade de produção das agricola e pecuária (idem) (6). Esta situação, contudo, viria a ser invertida com o progresso  técnico que permitiu um melhor aproveitamento das terras. Todavia, nem todas as “novas” famílias poderiam participar no conselho, embora com margem para serem ajudadas por este. Não participando na definição dos destinos da terra, estas famílias quase com toda a certeza ficariam em situações de grande dependência, para além da simples marginalização que foi defendida por muitos autores.

 

Um outro pilar da organização era o conselho, ou seja, a organização de todos os participantes na propriedade colectiva integral: “até princípios do séc. XX, o conselho era a organização social que permitia a todos os habitantes comunitários de Rio de Onor fazer face aos múltiplos problemas da sua economia de povos [criadores de gado]” (Dias, 1953: 81). A propriedade colectiva era de todos, no entanto, foi alvo de uma organização rígida com regras e leis, direitos e deveres, onde não foram esquecidas as medidas coercivas através de um sistema de penas.

 

Estamos aqui perante uma alternativa política de democracia participativa. O conselho tinha também intervenção na propriedade privada, aliás muitos dos trabalhos nestas propriedades também estavam sujeitos à regulamentação do conselho. A propriedade colectiva encontrava-se dividida em terras de pastagem (monte); terras de sementeira (rocadas) e os coutos (lameiros e prados de erva).

 

Uma nota, somente para um exemplo de coesão social e solidariedade, que era o facto dos coutos, apesar de se encontrarem matricialmente em nome de alguns vizinhos cujos encargos eram por estes suportados, estavam à mercê da comunidade/conselho (7). O conselho era liderado com base num diuunvirato anual, não existindo eleições, que foram substituídas por um sistema de rotação cíclica (8). Existe ainda uma espécie de solidariedade entre mordomos, pois a cada  mudança de mandato, os mordomos antigos passavam as talas (9) aos novos detentores do cargo, procurando resolver no dia da passagem do testemunho, todos os assuntos pendentes, para que os novos pudessem começar o novo ano livre de encargos (10).

 

Continua...

 

_________________________________________________ 

(4) Um dos maiores exemplos foi a monografia de Jorge Dias, que em 1948 já havia feito o mesmo para a aldeia de Vilarinho da Furna.
(5) Daqui sobressai o conceito de open field (Hoffman, 1975) e a sua origem medieval assente ainda numa espécie de sociedade feudal.

(6) Esta questão era tão levada a sério que os filhos mais novos não casavam de modo a garantir o controlo da natalidade familiar, o que em muitos casos levava a que três gerações partilhassem a mesma casa (extended family) (Dias, 1953). Jorge Dias dá-nos também um exemplo em que a economia familiar foi garantida após uma sucessão de mortes repentinas, que levaram a que somente ficassem dois irmãos. Estes de modo a garantirem uma linhagem e aqui Dias não aborda, mas também uma economia familiar e comunal sustentável, acordaram que somente um se casaria, garantido essa mesma estabilidade económica. Um deles casou e viveram todos no mesmo lar, pois era necessário ter uma mulher em casa. Mais tarde com a saída de muitos jovens, nomeadamente para o serviço militar esta situação foi sendo menos frequente.

(7) Dias, reforçando a questão da coesão aqui descrita, alertava já em 1953, que mediante o facto dos proprietários dos coutos exigirem os seus direitos sobre os mesmos, a organização sucumbiria.

(8) Nesta prática, todos os vizinhos eram obrigados a desempenhar o cargo de mordomo. A alteração deu-se segundo Dias, pelo facto de anteriormente existirem reclamações de alguns dos vizinhos que contestavam outros que eram eleitos várias vezes, em detrimento de outros que não eram nunca.

(9) Varas de madeira, onde se gravavam (de acordo com os fins a que se destinavam) a navalha, secções de intervalos iguais, correspondendo cada uma à casa de um vizinho. Cada tala correspondia a diferentes assuntos, nomeadamente rebanhos; fenos; eleições; multas; etc.

(10) A título de curiosidade, as multas eram pagas em vinho, pelo que antes de cada sessão do conselho se perguntava quem queria vinho. Em caso de resposta afirmativa, eram consultadas as talas dos devedores que deveriam pagar a sua dívida.

 

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Fim-de-Semana com "Il Postino"...

por Robinson Kanes, em 15.12.17

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 Fonte:http://images3.static-bluray.com/reviews/13055_5.jpg

 

Existem filmes que nos marcam para sempre... Existem bandas sonoras que nos marcam para sempre... E existem livros que nos marcam para sempre... E porquê? Porque também existem pessoas que nos marcam para sempre!

 

Este artigo não é uma sugestão, é a força de várias emoções que fervilham sempre que vejo e escuto "Il Postino". De facto, ser em Itália, ter como realizador Michael Radford (relizador do "Mercador de Veneza"), ter Philippe Noiret (Pablo Neruda) e Massimo Troisi (Mario Ruoppolo) como actores, já vale muito.Confesso que o livro de Antonio Skármeta é uma daquelas situações em que o livro se deixa superar pelo filme.

 

Foi a minha miúda que me deu a descobrir este filme tardiamente... De facto, nos anos 90, era uma criança mas... Não é possível que só anos mais tarde lá tenha chegado.

 

"Il Postino" ou "O Carteiro de Pablo Neruda", é um filme que retrata sobretudo a amizade entre o poeta Pablo Neruda durante o seu exílio em Itália e um jovem (quase analfabeto) que decide aprender poesia e acaba por se emancipar por intermédio desta. É pela poesia e pelo uso das metáforas que conquista Beatrice (Maria Grazia Cucinotta) e começa a questionar um certo status quo que reina na ilha. 

 

Os diálogos e a relação que se estabelecem entre Mario e Neruda, são o grande ponto forte deste filme. Michael Radford conseguiu ir bem mais longe que Skármeta e trouxe-nos um filme envolvente e que está ao nível das melhores produções cinematográficas.

 

Um acontecimento paralelo ao filme, contudo, acabou por ser uma das imagens de marca do mesmo: o actor Massimo Troisi, que havia adiado uma cirurgia ao coração para poder gravar o filme, morreu no dia seguinte ao encerramento das filmagens. A personagem de Massimo, morre também no filme, depois de, influenciado por Neruda, ser convidado a declamar poesia numa manifestação comunista, violentamente reprimida pela polícia. Partilho a cena que apaixona todos aqueles que têm oportunidade de ver o filme... Em italiano, sem legendas... Foi sempre assim que vi este filme...

 

 

São filmes diferentes, mas coloco este num patamar muito semelhante a "Cinema Paradiso"... São filmes que nos marcam para a vida e que nos constroem como seres-humanos.

 

Finalmente, a banda sonora. Apesar de nomeado para os óscares nas categorias de "Melhor Filme" e "Melhor Realizador", foi com a "Melhor Banda Sonora Dramática" que "Il Postino" arrecadou uma estaueta. A música é brilhante, composta por mais um compositor da época "spaghetti western", o argentino Luis Bacalov, falecido em Novembro deste ano...

 

Para mim, uma das mais bem conseguidas bandas sonoras de sempre e que me trazem à memória um pouco de Buenos Aires e sobretudo de Itália e daquelas duas ilhas onde o filme foi filmado: a inesquecível Salina, uma das ilhas Eólias que ainda hoje recordo e a ilha de Procida, na Baía de Nápoles. Recomendo uma das versões que mais gosto e que se encontra no albúm "In Cerca di Cibo" de Gianluigi Trovesi e Gianni Coscia... Um acordeão e um clarinete de sonho.

 

É impossível que o tema principal não nos marque, é uma pérola e que já deu origem a diferentes versões e a qual partilho convosco...

 

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: Ao contrário do que foi noticiado, o agente da GNR atropelado ontem no Pinhal Novo não estava numa operação STOP mas sim numa zona onde se realizavam obras de conservação da estrada. Passei numa direcção e ainda o vi a controlar o trânsito. Quando voltava, já vi o equipamento do mesmo espalhado pela estrada e o corpo deitado no chão... Ainda não estava sequer em posição de segurança, o que nos fez pensar se não seria boa ideia verificar o que se passava... Espero que esteja tudo bem com este agente, que minutos antes da minha segunda passagem ali estava a comandar o trânsito.

 

 

 

 

 

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 Fonte: http://www.thirteen.org/13pressroom/press-release/great-performances-at-the-met-il-trovatore/

 

Ontem tive a notícia de que o mundo da música ficou mais pobre... Fui confrontado com a morte do siberiano Dmitri Hvorostovsky, o grande barítiono russo que não resistiu a dois anos e meio de luta contra um tumor cerebral.

 

Dmitri Hvorostovsky é uma jóia russa e isso ficou bem patente nas condolências prestadas pela presidência do seu país. De Hvorostovsky só posso recordar algumas árias de grandes óperas, uma delas a "Di Provenza il Mar Il Suol" da "La Traviata",ópera de Verdi que já abordei aqui, onde desempenhou o papel do pai de Alfredo, o Sr. Giorgio Germont. Deixo aqui uma dessas interpretações, é belo... E porque não dedicarem uma parte do fim-de-semana à "La Traviata?

 

E como hoje é dia 24 de Novembro, celebra-se também o aniversário da morte de outro senhor da música... O tanzaniano Farrokh Bulsara que em 1991 nos deixava um dia após ter assumido a doença (HIV). Para muitos, este nome é estranho, mas se vos falar em Freddy Mercury já é possível que conheçam... Por isso, depois de uma triste "La Traviata" e de chorarmos a morte de Violetta, nada como apreciar os "Princes of the Universe" dos "Queen"... Afinal acabamos todos por ser principes neste universo infinito... Gosto especialmente da sonoridade deste tema e claro, da guitarrada a solo do Brian May, o grande guitarrista da banda... 

 

Finalmente, tenho de falar num livro de Ludgero Santos e que não é fácil encontrar em livrarias... Falo do "Perfume da Savana"... Sei que muito já se falou deste livro por aqui, pelo que vos dispenso a descrição do enredo. Aponto, contudo, que só alguém com uma grande vivência em África poderia escrever tal livro... Muito se escreve de África mas poucos terão experenciado e conseguido colocar em livro ou documentário aquilo que Ludgero Santos nos descreve... Ludgero é um guia de uma África única e de tempos passados que marcaram gerações de negros e brancos... A coroar tudo isto, a capacidade de Ludgero em descrever o amor e em criar uma daquelas histórias que nos prendem e que nem sempre acabam como desejamos...

 

Desconheço se estamos a falar de ficção ou de realidade, mas a sensação com que fico é que estamos quase num relato na primeira pessoa. Obrigado Ludgero.

 

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Fonte: Própria.

 

 Bom fim-de-semana...

 

 

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