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Atrás de Marcel Proust em Cabourg...

por Robinson Kanes, em 23.09.20

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Imagens: Robinson Kanes & GC

 

A única verdadeira viagem de descoberta, a única fonte da eterna juventude, será não visitar terras que nos são estranhas, mas sim possuir outros olhos, contemplar o universo através dos olhos do outro, de centenas de outros, ver as centenas de universos que cada um contempla, ver o que cada um deles é.  

Marcel Proust, in "Em Busca do Tempo Perdido - Volume V: A Prisioneira"

 

 

Já tive oportunidade de falar de Erik Satie, ou até de Eugène Bodin aquando do meu artigo sobre Honfleur. No entanto, agora é a vez de um mestre das letras merecer um destaque, é ele Marcel Proust!

 

Falo de Marcel Proust para poder também falar de Cabourg. Esta é umalocalidade, sobretudo conhecida por ter sido o local preferido de férias do escritor! Estar em Trouville-sur-Mer, ou mesmo em Dieppe e não passar por Cabourg acabará por ser quase um crime, nomeadamente cometido por parte daqueles que têm em Proust uma referência.

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Cabourg, ainda no Departamento de Calvados, é um daqueles locais de França em que as flores e as plantas transformam uma cidade... E uma espécie de cataplana típica também, devo confessar. Para mim, é também um local onde, como amante do estudo da 2ª Guerra Mundial, olhando o mar, já começo a ter uma sensação menos boa. Devo admitir que, na primeira vez que visitei Cabourg - e já explico porque é importante lá voltar - não consegui colocar um pé na água. Já imaginava muito daquilo que iria sentir mais para a frente... ao chegar a Caen.

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Mas Cabourg é mais que um majestoso Casino do século XIX. Cabourg é poder passear na "Promenade Marcel Proust" e sentir a aura de tempos que não vivi. É sentir um certo glamour dos anos 60, 70, 80 ou até mesmo de finais do século XIX e imaginar o charme e requinte de tal estância balnear. Não será dificil conceber Cabourg, e daí ser importante regressar, como uma daquelas escapadas românticas únicas ou não fosse conhecido pelo Festival de Cinema, também ele dedicado a filmes românticos! Acrescentem a isto, que uma parte do programa inclui cinema na praia!

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Mas Cabourg não se fica por aqui no que concerne a romantismo! O São Valentim é também celebrado de uma forma muito especial, com direito a banhos nocturnos e muito fogo de artifício - esta temática é tão levada a sério que se abrem ciclos de debates e um sem número de iniciativas culturais e até cientificas ligadas ao amor... Quiçá, e nem sou adepto da data, o próximo dia 14 de Fevereiro não venha a ser passado em Cabourg!

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Ainda falando de amor, Cabourg, mais precisamente da "Promenade Marcel Proust", é também o local onde encontramos o "Le Méridien de L'Amour", uma celebração do amor a uma escala universal e onde vários "quiosques" nos abrem os horizontes nesta matéria e em 104 línguas" - algo que não fica indiferente a ninguém! É fácil deambular por entre os  telegramas em diferentes línguas e sentir o amor num passeio junto à praia, numa localização privilegiada e romântica. Talvez seja isso que está a sentir aquele casal na segunda fotografia.

 

Honfleur, uma cidade portuária...

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Uma Surpresa entre Vialonga e Bucelas...

por Robinson Kanes, em 16.09.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Há que distinguir entre conhecer e experimentar. Verdade conhecida não é o mesmo que verdade experimentada. Devia haver duas palavras distintas.

Aldous Huxley, in "Sem Olhos em Gaza"

 

Ainda eram os tempos da roda 26" e da Scott que, pontualmente, ainda roda por estas bandas. Descarregada perto do Parque das Nações e já a rolar, a direcção apontada foi a chamada "Serra de Santa Iria", já no concelho de Loures. À partida seria um passeio "pouco" interessante, citadino e com muita estrada, no entanto...

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No entanto... Chegar ao Parque Urbano de Santa Iria e ver a lezíria de Loures, leva a que exista uma enorme vontade em prosseguir com o caminho, até porque, tendo em conta a localização da minha base, podia fazer o percurso de forma circular e chegar rapidamente por Unhos até à foz do Trancão. Assim seria, não fosse descer a serra e ao chegar à Granja e deparar-me, para lá do MARL, com outra serra e com a ideia de que as vistas não me iriam desiludir. Pensar que por ali, entre a Granja e Vialonga, às portas de Lisboa e já no concelho de Vila Franca de Xira, teve lugar a famosa Batalha de Alfarrobeira que opôs a Casa de Bragança à Casa de Coimbra em Maio de 1449 e que ditou a morte do Infante D. Pedro e do famoso Conde de Avranches.

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Sigo o percurso, atravesso alguns bairros de má fama que tendem a afastar visitantes, no entanto, como é habitual, tudo decorre sem problemas e ainda há tempo para receber o bom dia (algo que em bairros de melhor fama escasseia). Subo por Mogos e passo ao lado da Mata Paraíso. Decido parar e beber um pouco de água. Um local simples, já de algum modo altaneiro e incrivelmente surpreendente. Dou comigo a pensar que estou na estrada que vai terminar nos "queijinhos frescos", uma pequena taberna que muitas vezes visitei na infância e que, pasme-se, me encantava já pela boa comida e por ter um parque onde, não raramente, fazia os chamados amigos de ocasião. Ficava em Santa Cruz e é por aí que passo.

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Prossigo, a manhã está fria e não me arrependo do equipamento de Inverno da saudosa Trek, sigo pela direita e vou em direcção ao monte, ladeado por pedreiras, mas que ainda continua preservado. Pelo caminho, ainda há tempo para fazer amigos - um porco preto no meio da serra às portas de Lisboa... 

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É depois de subir com alguma força no pedal, que chego ao topo e me deparo com uma das melhores vistas da área de Lisboa a este. De um lado os montes e a vila de Bucelas (terra de bom vinho e especialmente de Arinto) do outro uma vista para cidade e para o Tejo já com o Ribatejo no horizonte. Lá em baixo a Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) e o verde que já antecipa os limites da cidade. Tão perto de tudo e já tão longe numa manhã deveras inesperada. O almoço foi regado com um Arinto de Bucelas, não poderia haver melhor celebração para tão rica e surpreendente manhã.

 

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Em Linhares da Beira com os Bravos...

por Robinson Kanes, em 07.09.20

linhares_da_beira (2).jpgImagens: Robinson Kanes

 

O homem está só. Mas como há-de ele estar só? Isto é um absurdo e a vida não pode ser absurda. Toda a minha história começa aqui. O resto entende-se bem.

Vergílio Ferreira, in "Estrela Polar"

 

 

Por aqui sopram ventos que atravessam a Estrela e descem pelo Açor. São também ventos que me deram uma costela e que, por isso, me enlevam numa intensa paixão por estas "terras altas". São também estes ventos que criaram a valentia nas gentes de Linhares, conhecidas pela bravura, que o diga Zurar, um chefe mouro que por estas terras passou.

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Linhares, uma das aldeias históricas portuguesas, apaixona-nos pela simpatia e humildade das suas gentes, algo tão característico da Beira Baixa. Característico é também a boa gastronomia, e como é obrigatório, não pude deixar de passar no "Escorropicha Ana", na Carrapichana. É impossível deixar que os enchidos e o bacalhau não tomem conta de três horas do meu dia. Este é um exemplo, mas em cada porta o manjar é sempre qualquer coisa.

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É com o excesso de combustível do almoço que se chega a Linhares e ao seu castelo. Olhando a paisagem, penso em Vergílio Ferreira, nascido em Melo, ali bem perto. Penso naquele serrano, penso nos seus textos: imagino "Estrela Polar", "Manhã Submersa" ou até os seus "Contos".  O ar e austeridade da montanha sempre o acompanharam, mesmo em Lisboa ou até no seu refúgio de Fontanelas.

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No castelo, percorro as muralhas e abraço todo um mundo, todo um sem número de imagens de muitas e muitas batalhas, vidas errantes em cada caminho, hoje asfaltado, em tempos por entre a floresta.

E é por aí que me fico, o dia acabará em Sandomil, já no concelho de Seia, mas até lá, repousarei e ficarei a tentar compreender "Adalberto" na senda da sua própria existência. Encontrarei "Aida" entre aqueles que passeiam por altaneira fortaleza? Encontrarei também essa estrela polar?

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De Bicicleta: Barragem dos Minutos e Safira

por Robinson Kanes, em 28.08.20

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

A vida é tão estupidamente bela. Que significa a beleza do mundo sem um homem que a testemunhe? Que significa quando não houver um homem para a testemunhar? Mas é precisamente o que significa, agora que ainda o há.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente II"

 

 

 

A manhã está a meio. É altura de tirarmos a Scott e a KTM do carro. Uma roda 26 e uma roda 29, no Alentejo a segunda será rainha. Estamos na Barragem dos Minutos, deixámos Montemor-o-Novo para trás e seguirmos a estrada de Estremoz. Ao contrário do que esperávamos, o movimento era nulo... Queremos estrada, mas queremos apreciar toda a envolvente desta barragem, uma das mais adoradas pelo quatro patas de 41 quilos. 

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Um pequeno paraíso com muitas paragens, faz-nos lembrar o caminho da albufeira de Montargil onde as paragens são também constantes para apreciar a natureza. É por ali que queremos ficar e é por ali que acabamos por almoçar, um aviado em Montemor-o-Novo fez o milagre da multiplicação da proteina.

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De história tem pouco, talvez os bons momentos nunca tenham grande história, pelo que, seguimos para Montemor-o-Novo, abandonamos a N4 e entramos por Safira - a aldeia abandonada que divide com Santo Aleixo muitas e muitas histórias mas já sem gente que, segundo historiadores locais (Jorge Fonseca é um deles), abandonou a aldeia devido ao seu isolamento. Bicicletas para o chão, lugares inóspitos e austeros é connosco... E encontrar chatices também...

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Muita poeira no alumínio e além de escombros que contam história de um passado assim não tão longínquo a bela planície alentejana, sobretudo quando ganha aquela cor de fim de dia. Percorrer caminhos de terra batida desconhecidos, ver o gado, sentir o inegável cheiro da terra seca. Aquela aridez única e que na Península Ibérica consigo encontrar na Extremadura e no sul de Aragão, bem perto de Teruel. Aqui, contudo, os cheiros são muitos e continuamos o percurso não temendo o crepúsculo e o fim da luminosidade de um dia inesquecível. Não estamos equipados com iluminação, hoje não era dia para isso, mas continuamos e continuamos, mesmo tendo deixado o carro parado no meio de um qualquer monte sem ninguém num raio de muitos quilómetros.

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Pouco importa, na planície alentejana só nos podemos perder com uma das regiões mais bonitas para apreciar o pôr do sol, seja em que época do ano for. Continuamos e, face à falta de água, somos levados a voltar, caso contrário ainda chegaríamos a Santa Susana ou até mesmo ao Estuário do Sado.

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A noite já chegou e conseguimos encontrar o carro, em horas de viagem não vimos ninguém a não ser as aves e o gado e esse foi talvez um dia com mais companhia do que pensávamos. Também por estrada e dias depois, e em mais um regresso de Madrid, já com o asfalto a ditar-nos o percurso, lá estava o mesmo sol, o mesmo crepúsculo que só o sul da Ibéria pode oferecer. E se quiserem o acompanhamento perfeito, lamento, mas tenho de atravessar a fronteira e dançar no assento com os El Duende Callejero e porque não, o tema "Barre las Piernas"...

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Pelo Nariz do Mundo...

por Robinson Kanes, em 06.08.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Estamos em Moscoso, o distrito de Braga despede-se e ao longe já quase se avista o distrito de Vila Real e consequentemente Trás-os-Montes. A diferença paisagística é nula e não são raros os habitantes de Cabeceiras de Basto que já se sentem mais transmontanos que minhotos.

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Ficando a aldeia para trás, e também a conhecida Adega Regional, é hora de seguir caminho, um percurso clássico e com as clássicas Timberland - não são à prova de água, são mais pesadas, mas é outra atitude, é outra história e por estas terras os caminhos a isso se prestam.

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As barrosãs fazem parte da paisagem, seja pelos campos seja inclusive pelas estreitas estradas que percorrem aquela zona do concelho ou a principal que é a Estrada Municipal 1700 e que mais tarde nos guiará até à UZ seguindo-se umas bebidas bem frescas em Cavez. Cavez, conhecida por uma personagem da "Liga dos Últimos", mas também é  um ponto de paragem obrigatório antes de nos despedirmos de Cabeceiras de Basto e entrrarmos em Ribeira de Pena.

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Antes de deixarmos os trilhos, vamos apreciando as aves de presa até entrarmos no denso mato, e pode ser aqui que as coisas mais se podem complicar. Não há um caminho, pelo menos desta vez, e é aqui que o calçado "old school" ganha pontos ao mais moderno.

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Por estas bandas, como por outras paisagens, ou está frio de gelar ou um calor de  derreter, sofremos do segundo. Por sorte, a água ainda desce pelas serras, permite-nos lavar o rosto e até, em último caso, abastecer o cantil. Paramos, ouvir a água a percorrer os altos enquanto a passarada não cessa no seu chinfrim habitual, isto enquanto uma ave de presa voa pelos céus e assusta quem voa mais baixo. Não conseguimos identificar, está longe mas já se faz ouvir.

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A Serra da Cabreira é encantadora, a alemã é por ela apaixonada e por ela se deixa levar. Queremos chegar a uma posição onde podemos ver a cascata e o Monte Farinha, mais conhecido pela Senhora da Graça. Um pico enorme num vale rodeado de grandes montanhas e com o Alvão a mostrar o melhor de si. Está longe de ser um dos pontos mais altos de Portugal, mas a sua localização, a sua elevação, tornam-no num monumento natural único no nosso país.

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Ficamos por aí, com a cascata lá em baixo, com a Senhora da Graça ao longe e deixamo-nos farejar por esse nariz, esse grande nariz que é do mundo não sem antes receber em troca os aromas da Cabreira. Percebo também porque é que pontualmente me custa tanto correr os dez quilómetros de ida e volta que me levam de Leiradas a Cavez. É sempre a subir... Será que é a alma do bruxo que me dá força?

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Olhamos tudo à nossa volta e percebemos que talvez estejamos no centro do Mundo, rodeados pelo Gerês e pelo Alvão. Sente-se o cheiro do verde de Amarante a chegar do lado de Mondim, bem servido numa caneca e muito fresco e já se começam a pensar nos 100 quilómetros (ida e volta) que ligam a Estação do Arco de Baúlhe à Estação de Amarante...

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Terras do Baixo-Tâmega a chamarem por nós, terras únicas que já absorvem os ares do Douro, terras de boa gente, terras onde facilmente nos apaixonamos...

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Faz-me favas com chouriço... O meu prato favorito... Quando chego para jantar... Quase nem acredito! Poderia ser a música de José Cid, mas não. Desta feita o Robinson foi à fava e sacou um belo entrecosto com favas, mentira, foi mesmo a alemã. A carne de porco não é uma das presenças mais habituais cá em casa, não obstante, um belo entrecosto bem temperado e uma favas, quem resiste? A receita também não é das mais complexas e acompanhada, mais uma vez, por uma Moretti, é de chorar por mais... Aprecio bastante a Nastro Azurro é mais difícil de encontrar por cá, embora em Santa Maria da Feira exista um distribuidor.

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Para os que defendem que beber cerveja é coisa que não vai bem que um petisco destes, junto um pouco de atitude e nobreza ao prato e carrego com um "Pacheca". Um tinto de 2017 a trazer-nos de volta ao Douro. E o Douro, o que dizer...

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E agora entro em mais um momento old school e sendo um apaixonado pelo Mediterrâneo e por Espanha, não posso deixar de me recordar de um dos maiores êxitos de Joan Manuel Serrat, "Mediterráneo". É música de velho, mas tendo em conta o que se ouve hoje. A propósito, Lena D'Água é a artista feminina do ano... Pronto, lá se vai o entrecosto pela goela acima. Como é que é possível que... Em Portugal o "choradinho", a família e os amigos nos locais certos fazem milagres. E convenhamos, um milagre de todo o tamanho, acho que nem Nossa Senhora foi capaz de atingir tão elevado grau de complexidade.

E antes que um cavalheiro me venha chamar burguês, passem num cinema e vejam o novo filme do sempre brilhante Elia Sulleiman "It Must be Heaven" ou como é conhecido por cá, "O Paraíso, provavelmente". Confesso que adorei este filme premiado em Cannes e onde me ri e fiquei a pensar... Em como lá, como cá, ficamos a pensar no que realmente muda. Top! Será o mundo realmente uma Palestina como disse o realizador?

Finalmente um livro... "A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro. Os recentes incêndios na Covilhã despertaram-me para a memória deste livro. Tendo uma mãe beirã, entendo o que significa e  amargura-me ver como a serra vai ardendo... Tempos difíceis os relatados no livro onde a esperança alterna com o desencanto.

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E para pensarmos... Sobretudo tendo em conta os tempos actuais e um episódio em particular relacionado com bancos, uma frase de Manuel Vilas, um dos melhores da Espanha actual, que pode ser lida na sua obra "Ordesa": E quem é o Estado? É uma sobreposição amarelecida de vontades cansadas, que já não pensam, que pensaram há muitas décadas,  e que a preguiça,  que é a mãe da inteligência , perpetua.

 

Bom fim-de-semana,

 

P.S.: as mulheres de Braga "têêm" charme, aproveitem e levem uma às "Frigideiras do Cantinho"... Apesar da simpatia, pago-as sempre pelo que, a sugestão é baseada apenas no meu bom gosto, vá... Mesmo congeladas e depois aquecidas, ui...

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De Braga ao Sameiro - Pela Falperra...

por Robinson Kanes, em 24.07.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

O sentimento estético da vida não é uma distracção ou prazer, nem afirma bem a qualidade do Mundo que nos foi dado a habitar: é a qualidade do que nesse mundo é a vida, é a sua exaltação, e portanto invenção plena da beleza. O sentimento estético da vida não é um museu de estátuas, e de telas, e de ficções literárias: é a dimensão de uma vivência profunda, o reconhecimento do que supera o imediato, lhe descobre a harmonia obscura, mas permite uma inteira comunhão.

Vergílio Ferreira, in "Carta ao Futuro"

 

 

Depois da subida por Tenões, nada como a subida pela famosa "rampa da Falperra", esta um pouco mais dura. Os primeiros metros são os mais espinhosos. Subidas acentuadas e as curvas, embora, ara quem corre, as últimas façam pouca mossa. Não deixa de ser recomendável já chegar bem quente. A manhã abafada não ajuda, desde a Makro que a camisola já está encharcada e é necessário controlar bem a respiração.

 

No início da subida, já se vislumbra bem cedo uma mãe com os dois filhos. Voltarei a encontrá-los mais acima, existe um atalho entre os eucaliptos que acelera a chegada ao Sameiro. Novos, velhos, famílias inteiras usam-no para chegar ao santuário. Escolho o asfalto, mais longo, mais lento... Mais apetecível. 

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Passam já alguns carros por mim, a eucaristia começa bem cedo. Antes da chegada ao Hotel da Falperra, numa belíssima propriedade, já se sente um pouco de fresco, os hóspedes ainda dormem e a neblina dá um encanto especial a toda aquela área. Não existe melhor escopo que este para acelerar a passada e esquecer as recordações do ruído dos automóveis em velocidade nas provas automobilísticas que ali têm lugar. O tempo agora é para escutar a nossa respiração e o despertar da natureza.

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Braga vai ficando lá para baixo e com a chegada ao topo, ficamos com a sensação de ter chegado ao céu... Não propriamente porque poderia parar para descansar, mas porque é preciso voltar antes de arrefecer. Para os que ficam, nada como um bom piquenique depois de uma corrida ou até de uma saudável caminhada, além de que, podem sempre descer por Tenões e parar para um espresso no Bom Jesus. Poucas manhãs tão perfeitas poderão existir por aquelas bandas... 

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É hora de descer, lá em baixo, a cidade já aquece, mas os croissants, a simpatia e o  ambiente da São Brás, na Avenida Dr. António Palha, são o mote perfeito para acelerar o passo. E com isto, passa pouco das oito da manhã, está na hora de começar o dia...

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De Braga ao Sameiro - Por Tenões...

por Robinson Kanes, em 22.07.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Dizem por que o fim-de-semana foi pouco animado para os lados de Braga. Devo dizer que me sinto ultrajado com tais palavras, pelo que, e sabendo que em breve terei uma resposta à altura com belas montanhas, venho justificar-me.

 

Uma das vantagens de quem está/vive por Braga, logo pela manhã, é poder subir ao Bom Jesus e ao Sameiro e assistir a uma das mais airosas auroras do nosso país. Existem duas opções para quem chega do centro, nomeadamente a subida pelo Bom Jesus, ou a subida pela Falperra. Hoje debato-me sobre a primeira, a segunda fica para sexta-feira. Perdoem-me também os amantes do Bom Jesus, mas isso será também tema para outros artigos.

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Apanhar a Ecovia do Rio Este, uma das melhores obras que se fez em Braga nos últimos tempos, finalmente o cimento começa a perder terreno e toca a subir por aí acima. Sobe-se bem em passo de corrida, mas para quem não estiver para isso, ou vai a caminhar pela estrada ou sobe as escadas. Vejo os velhos de 80 anos a subir aquelas escadas, não há desculpas. Todavia, é pela estrada que mais aprecio, além da paisagem, vou vendo as casas "senhoriais", algumas de amigos e sempre dá para aquecer um bocadinho e apreciar a grande chegada ao topo...

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Chegar ao Bom Jesus é bom, mas as pernas pedem mais e o Sameiro a cerca de quilómetro e meio não é nada, é só subir mais um pouco. Esqueci-me de um pormenor: guardem a paragem no Pórtico, em Tenões, para o fim do dia... Boa comida, gente simpática e vinhos a condizer...

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O Sameiro, a chegada ao Sameiro, esse ponto alto que nos contempla com duas opções: ou depois de uma corrida se sobem as escadas e se sentem os músculos a vibrar ou então nada como seguir pela estrada. Se for muito cedo não há tempo para grandes deslumbramentos, é que descer a correr com os músculos a frio pode correr mal.

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Outra opção interessante é,para quem não quiser "esticar muito a corda", levar o carro até ao Bom Jesus e correr até à Citânia de Briteiros, cerca de 20 quilómetros a correr, ida e volta. O passeio vale bem a pena e é bastante acessível.

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Playlist porque não me consigo desligar...

por Robinson Kanes, em 01.07.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Por aqui vou andando... Não há forma de fugir destas terras que me sugam e às quais me entrego com o maior prazer. Esta semana, apesar das memórias e de uma apaixonante fotografia que me chegou da fronteira com a República Democrática do Congo, foi a música que, mais uma vez me levou a sentir o sabor das terras para lá do Adriático, para lá do Trieste. Talvez, por isso, enquanto o "Vallado Tinto de 2014" teima em saltar do copo, me deixe levar pelas longas caminhadas do oriente... Daquele oriente que não consigo deixar...

 

Começo por Tigran Hamasyan, que já foi presença por aqui e cujo último concerto na Gulbenkian deixou o público completamente rendido à humildade e qualidade artística de um dos melhores músicos do nosso tempo. Fica "Lilac" para ouvir enquanto os nossos ouvidos descansam dos sons das montanhas arménias. Invejo Tigran Hamasyan pelo facto de viver em Yerevan com vista para o Ararate.

Falei do concerto de Novembro de 2019 na Gulbenkian e também só posso recordar Norayr Kartashyan, um homem que domina o duduk e não só. Sempre envolvido em vários projectos foi uma fantástica descoberta... Deixo-me levar por "Hayr Komitasin", é simplesmente genial e só me recorda longas caminhadas com o pó na cara, um pó especial que, ao chegar a bom porto, não queremos que nos saia do rosto...

Aram Movsisyan poderá não dizer muito a uma grande maioria de quem me lê mas na Arménia é um Senhor. A sua voz faz-nos amar ainda mais este país único. Deixo que o tinto descanse enquanto fecho os olhos e escuto esta música tradicional arménia, "Havun Havun",acabo por recuar ao século X.

Não podia deixar a fronteira arménia sem ouvir Lévon Minassian, um dos mais conhecidos e mais famosos intérpretes da "flauta mágia arménia". Da banda sonora do filme "Bab'azis: Le prince ici fils contemplait âme" é uma das suas interpretações de excelência e uma das mais conhecidas (a composição coube a Armand Amar)... Não importa rebuscar muito quando a nossa cabeça pisa terras que nos engolem pela história e quando são artistas deste calibre a comprarem-nos o bilhete para as mesmas. O gosto pela música e pela banda sonora fez-me ver o filme, como não poderia deixar de ser... Genial! Retiro o meu chapéu a Nacer Khemir.

Na música electrónica, as sonoridades árabes são sempre uma das coisas que me fazem apreciar o género... Não sendo daquelas bandas, os Acid Arab são sem dúvida um fenómeno onde o moderno e o tradicional, de facto, quando se juntam, podem dar um excelente resultado! Juntem uma discoteca em Budapeste ou uma travessia pelo Qatar ao volante de um Mitsubishi Pajero e esta música no rádio e... Enfim, existem coisas que não se contam... "Zhar"!

Não podia deixar escapar o Irão, e por isso, também não posso deixar de trazer dois exemplos da música contemporânea do Irão e que preservam as raízes em cada nota e em cada acorde. No Irão ainda não é permitido o consumo de bebidas alcoólicas, caso contrário, era com todo o gosto que beberia num qualquer café em Isfahan um copo com estes senhores: Shahram Nazeri e Hafez Nazeri com "The Passion of Rumi".

Uma das vozes iranianas que mais aprecio... A curiosidade e a partilha de conhecimentos levou-me até Shiraz para descobrir Sara Naeini. Aprecio uma grande maioria das músicas deste intérprete, mas na escolha de uma, difícil... Fico-me por "Del Yar" embora reconheça que a versão de "Jane Maryam" está qualquer coisa! Inspiradora, simplesmente inspiradora e como é bom pisar Shiraz mais uma vez...

Prometo deixar o Irão, mas não posso deixar esta terra sem voltar ao filme "Bab'Azis" e encontrar a bela actriz Ghazal Shakeri que também canta e foi nessa banda sonora que descobri uma das muitas pérolas desta senhora: "Song of the Red Dervish". Existem coisas que se gostam e não sabemos explicar...

De um filme que me apaixonou, ficou-me, à semelhança de tantos outros a banda sonora... "Istambul Kirmizi" ou também conhecido como "Rosso Istambul" trouxe-me uma experiência cinematográfica inesquecível e uma banda sonora de Giulian Taviani e Carmelo Travia, mas como diria a personagem do Tele Rural Sabino Rui, não foi isso que me trouxe aqui. Destaco a conhecida (pelo menos na Turquia) Gaye Su Akyol com "Kırmızı Rüyalar". Para nos deixarmos envolver e dançarmos na sala... Adoro esta "miúda". Com tempo, escutem também "Cehennem Meyhanesi".

Deixo uma surpresa para último. Também por intermédio do cinema, descobri uma actriz que tem uma voz especial: Demet Evgar. Não é uma pop star mas gosto da voz... Ficou-me e partilho uma das peculiares músicas que fui encontrando da mesma, aqui com Kemal Hamamcıoğlu. Sentemo-nos numa árvore e escutemos "Mak Mek Mok".

Sinto saudade... Sento-me perto Anadolu Hisarı e contemplo o Bósforo seguindo as suas águas até ao Mar Negro, até um novo Mundo, até uma nova paixão...

 

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Sem Destino no Adriático...

por Robinson Kanes, em 23.05.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

A maioria dos homens não tem destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa"

 

Já tão perto, o mar Adriático arrasta-nos para a Costa Albanesa com o Parque Natural de Llogara a Norte. Terras perigosas dizem, em tempos talvez, hoje mais seguras apesar da distância que nos separa de Tirana a nordeste. Sem destino, apenas com o gelado italiano na memória e com águas que brotam história, cada salpico traz consigo milhares de anos de diálogos e de sangue. O mar tem a capacidade de nos retirar o peso do mundo mas também de nos fazer reflectir sobre o mesmo, apreende-nos e faz-nos querer ir mais longe... Talvez o desabafo para percorrer a Albânia, a Macedónia e entrar em Istambul pela Bulgária, percorrer o Mar Negro até Batumi ou Poti, já na Geórgia, e aí repousar antes do regresso à Arménia.

 

Sem destino, "como barcos contra a corrente, arrastados incessantemente", para citar Scott Fitzgerald, ao sabor das vagas... Ensina-nos a vida moderna, que o destino não existe, ou simplesmente acontece e todos os dias se renova numa espécie de conceito cuja formulação deixo aos pensadores deste século. Absorvem-se já os ares da terra albanesa, pois as suas águas territoriais já nos acolheram. Nesse embalo rimo-nos de como é que é possível acreditar e viver num mundo em que damos tudo como um dado adquirido e tamb´ém troçamos daqueles que, evidentemente, se riem de pensarmos dessa forma... Como era bom que a pandemia que assola o mundo em 2020 tivesse sido há uns anos. Talvez aqueles que perdendo o estrelato, o topo da hierarquia em prol da verdade tenham a razão do seu lado, talvez até não. Quiçá o herói de Kazantzakis tenha toda a razão do mundo enquanto dançava nas areias das não distantes praias gregas. Quiçá nenhum de nós tenha real noção e no conforto de uma paz sustentada em tenros pilares tenha sucumbido ao drama do conforto, mesmo que aponte os tempos actuais como um período de mudança. Também nos podemos rir, afinal a mudança há muito que começou e só um jerico pode afirmar que, agora nestes meses, é que é o tempo de mudar. 

 

Cheira a Tavë Kosi, ou melhor, talvez nós queiramos que esse aroma e o que vem atrás dele nos entre pelo estômago... O Souvlaki há muito para trás já não nos engana o apetite. Podemos atravessar a Macedónia e ficar pelas praias da Bulgária antes de seguir caminho? Mil e um destinos, mil e um de nadas e naquele momento, onde a água e a terra albanesa se beijam e levam o que ainda de mediterrânico existe até aos balcãs, seja também o momento oportuno para selarmos com um beijo e um sorriso o destino. Para o escrever e transformá-lo em passado, porque não me quero mover no contínuo mas sim ficar extremamente sensível naquilo a que Cortázar chamava de descontinuidade vertiginosa da existência.

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