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Playlist porque não me consigo desligar...

por Robinson Kanes, em 01.07.20

Istambul.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Por aqui vou andando... Não há forma de fugir destas terras que me sugam e às quais me entrego com o maior prazer. Esta semana, apesar das memórias e de uma apaixonante fotografia que me chegou da fronteira com a República Democrática do Congo, foi a música que, mais uma vez me levou a sentir o sabor das terras para lá do Adriático, para lá do Trieste. Talvez, por isso, enquanto o "Vallado Tinto de 2014" teima em saltar do copo, me deixe levar pelas longas caminhadas do oriente... Daquele oriente que não consigo deixar...

 

Começo por Tigran Hamasyan, que já foi presença por aqui e cujo último concerto na Gulbenkian deixou o público completamente rendido à humildade e qualidade artística de um dos melhores músicos do nosso tempo. Fica "Lilac" para ouvir enquanto os nossos ouvidos descansam dos sons das montanhas arménias. Invejo Tigran Hamasyan pelo facto de viver em Yerevan com vista para o Ararate.

Falei do concerto de Novembro de 2019 na Gulbenkian e também só posso recordar Norayr Kartashyan, um homem que domina o duduk e não só. Sempre envolvido em vários projectos foi uma fantástica descoberta... Deixo-me levar por "Hayr Komitasin", é simplesmente genial e só me recorda longas caminhadas com o pó na cara, um pó especial que, ao chegar a bom porto, não queremos que nos saia do rosto...

Aram Movsisyan poderá não dizer muito a uma grande maioria de quem me lê mas na Arménia é um Senhor. A sua voz faz-nos amar ainda mais este país único. Deixo que o tinto descanse enquanto fecho os olhos e escuto esta música tradicional arménia, "Havun Havun",acabo por recuar ao século X.

Não podia deixar a fronteira arménia sem ouvir Lévon Minassian, um dos mais conhecidos e mais famosos intérpretes da "flauta mágia arménia". Da banda sonora do filme "Bab'azis: Le prince ici fils contemplait âme" é uma das suas interpretações de excelência e uma das mais conhecidas (a composição coube a Armand Amar)... Não importa rebuscar muito quando a nossa cabeça pisa terras que nos engolem pela história e quando são artistas deste calibre a comprarem-nos o bilhete para as mesmas. O gosto pela música e pela banda sonora fez-me ver o filme, como não poderia deixar de ser... Genial! Retiro o meu chapéu a Nacer Khemir.

Na música electrónica, as sonoridades árabes são sempre uma das coisas que me fazem apreciar o género... Não sendo daquelas bandas, os Acid Arab são sem dúvida um fenómeno onde o moderno e o tradicional, de facto, quando se juntam, podem dar um excelente resultado! Juntem uma discoteca em Budapeste ou uma travessia pelo Qatar ao volante de um Mitsubishi Pajero e esta música no rádio e... Enfim, existem coisas que não se contam... "Zhar"!

Não podia deixar escapar o Irão, e por isso, também não posso deixar de trazer dois exemplos da música contemporânea do Irão e que preservam as raízes em cada nota e em cada acorde. No Irão ainda não é permitido o consumo de bebidas alcoólicas, caso contrário, era com todo o gosto que beberia num qualquer café em Isfahan um copo com estes senhores: Shahram Nazeri e Hafez Nazeri com "The Passion of Rumi".

Uma das vozes iranianas que mais aprecio... A curiosidade e a partilha de conhecimentos levou-me até Shiraz para descobrir Sara Naeini. Aprecio uma grande maioria das músicas deste intérprete, mas na escolha de uma, difícil... Fico-me por "Del Yar" embora reconheça que a versão de "Jane Maryam" está qualquer coisa! Inspiradora, simplesmente inspiradora e como é bom pisar Shiraz mais uma vez...

Prometo deixar o Irão, mas não posso deixar esta terra sem voltar ao filme "Bab'Azis" e encontrar a bela actriz Ghazal Shakeri que também canta e foi nessa banda sonora que descobri uma das muitas pérolas desta senhora: "Song of the Red Dervish". Existem coisas que se gostam e não sabemos explicar...

De um filme que me apaixonou, ficou-me, à semelhança de tantos outros a banda sonora... "Istambul Kirmizi" ou também conhecido como "Rosso Istambul" trouxe-me uma experiência cinematográfica inesquecível e uma banda sonora de Giulian Taviani e Carmelo Travia, mas como diria a personagem do Tele Rural Sabino Rui, não foi isso que me trouxe aqui. Destaco a conhecida (pelo menos na Turquia) Gaye Su Akyol com "Kırmızı Rüyalar". Para nos deixarmos envolver e dançarmos na sala... Adoro esta "miúda". Com tempo, escutem também "Cehennem Meyhanesi".

Deixo uma surpresa para último. Também por intermédio do cinema, descobri uma actriz que tem uma voz especial: Demet Evgar. Não é uma pop star mas gosto da voz... Ficou-me e partilho uma das peculiares músicas que fui encontrando da mesma, aqui com Kemal Hamamcıoğlu. Sentemo-nos numa árvore e escutemos "Mak Mek Mok".

Sinto saudade... Sento-me perto Anadolu Hisarı e contemplo o Bósforo seguindo as suas águas até ao Mar Negro, até um novo Mundo, até uma nova paixão...

 

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Sem Destino no Adriático...

por Robinson Kanes, em 23.05.20

albania.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

A maioria dos homens não tem destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa"

 

Já tão perto, o mar Adriático arrasta-nos para a Costa Albanesa com o Parque Natural de Llogara a Norte. Terras perigosas dizem, em tempos talvez, hoje mais seguras apesar da distância que nos separa de Tirana a nordeste. Sem destino, apenas com o gelado italiano na memória e com águas que brotam história, cada salpico traz consigo milhares de anos de diálogos e de sangue. O mar tem a capacidade de nos retirar o peso do mundo mas também de nos fazer reflectir sobre o mesmo, apreende-nos e faz-nos querer ir mais longe... Talvez o desabafo para percorrer a Albânia, a Macedónia e entrar em Istambul pela Bulgária, percorrer o Mar Negro até Batumi ou Poti, já na Geórgia, e aí repousar antes do regresso à Arménia.

 

Sem destino, "como barcos contra a corrente, arrastados incessantemente", para citar Scott Fitzgerald, ao sabor das vagas... Ensina-nos a vida moderna, que o destino não existe, ou simplesmente acontece e todos os dias se renova numa espécie de conceito cuja formulação deixo aos pensadores deste século. Absorvem-se já os ares da terra albanesa, pois as suas águas territoriais já nos acolheram. Nesse embalo rimo-nos de como é que é possível acreditar e viver num mundo em que damos tudo como um dado adquirido e tamb´ém troçamos daqueles que, evidentemente, se riem de pensarmos dessa forma... Como era bom que a pandemia que assola o mundo em 2020 tivesse sido há uns anos. Talvez aqueles que perdendo o estrelato, o topo da hierarquia em prol da verdade tenham a razão do seu lado, talvez até não. Quiçá o herói de Kazantzakis tenha toda a razão do mundo enquanto dançava nas areias das não distantes praias gregas. Quiçá nenhum de nós tenha real noção e no conforto de uma paz sustentada em tenros pilares tenha sucumbido ao drama do conforto, mesmo que aponte os tempos actuais como um período de mudança. Também nos podemos rir, afinal a mudança há muito que começou e só um jerico pode afirmar que, agora nestes meses, é que é o tempo de mudar. 

 

Cheira a Tavë Kosi, ou melhor, talvez nós queiramos que esse aroma e o que vem atrás dele nos entre pelo estômago... O Souvlaki há muito para trás já não nos engana o apetite. Podemos atravessar a Macedónia e ficar pelas praias da Bulgária antes de seguir caminho? Mil e um destinos, mil e um de nadas e naquele momento, onde a água e a terra albanesa se beijam e levam o que ainda de mediterrânico existe até aos balcãs, seja também o momento oportuno para selarmos com um beijo e um sorriso o destino. Para o escrever e transformá-lo em passado, porque não me quero mover no contínuo mas sim ficar extremamente sensível naquilo a que Cortázar chamava de descontinuidade vertiginosa da existência.

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Playlist bem regada...

Para um fim-de-semana de Maio...

por Robinson Kanes, em 09.05.20

Donatella-Tandelli1.jpg

Créditos: https://altovineyards.net/wine-and-music/

 

 

A maioria dos homens não tem destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa".

 

O primeiro fim de semana onde já muitos sentem a ordem de soltura, para outros com ordem de soltura diária, talvez, uma noite de final de semana mais pacata... Entre um Porta de Santa Catarina Tinto de 2015 e um que recorda o Pico nos idos de Maio, a música em épocas de complexidade, terá outra entoação mais forte. Caríssima, este também marcha bem e nada como aproveitar uma ida a Estremoz e trazer uma caixa de branco e outra de tinto. E usted tome lá mais um... Ainda estou à espera de um prometido petisco...

 

Hoje enquanto conduzia, uma pérola na SBSR, Lou Reed com "Perfect Day", bem a propósito, depois de ouvir o pessimismo disfarçado com optimismo bacoco, realmente nada como um néctar musical destes.

Ainda numa onda de pensamento, nada como navegar com uma voz conhecida dos Kings of Convenience, Erlend Oye & La Comitiva com "Paradiso". Uma voz nórdica com requintes de mediterrâneo, ideal para a noite quente e para ouvir de copo na mão... Música suave, para embalar a alma tranquilamente entre o cheiro do rio e o sabor do luar.

Já me perguntaram o que é que eu tenho contra a música portuguesa. Pouco, só não gosto da nossa língua em modo cantado, parece uma língua eslava e mesmo assim existem línguas eslavas que se bebem melhor que a nossa. Depois temos a qualidade que não abunda... Talvez duas das poucas excepções se possam encontrar na letra e música de José Mário Branco, "Inquietação". Camané e os Dead Combo numa versão simplesmente espectacular... Finalmente em português e com todas as inquietações que nos percorrem actualmente.

Uma letra interessante com o que de bom ainda se fez nos anos 90, onde a boa música (salvo a dos grandes) já começava a declinar. Manic Street Preachers, com "Motorcycle Emptiness". Actual, sempre actual, feliz ou infelizmente.

Pensar onde é que é a nossa casa... Será que tem de ser onde vivemos. Será que é esta a nossa casa. Onde é que é o nosso país? Tem de ser aquele que nos viu nascer? Podemos pensar nisso enquanto os Kaiser Chiefs interpretam "Coming Home".

Falou-se em casa... Talvez esta música aqui não se relacione muito com a playlist que hoje trago, mas quem me conhece sabe perfeitamente o que significa "El aire de la calle". Já me faz falta esse ar temperado com a fritura, com o aroma da Cruzcampo ou até com uma Alhambra que me diz menos. Um eterno delinquente mental a ouvir "Los Delinqüentes"... Esta malta de Jerez de la Frontera já está crescida...

Surge aqui, mas poderá ser efectivamente a última música, para o último copo e para a última fatia de queijo... Não encaixa, não tem de encaixar, mas a noite não pode acabar de outra forma e por isso mesmo o argentino Federico Aubele deixa-nos os seus "Postales".

Peter Gabriel, porquê? Porque sim, é Peter Gabriel... Escolhi "Darkness" mas a lista seria longa.

Já por aqui passaram, não podia deixar que o "Silence" da noite não fosse quebrado pelos "Manchester Orchestra". Há ruídos baixinhos que provocam grande tumulto...

Fecho com uma banda que me tem acompanhado há muito, não que prossiga com novos discos mas tem sido uma presença constante desde 2010, os "Oi va Voi". Também hoje pensamos em "Yesterday's Mistakes", espero que possamos aprender com os mesmos... Tenho dúvidas, mas basta que uma meia-dúzia já o consiga fazer para que o mundo seja um lugar bem melhor.

Bom fim de semana,

P.S.: Para não dizerem que sou do contra... Partilho aqui uma ideia do Rui Melo, do Henrique Dias e do Sérgio Graciano. Terminemos assim em grande com um musicaaaaaaaaaaaaaaaaaaal! 

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Chazada com a Alice...

por Robinson Kanes, em 04.05.20

imgID134049270.jpg.gallery.jpgCréditos: https://www.harrowtimes.co.uk/news/15663073.boris-johnson-drops-in-at-eastcote-care-home/

 

Não é que não houvesse... Haver havia, não era grande coisa, mas haver havia... E como havia, hoje estamos no espaço da Alice com uma chazada  e um grande passeio pela Arrábida...

Boa semana,

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O Bacalhau e o Guarda-Rios...

por Robinson Kanes, em 02.05.20

thumbnail.jpgImagens: Robinson Kanes

 

As palavras nada significam quando não exprimem sentimentos. O acto é o resultado do pensamento, ou, por vezes, o pensamento estimula a acção, e é um meio de a realizar.

John Steinbeck, in "O Inverno do Noso Descontentamento"

 

Entre um bacalhau assado com batatas a murro, fico a perceber que no meio de tamanha crise sou alguém que tem os seus privilégios. Não vou, contudo, embarcar no discurso da solidariedade, da fome em Portugal, como muitos gostam - é talvez a forma mais simpática de ocultarem a sua gula, afinal, já dizia Vergílio Ferreira que o "o maior prazer de quem precisa, é haver quem precise mais".

 

E como por estas terras os reais bebedolas não faltam, convido hoje, a partilharem virtualmente (como se fosse possível), um Guarda-Rios Branco de 2018, o homem da lampreia, o homem da caneca cheia, o alpinista do alterne, e o homem da beira-tejo. E se mais bebedolas existirem, pois bem, que se juntem. A minha exigência é uma, duas horas e meia depois do bacalhau e de uma garrafa de vinho cada um, vamos todos correr uma meia-maratona ou fazer uns quilómetros de bicicleta.

 

Ou então, especialmente para o homem do alterne não ficar chateado, vamos subir todos à Serra da Arrábida... Para acompanhar um Guarda-Rios Branco, também existe um bom prato: "A Agressão" de Konrad Lorenz... Tomá lá Vorph!

konrad_lorenz.jpg

Nota final: bebo Guarda-Rios, branco e tinto e vários lotes e reservas e a família Mello não me paga um tostão para dizer isto, bebo porque quero e porque é bom!

 

Bom fim de semana...

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De Yazd a Isfahan: Isfahan à noite...

por Robinson Kanes, em 06.04.20

yazd_isfahan_2.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

 

Yazd começa a ficar para trás... O tempo entristeceu-se com a nossa partida, ou talvez por termos trazido quase todos os bolos da cidade, conhecida pela sua pastelaria. No entanto, o fascínio da cidade e das suas gentes continua a ser a sua mais-valia e claro, bem perto, duas reservas naturais bastante interessantes: Kalmand e Dar-e-Anjir.

 

Talvez não perceba, ou não queira perceber, mas o ideal passaria por dar o salto até Isfahan e passar à frente dos quase 350 quilómetros que fazem distar esta metrópole persa de Yazd. Apetece-nos, contudo, percorrer nos nossos pensamentos aquela longa estrada onde durante muitos e muitos quilómetros de alcatrão onde não se vê uma alma ou sequer uma construção. Percorrer o deserto, e este não se faz propriamente de areia, pode ser uma sensação única - sobretudo se não conhecermos o clima e o tempo triste de Yazd não tiver sido uma premonição das duas tempestades de areia que se avizinhavam. Uma mais severa que a outra, mas nada que obrigasse a grandes paragens - ficámos rapidamente a perceber porque é que muitos dos camiões vinham com os "pirilampos" da frente ligados...

yazd_isfahan_1.jpg

Aproveitamos um check-point dos Guardas da Revolução para descansar... Perguntam-se, por certo, por que raio é que no meio de uma tempestade de areia, duas figuras com ar de cidade decidem percorrer o deserto como se nada se passasse. Terão pensado quão tolas poderiam ser aquelas almas que não tinham noção de que estavam num controlo dos Guardas da Revolução, a temida tropa de elite iraniana. Estranhamente, a despedida foi com sorrisos, como não poderia deixar de ser, sem esquecer as fotografias de Lisboa, mostradas entretanto.

yazd_isfahan_4.png

A chegada a Isfahan dá-se já pela noite... De repente parece que damos connosco no Mediterrâneo. As ruas povoadas de gente e até a relva dos cruzamentos se encontra ocupada por gente sentada em família a conviver e a comer. Isfahan tem o condão de ser talvez, no Irão, a cidade turística por excelência, mas ninguém pode esperar tal movimento nocturno. Pensávamos nós que em Shiraz já tinhamos visto tudo... 

isfahan_3.jpgAntes de jantar, seguimos alguns conselhos e percorremos as margens do Zayandeh com o intuito de sentir o "estranho" movimento de pessoas e também conhecer as suas pontes que, durante a noite, não perdem a animação que nasce logo pela manhã. Somos convidados para nos juntar a muitos daqueles que estão sentados a conviver e a comer, acompanhamos os pequenos grupos que se reunem para cantar e por lá ficamos entre o som da música persa, das águas que não cessam de correr e das gargalhadas e sorrisos que contaminam todo aquele lugar.

c_1.jpgApesar de tudo, ainda temos uma "larica" que nos faz querer encontrar um local para comer... E é aí que atravessamos, um pouco mais distantes do Zayandeh, uma das maiores praças do mundo e também uma das mais belas, a "Praça Naqsh-e Jahan". Mas ela voltaremos... Por ora, respiramos fundo, admiramos toda a sua excelência e ficamos absortos com tão mágico lugar.

iafhn_2.jpgA noite acaba num pequeno restaurante onde a culinária persa, pela mão de uma perna de cordeiro, mostra que, mais uma vez, é algo que levaremos sempre no coração e no paladar.

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Paisagens de Portugal: Bataria do Outão.

por Robinson Kanes, em 02.01.20

Foto0298.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Existe um local onde é possível tocar as águas do Atlântico como se fôssemos uma espécie de Gulliver. Não é preciso irmos para muito longe, basta ficarmos por Setúbal e subir à Bataria do Outão... A bataria naval abandonada que é um dos locais com maior potencial lúdico e hoteleiro do nosso país. Espero que possa ser um lugar aberto a todos, porque a Arrábida, Setúbal e o Atlântico bem merecem que todos possam contemplar um dos mais belos cenários do mundo.

 

Pasmo

 

Nessas noites de morna calmaria

em que o Mar se não mexe e o Arvoredo

não murmura, pedindo o Sol mais cedo,

que o resguarde da fria Ventania;

 

em que a Lua boceja, se embacia,

e as palavras estagnam, no ar quedo,

noites podres - até chego a ter medo

de me volver também Monotonia.

 

E então sinto vontade de atirar 

meu corpo bruto e nu contra o espanto

da Noite, a ver se o quebro e vibro, enfim;

 

cair no lago morto e acordar

os cisnes que adormecem de quebranto...

... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Mas só caio, afinal, dentro de mim.

 

Sebastião da Gama, in "Serra-Mãe"

 

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Paisagens Portugal: Sudoeste Alentejano

por Robinson Kanes, em 30.12.19

costa_vicentina.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

Changer la vie, ou, mais non le monde, dont je faisais ma divinité.

Albert Camus, in "L' envers et l' endroit"

Bem tento fugir a esta paisagem... Bem tento fugir do Alentejo, seja aquele mais seco, seja aquele onde as águas do atlântico nos chegam ao rosto com um toque especial que só naquela região este oceano o consegue fazer... Não consigo fugir, simplesmente não consigo.

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Paisagens de Portugal: Alqueva

De Monsaraz...

por Robinson Kanes, em 21.12.19

alqueva_monsaraz.jpg

Imagem: Robinson Kanes

 

O homem em comunhão com a natureza, e apesar de todos os impactes, foi responsável por uma das mais belas paisagens do mundo: o Alqueva. O Alqueva visto de Monsaraz é simplesmente apaixonante, seja através das esplanadas de alguns dos seus restaurantes, seja através dos inigualáveis crepúsculos ou das belas auroras. Monsaraz, em Espanha, é considerado um dos mais belos pueblos de Portugal... E não é difícil perceber porquê...

 

Com uma perdiz no prato, o cante alentejano nos ouvidos e tamanha vista diante dos meus olhos, devo dizer que é uma das mais belas experiências que um mortal pode ter...

 

Passeio ao Campo

 

Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo!

Colhe a hora que passa, hora divina,

Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo"

Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

 

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...

Pele doirada de alabastro antigo...

Frágeis mãos de madona florentina...

- Vamos correr e rir por entre o trigo! -

 

Há rendas de gramíneas pelos montes...

Papoilas rubras nos trigais maduros...

Água azulada a cintilar nas fontes...

 

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras

Dos caminhos selvagens e escuros,

Num astro só, as nossas duas sombras!

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

 

 

Ai Monsaraz... Ai Alqueva...

 

 

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Yazd: Uma Pérola no Deserto.

por Robinson Kanes, em 18.12.19

yazd-2.jpgImagens: Robinson Kanes

 

Depois de um duche que soube pela vida e uma noite de descanso com uma vista sobre a cidade, é altura de caminhar até Yazd ou Yezd! Yazd é uma cidade de comércio, é também a capital da província que tem o mesmo nome. Esta cidade, que se vai adptando consoante  a disposição do deserto e do seu clima imprevisível, é tambémPatrimónio Mundial da UNESCO.

silence_tower.jpg

Além de Yazd ser a cidade com maior número de bicicletas per capita do Irão, é também um território onde o zoroastrismo tem uma forte presença! Aliás, é aqui que está a conhecida "Torre do Silêncio", local de culto (culto esse que é proibido actualmente) e de grande importância para todos os zoroastras. É também aqui que encontramos muitos verdadeiros persas e percebemos o quão afáveis e humildes são. Entre um sumo de romã "amarela", bem mais doce que a "encarnada", é possível conversar com mil e uma pessoas que nos abordam ou que podemos abordar. É simples e fácil, para europeus habituados a estar rodeados de gente com caras de atum e pouco afáveis.

tower_of_silence.jpg

Gente boa que vagueia pelas ruas e nos transmite uma segurança e um sentido de pertença que não sentimos em todo o lado, tudo isto enquanto admiramos os tecidos e as carpetes de alta qualidade e a preços bem mais baixos que em outras localizações do mundo.

yazd.jpg

Uma das outras curiosidade de Yazd, é o imenso número de qanats. Os qanats são canais subterrâneos de água criados pelo homem, (aliás, encontram-se em Yazd os melhores construtores de qanats) e que surgem da necessidade de armazenar e "proteger" a água das altas temperaturas. Falando de frio, é também em Yazd que encontramos uma grande concentração de Yakhchāls, uma espécie de frigoríficos que, e de uma forma muito rápida, funcionam por evaporação, posto que é colocado gelo na base e que permite que os produtos se mantenham frescos e conservados - o da imagem fica no caminho entre Yazd e Isfahan. Estamos a falar de construções que remontam a 4 séculos antes de Cristo! Canais de água, frigoríficos gigantes... Não me venham dizer que a Pérsia é um "país" qualquer!

Yakhchāls.jpg

Mas os dias no Irão começam cedo e por isso, a primeira visita da manhã começa pelo Yazd Atash Behram - um templo zoroastra onde podemos conhecer muita da cultura e hábitos dos zoroastras. É um edifício de 1934 dedicado ao Atash Bahram (Fogo Vitorioso) que arde desde 470ac. Dos nove existentes, é o único no Irão, sendo que os restantes se encontram na Índia. Este fogo permanece sem ser apagado desde essa época, é um fogo sagrado e que sobreviveu à revolução. É também aqui que podemos escutar as orações zoroastras que são de uma beleza que nos entra nos ouvidos e nos acompanha ao longo de dias, de meses e de anos. É simplesmente a paz no nosso espírito! Não é fácil conseguir as gravações, mas...

Yazd_Atash_Behram .jpg

O calor aperta, por isso, não podemos deixar para trás a "Torre do Silêncio" ou "Dakhma" cuja função principal, além de lugar de culto, é servir para que os corpos dos mortos sejam deixados ao sol e sejam posteriormente devorados pelos abutres. Para os zoroastras um corpo morto é uma ameaça ao fogo e à água e daí a necessidade de ser exposto ao sol e devorado por abutres. A história é bem mais complexa, mas a ideia base é esta.

tower_of_silence-2.jpg

Também na Índia encontramos alguns e aí o culto ainda se pratica, no Irão é proibido. Este espaço é mágico... É também um daqueles locais onde conseguimos absorver toda uma cultura somente por pisar o chão e sentir um sem número de emoções, mesmo que não nos expliquem nada. Subir às torres, contemplar o edificado daquele espaço onde se incluem as casas dos sacerdotes, contemplar Yazd e as montanhas, e deixarmos que a nossa memória caminhe para trás, é uma experiência que todos devemos experimentar lá do alto, mesmo que o calor nos empurre para baixo ou nos tente convencer a não subir.

tower_of_silence.jpg

Voltamos ao centro da cidade, e conhecemos a famosa pastelaria. Admito que não é a que mais me fascina, salvo uma ou outra especialidade, no entanto, admito que a maioria das pessoas se apaixona pelas diferentes iguarias. É hora de deixar os doces e seguir em direcção à Mesquita de Jameh: a grande mesquita de Yazd! Esta tem a sua origem no século XII e foi construída durante a dinastia Âl-e Buye. Os minaretes e a cerâmica são alguns dos seus detalhes que nos fascinam.

mesquita_de_jameh_yazd.jpg

A rua que leva à mesma é repleta de interessantes lojas e nas suas traseiras encontra-se uma sinagoga. Sim, o culto judaico pratica-se também no Irão. A mesquita permite-nos uma paragem para respirar e para nos prepararmos para tentar encontrar a sinagoga que nos obriga a percorrer os bairros antigos de casas de adobe, algumas com enormes mas belas e luminosas caves. A utilização do adobe é óbvia: enfrentar as altas temperaturas que assolam a região.

mesquita_de_jameh_yazd-2.jpg

Passear nestes bairros é uma das melhores experiências de Yazd. Em cada canto encontramos uma surpresa. Encontramos alguém que nos fala, alguém que nos oferece fruta ou simplesmente alguém que nos olha com um sorriso verdadeiro. Encontramos crianças que estão a sair da escola, pequenas mesquistas que naquele dia estão reservadas às mulheres. Tentamos penetrar numa delas, e após autorização, consigo entrar por um minuto. A minha chegada provoca mil e um cumprimentos por parte das mulheres que aí se encontram. É aí também que viveremos mais uma experiência única e mais um verdadeiro "soco no estômago". Talvez tema para outro artigo, ou talvez não... 

yazd.jpg

Saímos da mesquita e voltamos para terminar o "soco no estômago"... Por momentos nada nos interessa a não ser quem deixámos para trás e as gentes que deambulam por aquelas ruas. É difícil voltar a colocar o foco na arquitectura e só as "Torres de Vento" chamam a nossa atenção. Estamos perante autênticos sistema de ar condicionado com séculos de existência! São de uma eficiência que muitos dos mais modernos não conseguem atingir. Sugiro uma busca na internet para perceberem como os persas não são um povo qualquer e por isso também devem ser dos mais respeitados!

yazd_torres_de_vento.jpg

Caminhamos entre o adobe, os sorrisos das crianças e o carinho dos transeuntes. Pedimos para tirar fotografias, pedido esse que é sempre aceite. Queremos tirar outras tantas fotografias mas não temos coragem ou então, noutras situações, o egoísmo toma conta de nós - o querer viver o momento é de tal forma forte que a máquina ou o telemóvel regressam à mochila. Além disso, as experiências únicas não se fotografam...

yazd.png

Somos convidados a visitar muitas das casas, somos confundidos com iranianos, especialmente eu - a alemã não engana a não ser em França - e já nem pensamos que existem refeições necessárias para nos ajudarem a sobreviver à intensidade do dia. Esse dia é terminado junto das cores de Amir Chakhmaq. Uma das grandes atracções da cidade e zona de comércio, doçaria e de encontro para os habitantes de Yazd.

Amir Chakhmaq_yazd.jpg

Com a tarde a querer despedir-se do sol, pensamos nos dias seguintes, em Kharanaq, por exemplo, e em como o Irão tem uma capacidade de nos surpreender dia após dia. A arquitectura, a história, a geografia e o clima sem esquecer uma aura especial que parece ter-se plantado nesta região fazem-nos, mais uma vez, ter vontade de voltar - sim, muito possivelmente!

yazd.jpg

No entanto, mais uma vez também, o que levamos de Yazd é que, por incrível que pareça, o Irão consegue ser extremamente romântico e o local ideal para se viver uma grande paixão! Yazd ficará também para sempre no nosso coração bem como aquela mãe e os seus filhos... Todas aquelas mulheres e os seus filhos.

yazd-3.jpg

Viremos a despedirmo-nos da cidade com o fascínio que já não é novo por estas terras e com o sentimento de Schindler, aquele sentimento de que podíamos ter feito mais... Mas isso já é tema para outra conversa.

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