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Caso Floyd: Onde andam agora os justiceiros?

por Robinson Kanes, em 01.06.20

Minneapolis-e1590681659232.jpg

Créditos: https://newspushed.com/minneapolis-burns-as-rioters-loot-businesses/

 

A certeza com que agimos hoje pode parecer medonha não só para as gerações futuras, mas também para os nossos "eus" futuros.

Robert Sapolsky, in "Comportamento"

 

Onde andam aqueles que, sem uma investigação (inclusive sem uma autópsia), e baseados num vídeo incompleto partilhado pelas redes sociais e posteriormente em alguns meios de comunicação, rapidamente condenaram na praça pública um indivíduo pela morte de outro, colocando como principal convicção para tal acto as causas raciais? Perante o espectáculo assustador de pilhagens e mortes, onde andam?

 

Será que uma morte que é mediatizada tem mais valor que três ou mais mortes ocorridas devido à nossa interpretação dos factos ou sede em dar nas vistas? Porque é que imediatamente conotamos essa morte com racismo para ter mais valor? Será que é mais fashion ou as hashtags "pilhagem" ou "morte" não têm tanta saída? Não é que alguém se preocupe com a opinião da maioria de nós, mas...

 

Porque é que enterramos a cabeça na areia perante as imagens assustadoras de pilhagens, violência e morte, essas sim, bem demonstradoras da realidade? Porque é que permitimos que até as tão famosas "selfies" sejam a imagem de marca da pilhagem? Praticar actos de violência e "sacar" a foto da posteridade: olha para mim a fazer "justiça".

 

Façamos um exercício: face a um alegado crime cometido por um polícia no nosso bairro contra um indivíduo de uma minoria, rapidamente protestamos e exigimos a revolta porque também (somos nós forçados a acreditar) o foi por motivos raciais. O nosso comportamento de querer tomar parte na onda mediática provoca um sem número de actos de violência. O primeiro está relacionado com a pilhagem e consequente destruição da nossa empresa, continuamos calados? Não bastando, os negócios dos nossos vizinhos são também destruidos, continuamos calados e a achar que é normal? Dois dos nossos familiares e o proprietário do café onde vamos todos os dias acabam no Instituto de Medicina Legal dentro de um congelador, continuamos calados? Finalmente, instituições e património do Estado são pilhados e destruídos, mas a conta vem para casa e serão precisos os salários de 10 anos de trabalho para pagar o prejuízo. Provavelmente aí não continuaremos calados...

 

O show mediático e as redes sociais em si não são um perigo (bem pelo contrário), mas um destes dias ainda vão "desencadear uma guerra", ou melhor, nós é que a vamos provocar! Como é que podemos defender a condenação sumária de alguém com base no que vemos nas redes sociais e num ou outro canal de comunicação e depois enterramos a cabeça na areia quando os resultados desse nosso comportamento, directa ou indirectamente provocaram uma tragédia ainda maior.

 

Nos tempos que correm, temo que, mais do que termos medo dos criminosos, devemos ter medo daqueles que exigem justiça, sobretudo na praça pública, pois os actos de tirania e hipocrisia arriscam a ser mais nefastos e destruidores que os comportamentos dos primeiros. No fundo, não somos diferentes e com uma tremenda facilidade caímos no "shoot first, and ask questions later". Ao exigirmos justiça desta forma ou a hipocritamente andarmos ao sabor da onda, somos nós próprios que estamos a destruir a Justiça, a Liberdade e a Democracia.

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IMG_2374.jpgImagem: Robinson Kanes

 

 

Algures no Curdistão (não importa qual dos lados), longe daquilo que se pode chamar uma rota turística e onde dispensamos a utilização das câmeras fotográficas para "rede social ver", o sol parece queimar. Valem-nos as pessoas, se existe povo simpático e afável, esse povo encontra-se no Curdistão.

 

O calor faz crepitar a pele, por aqui a temperatura aumenta de forma considerável (ou desce na mesma proporção). Estamos perto de fronteiras sensíveis, nomeadamente com a Turquia, Irão e Iraque e já perto da Síria. Utilizamos vestes curdas, ajuda a  que não tenhamos problemas.

 

Existem povos que sempre reclamaram um Estado e têm conseguido esse intento com o apoio da comunidade internacional, já os curdos têm vindo a lutar ao longo de muitos séculos também pela sua independência e essa luta tem vindo a ser aproveitada também para que algumas potências consigam alguns dos seus intentos com escala temporal. Não procurando defender ou criticar a causa curda, a recente utilização e posterior traição dos Estados Unidos é exemplo. Mais uma vez utilizámos um povo, uma facção, um movimento para conseguirmos um objectivo claro e depois zarpámos! Sabemos os impactes que tal provoca no longo prazo, o terrorismo é um deles.

 

No entanto, existem coisas que ninguém deve ver. Não falo da morte em si, essa é inevitável tantas vezes. Não falo dos feridos nem de corpos decepados que nos consternam, que nos horrorizam e nos marcam para sempre. Refiro-me sobretudo ao cinismo e à truculência daqueles que empreendem o mais lucrativo comércio do mundo: as armas.

 

Ninguém deve ser confrontado com o mercado negro do armamento, em plena rua, sem qualquer embaraço ou segredo. Indivíduos cujas origens parecem vir desde o Médio-Oriente até á Ásia Oriental, passando pelo Ocidente e pela Europa de Leste. Armas, munições e até veículos com a chancela das potências da paz, outras com a chancela daquelas que se dizem culturas pacifistas. Máquinas de matar novas e usadas que irão cair nas mãos de homens, mulheres e crianças com um claro objectivo: matar outros homens, mulheres e crianças.

 

Quando pensamos em tráfico de armas nunca pensamos que em algumas situações possa ser verdadeiramente um mercado a céu aberto, um bazar onde se vende a morte. Engolimos em seco, imaginamos os efeitos em combate, até porque também sabemos como utilizar uma "arma ligeira" e os efeitos que a mesma provoca. Isso agonia-nos, deixa-nos angustiados e paralisados. Não podemos fazer nada, se o tentarmos acabamos com um projéctil na cabeça, muito provavelmente. Qual o destino destas armas? A Síria e o Iraque tão perto, tanta tensão no Cáspio...

 

Por perto passam os habitantes da "aldeia", indiferentes à chacina que está a acontecer, indiferentes ao facto de um dia poderem ser eles também vitímas do que ali se troca. São gente que vive o seu dia-a-dia, que já se habituou e que até é feliz assim, não podemos ver os outros apenas pela nossa perspectiva. Já outros, sabem muito bem o que está a acontecer e no olhar mostram toda a sua inquietação.

 

Contemplamos a paisagem em redor - estamos no fim do mundo entre pedras e montanhas. Imaginamo-nos no regresso, num hipotético centro de mundo, numa esplanada junto ao mar, enquanto naquele "fim de mundo"... Enquanto naquele fim de mundo sob a ilusão da religião, de algumas políticas se coloca fim à Humanidade.

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Etiópia e Eritreia - O Abraço!

por Robinson Kanes, em 09.07.18

800.jpeg

Créditos: (ERITV via AP) 

 

 

Não é só pelas Coreias que a diplomacia está a conseguir grandes resultados- Existem em África dois países irmãos que ao fim de mais de 20 anos de costas voltadas decidiram abraçar-se e voltar a conversar. Falo da Etiópia, que além de ser o breço de um café fantástico, é também o segundo país mais populoso de África e ainda da Eritreia. Estes dois países, além de terem já estado envolvidos em guerras um com o outro, possuem algumas das mais antigas marcas de presença civilizacional do mundo e ao longo de séculos, até pela sua posição geográfica estratégica são apetecíveis para muitos colonizadores. Falar dos territórios da  Etiópia e da Eritreia é também falar da má gestão de muitos colonizadores europeus e do médio-oriente ao longo dos séculos.

 

Dois países esquecidos e onde a fome fez milhões de vítimas, prosseguem agora uma via de desenvolvimento ainda ténue ao ponto de se reflectir directamente e com impacte nos seus cidadãos. Todavia os resultados começam a surgir e a Etiópia já é um dos que mais cresce.

 

Este reencontro foi interessante, não só por ter sido revestido por uma imensa alegria entre as partes, não fosse Abiy Ahmed ter chegado à Eritreia e ter sido recebido com abraços e muitas gargalhadas pelo presidente Isaias Afwerki. Neste encontro, entre outras temáticas, foi tomada a decisão de abrir fronteiras entre os dois países e segundo Abiy (não são só os consagrados da História que têm bonitos discursos) "a linha de fronteira foi abolida hoje como uma demonstração de verdadeiro amor... O amor é maior que toda e qualquer arma moderna como tanques e misséis. O amor consegue ganhar os corações e vimos isso hoje em Asmara. De hoje em diante, a guerra não é uma opção para o povo da Eritreira e da Etiópia. O que precisamos agora é de amor.". Também Afwerki aludiu ao facto dos dois países começarem, a partir de agora, a trabalhar como um só no seu desenvolvimento! A cumprirem-se todas estas declarações temos em África uma lição a aprender, sobretudo nesta fase em que a Europa se encontra dividida, novamente, numa imensa manta de retalhos.

 

Resta-nos esperar para ver o futuro, até porque a Eritreia continua a ser uma espécie de Coreia do Norte e com esta nova mudança talvez Afwerki siga as pisadas de Abiy e encete um sem número de reformas económicas, liberte jornalistas e membros da oposição e permita ainda o acesso livre à internet.

 

O mundo deveria andar atento a estes pequenos passos, que podem ser efectivamente de gigante para o continente africano que, com nações fortes, paz e independência face a outras potências pode mudar o rumo da sua História e assim, também permitirem que a pouco e pouco as crises migratórias sejam solucionadas, pois é em África que estão os problemas e na Europa continuamos com paliativos sabendo que existe uma cura.

 

Não é espectacular, não dá likes mas faz o rumo da História ter um lado mais sorridente...

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