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A Floresta: Portugal e a Costa Rica.

por Robinson Kanes, em 10.10.19

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Imagem: Lisa Kessler

 

A Costa Rica é conhecida pela sua flora, nomeadamente as suas florestas tropicais, pela fauna e claro, pelas bananas. No entanto, a sede de lucro e total inexistência de fiscalização devastou grande parte das florestas do país até tempos recentes.

 

Em Portugal, que também se pode orgulhar da pouca floresta que lhe resta e também das bananas da Madeira, o cenário não foi diferente - se por um lado a destruição da floresta se dá para o crescimento do eucalipto e do imobiliário (e muito pouco de fala do imobiliário), por outro, foi mais longe que a Costa Rica e especializou-se na indústria do fogo - na reactiva e não na preventiva.

 

No entanto, o que a Costa Rica nos pode ensinar é o facto de ter encontrado na floresta uma fonte de rendimento, não só em termos ambientais mas também de ecoturismo - o turismo em Portugal continua a ser pensado em massa e para o retorno fácil e rápido, normalmente por parte dos suspeitos do costume - aumentar alojamento, promover os monumentos do costume e encher cidades como Lisboa e Porto, sem esquecer as regiões da Madeira e do Algarve, gentrificação a todo o custo e despreocupação com os exemplso que cidades como Barcelona nos dão. Enquanto isto, os incêndios vão destruindo e desertificando o país sem que alguém se preocupe com isso, até em termos turísticos. Continuamos a não rentabilizar os nossos Parques Naturais e basta atravessarmos a fronteira para aferir das diferenças, quer em termos de controlo e preservação quer em termos de geração de revenue para o próprio Estado e para as populações.

 

Na Costa Rica, por exemplo, foi criada uma Comissão Nacional da Floresta, não só para controlar e reduzir a emissão de licenciamentos que poderiam ser nocivos para a mesma como também para a salvaguarda e "policiamento". Esta comissão geriu também a gestão de um fundo financiado por taxas ambientais que têm em vista a preservação do ambiente, taxas essas que não são desviadas para outras áreas mas sim para a redução da probeza e conservação da natureza em áreas rurais e florestais. A Costa Rica encarou a floresta como um meio de dinamizar o ecoturismo, conservar a fauna e flora, reduzir o CO2, permitir a retenção de água e até utilizar a mesma para o desenvolvimento de fármacos e medicinas naturais, portanto, uma verdadeira indústria com estratégia a longo prazo.


Para se ter uma clara ideia, o fundo ajudou à criação de sensivelmente 18 000 postos de trabalho directos e 30 000 indirectos! Todavia, o grande resultado parece também ser a forma como estas medidas tiveram impacte no aumento do Produto Interno Bruto (PIB) sobretudo devido à actividade turística nestas áreas. O turismo é um dos pesos pesados no PIB da Costa Rica e isso deve-se às políticas entretanto aplicadas.

 

Em Portugal e em tantos outros países, bem podemos aprender com o exemplo da Costa Rica que, não sendo perfeito, nos pode dar uma clara ideia de como podemos voltar a ter um Portugal verde e que tem na floresta uma das suas mais-valias, não só em termos industriais mas também em termos turísticos. Contudo, isso implica apostar em estratégias, envolver outros actores e acima de tudo apostar na preservação e na prevenção - será que estamos dispostos a depenar a indústria reactiva dos incêndios em prol de uma indústria proactiva e geradora de benefícios ambientais, sociais e económicos e onde cada euro aplicado gera retorno ao invés dos euros que são queimados com o combate?

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Fonte de Imagem: Associated Press

 

De resto, nós não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos.

Albert Camus, in a Queda

 

 

São oito horas da manhã, acabo de chegar ao carro depois de um passeio pela praia com o meu cão, ligo o rádio e escuto: 43 mortos e 59 feridos no incêndio de Pedrógão Grande (última actualização a 21/06: 64 mortos e mais de 179 feridos + 25 em Góis)! Muitos dos mortos morreram ao tentar fugir das chamas dentro das viaturas!

 

Não sei o que dizer! Por muito que tenha um Primeiro Ministro que, perante a ausência de uma equipa de comunicação não consiga ter um discurso à altura; por muito que tenha um presidente de afectos e do povo (mas sem perder o discurso burilado) que, sem informação concreta e sempre na busca de protagonismo, tem como primeira abordagem dizer que a culpa é do tempo; por muito que tenha um presidente da Liga de Bombeiros que ocupa uma “centena” de cargos neste país e salienta que é a natureza revoltada a causa de tantas mortes, só me apraz dizer: VERGONHA!

 

Vergonha de todos os anos ser a mesma coisa! Vergonha de ir constantemente a Espanha e, quando o tema são os incêndios, indagarem como é possível num país como o nosso! Estar em Plasencia, local árido e debaixo de 43 graus e me dizerem que não têm medo dos incêndios mas sim daqueles que podem chegar do outro lado da fronteira! Vergonha de ouvir promessas, de ver o meu povo a entrar em depressão porque não tem lugar para colocar a toalha na praia ao invés de exigir mais àqueles que nos governam! Vergonha de ver um lobby de indústrias e de associações (incluo aqui muitas corporações de bombeiros e outras associações de cariz solidário) a continuar a facturar com a miséria daqueles que vêm os seus bens ou as suas vidas destruídas pelos incêndios! Ver a total displicência dos altos cargos da nação visivelmente comprometidos e numa posição de “sacudir água do capote”, do seu e de outros! Vergonha de ver os mesmos oportunistas de sempre a pedirem donativos para as vítimas dos incêndios (não darei um euro)! Vergonha de não existir uma clara aposta na prevenção! Vergonha pela ausência de meios! Vergonha por ver helicópteros e aviões parados por falta de milhares para a manutenção, quando as frotas de viaturas de luxo do Estado são renovadas constantemente e até se pagam subsídios mensais de €40.00 a motoristas para lavarem as mesmas (e ai de quem ousar retirar tal subsídio). Vergonha de ver alguém (sem formação sequer na área) arrecadar €15.000 para “estudar” a compra de uma viatura táctica de combate a incêndios que custa pouco mais que esse valor! Vergonha de ver reinar uma sensação de impunidade e o compadrio provinciano ao qual também estão sujeitas entidades da protecção civil! Vergonha de ver um povo que se revolta mais se o país vizinho levanta um processo a um jogador de futebol por fuga aos impostos e até aplaude a corrupção em muitas áreas (com a célebre desculpa do “se não for assim”) e não é capaz de pedir mais ou assumir uma posição em relação aos destinos do seu país, sobretudo quando está em chamas! 

 

Onde estão os pais que tanto apregoam amar os filhos mas não se preocupam com as gerações futuras? Onde estão as acções concretas para mudar o rumo das coisas? Onde estão os cidadãos? Partilhar a “porcaria” de lamentos e cruzes nas redes sociais não muda a situação! Torna-vos (na vossa cabeça) mais aceites pelos outros, mas é só isso! Porque é que entre os países do sul da Europa, Portugal é o único a ver a sua área florestal a decrescer (30%!!!)? E a questão do corpo de guardas florestais? Porque é que só se fala de incêndios no Verão? Porque temos sempre a sensação de que a abertura da "Época de Incêncios" é uma espécie de "vamos lá que isto agora é que vai ser"?

 

Já chega! É preciso dizer basta!

 

Onde estão cumpridas as promessas do ano passado, feitas à pressa e com tanta pompa e circunstância (e com o país em chamas) por parte de Primeiro Ministro e Presidente da República? Não chegam sorrisos e afectos! Num mundo onde os sorrisos e as palavras soltas valem mais que acções concretas, temos de começar a pensar nos riscos e nos prejuízos da inoperância prática! Ignorarmos os factos e focarmo-nos na autopromoção e no discurso elaborado, sobretudo nesta temática, está a destruir o país! Onde estão os resultados? As coisas não acontecem com demagogia e afectos, bem como o mundo não avança com selfies! Se tivermos noção que aqueles que devem fazer algo o estão a fazer, passamos bem sem abraços e beijinhos!... Ou talvez a nossa preferência se fique efectivamente pelo folclore digno de filmes satíricos balcânicos.

 

Não digam também, às famílias daqueles que morreram que a culpa é do tempo, quando a ausência de trabalho e prevenção são notórias. Até poderão ter sido as condições meteorológicas, mas todos os anos? Tenham a vergonha de nem sequer aparecer junto dessas famílias! Não são discursos dignos de eucaristia a horas de telejornal que mudam as coisas! A responsabilidade de termos um país mais dia menos dia, transformado em carvão é vossa!

 

Eu tenho vergonha... Porque a culpa também é minha! Porque os culpados somos todos nós! À data, sinto que também sou responsável pela morte deste número de pessoas e isso envergonha-me!

 

 

 

 

Ainda a digerir esta situação, este espaço vai estar parado durante os próximos dias... Até porque o ano passado disse convictamente que uma desgraça muito, mas muito grande um dia iria acontecer a propósito do nosso “desprezo” pela questão dos incêndios... 

 

Últimas notas: a todos os que lutam contra a chamas com sentido patriótico enquanto, muitas vezes, outros sem qualquer preparação os empurram para o inferno, as minhas palavras de profunda ADMIRAÇÃO! Já escrevi sobre isto aqui. Lutemos! Agora, de facto, é o melhor a fazer.

 

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