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Allegro Vicacissimo adiado...

por Robinson Kanes, em 23.09.19

Jabr-Walking.jpgImagem: https://www.newyorker.com/tech/annals-of-technology/walking-helps-us-think

 

Pensava em como as pessoas que se querem bem, sem pensar em mais nada a não ser na triste insensatez da vida e no carácter vão do amor, acabam por viver lado a lado os próprios destinos que, por serem incompreensíveis as mantêm afastadas como nos pesadelos sem sentido.

Hermann Hess, in  "Gertrud"

 

Tchaikovsky escuta o seu concerto para violino e pensará em como é possível numa interpretação de pouco mais de meia-hora colocar tantas emoções, tantos sentimentos e tantos sonhos que fora da partitura se desfazem. Nem sempre a música ajuda as mentes perturbadas, ao contrário do que dizia Horácio. Essa mesma música tende, por vezes, a colocar-nos ainda mais perturbados e destruídos. Pode ter um efeito nefasto no modo como gerimos as nossas emoções...

 

Essa música faz-nos pensar no sonho mas também na realidade, de ter de acreditar naquilo que não queremos, de perceber que queremos deixar de ser um fantoche, de chegar à conclusão que o presente e o futuro dessa realidade não precisa de nós! Que nós somos pedras no caminho, que tudo tem um tempo e o tempo de uns não é o tempo de outros. Encarar esta realidade não é fácil para alguns, acaba por ser mais simples para os outros e é isso que lhes dá força para continuar.

 

Esses que não percebem o tempo, esses que se preocupam com um mundo, esses que não se cansam de falhar, ou porque a vida os marcou para sempre com esse destino ou simplesmente porque são efectivamente falhados. Não terão a consciência de que tudo tem um limite e que a realidade que um dia almejam e que até conquistaram durante algum tempo não estará lá para sempre - ninguém aguenta para sempre viver com um falhado, ninguém aguenta uma vida ao lado de um idealista. Ninguém aguenta para sempre quem acredite efusivamente no amor e aqueles que talvez acabam por viver de olhos fechados como se a própria existência fosse um acto de cobardia.

 

Oui, tout est simple. Ce sont les hommes qui compliquent les choses... Diz-nos Camus no ensaio "Entre oui et non" do seu ""L'Envers et l'Endroit". E sim, são os homens que complicam as coisas, que criam distrações, que criam convenções que decidem como se manipulam e jogam os sentimentos... São os homens que querem dominar a natureza e acabam dominados pela sua vontade de indagar, de ir mais além mesmo que estejam numa espécie de curva de 360º. São os homens que se cansam daquilo que outrora amaram, é humano, sobretudo num mundo que se devora a si próprio em consumo material e emocional.

 

Ficamos a meio na "Canzonetta", porque o "Allegro Vicacissimo" não é para hoje... Amanha será outro dia, e o mundo nasce todos os dias, mesmo que a força humana nos tente impor, não raras vezes, o mesmo mundo de ontem ou o mesmo mundo monótono e amorfo, mesmo que lutemos para fazer a diferença já ontem! E se um dia o "Allegro Vicacissimo" não tiver lugar, pois bem... Talvez que o "Hino dos Querubins" nos acompanhe numa ascenção que não será rodeada de anjos e de Deus, mas da tristeza que nos consumirá até ao dia em que o céu da boca nos arrefecer e não mais a nosso cérebro receber a mensagem que nos chega dos olhos e dos ouvidos. Até ao dia em que afastaremos o nosso pensamento do mundano...

 

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A Morte... Nós... Eles...

por Robinson Kanes, em 09.10.17

IMG_0676.jpg

Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Malraux dizia que "a morte transforma a vida em destino" e chegamos à conclusão que, quer queiramos quer não, esse é o destino da vida. Embora afastemos esse pensamento do nosso quotidiano, façamos o que fizermos, esse destino determinado irá acontecer transformando as palavras de Malraux num lugar-comum.

 

Pelo meio, ainda há quem planeie a vida no sentido de pensar o que está para lá da morte: os que ficam, a memória, o prestígio, o reconhecimento... Mas na realidade e pegando nas palavras de Vergílio Ferreira, "é perfeitamente absurdo dizermos   «quando estivermos mortos». Porque nos imaginamos «nós» quando já não há «nós». Não estamos mortos, haverá apenas mortos.". De facto, podemos alegar que existe, independentemente das nossas crenças um mundo para lá da morte, mas a realidade demonstra-nos - pelo menos até aos dias de hoje - que se existe, ou é algo de tão fantástico que ninguém regressa ou então não passa disso mesmo... Morte! Morte não como um vazio, mas numa lógica ao estilo de Lavoisier em que somos apenas matéria que não se perde, mas que se transforma. Contudo, sem as qualidades que nos caracterizam como humanos.

 

 

Também o meu pai dizia, quando se falava de heranças ou temas afins, "que quem cá ficar que se oriente" - e foi assim que este procurou encarar a vida. Não se preocupou com o dia depois da sua morte, embora tenha feito muitos sacrificios que permitiram que me transformasse na pessoa que sou hoje e procurando garantir uma vida feliz sem destruir os outros e o futuro. Na verdade, de que nos vale pensar em quando estivermos mortos? Não existirá nós! Não seremos nós, não seremos mais nada a não ser um punhado de matéria que deambula pelo ar e permitirá que outros sistemas se desenvolvam... Não passaremos do sujo porto onde as fezes e a urina fazem nascer as grandes obras, como defendia Agustina em "Fanny Owen".

 

Aceite esta concepção, será que já estamos a abraçar essa lógica de tal forma que não concebemos o futuro? Camus dizia que o "homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro (...) mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador". Será que já não temos futuro e somos um bando de seres sem esperança que, pelo presente abdicamos da nossa ética, dos nossos valores, das nossas faculdades de sermos... humanos? Mais que nunca, a Humanidade não pensa o futuro, não o pensa na medida em que não defende os valores essenciais da experiência humana e esquece inclusivamente que, ao focar-se tanto no agora, está a matar o amanhã. Não podemos tentar escapar ao universo da nossa criação se o egoísmo for imenso que nos consome em cada acto.

 

Pior, nunca tivemos tantos instrumentos para criar um mundo melhor, e não me foco apenas nas questões técnicas mas também nas questões do pensamento. Deus morreu, o pensamento tem vindo a morrer, o espírito critico da segunda metade do século XX está a morrer e no fim, somos apenas um rebanho sem esperança... Somos um rebanho sem esperança que chora as mortes do terrorismo mas não o hesita em praticar com os colegas no trabalho, com os vizinhos no prédio ou na rua, com aqueles com quem nos cruzamos e nos fazem pensar o nosso caminho. Lutamos por questões fúteis, enchemos jornais e redes sociais com temas e preocupações que já não se deveriam colocar e esquecemos as verdadeiras questões estruturais da existência: as boas e as más. Uns chamam-lhe desumanização, procurando um conceito mais pomposo, eu chamo-lhe desleixo ou até mesmo fraqueza.

 

Teremos perdido a esperança e estamos a alimentar o "nós" com tanta sagacidade que esquecemos, estando o mundo entregue ao Homem, que também ele é o responsável pela solidariedade com as gerações futuras e, no fundo, com as presentes. Dispenso também o discurso de que a culpa é do Capitalismo como forma de colocar num conceito/prática os nossos pecados.

 

Será que o Homem não é capaz de perceber que o único Deus é ele próprio e assumir essa responsabilidade? Acredito, verdadeiramente, que é por aí que se trilha o "nós", porque depois de mortos...  e encontrando aqui o pensamento de Levinas, depois de mortos, a morte será levada, não pelo morto, mas por aqueles que ficam e aí... Aí não teremos um "nós" mas teremos  "eles" e isso faz toda a diferença.

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