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Do Subnutrido Iémen...

por Robinson Kanes, em 18.02.21

 

Fechar os olhos não muda nada. As coisas não desaparecem pelo simples facto de não estares a ver. Pelo contrário. Da próxima vez que abrires os olhos, revelar-se-ão ainda piores (...) só os cobardes vivem de olhos. Fechá-los e tapar os ouvidos não faz passar o tempo.

Haruki Murakami, in "Kafka à Beira-Mar"

 

Nos anos 90, ainda muito pequeno, e com a visão mais apurada para a televisão que os outros sentidos, acabei por ficar marcado pelas imagens de crianças subnutridas em África. Já referi em tempos que os meus pais nunca me privaram de visualizar qualquer conteúdo mais horrendo... O Mundo é como é...

 

Qualquer criança ou adulto que tenha passado pelos anos 90 (e muito provavelmente nos anos 70 e 80) terá assistido a este triste espectáculo que marcou décadas e cujo esquecimento - e um certo sucesso no combate à fome - acabou por transformar esse passado em algumas piadas: as piadas são boas, além de nos permitirem desanuviar na desgraça, também podem demonstrar o distanciamento face a algo que deixou de existir.

 

Todavia, parece que o passado, e em alguns casos o apagar ideológico do mesmo, leva-nos a pactuar com o regresso de determinadas catástrofes. Não obstante, a diferença é que num Mundo pouco ligado a luta contra a injustiça tinha outra força, muito mais que num Mundo hoje ligado e onde, temas como a fome, só surgem quando alguém tem interesse em tirar uma fotografia junto dos pretos ou dos asiáticos para colocar na capa e um livro.

 

Desta vez volto ao Iémen, país que já abordei aqui, para chegar à conclusão que infalivelmente a História se repete. E a cada vez que se repete, a nossa ignorância e desprezo perante os factos é ainda maior. É perturbador como em países onde os bancos alimentares são verdadeiras indústrias e oligarquias de milhões de euros, se inventa fome que não se vê e quando ela existe, uns quilómetros mais à frente, fingimos nem ver... Ou mais grave que isso, não vemos...

 

Dispenso mais palavras, o vídeo que acompanha este artigo fala por si... Engoli em seco e tive vontade de bater em alguém, mais ainda quando recebia a notícia de que um carregamento de armas de fabrico chinês (alegadamente sem o envolvimento do Governo comunista daquele país) seguia clandestinamente em direcção a este país e foi capturado por uma fragata norte-americana. No meio disto tudo, existem uns olhos que não esquecerei tão depressa...

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Marcelino da Mata no SardinhaSemLata

por Robinson Kanes, em 17.02.21

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Créditos: http://ultramar.terraweb.biz/CTIG/Imagens_CTIG_TenCorMarcelinodaMata_Apadrinhou_seu_neto_PupilosdoExercito.htm

Ontem foi assim na habitual passagem pelo SardinhaSemLata.

 

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O Holocausto do West Bank...

por Robinson Kanes, em 11.02.21

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Créditos: Associated Press

 

No Verão de 1948, no espaço de algumas horas, os meus pais, como centenas de milhar de palestinianos, perderam tudo. O meu contou-me que estava no colégio quando souberam que os israelitas estavam a massacrar as pessoas nas aldeias vizinhas. A sua família e todos os vizinhos fugiram em direcção a Gaza, então sob domínio egípcio. Como muitos jovens, critiquei o meu pai durante muito tempo por não ter ficado e lutado, mas depois li os relatos dos "novos historiadores" israelitas e compreendi que os palestinianos, com as sua espingardas de má qualidade, não tinham qualquer hipótese. Ficar teria sido um verdadeiro suicídio, e era preciso sobreviver para preservar o futuro.

Kenizé Mourad, in "O Perfume da Nossa Terra - Vozes da Palestina e de Israel" 

 

 

Dei comigo, por várias vezes esta semana, a olhar para esta fotografia... Assumo até que tentei prestar pouca atenção à mesma. Procurei filtrar, afinal a propaganda não é só de um lado e por isso é necessário manter algum distanciamento. Também já escrevi sobre isto algumas vezes, "não deveria" ser tema sequer para voltar a trazer... É pouco relevante, não é importante, actualmente é como faire monter la mayonnaise.

 

A verdade é que ninguém, e passo a expressão, com dois dedos de testa, consegue ficar indiferente aos crimes que continuam a ocorrer, crimes contra a Humanidade! O Estado de Israel (o Estado e não os israelitas) continua impunemente a semear o terror no Vale do Jordão. Na Cisjordânia continuam a cometer-se atrocidades dignas também de um Holocausto, todavia, surgem apenas avisos, apenas consternação. Alguns esperam por Biden, como se este fosse o salvador, pois que desesperem... O silêncio pode manter as luzes, mas não pode esconder o resto... Apenas um assobiar para o lado numa guerra em que não podemos dizer que existe um lado totalmente inocente. É também relevante afirmar que não deixa de ser estranho, até quando já a própria Arábia Saudita ganha alguma consciência (independentemente do que levou a) e liberta a activista Loujain al-Hathloul - um ponto para os alegados radicais, muitos pontos a menos para os pacíficos e pobres perseguidos.

 

A história da comunidade de Khirbet Humsu é uma das mais intrigantes e mais interessantes na luta de territórios entre David e Golias... As mais recentes peripécias passam por três meses, ou perto disso, em que as forças israelitas, sem qualquer motivo, derrubaram por três vezes aldeias e vilas inteiras e também por três vezes o povo palestiniano as reergueu. O mesmo povo que diz não ter para onde ir, já nem é uma questão de reclamar território... Até porque, diz-nos a História e o presente, que nenhum dos lados, quer ao mais alto nível político quer a nível militar, parece estar interessado em resolver a questão pacificamente.

 

Esta fotografia, contudo, transporta-me para um cenário misto, onde uma película bem realizada se mistura com a realidade. Os sorrisos e a alegria de crianças que nem sabem bem que bandeira transportam, mas de uma coisa estão certas: é a sua terra! É a sua terra e o seu futuro que, esperamos, entre sorrisos e muitas lágrimas, não acabe com um projéctil na testa ou com um colete armadilhado. Espero que transportem a bandeira da esperança e que possam ser os futuros líderes de um povo. Futuros líderes vencedores na diplomacia e na paixão pelos seus, mesmo que tenham sofrido tentativas de deportação quase como numa espécie de vingança por aqueles que mais de meio século antes passaram pelo mesmo.

 

Estes putos são o pó e a esperança de um Mundo melhor... Não os ignoremos... E não faltam por aí putos a transportar bandeiras...

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Lokman Slim - E assim se mata um Cidadão!

por Robinson Kanes, em 08.02.21

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Créditos: AFP

 

Meu caro Negus, disse cordialmente, quando se deseja que a revolução seja uma maneira de viver por si própria, quase sempre se torna uma maneira de morrer.

André Malraux, in "A Esperança"

 

 

Lokman Slim dirá pouco a quem não tem grande afinidade com o Líbano. É um daqueles nomes que, para o bem e para o mal, vive sobretudo ligado aos que sentem, numa base diária, a violência na pele e que, no caso do Líbano, procuram uma solução para um dos mais belos países do médio-oriente.

 

Mas porquê o interesse em Slim? É simples... Slim, um activista e realizador libanês era um cidadão. Slim era um cidadão empenhado em fazer a diferença no Líbano combatendo o sectarismo envolvendo a participação dos cidadãos e assim levar, através desse empowerment, uma espécie de transição verdadeiramente democrática e participativa naquela pérola de país! Um promotor daquilo a que também chamamos a "Cultura da Lembrança" ou se preferirem da "Memória". Foi alguém que, criado numa família com actividade política e religiosa, foi estudar para Paris e voltou, trazendo e dinamizando as artes no Líbano e apelando sempre à paz, aliás, o filme "Massaker" é uma das suas grande obras. Alguém que defendeu o seu país lá dentro e não a milhões de quilómetros... Alguém que não voltou como herói quando vivia ricamente em Paris e depois de ter sido "terminada" uma revolução.

 

Slim lutava contra o sectarismo onde se incluía o Hezbollah e do qual era inimigo, todavia, naquela região, quando o tema é paz e empowerment, temos sempre a sensação de que o inimigo por vezes também pode estar do lado mais... amigo. O Hezbollah negou o assassinato e até já exigiu investigação, todavia, independentemente de quem terá ordenado a morte deste homem, é certo que a investigação pouco ou nada resolverá. O Líbano é fascinante, os seus habitantes igualmente, mas a tensão política, as guerras com Israel, têm destruído o país de uma forma lamentável.

 

No passado dia 3 de Fevereiro morreu, com quatro tiros na cabeça e um nas costas, mais um agente da paz, mais alguém que não queria sectarismos e aparelhos partidários e pejados de interesses a Governar, minorias sedentas de poder e riqueza que subjugam milhões... Esse foi o seu erro e provavelmente, até em Portugal, muitos saberão o que terá tantas vezes sentido Slim, sobretudo aqueles que não vendem a alma ao diabo e colocam o interesse do país à frente dos interesses partidários e de outros interesses que oscilam em torno deste cangalho em que se transformou a Democracia portuguesa - e que também pouca importância deu ao facto, ou não fosse esse um conceito, o de cidadania, algo que aterroriza muita gente.

 

A cidadania perdeu um dos seus principais actores e a paz voltou a ser alvejada...

 

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Do Uganda... Com dor e esperança...

por Robinson Kanes, em 05.02.21

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Imagem: John B. 

 

 

Em nove décimos do homem o que pensa é o animal. E é com o décimo que resta que quereis reinventá-lo? Quereis? 

Mas é da parte que negais nos outros que vos servis de engodo para a pregação.

Vergílio Ferreira, in "Signo Sinal"

 

Em tempos, por estas bandas, uma espécie de indivíduo"distorce discursos", dizia-me que estava feliz com a vitória de Biden numa tentativa de "sair por cima" e com isso me fazer sentir mal, apenas porque (de forma errada devido a lacunas pedagógicas na interpretação de textos) me julgava apoiante de Trump. Tempos de delírio louco nas semanas que antecederam a eleição e que agora se esgotou numa espécie de marido que atinge o climax e se vira para o lado a ressonar - ou seja, mãos cheias de nada. Tristes aqueles cuja felicidade anda ao sabor da moda, "ovelhoas" modernos como diria John Littman...

 

Todos os dias encontro sempre algo que me faça feliz, não preciso de eleições nos Estados Unidos enquanto pactuo com ditaduras internas para encontrar algo de bom. Mas ontem, bem cedo o meu dia começou da melhor forma: O Tribunal Penal Internacional, finalmente deu como culpado de crimes de guerra e contra a Humanidade, Domonic Ongwen. Ainda sem sentença, esta besta humana foi o Comandante do "Lords of Resistance Army" (LRA) no Uganda, o que lhe permitiu cometer toda a espécie de atrocidades como raptos, violações e a utilização de crianças-soldado entre 2002 e 2004.

 

Sob a égide de Joseph Kony e da sua distorção do cristianismo (o LRA é uma espécie de Estado Islâmico versão cristã), estes cavalheiros espalharam/espalham o terror não só no Uganda mas também  no Sudão do Sul, República Democrática do Congo e República Central Africana... Três países que estão como estão, sendo que Kony é talvez o homem mais procurado de África.

 

Talvez tenha pouco interesse por estes dias, mas ainda online, o rosto de quem sofreu esta violência e medo na pele é algo indescritível num misto de alegria e pesar. A felicidade tem destas coisas...

 

Aproveitando a minha presença no Uganda, as eleições acabaram por ter lugar, apesar da contestação ao ditador-mor Museveni. O corte no acesso à internet, a prisão do opositor Bobi Wine, as mortes encetadas pelas forças ugandesas permitiram que mais uma velha besta continue no poder. Bobi Wine continua numa espécie de prisão domiciliária após as eleições, todavia nasceu uma esperança... Os jovens do Uganda despertaram e vão querer um novo país. Um dos mais jovens países do Mundo terá dado o primeiro passo para um futuro melhor e mesmo que Bobi Wine não venha a ser um líder perfeito as pessoas acordaram e estão empenhadas, quando todo o Mundo treme, em mostrar do que o Uganda é capaz e tem gente para isso... Se quiserem importar cidadãos com essa vontade para Portugal, serão bem-vindos... 

 

E falando de  importação... É absolutamente fantástico o discurso daquele povo. Aquele povo deseja arduamente que os seus jovens e melhores profissionais regressem/fiquem no país. Não defendem a emigração para a Europa, por exemplo... Não defendem muitos dos seus serem humilhados por traficantes e trabalhos de baixa linha no velho continente, querem-nos ao serviço do seu país. Por vezes chego a pensar se um país como Portugal não estará no ranking do desenvolvimento abaixo do Uganda. E é também aqui que fico a pensar num ponto extremamente importante defendido por mim e por muitos... As grandes vagas de imigração para a Europa são resolvidas a montante! É um facto que isso implica investimento e pode ser mau para o negócio que muitas ONG estão a fazer no Mediterrâneo (verdadeiras e ricas multinacionais do coitadinho), mas não está a resolver o problema. Primeiro pensa-se em como encontrar fundos, depois prolonga-se o problema e quando secarem os fundos, encontra-se outro teatro de miséria com acesso a outros fundos.

 

Hoje, sendo sexta-feira, deveria ser como já o aqui disseram, um dia mais calmo e com algumas partilhas menos pesadas neste espaço, mas talvez existam coisas que são bem melhores que um copo de vinho... Todavia, uma coisa é certa... Hoje será aberta uma garrafa de um dos melhores vinhos cá de casa e celebraremos a punição dos maus e a esperança num futuro melhor para aquele país... Tanto entusiasmo e há quem me diga que isso já é o desligar do meu próprio país... 

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Holocausto ou Holocaustos?

Onde a vítima se confunde com o agressor...

por Robinson Kanes, em 28.01.21

RTS1RIU6_IsraelPalestine_Nakba_protest_0.jpgCréditos: Mohamad Torokman/Reuters

 

Um cérebro pode servir para fins bastante diferentes e (a) conquista do mundo é mais desejável que a sua ordem.

André Malraux, in "A Tentação do Ocidente"

 

Causa-me alguma angústia pensar que muitos jovens não sabem o que foi o Holocausto nazi. Causa-me também igual angústia imaginar que um número ainda maior nem sabe o que foi a União Soviética, o que não é de estranhar tendo em conta os adeptos que esta ainda vai tendo, sobretudo em Portugal onde, neste campo, se tenta reescrever a História. Podemos desculpar os jovens, já não podemos desculpabilizar os adultos, os mesmos que fecham os olhos aos holocaustos presentes.

 

Esquecer o Holocausto é esquecer toda uma História que está para trás, aliás, os holocaustos até lá não foram uma novidade, todavia, a proximidade, o horror e uma máquina bem oleada de propaganda (é inegável) dão-nos a sensação de que foi caso único. Não foi! Mesmo depois da guerra, os holocaustos multiplicaram-se e de uma forma ou de outra, alguns ainda por aí existem... Passemos pela China, por alguns países do Sudoeste Asiático, por África e até por Israel.

 

Nada me move contra israelitas ou judeus, bem pelo contrário. Provavelmente terei influências judaicas também e tenho uma grande admiração por todos aqueles com quem tenho oportunidade de partilhar momentos da minha vida e onde os conflitos israelo-árabes são sempre tema de discussão. Todavia...

 

... Não deixa de ser caricato que o "estado do Holocausto", desde há muito, e também por causa das políticas de desenhar fronteiras a régua e esquadro das potências europeias, seja também aquele que tem mais guerras em pouco mais de meio século de História do que alguns com milénios. A Guerra dos Seis Dias, a Crise do Suez e tantas outras bravatas que inclusive culminaram com a anexação de territórios de outros países, veja-se o exemplo dos Montes Golan e dos denominados "territórios ocupados", tem lançado a região no caos.

 

Já passou tempo suficiente para "pagarmos" pelo Holocausto e começar a exigir que Israel (também conhecida pelo seu terrorismo de Estado) cumpra os Direitos Humanos e se abstenha de perpetrar um Holocausto contra o povo palestiniano, numa sede imensa de ampliar o seu território. A questão palestiniana é complexa, daria muitos artigos, até porque a dificuldade em encontrar quem tenha mais razão nesse conflito não é fácil e talvez por isso seja algo que até hoje ainda não foi resolvido - o estadista israelita que esteve mais perto de uma solução foi assassinado por um dos seus. 

 

Numa base diária, Israel tem subjugado o povo palestiniano, tem-no morto e tem-lhe roubado território com uma passividade internacional gritante, direi até assustadora - um pouco à semelhança do que foi encetado pelos causadores do "Holocausto" nos primórdios da Segunda Guerra Mundial. Não é justificável e não deixa de ser um paradoxo ver a vítima a fazer exactamente o mesmo que o agressor. Imaginem estar na vossa casa, no vosso bairro e no vosso país e de repente terem um bulldozer e dezenas de soldados a expulsarem-vos de casa sem razão aparente e a destruir-vos o lar... Dizer que isto é algo normal é quase como negar o Holocausto - por menos começou uma guerra violentíssima na Síria. Neste campo, a loucura com o coronavirus, tem ajudado a que muitas destas acções praticamente nem sejam do conhecimento público - não se confinam só pessoas, confina-se o pensamento e a liberdade.

 

Na verdade, esta sensação de impunidade permitiu o desplante, e aliás o erro histórico de, nos mesmos dias em que se "celebrava" o aniversário do Holocausto, Israel ter feito um ultimato ameaçador aos Estados Unidos a propósito da aproximação ao Irão e inclusive deixar transparecer que planeia um ataque àquele país. Imaginem confortar um inocente que, enquanto recebe o vosso abraço, carrega a sua masada para matar ainda mais inocentes. O timing foi desastroso e o argumento ainda mais. Se a isto juntarmos também o facto de terem "passado ao lado" os alegados bombardeamentos israelitas em solo sírio, junto à fronteira com o Iraque da passada semana, temos um estranho cocktail de hipocrisia. 

 

Se tratar outro povo como bestas, retirando-lhe direitos, humilhando-os numa base diária, criando muros e invadindo as suas casas e dispondo das suas vidas rasgando toda e qualquer emanação da Carta dos Direitos Humanos é digno, pois bem, então não se admirem de que, mais do que um dia nos esquecermos do Holocausto, o aplaudirmos...

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Balada do Pequeno Soldado...

por Robinson Kanes, em 13.01.21

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Columbano Bordalo Pinheiro - "Cabeça de Rapaz" (Museu José Malhoa)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Dei por mim, mais uma vez a tentar interpretar o Mundo, a "sofrer", afinal precisamos desse tempo, e fui catapultado nos meus pensamentos para um tema que já abordei aqui aqui.

 

Um dia de sol, não o de hoje onde os pneus já comem asfalto há muitos quilómetros e este artigo irá ser disparado, mas um outro, com vista do Tejo.  O Tejo com as suas pequenas vagas adivinhando o vento que irá entrar pela planície adentro e afastar os flamingos para as salinas. Recordo a "Ballade vom kleinen Soldaten, ou se preferirem a "Balada do Pequeno Soldado", obra de um dos mais brilhantes realizadores do nosso tempo, o alemão Werner Herzog.

 

Somos transportados para a Nicarágua dos anos oitenta, terra onde os sandinistas na sua cavalgada para impôr um regime socialista naquele país, tomaram como uma das suas frentes de batalha a eliminação dos povos indígenas, neste caso em particular os Miskito. Nada de novo numa ideologia que procura limpar a História e o que dela resta, mesmo que tal testemunho tenha a forma de um ser-humano.

 

Recordo aquele pequeno soldado que abre o "documentário" e também o "Dia Mundial dos Povos Indigenas". Foi no dia 09 de Agosto, por sinal, o dia em que escrevo este texto. Poucos se terão recordado da data, é impossível chegar a tudo. Sem perceber porquê, e perdoem não ter uma história cheia de epifanias para contar acerca de, os meus pensamentos foram levados para esta obra de Herzog. Talvez culpa dos meus pais, da minha irmã, que me carregaram de realidade e nunca tiveram qualquer pejo em mostrar-me o que era o Mundo. Até aquilo a que memória me alcança, vejo-me a absorver todo o tipo de documentários na televisão, para o bem e para o mal. Sangue, morte, fome... Nunca foram um problema que levasse os meus pais a desligarem a televisão, a tirarem-me um livro da mão ou até a orientarem o caminho que percorria, bem pelo contrário. Bem, a minha mãe...

 

Na Nicarágua dos anos 80 e até 90, estes pequenos guerreiros formaram batalhões inteiros, muitos deles porque só tinham esse destino  - destino, não raras vezes, desenhado pelos pais e pelos desejos de vingança. Podemos tecer todo o tipo de comentários anti-violência, eu próprio os faço, mas explicar isso a quem vê toda uma aldeia ou vila incendiadas, os seus habitantes (independentemente de serem homens, mulheres ou crianças) serem fuzilados não é de todo a tarefa mais fácil do Mundo... O "olho por olho, dente por dente" tende a ser mais forte.

 

Quiçá por isso recorde um amigo de alguém cá de casa que fugiu de um país da América Latina com a família. Diz-nos ele que, naquele país, todos sabem que existe um projéctil com o seu nome, é uma roleta russa.

 

Crianças fardadas e prontas para a guerra, é dos crimes mais hediondos que se podem cometer. É ver a infância roubada, mesmo que as hipóteses de atingir algum nível de felicidade sejam baixas. Ver crianças que já perderam tudo e se transformaram em máquinas de guerra ou simplesmente carne para canhão deveria chocar, fazer-nos tremer! Ainda são milhares - e sabemos como as estatísticas são generosas nestes números - as crianças que sabem manejar um morteiro ou uma automática melhor que a maioria da população adulta. Provavelmente, quandos os nossos filhos brincam na rua e fazem o "pfiii pxiiiiu" com uma arma de plástico, outros sentem o som dos projécteis a passar-lhes por cima e sentem a dor de ver a pela rechassada por um ferro a alta velocidade ou por uma explosão. Enquanto os nossos filhos dão à costa embalados pelas pequenas ondas e riem, outros dão à costa ou à margem de rios crivados de balas.

 

A somar a tudo isto, porque isto é "só" uma consequência de, é importante que olhemos para os povos indígenas deste mundo. Em alguns casos, é lá que está a nossa história como seres-humanos, como homens que somos - simplesmente ignoramo-los como o faríamos se hoje em dia Edison fosse vivo e tantos outros pioneiros do nosso bem-estar. Não basta andar vestido em tons tribais e achar-se um cidadão mais para a frente, bastará afinal, saber que estes povos existem, até porque, numa época em que algumas vidas interessam, talvez fosse mais humano perceber que todas as vidas importam, mesmo aquelas cujas raízes ancestrais jamais deverão ser esquecidas ou destruídas. Mesmo aqueles cujos descendentes já não são mais que um pequeno grupo de dezenas ou centenas.

 

Olho o horizonte e acompanho o pequeno soldado, cuja Kalashnikov mais parece uma viola e onde o olhar de criança é corrompido por um olhar vazio e triste de menino soldado...

 

(...)

Que te pasa chiquillo, que te passa

Me dicen en la escuela y me preguntan en mi casa

Y hasta ahora lo supe de repente

Cuando vi pasar la lista y ella no estuvo presente 

Ella de la mochila azul

la de ojitos dormilones

Me dejo gran inquetud

Y bajas calificaciones 

Ni al recreo quiero salir

No me divierto con nada

No puedo leer ni escribir

Me hace falta su mirada

De recuerdo me quedan sus colores

Dos hojas del cuaderno dice amores entre borrones

Yo quisiera mirarla en su pupitre

Porque si ella ya no vuelve mi salon sera muy triste

(...)

Bulmaro Bermúdez, "La  de la Mochila Azul"

 

(Publicado originalmente a 11 de Agosto de 2020 no espaço SardinhaSemLata)

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O Desejado Irão...

por Robinson Kanes, em 02.12.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

The Germans sell chemical weapons to Iran and Iraq. The wounded are then sent to Germany to be treated. Veritable human guinea pigs.

Marjane Satrapi, in "The Complete Persepolis"

 

 

Que a Pérsia sempre foi um território profundamente desejado, não restem dúvidas, desde a Antiguidade que o império é alvo de cobiça por vizinhos e inclusive por Ocidentais. Aliás, não será vergonha nenhuma um Ocidental assumir que ainda tem muito a aprender com a cultura e conhecimento produzidos por aquele povo.

 

Também é verdade que o Irão actual, muito por culpa do Ocidente, se encontra sob governação de radicais, sobretudo no parlamento, embora a liderança de "Hassan Rohani" se tenha pautado por bastante moderação em contraste com os tempos de Mahmoud Ahmadinejad onde o discurso feroz e agressivo imperava. Durante a Governação Trump, estivesse Ahmadinejad no poder e as coisas poderiam ter corrido de forma muito diferente, sobretudo após o assassinato do Major-General da Guarda Revolucionária do Irão, Qasem Soleimani. 

 

Na verdade, a influência do Irão em alguns países, nomeadamente no Líbano, onde é o principal financiador do Hezbollah, não é sinal de orgulho para o país. Não obstante, as tentativas de aproximação ao Ocidente e alguma pressão interna junto dos mais radicais poderia dar frutos num futuro próximo. Conhecer o Irão é, apesar do muito trabalho que ainda existe, chegar a essa conclusão. Todavia, se é crime apoiar organizações terroristas como o Hezbollah, também o é apoiar tantas outras por esse mundo fora - e onde a Europa, Estados Unidos, China, Rússia, Israel e Arábia Saudita têm a sua participação. 

 

O Irão é um país rico, onde a abundância de água é uma realidade e o seu aproveitamente de um conhecimeno ancestral. O Irão tem uma importância logística vital no Golfo Pérsico: o estreito de Ormuz. O Irão é o país onde também o petróleo jorra por todo o lado e o gás natural está nos poros daqueles solos. Sobrevoar o Irão à noite, independentemente das rotas, é como sobrevoar a Europa, tal é a iluminação do país, riquíssimo na produção de electricidade que não  se deve somente à indústria nuclear. Podemos andar em algumas aldeias remotas e as canalizações de gás natural estão lá.

 

Por sua vez, enquanto China e Rússia se aproximam do país construíndo infraestruturas, embora de modo controlado, pois a estas também não importa que este país se desenvolva de modo desenfreado, a Europa e o Estados Unidos vão desperdiçando uma oportunidade de ouro. A Rússia e a China nada dão em troca e recebem muito do que o Irão produz, aliás, essa é uma das queixas daqueles que por lá habitam, sobretudo em relação ao petróleo e ao gás natural.

 

Esta semana, e depois do assassinato por parte dos Estados Unidos e não só, de Qaseim Soleimani, foi a vez do mais proeminente cientista nuclear iraniano ter perdido a vida também num assassinato bem planeado. Mohsen Fakhrizadeh foi assassinado pela sua importância no programa nuclear iraniano, alegadamente por duas potências que pouco se podem gabar do seu pacifismo: Israel, Arábia Saudita e quiçá Estados Unidos, até porque raramente uns fazem algo sem conhecimento e cooperação dos outros. O encontro ao mais alto nível entre Israel e Arábia Saudita, algo inédito, a semana passada, aumentou também as suspeitas, até porque inicialmente o mesmo foi negado. Acresce ainda o facto de que este tipo de operações só está ao alcance de potências com meios para tal... E entrar no Irão, cometer um crime e sair sem acordar o gato não está ao alcance de todos. 

 

A prática de assassinar cientistas iranianos é comum, basta recuar a 2010 e 2011... Apesar do radicalismo, não tenho dúvidas que é toda uma herança histórica iraniana e um lado xiita mais moderado que tem tornado o ambiente mais calmo, além da "estratégia de paciência" encetada por Rouhani mas que não é a mais apreciada pelas altas elites religiosas do Irão.

 

A União Europeia e a ONU já condenaram o assassinato, todavia Mohamad Javad Zarif, o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, diz que não basta... A hipocrisia continua a ter lugar, à semelhança daquele que existiu com a Crimeia ou até com os bombardeamentos em hospitais sírios. A saída de Trump pode também estar a acelerar a tomada de medidas extremas na medida em que Biden, mais moderado, evitará (assim se espera) hostilizar países como o Irão! Ao nível internacional, Biden terá uma oportunidade suprema de manter o bom trabalho de Trump em relação à Coreia do Norte (até melhorar o mesmo) e aproximar-se do Irão, seria muito provavelmente um dos feitos diplomáticos do século terminando inclusive com a política iraniana de ter aprisionados cidadãos não-iranianos ou com dupla nacionalidade para servirem como moeda de troca por cidadão iranianos detidos no estrangeiro.

 

Aguardemos... Todavia, e como tenho vindo a referir, a pandemia tem sido uma excelente oportunidade para que se cometam algumas das maiores atrocidades do século XXI. Perguntem isso inclusive àqueles que numa base diária vivem um verdadeiro holocausto no médio oriente porque alguém se lembra de arrasar as suas casas e os tratar como escravos. Esperemos que a estratégia paciente de Rouhani se mantenha, até porque nas mais altas instâncias iranianas já corre o boato de um ataque a Haifa.

Actualização (13h:45m): o parlamento iraniano votou pelo fim da autorização às inspecções da Agência Internacional para a Energia Atómica (AIEA). 

 

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Somos Canárias! Somos España! Somos Europa!

por Robinson Kanes, em 20.11.20

Fonte: El Mundo

 

 

Members of the educated elite upheld open-mindedness as the supreme political virtue but refused to debate their own idea of the good life, perhaps because they suspected that it could not withstand exposure to more vigorous ideas.

Christopher Lasch, in "The True and Only Heaven: Progress and Its Critics"

 

Para fechar esta semana que, no embalo do "Dia Internacional para a Tolerância", procurei debater-me sobre alguns temas que envolvem o conceito e não só, acabo por aterrar em território europeu. 

 

Trago o discurso de Ana Oramas, representante da Coalición Canárias no parlamento espanhol, que esta semana desmascarou mais uma das, e passo a expressão, poucas vergonhas que assolam as fronteiras do território europeu e obviamente com grande influência nas ilhas Canárias, onde o desemprego atinge mais de metade da população. Contudo, quando os números incidem sobre o desemprego jovem, a realidade é ainda mais assustadora.

 

Ana Oramas enfrentou a actual coligação que governa Espanha alicerçada essencialmente no PSOE e no Unidas Podemos com um braço da Esquerda Republicana da Catalunha. Esta união tem levado Espanha a uma instabilidade económica, social, politíca e ideológica nunca antes vistas - e nesta avaliação ainda incluo o século XX.

 

Ana Oramas apresentou uma região completamente destruída pelo desemprego e pelas restrições causadas pela pandemia e exigiu ser espanhola. Mais que isso, ser europeia! A coligação da qual Ana Oramas faz parte, apesar de nacionalista, não tem cariz independentista, não obstante, procura mais autonomia para a região sem deixar de tomar parte na nação espanhola. A deputada questionou se seria necessário que as Canárias tivessem um movimento independentista forte para que Espanha e a Europa pudessem olhar para o território... Este é também mais um território tampão que tem sido utilizado pelo Governo Espanhol para despejar migrantes sem quaisquer condições - os últimos duzentos foram largados numa praça e foi um povo residente, já empobrecido e confinado, que saiu à rua e prestou auxílio aos recém-chegados. No mesmo momento, o Ministério de Fernando Grande-Marlaska Gómez, um arrogante no poder, basta ver como despreza os deputados na Moncloa, congratulava-se pela solidariedade espanhola (institucional) no apoio aos migrantes.

 

No final do seu discurso, Ana Oramas questionou se o ideal seria as Canárias pedirem apoio ao Magrebe ou ao Norte de África para verem a situação das ilhas resolvidas perante o "abandono" do continente. Este é um grito desesperado de ajuda, aqui bem perto, e que surge na mesma semana em que Marlaska Gómez visita Rabat e encontra um Pablo Iglesias insurgente a hostilizar com os países do Saara - o que já criou tensões muito fortes entre Marrocos e Espanha (ver o ABC ou o La Razón de 19 de Novembro). Este imiscuir constante em assuntos alheios (a cegueira ideológica de Iglesias e do Podemos não conhece limites) tem provocado graves danos internos e externos em Espanha. Marrocos, país soberano e moderado, já pediu contenção e ameaça não entrar em negociações se o Vice-Presidente autoritário do governo espanhol não sair de cena. 

 

Está a caminho da Europa (aliás, já existe) um problema que poderá ser bem pior que a pandemia e cujas parcas tentativas de resolução do mesmo na fonte estão a ser destruídas por tiranos travestidos de democratas libertadores atulados em esquemas de corrupção que tentam esconder com activismo bacoco e totalitarista.

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EjkKZD9WoAA-Ci9.jpegCréditos: https://twitter.com/FAOYemen/status/1313092618126077954/photo/1

 

A 06 de Outubro, há pouco mais de um mês, recebia a notícia de que no Iémen a vacinação destinada a animais foi terminada devido à falta de financiamento por parte dos membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e por privados. Os mais antropocentricos pensarão porque é que a vacinação de animais tem de ser uma prioridade, mas vejamos...

 

No Iémen, cerca de 3,2 milhões de indivíduos (215 mil famílias sensivelmente) vivem da pecuária, quer em termos alimentares quer em termos de geração de income. A existência de vacinas e consequentemente a vacinação dos animais elimina a montante muitos problemas cuja resolução poderá ser mais complexa...e cara - ainda hoje a ONU afirmou que vai disponibilizar 100 milhões para combater a fome em 7 países. O Iémen está incluído, país onde 24 milhões de pessoas dependem da assistência humanitária - 24 Milhões! A população total roça os 29 milhões.

 

Vacinar estes animais é dinamizar a economia, é alimentar seres-humanos, é permitir que muitos se possam ocupar com uma actividade, sustentar a família e acima de tudo é um alívio para o Estado e para os financiadores de um país completamente devastado por um guerra civil desde 2011 aquando dos ecos da Primavera Árabe que depôs Ali Abdullah Saleh e colocou no poder Abdrabbuh Mansour Hadi. 

 

Além da corrupção, da Al-Qaeda, da insegurança alimentar e de movimentos separatistas, a gota de água foi o movimento huti que, sendo xiita e defendendo  os xiitas zaidi procurou tomar o controlo da Província de Saada. O apoio, inesperadado, de muitos sunitas a Hadi, levou à escalada da violência, ao exílio deste e a uma das mais sangrentas guerras da década - ainda tenho na memória a emboscada a centenas de soldados sauditas decepados pelos rebeldes e que não terá passado em Portugal. A hipotética ameaça da influência do Irão (xiita) levou a que a Arábia Saudita se envolvesse directamente na guerra com mais oito países árabes e ainda com o apoio logístico de países como os Estados Unidos (O nobel da paz e presidente em 2015, Barack Obama autorizou o apoio e internamente foi acusado de participar na catástrofe), Reino Unido, o pacífico Canadá e França. A ira árabe que também afecta o último país tem muito que se lhe diga, embora nada justifique as atrocidades cometidas.

 

Agora, com o fim do apoio directo à população, sobretudo numa forma de empowerment - a melhor forma de combater a miséria sendo que a caridade só a fomenta - assitimos à escalada daquela que já é uma das maiores catástrofes humanitárias do século. Em termos de má-nutrição e a título de exemplo, a Food & Agriculture Organization of the United Nations (FAO), a 27 de Outubro deste ano, dava conta do maior número de casos de nutrição registados naquele país em crianças abaixo dos cinco anos... Um aumento de 10% em relação a 2019 o que equivale a cerca de 98 000 crianças em risco de morrerem devido à má-nutrição. Em termos de Má-nutrição Severa/Severe Acute Malnutrition (SAM), a percentagem aumentou em 15.5%. Em suma, uma em cada cinco crianças corre o risco de morrer por má nutrição, sendo que em algumas provincias o número pode ser duas e até três em cada cinco.

 

O Iémen, apesar do desinteresse de quase todos, é um país importante para a estabilidade regional (se tivermos em conta que a Síria é outro foco de tensão) e arrisca-se a ser um pólo logístico da Al-Qaeda e com alcance mundial. Também é pelo estreito de Bab al-Mandab que passam muitos dos navios petroleiros do Mundo, e isto também tem que se lhe diga.

 

Em relação às vacinas para o gado, o reinício do programa implicará agora um custo de 3 milhões de dólares. Se tivermos em conta que países como Portugal gastaram milhões na aquisição de medicamentos que não têm qualquer efeito (e foram alertados para isso) contra o SARS CoV-2, dará que pensar... 

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