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Do Irão com Paixão...

por Robinson Kanes, em 08.01.20

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Imagem: Robinson Kanes (Não percam nunca a vossa amizade...)

 

 

O direito do homem a não matar. A não aprender a matar. Este direito não está consagrado em nenhuma constituição.

Svetlana Alexievich, in "Rapazes de Zinco"

 

 

Hoje não venho falar de visitas ao Irão... O Irão é mais que isso, é mais do que um postal, é um país com uma cultura e uma História que países como os Estados Unidos, por exemplo, nunca terão. Não vou ser contra os Estados Unidos, até porque prefiro (pelo menos para já) viver num regime mais semelhante ao norte-americano.

 

No entanto, não posso deixar de elogiar uma terra que me recebeu muito bem, quer pelas minhas origens culturais e religiosas totalmente diferentes quer por respeitar a minha negação das segundas. Denoto que algumas das discussões religiosas mais leves e mais abertas que tive aconteceram no Irão. Senti até que, ao contrário do que se diz, o dilema não se dá entre religiões mas entre "derivações" da mesma.

 

Não posso deixar de recordar aqueles sorrisos de homens carimásticos e de belas mulheres que podemos encontrar em qualquer cidade ou vila iraniana! Caramba, deixemos a porcaria da política e de interesses obscuros (vejam as acções de algumas empresas de armamento a subir) e foquemo-nos nas pessoas, no povo! Esse é um povo que não deseja violência, sobretudo no caso iraniano, que até por vários acontecimentos históricos demonstra uma grande vontade em estar junto do Ocidente, inclusive dos Estados Unidos.

 

Todavia, o que um povo não pode suportar é sofrer ameaças e sanções só porque uma Democracia decidiu atacar directamente o país - a morte de Qasem Soleimani é um ataque ao país. O povo iraniano e também o iraquiano não podem tolerar que uma Democracia invada os seus territórios e mate os seus líderes com total apoio de vários outros países e ainda recuse abandonar esses mesmos territórios. As ameaças de Donald Trump ao Iraque (e não falo do Irão) são qualquer coisa que deveria envergonhar qualquer democrata, qualquer cidadão com direitos, seja ele americano ou não! Junte-se a isto o abandono dos aliados curdos e mais vale cavarmos um buraco e escondermo-nos bem lá no fundo. A postura da comunidade internacional ocidental também é lamentável e nem o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas consegue esconder o facciosismo.

 

Todo este aparato só servirá para uma coisa: endurecer a postura do regime iraniano que já mostrava alguma vontade de abertura, além de que existem países aliados do Ocidente com maior limitação aos direitos humanos, e ainda reforçar o apoio ao regime por parte dos iranianos. Ninguém é isento de culpas, mas este levantar de poeira pode acabar da pior forma, até porque uma nação soberana e com a dimensão do Irão não pode cruzar os braços sob pena de se repetirem mais actos hediondos.

 

Os Estados Unidos e Europa estão também a perder uma oportunidade soberana de tomar parte na(s) nova(s) Rota(s) da Seda e com isso embarcar num caminho de prosperidade económica, social e política, aliás, estão neste momento a ser um entrave a esse desenvolvimento e a permitirem que países como a China e a própria Rússia aproveitem e assumam os destinos da região.

 

Todavia, neste momento, só me posso recordar de toda aquela gente boa, especialmente um pequeno grupo que, nas margens do Zāyandé-Rūd, partilhou connosco da sua comida, da sua casa e da sua vida, desde o primeiro momento em que nos conheceu numa clara demonstração de afecto que não vemos por cá, inclusive em Portugal, onde os principais seguidores da política dos afectos são os mais distantes daqueles a quem querem vender tamanha falsa ideia.

 

O Irão, aliás, os iranianos são um povo com quem todos temos de aprender e com uma bagagem intelectual e cultural que me faz, perante os mesmos, curvar-me e fazer uma vénia em respeito por tão importantes indivíduos. 

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1000.jpegCréditos: AP Photo/Mahmoud Illean

 

O mais recente bode expiatório da comunidade internacional (a Ocidente) é o Irão. Se por um lado temos os Estados Unidos da América (EUA) a quererem impor a sua lógica de perversão económica e militar aos demais aliados, por outro, temos a Europa a pensar, mais uma vez, não por si mas a reboque dos EUA. O Reino Unido tenta, com a saída eminente da União Europeia, ter todos os aliados comerciais e militares possíveis. Por sua vez, um país como Portugal - no seu crónico "lambe-botismo" e com um incapaz Ministro dos Negócios Estrangeiros Auguto Santos Silva, o também crónico sósia do Ministro da Propaganda Iraquiano de outros tempos, Mohammed Saeed al-Sahhaf - adopta uma atitude de servilismo que pode abalar as excelente relações que temos com o Irão.

 

No entanto, uma das principais vozes contra o Irão e contra a hipotética ameaça deste país vem de Israel (e mais uma vez, Estado de Israel, não os judeus israelistas). Não esqueçamos a Arábia Saudita que tem no Irão o seu grande inimigo e é um óptimo comprador de material militar aos EUA, tal como Israel. O Estado de Israel continua numa base diária (e é mesmo diária) a violar os direitos humanos enquanto a comunidade internacional (e os próprios media ocidentais) enterra a cabeça na areia. Todos os dias são desalojados e mortos muitos palestinianos numa guerra sem fim à vista e onde Golias continua a sair vencedor.

 

Ontem, Israel regressou às demolições em larga escala a leste de Jerusalém. É o fim de uma guerra judicial que todos conhecíamos o deselance, ou não fossem os tribunais israelitas dotados de total parcialidade quando o tema é a Palestina. Ao contrário de demolições "à prédio coutinho", em Israel estas são acompanhadas por soldados e veículos militares que em minutos criam um cenário de guerra! Israel é conhecida pela limpeza que vai fazendo na região e este é só mais um episódio - o Estado que apela sempre para a memória do Holocausto, tende, por vezes, a repetir os erros dos nazis e a dar uma certa força ao discurso hitleriano.

 

Portanto, o normal, é um palestiniano estar em sua casa, muitas vezes no seu próprio país, e ver irromper um sem número de soldados, ser retirado à força, quando não vem já deitado cravejado de projectéis, e assistir à demolição da sua casa - e a história termina aqui.

 

As Nações Unidas são criticas deste comportamento por parte dos israelitas, mas até agora nada tem sido feito para acabar com estas violações de décadas aos direitos humanos! Com que moral a Ocidente se exige à Rússia que "liberte" a Crimeia? Com que moral andamos a querer iniciar uma guerra com o Irão? Benjamin Netanyahu já provou ser um ditador, ser um tirano... Entre Netanyahu e Hitler, as diferenças vão sendo cada vez menores e, à semelhança do que aconteceu antes do início da Segunda Guerra Mundial, também agora, continuamos a ignorar as atrocidades que estão a ser cometidas no médio-oriente.

 

Em suma, ainda ficamos espantados quando o Hezbollah ou Hamas (e são só dois exemplos) criam também tensão na região e encontram cada vez mais recrutas para as suas fileiras... Um pouco como sucedeu com o IRA após o "Bloody Sunday" (o famoso massacre de Bogside) um episódio que deveria envergonhar todo e qualquer britânico!

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Traga as pipocas e junte a família! Amanhã, quando chegar ao trabalho também se vai sentir parte do grupo de malta "fixe" que vê séries a "bombar"!

Com os cumprimentos da Agência da ONU para os refugiados!

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E se o beijo fosse hoje?

por Robinson Kanes, em 20.02.19

kiss3.jpgCréditos: https://nypost.com/2012/06/17/the-true-story-behind-the-iconic-v-j-day-sailor-and-nurse-smooch/

 

Anda nas bocas do mundo a morte de George Mendonsa... O marinheiro que protagonizou, com Zimmer Friedman a imagem acima.

 

A fotografia é um dos marcos da história contemporânea mas... E se fosse hoje? Se hoje, aquele marinheiro, no meio da avenida, se agarrasse a uma desconhecida e lhe "espetasse" um beijo?

 

Imaginem também que a fotografia vinha parar às redes sociais!

 

Por certo, já estaria ser condenado por assédio sexual!

 

 

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Crianças-Soldado: Os Putos Esquecidos...

por Robinson Kanes, em 12.02.19

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Créditos: https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/9391115/UN-hundreds-of-thousands-of-child-soldiers-kept-in-slavery.html

 

Admito que é revoltante quando chamam de egoísta alguém que, por opção, não quer ter filhos. Por norma, a acusação parte de quem pretende ter filhos, ou já os tem,  mas faz questão que os mesmos tenham os seus genes, nem que para isso tenham de despender milhões em tratamentos - e, em alguns casos, mais valia que tais genes não andassem pela superfície terrestre. Mas o que é ser egoísta?

 

Escrevo sobre este tema no dia seguinte à publicação, por parte da "Child Soldiers International" de uma comunicação que refere a duplicação do número de crianças soldados desde 2012 - nomeadamente um aumento na ordem dos 160%, ou seja, mais 30 000 casos.

 

Esta conclusão, para que possamos perceber a mesma, baseou-se numa análise dos relatórios das Nações Unidas, nomeadamente os relatórios anuais "Crianças em Conflitos Armados" de 2018 e 2013. Estes relatórios tornam-se mais assustadores quando percebemos que estes números, muito provavelmente não correspondem À totalidade dos casos. 

 

Mas as crianças em combate não são apenas do sexo masculino, como se pensa, pois também as raparigas sofrem, muitas vezes como escravas de apoio e como... Escravas sexuais! Aliás, o aumento da violência sexual sofreu também um aumento! Estamos a falar de crianças que chegam a ter 7 anos e menos e que, mesmo quando libertadas, encontram (por motivos religiosos e culturais) o isolamento e a repulsa por parte das comunidades acabando por sofrer as consequências de um passado negro.

 

A dificuldade em acolher estas crianças noutros países é também uma realidade, não só legal mas também cultural, afinal, somos muito humanos com as crianças desde que tenham a nossa cor, os nossos genes e não nos causem problemas administrativos. Também somos humanos se formos uma "pop star" e nos deslocarmos ao Sudão, com um milhar de fotógrafos para assistir à adopção de um "pretinho". Também ignoramos que, aqueles que chegarem a adultos não serão propriamente os adultos mais recomendáveis - nascer no meio de uma guerra, com uma arma na mão, não augura nada de bom para o futuro!

 

Hoje é um bom dia para fazermos um exercício: pensemos que, enquanto estamos no trabalho, os nossos filhos são retirados da creche paga a peso de ouro - ter os filho em creches do Estado já não é cool, mesmo que provoque o endividamente dos pais - e são levados para a guerra. Em troca do tablet e do smartphone é-lhes dada uma kalashnikov e uma valente tareia. Imaginem que nunca mais saberão dos vossos filhos e que, muito provavelmente acabarão mortos em dias! Imaginem que as vossas filhas são levadas para lavar os pés a senhores da guerra e também para serem violadas numa base diária por estes!

 

Fechem os olhos, parem um pouco e imaginem tudo isso! Imaginem que, mais logo, quando deixarem o vosso emprego, é o cenário que irão encontrar... Imaginem também que, é por puro egoísmo que muitas destas crianças nunca terão um lar porque afinal... Não há espaço para elas no mundo dito desenvolvido, onde a solidariedade impera e, aparentemente, não pode have espaço para o egoísmo...

 

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Homens sem Guerra...

por Robinson Kanes, em 27.11.18

IMG_3476.JPGImagem: Robinson Kanes

 

 

A grande maioria dos indivíduos nascidos na Europa parece hoje esquecer os perigos bélicos que ameaçam o velho continente... A sorte bafejou-os com o facto de nunca terem passado por um conflito, por nunca terem dormido numa trincheira, por nunca terem cheirado qualquer arma química, por nunca terem lutado numa guerra mundial sem fim ou simplesmente num confronto sanguinário entre irmãos como foi a Guerra Civil Espanhola.

 

Estamos e vivemos na Europa como se tudo fosse pacífico, mesmo fazendo fronteira com países em conflitos sangrentos e perigosos para a estabilidade do velho continente. Os jovens e até aqueles mais velhos, esquecem o sangue que foi preciso correr para a Europa se tornar num continente de paz, um continente capaz de permitir um estilo de vida que, embora sendo apetecível, fez esquecer que para lá das fronteiras europeias existe mais mundo e que, mesmo cá dentro, algumas feridas ainda estão bem abertas.

 

Ignoramos, por exemplo, a tensão entre a Ucrânia e a Rússia, como também ignoramos que a primeira quer ser membro da NATO e que, em caso de hostilidade, todos nós temos de ser solidários com esse país e hipoteticamente encetar uma guerra com a Rússia, governada por um indivíduo que ainda não digeriu o fim da URSS.

 

Comportamo-nos, no nosso canto, a brincar às guerras em jogos de computador, mas esquecemos que o sangue que vemos em imagens de videojogos pode ser real, pode ter cheiro, pode ser sentido e pode até ser o nosso. De facto e como dizia Alves Redol em a Barca dos Sete Lemes, "as guerras não deviam começar, mas quando começam está tudo perdido" - está tudo perdido e já é mais difícil voltar atrás, sobretudo numa época contemporânea com tantos desafios e tantas vulnerabilidades que não existiam em tempos idos.

 

Tudo isto traz-me à memória a "Casa Canadiana", aquela casa junto à praia, aquela casa que foi a primeira a ser libertada (pelo menos diz-se) durante o "Dia D". A casa que, logo nos primeiros instantes até ser conquistada, custou a vida a praticamente 100 homens do "The Queen's Own Rifles". Não devemos esquecer esses tempo, e se, porventura uma guerra começou porque as dificuldades eram imensas e as estratégias de sobrevivência de cada nação tudo pareciam justificar, não deixemos que tantas outras comecem simplesmente porque somos indivíduos completamente ocos e sem sentido algum de cidadania e de dever com o próximo.

 

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O Beijo...

por Robinson Kanes, em 24.09.18

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E por hoje, mais não digo...

 

Créditos: http://countercurrentnews.info/2016/01/video-of-israeli-jews-and-palestinian-arabs-kissing-removed-from-facebook/

 

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Israel e um Estranho Paradoxo...

por Robinson Kanes, em 19.06.18

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 Créditos. http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/13/oslo-accords-explained.html

 

 

Admito que é extraordinário ver um país como Israel, a grande nação do judaísmo, a cometer erros históricos semelhantes àqueles de que foi sendo vítima ao longo dos séculos - o culminar foi o genocídio nazi, tão falado, talvez demais falado em detrimento de outros genocídios perpetuados antes, durante e após.

 

Os últimos tempos, para além da construção de muros e vedações, tem mostrado uma hostilidade atroz por parte deste Estado face ao Estado Palestiniano que, obviamente, também não é isento de culpas. Todavia, o modo como são abatidos palestinianos por parte das forças israelitas é qualquer coisa para a qual o mundo e sobretudo as Nações Unidas não parecem estar muito interessadas em discutir, inclusive o seu Secretário-Geral, completamente inapto para o cargo que tem vindo a desempenhar - não basta o papel do bom cristão, de santo salvador que deixou um país à beira do abismo e uma demagogia obsoleta para mudar o mundo.

 

A agressão israelita tem sido tão forte que nem os mortos são poupados, e nos últimos anos, não são raros os casos em que polícia e forças militares israelitas invadem cemitérios e destroem túmulos, campas para construirem espaços de lazer para israelitas e quiçá acabarem com uma cultura e com um povo da face da terra - onde é que já vimos isso! O último foi e está a ser o cemitério de Bab Al-Rahma, onde estão os túmulos de Ubada ibn as-Samit e Shadad ibn Aus, dois próximos do profeta Maomé! Esta é uma prática constante, onde os bulldozers de Israel entram sem dó e arrasam em segundos estes espaços sagrados e que são a identidade cultural e religiosa de um povo - entretanto vão-se matando a tiro aqueles que defendem estes locais sagrados - tratados pela alta esfera israelita quase sempre como terroristas. Aliás, para muitos governantes e cidadãos israelitas não existem palestinianos mas sim terroristas - não é raro em entrevistas não existir sequer uma menção a estes indivíduos como palestinianos mas sim como terroristas perante a passividade de muitos jornalistas e responsáveis políticos.

 

É um discurso que ao longo de décadas tem ganho uma força que hoje em dia alguém que atira pedras a um soldado é visto como uma terrorista, mas um soldado que retira alguém que está em casa e mata só porque sim esse mesmo alguém em frente aos filhos é um agente de paz! Também nós colocamos a mão no gatilho ao continuar a permitir o perpetuar destes comportamentos.

 

É uma questão antiga, uma má gestão por parte do Ocidente, empenhado em resolver os expedientes da Segunda Guerra Mundial e do passado colonializador... Talvez por isso procure agir como uma avestruz... Entretanto, os terroristas vão morrendo enquanto o ódio, por culpa destes actos, vai sendo incentivado e, ao invés de estarmos a limpar um povo da face da Terra, talvez estejamos a contribuir para a criação de um povo de ódio... Um povo com ódio que será visto sempre como o principal culpado enquanto o outro lado, não menos sangreto mas mais poderoso e talvez inteligente na forma como gere a comunicação e a teia de influências, vai sendo tratado como vítima... Mesmo quando levanta muros, cria vedações e desrespeita culturas ancestrais, encarcerando o povo palestiniano num gueto - palavra que a muitos lembrará os anos 30 e 40 do século XX e não pelos melhores motivos.

 

Todo este processo deveria deixar-nos envergonhados, sobretudo aqueles que passaram por um genocídio, que a História, ou melhor, aqueles que escrevem a História, insistem em quase assinalar que foi o único.

 

(é importante recordar que tenho amigos de ambos os lados da barricada e tento sempre perceber um lado e o outro e não estou a fazer a apologia de uns em detrimento de outros).

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Futebolada e Selfies! Basta!

por Robinson Kanes, em 16.05.18

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Créditos da Imagem: https://me.me/i/i-have-no-clue-what-my-governmentis-doing-butiknoweverything-there-5907005

 

Mas em que país, ou até em que mundo, vivemos? Mas porque é que em todo o lado temos de levar com tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com o futebol? 

 

É mais importante o futebol que a economia; que os massacres que andamos todos a legitimar no médio-oriente; que os números do emprego/desemprego; que o dia-a-dia que faz andar um país! É na rádio, é nas conversas, é nas montras, é no emprego (onde quem já não gosta de futebol se arrisca a ser alvo de discriminação) é em todo o lado e mais algum! 

 

Mas que império é este onde não faltam comentadores, programas, processos e todo um monopólio de informação e desinformação em torno do mesmo! Mas que império é este que movimenta milhões e mais milhões, muitas vezes sem origem conhecida e ninguém se preocupa em saber? Mas que império é este onde a corrupção é tolerada e defendida pelos supostos adeptos, vulgo, e no caso português, praticamente toda a população! Mas que império é este onde um episódio de violência tem mais eco que os episódios de violência em outros sectores e até no mundo?

 

Mas que histeria colectiva é esta em que, mais importante que ser português, é a porcaria (sem aspas) do clube que se tem? Que histeria colectiva é esta que transforma o "estudo" do futebol numa autêntica aula de matemática aplicada forçando uma coisa que não tem sabedoria nenhuma em algo complexo?

 

E a política no meio de tudo isto? Silêncio, promiscuídades e um deixa andar que chega a assustar - a mim assusta-me, como cidadão. Entretanto, o professor da nação, vai ensinando os franceses a tirar selfies, talvez porque não tenha mais nada para lhes ensinar senão uma cartilha de que estamos todos muito bem e somos o máximo... 

 

E no Governo e na Assembleia da República? Viva o futebol! Legislar e garantir que o combate à corrupção, evasão fiscal, enriquecimento ilícito, reforma do Estado, financiamento partidário, benefícios dignos de um Estado totalitário, afinal tudo isso pode esperar... Até vender a alma ao diabo por uns bilhetes para a bola, e aqui não é só no sector público, só a título de exemplo, não faltam recrutadores em empresas que o fazem a troco da colocação deste ou daquele indivíduo...

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Um Sírio em Český Krumlov...

por Robinson Kanes, em 18.04.18

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Fonte da Imagem: própria

 

Estava uma tarde de frio, de um frio aconchegante, longe daquela intensidade que nos congela os ossos quando a Boémia decide testar os limites do sofrimento humano. A baixa temperatura, associada ao tempo nublado, convidava a uma entrada na "ilha" e a uma das suas praças onde, numa pequena feira de Natal, se poderia comer uma carne assada ou então o tradicional  "trdelník".

 

Não sentimos a simpatia dos vendedores daquela praça, ou talvez esse espírito não estivesse em nós, afinal já eram quase 300 quilómetros desde Bratislava. Procurámos por esse espírito ao longo das ruelas de uma das belas cidades do centro da Europa e foi numa pequena loja que parámos para vencer a fome. Por fora, uma loja simples, sem grande história, colorida mas confundindo-se com todas as outras. Quase que numa espécie de desespero entrámos, afinal já estávamos outra vez perto do rio Moldava, o mesmo que atravessa Praga.

 

Lá dentro, um pequeno espaço onde o "kebab" era rei. Um balcão sujo para comermos de pé, uma mesa com duas cadeiras, bebidas de um supermercado low cost dentro de um frigorifico de self service e as paredes com um sem número de fotografias com monumentos milenares que chamaram a minha atenção. Por momento dei comigo na Turquia e pelo médio-oriente.

 

O empregado era árabe. Numa primeira abordagem apresentou-se mais fechado mas rapidamente abriu o sorriso às nossas perguntas. Disse-nos que nos havia confundido com húngaros e daí a sua reticência em arriscar um comportamento mais expansivo. Falámos muito de Marrocos, da presença dos árabes em Espanha e Portugal e da nossa paixão pela Turquia - isto até ter indagado que duas das fotografias eram de Palmira. Foi aí que percebemos que não estávamos perante um turco mas sim perante um sírio que tinha fugido da guerra.

 

Enquanto comíamos um kebab, e também enquanto o sírio ia brincando, mexendo com as mãos na alface e na cenoura do balcão que albergava as cubas com que ornamentava a iguaria da casa, ficámos a saber mais sobre as suas origens - a família que vivia na Síria, alguns em Aleppo e outros próximos de Palmira - foi neste intervalo que pudemos ver fotografias de Palmira completamente destruída, fotografias reais, daquelas que não surgem nos jornais mas nos olhos trágicos daqueles que sempre viveram naqueles territórios, fotografias actualizadas que, depois comparámos em nada tinham a ver com as últimas que haviam chegado aos media.

 

Apesar de alguma tristeza que os seus olhos não conseguiam disfarçar, o sírio mostrava-se optimista no seu sorriso humilde. Fazia perguntas acerca de Portugal e de como poderia lá montar o seu negócio - respondemos que não era fácil e de como o nosso país também não era tão atraente como se vendia nos postais turísticos. Foi aí que levantou os olhos, sorriu, estendeu as mãos para a alemã e disse: "mas vocês têm paz".

 

Mas nós temos paz, de facto. Dei comigo a pensar no que seria pior, se enfrentar toda uma máfia que prolifera no nosso país ou se, realmente, deitar-me sem saber se no dia seguinte acordaria tal o estrondo das bombas à minha volta. Pensámos ambos em como era morrer sufocado por gases tóxicos, como era ser atingido por uma bala perdida enquanto se vai comprar algo para comer no intervalo em que também as peças de artilharia precisam de respirar antes de debitarem o seu fogo.

 

Para aquele Ser, pessoas como Assad,Obama, Trump e Putin eram todos terroristas, pouco diferentes de um Estado Islâmico. Para aquele Ser, qualquer um deles podia acabar com a guerra num minuto mas não era essa a sua vontade nem o seu interesse. Perguntei como era possível que o Presidente de um país ordenasse um ataque químico como de Ghouta em 2013 e que matou milhares de compatriotas - hoje, quando muitos partidos políticos, facções e pseudo-personalidades falam de mentira em Douma e tentam também influenciar e tirar proveitos dessas declarações, é importante fazer recuar as mesmas uns 5 anos e perceber que nada disto é novo e que esse arsenal químico existe e é utilizado! Perguntei e o sírio baixou ainda mais os olhos, não me respondeu - optei por não desenvolver o assunto.

 

Pedi um copo para despejar o refrigerante que tinha tirado do frigorífico. De entre vários copos, pois consegui apreciar a procura, escolheu o mais limpo. O copo mais limpo que levou a que a "alemã" arregalasse os olhos tal era a gordura que envolvia o mesmo, muito por culpa de uma má lavagem. Não era novo para nós, despejei algum refrigerante e bebi, não seria de bom tom beber pela garrafa. A conversa continuou e ficámos a saber o destino, à data, da irmã e do irmão daquele indivíduo... Dos sobrinhos... Da restante família... Ficámos a conhecer os rostos e aqueles olhares, apesar de tudo... Felizes. Estarão ainda vivos?

 

Entrou um checo, conhecido já do proprietário do estabelecimento. Cumprimentou, assistiu um pocuco à nossa conversa, sorriu... Sorriu bastante e em checo disse algo como "volto mais tarde". Deve ter pensado que eu era árabe, sobretudo porque entrou no momento em que eu dizia também ter esse sangue e orgulhar-me desta mescla de culturas em que nasci e cujos meus genes não me deixam mentir.

 

Como bom árabe, ofereceu-se para nos fazer um café. Café de cafeteira, como tem de ser entre seres que partilham esse "maldito" sangue! O café veio prolongar a conversa e permitir que numa cidade Património da Humanidade, mais que construções e um sem número de património material, o verdadeiro Património da Humanidade, indestrutível e rico estava ali, naquelas pessoas que conversavam. Gostámos da cidade, mas sem dúvida que a grande recordação que de lá temos foram estes momentos onde o frio da Boémia foi vencido pelo calor de uma boa conversa, de uma amizade, do conforto da troca de laços. O aroma de um café que não era brilhante mas carregado de amizade, perseguiu-nos até ao adormecer.

 

Chegada a hora de pagar, indaguei do valor do café, erro crasso e que já não deveria permitir a mim mesmo. Reparei que o sírio quase que ficou ofendido, tendo eu, sido obrigado a dizer que estava demasiado ocidentalizado e ele que me perdoasse o facto de me ter deixado levar por aquela lógica. Quebrámos o gelo, e antes de sair, entre um forte abraço, olhámos mais uma vez aquelas fotografias e o sírio... Queríamos levar aquele momento connosco e sem qualquer suporte digital afinal, dia menos dia iria desaparecer - queríamos registar aquele acontecimento no melhor disco rígido do mundo e assim o fizemos.

 

Não vou falar dos ataques dos últimos dias, mas não posso deixar a revolta que sinto ao, num dos países que mais me apaixona naquela região, a par do Líbano, ver e ouvir o que vejo. Revolta-me que tenha de assistir a uma matança que ninguém percebe muito o porquê, que tenha de assistir a um ditador que não hesita um segundo em matar todo o seu povo, seja de que forma for! Sugiro, aliás, que se matem todos os sírios e que fique Assad e a sua legião a governarem um país vazio e que não alimente as vidas de luxo que este e a sua família não hesitam em ostentar... Tudo isto enquanto cartuxos de gás matam o seu povo e tornam, como dizia Gabriel Garcia Márquez,  invisíveis todos aqueles que morrem, porque é esse uma das faces da fatalidade.

 

Entretanto, em Český  Krumlov, espero que o sírio continue a mostrar as fotografias da família com um sorriso nos lábios e um brilho nos olhos e não com as lágrimas de quem já só pode contemplar aqueles rostos numa fotografia.

 

 

 

 

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