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O Pré-Românico Asturiano e Oviedo...

por Robinson Kanes, em 11.09.19

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Os Picos da Europa começam a ficar para trás. Numa gasolineira, de uma marca portuguesa, e após os meus comentários, dizem que todos os portugueses se queixam do preço dos combustíveis em Portugal sendo que, em Espanha, os impostos sobre os produtos pretrolíferos também são elevados.

Carro atestado, e à semelhança do que havia pensado, o caminho até Oviedo não foi directo. É preciso viajar na História, é preciso subir mais montanhas e ir ao encontro de igrejas quase milenares e admirar o pré-românico asturiano classificado como Património da Humanidade!

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Vindos dos Picos da Europa, começamos por aquela que nos suscita, talvez maior interesse e nos obriga a um desvio, a Ermida de Santa Cristina de Lena, no vale do "Río Lena" e cuja data de construção aponta para o ano de 850! Podemos chamar desvio ao facto de termos acedido a esta ermida via Parque Natural de las Ubinãs - La Mesa - Esta gente não consegue deixar os montes da cordilheira cantábrica, enfim... Chegados à Ermida, admiramos toda aquele pequeno monumento mas que respira história, muita história...

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Tantos séculos, anos e dias, continua imponente naquela colina apenas acordada pelo ruído da via rápida que fica uns quilómetros abaixo. Conversamos com os locais, percebemos que metemos o carro onde não deviamos mas nem isso tira a simpatia àquelas gentes... Imaginamos aquela Ermida noutras épocas, sem estradas e apenas com o pueblo atrás de si. Quantos não terão perdido aqui horas a admirar a paisagem que se abre ao longo das montanhas e que este pitoresco ponto permite contemplar com agradável decoro...

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É hora de partir, além disso já se comia qualquer coisa... Como tinhamos a noção de que nos poderíamos "perder" pelo parque natural viemos prevenidos... Enlatados, fruta e muita água. Não fomos a restaurantes glamourosos e entregámo-nos ao glamour de "las Ubiñas". 

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Agora sim, seguimos em direcção a Oviedo onde, num dos montes que ladeia a cidade, encontramos mais dois magnificos monumentos pré-românicos e também Património da Humanidade: a "Iglesia de San Miguel de Lillo" e o "Palacio Ramiro", conhecido como "Santa María del Naranco". Mais visitados, estes dois monumentos são duas das principais atracções da cidade! Olham para Uviéu bem lá de cima e são obras-primas da arquitectura que, de uma forma simples e pequena fascinam todos aqueles que os visitam. Por ali nos quedamos um pouco. É preciso digerir, com calma... Ainda nos espera o centro de Oviedo e toda a azáfama da capital do principado.

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Oviedo é a típica cidade antiga e até algo escura... Mas estamos em Espanha, e mesmo a norte, a animação é constante, as ruas falam, vivem... Como não poderia deixar de ser, procuramos deixar o carro perto da "Camilo de Blas", uma pastelaria fantástica, daquelas bem antigas e onde nos acompanha o café dois apetecíveis carbayones. Tenho de admitir, contudo, que o melhor momento em termos de comidas e bebidas foi ao balcão de uma bela tasca perto da catedral.

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Carregados de açúcar, nada como começar pela Catedral. É impossível ignorar este monumento que se localiza na "Plaza de Alfonso II", especialmente a sua torre gótica! Como seria de esperar, encontramos muitos peregrinos (é um ponto de passagem para quem faz este Caminho de Santiago"). O interior é belo, austero como gostamos, e a "Cámara Santa" um dos seus maiores atractivos, além das jóias e das reliquias que ignoramos - admito que é algo que não nos fascina.

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Caminhamos pela zona, esta cidade medieval com todas as suas torres tornam-na apetecível para nós. Faz-se, contudo, sentir algum frio, é preciso aquecer, mas na rua... Qual a melhor escolha? A "Plaza del Fontán" que deve o seu nome ao facto de aí ter existido uma pequena lagoa! É aí que também se localiza o mercado e lojas com coisas bem interessantes, sobretudo para quem gosta de comer... É um local extremamente movimentado, não fosse também uma forte zona de comércio e próxima da "Plaza del Ayuntamiento" e da "Plaza de Abastos". É por aqui que se sente Oviedo, é por aqui que queremos estar...

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A visita ao "Museo de Bellas Artes" é obrigatória, a paixão pela arte obriga-nos. Somos obrigados também a correr até ao "Teatro Campoamor" no sentido de saber se há espectáculo. Nunca percebemos bem porquê, mas sempre quisemos pisar este espaço.

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No entanto, Oviedo é feito das caminhadas pelo seu "casco histórico", é passar pela Universidade e terminar para umas compras na "Calle Uría", ligeiramente mais moderna. É a cidade antiga por excelência, é a capital do "reino"... Despedimo-nos do "interior", o dia seguinte já será junto ao mar, ainda nas Astúrias e numa cidade que, estranhamente, nos conquistou logo após a primeira visita.

 

Mais informação:

Valladolid: Primeiro Estranha-se... Depois Entranha-se...

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Novo dia e mais um pequeno-almoço em Labra - bem rico e o cachopo que ainda por cá continua a dar forças, sem esquecer as vieiras. Não falei das vieiras à Asturiana, mas são qualquer coisa... Casa María é o nome do restaurante, mesmo à beira da AS-114. Simpatia e uma comida divinal. 

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Mas hoje é dia de colmatar algumas falhas, nomeadamente ir até Tielves e Sotres (Monte Camba) - recomendação dos locais, os melhores conselheiros. Desta vez, deixamos Bulnes... Gostamos de Bulnes quando alcançado pelo caminho da montanha - gastar uma fortuna num transporte sem qualquer vista não nos convence (a nós e a todos os asturianos com quem falámos). A estrada que liga a Tielves e sobretudo a Sotres é por si só um verdadeiro monumento. Sotres, a 1050 m de altitude, é uma das aldeias mais altas das Astúrias e é também aí que o Cabrales tem um dos seus pontos de referência - só isso já justifica a ida, sobretudo depois de não resistirmos ao Cabrales entretando comprado em Cangas de Onìs. Gostamos de Sotres, gostamos daquele vale enorme que nos acompanha e nos transporta para uma espécie de alpes espanhóis... É algo único, e onde as montanhas falam, as pedras têm vida, e isso não conseguimos encontrar nos Alpes que ficam mais ao centro da Europa.

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Em Sotres caminhar é a palavra de ordem, caminhar e ter preparação para... Se é para caminhar, então que amemos efectivamente os Picos da Europa e possamos ir conversando com cada pedra, com cada brisa, caso contrário... Será uma simples caminhada. Em Sotres existe uma queijaria... Mais queijo Cabrales? Por favor, Robinson...

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É hora de voltar e percorrer caminhos e vales apaixonantes, é tempo de parar em Tielves e fechar os olhos - apertamos as mãos e deixamo-nos descair um pouco na cadeira. De olhos fechados, regressamos aos Lagos de Covadonga e àquela caminhada. É tempo de nos recordarmos do objectivo principal da visita ao local, avistar a águia-imperial-ibérica... Fantástico... Parece que se juntaram de propósito em voos rasgados ou simplesmente a planear para nos agradecerem a nossa presença. Ver aqueles gigantes dos ares é qualquer coisa. Tão perto que praticamente são dispensados os binóculos. Não pensamos em fotografias, queremos simplesmente assistir ao espectáculo e voar. Aquando da partida, pode ser que se tire qualquer coisa.

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A preservação desta ave de presa (espécie vulnerável e protegida) está a ter grande sucesso em Espanha, infelizmente em Portugal, nem por isso. Voamos, deixamo-nos voar... Acho que reparam no pin que transporto no exterior da mochila: uma águia-imperial-ibérica! Começam a voar por cima de nós e é mágico. Uma forte neblina, em segundos, abate-se sobre nós, ficamos parados na direcção do ponto de referência para onde queremos ir. No entanto, e estamos nas Astúrias, a neblina desaparece à velocidade que chegou e todo aquele espectáculo revela-se diante de nós, mais uma vez. A experiência repete-se várias vezes... Enchemos a barriga, mas não queremos voltar... Começa a chover, o frio tende a ser mais gelado mas nada nos demove... 

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Acordamos... Ainda queremos parar em Poncebos e fazemo-nos ao caminho... É hora de descansar um pouco e decidir onde jantar, o que, nas Astúrias, não é propriamente a tarefa mais complicada. Resistimos à Fabada e amanhã é dia de deixar a alta montanha e entrarmos em Uviéu (asturiano), ou se preferirem, Oviedo... Mas, como sempre, temos a sensação que o caminho não será assim tão linear.

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Chega a noite, e não descansamos como os pastores, mas o nosso anfitrião consegue que nos sintamos como verdadeiros asturianos no aconchego do seu pequeno hotel.

 

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Astúrias: de Labra para a Ruta del Cares.

por Robinson Kanes, em 05.09.19

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Em Labra o amanhecer é surpreendente. Durante a noite nevou nas montanhas e dpois de um pôr do sol com cores únicas, a alvorada é preenchida com a névoa a desvanecer deixando as montanhas com os cumes pintados de branco.

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Depois de um pequeno-almoço bem composto, pois o dia prometia: o objectivo era apreciar o "Picu Urriellu", mais conhecido por "Naranjo de Bulnes". O caminho torna-se "duro" de Labra a Poncebos e as paragens são constantes... Para-se, caminha-se, volta-se ao carro e mais meia dúzia de quilómetros um novo ritual. Começar cedo é fundamental, sobretudo se, nos planos, estiver a "Ruta del Cares".

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E eis que, entre o nevoeiro, a montanha mostra-se! O primeiro objectivo fica concluído, não "escalámos" a montanha, não era essa a pretensão - mais que isso queríamos ver aquele monumento de pouco mais de 2500 m a mostra-se, entre outras montanhas, aos nossos olhos - admirável!

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Mas o "melhor" do dia está para vir, nomeadamente os 24 km entre Poncebos e Caín de Valdeón, sempre com o rio Cares a dividir os dois desfiladeiros. Começamos em Poncebos (Astúrias) e contamos terminar em Caín (Castilla y León). A "Garganta Divina" permite-nos hoje que a percorramos devido ao acesso criado em 1950, acesso que permitiu o acesso para manutenção do canal de água entre Caín e Poncebos - canal esse que desde o primeiro quartel do século XX já estava em funcionamento. 

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É esse o percurso que, embora em altitude, raramente obriga a grandes subidas, excepto nos primeiros 2/3 km (direcção Poncebos - Caín). É um facto que estamos perante um percurso que tende a ser considerado de baixo risco, embora não seja essa a nossa opinião - o risco está sempre iminente, estamos a uma altitude elevada e além do caminho ser estreito não existe qualquer protecção (é assim que tem de ser). Já foram registados muitos casos de quedas (com mortos), sem esquecer que a travessia no Inverno tende a ser perigosa, devido ao gelo/frio e ao perigo de queda de pedras. O Verão pode ser mais calmo e é muito aconselhado por quem já visitou e fala do local, mas em dias muito quentes, quem não estiver preparado e hidratado pode meter-se em sarilhos. No Verão a queda de pedras é um risco também, sobretudo devido às cabras da montanha.

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A tudo isto, temos de juntar o número de pessoas que, novamente no Verão, pois consta que é bastante elevado, aumenta o risco de nos encontrármos com os peritos do trekking instagrameiro que, com roupas compradas horas antes para o look desportivo e aventureiro, arriscam demasiado.

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Questões logísticas à parte, entramos numa nova dimensão... Num local onde somos nós e a natureza! A beleza da montanha, o rio lá em baixo e por vezes os canais a correrem lado-a-lado connosco, é simplesmente apaixonante. É a oportunidade de vermos e contactarmos com as cabras da montanha em autêntico trapézio, o uivo dos lobos e um pastor a correr montanha acima preocupado com o rebanho.

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É calcorrear um caminho que já perto de Caín nos oferece a oportunidade de molhar o rosto nas águas frias do Cares, é passar dentro das rochas, é parar e sentir a humidade e os cheiros da terra e dos minerais. 

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A chegada a Caín é, mais do que um alívio, é um objectivo cumprido e a oportunidade de repor energias! Atacamos os enlatados, os frutos secos, os ovos cozidos e a água. No entanto, Caín, outrora terra de pastores, tem agora no turismo o seu sustento, pelo que tem alguns pequenos cafés e restaurantes - não resistimos a ir comprar pão e queijo cabrales para nos alimentarem para o regresso! Enquanto almoçamos, partilhamos o espaço junto ao cemitério com caminhantes franceses: queijo, vinho de Bordéus, enchidos franceses, falamos muito de Saint-Malo e da Bretanha - temos a a típica imagem de portugueses e franceses à mesa - não aceitamos o vinho, não ajuda ao caminho.

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Ao nosso lado, a Igreja e o cemitério oferecem-nos uma vista única sobre os picos e aproveitamos para prestar homenagem àqueles que morreram a escalar os mesmos. É tempo de silêncio que é interrompido com um "merci a vous, au revoir". Tomamos um café, um espaço com um anfitrião muito simpático e que nos obrigou a colocar no lugar um grupo de portugueses (professores de velha guarda em época de correção de exames) cujo complexo de inferioridade estava a reflectir-se com algum desrespeito no simpático proprietário. Agora partimos com um "venga, hasta luego" e fazemo-nos ao caminho. Os professores ficaram a pensar que éramos espanhóis...

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Mais uma oportunidade para nos maravilharmos... Não queremos deixar aquele local e só já pensamos em 2020 para percorrer o que falta do Parque Natural de Somiedo, já a sudoeste de Oviedo. Pelo caminho novo encontro com portugueses, desta vez com um "Wait!Wait! Só sei dizer isto porra". A companheira de viagem desta senhora aliviava-se agora a meio do caminho! Mais um postal de bom português.

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Estamos a chegar e prestes a terminar mais um dia... Amanhã voltamos à montanha, agora é hora de ir tomar banho, comer um "Cachopo" e cair na cama que o dia seguinte promete ser longo...

 

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Imagens: Robinson Kanes

 

O mar começa a ficar para trás e eis que Cangas de Onís fica à nossa frente. Este destino, como aquele que nos espera imediatamente a seguir, são muito conhecidos do grande público, talvez por isso a nossa base tenha ficado ligeiramente distante daquela localidade, em Labra.

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Isto não impede que possamos beber uma sidra, comer queijo e continuar a provar o que de bom se faz nas Astúrias. Passamos obrigatoriamente pela ponte romana e tiramos uma fotografia, é rápido... Não somos adeptos de selfies ou de registarmos a nossa presença no local. Caminhamos por Cangas de Onís e como não poderia deixar de ser perdemo-nos em compras: queijo (Cabrales, Gamonéu e Beyos...), verdinas (e que boas ficam aquelas feijoadas de chocos e camarão), lentilhas pretas e um sem número de coisas que vamos metendo no saco! "La Barata", a loja com muito bom gosto onde adquirimos os produtos torna-se cara dado o volume nos sacos...

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"Marcamos" o jantar, deixamo-nos ir pelo cheiro a sidra e a vinho e aterramos na recomendação que o nosso anfitrião em Labra - a pequena e pistoreca aldeia asturiana a 8 quilómetros de Cangas - nos aconselhou. Ah! "Casa Pinin" ou também "El Polesu", como são conhecidos - o verdadeiro tasco que nós amámos e onde insistiam no nosso sotaque de Girona (mais uma vez). 

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Entretanto, e porque o dia é longo passamos pelo Santuário de Covadonga... Também é daquelas visitas obrigatórias, embora só pense em subir ao monte que se encontra em frente para poder observar as aves mais de perto e tentar imaginar quão dura terá sido a Batalha de Covadonga - a "primeira" vitória cristã após a invasão árabe por terras da "Hispânia" e onde os Islâmicos do Califado de Omíada saíram derrotados, para desespero de Munuza. O vencedor, o nobre visigodo Pelágio, ainda hoje é recordado ou não tivesse sido o primeiro rei do reino das Astúrias, na época com capital em Cangas de Onís. Deambulamos pela área, nota-se a presença de muitos turistas, o que é normal. Desejamos, contudo, que a maioria não pense em ir aos lagos. E não vai...

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Ainda pensamos em fazer o caminho a pé (24km ir e vir, sendo que metade é sempre a subir)... Sobra-nos "pouco" tempo e queremos aproveitar os altos ao máximo e poder explorar a fauna. Como não é possível a deslocação pelos nossos meios de transporte, apanhamos o único autocarro que faz a ligação ao topo das montanhas - a viagem não é barata, mas manobrar um veículo pesado daqueles, em tais condições, não é para todos. Além disso, aquilo com que nos deparamos não tem preço.

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As vistas, ao longo do caminho, são de cortar a respiração, não conseguimos estar quietos... A chegada e os lagos: o "Enol", o "La Ercina" e até o "El Bricial" (só visível em certas alturas do ano) lá estão à nossa espera. Não são lagos gigantes e grandiosos, todavia, são lagos bem no alto da montanha, desenhados para encaixar perfeitamente naquele monumento natural que é a Serra de Covadonga. No "Enol" a cerca de 1000m de altitude, dizem que no fundo das suas águas se encontra a virgem de Covadonga, que aí zela pelos seus bem lá no alto/fundo. O "La Ercina" fica a mais 100m de altitude e é mágico ver o gado nas margens do mesmo, cria uma imagem pitoresca e totalmente diferente daquela que já tivemos na Áustria, Suiça ou até mesmo Açores... Em cada local o seu encanto.

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Uma manada começa a afastar-se, seguimo-los com as devidas cautelas, é uma área altamente protegida. O gado sabe sempre para onde vai e informa-nos sempre dos melhores caminhos. Preparamo-nos para a aventura, pois entre raios de sol alterna um nevoeiro denso e uma chuva intensa, além disso começamos a caminhar para o interior da montanha e os visitantes dos lagos começam a ser uma mera miragem ao longe.

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Seguimos um caminho e encontramos um especialista em preservação de aves na sua pick-up. Interpela-nos e pergunta-nos do nosso interesse por aquelas bandas. Lembramos que estamos por lá para apreciar a montanha, para usufruir de um dos mais belos recantos da natureza, onde cada vento conta uma história antiga de pessoas, vivências entre montanhas e dos diálogos da natureza protagonizados pelo mar e pela montanha. No entanto, também revelamos o objectivo principal: observar a Águia Imperial Ibérica (Aquila adalberti) - adalberti em homenagem ao príncipe Adalberto da Baviera. 

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Existem em nós muitas paixões em termos de fauna na Ibéria e talvez as maiores sejam o Lobo Ibérico (Canis lupus signatus), a Águia Imperial Ibérica (Aquila adalberti) e a Garça Real (Ardea cinerea). Existem mais, os ursos, por exemplo, e um sem número de espécies que simplesmente nos fazem percorrer muitos e muitos quilómetros e até, enfim, envolvermo-nos em algumas "missões de salvamento".

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Mas esta águia, o gado e toda a fauna por alí encontrada será tema para outro artigo... Agora é tempo de dizer adeus ao nosso anfitrião da montanha, que nos disse ser um óptimo dia para observar as aves. Aproveitamos para recuperar forças e atacar as bananas e as maçãs. Alguma chuva, os rostos ficam molhados e acabamos por dispensar a água porque cada gota é um pouco das Astúrias, traz o cheiro do ar, da terra e da natureza... Queremos aproveitar e beber o que nos vem dos céus.

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Agora permitam-nos e deixem-nos ir em busca das rainhas dos céus...

 

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Imagens: Robinson Kanes

 

Esta é talvez uma das bandeiras deste espaço, quem já o vem seguindo vai percebendo a afinidade que por aqui se tem com o mesmo e a forma como se tem lutado para que o novo aeroporto de Lisboa não destrua um dos mais belos santuários naturais do Mundo.

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O Tejo é, cada vez mais, um rio em vias de extinção: em Espanha soam os alarmes (ver o Tejo em Toledo  mete dó) e em Portugal ignora-se, e até se fomenta (não punir é o mesmo que aceitar) a sua poluição que vem desde Ródão e Fratel e segue por todo o rio até às descargas, já em Lisboa - sem esquecer toda a movimentação de navios que agora ganha novo ritmo com o terminal de cruzeiros - é sempre a poluir.

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O Tejo é um dos nossos maiores bens, o Estuário ainda mais, mas insistimos em obras faraónicas, em investir mais dinheiro e continuar a alimentar interesses de meia-dúzia em prol da destruição de outros. Andamos tão tristes com a Amazónia (e o que aí vem não vai ser agradável, de facto) mas andamos a esquecer os nossos incêndios e um dos estuários mais belos do Mundo. 

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É triste perceber que a grande maioria dos lisboetas não conhece este Estuário! Ainda recentemente me desloquei com um "alfacinha" ao Seixal (nascido, criado e ainda com casa bem no coração da cidade) que, ao chegar, perto da Câmara Municipal e num ponto mais alto, ficou deslumbrado com aquela baía e parecia um tonto a tirar fotografias: "mas isto é lindo, não conhecia... Isto é lindo!".

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Enquanto pensamos no novo aerporto, numa das mais belas praias da região de Lisboa, em Alcochete, os avisos desaconselham os banhos... O que se fez para reverter esta situação ao longo dos anos? Nada! O que se tem feito para combater a pesca ilegal de bivalves e a existência de autênticas máfias no rio? Tudo acontece sob o olhar da GNR e da Polícia Marítima que parecem estar de mão atadas. Nada se faz ou ficamo-nos por escassas intervenções - apreende-se uma embarcação, surgem logo duas ou três! Entretanto, a autarquia continua a investir em touradas, com o consentimento dos seus habitantes, é preciso ter isso em conta.

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Ainda recentemente se falou de um problema com aves no aeroporto de Sá Carneiro, que obrigou a uma aterragem de emergência, foi em Portugal. No entanto, pouco se falou do voo da Ural Airlines que saiu de Moscovo e que, após a descolagem, viu os reactores serem destruídos por aves obrigando a uma aterragem num campo de milho! Não utilizarei a palvra milagre, porque é dar os louros ao que não existe e esquecer o trabalho dos pilotos! Aterrar um avião acabado de descolar, carregado de combustível, num campo de milho e sem incendiar ou provocar mortos é uma proeza daquelas! Não terão os holofotes dos pilotos do Rio Hudson, Hollywood e a CNN não ficam em Moscovo.

 

Uma nota final para a Amazónia: a Amazónia é um património do mundo, a Amazónia tem vindo a ser destruída ao longo de décadas e só agora o mundo acordou para esta realidade! Porquê? Dá "likes"? O efeito rebanho afinal é mesmo uma realidade? Porque todos querem seguir as celebridades? Quando é que nos lembramos que, embora influenciando pela positiva, não raras vezes estamos perante um "show off" que se esgota em horas e os resultados serão nulos! Quando é que agiremos por nós? Quando é que o mundo viola pela "primeira vez" uma lei internacional em prol do bem e faz questão de dizer que a Amazónia é de todos?

 

Deixo este gráfico e uma ligação com mais informações para percebermos que toda esta calamidade não é só "obra de Bolsonaro" (embora também este esteja a falhar redondamente), como parece ser o pensamento geral! Um olhar mais atento vai descobrir que os anos anteriores à eleição deste foram negros para a floresta! No entanto, a culpa maior é de todos nós que consumimos produtos oriundos desta floresta e que nada fazemos para mudar o estado das coisas! Além disso, a floresta amazónica não compreende só o Brasil!

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Fonte: https://rainforests.mongabay.com/amazon/amazon_destruction.html

Até lá, fiquemos sentados a assistir e a aguardar pelos voos baratos que nos levarão de Lisboa para outros destinos igualmente com voos baratos a troco de um investimento que nos vai sair muito caro!

 

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Ribadesella e uma Praia Asturiana...

por Robinson Kanes, em 19.08.19

ribadesella_asturias.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A vida é feita, bem o sabemos, de pequenos nadas que é o que mais conta para o nada que somos no fácil e correntio.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente III"

 

As montanhas estão cada vez mais perto, aliás, em Llanes já se mostravam na sua supremacia terrestre suprema mas, e embora uma paixão pela altitude e pelos mistérios dos montes, custa-nos deixar o mar... E é por isso que seguimos o "Sella" até Ribadesella!

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Custa-nos deixar o forte aroma que vem do Cantábrico e talvez por isso fiquemos presos a Ribadesella, mais um pequeno porto, mais um pequeno estuário, mais um encontro entre os pálidos rios da montanha e o mar em toda a sua força - até "esquecemos" o Património da Humanidade, a "Cueva de Tito Bustillo" e nos deixamos encantar por um passeio na marginal junto ao rio (o "Sella"). Caminhamos até onde este beija o mar, uma caminhada na areia ("Playa de Santa Marina") onde também partilhamos um beijo celebrando esse encontro e onde o vento faz convidado.

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Ribadesella é aquele local de veraneio com cariz de norte da Europa, afinal os Picos da Europa estão mesmo ali, Cangas de Onis (uma das portas de entrada) é bem perto... As casas demonstram um apetite das famílias pelo local e também da própria aristocracia, afinal estamos num Principado onde a comunhão de um povo de forte e nobre raça se une a uma aristocracia secular.

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Mais uma sidra? Ainda é cedo e a tortilla de Llanes ainda faz "estragos" no estômago. Contemplemos o mar e aproveitemos para percorrer a cidade, junto às docas, cheira a peixe fresco que trocou as caixas de madeira pela esferovite...

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Despedimo-nos de Ribadesella com um até já, até porque temos curiosidade com o pôr-do-sol. Mais uns quilómetros, mais uma alteração de planos, se é que os mesmos existem... Não resistimos, contudo, e queremos terminar a manhã junto ao mar... Acabamos junto a uma praia, uma praia asturiana com uma "Estrella Galicia" na mão e um sorriso a cada gole enquanto alguém, ao longe... tal como nós, conversa com o mar e deste recebe em troca toda a sua venustidade. Recordo Michael Nyman, aliás, Michael Nyman pelas mãos de Valentina Lisitsa com "Time Lapse" - banda sonora do filme "A Zed & Two Noughts". Porquê? Não sei... 

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O Estuário do Tejo...

por Robinson Kanes, em 09.08.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

O Estuário do Tejo... A Reserva Natural do Estuário do Tejo, esse espaço em vias de extinção, uma extinção há muito anunciada, ou não fosse o estado de abandono da mesma por parte das autoridades nacionais. Tanto se fala da preocupação com o ambiente, mas é mesmo às portas da (e na própria) capital que se assiste ao apagar de um património que, depois de destruído, será irrecuperável. O "senhor Ryanair" é que já deve estar muito satisfeito e a preparar a sua espingarda para começar a caçada aos pássaros.

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Mas o que está em risco? O que é que podemos perder com o novo aeroporto e a construção desmedida que está a tomar conta desta zona que, supostamente, deveria ser protegida? Onde estão os ambientalistas? Onde estão os partidos da natureza? Onde está a promessa de cuidar do ambiente e do nosso património único? Já deixaram que os incêndios destruissem o nosso país, permitiram que industriais sem escrúpulos destruissem os nossos rios, só falta acabarem com este estuário!

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Quem toma conta desta espécie que, por sinal, é protegida - a Garça Real (Ardea cinerea)?

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E esta "passarada"? Vamos destruir umas das principais rotas migratórias do Mundo? Este é um espectáculo singular na Primavera e no Outuno que vai deixar de existir!

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E o corvo-marinho (Phalacrocorax carbo), o terror do peixe na maré baixa. Quando em bando é um espectáculo digno de ser ver nas margens do Tejo. Um autêntico ataque aéreo digno de registo!

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E os flamingos do Tejo (Phoenicopterus roseus) os autóctenes e os migratórios? Andamos todos vestidos à flamingos, com bóias e vestidos pirosos mas ignoramos a sua destruição? Mas que apropriação é esta ou já encaramos os mesmos como mera peça de decoração?

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Será que uns voos mais baratos valem a destruição de todo este espaço? Valem a construção de mais uma infraestrutura gigante, de mais uma ponte e de todo um desastre ambiental sem precedentes? E quem estamos a satisfazer a pretexto do desenvolvimento do país? Os interesses da AHRESP? Dos novos empresários do turismo que desconhecem o conceito de turismo sustentável? De políticos que nunca responderam por estes crimes? Temos um aeroporto em Beja a apanhar pó! 

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Já percebemos que o Governo actual (e muitos dos anteriores) falharam em toda a medida na defesa dos interesses do cidadão comum e do país... Por quanto tempo mais vamos deixar que estes crimes continuem sem pelo menos lutarmos por aquilo que é nosso para sempre e não somente por legislaturas de 4 anos? E porque não estamos também a ter em conta a subida no nível dos mares e os impactes que isso terá numa zona como aquela onde querem localizar o novo aeroporto?

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Defendam o pouco que ainda resta de bom no vosso país! 

 

P.S.: há pouco mais dois dias, um avião da United aterrou de emergência devido ao embate com uma ave. A situação ocorreu no Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Imaginem no Montijo (que não é só Montijo, é o Seixal, Barreiro, Almada, Lisboa, Loures, Vila Franca de Xira, Palmela, Moita, Benavente, Alcochete - e isto são apenas sedes de concelho).

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Playlist para um dia de Verão Pós-Laboral...

por Robinson Kanes, em 06.08.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

Já lá vão uns tempos que não partilho um pouco de mim... Por norma, um pouco através da música e daquilo que nos transporta para outras dimensões do pensamento... Sem sair da realidade...

Um fim de tarde de Agosto... A varanda... Uma cadeira e a vista para lá, entre as duas árvores que sombreiam os melros no solo e acolhem o rouxinol que simplesmente fez um contrato com alguma editora e nos dá música o dia inteiro. 

Mas o que se ouve enquanto o copo com vinho branco já perde a sua frescura e pede um gole rápido para voltar a receber a frescura de um néctar alentejano?

 

Começo com a Andrew Bird, a noite ainda não chegou, talvez seja uma ótima transição para a azáfama de um dia que parecia não ter fim... Com esta música ficamos com a sensação de que o mesmo tende a não terminar, efectivamente... Mas terminamos numa paz onde a esperança reina, sobretudo em tempos conturbados. Se puderem, visitem a letra desta música, "Bloodless".

"Há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois", quem o disse foi Vergílio Ferreira na "sua" "Conta Corrente IV"... Michael Kiwanuka com "Love and Hate"

Começo a perceber que o fim de tarde não será de grandes saltos... Será do vinho? Fresco, mas tranquilo na forma como nos acalma... "I Go to Sleep" dos "The Pretenders". Ainda é cedo para recolher a Morfeu mas nunca é cedo para ouvir esta música, nunca é cedo para nos deixarmos adormecer e acordar na manhã seguinte... Escutem a letra...

Continuo perdido em décadas distantes, mas o sol, a preparar o seu caminho até desaparecer faz-nos lembrar que, de facto, "Always the Sun" é que nos torna melhores... Não o astro, mas talvez aquele sol que podemos ter em cada um de nós. Fica o tema maior dos "The Stranglers".

O meio da lista deverá ser uma transição e a escolha passa por uma daquelas músicas que associo sempre a um fim de tarde na praia, antes de recolher e deixar que a noite se prolongue enquanto, sentados, entre amigos, vamos deixando que a espuma do mar, mesmo ali à frente da esplanada seja testemunha de momentos que, por certo, um dia vamos recordar certamente... Kings of Convenience com "Misread". Sabe bem dançar esta música, mesmo com os pés cravejados de bagos de areia.

O Verão, vida... Paixões e saudades, mesmo que os pés estejam sempre lá. Sons de Espanha, de Barcelona... E música para apreciar o vinho a rodar no copo numa dança frenética com o vidro!  Jarabe de Palo, com "La Flaca"...

Por un beso de la flaca daría lo que fuera
Por un beso de ella, aunque sólo uno fuera
Por un beso de la flaca daría lo que fuera
Por un beso de ella aunque sólo uno fuera
Aunque sólo uno fuera

"Seremos amanhã uma grande noite. E numa noite espessa é mais visível um fósforo aceso que um grande monumento às escuras". Novamente Vergílio Ferreira e "a" Conta Corrente IV... Obrigatórios até porque estão em cima da mesa, lá atrás... O mote para esta música e para continuar em Espanha com os Vetusta Morla e "Golpe Maestro".

De regresso à língua inglesa, trago para junto dos ouvidos os James. "Born of Frustration" é talvez uma das músicas mais conhecidas de uma banda que apaixona e sobreviveu a um certo hype que abundou há alguns anos e onde só algumas bandas conseguiram perpetuar a sua música. O copo abanou, é certo... Por pouco não se entornou o precioso néctar!

Para que não digam que não escolho música portuguesa e porque a noite mostra agora todo o seu negro contrastante com as estrelas e as luzes da cidade, "Nightfalls" dos "Best Youth"... Eu sei, eles não cantam em português, mas devo admitir que não é uma língua que me apaixone em termos de música. Os Best Youth são talvez uma das melhores bandas da actualidade e que poderiam estar noutros caminhos, bem mais altos...

Tenho de fazer isto acabar em grande... Talvez acabe com a banda que me acompanhou ontem durante uma boa parte da manhã . e assim ficamos com o mote para ainda aproveitar esta noite que promete ser quente... Tame Impala com um dos seus grandes hits, "Let it Happen". Move that body e dia 09 deste mês lá estaremos em Helsínquia no "Flow Festival"...

Apreciem o fim do dia...

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Atravessar a verde Cantábria!

por Robinson Kanes, em 01.08.19

san_vicente_de_la_barquera.jpgCréditos: Robinson Kanes e GC

 

 

Castilla y León fica para trás e com ela também a "Provincia de Burgos", entramos agora na Cantábria. É estranho sentir uma certa saudade da aridez de Castilla y León, ou até da Extremadura... Por vezes, temos a sensação que estamos numa paisagem lunar, sobretudo na segunda região. Naquelas terras há algo que me encanta - o cheiro daqueles solos secos, aquele calor que nos faz suplicar por uma pequena brisa fresca. Isso consegue ser fascinante, sobretudo quando matamos a sede com águas do "Valle del Jerte" e tragamos uma fatia de presunto ibérico enquanto admiramos o quadro criado pelo horizonte!

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A Cantábria fecha as portas a essa Espanha e abre-nos um novo mundo, um mundo que desejamos percorrer e onde o verde reina, onde tudo é verde - já pareço Miguel Torga a falar do Minho, onde até o vinho "era" verde. Mas na verdade, entramos numa outra Espanha, num outro mundo onde a natureza é tão pura, em muitos casos praticamente intacta. Sabe-nos bem parar, mesmo em terras mais pequenas como Mataporquera ou Retortillo e ficar a admirar as montanhas junto à igreja! 

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Sabe-nos bem desviar caminho e percorrer os vales dos rios "Saja" e "Nansa", ou os chamados "Valles Altos del Nansa y Saja" - apetece-nos "beber" aquelas águas, interiorizar aqueles picos, inundar o nosso nariz de aromas contidos num mundo ideal e perfeito! E os ursos! Os ursos da Cantábria... Os ursos e toda aquela fauna de lobos, águias imperiais e tantos outros bichos! Genial... É fascinante poder observar tantas águias imperiais  ibéricas (aquila adalberti). Espécie em perigo... São imponentes e belas, mesmo debaixo de um tempo que nem sempre é convidativo, não conseguimos abandonar as montanhas: o espectáculo é único...

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É bom percorrer aquelas estradas, seja via A-67 ou até via N-623! É simplesmente belo... Não poderia ser de outra forma quando se está entre as Astúrias e o País Basco... Temas para outras conversas...

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A Cantábria é também desenvolvimento, e a sua grande cidade, Santander, disso é exemplo! Se a chegada até nos pode dar a sensação de estarmos a entrar numa zona muito industrializada, aí chegados, percebemos que as coisas são diferentes - cidade rica, com casas belíssimas e onde se encontra o "Palacio de la Magdalena", localizado na garbosa península com o mesmo nome! Santander apresenta as suas ruas, percorridas de gente distinta, sobretudo no seu centro perto da Catedral ("Santa María de la Asunción") e do ayutamiento.

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É agradável também percorrer toda a marginal (não esquecer os "Jardines de Piquío") e mergulhar nas "Playas de los Peligros e de la Magdalena". No entanto, é no Sardinero e na "playa" com o mesmo nome que gostamos de estar... É lá que temos boas recordações...

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Ir ao "Mercado de la Esperanza" é obrigatório, como é obrigatório percorrer os "Jardines de la Pereda" e toda aquela promenade... É obrigatório o Museu Marítimo e também o "Centro Botín". No entanto, é mesmo nas ruas que se sente a cidade e porque não no "Barrio Pesquero" - esta paixão por portos, enfim...

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A Cantábria, comete o "erro" terrível de tirar uma percentagem do fascínio que temos quando chegamos às Astúrias. Porque de facto, é uma região única e singular, como o contrário... Se deixarmos as Astúrias e entrarmos na Cantábria, percebemos que afinal, toda aquela falta de fôlego está para continuar...

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Sentemo-nos e apreciemos a "Bahía de Santander"... Até porque ao longe temos o "Estuário del Miera" e a "Playa de Somo"...

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Pela A62, de Palencia a Burgos.

por Robinson Kanes, em 25.07.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Valladolid fica para trás... Mas a A62, uma das estradas dos camionistas portugueses e dos emigrantes para a Europa segue até Burgos, onde não é só a Catedral nos apaixona...

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Entre estas duas cidades fica uma outra cidade que não é menos interessante: um ponto de paragem obrigatório para quem acorda em Valladolid e volta a percorrer o alcatrão de Castilla y León, por exemplo, até Burgos. Palencia, a cidade banhada pelo Carrión (onde vai encontrar bem perto o Pisuerga) e cujas margens podem ser um ótimo ponto de partida para abrir o apetite.

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Não estamos numa cidade de luxos e ainda bem, uma cidade típica da região e cujos cafés são simples e ótimos para iniciar o dia com uma torrada com doce de tomate e uma tortilla - ao balcão, como tem de ser e mesmo em frente ao "Mercado de Abastos de Palencia"! Por lá existe um café onde é necessário descer uns três degraus! Simples, nem sempre o mais limpo do mundo mas se assim não fosse, também não teria interesse. 

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Estômago refastelado e nada como pararmos para apreciar o edifício da "Deputación Provincial" (um edifício de 1914 que é, sem dúvida, o mais bonito da cidade) e o "Teatro Principal". Já com os olhos em fascínio, nada como voltar atrás pela "Calle Don Sancho" para apanharmos a mais típica rua da cidade, a "Calle Mayor Principal". Rua movimentada, com lojas, gente simpática pela manhã e cujo emblema da cidade ficará do lado direito, a "Plaza Mayor" onde se encontra o "Ayuntamiento" e a "Iglesia de San Francisco". O espaço é interessante, mais pequeno que muitas das "plazas mayores" que encontramos em Espanha. Mas, como qualquer "plaza mayor" é agradável e, estranhamento, até com um certo toque de nostalgia.

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Caminhamos agora em direcção ao rio. Espera-nos a "Catedral de San Antolín" que data do século XII e conta com uma cripta visigótica! Esta é talvez uma das catedrais mais underated de Espanha e que não fica atrás de outras catedrais góticas como, por exemplo, a de Reims! A visita é obrigatória, antes do passeio terminar na "Iglesia de San Miguel" -mais um interior gótico para deliciar os apaixonados por esta arquitectura. Chegamos à conclusão que também Palencia nos encanta.

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Está na hora de seguir caminho... Burgos ainda fica a cerca de 100km de distância e os camiões já dominam a A62, uma constante naquela estrada onde as matrículas portuguesas abundam nos pesados. 

 

Falar de Burgos não é nada de novo para a maioria, é só o local de uma das maiores e mais belas catedrais góticas do Mundo, a "Catedral de Santa María de Burgos" e obviamente classificada pela UNESCO. A arquitectura gótica está em todo o lado e ao entrar, rapidamente nos apercebemos da construção em cruz latina. É uma das mais belas catedrais do mundo e não visitar a mesma, estando em Burgos, é um verdadeiro crime! Crime é também não conhecer algum do património religioso da cidade, nomeadamente o "Monasterio de Santa María la Real de Las Huelgas" , imponente e austero edifício (e como isso nos encanta) e a "Cartuja de Miraflores". De fora também não pode ficar o castelo que bem merece a pena devido às vistas que proporciona sobre a cidade. Finalmente, uma visita à Universidade de Burgos pode ser também uma opção interessante para os apaixonados por arquitectura e história.

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No entanto, aquilo que nos apaixona em Burgos é percorrer o centro histórico! Nada como iniciar esse passeio romanesco perto das margens do Arlanzón, nomeadamente, junto ao "Arco de Santa Maria"! É aí que podemos percorrer o "Paseo del Espolón" - um caminho fantástico, com árvores minuciosamente podadas, cujo percurso e posterior entrada no centro histórico nos faz recordar Lyon! Não é propriamente parecido mas fica-se com tal sensação, vá-se lá saber porquê.

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Uma nota importante, andar pelo centro e não comer uma morcela de arroz ou beber uma Estrella Damm com uma um bocadillo de jamón é um crime contra "El Cid", não o irritem! Ao fundo da "Calle Laín Calvo" existe um espaço de venda de queijos e presuntos que faz umas sandes para fora que é qualquer coisa - não deixem é lá carteira pois arriscam-se a trazer sacos de queijos e jamón ibérico que vos vão aumentar as calorias de forma exponencial! É o aviso de alguém que já cometeu esse pecado em Burgos.

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É bom andar por Burgos, é bom apreciar os edifícios coloridos, beber un café con leche ou solo na "Plaza Mayor", percorrer o casco viejo junto ao Arlanzón e sair dos limites turísticos da cidade - e porque não de bicicleta? Percorrer Burgos cria-nos uma particular atracção na medida em que a Catedral, a main attraction, acaba por ser "só" mais um ponto de interesse nesta bonita cidade o que, só para termos uma ideia e a título de exemplo, já não acontece em Colónia. 

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E os ares da Cantábria já vão chegando e a frescura dos mesmos embrenha-se com a aridez de Castilla Y León numa dança que só nos faz adivinhar que, para norte em direcção a Santander as coisas só poderão melhorar!

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