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As Mamas da Liz Hurley...

por Robinson Kanes, em 03.02.21

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Créditos: yahoo.co.uk / Liz Hurley Instagram

 

E de repente, a chavasqueira toma conta deste espaço porque vamos falar de mamas! Sim, a Liz Hurley tem 55 anos e um corpo invejável onde se incluem as mamas, por sinal, igualmente atraentes. So what? Sim a Liz Hurley deverá ser das poucas britânicas realmente atraentes, so what? Sim, muitas mulheres gostariam de chegar aos 55 como a Liz Hurley. So what

 

Mas tendo em conta que o chavascal tem limites, não vou entrar na discussão das redes sociais nem das celebridades, seria perda de tempo, fico-me mesmo pela apreciação dos seios da senhora. Não obstante, quando alguém como a Liz Hurley expõe parcialmente os seus seios e é alvo de um coro de criticas, inclusive de um dos mais mediáticos gentlemen de bem, mas que não passa de um dos novos censores, Piers Morgan, começamos a pensar. Ninguém sabe muito bem o que é este cavalheiro e o que é que ainda faz nas manhãs de Inglaterra. Ninguém percebe como é que uma coisa destas escalou em importância enquanto o Mundo está transformado numa autêntica sarrafusca! Abrir noticiários com isto é...

 

Posto que, nesta sociedade aberta do politicamente correcto é mau dizer que a roupa é preta pois já estamos a ser racistas, é mau até falar de racismo em África porque não é cool (mas se for nos Estados Unidos já é ser activisita) e é mau levantar um braço ou até fazer humor, todos os cuidados são poucos... a bem da liberdade, dizem. Um humorista que hoje em dia queira fazer jus à profissão não vai longe, ou se vende à política e ao futebol (sim, o Ricardo Araújo Pereira, o Nogueira e tantos outros... acho que houve um que até se trocou todo a propósito de uma passagem de ano mais rebelde) e passa a ser um canal de débito político e ao sabor de quem governa , ou então procura uma nova profissão... Já não se pode ser engraçado que é o fim do mundo. Aliás, já nem assertivo, fará engraçado... Não fosse o humor e tanta coisa já seria esquecida, como se tem tentado que seja nas escolas.

 

Penso hoje que uma série como o Allo' Allo'! nunca teria sucesso, aliás, seria censurada logo à partida! Eu vejo o Allo' Allo', tenho todos os episódios e parto o caco a rir com os alemães, ou melhor, com os nazis! Com os nazis, com os franceses, com a Resistência, com os ingleses, com o fascista Bertorelli e claro com o fantástico agente da Gestapo, Herr Flick! Tornei-me numa besta? Não! Não tendo acompanhado aquando da estreia, vi em diferido e suscitou-me até bastante curiosidade acerca de alguns tópicos. Mas depois criticamos umas mamas atraentes praticamente escondidas... 

 

E enquanto reprovamos as mamas da Liz Hurley, vamos empreendendo o novo hype de uma sociedade decadente que dá demasiada importância a desocupados, perdão, influencers, e embarcou naquela coisa de liberdade feminina que se chama... menstruação! Aliás, vestir de branco e exibir uma enorme mancha vermelha é o que está a dar! Ainda bem que a maioria das mulheres não se revê nisto e outras até dizem que se a emancipação da mulher é isto mais vale voltar ao que era! Como as consigo entender... E sim, não sou mulher, mas posso falar sobre, poupem-me à superioridade moral. Não sou mulher e gosto de mulheres, preferencialmente atraentes como a Liz! Uau! Posso?

 

Enquanto criticamos a mamas da Liz Hurley, estamos a ir contra aquilo que queremos para as mulheres, enquanto criticamos a Liz Hurley mostramos quão hipócritas somos e como fazemos parte de um monte de ovelhas que coloca o bem-estar à frente do look at me. Enquanto enxovalhamos a Liz Hurley, e até achando que é creepy que tivesse sido o filho maior a fotografar, fechamos os olhos a tanta coisa e escavamos um buraco maior do que aquele que queremos tapar. 

 

Esta é a mesma hipocrisia que assistimos em movimentos e causas criadas no momento e ao sabor do like mas depois enfiamos a cabeça na areia porque ser homossexual em Aceh, Indonésia, pronto, como é bem longe, vá... uma 43 chibatadas no lombo e à frente de quem quiser ver até é uma coisa aceitável. A Indonésia é cool, tem Bali, pronto... Nem tudo é mau. Recordo-me do episódio hipócrita do "batom vs velhos bêbados"  e de facto, como tão bem retrata Houellebecq, de que "no mundo moderno (é) permitido trocar a toda a hora, ser bi, trans, zoófilo, sadomaso, mas (é) proibido ser velho". Basta pegar nesta observação e transportá-la para tantos episódios do quotidiano.

 

O vírus tem-nos roubado tanta coisa que é tão nossa, que é tão humana, que não nos roube as nossas liberdade e não nos coloque na cabeça a pedra da loucura de Bosch ou até da histeria colectiva que mais parece um pelourinho mas com gente ainda mais louca com tiques de altamente civilizada e desenvolvida. Realmente... como diz o povo, "o trabalho faz tanta falta"...

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Pedalar a Ecopista do Tâmega (1/2)

por Robinson Kanes, em 04.01.21

ecopista tamega.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A manhã estava quente, o mês de Agosto por terras do Baixo-Tâmega não costuma ser suave. Deixava Cabeceiras de Basto e estacionava as quatro rodas na Estação de Caminho-de-Ferro do Arco de Baúlhe, freguesia do mesmo concelho. Todavia, mesmo ali ao lado do Museu das Terras de Basto, uma interessante recuperação da estação ferroviária (encerrada em 1990). O objectivo deste dia era chegar a Amarante de duas rodas percorrendo a Ecopista do Tâmega, umas das mais belas e que mais me surpreendeu. Sobretudo porque tinha uma parte do percurso em terra batida por causa das obras da barragem.

 

A Linha do Tâmega, foi inicialmente denominada de Caminho de Ferro do Valle do Tâmega, ligava a estação de Livração (Marco de Canaveses), da Linha do Douro, à Estação de Arco de Baúlhe em Cabeceiras de Basto. Esta foi desactivada em 1990 o que veio a dar na actual ecopista que liga Amarante a Arco de Baúlhe (troço Livração-Amarante não está disponível).

 

Em 2007 as Autarquias envolvidas, a REFER (agora Infraestruturas de Portugal) e o Estado assinaram um protocolo que resultaria na construção da Ecopista da Linha do Tâmega, uma via que atravessa três Municípios ao longo de 50 quilómetros, Amarante, Celorico de Basto e Cabeceiras de Basto.

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Esta Ecopista percorre uma das mais belas linhas ferroviárias do país, permitindo o contacto directo com o património histórico e natural envolvente, nomeadamente as muitas aldeias e pontes que encontramos ao longo de toda a sua extensão, as paisagens verdejantes de inigualável beleza e oRio Tâmega, ex-líbris desta região. Este projecto, que se inclui na Rede Europeia de Vias Verdes, tem o seu início ao km 12,467, na cidade de Amarante, e término ao km 51,733 no Arco de Baúlhe.

 

Começo a etapa  que levaria 100 quilómetros. A extensão oficial do trajecto é de 39 km, ou seja, um percurso ida-e-volta pode ficar pelos 80/85 km.

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Começar no Arco é já um bom motivo para fazer o percurso, a beleza da estação é qualquer coisa e os primeiros quilómetros apetecem, com pequenas inclinações, nada de muito difícil até Vila Nune e com uma passagem por cima da A7 onde temos uma vista de montanha e vales com algumas passagens por zonas de vinha - o Tâmega não anda longe. A paragem seguinte é no Apeadeiro de Canedo, e aqui começamos a encontrar as belas estações que se mostravam ao longo da linha. Com esta imaginação sempre fértil, não consigo deixar de pensar no bulício, embora mais contido, que outrora caracterizara aquele lugar. Se há coisa que me deixa num misto de paixão e tristeza são as estações desactivadas. Devem ser dos locais com mais histórias para contar, não só pelos que frequentavam as mesmas mas também por aqueles que ainda lá viveram. Ainda tive oportunidade de conhecer alguns, sobretudo na zona Centro e as histórias são tantas. Talvez tema para um destes dias...

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Senhores passageiros, a próxima paragem será Mondim de Basto, passando ainda por Padredo. Não existirão passeios tão encantadores como este quando por um caminho lindíssimo em que pelo meio de hortas, pequenos lugares, alguns monumentos, temos sempre a companhia do Monte da Senhora de Graça, o que, para quem estiver de bicicleta ainda tem um gosto mais especial. É como se subíssemos o Monte de uma outra forma, é como que desta vez não fosse propriamente uma luta entre o homem e altitude, mas um passeio lado-a-lado. Simplesmente deslumbrante! É também no concelho de Mondim de Basto que encontramos algumas das mais interessantes vistas do percurso e a belíssima estação - além de outras, pensei em tempos num projecto para a mesma tal a beleza da infraestrutura bem como as vistas e a proximidade com as duas pontes que são um dos atractivos do percurso. Passaria dias inteiros à varanda da estação, com um Hendrick's e um livro a apreciar aquela paisagem.

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As Terras de Basto têm um encanto tão especial, sobretudo no território de Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena onde já não temos sequer noção de estar no Minho e nos sentimos transmontanos. Nas pessoas, quer pela sua austeridade e bravura quer pela simpatia e humildade, não há como negar o lado mais transmontano. Não falarei de gastronomia porque aí, de facto, é mais que notório e a passagem a Montalegre, por exemplo, nem se faz notar quando entramos em Salto

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Mondim atrasa-me as contas em termos de horário, além disso, esperam-me as iguarias da Dona Lídia no regresso a Cabeceiras, mais propriamente para os lados de Cavez. Vou chegar atrasado, tenho a certeza...

 

Continua...

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Forte de São Filipe... Um Retiro...

por Robinson Kanes, em 21.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Se me perguntarem qual um dos melhores spots em Portugal para passar um fim de tarde, não terei dúvidas em responder que esse lugar é o Forte de São Filipe em Setúbal.

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Foi pousada, esteve fechado e há poucos anos foi devolvido ao público. Estamos perante uma das melhores coisas que se fizeram em Setúbal nos últimos tempos. Durante um dia de semana, os finais de tarde, especialmente em dias quentes, adquirem uma sensação incomparável. Entre uma bebida e um passeio pelo espaço, é o local ideal para reflectir um pouco, para sofrer até e para contemplar o Sado, o Castelo de Palmela, a cidade de Setúbal e claro, Tróia e todo um oceano. A capela é também um espaço de obrigatória visita, aliás, das mais bonitas que podemos visitar no nosso país, o verdadeiro exemplo do small is beautiful.

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Entre um copo e boa companhia, Setúbal, lá em baixo, retoma o caminho do desenvolvimento a que tem sido exposto nos últimos anos. A cidade tem todo o potencial para se tornar uma das grandes urbes do país, sem esquecer o potencial turístico. Esperemos que assim continue.

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Gosto do forte, da esplanada e de tentar encontrar entre a serra, uma outra esplanada igualmente interessante em Palmela (um dia lá iremos). A bebida convida à conversa, a conversa convida à bebida e o tempo vai passando, partilham-se histórias e claro... bebe-se. Deixo, normalmente o moscatel roxo para segundo plano, é coisa que nunca falta em casa e deixo-me levar pelas ideias de quem está no bar. Tudo menos whisky, que na minha opinião em particular, é uma bebida péssima e bebe-se só para se dizer que se é importante. 

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Gosto do Forte, permite que o Pastor Alemão entre, e acreditem que este é uma verdadeira companhia para aqueles momentos em que temos de pensar, beber e tomar decisões. Embora tenha quase a certeza que o alsaciano prefere andar no meio da Arrábida do que propriamente a aturar as epifanias do companheiro humano.

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O vento tende, pontualmente a ser uma presença, mas neste espaço, entre folhas a voar, tout disparaîtra mais, mais le vent nous portera, como cantaram os Noir Désir. Maintenant le vent me portera para a saída... Entre abraços, sorrisos, patadas e gente boa, é hora de descer à cidade e quiçá terminar a tarde num dos excelentes restaurantes desta cidade...

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Erinnerungen an Berlin...

por Robinson Kanes, em 16.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Passam agora pouco mais de seis anos desde aqueles tempos em Berlim... Dei comigo a pensar naquela época e no pequeno Mercado de Natal na Alexanderplatz, bem pertinho do Sony Center. A noite que agora me vem à memória, colocava, no segundo, o lançamento na Europa de um dos grandes êxitos cinematográficos da época - um Harry Potter qualquer. Mas era no mercado que queria estar, uns minutos antes de jantar num restaurante que fazia umas massas na hora. Massas apetecíveis, sempre repleto de gente animada, contrastando com alguns restaurantes da área. Além disso, era mais barato e quando o dinheiro não é meu, não gosto de esbanjar, afinal tenho sempre de jantar e é orçamento do esforço de todos, além de que a minha estada era bastante longa...

 

Estreava na época um sobretudo que me ajudou a combater o frio de Berlim e acima de tudo a aguentar os passeios nocturnos perto do Marriott em Alexanderplatz. Do ir e vir até ao Reichstag, do piscar de olhos às embaixadas russas e americanas e como não poderia deixar de ser, entrar na noite com algumas passagens pela Friedrichstraße para me perder na "Dussmann Kulturkaufhaus" e escutar alguns amadores do piano a tentarem a sorte. Não poderei esquecer as fortunas que aí deixei em livros e CD (e excesso de bagagem). A obra completa de John Sebastian Bach da BachAkademie, dirigida por Helmuth Rilling e distribuída pela histórica Hänssler ainda hoje faz as delícias cá por casa. Desfrutava do Mundo, essa casa dos mortais como nos fez perceber Heidegger.

 

Alexanderplatz "era" uma área com uma pujança tremenda em termos de novas construções, modernos edifícios, confortáveis e abertos, sem esquecer um evento inesquecível numa estação de metro acabada de construir e onde, à boa maneira alemã, uma das áreas ficou em tosco, antecipando um aumento de tráfego no futuro. E como nada se desperdiça, um evento singular na estação de metro que ainda hoje recordo... Serviu de inspiração, contra tudo e contra todos, para realizar algo semelhante em Portugal e que foi um sucesso. Não foi algo muito falado, também não era essa a ideia.

 

Todavia, era ao fim do dia, entre as massas, o mercado e a boa companhia que gostava de estar. Era no percorrer as ruas vazias e austeras da cidade e de entrar naquele jardim densamente arborizado e escuro que se seguia às Portas de Brandemburgo, depois de ter percorrido a Unter den Linden, que gostava de me entregar a Berlim. Esses momentos só eram igualáveis ao pequeno-almoço no simpático restaurante do hotel com vista para a avenida e para os transeuntes que logo pela manhã se dirigiam para o trabalho. Local deveras interessante... Encantador e singelo, mas sedutor o suficiente para sentir a nova Berlim de tal forma que, sempre que possível, esse pequeno-almoço alongava-se por três ou mais quartos de hora. Nesta zona era difícil imaginar a Berlim de outros tempos, a única coisa que poderia almejar dada a minha idade. Todavia, a viagem de comboio de Schönefeld (entretanto encerrado) até ao centro aguçou-me a curiosidade: a escuridão das folhas das árvores, a lama, as valas com águas negras e uma imensa sensação de ainda estarmos do lado de lá do muro.

 

Tempo para um aparte, pois recordo-me que meti conversa com um suíço, de Zurique mas que residia em Berlim, ainda no aeroporto por causa do táxi. Acabei a acompanhá-lo no comboio. Falou-me que Berlim estava agora, em pleno século XXI, a modernizar-se muito por fruto das poupanças dos alemães ao longo do século XX e primeira década do novo milénio. Brinquei com Portugal que recebia milhões há muito, inclusive dos contribuintes alemães e teimava em não dar o salto. Riu-se, julgo, não tenho dúvidas que pensou que eu estava a brincar...

 

Foi numa dessas manhãs entre croissants e uns ovos que fiquei a reflectir no que me disse um alemão no dia anterior, depois de uma pergunta minha acerca da eficiência dos membros da sua equipa... "é muito simples, equipas motivadas, apaixonadas pelo trabalho e onde cada um sabe muito bem o que tem de fazer". É muito simples, de facto... Mas ao mesmo tempo, para alguns parece ser tão complexo, tão difícil e penoso de modo a que ninguém tente harmonizar o processo. Parece um pensamento para artigo de recursos humanos ou LinkedIn, mas se o fosse provavelmente seria apenas conversa e total inacção. 

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Na minha memória faz-se noite, volto ao mercado, faço umas compras mais locais e no centro comercial diante do mesmo, algo mais internacional. Bebo Gluwien, como os melhores lebkuchen da minha vida - e se algo desperta em mim o cookie monster, são as lebkuchen - e percebo que numa língua à época totalmente desconhecida, acabei por compreender muito daquilo que sou hoje e encontrar na frieza alemã um acolhimento singular... Das gargalhadas mais sinceras que já presenciei hoje foram aí mesmo... em Berlim...

 

Acabo esta noite a ouvir Severija, uma lituana com um bom alemão e que me deu a conhecer a banda sonora de "Babylon Berlin" com "Zu Asche Zu Staub"... Berlim traz-me boas memórias...

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Lille: A Rainha da Flandres Francesa

por Robinson Kanes, em 30.11.20

vielle bourse lille.jpgImagens: Robinson Kanes

 

O pequeno-almoço em Paris começa cedo... É hora de calibrar e preparar os cerca de 230 km até Lille. É preciso precaver as paragens em Arras e Lens e claro, a mítica chegada, já depois da capital da Flandres francesa, a Roubaix. Para os amantes de ciclismo, de carro ou de bicicleta, todos perceberão a importância de uma viagem Paris-Roubaix.

 

Duzentos quilómetros com mil e uma paragens levam-nos a chegar ao anoitecer, sendo que, encontramos uma Lille bastante animada e o milagre de ficar mesmo no centro e ter um lugar para estacionar. Temos também a sorte de passar pela Rue de Gand, uma das mais animadas da cidade e onde está o "Chez la Vieille". Um restaurante apetecível, inclusive no preço. Sempre repleto de comensais, com empregados e clientes simpáticos e manjares deliciosos, onde só as batatas fritas podem provocar algum dano. Cerveja artesanal em abundância e um início de noite perfeito, até porque, estando na Rue de Gand, as cervejas não se ficam por um só sitio. Lembrei-me deste espaço, afinal também ele um monumento da cidade, não só pela comida mas também pela decoração e animação.

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A noite prolonga-se e o dia seguinte implica uma visita a um dos mais importantes (e um dos primeiros) museus de França, o Palais des Beaux-Arts de Lille.  Belas artes, onde lá voltamos a encontrar Rodin, a grande tendência desta aventura que nos acompanha desde Caen. Uma visita à Casa-Museu Charles de Gaulle e temos a manhã completa, sendo que é possível que um pequeno-almoço seja demorada na medida em que o pão, o queijo e o vinho são qualquer coisa... E ainda bem que não me lembro da queijaria no centro que... Enfim, é melhor nem ir por aí...

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Lille, ao contrário do que esperávamos, é uma cidade enérgica, inclusive culturalmente, pelo que também a visita à Ópera não podia faltar. Temos assim tempo para percorrer o centro, nomeadamente La Grand'Place e a Vielle Lille. Todavia, existe apenas um problema... Cuidado com o cartão de débito. Sacos carregados de queijos, pão, livros e enchidos, uma bagagem de porão bem apimentada... Pequenas lojas, bem arrumadas e simpáticas, os edificios antigos e tão característicos da Flandres fascinam-nos. As cores, pequenas esplanadas, tudo se conjuga na perfeição e onde o dia não pode terminar sem apreciar duas das mais belas e imponentes estruturas das cidade: o Hôtel de Ville (câmara municipal) e o seu "Beffroi" (torre sineira). E como não poderia deixar de ser, o colorido e mais pitoresco edifício da cidade, o Palácio da Bolsa ("Vieille Bourse"). Temos a sorte de poder adquirir alguns livros antigos no mercado de velharias que se realiza no claustro. 

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Gostamos de Lille e vamos sair da cidade com uma boa dose de calorias, sendo que, não contentes com isso, ainda importamos algumas delas para consumo em Portugal. A noite aproxima-se e depois da amizade do dia anterior, voltamos à Rue de Gand, para nos perdermos no "Chez la Vieille". Hoje as cervejas descansam e aproveitamos para um passeio nocturno, está muito calor para as habituais temperaturas da Flandres. O centro fica ainda mais belo, mas o sono já nos começa a atacar depois de tantos quilómetros de estrada. 

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Chegamos ao nosso último dia na cidade... A prioridade será  absorver a transformação de Lille que se está a modernizar fortemente. Uma cidade sustentável que quer ser a grande metrópole fronteiriça (Euralille). Percorremos a novas construções, muitas delas ainda em tosco e acabamos a manhã no Les Halles de Wazammes. No interior não encontramos propriamente um mercado muito barato, e no exterior... No exterior é uma viagem ao Norte de África. É um mercado de imigrantes, e segundo alguns, um espaço apetecível para carteiristas. Sendo que em França e na Argélia "sou" argelino", na Turquia "sou" turco, no norte de África nem sei e no Irão "sou" iraniano, acabei por não sentir grande risco e a alemã também não. Cá fora os produtos são mais baratos e depois de, mesmo em frente ao mercado termos visto um pequeno restaurante gerido por árabes com mais um sem número de argelinos agarrados a uns belos pitéus, não resistimos... Comida óptima, um acolhimento formidável quer pelos proprietários quer pelos clientes e ainda cozinheiras de uma extrema simpatia. Fabuloso... E mais duas horas à conversa!

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Por pouco, não esquecemos do nosso passeio pelo Parc de la Citadelle e os seus fabulosos 110ha entre arvoredo e o Deûle. Um dos passeios mais interessantes na cidade, não só pela oportunidade que temos respirar um pouco de ar puro, visitar o Zoo de Lille e encontrar muita gente que aproveita este espaço ao máximo, seja em terra seja no próprio rio que nos dá algumas vistas fantásticas. Apreciamos mesmo este momento, um verdadeiro embalo de calma e tranquilidade antes do regresso... Pelo caminho de regresso ainda conseguimos para no Jardin d'Arboriculture Frutiere e no Palais Rameu... Fantástico!

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É fascinante... juntar toda esta flora e fauna num parque dentro de uma cidade agitada mas ao mesmo tempo com a sua pacatez do Norte de França. Lille foi uma das grandes surpresas desta longa jornada, até porque já havíamos andado por perto, inclusive a atravessar a fronteira para a Bélgica e nunco nos detemos perante esta pérola de inegável beleza, qualidade de vida e sustentabilidade.

 

Honfleur, uma cidade portuária

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

A pacata e firme Caen

Bayeux: uma jóia normanda

Normandia: um dia de homenagem

O Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, a cidade pirata

 

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Respirar Saint-Germain-des-Prés e o Sena...

por Robinson Kanes, em 13.11.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Era Victor Hugo quem dizia que respirar Paris era das melhores coisas que se poderia fazer para cuidar da alma...

 

Pois assim é... Um dia preenchido pela frente, além de que os passeios junto ao Sena são sempre uma obrigatoriedade, mesmo enfrentando alguns indivíduos que deixam cair um anel, perguntam se é nosso e depois tentam vender-nos por um bom preço alegando que se trata de ouro. E assim foi, contudo, não tentando repetir o último que praticamente acabou em Créteil.

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Saint-Germain-des-Prés sempre ali presente, sempre com o seu habitual glamour que atravessa séculos e que nos traz de volta para romances, peças de teatro e composições únicas que nos transformam a cada viagem àquela cidade. Estranhamente, talvez por ter sido um dos meu primeiros contactos com Puccini, tenha sempre esperança de encontrar Mimi; Rodolfo; Marcello; Colline; Schaunnard e Musetta a deambular pelas ruas. Espero mesmo encontrá-los e poder juntar-me num qualquer café daquela zona e beber a Murger, Puccini; a "La Bohème" sem esquecer Illica e Giacosa. 

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Paris consegue ainda conservar muito daquilo que a torna para muitos a capital do Mundo. Atravessar o quarteirão das Universidades é deambular por muito do conhecimento que ainda hoje transforma o Mundo, é sentir o Maio de 68, sobretudo por quem nunca o viveu e só o conheceu nos livros de História e Política. O Maio de 68, que grandes e acesas conversas já permitiu ter num pequeno café, junto a uma praça perto da sede da UNESCO. É também por aqui, antes de chegarmos aos "Jardins de Luxembourg" que temos talvez umas das mais belas vistas (embora distante) da "Tour Eiffel".

 

O sol convida a que apreciemos este passeio, até os corpos aquecerem e refugiarmo-nos nas sombras ou no Panteão. Hesitamos... Voltamos lá? Continuamos, este Paris soalheiro não pode ser desperdiçado e temos falta de um almoço... Escolhemos um que nos recomendou um polícia (na ausência de camionistas, os polícias e os taxistas sabem sempre onde se come bem). Como não poderia deixar de ser, não ficámos mal, uns cogumelos, uma carne daquelas e um Bordeaux tinto. 

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Planeamos a tarde... O fim do dia será num banlieue fora de Paris. Um árabe "de Agrigento" que em tempos conhecemos em Orly e que ía para a Sicília convidou-nos para um jantar, pois encontrava-se na cidade para visitar a filha. Timing perfeito! E é neste planeamento que me lembro da "Église de Saint-Denys-du-Saint-Sacrement". Um tesouro escondido, pois é lá que se encontra uma pintura de, e façamos uma vénia, de Delacroix. A "Pietá" em todo o seu esplendor "Le Christ Descendu de la Croix" bem perto de uma sala também interessante a "Comédie Bastille" e de mais uma das surpresas "escondidas" de Paris, o "Musée Cognacq-Jay" onde descobrimos o "Banquete de Cléopatra" de Tiepolo.

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E caramba, como o sol em Paris pode queimar verdadeiramente, já não precisamos de Biarritz nem tão pouco de Saint-Tropez, Paris encarrega-se de nos queimar a pele...  É hora de partir, o Hassane está à nossa espera e ainda nos deixa tirar uma fotografia da lua, fora das luzes da cidade do Sena.

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Em Montparnasse com Rodin, Sartre e Donizetti...

por Robinson Kanes, em 06.11.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Um gesto, um acontecimento no pequeno mundo colorido dos homens nunca é absurdo senão relativamente em relação às circunstância que o acompanham. As palavras de um doido, por exemplo, são absurdas em relação à situação em que ele se encontra, mas não em relação ao seu delírio.

Jean Paul Sartre, in "A Náusea"

 

 

Não é Paris - Marseille, mas poderia ser. Para trás fica a Normandia e a Bretanha e muitos dias de asfalto, terra e até mar. Depois do delta à beira da estrada, chegamos a Paris. Chegar a Paris é sempre aquela sensação glamourosa, seja de avião, comboio ou por estrada, mesmo que as horas na fila possam ser intermináveis, o que, desta vez, não foi o caso. Paris faz parte das nossas vidas, o fascínio dos nossos pais pela cidade, pela França e também pelas muitas viagens em trabalho ou lazer que já nos trouxeram aqui. Falar de Paris é repetir tudo aquilo que já foi dito.

 

Desta vez, ficamos mesmo no centro da cidade, uma pequena paragem de três dias antes de apontarmos a Lille e à Flandres francesa. O périplo promete, com mais paragens e por isso é preciso estar fresco. Mas ficar fresco... em Paris? Só se for o tempo e nestes dias com temperaturas acima dos 30º e em alguns casos alternadas com grandes chuvadas, não foi propriamente para se descansar. Os jantares no Marais e os convivios no 7.º arrondissement perto do Musée Rodin ocuparam as noites e os dias... Quem é que descansa? Talvez, e como de Paris estará tudo dito, possa ser este o mote para abordar um dos escultores predilectos de qualquer amante de arte e respectivamente o seu museu que não me canso de visitar.

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Passar em qualquer lado e vibrar quando se identifica uma obra deste escultor já é qualquer coisa, entrar numa propriedade onde os jardins e o interior do seu edifício está repleto de obras de Rodin, é entrar no céu. Um simpático jardim e um pequeno "palais" guardam alguns dos maiores tesouros da Humanidade e permitem que nos embriaguemos com Rodin. Como é possível? Como é que alguém...

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O museu não é grande, mas a visita dura uma eternidade, sendo que ainda não atingiu as 7 horas que ficámos no Prado e as 6 no Louvre. Está sol, aproveitamos para descer ao jardim e apanhar um pouco de ar... Pensar que museologia em Paris é o Louvre, é um dos maiores erros que se podem cometer quando temos na mesma cidade o Musée Rodin, o Musée Picasso, o belíssimo e riquissímo Musée d´Orsay, o arrebatador Musée Delacroix e tantos outros que poderia enumerar e que incluem muitas pequenas galerias que nos arrebatam com toda a sua grandeza artística.

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E no meio de toda esta pseudo-intelectualidade, aquilo que mais me apetece é abrir o Pont l'Évêque que ainda temos connosco e que no hotel tiveram a amabilidade de preservar (parolo, eu sei, mas em França solicitar a guarda de um queijo é o mesmo que em Nova Iorque solicitar a guarda de um diamante) e ainda juntar-lhe uma sidra bretã. Chamemos para se juntar a nós "O Pensador" - para descer do pedestal e juntar-se a nós enquanto entre um "mais non" e um "si, mais" pensamos o Mundo... Hoje muitas perguntas teriamos para aquele cavalheiro de bronze.

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Antes de sair, aproveitamos as vistas para o Hôtel des Invalides... Paris, como Roma, obrigaria um ser-humano a ter uma vista 360º para aproveitar tudo aquilo que a paisagem lhe oferece. É um espaço fascinante, nunca nos apaixonou como outros, mas sentimos o peso e a força que de lá emana e mais ainda se sente quando cruzamos a entrada. 

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É hora de almoço, queremos debater tudo aquilo que vimos, temos vontade de discutir aquilo que acabámos de presenciar, além de que a paixão por Rodin, na Alemã, é qualquer coisa... Caminhamos e Montparnasse apetece-nos. É por aí que ficamos, um restaurante marroquino, "Chez Berberett", com empregados gentis e gente simpática na esplanada surge-nos como uma boa opção... Não desilude, e em Montparnasse é fácil comer mal e pagar muito, apesar de alguns restaurantes que são uma referência.

 

O tempo passa, e Rodin fica para trás... O empregado, um marroquino extremamente gentil e que mais parece um norueguês, inicialmente questionando se eu era argelino, percebe que sou português e começamos a falar de História. Lembra-se de D. Sebastião e de D. João I. Tanta história para perceber que partilhamos tanta coisa, inclusive os genes... Rodin fica para trás, ultrapassado pela antropologia, pela história e pela biologia.

 

Com o estômago bem acomodado pelas iguarias do Norte de África, decidimos ir prestar homenagem a alguns ilustres que repousam ali bem perto, antes de nos encontrarmos com Donizetti e a sua obra "Don Pasquale"no "Palais Garnier" - o tempo não está contado, mas com Rodin e o empregado de mesa, e um jantar entre amigos depois do espectáculo, o dia não poderia ter ficado mais bem preenchido.

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Antes de sairmos, conversamos com o Sartre e Beauvoir... Falamos de Camus, falamos de uma época de pensamento que apesar de esquecida ainda hoje é tão actual, uma verdadeira lição de Humanidade e do que é ser Homem. Os cemitérios tranquilizam-nos, é como se nos sentissemos mais seguros... É como se os mortos nos protegessem dos vivos e onde também podemos cuspir na campa daqueles que nem a terra deveriam ter pisado., talvez porque a sabedoria só lhes tivesse chegado quando já para nada servia, como diría Garcia Márquez.

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Percorremos as ruas desta cidade... Caminhamos junto ao Sena e chega a hora de "Don Pasquale"... Chega a hora de nos deixarmos levar pela força do amor de Ernesto e Norina...

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Honfleur, uma cidade portuária

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O Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, a cidade pirata

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Saint-Malo, a cidade pirata...

por Robinson Kanes, em 29.10.20

saint_malo_france.jpgImagens: Robinson Kanes

 

Estamos já na Bretanha... Apressámos a saída do Mont-Saint-Michel porque esta paragem tinha de ser efectivamente bem degustada. As bicicletas também já pedem para sair do carro e percorrer um pouco da Bretanha, assim se fizeram os 51km até Pléneuf-Val-André. Todavia, no périplo em duas rodas, a "descoberta" mais interessante foi sem dúvida o "Cimetière de bateaux de Quelmer" onde repousa mais de uma dezena de barcos abandonados e que dão uma imagem pitoresca da zona, sem esquecer que representam muita da história dos pescadores de Saint-Malo. Temos tempo para ficar, além de que Paris, será o próximo destino - e depois de umas cinco idas em lazer a Paris, cada uma se torna mais especial à medida em que vamos conhecendo mais a cidade. E pensar que a capital de França não me fascinou na primeira visita.

 

Saint-Malo é aquela cidade carregada de histórias e de lendas, não poderia ficar para trás. Para lá da pirataria, estava na nossa memória a difícil tomada (e destruição) aquando do desembarque na Normandia. A fuga dos alemães para a Bretanha e a excelente localização e fortificação da cidade acabaram por tornar Saint-Malo um campo de batalha e com enormes baixas para ambos os lados.

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A chegada a Saint-Malo começa com um crepe. Um lado mais turístico, embora mereça bem a pena antes de um jantar de peixe e frutos do mar, tão valorizados nas costas bretã e normanda. Por falar em lado mais turístico, também não resistimos aos Gwelladous na Maison Guella que já leva 100 anos de existência. O crepe dá-nos alguma energia para percorrermos os quase 2 km de muralhas e apreciar não só a cidade intramuros mas também o mar e as suas praias. Amante de cidades portuárias e portos, não descanso enquanto não volto a abandonar a cidade e a percorrer uma área mais industrial da mesma.

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Mas é impossível ficar fora das muralhas por muito mais tempo, é preciso não deixar fugir a alma de Chateaubriand que vive ainda encarcerada na Grand Bé. A Grand Bé e Petit Bé são as duas ilhas que confrontam a cidade e que nos colocam a imaginar os tempos em que piratas atacavam e defendiam a cidade ou, regressando aos tempos modernos, visualizar os soldados alemães no desespero a disparar peças de artilharia contra os libertadores da França. Imaginamos a azáfama e o medo pelas ruas românico-góticas e como se terá perdido um património de incalculável valor aquando dessas batalhas. 

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Falamos em batalhas, por isso Fort National (1689) não poderia ficar para trás, é um daqueles pedaços de história e com uma localização única e panorâmica de Saint-Malo e de toda a zona envolvente. É a imagem da cidade corsária, é onde poderá estar bem guardada toda a sua essência, toda a sua história.

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Sentamo-nos... As ruas estreitas e as imponente muralhas amplificam as vozes, a cidade tem vida e convida a viver... O sol está a despedir-se e provavelmente um dos melhores locais para apreciar um dos mais belos espectáculos do mundo, sempre grátis e que se repete todos os dias, é a Plage du Sillon, por muitos considerada a mais bela de França. Todavia, e porque a cidade a isso se presta, não deixamos de percorrer as areias e sentir a fria água na Plage de l´Éventail (com uma vista deslumbrante para o Fort National), na Plage du Môle (com uma vista espectacular para Dinard) e como não poderia deixar de ser, a Plage de Bon Secours com vistas para Dinard e para as ilhas Bé. Dinard, na outra margem do Rio Rance, foi uma das outras posições defendidas pelos alemães quase até ao último homem.

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E como em cidade de piratas, há que ser um Jack Sparrow, nada como devorar as boas iguarias de Saint-Malo e ficar duas horas à convesa com alguém que não conhecemos de lado nenhum mas que parece ter vivido a invasão alemã e depois a libertação, tal é a precisão com que nos relata os factos e fala orgulhosamente deste bastião onde também se destaca Catedral, o "Chatêau" e claro, a Maison des Poètes et des Écrivains - esta última por mero apontamento e curiosidade.

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Vamos descansar, segue-se uma pequena viagem de 400 km com muitas paragens até Paris: em Rennes para estar com amigos, em Laval, Le Mans e Chartres (porque sim) e inclusive num pequeno café à beira da estrada que serve café Delta entre Dreux e Versalles

 

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Normandia: um dia de homenagem

O Mont-Saint-Michel

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O Mont-Saint-Michel...

por Robinson Kanes, em 21.10.20

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Imagens: Robinson Kanes 

 

Na Foz do Couesnon, reside um dos clássicos de qualquer passagem pela Normandia e pela Bretanha: o Mont-Saint-Michel. Depois de Ponts e de uma longa  aventura carregada de emoções, é preciso descontrair um pouco.

 

O Mont-Saint-Michel é deveras imponente, a longa distância já se mostra em todo o seu esplendor, acredito até que é aí que mostra toda a sua beleza e imponência sempre envolvido numa ténue névoa mágica. Paramos o carro dezenas de vezes até chegar ao destino.

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A baía, é algo de assombroso e só tem 8000 anos (até lá havia estado tudo coberto de gelo). É fantástico... Infelizmente o tempo não nos permite deixar o carro para trás e seguir de bicicleta, temos afazeres em Saint-Malo e queremos aproveitar ao máximo para explorar os "prés-salés" - cobertos pelas marés altas mas que são um marco paisagístico e até agrícola fantástico. Queremos arriscar até atravessar uma parte do estuário e sabemos como isso também pode ser perigoso. Todos os anos é necessário resgatar um sem número de pessoas que não acautelam a subida das marés e só de helicóptero podem ser retiradas. Infelizmente, não estamos no equinócio para apreciar a grande descida das marés.

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É fantástico, é mirífico ouvir e ver todas aquelas aves, porque se as gaivotas dominam a ilha. Se deambularmos pelos campos, encontraremos um sem número de espécies que nos deixarão fascinados.

 

Andamos, percorremos os terrenos movediços (e muita cautela nestes terrenos) e esquecemo-nos que é possível entrar na "fortaleza" e percorrer as estreitas ruelas e visitar a Abadia. Mas torna-se difícil... Mesmo na ilha os nossos olhos procuram tudo aquilo que acontece à volta da mesma e esta transforma-se numa espécie de posto de comando para a observação da Natureza. É maravilhoso...

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Reparamos em algo que havíamos presenciado na infância... Os carros estão afastados o que permite preservar o lugar. Todavia, o interior está repleto de visitantes o que por vezes torna a experiência menos boa, mas temos de aceitar, de facto é um local estratosférico.

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Percorremos as muralhas e não suportamos o peso da arquitectura, pelo que somos obrigados a sair, a voltar a colocar os pés nas areias e a apreciar... Tentamos que o tempo pare, esperamos pelo "tramonto" e não queremos vir embora. A luz da ilha torna-se única e tudo o que a envolve parece começar a adquirir uma nova dimensão. É por aí que ficamos, mergulhados na areia e na água tomando parte num dos mais belos espectáculos da Natureza e da própria vida terrestre.

 

Honfleur, uma cidade portuária

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Normandia: um dia de homenagem

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Normandia: um dia de homenagem

por Robinson Kanes, em 30.09.20

american_cemetery_normandy.jpgImagens: Robinson Kanes & GC

 

 

A morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente

Aristóteles, in "De Anima"

 

Deixamos Bayeux e voltamos para trás, para perto da memorável "Juno Beach", mais precisamente para Courseulles-sur-Mer. É aqui que o carro descansa e as bicicletas descem do tejadilho. Entramos em modo "Tour de Normandie" e procuramos ir ao encontro de alguns dos locais que durante anos, permanecem na nossa memória devido à grande invasão. Daqui em diante e antes de apontarmos ao Mont Saint-Michel vai ser a pé e sobre duas rodas.

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Começamos com uma deslocação de cerca de sete quilómetros, até ao Cemitério Canadiano de Bény-sur-Mer. e que é o repouso dos primeiros mortos canadianos no Desembarque - o de Bretteville-sur-Laize ficou para os que morreram nos momentos posteriores. Mesmo à beira da estrada e já se sente o peso da História, o peso da morte. A primeira sensação? Tantos mortos e este é só o primeiro... Tantos miúdos no chão que morreram em nome da libertação da Europa, em nome de um mundo que nunca mais seria o mesmo... Sentimo-nos cobardes por não termos mantido esse mundo desejável e que lhes custou estupidamente a vida - e este nem é um dos maiores jardins de pedra. Respira-se fundo, ouve-se o vento entre as árvores, faz-se uma revisão da matéria e leem-se as mensagens que encontramos em cada lápide.

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Damos connosco a perceber que já passou mais de uma hora e ainda há tanto para sentir, algo sem aparente explicação... É hora de partirmos, regressarmos para perto de "Juno Beach" e prestar também aí a nossa homenagem junto do memorial e também da primeira casa a ser conquistada naquele dia fatídico e mortífero. 

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Torno-me repetitivo, mas de facto, acabo sempre a pensar, para quê? Será que, à semelhança do que fazemos com os acidentes de viacção, onde muitos juízes condenam os culpados a visitar hospitais, particularmente com as vítimas dos embates, não deveríamos fazer isto com aqueles que parecem esquecer o passado? 

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As praias são isso mesmo, praias, é preciso fechar bem os olhos, ter presente a História da invasão e voltar a esses tempos, caso contrário será mais difícil, mesmo sentido os ares que nos chegam da Mancha. Temos de prosseguir, o nosso destino em duas rodas será o cemitério alemão de "La Cambe" e antes ainda temos de voltar ao Cemitério de Guerra em Bayeux.

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Pelo caminho, um destaque e paragem obrigatória no Cemitério Americano em "Omaha Beach", Colleville-sur-Mer. Até lá, museus e memoriais não faltam, as praias e aquelas região, mesmo à entrada de algumas vilas, não esquecem aqueles que tombaram pela França e pela Europa. Mas temos de parar em Colleville, os Americanos sabem honrar os seus e de facto, este cemitério, é um verdadeiro monumento, uma grandiosa homenagem aos mortos em combate que atravessaram o Atlântico e depois o Canal da Mancha e tombaram em solo francês.

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O número de mortos é imenso, o espaço é imenso e o contraste entre a beleza e o cuidado do local com aqueles que ali jazem é qualquer coisa. Procurou-se criar o paraíso para que aqueles soldados ali possam descansar, bem nas colinas que dão para a praia onde muitos tombaram. A quietude do espaço, a forma como tudo está cuidado (melhor que em muitos palácios), o silêncio... Olhamos novamente o mar que trouxe todos estes corpos para a terra, um Atlântico atravessado, para depois se ultrapassarem as águas da mancha e morrer em nome de todos nós. Vida triste, não podermos reconhecer estes jovens e mesmo os mais velhos, a lágrima... O pensamento a caminhada entre cruzes de Cristo e de David não bastam, deixam-nos impotentes e desarmados. Ficamos a engolir em seco, saímos a engolir em seco. Pensamos no hoje e até no amanhã, pensamos em todos os cemitérios como este e que não existiram... Perguntamos, para quê?

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Prosseguimos... É hora de prosseguir, mas depois daquele dia, não mais somos os mesmos... Depois daquele dia, já adultos e sem a magia que ser criança nos provoca ingenuidade, nunca mais olharemos aquela costa depois deste regresso.

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