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Flores - Parte 10: A Despedida e o Até já...

por Robinson Kanes, em 24.06.19

IMG_6379.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

Acordamos e a manhã está mais calma... Algum vento e chuva durante a noite mas agora a tranquilidade regressa. Ansiosamente vamos tomar o pequeno-almoço... Sem luxos, não é necessário, mais uma vez, somos surpreendidos com a savoir faire do senhor Rogério. Conversamos mais um pouco com o nosso anfitrião e vamos dar um último passeio por Santa Cruz aproveitando também para resolver algumas questões profissionais à distância.

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A vila está a acordar, as pessoas circulam pelas ruas e retomam as suas vidas, como todos os dias e felizes. Aproveito para assistir a essa rotina, como sempre gosto de fazer, no entanto, o mar chama por mim e retorno para bem perto deste. Quero dizer adeus a estas águas, quero despedir-me do Corvo, quero ali ficar a minha manhã...

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Observo, mais uma vez, as pessoas... Passo pela lota, está fechada, nestes dias os barcos não terão saído ao mar e além disso também já não é hora de estar aberta. Observo as embarcações em terra e imagino as mesmas por aquele mar agitado, retomo ao Mar Santo que Redol imortalizou em "Uma Fenda na Muralha". Imagino o mar em rabiosa, imagino aqueles homens naquelas águas... E eu que também conheci de perto, na minha infância, as vidas dos lobos do mar.

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A GC liga-me e diz-me que tem a sua burocracia tratada... Vou buscá-la, quero trazer os olhos dela para junto dos meus e ficarmos sentados a apanhar o leve sol que toca a ilha e a sentir aquele vento carregado de sal. Observamos agora a força dos homens contra a força do mar... O homem tenta vencer o mar, mas será sempre uma batalha perdida no longo prazo. Deparamo-nos que dois dos indivíduos que desafiam o mar viajaram connosco naquele voo "inesquecível" do Corvo para as Flores. Depois de enfrentar ventos que não lembram a ninguém e de sermos sacudidos como se fôssemos flocos de neve naquelas recordações que se compram nas cidades ou pelo Natal, eis que ainda alguém tem de lutar contra a fúria do mar a reclamar o que é seu.

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São horas, é preciso ir almoçar... Almoçar para apanhar o voo de estômago aconchegado... Mais uma vez a salada com aquele molho especial, o queijo divinal e um bacalhau com natas escangalhado na travessa que, devo admitir, me assustou quando colocado na mesa! Na verdade, e porque não quero ser injusto com ninguém (e nem comigo próprio), está no top três dos melhores pratos de bacalhau com natas que já comi. A sobremesa, óptima... Sei que foi mas já não consigo precisar o que era...

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A nossa pressa em sair, como se o aeroporto estivesse a duas horas de caminho fez sorrir o senhor Rogério! Mas era chegada a hora e foi a vez de dizer adeus a mais um amigo! Um amigo que cozinha como ninguém e mais uma daquelas pessoas que nunca esqueceremos!

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No aeroporto, a tensão do costume, até porque o vento sopra agora com alguma intensidade. Mas eis que o Q400 chega e embarcamos. Embarcamos com destino ao Faial, com uma paragem na Terceira... E é nesse voo e em todas as peripécias que tiveram lugar (e foram muitas horas) até chegarmos à Horta que encontrámos gente singular e única, como só nos Açores se pode encontrar. A grande maioria com um objectivo de viagem que nos surpreenderia e faria pensar em como realmente este povo merece a nossa admiração! Talvez venha a falar disso um dia... Talvez não...

 

Pelo meio, mais um regresso a São Miguel tinha ficado pelo caminho devido à intempérie que se abateu sobre as Flores... Uma Foi talvez o melhor que nos aconteceu...

 

Fim

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho!

Flores, Parte 2: O Poço da Ribeira do Ferreiro, a Rocha dos Bordões e a Fajãzinha...

Flores, Parte 3: Calçar as botas e percorrer as Lagoas...

Flores - Parte 4: A Subida ao Morro Alto - Pico da Sé e as Falésias da Costa Oeste

Flores - Parte 5: A Surpresa da Costa Nordeste e da Ponta Norte!

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IMG_6029.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

E estamos de regresso a Santa Cruz, o último local que pisaremos nesta aventura. A estrada de regresso cansa-nos os olhos - queremos, mais uma vez, guardar toda aquela paisagem e acima de tudo todas aquelas vivências, como se pudessem estar escritas em cada árvore; em cada quilómetro de alcatrão ou de terra; em cada gota de chuva. Queremos recordar a força do mar na Fajã Grande, queremos sentir a natureza no seu estado mais puro a fazer das suas em pleno Atlântico.

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Depois de uma ida ao supermercado, já com muitas prateleiras vazias e sem qualquer tipo de pão, rumamos ao Museu da Fábrica da Baleia do Boqueirão. Como referi, embora nos choque o facto de se matar um animal como a baleia, reconhecemos que também está por detrás um sem número de histórias de vida e de pessoas que deram essa mesma vida para poderem sobreviver naquela ilha dos Açores. Não devemos fugir a essa realidade; a homens que tudo deram para tirar do mar o seu sustento.

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O museu é simples (como se quer num misto de antropologia com arqueologia industrial), está vazio, com pouca gente. É contudo, uma obra fundamental para a ilha e que se percebe em cada parede e em cada máquina. Percorremos os diferentes espaços, fazemos perguntas e também vemos algumas fotografias que nos deixam mais tristes, quer ao nível de perdas humanas quer ao nível das perdas animais. Temos de ver, é a realidade, é um mundo passado (ainda real em alguns países).

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Lá fora... O tempo arrefece, mas ainda convida ao passeio, além de que ainda falta algum tempo para provar os acepipes do senhor Rogério. Despedimo-nos dos simpáticos colaboradores do museu e voltamos a caminhar por Santa Cruz cujos habitantes agora não se encontram nas ruas... Poucas almas, um vento que sopra com alguma intensidade e o som do mar. A capital da ilha só para nós... E o Corvo, como sempre, tão perto...

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Heeeeey... Gritamos nós na esperança de que nos escutem. Afinal, estamos sozinhos na rua, já não nos chamam loucos. Esperamos que o vento transporte o nosso chamamento até à pequena ilha. Esperamos uma resposta, mais um convite para um jantar animado, mais umas cervejas à mesa do BBC. Não obtemos retorno e continuamos a deambular pelas ruas, vagueando desprendidos mas atentos a cada pormenor. É nas coisas mais simples e mais vazias que se encontram os maiores segredos...

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Anoitece... E queremos voltar a desvendar um dos segredos desta ilha na simplicidade do Servi-Flor - os pratos do senhor Rogério. O pargo está óptimo, a salada de alface e tomate sempre com aquele molho especial... E o pão, e o queijo... Terminamos no bar com um martini e uma conversa com o senhor Rogério. Ficamos a conhecer um pouco melhor a ilha, as aventuras dos céus dos Açores e a reconhecer a amizade deste nosso companheiro. Na zona do bar imaginamos aquele espaço, em tempos idos, repleto de soldados franceses e deixamos que essa imagem nos acompanhe até à cama. Fecho os olhos com Santa Cruz e a folia dos franceses na minha imaginação.

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Amanhã é o dia da partida e o fim da aventura... Pelo menos, nas Flores...

 

Continua...

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IMG_6325.jpgCréditos: Robinson Kanes e GC

 

 

Carro a trabalhar... A tempestade ainda a dizer presente, embora mais calma... Primeira paragem, as cascatas do Poço da Ribeira do Ferreiro e depois a Fajã Grande - não foi por acaso que esta ainda não foi falada e ficou para o fim.

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No Poço da Ribeira do Ferreiro ainda se notavam os danos de um tempo mais agreste, por sua vez, ao longo da estrada já se procediam a algumas limpezas. Se pensamos que é impossível ficarmos impressionados como na primeira vez, esse mito cai por terra. A aproximação, mesmo por estrada, já antevia aquilo que estaria daqui a minutos diante de nós. Algum vento forte empurrrava a água para cima num espectáculo único de luta entre duas forças da natureza. O corta-vento e a roupa resistente são agora obrigatórios, muita lama, alguns aguaceiros ainda surpreendem - e claro, o vento...

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A chuva não nos demove, nada nos pode demover daquele espectáculo embora o mero do Sr. Rogério já esteja esquecido pelo estômago! É essa necessidade que nos faz partir em direcção à Fajã Grande e voltar a comprar umas latas de atum numa pequena mercearia gerida por um senhor, já com alguma idade - uma mercearia das antigas mas que ainda abastece os habitantes daquele local. Pão e atum, uma ou outra recordação e em frente ao mar - que não está pelos ajustes - saboreamos aquele repasto que, nos Açores, tem um sabor especial - além disso é ótimo para quem pratica desporto! O pão não, pronto...

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Na Fajã Grande o tempo oscila entre a chuva e algumas abertas - agora uma "chuva miúda", que conseguimos aguentar melhor. Dentro do carro, acabamos o atum que nos sabe pela vida e contemplamos aquele mar, um mar infinito e que nos coloca em sentido apesar da paixão que temos pelo mesmo. Pensamos nas lutas de muitos e muitos daqueles que se dedicaram as suas vidas à pesca... Regresso a uma das minhas origens, ou pelo menos a alguns dos locais onde, na minha infância, assitia à azáfama da faina.

IMG_6047.jpgO mar está forte, bem como o gostamos de ver em terra. Olhamos para o relógio... Ainda temos tempo, é hora de regressar a Santa Cruz - vamos conseguir visitar o Museu da Fábrica da Baleia do Boqueirão - embora nos choque como é que é possível matar um animal como a baleia, entendemos que também está por detrás um sem número de histórias de vida e de pessoas que deram essa mesma vida para poderem sobreviver naquela ilha dos Açores. 

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Aproveitamos, damos mais uma volta para sentir o frio das cascatas e da chuva no nosso rosto!

 

Continua...

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IMG_5964.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

A manhã está chuvosa e ventosa, a noite foi agitada, mal se conseguiu dormir (aquele ruído bom das tempestades)... O mar agitado não traz boas perspectivas. Tomamos o pequeno-almoço, não no Porto Velho, pois ainda é cedo, mas em Santa Cruz - o mar não mudou, a chuva também não e o vento muito menos. E perdoem-me a piada com o Eduardo Nascimento, também "ele não voltou".

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Vamos entregar o carro, desta feita, como em tantas outras vezes, foi na "Ilha Verde". Sempre simpáticos e impecáveis, quer à chegada - que se deu com um dia de atraso - quer à partida quando nos disseram que o melhor seria não entregar já o mesmo! Conhecendo a pista das Flores, ficamos com a sensação que o voo que deveria chegar da Horta para nos levar para Ponta Delgada (São Miguel) poderia não vir. No check-in, pediram-nos para aguardar. 

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A chuva e o vento não acalmaram e quem já vai viajando entre ilhas, percebe que o voo não vai sair! Esperamos pelo Q400 que não chegará! Temos a certeza quando somos chamados ao balcão e nos dizem que o voo foi cancelado e indagam se precisamos de transporte e alojamento! A simpatia e a forma como tal é feito pelo staff da SATA é sempre irrepreensível! Ficar nas Flores não é a pior coisa do mundo, apesar dos compromissos em São Miguel... 

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Primeira situação, o carro de aluguer! Problema resolvido, mais um dia e com total apoio do rent a car. A mim não me pagam para publicidade, mas se há coisa que não me canso de elogiar nos Açores é a "Ilha Verde" (a Sixt também) e a "Sata"... Outros também, mas já fui falando e também os abordarei.

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Alojamento e refeições... Um voucher e aí vamos nós para o Servi-Flor! O Servi-Flor tem várias particularidades que o tornaram num dos pontos altos desta aventura - é um hotel antigo, onde os materiais são antigos, de facto, mas onde o estado de conservação dos mesmos e a limpeza são irrepreensíveis! Não importa se os móveis são dos anos 50, estão bem mantidos, limpos, pelo que é viajar no tempo naquela que foi a antiga messe da base militar francesa nas Flores! Simplesmente formidável, até porque os pratos ainda fazem menção a esse passado...

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Somos bem recebidos pelo Sr. Rogério, aquele ar mais austero acaba por esconder um dos indivíduos mais simpáticos da ilha! Vamos almoçar e quando temos a ideia de que vem aí uma comida "à hotel" eis que... Uma surpresa... Um peixe (Mero com banana) maravilhoso e um outro prato que já não me recordo! Um queijo da ilha como entrada e tudo com um sabor único! Ficamos impressionados, até porque só depois de deixarmos o hotel é que percebemos que o cozinheiro é o próprio dono do hotel, o Sr. Rogério!

 

Melhor do que isso, mais uma daquelas coisas que só a Sata consegue fazer: somos informados no hotel de que a Sata prolongou o nosso voucher para o almoço do dia seguinte para que a viagem fosse mais tranquila e pudessemos ir de... "estômago aconchegado"! Nem a Qantas, a Air New Zealand sequer alguma vez me nos fizeram uma coisa destas!

 

Pouco passa do meio-dia, o tempo piora... Piora bastante, vem aí uma tempestade. O Sr. Rogério, conhecedor da ilha, rapidamente nos diz que podemos pegar no carro ao fim de uma hora e partir para visitar as cascatas pois vão ficar cheias de águas e o espectáculo será outro! Como somos doidos, nem perguntamos como é que será possível pegar num carro, percorrer meia ilha enquanto o fim do mundo se está a aproximar! Ficamos radiantes e dizemos que é isso mesmo que iremos fazer, mesmo quando os estores parecem estar prestes a ser arrancados pelo vento! No final da conversa, e é importante dizer, mais um grande elogio, por parte do Sr. Rogério, ao Comandante Luis Gouveia da Sata! É um herói dos céus dos Açores!

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Mais do que por nós, ao espreitar pela janela do quarto, tememos pelo carro... Afinal não somos os proprietários do mesmo. A verdade é que o tempo abrandou... Vejamos, deixou de ser o fim do mundo e passou a ser algo como o fim da Terra... Metemo-nos ao caminho não sem ver na cara do Sr. Rogério um sorriso! Acredito que terá pensado: "para continentais não estão nada mal! Eu a pensar que hoje já não deixavam o quarto com medo".

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Não é nas Flores, mas é no apaixonante Corvo... E porque no dia em que foi escrito este artigo, o Sapo publicou esta notícia.

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Continua...

 

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Fotografias: Robinson Kanes e GC

 

Acabamos uma refeição que nos sabe pela vida no "Pescador". A simpatia, os sabores e o momento para relaxar numa decoração rústica e com artes de pesca, deixa-nos com vontade de regressar. 

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É hora agora de deambular por Ponta Delgada, apreciar o mar daquela costa e ir ao encontro daquele que será um dos pontos altos desta aventura, pelo menos para nós: o Farol da Ponta do Albarnaz e toda a Costa Norte. Este é um dos faróis mais pitorescos do nosso país e também aquele com maior potência em termos de luminosidade - é aqui que os navegantes oriundos das américas entram na Europa habitada!

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O local fala por si, é inigualável e faz-nos esquecer que estamos, efectivamente, em Portugal! Não muito longe, já descendo a costa oeste encontra-se também o Ilhéu de Monchique, este sim o ponto mais ocidental da Europa e ponto de referência para calibrar os instrumentos de navegação e confirmar as rotas daqueles que navegavam no Atlântico. Seguindo em linha recta, não havia como enganar em direcção às américas ou à Europa.

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O sol espreita, parece querer dar-nos o postal ideal para aquele momento e também para nos convidar a deixar o carro - pensamos várias vezes antes de abandonar o mesmo e começar a caminhar junto à costa - e é o que fazemos! A panorâmica proporcionada, a companhia dos bichos que deambulam pelas encostas e o aroma do atlântico dão-nos energia para apreciar um local como poucos - e o queijo da Fazenda também, não ficou para trás e trouxemos algum connosco. Foi mesmo sem pão! Em Santa Cruz o pão fresco já tinha acabado para aquele dia e o pão embalado aguardava nova chegada do navio que abastece a ilha.

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Não queremos voltar, não queremos mesmo voltar - faz-nos relembrar um certo dia na Terceira em que quase ficávamos em terra porque a vontade de abandonar uma paisagem idílica nos fez perder tempo a mais... Observamos o Corvo... Absorvemos o grasnar das aves... Deixamos que os sons do gado ecoem pelos campos... Sentimo-nos intrusos num território que não é nosso e por isso mesmo ficamos quietos. Deixamos que aquele mundo de uma inquietação pacífica se desenhe perante os nossos sentidos... Somos aliens num mundo que não é o nosso! Gostamos de nos isolar no bulício dos sons da natureza, encontramos aqui mais um local!

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A noite já ameaça e queremos terminar a tarde em Santa Cruz, entre um copo e até uma ida à eucarístia - do meu lado, a religião não é prioridade, todavia, quando as celebrações são feitas sem sangue, gosto de assistir e de também presenciar a tradição.

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Chegados a "casa", não me entrego a Morfeu sem voltar à porta e olhar, mais uma vez, a nossa companhia daquelas noites - a luz do Farol das Lajes

Amanhã é dia de regresso - vamos regressar, também mais uma vez, a São Miguel... Ou talvez não...

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Continua...

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IMG_6198.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

Desta vez não começamos no Porto Velho e partimos directamente de Santa Cruz. O sol está radioso e o Corvo que tantas saudades nos traz fica ali bem perto a mostrar-se orgulhoso e dividindo o seu espaço no grupo ocidental com as Flores. 

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Estamos prestes a entrar num mundo em que o nosso amigo alemão e alguns florentinos nos disseram ser mais desconhecido - a Costa Nordeste. Mal sabemos a surpresa que está prestes a acontecer e para quem gosta de road trips junto à costa será mesmo um verdadeiro regalo.

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O vento ganha força, mas ganha aquela força de, sedutoramente,  fazer movimentar os cabelos de uma companheira de viagem. As nuvens, essas fogem para o Corvo. Pensamos em como é que podemos ter, em tão curto espaço de terra, uma marginal assim tão bela!

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Santa Cruz fica para trás e chegamos à Fazenda! Conhecida pela sua Igreja em homenagem a Nossa Senhora de Lourdes, ficou para nós também conhecida pela queijaria - o alemão tinha razão! Um queijo divinal, um mel de bradar aos deuses e um doce de Açará que nunca haviamos experimentado - um trabalho artesanal, com as devidas condições, mas que nos fez questionar se estávamos no local certo: uma vivenda com um casal, a sua filha adolescente e os seus simpáticos cães! Acompanham-nos, são genuínamente simpáticos e afáveis, dão-nos a provar vários tipos de queijo, o doce de Açará e o mel! O pai, um homem das beiras que já é florentino, dá-nos a provar o fruto que é o Açará e ficamos radiantes. 

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Falamos do potencial e da qualidade dos produtos que é irrivalizável e de como é que os mesmos podem ganhar mais mercado, infelizmente - e espero que me perdoem por abordar esta questão - há quem se aproveite em Lisboa da boa vontade e humildade desta gente e até lhes troque o nome do queijo! Do melhor queijo que já provei, feito por pai, mãe e filha e o mesmo se aplica ao mel e ao doce - juntar tanta qualidade e sabor num só produto não é para todos!

 

Trazemos os sacos cheios, mel, doce e queijo que farão as delícias de muitos, aliás, na mesa de Ano Novo, foi o amanteigado das Flores que mais sucesso fez numa vasta mesa de comensais e entendidos! Se por aí existe alguém interessado num bom negócio, contacte estes senhores, eu até posso fazer a ponte.

 

Trazemos aqueles três sorrisos connosco e continuamos a nossa aventura! Apreciamos as falésias e paramos no Miradouro dos Caimbros para respirar, pois nem sempre é possível parar o carro e seguir a pé! Que paisagem... E a memória do Corvo... E aquele fim de tarde no BBC na companhia do Fernando Maravilhas e daquelas gentes! Temos também a perspectiva de Santa Cruz com uma vista única e surpreendente - a manhã não poderia ser mais perfeita!

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Se de um lado o sol espreita, nas montanhas as nuvens ameaçam com uma carga de água que acaba por não se confirmar e permite que, entre excelentes fotografias daqueles montes, possamos contemplar a vegetação junto à estrada que é particularmente interessante - dizem nas Flores que podemos entrar na mesma e desaparecer!

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Já estamos perto de Ponta Delgada e deparamo-nos com mais uma vista única! A vila com o Corvo ao fundo faz-nos ficar por ali e esquecer a fome que já aperta, afinal são três da tarde e com tantos périplos e encantes, simplesmente esquecemo-nos que almoçar é uma obrigação para manter o corpo e a alma bem activos!

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Apreciamos as cores que o sol entre as nuvens proporciona no solo e entramos na vila - sabemos das limitações e estamos preparados para não almoçar, no entanto, também estamos nos Açores e na Associação oferecem-nos um café e acabamos por terminar no "Pescador"! Primeiro a surpresa de que ninguém almoça depois das três da tarde, mas depois a simpatia de nos proporem todo o menu, mesmo depois de termos explicado que uma sandes e uma água eram mais que suficientes e não queriamos dar trabalho - acabamos com uma feijoada e um ensopado de borrego que nos souberam pela vida! Mais uma vez, um acolhimento como este só nos Açores.

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E quando pensamos que, com tanta coisa boa, o dia está a acabar, eis que a maior surpresa ainda está para vir!

Continua...

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Hoje o dia é de subida... A manhã está calma apesar do mar não dar tréguas. No Porto Velho, a animação do costume, entre os lobos do mar, um engravatado, o alemão e nós! Depois do café com leite e das tostas mistas - a "toxta mixta" como nos recomendou o nosso amigo germânico - é hora de colocar os viveres para o dia no carro e avançar. 

 

A Zona Central está calma, algum vento, a neblina habitual e uma enorme vontade de subir serra acima. Chegamos e apeamo-nos através do caminho vermelho, como lhe chamamos e que, para mim, é sempre uma imagem que associo aos Açores. E aí vamos nós na esperança de apreciar a vegetação e as marcas da Macaronésia, nomeadamente a Floresta Laurissilva. 

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Agora com mais vento, mais neblina, mas a casmurrice faz-nos continuar - mal sabemos que a chegada ao "topo das Flores" (914m de altitude)  vai ser bastante enovoada - todavia, ainda conseguimos a panorâmica desejada e que, para nós, seria o ponto alto da caminhada - a Lagoa Branca! Paramos, abastecemos o estômago, ainda temos de subir a furar o nevoeiro e o vento!

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Casmurros, mais uns metros à frente, temos a sensação que estamos a subir o Evereste, a neblina é cerrada, o vento torna-se forte! Aguentamos, não sei se nos arrependemos ou não, mas aguentamos! Aguentamos e pensamos nas dificuldades que teriam as gentes da Fajã Grande para atravessarem a ilha e dos pastores que noutros tempos por ali pastavam os seus rebanhos - ainda hoje o fazem, mas em muito menor escala. Pitoresco... bucólico, mas duro... O tecido social dos Açores não se desenhou com facilidades e o que hoje admiramos encerra séculos de vidas muito duras.

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Iniciamos a descida, a próxima paragem são as vistas para as "Falésias da Costa Oeste". Regressar ao carro é ótimo - apesar do frio não ser muito, a humidade já causava os seus danos. Paramos para apreciar a água que, levada pelo vento interrompe a sua marcha em direcção ao solo e é devolvida à origem.

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Voltamos a apreciar as cascatas, agora com uma vista de cima. Imaginamos o espectáculo que ali está a acontecer. A tentação de regressar ao Poço da Ribeira do Ferreiro é enorme e voltamos a colocar a mesma na lista de prioridades diária. O vento aumenta de intensidade mas não desmobilizamos, sentimos o ar do Atlântico a invadir-nos, sentimo-nos parte daquela natureza, queremo-nos sentir na pequenez de sermos humanos.

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A vegetação nesta área da ilha é simplesmente bela, apelativa e muito favorecida pelo tempero do oceano. Desde o Morro, desde a mais rasteira à mais elevada, proporciona a nossas delícias e "empata-nos" no nosso regresso a Santa Cruz onde somos convidados por um dos colaboradores da Caixa Geral de Depósitos a ficar na ilha! 

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Apesar da proximidade, o regresso a Santa Cruz é sempre demorado, existem sempre novos locais, novas preciosidades que chamam a nossa atenção... É tudo isto que torna uma pequena ilha num pedaço de terra enorme.

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Continua...

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Flores, Parte 2: O Poço da Ribeira do Ferreiro, a Rocha dos Bordões e a Fajãzinha...

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IMG_6147.jpgImagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Se São Miguel é a ilha da Lagoa das Sete Cidades, as Flores são a ilha das sete lagoas... Visitar estas lagoas pode ser uma verdadeira aventura, não na dificuldade, são próximas, mas sim pelas mudanças bruscas de tempo. Foram as lagoas onde me apercebi que as mudanças são mais rápidas, apenas em segundos podemos ver, deixar de ver, voltar a ver e por aí adiante.

 

O ideal passa por ir de carro até perto de uma das lagoas e depois descobrir este mundo a caminhar. O mau tempo  (a não ser que esteja mesmo tempestuoso) não deve assustar, não é nada que uma roupa apropriada não resolva. As imagens com que nos deparamos rapidamente nos aquecem.

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Mas as lagoas, sim, as sete lagoas, são elas a Lagoa Negra, a Lagoa Branca, a Lagoa Comprida, a Lagoa Rasa, a Lagoa da Lomba, a Lagoa Funda e a Lagoa Seca

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Deixamos o carro na Estrada dos Ferros Velhos e começamos o percurso pela Lagoa Comprida e aquela cascata a debitar o precioso liquido - apaixonamo-nos. Pensamos em que mundo vivemos e questionamos muitas coisas, chegamos ao ponto de ter um cuidado extremo com o que pisamos sob pena de estragarmos algo único - e de facto é verdade! Pensamos na brevidade dos bons momentos, pois tanto temos uma panorâmica única como uma neblina cerrada que nada nos deixa ver.

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Continuamos acima dos 600 metros e vamos até à Lagoa Negra que deve o nome à cor, não fosse, em alguns pontos atingir a profundidade de mais de 100 metros! Começamos logo por uma das mais belas. Sentados no alto, enquanto pingos de chuva nos caem no corta-vento ficamos num misto de "medo" e paixão - o respeito imposto é enorme, não só pela profundidade mas também pela tonalidade e pelo facto de não haver ninguém por perto! 

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Segue-se uma caminhada até à Lagoa Seca e à Lagoa Branca e de repente percebemos que já estamos num contexto geológico totalmente diferente, menos escarpadas, estas duas lagoas fazem-nos indagar se estamos na mesma ilha. Na primeira vez tivemos má sorte com a ausência de aves mas, na segunda, já foi possível avistar algumas.

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O facto de serem menos acidentadas, torna-as apetecíveis para a "passarada". Apreciar a paleta de cores destas duas lagoas é também uma oportunidade única! Também não nos deixamos enganar pelo termo "seca", a água por lá também existe e cria um efeito singular e contrastante com as demais caldeiras.

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Segue-se a Lagoa da Lomba, calma e serena, de fácil acesso é o local ideal para um lanche e para repor energias - estranhamente o vento que vai e vem já não se sente... Estamos embriagados com tanta beleza, tanta cor, tanto verde e tanta pureza. O caminho até às últimas duas lagoas promete e as botas já pesam - com tantas botas mais recentes, continuamos a preferir as "clássicas" da Timberland, que nem à prova de água são - embora, primeiro que entre...

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Próximas paragens? A Lagoa Funda e a Lagoa Rasa! A Lagoa Funda é simplesmente bela e oferece uma panorâmica singular que se estende bem para lá da caldeira em si... Entre a Lagoa Negra e a Lagoa Funda, não é fácil escolher aquela que é mais "breathtaking"! As suas altas margens e a queda de água dão-lhe um encanto singular e sim, conseguimos avistar a famosa gaivota-de-patas amarelas (larus michahellis atlantis) e a garça-real (Ardea cinerea), esta última tem sempre uma especial simpatia para nós! Ficamos, mais uma vez, apaixonados e siderados com tamanha beleza! Não queremos partir, queremos ficar e... ficamos. Ficamos até a vista não aguentar mais, até o cérebro não conseguir processar mais a miríade de emoções! 

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A Lagoa Rasa fica para o final, bem perto e totalmente diferente, as margens são baixas mas nem por isso perde o encanto, é simplesmente diferente! À semelhança de todas as outras, para degustar...

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É hora de regressar, é preciso ir a Santa Cruz e passar o final da tarde com os nossos amigos no Porto Velho e fazer umas compras no supermercado do proprietário do café - os viveres já não são muitos porque o barco não tem vindo devido ao mau tempo. Amanhã, na nossa exploração, subiremos ainda mais alto e teremos outra panorâmica interessante da ilha, nomeadamente da Lagoa Branca.

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Continua...

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho!

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Créditos: Robinson Kanes e GC

 

A manhã chega com o som do mar a dizer-nos que não está para grandes conversas... Apesar do vento, procuro sair e ficar a sentir a brisa no rosto, a recordar os meus tempos em que passava o fim de semana junto dos lobos do mar e sentia aquele cheiro em Porto Dinheiro ou em Peniche. 

 

Contudo, mesmo para quem gosta de mar, o estômago é quem manda e claro, o pequeno-almoço é no Porto Velho - duas tostas, dois sumos e dois cafés! O resto da refeição é preenchido com animação a cargo dos diálogos entre lobos do mar.

 

Chega a hora de nos fazermos ao caminho e, logo após o Lajedo,  apreciar a "Rocha dos Bordões", ponto de fulcral importância para os habitantes das Flores, além disso é um interessante ponto geológico na medida em que estamos perante uma rocha que se formou pela solidificação do basalto em altas estrias verticais - pensamos em iniciar uma "escalada", mas a incerteza com o tempo e com as autorizações faz-nos recuar.

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Continuamos na direcção de um local que não nos faria recuar nunca, nem que estivessem ventos muito acima dos 200 km/H - na semana anterior a passagem da tempestade "Diana" foi bem sentida embora sem estragos de maior. Refiro-me obviamente ao "Poço da Ribeira do Ferreiro" ou "Alagoinha" como também é conhecido. Para aqui chegar o caminho é feito a pé, e depois de dias de tempestade, nem sempre o caminho está nas melhores condições, no entanto... Preparem-se para entrar numa outra dimensão e deixem-se envolver pela vegetação cerrada, pelos cheiros e pela natureza no seu estado mais puro e, de repente... entram num outro mundo. As cascatas e o poço a fazerem-nos pensar se estamos realmente em Portugal ou numa qualquer floresta tropical. 

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Com aquele local só para nós, ficamos por ali muito tempo, tiramos fotografias, comemos algo para repor energias e não fechamos os olhos! Ficam bem abertos a absorver tamanha beleza para que jamais percamos tais imagens do nosso pensamento! Ousaria dizer que um dia é pouco para por ali ficarmos...

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E por ali ficamos, mas não descansamos, o espectáculo com que nos deparamos não o permite...

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Mas a fome aperta e também as botas pedem mais caminho, é altura de ir até à Fajãzinha (Mosteiro e a Caldeira -sem habitantes desde 1992 por questões de segurança - serviram para relaxar). 

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Descemos e encontramos a pacatez, o silêncio e a pa que caracterizam o local... Temos outra visão da ilha e do espaço, ficamos indecisos entre o apelo da serra e do mar, das gentes e de um cheiro a comida que anda pelo ar...

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Do lado da serra, a neblina anuncia que o tempo muito provavelmente vai fechar e ainda temos mais uma etapa pelo caminho antes de jantar com um casal de alemães (novamente os alemães, mas não me perguntem porque temos esta afinidade com aquele povo) num restaurante onde os produtos servidos são todos locais e biológicos - a Casa do Rei, também nas Lajes da Flores! Uma nota, o restaurante é propriedade dos mesmos.

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Mas antes do jantar é preciso arriscar um pouco mais e partir em direcção à Fajã Lopo de Vaz, mais escondida e mais perigosa! Queremos, contudo, ver as cascatas a debitarem a sua água no mar e queremos percorrer todos aqueles caminhos enquanto o vento e a cacimba nos afrontam. Chegamos ao ponto onde as tempestades também entram pelas Flores, por norma, antes que de chegarem a outros grupos e até ao continente, é nas Flores que as tempestades abrem as hostes em território português!

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Nas Flores, por pior que seja uma tempestade, nunca é um drama para os seus habitantes, diz-se mesmo que, quando nas ilhas do grupo central e oriental ficam em pânico, nas Flores, onde estas são mais fortes, o povo recebe-as calmamente, até porque é aqui que, por norma, são mais fortes.

Continua...

Flores, Parte 1: A Chegada, as Lajes e o Porto Velho

 

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

Sou suspeito a falar dos Açores, afinal são aquele local mágico que me deixa apaixonado e destrói qualquer tentativa de imparcialidade da minha parte - todavia, nada me poderia deixar mais encantado e surpreendido que a ilha das Flores, tal facto, a par com o Corvo, levou-me a que o regresso fosse quase imediato. Como cheguei às Flores? A aventura começa no Corvo.

 

Depois da "pior" aterragem da nossa vida, as Flores são famosas por isso, mais uma vez, aqui presto a minha homenagem aos pilotos da SATA que fazem os voos inter-ilhas, especialmente ao comandante Luis Gouveia - um senhor altamente respeitado nos Açores, especialmente nesta ilha. Só para que se tenha uma ideia, o voo daquele dia acompanhou-nos durante uma semana pois sempre que mencionávamos a data do mesmo, todos sentiam uma espécie de compaixão por nós tal fora o tormento e a imagem que se teve de fora, imaginem lá dentro! No entanto, se existem aviões no mundo que também merecem o meu respeito e admiração são os Q200 e os Q400 (e o velhinho Dornier).

 

Chegar às Flores é entrar num mundo mágico! É estar no meio do oceano num pequeno pedaço de terra, com o Corvo bem perto mas onde o conceito de Europa já é vago. Pode ser assustador, pode causar algum desconforto, mas basta chegar ao aeroporto e começar a conhecer os florentinos para rapidamente percebermos que afinal não estamos assim tão "deslocados".

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Desta vez, as Lajes das Flores foram o nosso quartel-general. O nosso amigo alemão tem lá casa ( e também espaço de alojamento local) e é um apaixonado pela ilha! É difícil a escolha quando se vai às Flores - entre o alemão e a antiga messe francesa (Santa Cruz) - mas lá iremos.

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Pelo caminho, na "marginal" que vai de Santa Cruz às Lajes rapidamente começamos a subir e podemos ter uma panorâmica de Santa Cruz - a capital da ilha - e da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Também é daí que temos uma panorâmica fantástica para assistir às aterragens e descolagens a Oeste, normalmente, verdadeiras aventuras. É por aqui que se começa a ter o primeiro contacto com o gado (ou não estivessemos nos Açores) e com o mar.

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É por este caminho que vamos tendo o primeiro contacto com as famosas cascastas e, se ficamos surpreendidos logo de início, mal sabemos o que nos espera. É também por este caminho que encontramos fantásticas vistas, das quais se destacam o miradouro da Fajã do Conde, a Gruta dos Enxaréus e claro, algumas localidades peculiares como Barqueiros, Caveira e Lomba. Já nas Lajes, a visita ao "Porto Velho" é obrigatória! Antes, nada como contemplar o porto e apreciar o farol... Quando o mar está como Redol o descreve (no contexto da Nazaré) em "Uma Fenda na Muralha", conseguimos assistir a um espectáculo único em que o respeito, a admiração e o medo se unem numa sensação boa!

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Mas o que é o "Porto Velho"? Um café! Um simples café onde novos e velhos lobos do mar, turistas, desempregados, funcionários públicos e bancários se misturam num ambiente único e singular onde se combate o isolamento com a proximidade e com a camaradagem. Por lá, mandam os lobos do mar, é ali que muitas vezes esperam a bondade daquele oceano para se fazerem ao mar. O "Porto Velho" é um café onde a tosta mista não é a melhor do mundo, onde a decoração não prima pelo melhor dos gostos, onde as refeições até são apetecíveis mas onde tudo tem um sabor que não encontramos em lado algum! O café aqui tem um sabor especial, as conversas duram horas a fio - são as paredes onde alguém, cuja infância também passou por temporadas junto ao mar e pôde observar a vida da faina, se sente num autêntico Louvre de etnografia e acima de tudo de vivências, amizade e nostalgia.

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