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Irrepresentable...

por Robinson Kanes, em 22.01.21

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Imagem: GC e Robinson Kanes

 

Mon royame est de c'est monde.

Albert Camus, in "L'Envers et l'Endroit" (Amour de Vivre) - Camus cita os gregos contrariando o que Cristo respondeu a Pilates em João, XVIII, 36 

 

Não tento sobreviver ao vírus, tenho as minhas cautelas, os riscos existem, isso basta-me para me sentir bem - no que concerne à desgraça, lamento não dar para o peditório, usando as palavras de um dos visitantes deste espaço.

 

Procuro sobreviver ao agudizar da hipocrisia (agora as políticas governamentais já são más, mas há uns meses chamavam a quem tal afirmava de idiota) numa fase em que temos de garantir a paz e a calma, agora é tarde e também é cedo para apontar armas. Agora não é tempo de discursos da moral, das opiniões que mudam segundo as redes sociais, segundo a turba e as diferentes plataformas, noticiosas e não noticiosas. Como se muda de opinião de um minuto para o outro, hoje em dia... Ainda bem que tal, maioritariamente, só acontece a quem usa o teclado de forma pública... Ainda bem...

 

Tento sobreviver ao pânico e ao medo, não em mim, mas junto de alguns que me rodeiam, não é fácil quando tenho uns minutos face aos meses de invasão grosseira da mente que  tantos continuam a perpetrar a troco de leituras e audiências. Talvez agora me chamem de idiota, como "chamaram" há uns tempos... Mas perdoem-me não resistir ao mordaz e cínico: eu bem dizia! Leia-se eu como um grande "nós".

 

Não exploro esta situação como uma espécie de carona invertido, não me coloco como especialista em saúde, apenas alguém que diz umas coisas e que parece que ao invés de procurar holofotes, teima em disparar sobre qualquer luz que se acenda - uma busca por não sofrer por aquilo em que não acredito, pois isso faz-me não acreditar na vida e não a pretendo jogar à aventura, socorrendo-me aqui "Do Mundo Original" do grande VF . Talvez um dia me arrependa, quiçá... 

 

Nessa sobrevivência, e não sendo um homem que aprecie as quatro paredes de um escritório, por vezes é necessário uma retirada, não gosto da palavra meditação... Sair das gentes, pensar a sós, isolar-me desse mundo nem que o escritório mais formal dê lugar ao assento de um carro ou mesmo a um tijolo qualquer numa praia ou beira-rio desprezada e pejada de detritos. 

 

Retiro-me, não escuto o "Addio a Palermo", de Morricone e composto para o filme "Corleone", como por estes dias mencionei ao amigo João-Afonso. Procuro outras sonoridades, talvez me faça bem agora o "Vacío Sideral" de Miguel Ángel Delgado e do espectacular albúm "En Mundo en la Boca".

 

Deixo que o vento me misture os pensamentos, o meu reino é, de facto, deste mundo... De um mundo que desconheço e que rapidamente oscila entre o discurso mais terno e a mais ignóbil descarga de ódio. Um mundo de faz de conta ou talvez não... Talvez esse reino seja mesmo assim e os restos de acomisme sejam isso mesmo, detritos de uma esperança que nunca se concretizará - o melhor dos mundos poderia ser hoje e não é, porque terá de ser no futuro que se avizinha ainda mais desafiante e sedento de Homens sem conseguir livrar-se de wannabes. A Terra bem roda... Mas teima em não conseguir sacudi-los para fora da sua órbita ou sequer transformá-los em húmus transformando podres almas em saprófitas.

 

Acabo este texto a ouvir Davide Salvado, e o seu galego inconfundível... Talvez o "Aire" de um dos melhores músicos da Ibéria me possa inundar e me dar todas as forças para vencer mais um dia em que sei que tenho de estar bem para que outros também possam estar. Preciso dos ares de lá... Sufocam-me os ares de um rectângulo fechado sobre si próprio... Um rectângulo irrepresentable de García Lorca mas com uma náusea perpétua cujas metástases corrompem um dos solos mais ricos do Mundo.

 

São horas de levantar, aguardo mais uns minutos. Fecho um pouco os olhos e deixo que o Tejo se transforme na Avenida de la Constitución em Granada... Permito-me, eventualmente, a ter dois dedos de conversa com o poeta e com o dramaturgo acerca da revolução social antes de voltar ao reino.

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Respirar Saint-Germain-des-Prés e o Sena...

por Robinson Kanes, em 13.11.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Era Victor Hugo quem dizia que respirar Paris era das melhores coisas que se poderia fazer para cuidar da alma...

 

Pois assim é... Um dia preenchido pela frente, além de que os passeios junto ao Sena são sempre uma obrigatoriedade, mesmo enfrentando alguns indivíduos que deixam cair um anel, perguntam se é nosso e depois tentam vender-nos por um bom preço alegando que se trata de ouro. E assim foi, contudo, não tentando repetir o último que praticamente acabou em Créteil.

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Saint-Germain-des-Prés sempre ali presente, sempre com o seu habitual glamour que atravessa séculos e que nos traz de volta para romances, peças de teatro e composições únicas que nos transformam a cada viagem àquela cidade. Estranhamente, talvez por ter sido um dos meu primeiros contactos com Puccini, tenha sempre esperança de encontrar Mimi; Rodolfo; Marcello; Colline; Schaunnard e Musetta a deambular pelas ruas. Espero mesmo encontrá-los e poder juntar-me num qualquer café daquela zona e beber a Murger, Puccini; a "La Bohème" sem esquecer Illica e Giacosa. 

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Paris consegue ainda conservar muito daquilo que a torna para muitos a capital do Mundo. Atravessar o quarteirão das Universidades é deambular por muito do conhecimento que ainda hoje transforma o Mundo, é sentir o Maio de 68, sobretudo por quem nunca o viveu e só o conheceu nos livros de História e Política. O Maio de 68, que grandes e acesas conversas já permitiu ter num pequeno café, junto a uma praça perto da sede da UNESCO. É também por aqui, antes de chegarmos aos "Jardins de Luxembourg" que temos talvez umas das mais belas vistas (embora distante) da "Tour Eiffel".

 

O sol convida a que apreciemos este passeio, até os corpos aquecerem e refugiarmo-nos nas sombras ou no Panteão. Hesitamos... Voltamos lá? Continuamos, este Paris soalheiro não pode ser desperdiçado e temos falta de um almoço... Escolhemos um que nos recomendou um polícia (na ausência de camionistas, os polícias e os taxistas sabem sempre onde se come bem). Como não poderia deixar de ser, não ficámos mal, uns cogumelos, uma carne daquelas e um Bordeaux tinto. 

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Planeamos a tarde... O fim do dia será num banlieue fora de Paris. Um árabe "de Agrigento" que em tempos conhecemos em Orly e que ía para a Sicília convidou-nos para um jantar, pois encontrava-se na cidade para visitar a filha. Timing perfeito! E é neste planeamento que me lembro da "Église de Saint-Denys-du-Saint-Sacrement". Um tesouro escondido, pois é lá que se encontra uma pintura de, e façamos uma vénia, de Delacroix. A "Pietá" em todo o seu esplendor "Le Christ Descendu de la Croix" bem perto de uma sala também interessante a "Comédie Bastille" e de mais uma das surpresas "escondidas" de Paris, o "Musée Cognacq-Jay" onde descobrimos o "Banquete de Cléopatra" de Tiepolo.

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E caramba, como o sol em Paris pode queimar verdadeiramente, já não precisamos de Biarritz nem tão pouco de Saint-Tropez, Paris encarrega-se de nos queimar a pele...  É hora de partir, o Hassane está à nossa espera e ainda nos deixa tirar uma fotografia da lua, fora das luzes da cidade do Sena.

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Honfleur, uma cidade portuária

Atrás de Marcel Proust em Cabourg

A pacata e firme Caen

Bayeux: uma jóia normanda

Normandia: um dia de homenagem

O Mont-Saint-Michel

Saint-Malo, a cidade pirata

 

 

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Félicitacions Boris Vian...Oh! C'est Divin...

por Robinson Kanes, em 07.11.20

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Créditos: https://beta.prx.org/stories/126076

 

Este Domingo, o CCB vai homenagear Boris Vian , um dos grandes mestres da literatura e da música que em Março faria 100 anos... Deste senhor, "Irei Cuspir-vos nos Túmulos", "A Espuma dos Dias" ou "As Formigas" estarão sempre cá guardados... E quando a prosa é boa e a música também, não haverá muito a dizer... Vamos apanhar uma valente bebedeira de "Bordeaux" no "Club Saint German des Prés" e celebrar até a malta cair ao Sena!

 

A mon "ami" Vian, Félicitacions! Pour vous "Le Déserteur", et on va écouter pour Jacques Canetti! 

J'suis snob... j'suis snob...Tous mes amis le sont...On est snob et c'est bon... Temos pena!

Bom Domingo!

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Créditos: https://www.ndr.de/geschichte/chronologie/wende/Tag-der-Deutschen-Einheit-Wiedervereinigung-am-3-Oktober-1990,tagderdeutscheneinheit107.html

 

Quiero irme de este mundo sin saber muchas cosas,  porque hay cosas que el saberlas mancha.

Miguel de Unamuno, in "La Tía Tula"

 

 

O que é que a reunificação da Alemanha tem a ver com lulas à basca? Nada... É importante esclarecer. Deste modo, e como é importante tirar o pé do pedal, o tema de hoje é mais ligeiro.

 

Dia 03 de Outubro de 1990, diz alguma coisa a alguém? É o dia da Reunificação Alemã. O dia da Queda do Muro de Berlim traz más recordações porque choca com outras efemérides, por isso fica a data protocolar e o dia feriado na Alemanha. Espero que os media e os comentadores de trazer por casa troquem esta data pelas idas à casa de banho e pela quantidade de zaragatoas utilizadas em Trump... Sem esquecer o número de vezes que Trump tossiu sem abanar o capachinho. Odeiam o cavalheiro, mas ninguém dispensa um minuto sem gastar uns bites com o senhor, Marcelo começa a ficar gasto, sinal disso é a catadupa de sondagens para promoverem a campanha, e até Salvini em Itália é coisa do passado. Hoje, falemos de liberdade, pelo que, juntemo-nos aos alemães e celebremos este dia tão importante para a Europa e para o Mundo... Fico para ver, até porque eu mal me lembro, já muitos que assistiram devem ter esquecido.

 

As lulas... Por aqui, de vez em quando inventa-se, e agradeço ao basco que me ensinou a receita em Barcelona e ao outro que perto do local onde o Urola encontra o Oceano me disse que isso é a coisa mais fácil do Mundo. Enfim...

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Imagem: Robinson Kanes

 

Coisa simples, lula fresca (descongelada na falta de melhor) et voilá, meus amigos. Molho verde a dar um toque à coisa e eu só lhe coloquei umas couves de bruxelas para trazer umas leguminosas para o prato. Aqui tenho de admitir, lulas frescas compradas no Continente e estavam uma maravilha. A foto está tremida, mas garanto que não foi da Estrella Damm e agora também não estou com vontade para retocar.

 

Finalmente, se este fim de semana também não tiverem que fazer, aproveitem para ler o Vorph no SardinhaSemLata, hoje é o dia do meu convidado e para os que gostam de Ópera, aproveitem as sessões online da Metropolitan Opera, os "Nightly Met Opera Streams", penso que para os próximos dias é "Don Giovanni", de Mozart, que estará a rolar. Anda por aí um comentadeiro da praça a anunciar há anos que a ópera morreu, mas parece-me que o equívoco está para durar... Além de que se esquece das produções contemporâneas, eu pessoalmente até acho que se a rádio e outros meios audiovisuais tivessem mais de 30% de indivíduos com a dicção desse indivíduo estavam condenados a desaparecer. Se ele faz humor, permitam-me também, por favor.

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Créditos: Marty Sohl / Met Opera

E penso que seja isto, embora uma certa vontade em ser pedante me dê para sugerir um livro: "La Tía Tula" de Miguel de Unamuno. Porque me apetece e porque me recorda a aquisição em plena Gran Via, no dia daquela famosa marcha em Madrid e que, segundo muitos, terá sido uma das principais fontes de transmissão do vírus que nos assola. Acompanhem a agonia de Gertrudis e um Unamono inquieto e atrevido.

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Imagem: Robinson Kanes

 

Bom fim-de-semana,

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Uma Surpresa entre Vialonga e Bucelas...

por Robinson Kanes, em 16.09.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Há que distinguir entre conhecer e experimentar. Verdade conhecida não é o mesmo que verdade experimentada. Devia haver duas palavras distintas.

Aldous Huxley, in "Sem Olhos em Gaza"

 

Ainda eram os tempos da roda 26" e da Scott que, pontualmente, ainda roda por estas bandas. Descarregada perto do Parque das Nações e já a rolar, a direcção apontada foi a chamada "Serra de Santa Iria", já no concelho de Loures. À partida seria um passeio "pouco" interessante, citadino e com muita estrada, no entanto...

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No entanto... Chegar ao Parque Urbano de Santa Iria e ver a lezíria de Loures, leva a que exista uma enorme vontade em prosseguir com o caminho, até porque, tendo em conta a localização da minha base, podia fazer o percurso de forma circular e chegar rapidamente por Unhos até à foz do Trancão. Assim seria, não fosse descer a serra e ao chegar à Granja e deparar-me, para lá do MARL, com outra serra e com a ideia de que as vistas não me iriam desiludir. Pensar que por ali, entre a Granja e Vialonga, às portas de Lisboa e já no concelho de Vila Franca de Xira, teve lugar a famosa Batalha de Alfarrobeira que opôs a Casa de Bragança à Casa de Coimbra em Maio de 1449 e que ditou a morte do Infante D. Pedro e do famoso Conde de Avranches.

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Sigo o percurso, atravesso alguns bairros de má fama que tendem a afastar visitantes, no entanto, como é habitual, tudo decorre sem problemas e ainda há tempo para receber o bom dia (algo que em bairros de melhor fama escasseia). Subo por Mogos e passo ao lado da Mata Paraíso. Decido parar e beber um pouco de água. Um local simples, já de algum modo altaneiro e incrivelmente surpreendente. Dou comigo a pensar que estou na estrada que vai terminar nos "queijinhos frescos", uma pequena taberna que muitas vezes visitei na infância e que, pasme-se, me encantava já pela boa comida e por ter um parque onde, não raramente, fazia os chamados amigos de ocasião. Ficava em Santa Cruz e é por aí que passo.

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Prossigo, a manhã está fria e não me arrependo do equipamento de Inverno da saudosa Trek, sigo pela direita e vou em direcção ao monte, ladeado por pedreiras, mas que ainda continua preservado. Pelo caminho, ainda há tempo para fazer amigos - um porco preto no meio da serra às portas de Lisboa... 

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É depois de subir com alguma força no pedal, que chego ao topo e me deparo com uma das melhores vistas da área de Lisboa a este. De um lado os montes e a vila de Bucelas (terra de bom vinho e especialmente de Arinto) do outro uma vista para cidade e para o Tejo já com o Ribatejo no horizonte. Lá em baixo a Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) e o verde que já antecipa os limites da cidade. Tão perto de tudo e já tão longe numa manhã deveras inesperada. O almoço foi regado com um Arinto de Bucelas, não poderia haver melhor celebração para tão rica e surpreendente manhã.

 

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Costa Nostra...

por Robinson Kanes, em 12.09.20

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Créditos: https://jornalacores9.pt/costa-acompanha-frustracao-de-medina-mas-defende-que-meios-estao-a-ser-reforcados/

 

A melhor forma de assustares um português? Fala-lhe em mudança, nunca mais o vês!

GC

 

Admito que, depois do último artigo, tinha pouco interesse em repetir o tema da Sicília, todavia, algumas das "grandes" figuras nacionais não me dão muita hipótese de ser impopular. Como poderá dizer uma certa juíza entretanto silenciada, "são escolhas".

 

Na verdade, e nada tenho contra o futebol, devo admitir que em Portugal (e não só) a promíscuidade entre política, comunicação social e clubes de futebol é escandalosamente arrepiante.

 

Para citar alguns exemplos, temos o caso de um sem número de governantes que em tempos, a troco de um jogo de futebol num europeu de, venderam a alma ao diabo. Um faleceu entretanto e foi visto como um herói, outros pagaram uns tostões e não foram a julgamento. Para mim isso não é inocência, é pagar para não ser encarcerado e manter as regalias na função pública. Afinal, também por "cá", Cristiano Ronaldo e José Mourinho pagaram e ficaram "meninos de bem". Ai se o "Toino" sabe, da próxima vez que se vir a passar 5 anos na cadeia por ter roubado uma banana no hiper low cost vai alegar a jurisprudência para se livrar do cárcere.

 

Outro exemplo, é também o de um ex-ministro das finanças (e não é caso único) que utilizando o cargo, mendigava lugares na tribuna de honra de um determinado clube de futebol para que o filho também pudesse assistir a jogosl, e sobretudo trabalhar o seu networking com a malta influente.

 

Temos ainda o sem número de agentes políticos que surgem em comissões de honra e orgãos gestores de clubes de futebol, mesmo quando ainda exercem funções públicas e com total incompatibilidade com os cargos, o mais recente caso de Rui Moreira na Câmara Municipal do Porto disso é exemplo.

 

Finalmente, temos também um jornal nacional que tem como comentador o Director Geral da Microsoft para a Europa Ocidental, e é com este título e também como sócio que se apresenta, a defender um clube de futebol - não como um parceiro de negócios, mas como uma espécie de adepto possuído. Se está autorizado pela organização que representa, podemos aceitar, embora não me pareça propriamente a melhor prática dentro da Microsoft. Em relação ao jornal que publica o artigo, já sabemos como estas coisas funcionam... "Está desculpado". Sabemos que a Microsoft tem o Benfica como cliente, e isso é óptimo e em nada censurável, bem pelo contrário, no entanto existem linhas, mesmo no negócio, que nunca se ultrapassam - e não é só por uma questão ética e profissional, mas também relacionada com o próprio negócio. 

 

E tudo isto para chegarmos ao mais recente exemplo, onde o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o Primeiro-Ministro (o primeiro sem o segundo não existiria, portanto, uma espécie de "mini me") surgem na comissão de honra de um candidato à presidência de um clube de futebol. A promiscuidade, mais uma vez ao seu mais alto nível, sem esquecer que num país civilizado e prudentemente governado, não é admissível este comportamento. Na eventualidade  de ser uma prática moralmente aceitável, existem mais clubes na cidade. Por sua vez, também a pessoa do candidato que ambos apoiam e o próprio clube encontram-se envoltos em polémicas e processos judiciais. Todos são inocentes até trânsito em julgado, no entanto, patrocinar candidaturas no decorrer do processo não é a melhor forma de mostrar neutralidade e ausência de pressão sobre os agentes policiais e judiciários. Talvez a impunidade que ambos têm tido em várias situações os deixe tranquilos.

 

Concluíndo, e voltando à Microsoft, é bom lembrar que por muito menos, existiram marcas que abandonaram determinados indivíduos ou organizações. Por cá, parece que as coisas funcionam ao contrário.

 

Em suma, é motivo para dizer que num país de máfias, umas mais pequenas e outras maiores (e na sua maioria recheadas de alorpados cretinos) mas com graves danos para o país, a Costa Nostra é mais uma que veio para ficar.

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Faz-me favas com chouriço... O meu prato favorito... Quando chego para jantar... Quase nem acredito! Poderia ser a música de José Cid, mas não. Desta feita o Robinson foi à fava e sacou um belo entrecosto com favas, mentira, foi mesmo a alemã. A carne de porco não é uma das presenças mais habituais cá em casa, não obstante, um belo entrecosto bem temperado e uma favas, quem resiste? A receita também não é das mais complexas e acompanhada, mais uma vez, por uma Moretti, é de chorar por mais... Aprecio bastante a Nastro Azurro é mais difícil de encontrar por cá, embora em Santa Maria da Feira exista um distribuidor.

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Para os que defendem que beber cerveja é coisa que não vai bem que um petisco destes, junto um pouco de atitude e nobreza ao prato e carrego com um "Pacheca". Um tinto de 2017 a trazer-nos de volta ao Douro. E o Douro, o que dizer...

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E agora entro em mais um momento old school e sendo um apaixonado pelo Mediterrâneo e por Espanha, não posso deixar de me recordar de um dos maiores êxitos de Joan Manuel Serrat, "Mediterráneo". É música de velho, mas tendo em conta o que se ouve hoje. A propósito, Lena D'Água é a artista feminina do ano... Pronto, lá se vai o entrecosto pela goela acima. Como é que é possível que... Em Portugal o "choradinho", a família e os amigos nos locais certos fazem milagres. E convenhamos, um milagre de todo o tamanho, acho que nem Nossa Senhora foi capaz de atingir tão elevado grau de complexidade.

E antes que um cavalheiro me venha chamar burguês, passem num cinema e vejam o novo filme do sempre brilhante Elia Sulleiman "It Must be Heaven" ou como é conhecido por cá, "O Paraíso, provavelmente". Confesso que adorei este filme premiado em Cannes e onde me ri e fiquei a pensar... Em como lá, como cá, ficamos a pensar no que realmente muda. Top! Será o mundo realmente uma Palestina como disse o realizador?

Finalmente um livro... "A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro. Os recentes incêndios na Covilhã despertaram-me para a memória deste livro. Tendo uma mãe beirã, entendo o que significa e  amargura-me ver como a serra vai ardendo... Tempos difíceis os relatados no livro onde a esperança alterna com o desencanto.

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E para pensarmos... Sobretudo tendo em conta os tempos actuais e um episódio em particular relacionado com bancos, uma frase de Manuel Vilas, um dos melhores da Espanha actual, que pode ser lida na sua obra "Ordesa": E quem é o Estado? É uma sobreposição amarelecida de vontades cansadas, que já não pensam, que pensaram há muitas décadas,  e que a preguiça,  que é a mãe da inteligência , perpetua.

 

Bom fim-de-semana,

 

P.S.: as mulheres de Braga "têêm" charme, aproveitem e levem uma às "Frigideiras do Cantinho"... Apesar da simpatia, pago-as sempre pelo que, a sugestão é baseada apenas no meu bom gosto, vá... Mesmo congeladas e depois aquecidas, ui...

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Playlist bem regada...

Para um fim-de-semana de Maio...

por Robinson Kanes, em 09.05.20

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Créditos: https://altovineyards.net/wine-and-music/

 

 

A maioria dos homens não tem destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa".

 

O primeiro fim de semana onde já muitos sentem a ordem de soltura, para outros com ordem de soltura diária, talvez, uma noite de final de semana mais pacata... Entre um Porta de Santa Catarina Tinto de 2015 e um que recorda o Pico nos idos de Maio, a música em épocas de complexidade, terá outra entoação mais forte. Caríssima, este também marcha bem e nada como aproveitar uma ida a Estremoz e trazer uma caixa de branco e outra de tinto. E usted tome lá mais um... Ainda estou à espera de um prometido petisco...

 

Hoje enquanto conduzia, uma pérola na SBSR, Lou Reed com "Perfect Day", bem a propósito, depois de ouvir o pessimismo disfarçado com optimismo bacoco, realmente nada como um néctar musical destes.

Ainda numa onda de pensamento, nada como navegar com uma voz conhecida dos Kings of Convenience, Erlend Oye & La Comitiva com "Paradiso". Uma voz nórdica com requintes de mediterrâneo, ideal para a noite quente e para ouvir de copo na mão... Música suave, para embalar a alma tranquilamente entre o cheiro do rio e o sabor do luar.

Já me perguntaram o que é que eu tenho contra a música portuguesa. Pouco, só não gosto da nossa língua em modo cantado, parece uma língua eslava e mesmo assim existem línguas eslavas que se bebem melhor que a nossa. Depois temos a qualidade que não abunda... Talvez duas das poucas excepções se possam encontrar na letra e música de José Mário Branco, "Inquietação". Camané e os Dead Combo numa versão simplesmente espectacular... Finalmente em português e com todas as inquietações que nos percorrem actualmente.

Uma letra interessante com o que de bom ainda se fez nos anos 90, onde a boa música (salvo a dos grandes) já começava a declinar. Manic Street Preachers, com "Motorcycle Emptiness". Actual, sempre actual, feliz ou infelizmente.

Pensar onde é que é a nossa casa... Será que tem de ser onde vivemos. Será que é esta a nossa casa. Onde é que é o nosso país? Tem de ser aquele que nos viu nascer? Podemos pensar nisso enquanto os Kaiser Chiefs interpretam "Coming Home".

Falou-se em casa... Talvez esta música aqui não se relacione muito com a playlist que hoje trago, mas quem me conhece sabe perfeitamente o que significa "El aire de la calle". Já me faz falta esse ar temperado com a fritura, com o aroma da Cruzcampo ou até com uma Alhambra que me diz menos. Um eterno delinquente mental a ouvir "Los Delinqüentes"... Esta malta de Jerez de la Frontera já está crescida...

Surge aqui, mas poderá ser efectivamente a última música, para o último copo e para a última fatia de queijo... Não encaixa, não tem de encaixar, mas a noite não pode acabar de outra forma e por isso mesmo o argentino Federico Aubele deixa-nos os seus "Postales".

Peter Gabriel, porquê? Porque sim, é Peter Gabriel... Escolhi "Darkness" mas a lista seria longa.

Já por aqui passaram, não podia deixar que o "Silence" da noite não fosse quebrado pelos "Manchester Orchestra". Há ruídos baixinhos que provocam grande tumulto...

Fecho com uma banda que me tem acompanhado há muito, não que prossiga com novos discos mas tem sido uma presença constante desde 2010, os "Oi va Voi". Também hoje pensamos em "Yesterday's Mistakes", espero que possamos aprender com os mesmos... Tenho dúvidas, mas basta que uma meia-dúzia já o consiga fazer para que o mundo seja um lugar bem melhor.

Bom fim de semana,

P.S.: Para não dizerem que sou do contra... Partilho aqui uma ideia do Rui Melo, do Henrique Dias e do Sérgio Graciano. Terminemos assim em grande com um musicaaaaaaaaaaaaaaaaaaal! 

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Becket e Lorca encontram-se e ouvem ODO Ensemble.

por Robinson Kanes, em 13.12.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

Sexta-feira, não é em Albufeira mas podia ser... Ou talvez não. Não sei!

 

Com o Natal a aproximar-se, cada vez são mais as mensagens que aqui vão chegando. Não são as melhores e fazem-nos questionar se é este Natal que queremos. Mas falemos de coisas boas e nada como entrar a matar com música boa, não de Natal, que é de fugir.

 

Um ensemble que descobri por mero acaso enquanto procurava sons que completassem a minha paixão pelas sonoridades arménias. O ODO Ensemble não é Arménio, até tem origens em Cluny, no entanto, as suas sonoridades medievais e de world music são deslumbrandes.Então quando os sons têm origem naas arábias nos balcãs... Simplesmente genial! Este agrupamento que, e que tem o seu suporte como associação que encontra na música a sua fonte de pesquisa e descoberta, merece uma escuta atenta, e porque não com "Ir Me Kero Madre". Isto é trabalho, isto é ser músico...

Para ler... Não vou muito longe e partilho o livro que estou a ler actualmente: "Molloy" de Samuel Beckett. Um dos romances da trilogia "francesa" do autor, "Malone Dies" e "Unnamable" são os outros dois. Viajar na mente e no comportamento de "Molloy" e "Moran" (sem esquecer a presença da mãe do primeiro, é entrar no mundo de Beckett de uma forma surpreendente. Vai ser interessante perceber o modo como se cruzam os dois primeiros ou se serão só...  (Recomendo a leitura em inglês).

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E já agora, ide a Oeiras ao Auditório Municipal Eunice Munõz e entreguem-se a Garcia Lorca... Ainda se vai falar muito dele por aqui! Tem um espaço muito especial cá por casa, sobretudo no que depende da alemã... Pois, a peça: "A Casa de Bernarda Alba".

 

Finalmente, porque o cinema também é importante, "La Classe Operaia va in Paradiso" de Elio Petri. Mais um vencedor em Cannes, corria o ano de 1972! Um filme interessante e que acabou por ser até um case study. Mais cinema política italiano e que interessa quer a um lado quer ao outro da barricada. A actuação de Gian Maria Volonté é brilhante!

E do Uganda, uma mensagem para o mundo: não é preciso uma eternidade e muita coisa para fazer a diferença, para alguns, basta um dia... (e nós por cá, devemos andar mesmo a dormir).

Obrigado John!

 

Bom fim-de-semana,

 

 

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O Vergílio e o Sapolsky bebem Moscatel e comem Pistácios.

Entretanto vão ao teatro, ouvem Rachmaninov pelas mãos de Ashkenazy e assistem ao Bloody Sundae...

por Robinson Kanes, em 08.11.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Que poderia sobrar de um homem, em face de um irmão assassinado? os mortos cantavam a promessa, o sangue tingia a madrugada. E um deus que revivesse poderia ter anunciado a recriação do mundo, porque tudo o prometia em perfeição.

Vergílio Ferreira, in "Cântico Final"

 

 

Para este fim-de-semana, mais do que uma partilha de sentido único, decidi "convidar" alguns seguidores habituais para me ajudarem. De certo modo não foram convidados mas os gostos cruzaram-se e assim é também em espécie de dedicatória aos mesmos nesta iniciativa que já vai tendo lugar semanalmente.

 

Para uma leitura de fim-de-semana, não serão os livros ideais, mas poderão acompanhar, sem dúvida, muitos de vós durante dias e até semanas. Falo de "Cântico Final", de Vergílio Ferreira, livro que sei estar a ser lido pelo nosso amigo "Folhas de Luar". Vergílio Ferreira já é presença habitual neste espaço, por isso, nada melhor do que acompanhar Mário numa reflexão sobre arte, sobre vida e morte. Um livro forte, de 1960, e bem ao estilo que Vergílio Ferreira nos habituou.

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Também sei que o nosso amigo Vorph Valknut está a ler uma bíblia, o livro "Comportamento" de Robert Sapolsky. Sem ser indecifrável mas com um rigor extremo, já o disse, é um livro de leitura obrigatória! Tornar-nos-ía melhores seres-humanos, aliás, ajudar-nos-ía a conhecermo-nos como tal ao nível do nosso comportamento. Genial!

 

É óptimo se o nosso córtex frontal nos levar a evitar tentações. Mas geralmente é mais eficaz quando fazê-lo se tornou tão automático que já não é difícil. E em geral é mais fácil evitar tentações com o uso de distinção e reavaliação do que com força de vontade.

Robert Sapolsky, in "Comportamento"

 

Para ver? Depois da polémica da McDonald's, nada como perceber o que foi o verdadeiro Bloddy Sunday, um massacre que ainda hoje envergonha Inglaterra. A 30 de Janeiro de 1972, o IRA ficou mais reforçado na sua acção sobretudo depois do saldo se ter cifrado nos 14 mortos... 14 inocentes que se manifestavam e que viram o exército indiscriminadamente disparar sobre estes. A verdade é que apesar de tudo, a tensão, ainda hoje é latente apesar de alguma acalmia e procura de chegar a uma paz permanente. Não critiquei a campanha, mas simplesmente a hipótese do facto ter passado por tanta gente "competente" e ninguém ter percebido do que estávamos a falar... Grande e premiada obra de Paul Greengrass e que encontram no Youtube - é história e uma lição de que a liderança (hoje tão badalada) é uma coisa muito complicada. Só com David Cameron as desculpas chegaram, uma vitória tardia da justiça!

Passem também pelo São Luiz e assistam ao texto de Mário Benedetti encenado por Marta Carreiras e Romeu Costa, "Pedro e o Capitão". Ivo Canelas e Pedro Gil em altas! 

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Finalmente, algo para descontrair, uma música... Mantenho-me pelos clássicos: Rachmaninov pelas mãos de Vladimir Ashkenazy! Fica aqui um pequeno aperitivo de "Morceaux de salon, op.10"... O piano é mágico mas com notas de Rachmaninov e Ashkenazy torna-se em algo... Escutem o CD e o vosso fim-de-semana será bem diferente.

Finalmente, e para pensarmos... No país da "Web Summit", no país evoluído e da alta tecnologia, será que ninguém ainda percebeu (e já nem falo dos impactos na natureza, muito repetidos por aqui) que a subida do nível dos mares é uma realidade e portanto o novo aeroporto do Montijo tem uma duração mais do que limitada? Também no país da tecnologia é preciso que na televisão se fale de um bebé num caixote do lixo para de repente termos tanta sensibilidade quando o que não faltam são bebés para adopção mas esses estão melhor dentro de muros? Quanto vale uma "selfie" nos dias de hoje se for no momento certo, com as pessoas certas e com o circo mediático certo? E por fim... No país da tecnologia, como se esperava, e no espaço de menos de 3 meses, escuto (com muita apreensão e receio) o discurso de que combater a corrupção não traz assim grande coisa... A Universidade de Coimbra (ou parte dela) no seu eterno bafio...

 

Bom fim-de-semana.

 

Esperem! Não se vão embora... Agora é a minha vez de, com a Alice, partilhar um Moscatel SIVIPA Roxo de 2013 (ai aquele sabor de caramelo) e uns pistácios com açafrão do Irão. Agora sim, com estas iguarias podemos ir de fim-de-semana...

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