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Per Sempre Morricone...

por Robinson Kanes, em 07.05.19

IMG-20190507-WA0002.jpgImagens: GC

 

Sempre aplaudido de pé, Morricone acabou por encantar a Altice Arena, como seria de esperar... Passou por sucessos menos conhecidos pela maioria dos portugueses e não deixou passar os grandes temas "spaghetti western". O apogeu deu-se no final com a óbvia banda sonora de "Cinema Paradiso", sem esquecer a "Missão".

 

"Cinema Paradiso" arrebatou a plateia e as lágrimas foram uma presença ao longo de toda a interpretação, acabámos todos por fazer um pouco o papel de Salvatore quando, no final, coloca a fita que Alfredo lhe deixou e se desfaz em lágrimas - boas recordações e no turbilhão de emoções que as mesmas trazem. Senti-me, também, um Salvatore, por todas as razões e mais algumas. Quem escuta "Cinema Paradiso", "Once Upon a Time in America" ou até o tema de "Malena" ao vivo (os dois últimos desta vez não tiveram lugar), nunca mais vai esquecer!

 

Uma excelente orquestra, um excelente coro, um excelente maestro e compositor, e claro, uma excelente soprano - Susanna Rigacci - não poderiam ter tornado o espectáculo melhor. Ao contrário do que também alguma imprensa já hoje diz, Dulce Pontes não foi, embora tentasse, uma das estrelas da noite! Uma voz que deixa a desejar, um mau inglês que parecia búlgaro numa das interpretações, honestamente, não tem a mínima qualidade para estar naquele palco com tão grande compositor, tão grande soprano e com tantas vozes de qualidade no coro. O público percebeu isso e, se de facto, ouve menos exaltação nos aplausos foi quando Dulce Pontes cantou...

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Mas o espectáculo de Morricone, a sua presença em palco, fizeram-nos sonhar, e ao mesmo tempo, entristeceram-nos. Ver aquele senhor de 90 anos já algo debilitado fez-nos mesmos acreditar no "farewell". Tivemos, mais uma vez, a oportunidade de lhe dizer "grazie" e isso terá sido o mais importante. Nunca o esqueceremos e estará sempre junto de nós, sempre a recordar aquela forma própria de conduzir uma orquestra.

 

Uma nota particular também para o facto de uma orquestra maioritariamente "entradota", um maestro que é um verdadeiro dinossauro da música, sem esquecer o coro, mostrarem que a idade não importa quando se fala de ser ou não um bom profissional, de facto... Uma lição que todos também podemos tirar da noite passada!

 

Obrigado Ennio... 

 

(Também o SAPO aqui não esqueceu o Mestre)

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Tempo para Morricone!

por Robinson Kanes, em 06.05.19

Imagem3.pngImagem: Robinson Kanes

 

Senhor com "S" grande... Hoje, por aqui, damos uma folga aos Açores e a tantos outros temas, porque voltar a ver este Senhor no meu país é um acontecimento único. Temo também que seja a última vez que vou ver o Mestre!

 

Deixo a banda sonora de "'D' Amore Si Muore" realizada por Carlo Carunchio, iniciavam-se os anos 70 e eu nem era sequer pensado (e acho que nem os meus pais já se conheciam)... Mas o cinema italiano tem destas coisas e com esta banda sonora...

E porque o Ennio nunca aborrece, talvez deixe aqui mais uma tremenda recordação (e sim, estou a tentar fugir aos grandes sucessos...), "Amore per Amore"...  De outro grande filme, "Così come sei" e onde estão presentes a esquecida Nastassja Kinski, Francisco Rabal e claro (eu sei que é de "cota") o grande Marcello Mastroianni! 

O Ennio é talvez aquele compositor que me acompanhou desde sempre, não só pelas excelentes bandas sonoras mas também pelos filmes que tiveram oportunidade de usufruir de tamanhas composições... Hoje talvez seja o dia do Adeus, e num misto de imensa alegria e muita tristeza aplaudirei, mais uma vez de pé, o GRANDE! Aliás, aplaudiremos aquele que também nos juntou... 

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Playlist para uma Noite Sem Ti

por Robinson Kanes, em 07.03.19

Quantas vezes, entre um moscatel, uma caipirinha feita à pressa, um Porto da melhor qualidade ou entre um simples branco do Tejo ou um Tinto alentejano não nos sentamos à varanda e vivemos uma "noite sem ti"? Talvez hoje, não à varanda, mas entre vidros protegido pela chuva, encontre algumas sonoridades que poderiam fazer-me recordar-te numa ausência tua...

 

"Love doesn't End" e o regresso a Michael Nyman. Aquele que nos marcou para sempre e que já escutámos apaixonadamente... Trago-o também de um filme brilhante, "The End of the Affair" onde Juliane Moore e o Ralph (o Fienes de quem tanto gostamos, sobretudo no teatro) contracenam num filme inesquecível. Das poucas obras literárias que Graham Green que até aprecio.

Poderia agora escutar o "Intermezzo" de "Cavalleria Rusticana", de Mascagni -no entanto, já aqui falei dele - uma das peças mais bonitas de todos os tempos quando a temática é a música... Fiquemos com a "Ouverture" que não nos deixa indiferentes antes daquela entrada em palco do Placido Domingo, lembras-te?

Não consigo sair da música clássica e é na inacabada "Zaida"  de Mozart que encontro "Ruhe Sanft". Não me perguntes o porquê de gostar desta ária... Talvez pelo alemão... Talvez pela vulnerabilidade que, pontualmente, o mais forte dos homens também sente.

Stavros Lantsias... Porquê? Porque me embala, entre a ingenuidade e verdade do amor quase infantil dos 20 e entre a maturidade (ou ideia dela) em anos mais adiante. Porque nos torna infantis no amor quando a seriedade é uma realidade que nos rodeia... Prefiro e deixo-me levar por esta "Valsa dos Olhos".

Não podia deixar passar uma "playlist" destas sem trazer o Ennio... O Senhor Morricone que nos faz viajar pelo mundo atrás dos seus concertos... Também não poderia deixar passar "For Love One Can Die". Pela nostalgia, pela profundidade, pela recordação do grande actor Carlos Paulo naquela peça... Talvez porque a música do Ennio tem aquele efeito em mim... Talvez porque me torna nostálgico de uma época que nem vivi, que nem sequer era sonhado... Talvez a recordação de amor, de sofrimento, de um mundo de emoções... Quando as emoções são algo em vias de extinção!

Se há filme que superou largamente o livro foi "Out of Africa" mas... Há algo que ainda superou o filme: aquela banda sonora única de John Barry! Já não se fazem composições destas... Também já não se fazem filmes destes... Também já não se fazem actores destes... Talvez aquela atracção por África venha deste filme, ou então pela carga genética que carrego ou carregamos, afinal todos "nascemos" em África... E em 1986... Em 1986 eu nem "existia"!

Tenho de voltar ao Ennio e à recordação de "Amore per Amore", mais uma daquelas que nunca se esquece e que, associada ao filme, ainda mais intensa se torna. O filme, "Così Come Sei" permitiu esta pérola e sim, gosto de Marcello Mastroianni. Olhar para lá da varanda, contemplar as estrelas que as luzes da cidade nos deixam fitar. Olhar para lá, onde estou sem ti.

A noite vai longa, a madrugada apela aos sentidos e importa dar uma certa voz ao momento... Revejo-me nas palavras de Vergílio Ferreira quando sei que não posso sentir falta da vida mas sim daquilo que a faz viver. Talvez por isso tenha de trazer uma das divas dos nossos tempos e uma das suas mais brilhantes interpretações... Diana Krall e "Why Should I Care"... De facto, why should I care...

Uma das músicas mais interpretadas em castelhano, sobretudo no espanhol da América do Sul, é a "Historia de un Amor". Fiquei indeciso entre Luz Casal e Guadalupe Pineda. Desta vez ganhou Pineda com uma interpretação mais nossa, mais quente e levada ao expoente máximo de uma paixão que se distancia por não estares aqui... Até porque "não há remédio que cure o que a felicidade cura", dizia García Márquez no seu "Do Amor e outros Demónios".

Tenho de fechar com algo vocal e moderno - sob pena de ainda me acharem velho e trágico...Tenho de fechar com algo que me torne a noite mais tranquila, tenho de fechar com algo que nos possa unir e também unir todos aqueles que podem vir a ler estas sugestões, esta partilha... Tenho de fechar com algo... "Stay or Leave" da Dave Matthews Band e acreditar que este meu lado mais virado para o "acosmisme" efectivamente mostre que tenho razão... Além disso, vão pensar que sou lamechas.

 

 

 

 

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"Playlist" para um Martini Rosso...

por Robinson Kanes, em 02.05.18

cynar-martini-rosso.jpg

 

Fonte da Imagem: https://www.gutekueche.at/cynar-martini-rosso-rezept-23200

 

 

Um copo de Martini Rosso pode durar uns segundos... Pode durar minutos... Pode durar uma hora... Um copo de martini on the rocks acompanhado pela música ideal pode durar uma noite... É com este copo de Martini que respondo a um desafio colocado por email, como forma de partilhar um pouco de mim, embora noutros moldes, e vos deixo a minha playlist para esse momento... Para essa noite, onde algumas nuvens escondem as estrelas e o silêncio daquela varanda deixa que cada acorde se funda entre a laranja e a mistura alcoólica.

 

"The Cinematic Orchestra - Arrival of The Birds & Transformation" - Do documentário "The Crimson Wing: Mystery of the Flamingos". Com a Reserva Natural do Estuário do Tejo tão perto, a banda sonora deste documentário leva-me para perto daqueles seres que vejo todos os dias palmilhando as salinas em busca de alimento ou efectuando um dos voos mais coloridos e belos do mundo. A melodia é fascinante e já foi aproveitada também para anúncios televisivos.

 

 

"Ennio Morricone - Deborah's Theme" - Outra banda sonora - do filme "Once Upon a Time in America" que conto falar aqui e uma obra-prima de Hollywood. Enriquece uma qualquer noite, um qualquer espírito. Não poderia deixar Morricone de fora, para mim, o grande do século XX! É preciso ver o filme e deixar que a noite na varanda, de Martini Rosso como companhia tenha uma pequena aragem... Suave... O suficiente para conter algumas emoções que poderemos não controlar.

 

 

Em continuação pelos italianos, não poderia deixar escapar "Ludovico Einaudi - I Giorni". Talvez porque representa tudo aquilo que a música de Einaudi nos dá. Cá por casa não faltam discos do compositor que já tive oportunidade de ver ao vivo. Paz, reflexão, pensamento, espaço para muitos dos artigos que escrevo...

 

 

"Sergei Rachmaninoff  - Concerto para Piano nº 2" - É entrar nos clássicos, no entanto, não poderia ficar de fora um dos meus compositores de eleição. A pureza da música é qualquer coisa de maravilhoso, a doce serenidade com que Rachmaninoff nos contagia, mesmo quando os acordes se tornam mais violentos e dolorosos é algo ao alcance de poucos compositores! Tem o seu lugar de honra cá em casa, sem qualquer dúvida... E também no porta-luvas do carro, quando nos entregamos a algumas paragens técnicas para... respirar... O "Concerto para Piano nº 2" porque foi uma das primeiras obras que ouvi do mesmo e a sinto tão actual... Uma curiosidade, vão reconhecer o "All by Myself" em algumas passagens.

 

 

"Ennio Morricone - Malena" - Malena é uma daquelas músicas apaixonantes, sobretudo se conhecermos o filme e os locais onde o mesmo foi gravado. É, para mim, regressar à Sicília, sentar-me na "Scala dei Turchi" e atirar as "folhas" deste blog ao mar. É regressar a Siracusa, é percorrer a Sicília e viver uma história de amor e encanto. É ouvir e sentir aquelas sensações que só Morricone nos consegue trazer. É uma certa nostalgia de quem não tem idade para ter nostalgia... Uma das melhores músicas de sempre.

 

 

"Sting - Shape of my Heart" - A fugir ao padrão, numa noite em que se contempla o céu, esta é uma daquelas músicas que não pode faltar. Vale o que vale e dispensa palavras, nem tudo tem de ter uma explicação.

 

 

"Eleni Karaindrou - To Vals Tou Gamou" - Outra das minhas paixões, Eleni Karaindrou. Conheci-a com a banda sonora do filme "Eternity and a Day" e desde então nunca mais a larguei. A sonoridade grega e turca, um passado pouco longínquo e uma riqueza ímpar tornam a suas músicas património da Humanidade! "To Vals Tou Gamou" é sem dúvida uma obra singular e que merece um trago especial deste Martini.

 

 

"Bruce Springsteen - Streets of Philadelphia" - Na varanda, com as ruas lá fora, com uma certa paz reinante, não poderia deixar passar esta música do rei! Uma música fantástica, uma melodia única de um dos poucos que ainda vai fazendo verdadeira música por esse mundo fora, sobretudo numa vertente mais "comercial". Um hino e uma das músicas que marcou a minha infância, mesmo quando nem eu próprio percebia bem o que a mesma queria dizer.

 

 

Faltam duas para as 10 músicas? Pois continuarei a fazer render o copo... Outra composição que não poderia deixar sem passar, e voltando a Itália é "Pietro Mascagni - Intermezzo/Cavalleria Rusticana". É uma das mais belas melodias alguma vez criadas! Retirada a obra com apenas um acto "Cavalleria Rusticana" é um hino ao amor e à paixão, embora no contexto da obra surja após Santuzza revelar a Alfio a traição de Lola! É um outro regresso à Sicilia, mas também uma apaixonante e reconfortante melodia para contemplar enquanto as nuvens vão deixando espaço para as estrelas... Sublime!

 

 

 E finalmente, porque a noite já vai longa e só a rodela de laranja dá cor ao copo, só resta espaço e força para a versão de "Peter Gabriel - The Book of Love". Talvez uma das músicas mais românticas e que, com a voz de Peter Gabriel, se transforma definitivamente em algo de divino! Peter Gabriel tem esse poder, de transformar a música e de a tornar em algo tão complexo que fascina pelo modo como depois a encontramos tão simples e tão facilmente audível.

 

 

 Uns bons momentos para todos...

 

 

 

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Um Fim de Semana no "Cinema Paradiso"

por Robinson Kanes, em 13.02.17

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Precisava de me comover um pouco, mas não tenho importância que chegue. Comover-nos é estarmos cheios de nós e eu estou vazio.

Vergílio Ferreira, in “Para Sempre”

 

Este fim de semana, precisei de me comover. Talvez porque a chuva a isso convidava, talvez porque a noite sinistra e escura exercesse em mim, aliás, em nós, uma necessidade de extrapolar os limites da vedação civilizacional e regressar a um certo lugar onde tudo é possível.

 

Foi assim que, no Sábado à noite, fui buscar o “Cinema Paradiso”. Se existe obra completa, esta é sem dúvida um grande exemplo... uma realização soberba, e claro, com Philippe Noiret (Alfredo) entre as personagens não seria difícil assim o ser. A tamanha obra acresce uma banda sonora genial, quase perfeita, criada pelo grande Mestre de quem já falei aqui, Ennio Morricone. Não é difícil deixar o CD a rolar e cair no sofá, ficando absorto em pensamentos e memórias, tal como Salvatore (ou Toto) na cena final do filme. Somos imediatamente agarrados para uma espécie de mundo paralelo, mas ao mesmo tempo tão... real... tão nosso...

 

Mais uma vez, assistindo a este filme, foi-me possível assistir a uma certa decadência do cinema (algo tão actual), mas também, questionar se, por mais que possamos fugir, não estaremos somente a criar um muro que nos afasta das memórias. Um muro que é tão ténue quanto a parede que separa um apartamento de má construção do outro. Se mesmo com esse muro, tudo não está presente, nem que por intermédio de fantasmas... Toto questionou-se e... na verdade terá chegado à mesmo conclusão que eu.

 

Sartre, dizia na sua “Náusea”, e a propósito da irreversibilidade do tempo, que “o passado é um luxo de proprietário [...] possuo apenas o meu corpo, um homem sozinho, só com o seu corpo, não pode reter as recordações, elas passam através dele.”. Pois bem, mas Sarte esquecia-se, muito provavelmente de emoção e de que todos talvez sejamos proprietários das nossas emoções. De como, mesmo com a transformação de Giancaldo (embora a praça que surge no filme, na realidade, corresponde Palazzo Adriano, perto de Palermo) e com a demolição do Cinema Paradiso e a importância de não regressar, as memórias ficam, o apego fica e, mesmo que rodeados de fantasmas, uma certa marca de nós e dos outros não se apaga... porque dessas emoções e marcas somos nós proprietários vitalícios. 

 

Deixo-vos uma cena, uma das mais interessantes e que foi eliminada do filme (quem visualizar o filme ou até voltar a vê-lo vai perceber o porquê da minha escolha e questionar-se se... não foi melhor ter sido eliminada)... porque não... uma fantástica interpretação do tema principal do filme (e logo naquela Praça que me diz tanto em Veneza) para que, aqueles que o desejem, sejam proprietários das mesmas. Penso que será uma boa forma de começar uma semana... aguardo pelos sentimentos suscitados.

 

E... talvez a vida nem sempre tenha de ser recheada de finais felizes... mesmo no cinema... ou... o que é um final feliz?

 

Fonte da Imagem: http://www.dvdbeaver.com/film/dvdcompare/cinema-paradiso/3new.jpg

 

Cena Eliminada

 

 

 

 

 

Tema Principal do Filme

 

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Limpeza de Casa e da Mente com o Ennio.

por Robinson Kanes, em 03.02.17

IMG_7059.JPG

 

Horácio dizia algo como isto - “minuentur atrae carmine curae” - ou seja, a “música ajuda as mentes perturbadas”. Só descobri isto quando o meu professor de latim me confrontou com tal frase e, desde então, tem-me acompanhado, sobretudo, quando a mente anda mais em turbilhão. 

 

Hoje, em casa, num dia menos bom, lembrei-me de Horácio e de como seria importante fazer uma arrumação na minha mente. Confesso que não é fácil, por isso acabo de decidir arrumar a casa. A casa... como o nosso pequeno ovo e a sua respectiva arrumação, nos ajudam a arrumar também o que nos vai na cabeça!  É óbvio que também permite eliminar alguns maus cheiros, limpar o pó e fazer com que um Pastor Alemão gigante enfrente o aspirador como se, o último, de um larápio se tratasse.

 

Aqui, sentado, ainda a escrever, já escolhi a banda sonora para esta arrumação, pelo menos a de casa: encontrei, em Ennio Morricone, a minha salvação. Escuto Morricone desde que me recordo de ter capacidade de escolha nas minhas paixões e honestamente... nunca mais larguei o velho maestro e compositor. Só me arrependo de nunca ter assistido a um concerto ao vivo e, com a idade do senhor, temo que isso não venha a suceder.

 

Sinto que, para hoje, entre um fim e uma necessidade de recomeço vou-me ficar pela “Cera Una Volta Il West”, composição a que o filme de 1968, “Once Upon a Time in the West/Era Uma Vez no Oeste”, dá o nome.

 

Para situar quem possa não conhecer, é  mais um daqueles filmes a que se convencionou chamar spaghetti western na senda dos western italianos que tinham a assinatura de Sergio Leone. Confesso que, quando o vi pela primeira vez, nunca consegui perceber o sofrimento da Sra. McBain (Claudia Cardinale) e aquele olhar sempre muito peculiar de Harmonica (Charles Bronson). No fim, é impossível não simpatizar com o Sr. Bronson (apesar do seu mau feitio) porque lá conseguiu acabar com a maldade de Frank (Henry Fonda). Não falta informação sobre o mesmo na internet.

 

A Sra. Mcbain é a mãe que perde tudo, que é violada (marido e três filhos assassinados) e necessita de recomeçar algo de novo com uma dor imensa. No entanto, à sua volta, o que não falta são vilões (mal ela sabe que alguns deles os seus melhores companheiros). Harmonica e sobretudo Cheyenne (Jason Robards) são quem lhe vai dar algum auxílio, e sim, são uns vilões com melhor coração. No fim, é a luta pelas terras para a construção do caminho de ferro e a “vingança” de Harmonica que dominam o filme e... a difícil mudança de vida encetada pela Sra. Mcbain.

 

E com isto, começo a pensar que devo ter nascido fora do meu tempo (tenho de reflectir sobre isto).

 

Mas a música! Essa coloca-nos perante alguma tristeza mas também nos dá alguma força para chegar ao fim com a casa arrumada e, quem sabe, com a vassoura e a pá em frente à porta da nossa mente. E aí, posto que as limpezas levam tempo, escuto, ainda em registo Ennio, “Speranze di Libertà”. Esta é uma banda sonora penosa, de outro filme - “Sacco and Vanzetti” - de Giuliano Montaldo e que data de 1971. Aqui, conta-se a história e julgamento, com pena de morte, de dois imigrantes anarquistas italianos nos Estados Unidos dos anos 20. Muito a propósito, após algumas políticas recentemente adoptadas no outro lado do Atlântico.

 

Deixo-vos as duas composições e, porque não, os votos de um bom fim de semana...

 

...e já agora...

 

...se vos for possível, saiam para a chuva!

 

Fonta da Imagem: Própria

 

Ennio Morricone - Cera Una Volta Il West

 

 

Ennio Morricone, Speranza di Libertà

 

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