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Imagem: http://globalfoodconnections.com/climate-change-threatens-ancient-mayan-farming-practices/ 

 

 

E se culturalmente quase que podemos afirmar que existia um povo dentro de um outro povo, também socialmente as desigualdades eram profundas e além dos mais desfavorecidos, está o exemplo das mulheres, completamente afastadas de toda e qualquer intervenção no conselho.

 

Neste contexto de Rio de Onor, poderemos contar uma “estória” que se afasta radicalmente da realidade e que para a discussão de uma economia mais solidária somente poderá dar o seu maior contributo no espírito de união que permite muitas vezes a populações completamente isoladas geograficamente e socialmente sobreviverem perante condições tremendamente adversas ao invés de sociedades que nasceram por oposição a outras. Nesse sentido Rio de Onor é efectivamente um grande exemplo a par com a segurança da identidade cultural e comunitária.

 

Actualmente este é o seu contributo, sobretudo para uma sociedade cada vez mais individualista e sem sentido de comunidade e cidadania. Por outro lado, é um exemplo a não seguir no que toca ao papel das mulheres e dos mais desfavorecidos nas novas práticas económicas que deverão encarar estes, não dignos de dádiva, mas sobretudo actores ao nível de qualquer outro, tornando-se também eles agentes de mercado e de desenvolvimento local sustentável.

 

Conclusão

 

Rio de Onor preencheu e ainda hoje preenche o imaginário de muitos estudiosos e antropólogos. Todavia, Rio de Onor.

 

Em relação aos quatro pontos de partida deste texto, o primeiro ponto efectivamente vai ao encontro de uma das bases de uma economia solidária: a união dos interessados em comunidade, como forma de vencer os obstáculos económicos e geográficos que jamais seriam vencidos se cada um o fizesse de forma isolada. A questão da cultura de oposição está completamente de lado, pelo contrário os laços transfronteiriços eram extremamente fortes e tanto o lado espanhol como o português partilhavam deste espírito de interajuda e cooperação nos destinos da aldeia.

 

Rio de Onor não passa o teste de sociedade igualitária quer na administração dos recursos (não confundir com distribuição), na sua posse e sobretudo no afastamento das mulheres no que concerne aos destinos e até vida quotidiana da aldeia. Atentemos provavelmente à época, e que num regime ditatorial não tinha aberto ainda espaço para a formalização dos direitos das mulheres. Importa, no entanto, não esquecer que antes do regime ditatorial já existia Rio de Onor.

 

Do ponto de vista de sucesso rural, Rio de Onor nunca conseguiu produzir grandes quantidades de produtos, pelo que alimentava praticamente uma economia de subsistência. A dimensão também deverá ser tida em conta, pelo que para o futuro, talvez não seja de descorar que, ao invés de comunidades aldeãs isoladas, ser dado o passo para a criação de redes aldeãs com um modelo de gestão comum a todas.

 

No que concerne ao quarto e último ponto, a resposta é sim. Claramente as mulheres, sobretudo das zonas raianas e serranas, têm cada vez mais um papel fundamental na dinamização do interior ou de áreas isoladas. A partida dos maridos, não deve passar pela espera de um hipotético encaixe financeiro no futuro, mas sim por uma mobilização destas para o trabalho da\na terra.

 

Face a todos estes argumentos, Rio de Onor é uma “estória” da qual podemos tirar muitas lições de sobrevivência e esquecermos as utopias.

 

Rio de Onor tinha as suas lacunas, no entanto, retirando o sumo das boas práticas e aprendendo com os factores negativos, até porque, a título de exemplo, seria um autêntico suicídio afastar desta forma as mulheres, muitas destas aldeias e vilas terão muito a ganhar - sobretudo se não cometerem o erro de se voltarem somente para si mesmas. Poderão desenvolver-se numa óptica socioeconómica e com isso garantir patamares de sustentabilidade para todos os seus habitantes.

 

Citando os rionorenses "bamus a deitar piedras" e ver o resultado final.

 

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (4)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (5)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (6)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (7)

 

Leituras recomendadas:

 

  • Dias, Jorge, Rio de Onor, Comunitarismo AgroZPastoril, Editorial Presença, Lisboa;

  • Laville, Jean Louis, A Economia Solidária: Um Movimento Internacional, Revista crítica de Ciências Sociais, 84, Março 2009: 7Z47;

  • Marques, Joana S.; Social and Solidarity Economy, United Nations Research Institute for Social Development, Geneva, 2013;

  • McMurtry, John, Prometheus, Trojan Horse or Frankenstein The Social and Solidarity Economy as Community Creation, Market Wedge, or State Monster, United Nations Research Institute for Social Development, Geneva, 2013;

  • O’Neil, Brian Juan, Proprietários, Lavradores e Jornaleiras, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Pais de Brito, Joaquim, Retrato de Aldeia com Espelho, Ensaio sobre Rio de Onor, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Piolanyi, Karl, A Grande Transformação, Editora Campus, Rio de Janeiro, 2000;

  • Prügl, Elizabeth; Razavi, Shahra; Reysoo; Fenneke, Gender and Agriculture After Neoliberalism, The Graduate Institute Geneva, Geneva, 2012;

  • Wolf, Eric, Peasants, Prentice Hall, New Jersey, 1966;

 

 

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 Créditos - Imagem: http://www.openresearchwestminster.org/2015/02/re-imagining-rurality-conference-and-exhibition-27-28-february-2015/

 

 

Rio de Onor, como muitos outros exemplos de aldeias do Norte de Portugal, é essencialmente agrícola. As vantagens que uma economia mais solidária pode tirar destas vilas agrícolas podem estar num actor que outrora foi ostracizado, ou seja, se Rio de Onor foi outrora fechado à participação das mulheres, hoje poderia aprender com o modelo latino-americano onde a participação das mulheres é cada vez maior e parece intensificar-se em relação ao sexo masculino. Um dos estudiosos desta temática Deere, chega mesmo a afirmar que a agricultura efeminizou-se e as mulheres deixaram de ser trabalhadores de segundo plano e tornaram-se autênticas managers para a agricultura. (Deere: 2005) Isto muito por culpa da emigração dos homens em busca de melhores condições de vida - algo que é cada vez mais uma realidade em Portugal e sobretudo naquele Portugal profundo onde por exemplo Rio de Onor se encaixa. 

 

O que daqui retiramos? Um impacte social gigantesco, com as mulheres a terem uma palavra a dizer nos destinos destas comunidades e acima de tudo a serem elas próprias um dos motores de desenvolvimento da comunidade.

 

O papel da formação (imperial para o sucesso de políticas de economia mais solidária) é fundamental na medida em que tem de criar o espaço para o empowerment destas, sobretudo na exploração das mais valias do seu próprio território.

 

Rio de Onor é sem dúvida fascinante do ponto de vista da comunidade e do estudo antropológico-económico. O comunitarismo ligado às dificuldades territoriais; a suposta igualdade entre os membros da comunidade, a aparente democracia participativa, a divisão dos recursos e a correcta distribuição da terra fazem-nos pensar em importar do passado um conceito apaixonante. Todavia, esse mesmo conceito acarreta os riscos de idealizar algo que as monografias de alguns autores, nomeadamente Dias, criaram e mais que isso, criar estereótipos que praticamente por obrigação ou vaidade levam uma comunidade a agir como tal.

 

Rio de Onor efectivamente, dá-nos muitas lições, nomeadamente em relação ao próprio conceito de comunitarismo, mas também do modo como os indivíduos, face às dificuldades que o terreno e a localização, se uniram e levaram avante formas de organização que os permitissem sobreviver de uma forma que isoladamente jamais conseguiriam, aliás, o endividamento crescente e o carácter dionisíaco apontados por Dias disso também são exemplo.

 

Se do ponto de vista ambiental, artístico e de bem-estar não existe informação relevante, do ponto de vista económico e de gestão podemos retirar daqui um pouco de cooperativismo que ia até à própria gestão dos costumes, ultrapassando largamente a esfera económica, embora nem sempre numa óptica de reciprocidade.

Continuando a explorar a óptica de conhecimento, começamos a entrar em terrenos mais isolados que a própria aldeia, nomeadamente no que concerne ao carácter social e ao projecto políticonos mostra: a pouca equidade na distribuição das terras, do trabalho e do gado.

 

Continua...

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (4)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (5)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (6)

 

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 Fonte da Imagem: http://alfarrabio.di.uminho.pt/arqevo/arqetnoevo.html

 

 

Rio de Onor para o Futuro

 

Uma economia mais humana procura outro modo de fazer economia, outro modo de instalar vida nos territórios, surgindo aqui a questão da materialidade que acaba também por ser um meio, Não se desvincula das relações sociais e culturais e vai buscar formas de auto-governação o que lhe dá também uma dimensão política (França Filho, citado por Estivill).

 

É daqui que devem partir as comunidades do futuro. Rio de Onor é hoje uma vila museu, uma vila que habita na memória de alguns interessados pela temática antropológica. No entanto, Rio de Onor pode ser também numa óptica sistémica e policêntrica (Laville, 2013) um exemplo para o futuro - e para desenvolver no futuro - quer no território da própria vila, quer servindo como inspiração para outras, com os devidos ajustes que até a História já se encarregou de fazer (17).

Os Rios de Onor do futuro terão de incorporar a visão macaronésica defendida por Amaro, mas também ser uma alternativa e não um ataque à economia dominante, apresentando-se como uma academia/economia doméstica através do “doar” sem grandes contrapartidas mas mais afectiva. A grande história da humanidade foi sempre neste ramo da economia e não no capitalismo (Polanyi: 2000). À visão da Macaronésia já desenvolvida, importa não somente defender esta, é importante aliar a questão da sua sobrevivência. É neste contexto que Estivill defende sete pontos fundamentais para o sucesso destas iniciativas:

 

  1. Articulação entre a dimensão económica e social;

  2. O nascimento da “organização” tem de ser parte do processo e não um entusiasmo do momento, que se perde ao fim de alguns dias;

  3. A importância dos fundadores, terem alguma experiência em trabalhos colectivos ou em gestão de equipas;

  4. Enraizamento territorial com correspondência às necessidades dos locais e que projectem mais a terra que a organização em si (o exemplo galaico português é um mau exemplo que poderia ser revisto para o bem das terras da raia);

  5. O triunfo do geral face ao particular – numa sociedade cada vez mais individualista este aspecto é fundamental.;

  6. Liderança. Esta é uma das questões-chave. Uma liderança participativa e democrática, é o garante de sucesso para toda e qualquer organização;

  7. Capacidade de adaptação: num mundo que muda a cada segundo, quem não conseguir acompanhar a mudança, está condenado a afogar-se no passado.

 

Com este conjunto de factores a trabalhar entre si, podemos efectivamente olhar para comunidades de sucesso e que poderão ser os "Rios de Onor" do futuro.

 

 

17. Seria hoje impensável que as mulheres fossem afastadas do conselho, somente pela questão de género, num país como Portugal.

 

Continua...

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (4)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (5)

 

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Respigadoras,  Jean-François Millet - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Finalmente, a questão das mulheres, que jamais poderiam ser nomeadas mordomos e não existindo homens numa casa, quando muito a casa da mulher poderia ser admitida (mediante pagamento) no conselho, mas nunca nomeada para os cargos de administração, não tendo participação nas reuniões, mas embora beneficiando das regalias do conselho. Apesar de tudo isto, todos os membros eram obrigados a participar no conselho, caso contrário seriam obrigados a pagar uma multa (jeiras). Também a exigência para com os líderes era tal que a qualquer momento poderia ser convocada uma reunião extraordinária com vista à expulsão destes - seria então eleito o responsável da contestação de modo a colocar à prova as suas capacidades de chefia - interessante(11). Aliás, uma das mais-valias deste tipo de organização era que as pessoas jamais seriam confundidas com os cargos.

 

Uma outra instituição, se assim lhe quisermos chamar, eram os Homens de Rodra, designados pelos mordomos e que eram os responsáveis por fazerem quase todos os serviços fora da aldeia (compras, representações...).

 

Uma palavra para a justiça . No caso de Rio de Onor só muito raramente se recorria à justiça fora de portas (Bragança era o tribunal mais próximo). A justiça era feita pelos mordomos e quando incapazes de decidir somente por si, convocavam o conselho. Quando existiam queixas, o próprio conselho nomeava peritos internos para aferir das diferentes partes. Sempre que era impossível acusar alguém, pois desconheciam-se os responsáveis do dolo, o próprio conselho agia como força policial de investigação. Associada a esta tarefa, o conselho, fiscalizava as áreas da aldeia, como o polícia de giro.

 

Existia também em Rio de Onor um seguro mútuo gerido pelo conselho. Sempre que tinha lugar qualquer desastre grave , a comunidade poderia ser obrigada a suportar os prejuízos (12).

 

A economia rionoresa era praticamente de subsistência, vivia-se do gado, da agricultura, e os mais pobres do carvão vegetal. Nos mercados, só o gado, o trigo e o carvão tinham saída. O dinheiro advindo destas vendas era reinvestido para pagar décimas, comprar adubos, cimento, ferro, tecidos e utensílios domésticos, bem como alguma mercearia. A subsistência assentava à data também na existência de algumas casas que não fazendo parte do conselho tinham de pagar o facto de pertencerem à aldeia com outros serviços, aliás, alguns vizinhos ganhavam também algo extra com serviços que normalmente não conseguiriam ser realizados pelos habitantes de Rio de Onor.

 

A igualdade é aparentemente visível, até porque o baixo nível económico era transversal. Havia também alguma economia local: arrendamento de terras (tendo como base um sistema quase feudal), trabalhos à jeira em terras mais abastadas, além de que o conselho não negava terras a quem as quisesse cultivar, obrigando à existência de uma junta de bois que não estava ao alcance de todos (denotam-se já aqui ligeiras oscilações no conceito de igualdade). Notar contudo, que os rionoreses eram também um povo dionisíaco (Dias; 1953) pelo que as dívidas aos bancos eram grandes, sobretudo do lado português, mais gastador e mais aberto à natalidade. Nota final, para o facto do pastoreio ser colectivo e composto pelo gado dos diferentes vizinhos (boiada, Cabrada e Al Ganau-ovelhas) (13) - tudo era aproveitado, até a bosta, para estrumar as culturas.

 

Muitos destes aspectos, tiveram uma análise funcionalista , ou seja uma tendência para olhar os organismos como casos perfeitos em que tudo funciona bem, o que se veio a revelar desastroso (14).

 

Continua...

___________________________

(11) Uma outra prova de que os poderes dos mordomos não eram absolutos, prende-se com o facto de que aquando da discordância do conselho face a estes, os casos eram alvo de uma votação (bamus a deitar piedras) da qual sairia a decisão por maioria absoluta.

(12) Se uma vaca quebrasse uma perna e existindo necessidade de ser abatida, os vizinhos eram obrigados a comprar uma quantidade de carne proporcional ao número de pessoas que têm em casa e aos bens que possuem em solidariedade com o vizinho que tivera o prejuízo.

(13) O gado era recolhido todas as manhãs e levado pelos pastores para o monte, regressando ao fim da tarde. Quando existia a necessidade de passarem mais tempo fora, os pastores eram revezados por outros todas as manhãs.

(14) Além desta análise sujeita a grandes falhas, em Rio de Onor, assistiu-se, como em muitas outras aldeias a uma espécie de representação. Ou seja após a monografia de Dias, os rionorenses alteraram o seu comportamento de modo a que este ficasse intimamente ligado à escrita e análise deste. O investigador acabou por interferir nos rituais locais e com isso moldar uma cultura. Um dos principais críticos desta situação foi o já referido O’Neill.

 

Os artigos anteriores podem ser consultados aqui e aqui.

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O Martírio de Santo Estevão,  José Clemente Orozco - Musei Vaticani

Fonte da Imagem: Própria

 

 

 

Em tempos normais, nenhum indivíduo são pode concordar com a ideia de que os homens são iguais.

Aldous Huxley

 

São muitas as obras, em alguns casos conotadas com uma certa utopia (1), que têm minado o imaginário de muitos de nós e até daqueles que acreditam num Mundo mais igualitário e numa economia que não exclui qualquer cidadão e incorpora todos estes na mesma campanha. Um dos maiores exemplos em Portugal deste tipo de cultura é o caso da Aldeia de Rio de Onor, explorado pelo ensaio de Joaquim Pais de Brito (2) e a monografia de António Jorge Dias (3) que foram ao encontro do conceito “maravilhoso” de Eric Wolf de “comunidade corporativa fechada”.

 

Procurarei assim, apresentar uma relação entre aldeia comunitária com uma certa economia solidária e perceber até que ponto podemos afirmar um total igualitarismo, que durante décadas apaixonou antropólogos, sociólogos, economistas e meros curiosos, e ainda em que medida, a economia praticada se pode dizer solidária e dotada do exotismo e perfeição rural que Jorge Dias tão bem desenvolveu na sua monografia.

 

Procurei conhecer a aldeia de Rio de Onor e o seu dia-a-dia de cariz comunitário, entrando seguidamente nas experiências diárias e com estas fazendo a ponte para a aferição de Rio de Onor como um exemplo a aplicar como case study para outras iniciativas de cariz comunitário ou até solidário. Não querendo transformar este meu passatempo numa tese, procurarei perceber alguns pontos:

 

  1. O Comunitarismo de Rio de Onor nasce de uma necessidade de sobrevivência das populações ou de uma cultura de oposição?

  2. Será o Comunitarismo de Rio de Onor um verdadeiro exemplo de sociedade igualitária?

  3. Rio de Onor, um exemplo de economia solidária com cariz rural para o futuro?

  4. Podem as mulheres ser uma garantia de sucesso para o futuro de vilas como Rio de Onor?

 

Ao entender estas quatro questões, procurarei mostrar se a tese antropológica que defendeu as comunidades isoladas das montanhas do Norte de Portugal como sendo igualitárias, quer na questão social (abordada por muitos antropólogos, entre eles Brian O’Neill) quer na questão económica, com consequências na primeira e a ser alvo de maior desenvolvimento neste ensaio, foram efectivamente precisas - pode também parecer um tema obsoleto (sobretudo numa Europa desenvolvida), mas nunca me pareceu tão actual se os nossos olhos conseguirem sair da nossa bolha de conforto.

 

Continua (mesmo que não interesse a ninguém)...

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(1) Dois bons exemplos são a "Ilha", de Aldous Huxley, ou um dos expoentes máximos desta literatura a "Utopia" de Thomas More.

(2) Ensaio sobre Rio de Onor.

(3) Rio de Onor: Comunitarismo Agro-Pastoril.

 

Alguma bibliografia para os mais interessados:

  • Dias, Jorge, Rio de Onor, Comunitarismo Agro-Pastoril, Editorial Presença, Lisboa;

  • O’Neil, Brian Juan, Proprietários, Lavradores e Jornaleiras, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Pais de Brito, Joaquim, Retrato de Aldeia com Espelho, Ensaio sobre Rio de Onor, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Wolf, Eric, Peasants, Prentice Hall, New Jersey, 1966;

     

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Para Onde Vai o Meu Dinheiro?

por Robinson Kanes, em 04.10.17

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Fonte da Imagem: https://www.forbes.com/forbes/welcome/?toURL=https://www.forbes.com/sites/laurashin/2015/02/26/44-ways-to-make-more-money/&refURL=https://www.google.pt/&referrer=https://www.google.pt/

Para Onde Vai o Meu Dinheiro?

 

Esta é a pergunta que muitos de nós fazemos, contudo, também é uma pergunta para a qual nem sempre encontramos resposta.

 

Alguém, que não aguentou presenciar muitas das coisas que se passam na Assembleia da República, disse um dia algo como isto: "se o povo soubesse o que ali se passa rapidamente aí acorria e pegava fogo a tudo". Na verdade, quantos de nós sabemos para onde vai o nosso dinheiro, mesmo que numa estimativa muito "caseira"? Poucos, muito poucos.

 

Foi neste sentido que decidi partilhar a iniciativa "Where Does My Money Go?" que visa, embora de uma forma ainda pouco detalhada, alertar e informar os contribuintes do Reino Unido das despesas realizadas com os seus impostos. Basicamente, e segundo os promotores da iniciativa, o objectivo passa simplesmente por procurar promover a transparência e o engagement dos cidadãos numa lógica de visualização e análise da informação dos gastos públicos no Reino Unido. 

 

Talvez se, a nós portugueses, nos dissessem com clareza para onde vai o nosso dinheiro e também cada um de nós procurasse saber essa informação, fosse possível ter uma melhor aplicação dos nossos impostos ou então, muito provavelmente face a um primeiro impacte da informação, fosse criado um clima de guerra civil... É um longo caminho, pois quantos de nós têm realmente interesse em saber onde são aplicados os seus impostos? E quando as próprias instituições públicas não cumprem a lei nem as directivas do Tribunal de Contas e infringem claramente as regras não sendo transparentes na divulgação das despesas? Está em cada um de nós ser mais activo e assim exercer também o papel fiscalizador nestas matérias... Porque o dinheiro é nosso e é um bem escasso.

 

E a vocês? Interessa-vos realmente saber onde é investido o dinheiro dos vossos impostos? Se sim, como exercem esse dever?

 

P.S: por cá existe o http://www.base.gov.pt, tenho é dúvidas que seja assim tão frequentado pelos cidadãos. Aconselho a consulta, foi aí que já encontrei algumas situações, no mínimo, ultrajantes para o erário público (lembram-se de ter falado de uma situação aquando dos incêndios?). Não é um espaço perfeito, muitos contratos e adjudicações directas permanecem omissas.

 

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Girolamo de Santa Croce - A Adoração do Menino (Gemäldegalerie Alte Meister)

Fonte da Imagem: Própria.

 

No seguimento do artigo de ontem, ao qual podem aceder aqui, e onde os contributos de muitos comentadores foram valiosíssimos, procurarei hoje ver as coisas de um outro ponto de vista, até porque a temática é complexa.

 

Foquemo-nos numa questão: porque é que não trabalhamos a questão da maternidade/paternidade, ou aliás, a impossibilidade da mesma no sentido de mentalização dos indivíduos para esse facto? Com isto não estou a dizer que não se desenvolvam demais abordagens. Porque é que o foco não passa por uma mentalização das pessoas para as suas limitações? Porque é que noutros campos vamos por aí e no caso da geração de um filho fugimos mais à questão?

 

É assim tão grave que um indivíduo conviva com o facto de não poder ter um filho? Dou um exemplo: são muitos os casos que conheci de pessoas que passaram pelos maiores martírios fisícos e psicológicos só para conseguirem ter um filho e muitas vezes por pura pressão social! Parece que nos tempos actuais é proibido dizer "não tenho filhos porque biologicamente não sou capaz e vivo bem com isso" e nem menciono aqueles que não os têm por opção. Porque é que não existe um trabalho desse lado e continua a impor-se uma lógica do "ter filhos a todo o custo". Será que se a abordagem fosse mais por aí teriamos tanta gente a investir dinheiro, anos de vida e um sem número de emoções para conseguir ter um filho? Alguém, aos comentários do artigo de ontem focou o egoísmo... Será um egoísmo da sociedade e de cada indivíduo? O artigo presente, pretende sobretudo ir pela questão do "é assim tão complicado aceitarmo-nos como somos?".

 

É uma questão complexa, sobretudo quando leio e vejo argumentos de indivíduos que na praça pública defendem (quase obrigando) que devemos ter filhos, pois estes serão o garante da sustentabilidade da Segurança Social e que é egoísmo não os ter! Um deles até é o proprietário de uma empresa de brinquedos com nome na mesma praça. São esses mesmos indivíduos que não falam de adopção, por exemplo.

 

Estamos a fazer de tudo para promover um mercado de venda ou negociação de bebés mas continuamos a não exigir leis mais facilitadoras da adopção. É aqui que pecam aqueles (auto-intituados vanguardistas) que acusam os "anti-barrigas de aluguer" de estarem presos a rituais ancestrais e de serem egoístas. Eu, sem me colocar de um lado e de outro, digo sempre... Cuidado, sobretudo quando a pretexto do que é novo, colocamos todo um passado no caixote do lixo. Até porque uma das marcas maiores de ancestralidade é a geração de um filho - quantas mulheres não eram ostracizadas ou até mortas por não conseguirem gerar uma criança?

 

Além de que, se queremos falar de egoísmo importa referir, mais uma vez, que o mundo já tem gente a mais e sempre podemos encontrar muitas crianças sem pai nem mão à espera de uma oportunidade para serem crianças... Mas talvez seja mais interessante ver as mesmas subnutridas, feridas ou mortas na televisão enquanto a todo o custo tentamos ter aquele filho que tem de ser "nosso"! Mas aí já estamos a ser vanguardistas... 

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A Nova "Trend": Barrigas de Aluguer.

por Robinson Kanes, em 19.07.17

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 Adoração do Menino - Filippino Lippi (Galleria degli Uffizi)

Fonte da Imagem: Própria

 

Falar de incêndios já não é cool. E quando o tema já não vende revistas, jornais ou visualizações nada como ir buscar temas que vendem muito, nomeadamente a homossexualidade e agora as trendy "barrigas de aluguer". Homossexualidade, para mim, é um tema gasto, perdoem-me mas qualquer dia até me sinto mal por ser heterossexual. Ou sou eu, ou então algo se passa, dos muitos amigos(as) que tenho com uma orientação sexual diferente da minha não me recordo de perdermos muito tempo a falar do tema.

 

Mas as "barrigas de aluguer"... Primeiro, é triste perceber que foi preciso um jogador de futebol "comprar filhos na Amazon" para de repente toda a gente se lembrar que esta prática existe. Caríssimos, é uma prática com séculos e ninguém descobriu a pólvora, aliás, um dos empreendimentos mais bem sucedidos da História, o Cristianismo, começou com uma "barriga de aluguer".

 

Mas tanto se fala de "barrigas de aluguer"... Pelo que, voltemos aos moralistas do politicamente correcto, sempre a defender a liberdade e ao que diriam se encararmos essa prática como a venda de seres-humanos? A verdade é simples e crua: estamos a mercantilizar seres-humanos! Podemos concordar ou não, mas aí temos de ter muito cuidado quando apregoamos leis morais, éticas e humanas, mas depois defendemos esta prática. 

 

Vejamos também outra questão e que alguém por aí (alguém a quem nem dou grande importância, mais foi exímio na análise) falou, que é a questão dos impostos? Ora, se existe uma compra, como é que são calculados os impostos? Como é que eu, que tenho um estabelecimento onde vendo bifanas e Sumol de Ananás, fico quando tenho de pagar dezenas de taxas e quem vende crianças não está sujeita a impostos? Mas é uma criança, um bebé, como é que se pode falar de impostos, questionarão! Todavia, não temos pejo em defender o comércio de seres-humanos que só não é tráfico porque, em alguns casos, já se encontra legislado. Não é diferente da criação de leis que regulem o tráfico de droga, e aí passamos a ter um mercado legal... Mas é "trendy". Até nos damos ao luxo de atacar as pessoas que vão buscar filhos a África, no entanto, já achamos bem se forem por encomenda e full extras. Ficamos chocados com a mulher que vende o corpo por sexo, mas não ficamos tão chocados se vender o feto...

 

Hoje é "trendy" mercantilizar seres-humanos e sob a capa do "trendy" têm sido cometidas algumas atrocidades que nos fazem estar a atravessar uma crise de valores e de comportamentos, mas mais que isso a sofrer de uma espécie de arregimentação pela incapacidade de aliar o bem da liberdade à virtude da tolerância. E aí, Huxley rapidamente nos demonstrou que o resultado desse arregimentação só poderia ser uma grande infelicidade! Eu só espero que comece a ser "trendy" criticar a corrupção e a injustiça, aí sim, deixarei de ser um indivíduo fora de moda.  

 

Finalmente, algumas questões que irei abordar amanhã: nesta sociedade do ter, doa a quem doer e custe o que custar, não estaremos demasiado focados na importância do ter ao invés de nos focarmos na mentalização do não ter? Do saber viver sem ter? Poderão também dizer que é egoísmo da minha parte, mas quem é o egoísta? Não faltam crianças em dificuldades no mundo inteiro e se formos por aí, há muito que superámos a capacidade de carga do planeta, pelo que se dispensam mais seres-humanos, já em 1798 Malthus o dizia no seu "Ensaio Sobre o Princípio da População". Passaram mais de 200 anos e ainda nos custa pensar nisto... Além de que, por muito que não queiramos ver, cientificamente, a sobrepopulação é uma das grandes ameaças ao futuro da Humanidade.

 

 

 "Trendy": algo que está na moda. Algo que é forçoso que esteja na moda...

 

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As Férias de um Condenado….

por Robinson Kanes, em 05.07.17

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Andrea Mantegna - São Sebastião (Museu do Louvre)

Fonte da Imagem: Própria

 

Quem nunca reparou que na fauna lusitana, em certos territórios, sempre que alguém vai de férias é como se tivesse cometido um crime de lesa-pátria? Experimentem ir de férias fora dos meses de Julho e Agosto e preparem-se para sentirem na pele a dor e a ostracização laboral e agora social!

 

Independentemente da opinião que tenha do Primeiro Ministro de Portugal, esta abordagem não visa tecer juízos do mesmo, mas nomeadamente de uma situação em particular: as férias. Não vou também tecer comentários em relação ao timming em que as mesmas ocorreram mas sim à quase impossibilidade de muitos hoje tirarem férias sob pena de serem destruídos pelos colegas... Pelo menos até os colegas irem de férias... Será interessante perceber se, em Julho e Agosto, quando estivermos de papo para o ar a fritar e a tirar fotos aos pés com o mar em fundo( que é uma coisa sempre digna de ser ver) nos vamos lembrar que o Primeiro-Ministro vai estar a trabalhar...

 

Isto leva-me a muitas conversas que fui tendo com vários indivíduos, porque de facto, para muitos começa a tornar-se um pesadelo tirar férias! Para os outros, quando vamos de férias nunca é uma boa altura! Para alguns ir de férias é deixar o caminho aberto para que venha daí uma a duas semanas em que os colegas vão apontar as culpas de tudo o que possa correr mal ao ausente! Chegar das férias é outra tortura, pois temos que criar um processo defensivo de todos os ataques feitos naqueles dias. Confesso que nunca me deixei abalar por essa situação, no entanto, são cada vez mais os casos em que as pessoas se sentem culpadas por irem de férias!

 

Poderão existir várias explicações:

  • o nosso egoísmo e uma espécie de umbiguismo - "ai aquele malandro que foi de férias e agora tenho de levar com o trabalho dele" - no entanto, esquecemo-nos que também nós teremos de gozar férias e ao malandro calhará esse ónus.
  • a nossa herança de sermos "mulheres de soalheiro" - "aquele está sempre de férias, não faz nada todo o ano e nós ficamos aqui a trabalhar, mas deixa que eu digo-lhe, quando chegar que se amanhe".
  • a inveja - "olha agora, aquele vai de férias e eu aqui a trabalhar, não sei de onde é que vem o dinheiro".
  • maldade - "vai de férias e deixou tudo por fazer, deixa que quando o patrão souber. Olha diz ao X que ninguém sabe disso, liguem-lhe, está de férias que atenda".

Existem pessoas que entram em depressão por irem de férias! Honestamente, isso para mim de férias tem pouco. As férias fazem bem, ajudam-nos a desligar do trabalho de outras coisas que é necessário desligar! As férias promovem o convívio familiar, o tempo com amigos e além disso são (ou devem ser) uma fonte de bem estar e aprendizagem! A paragem faz falta e o retorno no bem-estar e na motivação é latente e consequentemente com impactes positivos no trabalho, sobretudo no trabalho em equipa... Em equipa...

 

E quem nunca foi de férias em Setembro e teve de ouvir o típico "outra vez", como se toda a gente fosse de férias em Julho e Agosto e aquele preguiçoso metesse mais uns dias em Setembro! Quem assim pensar, sugiro que procure um novo emprego, ou abra os olhos para o mundo. Tudo isto recorda-me aqueles indivíduos que não conseguem conceber que uma larga camada da população trabalha ao fim de semana e que o empregado de mesa (que lhes atura o mau feitio) ou o senhor do posto de combustível não estão ali por passatempo.

 

Bom trabalho, e se for caso disso, boas férias.

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O Calvário da União!

por Robinson Kanes, em 28.03.17

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 Jacopo Bassano, O Caminho Para o Calvário (The National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria

 

Existe algo que sempre me inquietou no seio da União Europeia e que são, nada mais nada menos, que os partidos antieuropeístas!

 

Sun Tzu, no capítulo sobre os Pontos Fortes e os Pontos Fracos dizia: “não repitas tácticas que deram uma vitória, deixa antes que os teus métodos sejam ditados pela infinita variedade das circunstâncias”. Quero acreditar que é por isto que partidos com assento no Parlamento Europeu gritam pelo fim da União Europeia mas de lá não arredam pé.

 

Tenho muitas criticas à União Europeia, sobretudo em alguns moldes que a sustentam bem como pela falta de liderança e competência que tende a apresentar nos seus líderes. Contudo, a Europa, ou melhor... a União Europeia continua a ser dos locais mais aprazíveis da terra para se viver e essa é uma realidade inegável!

 

Se podemos e devemos mudar a União Europeia? Sim, façamo-lo e rápido, mas sabotar esta instituição levando a mesma à sua extinção é no mínimo caricato... e sou dos primeiros a admitir uma profunda crise nesta instituição.

 

Poder-me-ão explicar que ter assento parlamentar na União Europeia é uma forma de defender valores deste ou daquele movimento mas... e tomemos um exemplo simples, fará sentido que eu me encontre a trabalhar numa organização que me paga o salário e me dá benefícios singulares e depois venha manifestar-me contra o fim desta, porque simplesmente tem de acabar?

 

Uma das maiores lições da União Europeia e que prova a superioridade desta sobre extremismos de esquerda e de direita é a forma como aceita estes mesmos extremismos no seu seio, mesmo sabendo que tais extremismos podem ser o seu fim. São estes extremismos que criticam a Presidência de Trump, mas procuram, diariamente, acabar com esta instituição. São estes extremismos que alertam para um renascer do fascismo mas praticam o comunismo elevado ao expoente máximo do totalitarismo e vice-versa.

 

O actual bode expiatório é a moeda única e ao invés de se articularem políticas monetárias que levem a uma saída da crise o objectivo é a destruição e, mais uma vez, cito Sun Tzu: "por isso, na guerra, deve evitar-se o que é forte e atacar o que é fraco”.

 

Talvez o fim último destes movimentos não seja a paz interna nem externa mas sim o caos e o alimento de uma elite que procura o seu espaço para governar a seu bel-prazer, contudo sem uma solidez que dê garantias de sucesso e estabilidade, já dizia Sun Tzu, agora no capítulo dedicado ao estabelecimento de planos: “toda a guerra é baseada no engano”. Estes espectáculos distratores são um sublinhar das palavras do sábio.

 

No caso português, continuamos a deixar passar situações gravíssimas e também a beneficiar das mesmas, quer do ponto de vista da justiça, quer do ponto de vista social, democrático e legal, mas como sempre... a culpa está lá fora, em Bruxelas. Está lá fora em Bruxelas, porque continua a enviar dinheiro a rodos, mas agora quer algo em troca e isso é algo para o qual ainda não estamos talhados... “Mas um reino que foi destruído nunca pode renascer, nem podem os mortos ser ressuscitados”, também o disse Sun Tzu no capítulo dedicado ao ataque com fogo.

 

E nós, continuaremos a permitir a destruição do reino só porque continuamos adstritos a uma sede de poder e de dinheiro? E estaremos preparados para viver com as dificuldades inerentes a uma saída do Euro e até da União Europeia? Mais do que nunca, os discursos libertadores e "amigos" do povo são dotados de uma falta de competência dos seus arautos e colocam-nos alerta para aquela igualdade, e agoro recorro a Orwell, em que todos são iguais, mas uns serão mais que os outros...

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