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Do Park Güell ao Cosmopolitismo de Gràcia...

por Robinson Kanes, em 14.05.18

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

 

Prometi para esta vez um percurso mais turístico. Sem sair do "L’Eixample" deixo a "Ausiàs March" ou até a empresa na Avinguda Diagonal para rapidamente chegar à Sagrada Família! Para mim nunca foi um lugar propriamente especial, além das suas eternas obras me causarem alguma estranheza.

São também célebres as palavras de George Orwell acerca da fealdade da infraestrutura e a estranheza  pela mesma ter sido poupada por Franco durante a Guerra Civil Espanhola. Para mim sempre foi um local sem grande chama, se é que o podemos dizer, isto já para não falar nos cafés e restaurantes caros em torno do mesmo, um pouco como em Roma junto ao Coliseu.

 

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Daqui as opções são várias e uma delas pode ser o "Park Güell" em "La Salut". Pessoalmente, é um percurso que dá gosto em fazer a pé, embora admita que muitos não estão para isso. Também admito que gosto do movimento da "Carrer de Sardenya" e até do próprio ar cosmopolita que já vem de Gràcia. Prefiro o "Park Güell" aberto ao público. Não é que se consiga fugir das multidões mas podemos apreciar alguns momentos mais tranquilos, além de achar que o parque se visita bem e se consegue apreciar a obra de Gaudi sem pagar bilhete.

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Quando estamos de frente para a porta do parque, nada como virar à esquerda, seguir a estrada e subir a escadaria que nos levará ao interior do parque. Aí tudo muda… Começamos a subir e a ver uma outra Barcelona diferente daquela que já falei aqui e aqui, só a título de exemplo. Vislumbramos uma Barcelona para o mar, encontramos o "Tibidabo" e ainda conseguimos visualizar um pouco do parque. É a Barcelona cosmopolita que vemos daqui desde Gràcia até ao mar… Para uma primeira visita a Barcelona, ou até para um regresso, acredito que este miradouro é o local ideal para iniciar uma visita - é aqui que conseguimos captar muito do espírito da cidade.

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Se adicionarmos a este panorama um pôr-do-sol único, mais um daqueles que o Mediterrâneo tanto nos dá, temos o dia perfeito na cidade. Paremos pelo miradouro, respiremos a cidade, sintamos o contágio que vem do mar até nós. Fiquemos por aí um pouco… Segue-se a descida, e nada como percorrer a área gratuita do "Park Güell" e apreciar o próprio parque, acredito que conseguirão ver muitos dos pormenores mais interessantes do mesmo e poupar uns euros.

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Vamos descer? Pois passemos pela "Casa-Museu Gaudí" e desçamos a Gràcia bem pelo centro, atravessando a "Carrer de Montmary"  e transpondo a "Travessera de Gràcia"! Aqui é importante aproveitar bem a zona e o bairro antes de entrar na zona mais in. Ambas se podem combinar, aliás, o que faria era visitar uma e depois a outra, mas quando se vive ou se passa uma grande temporada na cidade tudo isso é mais fácil. 

 

E eis que chegamos ao "Passeig de Gràcia"! Uma nota... De facto, o caminho mais apetecível é o "Passeig de Gràcia", no entanto, ignorar ruas e respectivas transverssais da "Carrer de Pau Claris" e visitar o "Museu Egípcio" ou até o "Centre Català d'Art"... Em suma... Quanto mais nos perdermos no emaranhado de ruas, melhor!

 

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Mas vamos para a "Plaça Joan Carles I" e iniciemos a descida pelo "Passeig de Gràcia" e rapidamente encontraremos do lado esquerdo a "Casa Milà", também conhecida como "La Pedrera". Só conheci este espaço por fora, foram muitos aqueles que em Barcelona me aconselharam a não visitar a mesma por dentro e, pelo que tive oportunidade de procurar, não me arrependi. No entanto, cabe a cada um decidir. A própria história é interessante, na medida em que o primeiro proprietário da mesma assumiu ter ido parar à miséria devido à extravagância "gaudiana". Exteriormente é apetecível e merece o nosso olhar, mesmo que por segundos. 

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Nesta rua já se sente a fervilhar a Gràcia em toda a sua força com os cafés, as lojas, as gentes a dominarem a atmosfera daquela zona. Estamos na Catalunha, mas não deixamos de estar em Espanha onde facilmente encontramos estes ambientes. Levantemos os olhos e apreciemos os diferentes edifícios que se estendem ao longo do bairro e não esqueçamos a "Casa Vicens" e a "Casa Fuster" com o seu café vienense... Não poderia deixar escapar esta, mesmo que o café e um mimo doce fiquem para lá de um orçamento mais contido.

 

Com as energias repostas, pois já cai a noite e até vos convido para jantar em casa, pois lembram-se do meu amigo do Bon Preu? Temos um "rape" com açafrão e leite de coco à espera! No entanto, não podemos deixar de continuar a apreciar esta elegante rua e passar pela "La Manzana de la Discòrdia". Este é mais um daqueles espaços em que o exterior preenche a visita. Aqui podemos apreciar os três arquitectos que estiveram na sua construção, nomeadamente as esculturas e a cúpula de Domènech i Montane, as esculturas nas janelas e os vitrais da entrada de Puig i Cadafalch e finalmente algumas das influências de Gaudì que saltam bem à vista mal olhamos o edifício. Deixamos para amanhã a "Fundació Antoni Tàpies"? Pois bem, vamos então descer até à "Plaça Catalunya" e a apreciar os edifícios modernistas... Viremos para "Urquinaona" onde chegaremos a Ausiàs March - já nos acenam para jantar!

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Memórias de Ausiàs March e da Barcelona Gipsy Balkan Orchestra...

Pelo Passeig Lluís Companys até à Torre Agbar...

Da Cascata da Ciutadella até ao Port Olímpic com Mompou...

Barceloneta, Onde Fica o Coração...

Pelo Port Vell até Drassanes...

De Montjuïc te Contemplo...

Pela Rambla... Contagiado pela Imensidão de Gente!

Pelo Barri Gòtic: Da Plaça Reial até à Plaça Sant Jaume.

Pelo Barri Gòtic: Da Plaça Catalunha até à Catedral e à Plaça del Rei!

Pelo Barri Gòtic: Da Pintura de Picasso ao Palau de la "Musica Catalana"...

 

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Será que me Amaste?

por Robinson Kanes, em 26.10.17

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Fonte da Imagem: Própria.

 

 

O "meu" artista de rua não só tem inspirado a minha pessoa a escrever por aqui como a pensar nas coisas como elas são ou não são. Depois de me ter feito pensar em quem somos nós daqui a 365 dias, trouxe-me uma nova inquietação que até surgiu nesse mesmo artigo.

 

"Será que me amaste?" Quantos de nós já não colocamos essa questão? Aliás, será que já colocamos mesmo a questão a nós próprios, uma espécie de "será que te amei?". Oui, tout est simple. Ce sont les hommes qui compliquent les choses, talvez seja eu que esteja a complicar e a desafiar as palavras de Camus (Vide o ensaio "Entre o Sim e o Não"), mas será algo tão subjectivo também descomplicado...

 

No campo das relações amorosas quem é que nunca colocou essa questão? Quando as relações terminam equacionamos sempre se outrem nos amou e aí entramos naquela questão de que o amor até pode existir mas termina, não tem de ser eterno. Mas poucas vezes questionamos se nós amámos. Na verdade, o fim de uma relação, ou melhor, o choque do fim de uma relação pode ser aligeirado se reservarmos um momento de introspecção e equacionarmos que provavelmente nunca amámos. A revolta e o choque devem-se ao abalo num certo egoísmo da nossa parte porque foi o outro que colocou um ponto final na relação e não nós.

 

Podemos sempre dizer que não concebemos estar com alguém sem a amar, mas na realidade, quando experimentamos o "amor" ou aquilo que lhe quiserem chamar, começamos a perceber que provavelmente tudo não passou de uma mera paixoneta ou de uma pressão social ou até de um certo comodismo. Quantas vezes o "primeiro amor" é aquela coisa que... daqui a dois meses já não nos diz nada?

 

Actualmente, quando conhecemos alguém, a primeira coisa que queremos saber é o que faz e um outro sem número de pormenores que pouco têm a ver com... Amor. Mas o amor vem depois, dirão... Mas será que o amor está sujeito a critérios materiais ou de status? Não é o amor desprovido de tudo isso? Como é que podemos dizer que amámos quando esses critérios são tidos em conta? E sim, já disse que o amor pode ser algo químico, físico, completamente normal sem nenhuma aura especial, ou pode até não existir, mas... Mesmo assim, tal processo estar condicionado a factores externos tem algo de falacioso.

 

Será que ao convidar aquela executiva de topo, ou melhor... Será que ao convidar aquela administrativa que ambiciona ser executiva de topo para aquele jantar romântico num local fantástico (nunca percebi porque também têm sempre de ser caríssimos) e de repente dissermos que ao invés de sermos "Specialist in Account Management of Multiple Projects in Different Departments and Internal and External Procedures and Evaluation Standards" (em suma, vendedor), somos serventes ou trabalhamos numa empresa de limpezas (no terreno) vai resultar? Será que é um bom começo para começarmos a amar?

 

Recordo-me agora de um amigo, que já não está entre nós, que quando saía à noite para conhecer pessoas - quem quero eu enganar? Miúdas, conhecer miúdas - levava sempre o seu Seat Marbella com mais de 20 anos e deixava o automóvel topo de gama em casa. Dizia ele que assim filtrava as oportunistas e encontraria o amor.

 

Acabei por me debater em questões distintas, mas independentemente de tudo, as questões que não devemos evitar são de facto estas: Será que me amaste? Será que amei? Talvez a resposta seja simples, nós é que complicamos.

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E Quem Serás Tu?

por Robinson Kanes, em 19.10.17

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Fonte da Imagem: Própria. 

 

Esta é a pergunta que te coloco! Esta talvez seja a pergunta que me prende na esperança de mais 365 dias de vida contigo. Também é o dilema que me atormenta se, daqui a 365 dias, ainda sentirei a tua presença pela casa, pelo carro e até nos meus pensamentos... Nesses malditos pensamentos onde entraste e eliminaste toda e qualquer memória, onde foste rainha e ninguém escapou à tirania da tua sedução...

 

Mas o amor não dura para sempre... O amor, esse maldito subterfúgio da sociedade para nos tornar mais moles ou para colocar em nós algo surreal que, no fundo, não passa de uma característica física que, não tendo forma, passaria despercebida e desse modo perderia todo o nosso interesse. Vergílio Ferreira, no seu "Conta-Corrente", debruçava-se sobre o facto de "se não há amor como o primeiro, porque é que ele não é o último?". Será pois o amor algo que morre com a primeira decepção, com o primeiro fim... Com a primeira separação. Talvez só amemos por momentos e nunca mais voltaremos a amar, talvez a nossa capacidade de memória seja absorvida nesse primeiro amor, no entanto, a natureza é mais forte e faz-nos deixá-lo... 

 

Encontro-me contigo quando dizes que "as pessoas não foram feitas para estarem juntas toda a vida" e tento, apesar da minha frieza, destruir o teu argumento, mesmo que equacione se é mesmo nisso que acredito. Recorro à premissa de que existem casais que vivem juntos para sempre mas... Escamoteando a realidade, ou percebemos que foi a habituação,  ou a pressão dos pares, a pressão da estabilidade e até uma educação ainda alicerçada em muitos ditames religiosos que até o mais profundo ateu absorve. 

 

Será que me amas? Será que para ti não existiu amor como o primeiro e agora vives rendida à vida até que a morte te retire deste marasmo em que o amor já não existe? Questiono-me sempre pensando em quem serás tu daqui a 365 dias... Se serás mais uma experiência do amor, se uma experiência da crua realidade que insistes em inscrever na tua bandeira de que um homem e uma mulher jamais se amarão para sempre. Talvez projecte os meus pensamentos em ti, ou talvez os mesmos se encontrem e só reconheçam, efectivamente, que o amor eterno é uma obra literária para quem não consegue aceitar as relações humanas como elas são.

 

Talvez sejas a face de uma desilusão que por intermédio de mim não desfez a utopia em que ainda acreditava... Quem serás tu daqui a 365 dias ou o que será o amor daqui a 365 dias? Será que já amámos por 365 dias?

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Incêndios: Espanha nas Ruas, Portugal no Sofá.

por Robinson Kanes, em 17.10.17

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Fonte da Imagem: http://www.antena3.com/noticias/sociedad/en-galicia-permanecen-sin-control-siete-incendios-en-situacion-2_2017101759e5ab300cf2e892aa27b566.html

 

Em dia de luto nacional, tenho a sensação que metade ou mais dos cidadãos portugueses não sabe o que significa uma bandeira a meia-haste. Seria interessante que todos percebessem o real significado do luto nacional, quanto mais não fosse para pararem e pensarem... Guardar 10 minutos ou mais do nosso dia para pararmos, desligarmos e reflectirmos é cada vez mais um luxo ou, segundo muitos, uma parvoíce... Tenho todo o gosto em ser parvo (parvus-parvi: pequeno) se isso for ter consciência que sou um ser humano não diferente dos outros todos. Na Era "me" entendo que muitos não compreendam o que acabei de escrever...

 

Em Portugal, país onde somos todos o máximo, continuamos com a cabeça enterrada na areia e não existe a humildade governantiva de assumir um erro e pedir desculpas. Alguém falhou os módulos de "liderança inspiradora", por certo, e também alguém sabe que os estudos de popularidade "martelados" serão capazes de influenciar um povo que continuará a perpetuar a sensação de impunidade de quem tudo acha que pode fazer. Enganem-se os portugueses que pensam que ao votarem estão a eleger alguém que vos represente, pelo contrário, estão a dar poder a outrem para que faça o que bem entender... Basta passar os olhos pelas leis que definem a governação - isto para aferir da importância de sermos cidadãos e principal supervisor de toda e qualquer actividade pública.

 

Por cá, já estamos no momento do espectáculo com as pseudo-celebridades a publicarem mensagens e a gravarem vídeos nas redes sociais perante tamanho choque. É que isto de ser solidário ou estar chocado com qualquer coisa é bom, desde que tenha projecção nos media, caso contrário não merece a pena - a propósito, ainda ontem num velório, tive oportunidade de ver uma das pseudo-celebridades (ligada à música e que anda sempre em campanhas para ajudar as criancinhas e os pobrezinhos com o irmão) completamente fria e tentando espectacularizar, perante o espanto dos presentes, a morte daquele que nos tinha ali trazido. Mas em Portugal luta-se, ou faz que se luta, no conforto do sofá, a partilhar fotografias, ou a arriscar morrer queimado dentro de um carro enquanto se filma a tragédia a troco de uns momentos de fama... E obviamente, também a escrever textos como este. Desliguem a televisão e a internet e procurem aqueles que combateram os fogos por estes dias, aqueles cidadãos, bombeiros e não bombeiros, que fizeram tudo para acabar com esta calamidade e deem um abraço a essas gentes, sem partilhas e selfies, mas apenas com as emoções verdadeiras que nos tornam melhores humanos! Os heróis são esses e não os heróis covardes que depois da tempestade, espreitam, saem do seu canto e se juntam às celebrações...

 

Todavia, em Espanha, as coisas têm sido diferentes - o povo saiu à rua, exigiu responsabilidades e obrigou a um esforço das autoridades na justificação das suas acções e a estarem próximas das populações. Em Espanha não se anda à procura de raios nem de tempestades e claramente já se assumiu que existe mão-humana nos incêndios. Em Espanha existe uma preocupação extrema com a questão natural/ambiental e com a situação económica das populações e empresas, as pessoas assim o exigem, porque esperam resultados concretos e não um abraço ou uma fotografia com Rajoy ou com Filipe VI. Em Espanha, até os media estão sob o jugo da população e de entidades reguladoras que já pediram demissões pelo facto de muitas coberturas aos incêndios serem tendenciosas ou desprovidas de tudo aquilo que deve ser o jornalismo! Em Espanha já se pensam em alterações ao Código Penal. Em Espanha até pelo "fim dos fogos" em Portugal se manifestaram, isso deveria envergonhar-nos!

 

... Em Portugal, apenas se pede que se saia à rua e se faça alguma coisa acerca do referendo da Catalunha, ou para pedir progressões automáticas de carreira (mesmo que não se faça nada para o merecer), ou para ir para a praia, porque isto de exigir um país digno desse nome, dá muito trabalho não traz "likes" e carros topo de gama na garagem. Que venha a febre do Natal bem depressa, para não nos dar tempo de pensar no essencial...

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 Peter Paul Rubens, A Virgem - Musée du Louvre

Fonte da Imagem: Própria.

 

Uma das tendências, perdão, "trends" (Portugal está na moda mas a língua portuguesa não, esqueci-me desse detalhe) para muitos é utilizarem os filhos como arma de arremesso contra tudo e contra todos.

 

Para estes, ter filhos passou a ser um estatuto tal que quem não os tiver perde o direito de opinião ou, em alguns casos, à própria vida em sociedade - eu já fui filho, já tomei conta da minha sobrinha e sou tio de mais dois! Apesar disso, o melhor do mundo são as crianças, pelo que são aceites gritos, correrias, faltas de educação, é aceite não conseguir estar num restaurante e um outro sem número de privações de direitos porque são... Apenas crianças. Eu fui criança e não me era permitido incomodar quem quer que fosse.

 

Ter filhos é um direito (para alguns uma obrigatoriedade e eu diria até um patamar de status), não tê-los é uma afronta à sociedade, sobretudo se ao invés de um filho tivermos, por exemplo, um cão! Com este dilema lido todos os dias... "Como é possível ter um cão e não ter um filho, não gosta de crianças!". Já me aconteceu ver um cavalheiro com o filho a pedir para que eu me retirasse de uma zona pública com o meu pastor-alemão. Utilizava o argumento de que era um cão perigoso e de grande porte, isto enquanto a adorável criança arremessou duas pedras ao cão (não acertou) e o mesmo ficou sereno... Espero que um dia não precise do pastor-alemão para encontrar ou lhe salvar o filho...

 

Mas uma das questões que mais me agrada é a utilização dos filhos como arma de arremesso contra aqueles que queremos criticar ou denegrir. Amor aos filhos é isso, usar os mesmos como escudo contra aquele indivíduo que não gostamos.

 

Eu entendo que gostar dos filhos é falar do amor pelos mesmos e usar isso contra os outros mas não hesitar em circular a mais de 150km hora com o filho na cadeirinha e o autocolante a dizer "bebé a bordo" ou "cuidadinho vai aqui o meu paizinho" - este último bem mais egoísta e que coloca o filho no lugar de cuidador dos pais. Ou então, amor aos filhos pode ser sempre passar por criticar o "puto Vitor" (hoje em dia Vitor já não se usa, Santiago, puto Santiago ou Mateus) que é "explorado" pelo pai na vinha da família, mas elogiar aquele que coloca o filho na televisão ou explora o mesmo através de um blog... E há quem os explore sem sequer eles aparecerem... E há quem os explore não para ajudar a sustentar a casa mas para se auto-promover e procurar ser aceite por outros seja no mundo virtual ou no mundo real. Amor aos filhos também é dar-lhes um tablet para as mãos disfarçando o "não me chateies" pelo "estou a educá-lo para as novas tecnologias".

 

"Não ande aí com o seu cão, existem aqui crianças" ou "Isto é inadmissível quando há crianças que podem ser influenciadas", ou ainda "esta gente não tem respeito nenhum pelas crianças" ou "desampare-me a loja, mas como não tenho argumento, preciso de fazer chorar as pedras da calçada e influenciar quem me ouve para tomar partido por mim em caso de zaragata, lá vou ter de dizer que é por causa do meu filho e das crianças" são das coisas que mais se ouvem. Isto é o ideal quando existe um grupo de cidadãos com direitos (muitos deles também pais, mas conscientes e sem filhos metidos em bolhas de ostentação)  e nós queremos tirar partido de uma sociedade onde a infantocracia reina e eu tenho todos os direitos e o outro não. É por estas e por outras que defendo sempre a participação do povo na vida pública mas jamais que o poder possa um dia cair na rua.

 

Porque existem bons pais (e muitos) talvez a mensagem seja sobretudo para aqueles que gostam tanto, mas tanto dos filhos que até se esquecem que os mesmos não servem para servir os seus intentos. Começem a falar por vós, mesmo agora que a moda é criticar quem deixa as fezes dos cães no passeio! Eu concordo com a "luta", mas mesmo eu que não gosto, piso muito mais vezes as ditas fezes que muitos. Se andarem por onde eu ando, não só pisam fezes de cão, como de cavalo, bovinos, caprinos e um sem número de bicharada... Até hoje não morri e uma das coisas que o médico disse à minha mãe quando esta me via com as mãos cheias de borbulhas por mexer em tudo o que era porcaria, terra e lixo foi para ela não se apoquentar e deixar andar - nunca tive alergias nem nada que se pareça! E sim: quem tem animais tem também de garantir a higiene pública, e até, em último caso, não dar argumentos àqueles que encontram um "cocó" no passeio mas já dizem que não se consegue circular na cidade - sim, porque por norma são suburbanos (sem ser em tom depreciativo) ou vivem dentro das cidades.

 

Em suma, não tenham medo de dizer o que vos incomoda sem colocar a criança na arena, isso não é gostar do filho, é gostar demasiado de si! Lembrem-se, quando forem comprar brinquedos ou roupinhas caras para os vossos filhos, que os mesmos são, muitas vezes, fabricados pelos filhos de outros. Lembrem-se que quando querem tramar o vosso colega que até vos ajuda, esse também tem filhos para alimentar... Lembrem-se também que quando usam os vossos filhos para ter prioridade, aquele que espera pode ter o filho em casa e que já não vê há dias... É que gostar só do nosso filho, ou utilizar o mesmo contra os outros, ou fazer dele uma espécie de "Rei-Sol" não é gostar de crianças e muito menos ser bom pai e cidadão... É gostar demasiado do seu umbigo, ser egoísta e falso moralista.

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"Ter de Ser é Ter de Morrer".

por Robinson Kanes, em 10.10.17

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Fonte da Imagem: Própria.

 

Ontem escrevi sobre a morte, aliás, penso que escrevi sobre a vida... Tentei rondar algumas das minhas inquietações, colocando o "nós" perante a morte como um não "nós", como um nada, pelo menos enquanto humanos. Procurei, com base numa abordagem mais literária e cientifica, trazer a importância do Homem no quadro do seu destino e de como este ainda não percebeu a enorme responsabilidade que lhe foi atribuida, mesmo tendo chegado à conclusão que não é possível delegar a mesma num ser superior para lá de toda e qualquer possível interpretação.

 

Ao reler o texto de ontem fui novamente à procura Levinas (que também serviu de base), mais precisamente ao seu "Deus, a Morte e o Tempo". Voltei a Levinas, talvez depois de reler nos meus apontamentos a sua interpretação do "ter de ser é ter de morrer", frase que resume a primeira parte do meu texto de ontem. Mas Levinas vai mais longe e coloca-nos perante a realidade de que "a fuga diante  da morte é que atesta a própria morte". Será que ao não fugirmos da morte viveremos mais? Será essa uma forma de protelar a nossa morte e viver um dia-a-dia mais tranquilo? Mas será também esse o caminho mais correcto, o de fechar numa gaveta essa realidade que pode ser o próximo instante?

 

Os antigos, e algumas sociedades ainda hoje convivem bem com a morte, mas a esse contexto está agarrado um outro factor que é uma profunda fé (maior parte das vezes) em algo sobrenatural. O homem medieval do ocidente lidava muito bem com a morte, recebia-a tranquilamente e tudo se cumpria num ritual minuciosamente preparado. No entanto, este não tinha dúvidas de que seria recebido nos céus... Aliás, todo o trabalho de fuga ao "inferno" era realizado muito antes de forma a evitar o castigo divino - hoje, no entanto, percebemos que também foi enganado por uma estrutura religiosa.

 

Fui relendo mais umas páginas, cruzando anteriores leituras com a actual e no fundo a conclusão foi óbvia: "a morte não é, então, o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta". É uma fuga constante, de facto, mesmo que não demos conta dela, é o facto dessa possibilidade existir, mesmo que não pensemos nela, daí o nosso choque com a morte fora da "idade para a mesma", talvez influenciados por aquilo que, mais uma vez, Levinas diz e que se resume no seguinte: "fugimos à morte mantendo-nos ao pé das coisas e interpretando-nos a partir das coisas da vida quotidiana". É talvez essa fuga com motivos distractores que nos fecha neste círculo - fugimos sem ter sequer consciência disso, mas estamos nessa fuga constante. Será também essa fuga e permanência perto das coisas da vida que permitem a própria vida como a conhecemos.

 

Mais uma vez, penso que esta reflexão faz-nos pensar no tipo de vida que queremos, naquilo que ambicionamos e nos guia no quotidiano. Talvez isso, apesar de ser uma covarde fuga, nos permite encetar caminhos mais claros, justos e com uma enorme responsabilidade perante nós, perante os outros e a sociedade em geral... Podemos pensar nisto e, no fundo, conservar alguma esperança, pois "não podemos ignorar o nada da morte, mas também não o podemos conhecer". Por estas palavras, Levinas tentará criar aqui uma atenuante ao estado "negro" dessa condição humana e abrir caminho para uma certa fé/esperança, cabendo a cada um interpretá-la de diferentes formas e com isso estabelecer um caminho de vida que lhe permita ser feliz e permitir que os outros também o sejam... Mesmo que sem fé em algo para lá da morte...

 

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Boa Páscoa e Esqueçam as Cruzes!

por Robinson Kanes, em 13.04.17

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Michelangelo Merisi da Caravaggio, A Deposição de Cristo (Museus do Vaticano)
Fonte da Imagem: Própria

 

Pois é, católicos e não católicos e... católicos não praticantes que é a mesma coisa que não católicos mas com o lado bom de ser católico quando dá jeito, especialmente nos feriados.

 

Vem aí a Páscoa e, embora não vá muito à Igreja, confesso que esta época vale sobretudo pelo facto de podermos reflectir e estar com a família ou com aqueles de quem gostamos. Também tendo a pensar no crucificado que nasceu há 2017 anos e nos insistem em dizer que morreu por nós. Se morreu por nós não deve ter servido de muito, até porque o que não falta são cruzes por ocupar e outras tantas que foram sendo ocupadas. 

 

Mas a Páscoa é sobretudo isso e, embora não esteja por terras portuguesas, devo dizer que pode ser um tempo para telefornarmos àquelas pessoas de quem gostamos ou que já nem telefonamos há séculos... eu sei que isso se faz no Natal, mas... porque não na Páscoa? Será porque nesta época não se dão presentes ou porque aquela mensagem não tem impacte:

 

 

 A família Martins deseja a todos os seus amigos uma santa e feliz Páscoa, pois estamos sempre a pensar em vocês, mas só conseguimos comunicar convosco quando aproveitamos a mensagem de felicidades da mãe do Carlos e direccionamos para todos os contactos. Que continuem a ter um bom ano, no Natal, como vossos amigos que somos voltaremos ao contacto.

 

Aproveitem a Páscoa como qualquer outra época, aproveitem-na e vivam-na intensamente. Não pensem tanto na cruz e pensem no modo como o crucificado se pôs a andar e ninguém deu por ele, aliás, até hoje não lhe encontraram o rasto... acredito que terá pensado, certamente, que tinha carregado a sua cruz e que cada qual agora que carregasse a sua - "já me tramasteis muito, mas a mim não me tramais mais".

 

Feliz Páscoa... e até segunda...

 

E a melhor banda sonora para a Páscoa não podia deixar de ser a obra-prima de J. S. Bach: "A Paixão Segundo S. Mateus", bem a propósito. Vale cada minuto das quase 3 horas de duração... mesmo para quem não gosta.

 

 

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E Porque Ainda é Outono...

por Robinson Kanes, em 24.11.16

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 Fonte: Própria

 

 Na verdade, muitos apontam a ausência de luz e o tempo mais frio como causa de depressões - umas mais agudas, outras mais “contemporâneas”.

 

Mas o Outono é sem dúvida a época das cores: imaginem o verde, o castanho, o azul, até a luz solar ganha uma outra entoação particular, tal como o som que emana da chuva. Uma chuva gentil, triste também. Será? Experimentem a raiva da chuva de Inverno e depois falem-me da chuva outonal.

 

Pobre Outono que surge no final do Verão e nem um aplauso recebe por limpar os exageros da silly-season ou então por ser o início de um novo período, quer de trabalho, quer de desafios ou até de conquistas. Não dizem que os amores de Verão não duram mais que a estação? Os do Outono são talvez os mais resistentes. O Outono é o varredor e até o Inverno é mais apreciado, pois apenas apanha as folhas que o Outono deixou e no hemisfério norte ainda tem o Natal para o coroar.

 

O Outono dá cor às nossas telas, inspiração à nossa música, faz-nos dançar com as folhas e gentilmente sentir o chão ao pousarmos e a esvoaçarmos novamente, como as aves que partem para destinos mais quentes. O Outono é arte e não é por acaso que existem lugares neste Portugal e não só, onde o Outono é a época mais bonita do ano: pensem no Douro, no Alentejo ou então vamos até à Toscânia ou deixemo-nos prender pela paisagem de Santorini enquanto bebemos um café grego (aquilo para mim é café turco, mas pronto) e admiramos os telhados azuis. O Outono é talvez a mais poderosa e artística estação nos países do mediterrâneo.

 

Pensemos no Outono de Vivaldi, onde este entra com toda a pompa e circunstância por trazer a luz que o Inverno vai apagar, por nos inundar de cores. Um privilégio e a música isso o revela.

 

O Verão apenas se estende no Grand Canal (imaginem Veneza nessa altura) e absorve o que de bom todas as outras estações lhe deixaram, não vive o desafio da conquista e exala em toda a sua expressão numa musicalidade tranquila e de paz.

 

O Inverno vem com toda a sua força. Senão vejamos o som do violino a alternar com o suspense das demais cordas. É forte, poderoso e transporta-nos para uma guerra entre a luz e as trevas revelando contudo toda a sua suavidade e delicadeza de quem tem de lutar pela luz na escuridão.

 

Mas o Outono é a mais airosa das estações, na sonoridade, no glamour e romantismo com que entra em cena, à descoberta e trazendo uma vontade única de desafiar a herança do Verão. Em Novembro quase que se deixa finar. Muitos são aqueles que encaram até o Inverno como a incapacidade do Outono para segurar a luz e a força do Verão. Mas, se ouvirmos as notas finais de Vivaldi, vamos perceber que é simplesmente o adormecer de uma época dourada cuja duração no tempo tem de ser controlada sob pena de não resistir à gula da Terra e dos seus Seres. E é nessa alegria que se despede e dá lugar ao Inverno.

 

Já agora, cá fica a banda sonora...

 

 

 

 

 

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